quinta-feira, 30 de setembro de 2010

NUESTROS HERMANOS

Eu estava em plena crise de abstinência de cinema argentino. Este ano ainda não tinha visto nenhum filme dos nossos vizinhos. Por isto, corri para a pré-estreia de "Dois Irmãos" que rolou ontem aqui em São Paulo (entra em cartaz dia 8 de outubro). Já assisti a vários outros títulos do diretor Daniel Burman, mas só gostei de um para valer: "O Abraço Partido", de 2004. Agora posso dizer que gostei de outro. "Dois Irmãos" é uma comédia dramática sobre, aham, dois irmãos na casa dos 60. Ela é meio vigarista, sempre metida em negócios mal explicados. Ele é uma tia velha que desperdiçou a própria vida porque nunca teve coragem de se afastar da mãe. Quando a velha morre, os dois têm que resolver antigas pendengas. Mais uma vez me maravilhei com essa qualidade do cinema dos hermanos de criar personagens que a gente conhece na vida real. "Dois Irmãos" tem algo de melancólico, claro - envelhecer não é fácil - mas também é divertido. Os veteranos Antonio Gasalla (que eu vi no palco na primeira vez que fui a Buenos Aires, em 81) e Graciela Borges deitam e rolam como o casal de protagonistas. Como em outras películas onde coincidem diretor e roteirista, aqui também a duração é excessiva. Parece que Burman não teve coragem de cortar nada. Mas depois de tantos filmes com efeitos especiais, é bom lembrar que nada é mais espetacular do que o próprio ser humano.

BEIJA-NÃO-BEIJA


Atenção, cúpula da Globo: é assim que se faz um beijo gay na TV. Desde que estreou há mais de um ano que a série "Modern Family" - que venceu o Emmy de melhor comédia - vinha sendo cobrada por não apresentar um beijo entre seus personagens homo. Que finalmente aconteceu ontem, mas não sem antes os roteiristas provocarem o público a todo instante e ordenharem o suspense até a última gota. É agora! É agora! É ag... não foi. Depois de três alarmes falsos (e perfeitamente inseridos na trama), o beijo rola da maneira mais casual possível, em segundo plano, como se não tivesse importância. E não tem mesmo. Parabéns, equipe do "Modern Family": um selinho nas boquinhas de vocês.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

VOTO ÚTIL

Faltam pouquíssimos dias para a eleição e quase todo mundo que eu conheço ainda não tem candidatos para os cargos legislativos. Mesmo quando se trata do Senado, as pessoas só escolheram um postulante - muita gente nem se deu conta de que este ano iremos escolher dois senadores. Deputado, então, nem se fala: eu mesmo não tenho a menor ideia de quem votar para estadual. Andei até fuçando as listas de alguns partidos a que sou simpático e saí desanimado: um amontoado de nomes que não me dizem nada, alguns com apelidos infames, sem proposta alguma. Aceito sugestões.

Para federal já defini. Fechei com o Ale Youssef do PV desde meados de agosto. O cara é hétero, mas totalmente simpatizante à causa gay. Li as propostas em seu site e concordo com todas. Tenho amigos que o conhecem pessoalmente e todos me falam bem dele. Isto porque voto em São Paulo: se fosse no Rio, também faria como vários outros amigos e votaria no Jean Wyllys. Não sou muito fã do PSOL, o partido a que ele se filiou, mas Wyllys também tem uma plataforma consistente e, evidentemente, pró-direitos iguais para o povo LGBT. É sempre bom lembrar que os evangélicos vão eleger milhares de parlamentares, quase todos hostis aos homossexuais. Está mais que na hora de votar para valer e não jogar fora esse direito. Quem vota em gente como o Tiririca é tão analfabeto e palhaço quanto ele.

VOTO A FAVOR

Ontem fui procurar meu título de eleitor, e quem disse que eu achei? Revirei gavetas e armários, apavorado com a possibilidade dele estar na mala de mão que foi roubada junto com nosso carro no Rio, em julho. Há anos que voto apenas com minha carteira de motorista, mas essa nova lei que exige o título e mais um documento me deixou sobressaltado. E agora? Corri para o site do TRE-SP, digitei meu nome, data de nascimento, nome da mãe e pronto: lá estavam o número do meu título, a zona eleitoral, o cartório. Corri para lá na hora do almoço - por sorte, é bem perto de onde eu trabalho. Esperava encontrar uma fila monstuosa, mas ela era mediana e andava rápido. Fui atendido em menos de 5 minutos e informado que a 2a. via sairia na hora. "Na hora" quis dizer menos de 30 segundos: nem deu tempo de sentar e ler o jornal que eu trazia na mão. Fiquei pasmo com tanta facilidade e nenhuma burocracia. Menos de meia hora depois de sair do escritório, eu já estava com o novo título na mão. Continuo achando que o voto não deveria ser obrigatório e que em muitos países sequer existe o equivalente ao título, mas não posso deixar de elogiar a nossa justiça eleitoral. Que bom se tudo no Brasil fosse assim tão ágil.

(Lembrete para quem também perdeu o título: os cartórios eleitorais aceitam até amanhã pedidos de 2a. via, que serão entregues no máximo até sábado. Mais um serviço de utilidade pública deste blog.)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

DANÇA SUJA


O primeiro "Dirty Dancing" se passava num hotel nas montanhas Catskill, no estado de Nova York, e era estrelado por Patrick Swayze. O segundo acontecia em Havana e tinha Diego Luna no papel principal. O terceiro traz Camilla Belle, que tem mãe brasileira, e se desenrola... no Brasil. Calma: "Dirty Dancing - Capoeira Nights" não passa de um trailer falso do site de humor "Funny or Die". Achei inclusive que podia ter rendido mais. Mas não deixa de ser legal perceber que a arte marcial da Bahia - que a rigor nem dança é - está ficando conhecida nos Estados Unidos.

LEITE MOÇA SONORO

O Pato Fu sempre foi uma banda meio infantilizada. Falta neles aquela chispa de malícia que poderia torná-los, talvez, o equivalente do Miranda! no Brasil. O novo disco dos mineiros, então, é uma coisa pré-primária: foi todinho gravado com instrumentos de brinquedo, ou então com aqueles bem basicões, das aulinhas de música de quando éramos pequenos. Tocar desse jeito um repertório com as preferências e influências da banda - que vão de Zé Ramalho ao Pizzicato Five - até que é uma ideia divertida. Infelizmente, o Pato Fu errou na mão. Como um cozinheiro que coloca açúcar demais num doce que já era doce, os integrantes ainda chamaram a própria prole para fazer os vocais de apoio. E olha que a Fernanda Takai tem uma voz gostosa em pequenas doses, mas que em excesso fica logo enjoativa. O resultado é que "Música de Brinquedo" tem gosto de piada interna (confira aqui como ficou "Sonífera Ilha", dos Titãs). O ouvinte ri amarelo, como alguém que é forçado a achar graça nas peraltices dos filhos dos amigos.

AUSTRALIA'S NEXT TO... OOPS

Este talvez seja o maior epic fail do ano. Ontem, na final de mais uma temporada de “Australia’s Next Top Model”, a apresentadora Sarah Murdoch anunciou que a vencedora do concurso era Kelsey Martinovich. Aplausos, risos, lágrimas, o de sempre – até que Sarah foi avisada que a verdadeira vencedora era a outra finalista, Amanda Ware. O constrangimento de todas é enorme, até que a campeã resolve que foda-se, vai comemorar assim mesmo. Mas ninguém se saiu tão bem quando a 2a. colocada, que deu um show de elegância. E o final feliz é que Kelsey não saiu de mãos abanando: como prêmio de consolação, levou uma viagem para Nova York e 25 mil dólares. E viva a TV ao vivo.

ACHO QUE EU MUDEI TAMBÉM

Silas Malafaia era o principal empecilho para o meu voto em Marina Silva. Como não costumo acompanhar as fofocas do grand monde evangélico, não sabia que esse pastor asqueroso – tido pelo MixBrasil como o inimigo no. 1 dos gays no Brasil – havia deixado em maio passado a Assembleia de Deus, à qual a candidata do PV é filiada, para fundar uma dissidência, a Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Apesar do racha, Silas era cabo eleitoral de Marina até sexta passada, quando chegou a twittar seu apoio a ela. Mas ontem ele mudou de ideia, porque Marina teria proposto plebiscitos sobre a descriminalização do aborto e da maconha no debate da Record, no domingo. A virada de casaca a tão poucos dias da eleição é no mínimo suspeita, porque faz tempo que a pevista defende essas posições. Malafaia agora declara voto em Serra, que aceitou alegremente o apoio do monstro e promete recrudescer nas propostas conservadoras. Que nojooo… E Marina, que neste momento surfa uma marola verde, ficou surpresa com a defecção do antigo correligionário. Mas pode ter ganho outro, muitíssimo menos influente: euzinho.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

FORMIGA ATÔMICA

Hoje recebi por um comentário o trailer do que seria a primeira temporada do seriado "Farme 40º". Digo que "seria" porque, mais de um ano e meio depois de eu ter comentado sua exstência aqui no blog, o projeto continua sem um contrato de exibição. É uma aposta arriscadíssima, mas dá para perceber que a qualidade já melhorou muito. Não tinha gostado nadica dos primeiros teasers postados no YouTube, mas este vídeo aí em cima já tem cara de trabalho profissional. Imagino que todo mundo ainda esteja trabalhando na faixa e que nem haja ainda um piloto completo, mas torço muito, muito mesmo, para que a primeira série gay da TV brasileira saia logo do armário e seja vista nas telinhas. Agora, por que uma lésbica vestida de formiga?

I'M TOO SEXY FOR MY SHIRT

Desfilar pelado na Parada Gay com um cacho de bananas enfiado no rabo não quer dizer muita coisa. Se alguém quiser mesmo declarar sua viadagem ao mundo, é só ser violentamente homofóbico. Além do mais se também for religioso - trata-se de alguém em luta com o que julga serem seus demônios, e que persegue os outros para justificar sua auto-rejeição. Semana passada estourou nos EUA mais um caso de pastor evangélico que condena as bibas enquanto está no púlpito, mas que adora uma luta de espadas entre quatro paredes. Eddie Long, que já tem nome de ator pornô, comanda uma congregação negra no estado da Georgia e sempre pregou o fogo do inferno para os homossexuais. Até que um jovem membro da Igreja o acusou de assédio sexual, e mais outro, e mais outro... E ainda apresentaram as fotos supostamente irresistíveis que o pastor lhes enviava pelo celular para enlouquecê-los de tesão. Como se tanto ridículo não bastasse, o pastor Ted Haggard, que há alguns anos foi pêgo transando com um michê e depois teria se "regenerado", saiu em defesa do colega. E que atire a primeira pedra quem nunca fornicou em Cristo com os irmões do culto.

ÁGUA SONORA

Por quê será que João Donato não é um household name? Por quê que, aos 76 anos de idade e uma longa folha corrida de serviços prestados à MPB, ele não é conhecido e respeitado como seu amigo Tom Jobim? Talvez porque nunca teve um enorme sucesso popular, talvez porque não chegou a gravar com Frank Sinatra. Donato é uma unanimidade entre os músicos, mas quase desconhecido do grande público. Esta situação talvez melhore um pouco - mas só um pouco - com o disco "Água", que ele acabou de gravar com Paula Morelenbaum. Digo isto porque Paula tampouco é uma cantora para grandes plateias: não aparece no "Domingão do Faustão" nem lota o Madison Square Garden. Azar deles, porque "Água" já é um dos melhores de 2010. Paula escolheu 12 canções do vasto repertório de Donato, das mais manjadas às semi-inéditas, e chamou uma pá de jovens arranjadores que não tiveram vergonha de lhes acrescentar efeitos eletrônicos e outras modernices. Mas acima de tudo paira o piano do próprio compositor, que é nada menos que sublime. Baixe aqui "A Rã", uma parceria com Caetano Veloso e um trailer desse disco delicioso, que matou um pouco a minha sede por boa música brasileira.

TUBAROLVO

Gosto de filme trash que se assume como tal. Por isto, já estou doidinho para ver "Sharktopus", a colossal baboseira que o canal SyFy exibiu nos EUA neste fim de semana. A produção é de Roger Corman, o gênio dos filmes B, e Eric Roberts, o irmão canastrão de Julia, dá um tom grandiloquente ao que é pura bobagem. Cientistas da marinha criam uma arma mortífera, o tal do tubarão-polvo, que evidentemente escapa ao controle e começa a devorar banhistas inocentes. A explicação é o de menos: o que importa é o prazer sádico e infantil que algumas cenas proporcionam, como a da mulher que é arrastada da areia por um tentáculo da fera. Nham nham.

domingo, 26 de setembro de 2010

INIMIGO DE SI MESMO

Hoje é o dia das eleições legislativas na Venezuela, um país que eu frequento desde 2001. Estive lá 12 vezes, sempre a trabalho e sem muito tempo para fazer turismo. Mesmo assim, deu para perceber algumas mudanças na relação da população de Caracas com Hugo Chávez. Nos primeiros anos era nítida uma certa euforia no ar. Lembro de um táxi que eu peguei cujo chofer só ouvia CDs com discursos do presidente, o dia inteiro. Mesmo a classe média não tinha muito do que reclamar: os preços estratosféricos do petróleo proporcionaram um boom de consumo. Os shoppings se encheram de griffes de luxo e as ruas de SUVs importados, movidos à gasolina mais barata do mundo. Ainda assim, houve uma tentativa fracassada de golpe em 2002. Chávez voltou sedento de vingança e passou a perseguir jornais e canais de TV que não lhe eram favoráveis. A oposição fez a cagada histórica de se abster das eleições de 2005, dando ao chavismo o controle absoluto do Congresso. Tudo aquilo que se temia que Lula fizesse - ataques à imprensa, demagogia descabelada, desrespeito às insituições democráticas - Chávez fez gostosamente, quase sem nenhum freio. Ele nunca teve o pudor de jogar pobres contra ricos, coisa que Lula felizmente evitou, e usa a máquina estatal de maneira ainda mais deslavada que o PT. Deu um azar enorme com a queda dos preços do petróleo em 2008. A Venezuela entrou em recessão e a inflação ronda os 30% ao ano, caso único na América do Sul. A violência explodiu no entorno da capital, com corpos decapitados quase toda semana. A seca no começo deste ano esvaziou o reservatório da usina de Guri, essencial para o fornecimento de energia elétrica, mas não foi a única causa dos apagões que continuam a assolar o país. Chávez aparelhou o estado de maneira assustadora, demitindo técnicos de carreira para colocar em seus lugares gente de seu partido sem a menor qualificação. Este é seu calcanhar de Aquiles: o chavismo simplesmente não tem quadros para fazer uma boa administração. Hugo Chávez é extraordinariamente carismático e tem empatia imediata com grande parte do público. Muitas de suas intenções são nobres e inatacáveis: igualdade, justiça social, progresso. Mas como governante é um desastre, um show de incompetência temperado por um caráter autoritário, herdado do ambiente militar onde se formou. Talvez a oposição, ainda tímida e desorganizada, não consiga sequer os 2/5 dos assentos necessários para Chávez não ter carta branca. Mas a popularidade do coronel vem caindo ano a ano e a maior ameaça a seu projeto político são os dissidentes do chavismo, que estão formando novos partidos. O maior inimigo de Hugo Chávez está dentro do palácio: é ele mesmo, um mau presidente.

sábado, 25 de setembro de 2010

OS DIAS DE CÃO VOLTARAM

"Nunca trabalhe com cães ou crianças", diz um velha regra do showbiz. "Você sempre será ofuscado". É exatamente o que aconteceu com o OK GO, que recheou de totós mais um de seus vídeos com coreografias elaboradíssimas, sempre gravados num único take. A gente só presta atenção nos bichos - além do mais porque a música "White Knuckles" é bem sem-gracinha.

A GANÂNCIA É MAIS OU MENOS

Está diminuindo cada vez mais o tempo entre um fato histórico americano e o filme de Oliver Stone sobre este fato. "Torres Gêmeas" foi feito apenas 5 anos depois dos atentados de 11 de setembro; "W", a biografia de George W. Bush, foi lançado quando este ainda era presidente; e agora chega "Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme", apenas dois anos depois da eclosão da crise que ainda corrói a economia dos EUA. O filme original, de 1987, marcou época e deu um Oscar a Michael Douglas. Seu Gordon Gekko era um réptil voraz - não por acaso, "gekko" é um tipo de lagarto - e sua frase "greed is good" (a ganância é boa) entrou para o vocabulário popular. A continuação chegou em hora apropriada, porque a ganância só se generalizou nesses anos todos. Mas Stone desperdiçou a chance de fazer um grande filme. Gordon Gekko, que passou 8 anos na prisão e perdeu um filho para as drogas, agora é um mistério: num momento parece redimido, no outro é o mesmo crápula de antes. É um personagem mais confuso do que complexo. Na verdade, o filme pertence mesmo a Shia LaBoeuf, que é um ator tão bom que chega a ficar bonito. Faltou humor e cinismo a este "Wall Street 2". O final é tão piegas que só faltou os atores se darem as mãos e começarem a cantar "Depende de Nós".

I AM YOUR AUTOMATIC LOVER

"SuperLub reduz a fricção". Fofo de doer esse anúncio de lubrificante, presentinho do Celso Dossi para o meu blog.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O MUSICAL DO CRIOULO DOIDO

Tenho visto uns musicais bem ruinzinhos por aí, que tentam reproduzir a Broadway sem atores talentosos nem dinheiro na produção. São tão mambembes que nem mereceram post aqui no blog. Achei que ia lavar a alma com "Orfeu", o primeiro trabalho em parceria de Tom Jobim e Vinícius de Moraes e um marco na história da MPB. A peça rendeu o filme "Orfeu Negro", do diretor francês Marcel Camus, que venceu o Fetsival de Cannes e o Oscar de filme estrangeiro de 1959 - uma tremenda façanha. Depois ganhou uma nova versão para o cinema em 1999, assinada por Cacá Diegues. Mas, se não me engano, nunca havia sido remontada no Brasil, desde a estreia em 1956. Fiquei todo assanhado, ainda mais porque agora é dirigida por Aderbal Freire Filho, um cara que entende de teatro. E meio que me decepcionei. O espetáculo (que já passou pelo Rio, está em SP e vai rodar o Brasil) moderniza, amplia e acaba por adulterar o texto original. A trama nada mais é do que o mito grego de Orfeu e Eurídice transposta para uma favela carioca: natural, portanto, que ganhe menções ao funk e ao tráfico de drogas. Mas Aderbal foi além. Criou um poeta-narrador que não existia, para personificar Vinícius. Enxertou um monte de clássicos da bossa nova que não constavam da partitura, como "Água de Beber" ou "Chega de Saudade". E montou um elenco cujo critério de seleção parece ter sido a beleza física. Érico Brás e Aline Nepomuceno, o casal de protagonistas, são uns tesões absolutos, mas quando abrem a boca... Os demais atores, todos negros, até que mandam bem, com destaque para a estonteante Isabel Filardis como uma entidade do mal. Mas cenários e figurinos são simplórios para um palco tão grande, e ficam bem aquém da direção musical de Jacques Morelenbaum. O resultado é tão confuso que, se eu não conhecesse a história, ia achar que se tratava de um meta-ensaio de carnaval onde todo mundo atravessa o samba.

A LISTA GAYZISTA

Vem aparecendo em blogs de extrema-direita uma lista com o nome de todos os deputados e senadores atuais que apóiam de alguma forma os direitos iguais para os homossexuais. Segundo seus autores, estes são os políticos em quem NÃO se deve votar, pois são favoráveis à instalação da "ditadura gayzista" no Brasil. É até engraçadinha a tentativa de se criar um rótulo pejorativo para o movimento, que rime com "racista" ou "nazista". Menos engraçada é a desfaçatez com que esses blogueiros afirmam que uma eventual aprovação do casamento gay forçaria todas as religiões a realizarem matrimônios entre pessoas do mesmo sexo. Uma mentira deslavada: nenhum estado democrático têm o poder de influir nos preceitos de uma religião. Tanto que não foi isto o que aconteceu em nenhum dos países onde já existe o casamento igualitário. Mas para essa cambada interessa mais semear o terror baseado em falsidades, sempre se escudando numa suposta vontade de Deus. De qualquer forma, a lista acaba prestando um grande serviço ao revelar quem de fato é simpatizante. Ela vai da esquerda à direita e inclui várias surpresas, como ACM Neto ou Celso Russomano. Ou seja: ali temos, SIM, várias opções em quem votar.

(Essa dica veio de um anônimo. Coragem, rapaz, se revele: não caia no jogo dos radicais)

A CARLA BRUNI BRASILEIRA?

Acabo de chegar de um jantar bem animado, numa mesa com vários artistas. Lá pelas tantas, uma conhecida atriz carioca soltou o seguinte potin: "Repararam como a D. Mariza anda sumida? Pois é, o Lula só está esperando a eleição passar para assumir a Luiza Brunet". O restaurante veio abaixo. "Ela vai ser a Carla Bruni brasileira!". Será? Essa fofoca vem circulando desde o início do ano, e a própria Luiza até já deu uma entrevista dizendo que ela e o presidente são apenas bons amigos. Mas a tal da atriz diz que tem fontes seguras. Mel dels... Se for verdade, então realmente não há nada que segure o homem. Já pensou? Luiza Brunet! Isso é que é troféu, não aquela merreca do Oscar de filme estrangeiro.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

VAI UMA LARVA AÍ?

Por quê não comemos insetos? Eles são baratos, abundantes e ricos em proteínas. Mas temos nojo deles, o que muitas vezes é injustificável. Um gafanhoto, por exemplo, só come grama e é muito mais "limpo" do que um camarão, que come tudo que é merda no fundo do oceano. Esse preconceito é típico da cultura ocidental. Em muitos lugares da África, da Ásia e das Américas os insetos são verdadeiras iguarias. No México, por exemplo, os gusanos de maguey - larvas que vivem entre as folhas do agave, o mesmo cacto azulado de onde se produz o tequila - servem de recheio para tacos e enchilladas. Experimentei uma vez e posso garantir que não é pior do que escargot. Passada a repulsa inicial (por causa da aprência de comida bichada), o sabor até que não é ruim. Aliás, nem precisamos ir tão longe: a farofa de içá, um tipo de formiga, era comum na cozinha mineira.

Semana passada o chef Phil Ross promoveu um jantar-degustação insetívoro no restaurante Brooklyn Kitchen, em Nova York. A 85 dólares por cabeça, os convivas puderam saborear um ceviche de grilos, um tira-gosto de larvas vivas e até mesmo um sorvete de baunilha com cobertura de larvas grelhadas (as fotos do festim estão aqui). Todo mundo adorou. Uma mulher que tem fobia a animais foi lá justamente para superar seus medos, e saiu se sentindo vitoriosa. E magra: a culinária entomológica é de baixa caloria. Quem se habilita?

ESCOLHERAM O PÉ-FRIO

Estou pasmo com a indicação de "Lula, o Filho do Brasil" para representar o cinema nacional no Oscar de filme estrangeiro. Não acho que tenha sido uma escolha política: o júri, que é formado por gente respeitadíssima no meio cinematográfico e sem rabo preso com o governo, decidiu por unanimidade. Isto quer dizer que acham que "Lula" é mesmo um grande filme e, que tem chances de faturar um dos prêmios mais importantes do mundo. Verdade que a concorrência estava bem fraquinha: dos que eu vi, o melhor é "É Proibido Fumar", que não tem a grandiosidade que a Academia de Hollywood costuma apreciar. "Lula" teria? A produção é impecável, os atores estão bem, o tom é épico. Mas é chaaato... Não estou nem criticando a maquiagem que o roteiro faz na vida do presidente, pintando-o como um santo e omitindo todas as passagens embaraçosas. "Lula, o Filho do Brasil" é um filme ruim, e conheço até petistas que concordam comigo. Posso estar enganado, mas duvido que tenha a menor chance entre os velhinhos da Academia - que são judeus na maioria, e portanto pouco fãs da aproximação do Brasil com o Irã. Sinto que será confirmada, mais uma vez, a fama de pé-frio desse filme, que desapontou na bilheteria e cujo diretor está em coma desde antes da estreia.

TOMARA QUE CAIA

Finalmente o escândalo Erenice respingou nos índices de Dilma Rousseff, talvez porque seja de compreensão mais fácil que o caso da quebra do sigilo fiscal. A candidata do PT chegou a perder 10 pontos entre os que ganham entre 5 e 10 salários mínimos. Também caiu nas capitais, inclusive no Nordeste. De fato, é muito difícil ela se desvencilhar das estripulias da família Guerra no Ministério da Casa Civil. Erenice foi sua escudeira anos a fio e só assumiu a pasta por sua indicação. Se Dilma "não sabia de nada" (a-hã), então não está preparada para ser uma boa presidente, pois deveria se informar melhor sobre seus assessores. Continua enorme a possibilidade de Dilma se eleger no 1o. turno, e ainda maior num eventual 2o. Mas tomara que essa oscilação para baixo mostre aos petistas que eles estão bem longe da sonhada unanimidade, e que não têm carta branca para fazer o que bem entenderem no governo. Tomara, tomara mesmo.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

QUE PAREDÃO QUE NADA

Até que demorou. Já está no ar o primeiro reality show pornô gay, ou melhor, na internet. "So You Think You Can Fuck" estreou há duas semanas e promete um episódio novo toda quinta. Apresentado pelo astro-em-fim-de-carreira Matthew Rush, o concurso reúne 12 candidatos divididos em dois times, ativos e passivos. A cada rodada, um casal é sorteado para transar num cenário diferente. Depois a performance é julgada por um painel de experts - eueueueueueu - mas a palavra final é dada pelo público. Os prêmios são valiosérrimos: um contrato para posar na "Playgirl" (ainda existe? achei que tinha fechado), um iPod Touch e uma miríade de brinquedos eróticos. Aí em cima está um resumo do primeiro capítulo. Quem quiser ver tudo vai ter que acessar o site da produtora Dominic Ford e, evidentemente, pagar. E para quem estiver muito a fim de um iPod Touch: já estão abertas as inscrições para a segunda temporada.

(Chupei esse post do blog do Neto Lucon no MixBrasil, e chupei gostoso)

DSAFINAN

De vez em quando sofro de culpa por não ouvir muita música brasileira. A verdade é que me sinto meio órfão: hoje em dia não tem muita coisa que me interesse. Não tenho idade para o Restart, nunca suportei a Pitty, esgotou-se o saco para Skank ou Paralamas. Adoro Marisa Monte, mas faz mais de quatro anos que ela não lança um disco só de inéditas. Acabo ficando no que é hoje a velha guarda, como Maria Bethânia ou Ney Matogrosso. Foi assim que comprei "Ária", o novo disco do Djavan. Dessa vez ele não compôs nada, só gravou músicas dos outros. Pensei: um dos maiores nomes da MPB cantando um repertório finíssimo, o que pode dar errado? Pois é, deu. Descobri que não gosto da voz do Djavan. É meio estridente, principalmente nos agudos, e não muito afinada. Os arranjos também são fraquinhos, como a guitarra que estraga "Luz e Mistério" - uma linda canção do Beto Guedes que marcou meus anos de faculdade. Para completar, me irrita a tendência djavanesca de descambar para o "tchubibi" a toda hora. Salva-se "Oração ao Tempo" do Caetano, o que é pouco. Sei que a comparação é descabida, mas como intérprete ando preferindo o Frank Sinatra.

GRITAARÌA

Tenho a sensação de que todo mundo a-do-ra "Cinema Paradiso", o filme que rendeu um Oscar a Giuseppe Tornatore. Todo mundo, menos eu. Acho piegas, fácil, quase simplório. Esses defeitos permeiam outras obras desse diretor italiano, geralmente situadas em sua Sicília natal. E estão presentes em "Baarìa", que conta três gerações de uma mesma família em Bagheria, cidadezinha perto de Palermo ("Baarìa" é como seus próprios habitantes a chamam, no impenetrável dialeto siciliano). A primeira hora do filme é bem agitada, com cenas rápidas que traçam um painel da vida no lugar nos anos 20, os primeiros tempos do fascismo. O que mais chama a atenção é como os sicilianos são esquentados: todo mundo briga com todo mundo o tempo todo. Adultos contra crianças, mães contra filhos, velhos contra jovens. A gritaria é generalizada e frequentemente termina em sopapos. Divertidíssimo, claro - mas eu que não queria morar num lugar desses. Depois o ritmo desanda, pois simplesmente não há trama suficiente para preencher as duas horas e meia de duração. São apenas episódios curtos, muitos perfeitamente dispensáveis. De qualquer forma, "Baarìa" preenche um requisito que eu prezo muito quando vou ao cinema: faz viajar sem levantar da cadeira.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

LET'S GO TO HELL

E então, já sabe onde vai passar a eternidade? Acabe com a dúvida agora: acesse o blog do Jesus Manero e tente não rir das intervenções toscas sobre imagens de Cristo. Riu, né? Kkkkk, nos vemos no inferno.


(dica do Daniel Cassús, que, assim como Ele, um dia voltará)

D'URSO FEROZ

Como é que os advogados paulistas elegem e reelegem Luiz Flavio Borges D'Urso para a presidência da OAB-SP? Esse cara está simplesemente tentando impedir a Bienal, que abre sábado para o público, de exibir a série "Inimigos" do artista pernambucano Gil Vicente. São 9 desenhos a carvão, em formato grande, que mostram o autor a ponto de matar algum político famoso. Sobrou para todo mundo: Lula, FHC, Bush, o papa, a rainha Elizabeth. Nem o Ariel Sharon, que vive há anos como um vegetal, escapou (veja a coleção completa aqui). As obras já foram expostas em Porto Alegre e viraram intervenção de rua em Campina Grande, e até onde eu sei ainda não incitaram ninguém a cometer crimes. Agora, atentado para valer é isto o que o sr. D'Urso quer fazer contra a liberdade de expressão e o estado de direito. O cara não sabe o que é arte e muito menos o que é democracia. Ser o líder da seção paulista da OAB só emporcalha a imagem da instituição, que sob Raymundo Faoro teve um papel importantíssimo na luta contra a ditadura militar.

Por enquanto D'Urso só assinou uma nota pública, mas ameaça recorrer ao Ministério Público se a Bienal não atender às suas exigências absurdas. Dá vontade de reagir com uma avalanche de posters, camisetas, bottons, tudo com as imagens da série - que é absolutamente sensacional, by the way. Mas mesmo que fosse horrorosa: não compete à OAB nem a ninguém censurar uma obra de arte. Dá vontade de encomendar a Gil Vicente um novo autorretrato, desta vez com Luiz Flávio Borges D'Urso sendo trucidado com requintes de crueldade.

(assinantes do UOL podem ler aqui o artigo do advogado e diplomata Alexandre Vidal Porto sobre o assunto, publicado na "Folha de São Paulo" de hoje)

NOSSO LAR

E pensar que houve uma época em que não existia a The Week. Onde é que a gente ia naquele tempo? O mega-clube de São Paulo comemora seis anos nesta semana, mas parece que está aí desde sempre. Seu domínio da noite gay paulistana continua imenso, o que é ainda mais impressionante quando lembramos como duram pouco as iniciativas do gênero. André Almada e sua equipe mudaram as regras do jogo: estabeleceram um padrão de qualidade tão alto que a concorrência se viu obrigada a vir atrás, a se profissionalizar, a respeitar o cliente. Como um político que está no poder há muitos anos, a The Week incita ódios e paixões. Seus detratores descem a minúcias que passsariam desapercebidas em outras boates, talvez porque a própria casa acostumou “mal” seus frequentadores. A TW busca um equilíbrio difícil, que é não mexer em time que está ganhando enquanto tenta sempre se renovar. Prova disto é o line-up escalado para as festas do próximo fim de semana, uma mini-Parada Gay em pleno mês de setembro. Vem um DJ inglês pouco conhecido por aqui, Paul Heron, mas também vem Offer Nissim, o favorito das massas. Meu também: adoro ver “La” Offer em ação. Aquilo é praticamente um show, uma performance de uma diva que sabe que tem o público nas mãos. Destreza técnica e pesquisa musical são o de menos, pois nele o que importa é a diversão pura. Sábado estarei lá com certeza, e vou tentar conseguir a energia para encarar o Pacha na sexta e o Clube Nacional no domingo. Se bem que acho até esquisito celebrar o aniversário de um lugar fazendo festa em outro. Em termos de estrutura e vibe, nada se compara às instalações da Rua Guaicurus. A The Week é o nosso lar, o plano para onde as bibas vão desencarnar dos problemas do dia-a-dia. As comparações com o paraíso psicografado por Chico Xavier não param por aí: os dois lugares oferecem decoração absurda, figurinos hilariantes e seres iluminados. Em ambos existe o Umbral, por onde vagam as almas penadas, e também as esferas superiores, que recebem os espíritos evoluídos. Faz tempo que a The Week é chamada de “culto” por seus iniciados. Neste finde vamos todos orar por mais anos de sucesso, num grande espetáculo de fé e devoção.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A MESMA MÁSCARA NEGRA

Um amigo carioca, o João Fernando, me mandou a programação completa do Festival do Rio só para me deixar com raiva. Tadinho, a intenção era boa, mas ele não sabia que devo ir para a Maravilhosa só no dia 8 de outubro - ou seja, um dia depois do encerramento do festival. Claro que ainda pego uma ou outra repescagem, provavelmente de filmes croatas com legendas em finlandês. O que me consola é que, como sempre, grande parte dos selecionados são na verdade pré-estreias, com estreia garantida no Brasil (um deles, o francês "Hadjewich", até já está em cartaz em SP). E em outubro acontece mais uma Mostra de São Paulo, com muitos dos títulos exibidos no Rio. Aliás, já estava mais que na hora desses dois eventos pararem de picuinha e juntarem as forças. Não faz sentido ficarem brigando pela exclusividade de alguns filmes, pois quem se ferra é o público. Tá certo que há problemas de patrocinadores, que são diferentes, de logística e, óbvio, de ego. Em geral até prefiro a programação carioca, mais arejada e moderninha (Midnight Movies! Mundo Gay!!) do que o gosto envelhecido do Leon Cakoff. Bom, e o que eu veria no Rio se lá estivesse? "Gainsbourg - Vida Heróica", que assisti no avião e em DVD, mas que merece ser saboreado em tela grande. Passa neste sábado, em vários horários e salas. Tem também uma grande seleção argentina, com destaque para "Carancho", mais um sucesso com o incontornável Ricardo Darín. E "Os Amores Imaginários", o novo do ninfeto pédé canadense Xavier Dolan, cujo sensacional "Eu Matei Minha Mãe", do ano passado, estreia dia 1o. de outubro no Brasil. Mas claro que nada se compara a entrar de gaiato na sessão de um filme do qual não se sabe nada e ter uma inesperada epifania.

MARKETING DE RELACIONAMENTO

Ganhei um iPhone 4 da minha operadora. Sinto a justiça divina em ação: já que não consegui comprar um iPad quando estive na Europa em junho, agora me cai dos céus um iPhone 4 inteiramente grátis. Quer dizer, quase: precisei renovar meu contrato com a operadora por mais um ano. Também zerei toda a minha pontuação com eles e ainda prometi entregar-lhes meu primeiro filho assim que ele completasse dois anos de idade (OK, essa última parte é mentira). À primeira vista, o novo aparelho parece uma versão mais antiga do anterior: é menos redondinho, mais quadradão e um teco mais pesado. Mas tem, segundo a Apple, uns duzentos milhões de novas funções. A mais chocrível seria a tal do FaceTime, que finalmente inaugura a era do vídeofone - nada que já não se faça com a sua boa e velha webcam, mas agora portátil. Também grava vídeo em HD, tem câmera para os dois lados e, iupiii, flash. Quem estiver interessadíssimo pode ver este tutorial aqui (juro que não recebi um centavo). Por enquanto só baixei uma das novas apps, mas justamente a mais indispensável de todas: o iMirror, que transforma a tela num espelho. Chega de carregar espelhinho na bolsa!

domingo, 19 de setembro de 2010

ERGUEI AS MÃOS

Hoje estreia a domingueira do Thiago Pereira, a identidade não-secreta da Cleycianne. Chama-se OCulto e acontece no Espaço Salvador Dali do Hotel Cambridge, aqui em São Paulo, a partir das 19 horas. O engraçado é que o Thiago nunca tinha pensado em se tornar DJ. Teve que aprender na marra, pois a Cley começou a ser convidada para tocar em festas por todo o Brasil. Até remixes ele já faz, como que mistura a diva gospel Cassiane com o Padre Marcelo - um encontro quase impossível de rolar na vida real (dá para ouvir trechos no podcast que gravamos semana passada). Então vamos lá louvar juntos, povo de Deus.

sábado, 18 de setembro de 2010

TALL AND TAN AND YOUNG AND LOVELY

Em 1967, aos 52 anos de idade, Frank Sinatra estava numa encruzilhada da carreira. Já tinha gravado todos os standards do cancioneiro americano e simplesmente se recusava a cantar o pop do momento (mais tarde viria a capitular). Tinha horror aos Beatles... Sem ter muito para onde se virar, Ol' Blue Eyes apelou para um compositor de 40 anos que havia ganho um Grammy alguns anos antes com a já então manjadíssima "Garota de Ipanema". Nascia assim um álbum clássico, "Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim", que faria um sucesso enorme e consolidaria o nome composto com que o nosso simples Tom seria conhecido no resto do mundo. Dois anos depois eles se reuniriam para uma continuação, mas das 10 canções registradas só 7 seriam aproveitadas no disco "Sinatra & Company". As outras três - nada menos que "Sabiá", "Desafinado" e "Bonita" - permaneceriam mais ou menos inéditas até serem reunidas à primeiras 17 no majestoso CD "The Complete Reprise Recordings". O que dizer quando o maior cantor americano de todos os tempos se encontra com o maior compositor popular brasileiro de todos os tempos? Sinatra nunca cantou tão suavemente, em pleno controle da voz já madura. E Tom ainda não se parecia com Luiza Erundina: era um homem lindo, com o frescor de um vento à beira-mar. Ouvir o disco me faz lembrar de um Rio de Janeiro que nunca existiu, dos meus pais que adoravam esse tipo de música, da minha infância querida que os anos não trazem mais.

E por falar em Rio, o "New York Times" de anteontem traz um roteiro de 36 horas pela cidade muito bem escolhido. Não é para qualquer bolso, pois inclui um jantar no Fasano al Mare - mas também o novo must carioca, o elevador para a favela do Cantagalo. E entre as sugestões para a vida noturna está a The Week. Um dia os nossos cadernos de turismo também irão acordar para o consumidor gay, tão cheio de amor para dar, e incluir esses lugares em seus roteiros.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

QUERO UM BABY SEU

François Ozon deve estar atravessando uma crise muito comum em gays de certa idade: a realização de que não terá filhos, apesar de querê-los muito. "O Refúgio" é mais uma variante em torno deste tema, que ele já havia explorado em "O Tempo que Resta", de 2006 - e, de certa forma, no estranho "Ricky" do ano passado. Aqui a trama é centrada em Mousse, uma viciada em heroína que se descobre grávida logo após perder o namorado numa overdose onde ela também quase bateu as botas. A mãe do cara quer que ela aborte, uma situação que me pareceu forçada demais. Afinal, qual mulher que, ao perder um filho, não adoraria saber que vai ganhar um neto? Mousse vai então se esconder numa linda casa no País Basco francês, o tal do refúgio do título. E é seguida pelo irmão gay do defunto, o estonteante Louis-Ronan Choisy. O ritmo lento e o final meio óbvio fazem deste filme um Ozon menor, e às vezes temo que Ozon esteja se especializando em filmes menores. Mas vou dar o veredito só depois de ver seu novo, "Potiche", que passou no Festival de Veneza semana passada e é estrelado por Catherine Deneuve e Gérard Depardieu.

NO TIME FOR LOSERS

Há quase três anos que Sacha Baron Cohen, o criador de "Borat" e "Brüno", vem sendo cogitado para o papel de Freddie Mercury no cinema. Houve um momento em que se noticiou que Johnny Depp também estava no páreo, e eu fiquei sem saber para quem torcer. Depois de um tempo em que não se falou mais do assunto, hoje foi anunciado que o escolhido foi Sacha. Acho que foi melhor assim: ele tem mais em comum com o falecido Farroukh Bulsara, como o sotaque britânico, antepassados no Oriente Médio (um é judeu, o outro tinha origem persa) e muito, mas muito pelo no corpo. Claro que Sacha vai precisar por uma prótese na boca para ficar com os dentes à la Mônica de Freddie. O que não vai dar mesmo para imitar é a voz, a mais potente e elástica de toda a história do rock.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

DO YOU MEAN RAVISHING?

Curioso pensar como duas estrelas da magnitude de Johnny Depp e Angelina Jolie nunca havia se encontrado antes na mesma tela. Esta grave falha será sanada em "The Tourist", que estreia nos EUA em dezembro. Angelina é tão estonteante (e ligeiramente antipática) que muitas vezes nos esquecemos de como é boa atriz: repare em seu timing nas falas cômicas. Já o totoso do Johnny está mais feio do que de costume, com uma barba ingrata que deixa suas bochechas parecidas com as do Fofão. O argumento é mais batido que a campanha do Serra: camarada inocente é confundido com poderoso chefão, seguem-se muitos tiros e ranger de dentes. Mas o cenário é Veneza e o diretor é Florian Henckel Von Donnersmarck, o mesmo do excelente "A Vida dos Outros". Além de tudo, estou curioso para ver como o tradutor brasileiro vai resolver o trocadilho entre "ravenous" (esfomeada) e "ravishing" (deslumbrante).

ENCHA O TANQUE

Vinho no Brasil ainda é tratado com reverência e pouca familiaridade, apesar da enxurrada de marcas baratas vindas do Chile e da Argentina. É tido como uma bebida sofisticada, que requer cursos de degustação e um certo pedantismo para ser bem apreciada. Enquanto isto, na França - de onde vêm algumas das melhores safras do mundo - o vinho é tratado sem a menor cerimônia, com a intimidade de quem convive com ele desde sempre. Saca só esta sensacional máquina de refill, já presente em alguns supermercados franceses. O cliente traz seu jarro de casa, enche quanto quiser, pesa e paga. A ausência de garrafas de vidro, rolhas e rótulos serve para baratear o produto. Que de qualquer jeito não seria mesmo muito caro: o vinho oferecido é daqueles bem despretensiosos, "maison", para se tomar no dia-a-dia. Agora, não seria legal alugar uma máquina dessas para uma festa? Depois de um tempo os convidados já estariam enfiando a bomba direto na goela...

QUANDO LISBOA TREMEU

Há meses que só consigo ler livros de história, aquela que antigamente se escrevia com "h" em oposição às estórias da ficção (hoje todas se escrevem com "h"). Terminei faz pouco "As Origens de Roma", de Alexandre Grandazzi, um pequeno volume sobre o período monárquico daquela cidade. O suntuoso "1822" de Laurentino Gomes está na fila, mas no momento me delicio com "A Ira de Deus", de Edward Paice. Além de recontar com detalhes aquela que foi talvez a maior hecatombe do mundo ocidental - o terremoto de Lisboa de 1755 ou, como dizem os lusos, terrAmoto - também é um tratado das relações entre Portugal e Inglaterra, e uma visão do primeiro país pelos olhos de um nativo do segundo. A Lisboa do século 18 emerge das páginas em todo seu esplendor e imundície. Quarta maior cidade da Europa de então, recebia do Brasil toneladas de ouro (que ajudavam a construir o complexo de Mafra) e açúcar (que adoçavam bolos e pudins de sabor exótico para um súdito britânico). O terremoto e sua tsunami subsequente destruíram a cidade e mataram milhares de pessoas, mas meio que desapareceram do incosciente europeu. Esse esquecimento se deve em parte ao magnífico trabalho de reconstrução levado a cabo pelo Marquês de Pombal, e em outra parte pela desimportância crescente de Portugal, apesar de seu império bastante considerável. Mas teve uma consequência fundamental: a tragédia ocorrida em pleno Dia de Todos os Santos trucidou os fiéis dentro das igrejas, e influenciou os iluministas a pensar que Deus talvez não existisse. Começava o lento declínio do catolicismo... Aqui no Brasil adoramos pensar que somos únicos e talvez gerados pelo divino espírito santo, mas simplesmente não dá para entender quem somos e porquê sem ler a história de Portugal.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

DE SÃO PAULO AO RIO A PÉ

Mariliz Pereira Jorge, minha editora na revista "Women's Health", tem horror a academia. Mas se mantém sempre durinha e gostosa graças à corrida - e eu deveria fazer o mesmo, se vergonha na cara tivesse. Mari está longe de ser dessas malucas que acham que estão treinando para as Olimpíadas, mas resolveu encarar o Desafio dos 600 km. Pois éééé... uma corrida entre São Paulo e Rio de Janeiro, patrocinada pela Nike. Na verdade, um revezamento entre 20 equipes com 12 corredores cada, durante três dias intermináveis (de 22 a 24 de outubro) ao longo do litoral. Ela já está treinando a todo vapor, e contando a experiência num blog que estreou esta semana no site da revista: "Se Eu Consigo, Você Consegue". Seu desafio maior será continuar a levar uma vida normal, com trabalho, balada e eventuais escorregadas na dieta. Boa sorte, Mari, vou acompanhar sua saga pela internet. Só de pensar me dá câimbra.

A BOLA DA VEZ

Carla Bruni é a nova princesa Diana. Assim como aconteceu com a falecida, a imprensa de fofocas não dá trégua à primeira-dama da França. Absolutamente nada do que ela faz presta: seus discos, antes tidos como legaizinhos, agora são constantemente espinafrados. E sua pequena participação no próximo filme de Woody Allen gerou toda sorte de comentários maldosos. Ela teria repetido um único take sem falas 32 vezes, porque não parava de olhar para a câmera. O próprio diretor desmentiu essa história numa entrevista ao "New York Times", mas imprima-se a lenda. Esta semana foi lançada em Paris sua biografia não-autorizada, "Carla, Une Vie Secrète". Como assim, vida secreta? Mme. Sarkozy passou praticamente toda sua vida adulta em frente às câmeras, primeiro como modelo e depois como cantora. Posou nua, teve trocentos namorados, tudo devidamente registrado. Nem mesmo o caso que poderia se tornar um escândalo é segredo: ela namorava um homem mais velho, mas passou-o para trás com o próprio filho do cara. Com quem, aliás, teve seu único filho. Carla Bruni pode não ter tido a vida mais certinha do mundo, mas e daí? A autora do livro, Besma Lahouri, diz que ela "não serve para ser primeira-dama". Quem serve? Dona Marisa Letícia, que não se envolveu em nenhum projeto social e só pensa em aplicar botox e pintar o cabelo?

QUATRO AMIGAS

Da esquerda para a direita, em plena Fashion Week de Nova York: Carrie, Samantha, Charlotte e Miranda. Ou quase. Se não, vejamos: o da direita é Cheyenne Jackson, que nem precisava ter se assumido como gay. Fazer o papel principal em "Xanadu", na Broadway, já era entrega suficiente. Ao lado dele está outra biba de carteirinha, o ator Alan Cumming. Em seguida vem Eric Balfour - que fazia o namorado junkie da Claire em "Six Feet Under", lembra? Oficialmente o cara é hétero, mas onde é que ele está enfiando a outra mão? O que nos deixa sem muitas dúvidas a respeito de Joe Manganiello, o lobisomem Alcide de "True Blood", atualmente o homem mais gostoso do universo. Segundo o site IMDb, ele está num "relacionamento sério" com uma atriz chamada Audra Marie. Sei, sei. E mesmo assim combinou com as amigas de irem todas de botas coordenadas a um desfile de moda?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O ERÊ

Dilma Rousseff bateu na mesa durante o debate de domingo passado e falou ainda mais grosso do que de costume: não concorda em ser julgada pelos atos do filho de uma ex-assessora. Não vou nem me ater na admissão implícita da culpa de Israel Guerra (eita nominho da peste, hein?). Acontece que Erenice, a mãe do rapaz, é muito mais do que "ex-assessora" da candidata. Foi sua fiel escudeira durante anos a fio, seu braço direito. Por isto, Dilma pode ser julgada sim pelos seus atos, pois as duas se conhecem intimamente. Aliás, a candidata do PT pecaria por omissão se alegasse que "não sabia de nada", a desculpa consagrada de seu partido. Erenice só assumiu a poderosíssima pasta da Casa Civil por causa da proximidade com a chefe. Se dependesse de sua relevância política, jamais chegaria a tal cargo. Não sei se a atual ministra tem o apelido de "Erê", mas, com o perdão do trocadilho fácil e meio infame, ela até que se encaixa na definição da Wikipedia para esta entidade do candomblé:

"Erê é o intermediário entre a pessoa e seu orixá, é o aflorar da criança que cada um guarda dentro de si; reside no ponto exato entre a consciência da pessoa e a inconsciência do orixá. É por meio do Erê que o Orixá expressa sua vontade."


Faz um certo sentido: Erenice Guerra, a intermediária. Atotô Obaluaiê.

NOPE

O papa Adolf I foi recebido no Brasil em 2007 com uma certa indiferença. Ao contrário de seu antecessor, Sua Majestade Satânica não arrastou multidões para suas missas campais – o que foi mais ou menos escondido pela Globo, que é pró-católica. No próximo final de semana o papa visitará a Grã-Bretanha e finalmente terá a recepção que merece. Estão sendo organizadas passeatas de protesto em todas as cidades por onde o malvado vai passar. É a campanha “Nope – Say No to the Pope”. Bem feito: Adolf I é contra os direitos iguais, contra a camisinha e contra o aborto até mesmo em crianças que foram estupradas. Também protege descaradamente os padres pedófilos. Nada menos que 86% dos britânicos são contrários à visita. Se eu lá estivesse, iria com prazer jogar ovos podres no papa. País civilizado é outra coisa.

LUCY IN THE SKY WITH DIAMONDS

É belo demais para ser verdade. Astrônomos descobriram uma estrela feita de diamantes. OK, não é bem isto: a BPM 37093 na verdade é uma anã branca cristalizada, o núcleo do que foi um dia uma estrela fulgurante. Por causa, disto, ganho um apelido bem mais marquetável: "Lucy", por causa do hino psicodélico dos Beatles. Tem 4 mil km de diâmetro e 10 bilhões de trilhões de trilhões de quilates, o suficiente para uma tiara da sra. Rico, a mãe do Riquinho. Mas gosto mais de pensar que é uma enorme bola de espelhos a animar a balada sideral.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

OS DIAS DE CÃO SE ACABARAM

E os VMAs, hein? Não vi quase nada, preferi o último episódio de "True Blood". Parece que não perdi muita coisa, já que este ano não rolou nenhum escândalo à la Kanye West x Taylor Swift como em 2009. Aliás, o tão propalado encontro dos dois no palco acabou não acontecendo. Lady Gaga levou uns 300 troféus, mas não cantou. O que abriu espaço para sua fã e amiga Florence + The Machine, que finalmente atraiu a atenção da mídia americana. Sua performance de "Dogs Days Are Over" foi a única novidade do show, e só pode ser vista no site da MTV. Mas o clip original aí no alto ganhou o prêmio de direção de arte, um dos poucos que a Gagolina não levou. As duas têm muito em comum: roupitchas maloookas, teatralidade, toneladas de make-up. Mas Florence é menos popularesca, como se nota pela ausência de batom. Ficou a cara de um travestchy que não terminou de se montar, néam?

MACHADO ENSANGUENTADO DE ASSIS

Até que não demorou muito para a onda dos mash-ups literários chegar ao Brasil. O sucesso de livros como "Abraham Lincoln, Caçador de Vampiros" e "Orgulho e Preconceito e Zumbis" (este último, inclusive, já foi lançado em português) inspirou nossos editores. Afinal, a matéria-prima é gratuita: basta pegar um clássico da nossa literatura, certificar-se de que ele já caiu em domínio público e acrescentar alguns monstros. Só acho que podiam ter pensado nuns títulos menos preguiçosos do que "A Escrava Isaura e o Vampiro" ou "Dom Casmurro e os Discos Voadores". Já "Memórias Desmortas de Brás Cubas", onde o protagonista vira um zumbi e sai matando outros personagens de Machado de Assis, me parece mais interessante. No fim, acho que a maior barreira vai ser a pouca bagagem literária do brasileiro médio. Quantas pessoas têm familiaridade suficiente com os volumes originais para se interessar por suas paródias?

(Daniel Cassús, obrigado pela dica. Mash-up que eu gosto.)

SONHO MOLHADO

Queria muito gostar mais da Katy Perry, mas não consigo. Acho que ela até conseguiu criar uma imagem interessante para si mesma, inspirada em pin-ups dos anos 40 como Bettie Page. Também atóron o fato dela ter sido criado como evangélica mas ter abandonado a religião e hoje defender os gays (também pudera, ai da cantora que não nos defender). Mas acho que musicalmente ela ainda não tem muita identidade. Seu som é um pop genérico, meio rock, meio dance, sob medida para tocar no rádio. E sua voz é boa, apesar de ficar meio irritante nos agudos. O problema é que seus singles são bons, mas seus álbuns todos, não. Já tinha achado isto em sua estreia há dois anos com "One of the Boys". Lá havia duas pérolas, "Ur So Gay" e "I Kissed a Girl", duas faixas medianas, "Waking Up in Vegas" e "Hot'n'Cold" e... o bom e velho filler, encheção de linguiça. Sinto dizer que as coisas não mudaram em seu novo disco, "Teenage Dream". "California Gurls" é divertida (mas já está enchendo o saco) e "Peacock" é uma versão semi-pornô do velho "Mickey" da Toni Basil. O resto é o resto. Nada muito ruim, mas nada que se sobressaia. Katy simplesmente não é boa compositora. Que pena, bem que Lady Gaga precisava de uma rival à altura.

E por falar em Lady Gaga (OK, a última frase foi meio forçada só para servir de deixa), minha "ídala" Camille Paglia errou feio ao tentar detoná-la numa matéria de capa da revista do jornal britânico "Sunday Times" (um longo trecho pode ser lido aqui, em inglês). Paglia diz que Gaga não é sexy. Acontece que a Lady não se vende como objeto sexual, ao contrário de Madonna ou Britney. Quem se cobre de bifes crus não está exatamente tentando levantar o pinto de alguém. O ensaio vem sendo bastante criticado, como neste artigo aqui (também em inglês). Que pena, Camille Paglia passou atestado de velha idosa.

LONGE DOS OLHOS

Fazia tempo que eu não via uma comédia romântica tão boa quanto “Amor à Distância”. Ela está longe de obras-primas do gênero como “Harry e Sally”, mas é muito melhor do que a bobajada que vem sendo feita por aí. Talvez porque parta de uma premissa realista e até bastante comum: um casal de namorados que é obrigado a se separar por causa de oportunidades profissionais em cidades diferentes (eu mesmo vivi esta situação durante anos, trabalhando em SP enquanto Oscar trabalhava no Rio). Nada de dois inimigos declarados tendo que criar juntos um bebê órfão ou um cara que insemina “sem querer” a melhor amiga, só para citar os trailers imbecis exibidos na mesma sessão. O roteiro de “Amor…” evita as soluções fáceis, apesar de manter clichês como os amigos maluquinhos do cara ou a irmã mais velha da moça, casada e aborrecida. Drew Barrymore já passou um pouco da idade, mas faz este tipo de comédia com os dois pés amarrados nas costas – embora eu não ache que esteja envelhecendo muito bem. Mas tem muita química com seu namorado na vida real, o feio-gostosinho Justin Long. Uns 20 minutos a menos fariam bem ao filme, que mesmo assim é um programa simpático nesta entressafra cinematográfica que estamos atravessando.

domingo, 12 de setembro de 2010

IN MEMORIAM

Acaba hoje a 3a. temporada de "True Blood" e um vazio vai se abrir na minha vida. Como vou sobreviver sem meus amiguinhos vampiros e lobisomens? Estou me debulhando em lágrimas de sangue ao ver este ótimo promo que a HBO preparou, no estlo daquelas homenagens póstumas que costumam ser feitas na entrega do Oscar. Descansem em paz.

sábado, 11 de setembro de 2010

GLÓRIA, 3 X GLÓRIA

Eram tantas as exigências da diva que eu cheguei a pensar que a entrevista não iria acontecer. Três variedades de alface, CDs e DVDs de música gospel, 20 bibles (bíblias em inglês)... Depois de muita intriga e suspense, Marcos Carioca e eu ouvimos um helicóptero que se aproximava. Era ela! Ou melhor, ele, Thiago Pereira, o criador da ungida Cleycianne. Conversamos por quase uma hora para a 6a. edição do Popcast. Fizemos todas as perguntas que o Jô Soares não fez e muitas, muitas outras. Segredos foram revelados, alguns totalmente em "off" - mas, como os desencarnados do "Nosso Lar", fique tranquilo, em breve você terá todas as respostas. Já era para a gravação estar no ar, mas parece que está rolando uma última negociação entre nossos advogados. Assim que estiver pronto eu aviso aqui, mas vai se preparando: é muita descontração em Cristo, Brasil!

ATUALIZAÇÃO: O Popcast está pronto! Atendendo a pedidos, agora ele também pode ser baixado. Então clique aqui e faça o download NOW (agora em inglês). Hana Macantarava Suya!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

ESTICA E PUXA

Impressionante: aos 64 anos de idade, Amanda Lear ainda está a todo vapor. Alisada, esticada e puxada para todos os lados, ela agora parece a irmã malvada da Joan Rivers. Apesar da voz de traveca, sem nenhuma extensão, Amanda causou furor como cantora na Europa (e só na Europa) em meados dos anos 70. Aliás, toda sua carreira foi construída em cima do boato dela ser um trans operada, como eu conto neste post de 2008. Ela também foi musa de Salvador Dalí e presentatrice daqueles péssimos programas de auditório da TV italiana. Mas nunca parou de gravar: ano passado lançou o CD duplo "Brief Encounters", cujo carro-chefe é a ótima "Someone Else's Eyes", do vídeo acima. O álbum também tem covers de David Bowie, Amy Winehouse, Culture Club e Pet Shop Boys, e ainda ganhou uma versão acústica e outra "reloaded", só com remixes para as pistas. Chega? Que nada, acaba de sair um disco novo, "I'm Coming Up", que eu já encomendei na Amazon. É fantástico ela estar bombando por aí, como se nada. Enquanto houver Amanda, ainda haverá esperança.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O MURAL DA INTOLERÂNCIA

E aí, já sabe em quem NÃO votar? Então confira essa iniciativa sensacional do Grupo Gay Atitude de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro. O "Mural da Intolerância" lista os principais candidatos homofóbicos do RJ (temo que existam outros), com nome e foto dos safados. Vai virar um panfleto com tiragem de 50 mil exemplares, outdoor, cartazes, o escambau. E também será amplamente divulgado pela internet: peço a quem puder que poste, tuíte, facebookeie, msneie. É bom lembrar que os evangélicos também costumam listar os candidatos com propostas libertárias (e também os que podem lhes prejudicar os negócios). Tomara que outros estados copiem a ideia - porque, se a gente não se organizar, a luta pelos direitos iguais vai acabar antes do primeiro round.

(João, obrigado por mais uma dica)

AMEERAH-SÁRIO

A missão de um pai não acaba nunca. Meu filhinho Duda Hering já saiu de casa há quase um ano, mas quem disse que eu me livrei dele? Continuo tendo que divulgar seus eventos aqui no blog. OK, não divulgo todos, além do mais porque só de variações do Café com Vodka já são umas 23 por semana. Mas este eu não posso recusar: o 1o. aniversário da volta da Megga. Da volta, entendeu? Porque a Megga abriu no começo de 2008 para fechar logo em seguida, permanecendo mais de um ano em silêncio. Foi reinauguarada há um ano e só começou a pegar para valer em 2010, mas tá valendo. Vai ter show de uma cantora chamada Ameerah (aposto que deve existir um name generator para essas divas) e também a dupla Midnight Society. Quem quiser entrar na lista VIP deve fornecer seus dados aqui. E a festa continua pelos sábados seguintes, com outras atrações internacionais. Leggal!

QUEIMA TOTAL

A liberdade de expressão nos Estados Unidos é tão absoluta que gera casos bizarros. Como a Igreja Batista de Westboro, liderada pelo alucinado "reverendo" Fred Phelps. Frustrados e mal comidos, os fiéis gastam grande parte de seu tempo fazendo demonstrações anti-gays em funerais de soldados (a justificativa é que Deus os teria matado em combate como castigo ao avanço dos homossexuais nos EUA). Ou o repugnante "reverendo" Terry Jones, que quer queimar o Alcorão neste sábado, 11 de setembro. São mensagens de ódio e intolerância, e plenamente asseguradas pela constituição. O bom é que essa liberdade tem mão dupla e garante o direito de resposta. Como este vídeo aí em cima, no estilo dos "demolition derby": aquele tipo de espetáculo com caminhões se destruindo que o Homer Simpson tanto gosta. I'm burnin'!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

INDEPENDÊNCIA OU ZZZZZZZ...

Alguém aí comemorou ontem o Dia da Pátria? Não, não estou perguntando se aproveitou o feriado. Quero saber se alguém foi ver uma parada militar, ou usou verde e amarelo, ou pelo menos pensou no significado metafísico da data. Não, né? Nem eu. O 7 de setembro nunca rendeu um post sequer aqui no meu blog, e olha que este já foi o quarto desde que comecei. É um fenômeno curioso: os brasileiros têm fama de sermos super-patriotas, mas não estamos nem aí com a data da nossa independência. Enquanto isto, o Chile terá na semana que vem um feriadão de quatro dias, com gente dançando cueca nas ruas e as cidades cobertas de bandeirinhas. No México, que também comemora sua data neste mês, come-se até mesmo um prato à base de pimentão com as cores da bandeira nacional. Nos Estados Unidos, nem se fala: o 4th of July é uma explosão cívica de fogos de artifício e molho barbecue. Por quê será que damos tão pouca importância à nossa data? Não deve ser porque a independência brasileira foi proclamada "de cima para baixo", sem um real engajamento do povo etc. etc. Mais provável que o nosso desinteresse seja um resquício da ditadura militar, que transformou o 7 de setembro num dia chatíssimo de auto-celebração. Festejava-se o exército, não o país. E foi assim que aprendemos a comemorar a brasilidade no carnaval - esta sim, uma festa realmente popular.

PARAÍSO À BRASILEIRA

Quem já foi a circo mambembe deve lembrar que os espetáculos terminavam com pecinhas de teatro muito mal escritas, mal interpretadas e de cunho moralista. O filme "Nosso Lar" é a mais cara dessas pecinhas jamais produzidas. Custou 20 milhões de reais, o maior orçamento do cinema brasileiro de todos os tempos, e é inteirinho ruim. Pelo trailer já dava para sacar que os atores são fraquinhos: vindos do teatro espírita, muitos deles simplesmente não têm a mais puta ideia do que seja interpretar para a câmera. Os diálogos escabrosos não ajudam, e os figurinos e a direção de arte deixam o Vale do Amanhecer da Tia Neiva, nos arredores de Brasília, parecendo um projeto da Bauhaus. A tal da cidade de Nosso Lar é uma projeção bem brasileira do que seria o além-túmulo. É uma Brasília piorada (como se fosse possível) por um pesadelo de Joãozinho Trinta, com espelhos, elementos vazados e paredes azuis. Não estou nem entrando no mérito da doutrina espírita, que aliás prega uma bela mensagem de amor e esperança: é como obra cinematográfica que "Nosso Lar" fracassa mesmo, ao contrário do bem razoável "Chico Xavier". Aliás, também fracassa como peça de proselitismo: quem não é espírita vai criar uma capa de Teflon contra essa religião, que apesar de ter origem francesa só pegou mesmo no Brasil.