segunda-feira, 31 de maio de 2010

"WALLPAPER" NA LAJE

"The most exciting country on earth". É assim que a "Wallpaper" chama o Brasil na capa de sua edição especial inteiramente produzida aqui. E essa excitação toda não tem nada a ver com balas perdidas. A desigualdade social só aparece no eidtorial de moda feito na favela do Vidigal com as finalistas do concurso Garota da Laje. De resto, o país mostrado nas páginas da revista preenche quase todos os clichês obrigatórios: sol, praia, mulher gostosa. Como sempre, a "Wallpaper" dá um peso enorme à arquitetura e não se esquece de pagar tributo no altar a Niemeyer, chamando a carcaça do hotel Nacional, no Rio, de obra-prima esquecida. Justo aquele monstrengo onde a luz do sol entra por todos os lados e não deixa nenhum hóspede dormir. Mas no geral o resultado saiu bacana. A maioria das dicas corresponde à realidade, uma façanha em se tratando do famigerado olhar estrangeiro. Tem até receita de farofa e molho à campanha. Bom aproveito.

NÃO EXISTEM GAYS NO IRÃ

Só héteros que fecham os olhinhos quando se beijam com ternura.

CLÁSSICO INSTANTÂNEO

Não existe maneira mais fácil de chamar a atenção hoje em dia do que fazer um cover da Lady Gaga. O YouTube pulula de versões dos sucessos da cantora: tem desde "Poker Face" tocada com iPhones até uma banda de judeus ortodoxos reinventando "Bad Romance" (não exatamente uma boa escolha para uma festa de casamento). Nesse mar de replicantes, teve um que me conquistou: o conjunto clássico australiano Aston e seu arranjo sofiticado para "Telephone". Dar roupagem erudita a cançõezinhas pop não é novidade, mas os caras fazem isto com competência. Dá para ouvir muitas outras faixas no site deles e votar na próxima música que deve ser gravada (sim, "Alejandro" está entre as candidatas). Chique no úrtimo: queria que esse "Telephone" fosse o toque do meu celular.

domingo, 30 de maio de 2010

A CRISE DO EURO

Do Eurovision, quero dizer, não da moeda. Se bem que os problemas econômicos da Europa provavelmente são a razão pela qual a edição deste ano do festival mais brega do mundo foi muito mais contida que a do ano passado. Esperava muito mais da grande final, que assisti ao vivo na tarde de ontem pela Televisión Española. Certo, o palco em Oslo era tão grande ou até maior que o de Moscou em 2009. Mas os telões de vídeo estavam bem mais modestos e as produções mais pobrezinhas, sem tanta coreografia. Para dar uma ideia, o efeito mais impressionante foram as asas de borboleta que surgiram de repente atrás dos vestidos das cantora da Bielorrússia enquanto elas interpretavam uma balada insossa, evidentemente chamada “Butterflies”. Aliás, este foi o ano das baladas insossas. Mas claro que sempre há pérolas pop cafonas no meio de tanto porcaria. Adorei “Je Ne Sais Quoi”, a concorrente da Islândia, entoada com bravura por Hera Björk - que deve ser parente da própria. Uma cantora tão imensa que parece até a mulher-vulcão.E também me diverti com “Playing with Fire”, da dupla romena Paula Selling & Ovi. Não havia um franco favorito como no ano passado, quando “Fairy Tale”, da Noruega, venceu com mais de 400 pontos. Mesmo assim, a Alemanha surpreendeu – em mais de 50 anos, esta foi apenas a 2a. vez em que venceu o festival – e uma menina chamada Lena teve vitória folgada com “Satellite”. A música, cujo clipe está lá no alto deste post, é uma tolice descomunal, que só fica minimamente palatável depois de remixada pelo Tocadisco. E agora vamos torcer para que o euro se recupere e em 2011 o Eurovision retorne com o esplendor brega de sempre, que nos cega os olhos e nos entope os ouvidos.

sábado, 29 de maio de 2010

LINDOS, LEVES, SOLTOS

Recebi um e-mail do Luciano de SJC comemorando a libertação do casal gay que havia sido condenado a 14 anos de prisão no Malawi. Lá ele se dizia cheio de esperança, porque um país atrasadíssimo havia dado um passinho à frente. Essa esperança também me pegou, Luciano. Mas não por causa do Malawi, e sim dos governos e pessoas que se manifestaram contra esta barbaridade. Tenho certeza que o presidente do país e a esmagadora maioria da população, que ainda vive presa a tradições tribais, foram dormir esta noite tão homofóbicos como sempre. A mentalidade de ninguém evoluiu um milímetro sequer. O Malawi cedeu à pressão internacional - até Madonna, sua embaixadora informal, aderiu - simplesmente porque não tinha alternativa. É uma nação miserável, que tem pouco a oferecer ao mundo além de seus órfãos para adoção. Depende terrivelmente da ajuda internacional, e se borrou de medo dessa ajuda minguar. Pressões semelhantes têm sido aplicadas a Uganda, que ainda ameaça os gays com a pena de morte; esperemos que também dê certo. A coisa tem que ser feita com cuidado, para não ferir orgulhos nacionais. Mas tem que ser feita sem pudor: a África inteira é uma masmorra para os homossexuais, que são perseguidos, presos e mortos em quase todo o continente. A exceção gloriosa é a África do Sul, onde já exste o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Aliás, um país onde a poligamia é legalizada e o presidente da república tem 4 ou 5 esposas (perdi a conta) não tem muita moral para dizer que o casamento só pode ser entre um homem e uma mulher.

TEMPESTADE NO DESERTO

Escolhi quatro pedras de bom tamanho, de cores e formatos diferentes. Uma para cada personagem. E fui ver "Sex and the City 2" pronto para achar tudo uma merda. Uma reversão total do estado de espírito de 2 anos atrás, quando estreou o 1o. filme. Na época eu mal me aguentava de tanta saudade de Carrie e companhia: parecia realmente que eu ia me reencontrar com velhas amigas, depois de tanto tempo separados. Dessa vez não havia saudade, mas sobrava má vontade. O trailer dava a entender que a pouca história que havia era coberta com toneladas de roupas de design, quanto mais espalhafatosas melhor. E é verdade que há mesmo pouquíssima trama. Ainda bem. "Sex and the City 2" funciona maravilhosamente como uma festa ou uma viagem com amigos: é uma sequência de situações engraçadas e/ou luxuosas, temperada com muitas piadas sujas. Quando os miasmas de plot ameaçam ressurgir - o tédio conjugal de Carrie, a menopausa de Samantha, a crise maternal de Charlotte, os problemas profissionais de Miranda - o filme perde um pouco do élan. Fora, vida real! Só quero saber das roupas, dos drinks, dos homens e da suíte de 22 mil dólares por noite. Proibidos de filmar em Dubai, os produtores transferiram grande parte da ação para a amyga e ryval Abu Dhabi, onde tampouco podiam por os pés - e o Marrocos serve para dublar os Emirados (quero só ver o que a Libanesa achou). A "City" do título, a famosa 5a. amiga, Nova York, aparece pouquíssimo. Mas não faz mal. Esta continuação é uma tempestade num copo de cosmopolitan, servida num deserto bom demais para ser verdade. Há cenas antológicas, como o confronto entre Samantha e os muçulmanos conservadores. Ou o show de Liza Minnelli num casamento gay, logo no comecinho. Alguém se espanta: como os noivos conseguiram que ela viesse? O que dá a deixa para melhor piada do ano até agora: "É uma lei da física. Toda vez que há muita energia gay concentrada num mesmo ambiente, Liza se manfesta." Fikdik: não quero ver mais uma continuação. Quero uma nova temporada na TV, com uns 20 episódios de meia hora. "Sex and the City" ainda dá no couro.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

PASSARINHO QUER CANTAR

Esqueça as festas, as pegações e até a própria Parada: o evento mais importante da Semana do Orgulho GLSBTXYZ em São Paulo será o “1o. Encontro de Blogueiros e Twitteiros Gays”, hahaha. É uma iniciativa do MixBrasil e do Vipado, e representando estes sites estarão o André Fischer e o Ailton Botelho. Também darão a cara para bater: Thiago Magalhães (Introspective), Marcos Costa (Carioca Virtual), Juliano Corbetta (Made in Brazil), Erik Galdino (ACapa) e a misteriosa Katylene Byzmarcky, além de euzinho. Nem adianta convidarem a Lindinalva porque ela tem uma faxina marcada para a mesma hora, mas senti falta da Cleycianne – que para mim não deixa de ser um blog gay. Vai ser um bate-papo de uma hora e meia com a plateia, onde vamos discutir assuntos como as origens dos blogs, como ganhar dinheiro com eles e como a gente faz para se manter sempre lindo, rico, jovem e cheio de amor para dar. Quem estiver em SP nesta época (ou seja, 90% do meu leitorado) não pode perder, porque depois eu vou fazer chamada oral (hmm…). Então anota aê:

1o Encontro de Blogueiros e Twitteiros Gays
4 de junho, sexta
das 15h30 às 17h
Auditório da Livraria Cultura do Conjunto Nacional
Av. Paulista, 2073
entrada franca

quinta-feira, 27 de maio de 2010

ELA ESTÁ ENTRE NÓS

Fanny Ardant, uma das três divas absolutas do cinema francês, está em São Paulo (as outras duas são Catherine Deneuve e Isabelle Adjani). Ela veio para badalar um curta que dirigiu e que está sendo exibido num festival no Cinesesc. Ontem rolou um jantarzinho em sua homenagem, reunindo artistas e socialites. Não fui convidado, graças a Deus: acho que não conseguiria conter minha macaquice de auditório e me prostraria aos seus pés, pedindo para ela me perfurar com o salto de seu stiletto. Fanny Ardant tem muito mais que beleza: tem allure, uma qualidade etérea difícil de definir, muito acima do charme ou do glamour. É uma mulher alta, de traços fortes, quase uma drag - aliás, seu nome também parece de drag. Foi a última mulher de François Truffaut, um cineasta que sempre se apaixonava pelas atrizes que dirigia. Vou a todos seus filmes. Sou seu súdito desde 1982. Não sou o único: baixe aqui a faixa "Fanny Ardant et Moi", do cantor francês Vincent Delerm. Um tributo à altura da diva.

AGORA SIM

Muita gente encrencou comigo porque eu estraguei o final de "Lost". Só que aquelas cenas que eu postei não eram para valer, seus tolinhos - só mais uma pista falsa enviada pelos maquiavélicos produtores. Ontem finalmente vazou o verdadeiro final da série. O único que responde a todas as perguntas. O único que faz sentido. Ah bom, então era isso.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

PAPAI SABE TUDO

Ando meio enjoado de tanto falar em "Glee" aqui no blog, mas que se há de fazer? Ao lado de "True Blood", é a série americana mais importante do momento - e, não por acaso, as duas são pra lá de gay friendly. Quem ainda acha que "Glee" é só um bando de moleques cantando versões atrozes de sucessos de deevas beeshas precisa ver correndo a cena acima. O pai do Kurt, o personagem gay, venceu a homofobia graças ao amor que sente pelo filho e agora o defende com unhas e dentes, até quando o garoto não se sente ameaçado. É uma discussão bem ao gosto do politicamente correto: "faggot" está em vias de se tornar uma palavra proibida nos EUA, assim como "nigger" já o é em relação aos negros. Por aqui, eu defendo o contrário: uso "bicha" e "viado" a mais não poder, que é justamente para elas perderem logo qualquer carga pejorativa. Mas o discurso é mesmo de arrepiar, e ai como eu queria que o pai de toda biba fosse assim.

CREPÚS-CU-LO

A autora Stephenie Meyers, que é mórmon, deve estar furiosa: acaba de sair nos EUA a versão pornô gay de "Crepúsculo". "Versão" é bondade minha, porque, pelo trailer acima, eles só usaram o original como pretexto para botar um monte de vampirinhos transando em frente às câmeras. Cadê os lobisomens, porra? E, apesar de achar os garotos beeem interessantes, não gosto muito de ver tanto sangue em cenas de sexo. Eeww.

terça-feira, 25 de maio de 2010

VIDA PRIVADA

O comercial é antigo, mas só descobri hoje depois que um amigo postou no Facebook. E isto lá é lugar de se falar com o Charlie?

FERGALICIOUS

Foi duro acreditar que Sarah Ferguson está dura. Quando eu soube que ela tentou vender acesso a seu ex-marido, o príncipe Andrew, minha primeira reação foi de desdém: ela é uma milionária querendo levar uma vida de bilionária, coitadinha. Mas depois li mais sobre o assunto e fiquei mesmo com pena da duquesa de York. Como sua finada cunhada Diana, ela também teve pais ausentes, que jamais a prepararam para ser membro da família real. E, ao contrário de Diana, Fergie nunca teve beleza ou glamour, só um bom humor aparentemente eterno. Dizem que ela e Andrew ainda se amam, e que estariam casados se não fosse pela pressão da rainha. Ainda deve rolar algo entre os dois, pois Fergie mora numa ala do palácio de Andrew - os antigos alojamentos da criadagem, good gosh. Ela saiu do casamento praticamente de mãos abanando, sem casa própria e com uma renda anual de míseras 15 mil libras. Isto explica muitos dos escândalos e falcatruas em que a duquesa se viu envolvida nos últimos anos. Agora ela foi pega com a boca na botija: acho que não cometeu crime algum, mas com certeza destruiu qualquer chance de voltar com Andrew e ser aceita pela Rainha. Para completar a desgraça, ainda teve o apelido surrupiado pela cantora dos Black Eyed Peas.

FLORES HÚNGARAS

Hoje é dia do meu post semestral sobre a nova coleção do meu grande amigo Rodrigo Rosner. Ontem ele desfilou pela 5a. vez na Casa dos Criadores, desta vez inspirado na Hungria, terra de seus antepassados. Muitos looks ousados, com rendas, flores e capacetes da Formiga Atômica, como se pode conferir aqui. Aliás, esse foi o tom dos 5 desfiles da noite: uma moda inventiva e bem pouco comercial. Ou seja, ninguém vai vender nada, hahaha. Mas Casa dos Criadores é para isto mesmo. Deixa o pessoal da Fashion Week se preocupar com a caixa registradora.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

TRÊS É DEMAIS

Caramba, três anos de blog. Que parecem três mil: tantos posts, tantas aventuras, tantos amigos novos, que isto aqui chega a ser meu Facebook particular. Como nos velhos comerciais do Mappin, o blog faz aniversário, mas quem ganha o presente é você. Baixe aqui uma das minhas músicas favoritas de todos os tempos, a épica "Une Nuit à Paris" do 10cc. Essa banda inglesa dos anos 70 emplacou um megahit que até hoje nos inferniza nas Alpha FM da vida, "I'm Not in Love", que na verdade é muito mais ácida do que sua reputação de baba leva a crer (preste atenção na letra). Os caras faziam algo que poderia ser descrito como "art rock", sem a pretensão que esse nome evoca. "Une Nuit à Paris" é uma mini-opereta com quase 9 minutos de duração, com vários personagens e climas. Ouça com fones de ouvido e olhos fechados: as imagens sugeridas pela música são tão fortes que um videoclip é totalmente desnecessário. Ah, e obrigado pelos parabéns.

O SAMBA DO CRIOULO GREGO

A primeira versão de “Fúrias de Titãs”, de 1981, era razoavelmente fiel à mitologia grega – apesar da presença de uma ridícula corujinha mecânica, para agradar aos fãs dos robôs de “Guerra nas Estrelas”. A coruja faz uma ponta no remake do filme, e até que é uma homenagem simpática. Muito pior é o samba do crioulo doido que virou o roteiro. Como é que essa cambada de Hollywood se sente autorizada a reescrever os mitos da Grécia antiga, tão cheios de significados? A lógica parece ser garantir um grande número de “levels” para o inevitável videogame. E as soluções encontradas são bem pobrinhas, como os escorpiões gigantes – por quê não usar então algum monstro grego sensacional, como a Esfinge ou a Hidra de Lerna? Com os recursos tecnológicos de hoje em dia, seria incrível ver na tela todos os deuses e heróis que me encantaram na infância. Mas o Olimpo que aparece em “Fúria…” parece um carro alegórico de escola de samba. Apesar do meu purismo ter se incomodado bastante, preciso confessar que me diverti com o filme. Fui com meus sobrinhos, e é muito legal ver uma criança pular de medo quando Zeus brada uma das frases mais cafonas da história do cinema: “Soltem o Kraken!”

TODO MUNDO MORRE

Voilà: estraguei o final de "Lost" para quem ainda não viu. Eu também não vi, mas a internet hoje está bombando de notícias e comentários sobre o último episódio da série. Pelo jeito, a teoria mais antiga e popular estava mesmo certa: eles estavam todos mortos. Só que o purgatório não era a ilha e sim a tal da realidade paralela em Los Angeles, onde os personagens não se conheciam mas viviam se esbarrando. Pelo clip acima, o tom piegas e religioso foi tão grande que só faltou aparecer o espírito Emmanuel para guiar as alminhas para o além. Para completar a insatisfação dos fãs, muitas perguntas ficaram sem respostas, que talvez venham no DVD. Tô nem aí: só gostei da 1a. temporada, e nos últimos tempos achava o programa uma bobagem colossal. E ainda copiaram o final de "A Sete Palmos", esta sim uma série do grande caralho. Adeus, "Lost": seus mistérios não acabaram, mas o meu interesse, sim.

domingo, 23 de maio de 2010

Ó VIDA Ó AZAR

Fui assistir "Os Homens que Não Amavam as Mulheres" sem saber quase nada sobre o filme. Quer dizer, sabia que é baseado no primeiro livro de uma trilogia de enorme sucesso, que foi o campeão da bilheteria sueca ano passado e que será refeito nos EUA com Brad Pitt no papel principal. Mas sobre a história, necas de pitibiriba - ou seja, estava nas condições ideais para ser bem impactado. E fui: é um thriller inteligente, para adultos, com cenas violentíssimas e nenhuma concessão para a petizada. A trama lembra um pouco "O Silêncio dos Inocentes", pois aqui também há mulheres assassinadas com requintes de crueldade. Mas tem personalidade própria, muito por causa da personagem Lisbeth, uma punk tatuada expert em computação - e que está sendo disputada a tapa por todas as atrizinhas de Hollywood, como Keira Knightley, Carey Mulligan e Natalie Portman. "Os Homens..." tem duas horas e meia de duração mas carece de barriga, talvez porque muitas das tramas do livro não chegaram à tela. As duas continuações já estão sendo rodadas na Suécia, o que significa que ainda conviveremos por algum tempo com universo de "Milênio". Mas fico morrendo de pena do autor Stig Larsson, seguramente um dos caras mais azarados do mundo: alcançou fama e fortuna só depois da morte precoce aos 50 anos de idade.

sábado, 22 de maio de 2010

VOU DE TÁXI

Um leitor me sugeriu fazer um post para divulgar o twitter anti-Lei Seca em São Paulo, além do mais porque a semana da Parada está chegando. Não me faço de rogado: o endereço é http://twitter.com/leisecasp. Deve haver outros, assim como no Rio também existem vários. Eu mesmo nunca usei, mas já me aproveitei. Mais de uma vez estava a caminho da balada em carros de amigos que desviaram do caminho graças ao abençoado twitter. Há um lado transgressivo nessa história que não deixa de ser divertido: é a "sociedade civil" finalmente se mobilizando contra alguma coisa, no caso a ameaça ao sagrado direito de encher a cara e se esborrachar no trânsito. Não há nada que se possa fazer para impedir as pessoas de alertarem umas às outras sobre as "bols": o máximo que a polícia consegue é mudar o local da blitz depois que ela foi "denunciada", uma tarefa que não leva pouco tempo.

Agora, na boa: a Lei Seca pode ser imperfeita e draconiana, mas é inegável que ela salva vidas. Desde que foi implantada, há dois anos, eu praticamente só saio à noite de táxi. Sim, é mais caro do que pagar estacionamento, e olha que na TW ele já equivale ao preço de uma prestação da casa própria. Mas, além de ser mais seguro, o táxi é muito mais confortável. Posso cochilar e babar à vontade no banco de trás, sem me preocupar em acertar de marcha ré a porta da garagem em frente à minha (o que fiz uma vez e me custou 400 paus). A desobediência civil pode ser uma gracinha, mas andar de táxi e chegar são e salvo é muito mais civilizado.

ÔÔÔ ARIÁ RAIÔ

É super estranho ver no trailer de "Rio" as paisagens cariocas tão familiares servivrem de cenário para uma animação em 3D. Quer dizer, médio familiares: como é que os personagens saltam da Pedra Bonita, em frente ao Pepino, e vão cair em algo que parece uma mistura de Ipanema com Copacabana? O morro genérico no fundo da praia não permite uma identificação positiva. De qualquer forma, meu coração se encheu de orgulho pelo Brasil-il-il: dá-lhe, Carlos Saldanha! Só mesmo um brasileiro para incluir uma bunda de tanga num desenho animado americano. Lula só não vai se puxar para si mais esta façanha nunca-antes-neste-país porque o trailer faz uma propaganda bem mal-disfarçada do PSDB, kkkk. Os petistas devem estar umas araras.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

COMENDO BOLA - 2

Sensacional o novo comercial da Nike, dirigido pelo meu adorado diretor mexicano Alejandro González Iñárritu. Só que, mesmo tendo custado um quaquilhão de dólares, já nasce defasado. Lá está Ronaldinho Gaúcho, contratado da marca, mas que dificilmente irá para a África do Sul. Que mané samba-robics.

SEX AND THE BABIES

Acho que estou precisando fazer reposição hormonal. Meus níveis de gayzogênio devem estar baixíssimos, porque não estou subindo pelas paredes de vontade de assistir “Sex and the City 2”. O filme estreia semana que vem e a trilha já está vazando por aí. Tenho lido a respeito e tentado me animar, mas tudo me parece um grande infomercial para uma loja de ponta de estoque. Nem mesmo o badalado cover de “Single Ladies” por Liza Minnelli cumpre o que prometia: o começo é igualzinho ao original e o arranjo só assume ares de cabaré da metade para o fim. Aliás, “Single Ladies” já deu mais do que tinha que dar, em qualquer formato. Chega.

Talvez eu estivesse mais interessado em “SATC 2” se o filme seguisse um dos mini-roteiros de piada que o diretor John Patrick King mandou para a revista “Entertainment Weekly”. Como este abaixo, uma espécie de “Carrie Begins”:

Uma CRECHE cheia de bebês de 2 anos de idade. Num canto da sala, estão brincando BABY CARRIE, BABY CHARLOTTE, BABY MIRANDA e BABY SAMANTHA – que suga sua mamadeira com vontade.

BABY SAMANTHA

Hmmm. Hmmm. Hmmm. Hmmm.

BABY CARRIE
Já entendemos. Você gosta de leite.

BABY SAMANTHA
Desnatado, semi-desnatado, integral, com nata…

BABY CHARLOTTE

Nata? Eca!

BABY SAMANTHA
Você tem que experimentar de tudo para saber do que gosta.

Baby Carrie percebe que Baby Miranda está tristinha.

BABY CARRIE

O que foi, Miranda?

BABY MIRANDA
O tio nunca me pega no colo.

BABY CARRIE
Não é verdade. Já vi você no colo dele.

BABY MIRANDA
Foi só uma vez, porque eu tinha sujado minha fralda.

BABY SAMANTHA
Seja mais agressiva. Babe nele. Comigo sempre funciona.

BABY CHARLOTTE
Eu estou guardando minha baba para um tio que valha a pena.

BABY MIRANDA
Silêncio, olha ele aí.

UM FUNCIONÁRIO DA CRECHE se aproxima – só o vemos do joelho para baixo.

BABY CARRIE (OFF)
Olhei para o tio da creche e pensei: será que existe algum homem por quem valha a pena babar?

O funcionário coloca um MENININHO moreno ao lado de Baby Carrie. Eles trocam olhares.

BABY CARRIE (OFF)
Foi então que eu o vi pela 1a. vez… Mr. Little.

WE WILL WE WILL FUCK YOU

Será que nada mais é sagrado? A Hustler Video, especializada em paródias pornográficas de filmes como "Jornada nas Estrelas", está lançando a versão XXX de "Glee". Pelo trailer aí acima, os valores de produção são bem cuidadinhos e o elenco razoavelmente parecido com os originais. Finalmente veremos Sue Sylvester mastigando um carpete! Mas, para ser fiel à série mais gay de todos os tempos, precisava ter uma cena do Kurt fornecendo o rabicó para todo o time de futebol.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

ADULTÉRIO SILENCIOSO

O que seria do cinema francês se não existisse o adultério? Nenhum tema é tão recorrente por lá: casal pacato e aparentemente feliz entra em crise quando um dos cônjuges conhece alguém irresistível e resolve pular a cerca. Um enredo que já gerou clássicos como "A Mulher do Lado" de Truffaut, com a estonteante Fanny Ardant, e o recente "Partir", com a divina Kristin Scott-Thomas. Em "Mademoiselle Chambon" todo mundo é bem normal, sem grande charme ou beleza. Um pedreiro se interessa pela professora de seu filho, mas ninguém tem coragem de avançar o sinal. Longos silêncios, olhares pensativos, música de câmera. O filme ganhou o César de melhor roteiro adaptado, se bem que interessante mesmo é a direção de Stéphane Brizé, com tempos tão longos que beira a monotonia. Mas os personagens não precisam mesmo dizer muito para que se perceba o turbilhão em que vivem. "Mademoiselle Chambon" é bonitinho, mas já está na hora de vermos um filme francês em que o marido enjoasse da amante e voltasse correndo para a mulher.

CHUPA QUE É DE UVA

Jake Shears, o cantor dos Scissor Sisters, é capa da edição de junho da revista francesa "Têtu". Pena que esta foto só saiu nas páginas internas.

PÉROLAS CAINDO SOBRE O JADE

David Lynch e Marion Cotillard fizeram um curta-metragem na China. Legal, né? É um comercial para uma bolsa da Dior. Ainda interessado? Com 12 minutos de duração. Se nem isto lhe desanimou, então clica aê e assista “Lady Blue Shanghai”. Como todo filme de David Lynch, tem muito climão, muitas pistas falsas e pode significar um milhão de coisas. Ou não. Ou sim. Peixe.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O ESPIÃO QUE VEIO DO FRIO

Sem dúvida, é uma das campanhas publicitárias mais corajosas de todos os tempos. Para promover o filme “MacGruber”, que estreia nos EUA nesta sexta, o personagem-título twittou em alto e bom som que algumas fotos que ele havia feito nu, antes de se tornar um espião, haviam “vazado”. Em seguida ele dava o endereço completo do site e implorava para seus fãs não irem lá. “MacGruber” é um quadro do programa “Saturday Night Live” que satiriza seriados de ação como “MacGyver”, e é óbvio que o ator Will Forte não deve nem ter tirado as calças durante a sessão de fotos, escandalosamente photoshopadas. Mas, num mundo onde se acredita que uma mulher pode engravidar vendo um filme pornô em 3D, é preciso ter cojones para se arriscar a ter fama de mal-dotado. E o personagem sempre pode dizer que o ar condicionado do estúdio estava muito frio.

COMENDO BOLA

A nova edição da revista "Vanity fair" mal chegou às bancas e já está desatualizada. Vários dos jogadores fotografados por Annie Leibowitz para a matéria de capa sobre a Copa do Mundo não foram convocados para as seleções de seus países - como, por exemplo, o brasileiro Pato. Ao que eu pergunto...

(pausa dramática)

WHO THE FUCKIN' CARES??

PAPAI FALA-MERDA

118 tweets. Foi tudo o que Justin Halpern precisou para lançar um livro e emplacar uma sitcom na grade da rede CBS. Na verdade, menos ainda: esses contratos todos já estavam assinados antes de seu último tweet, no dia 11 de maio. Nada mau, hein? E pensar que o cara começou a twittar em agosto do ano passado… Tanto o livro quanto a série têm o mesmo nome da página: “Shit My Dad Says” (se bem que na TV a pronúncia vai ser “Bleep”). Diz o autor, que tem 29 anos, que todas as citações de seu pai, de 74, são verdadeiras. A maioria vem recheada de palavrões, mas são de fato muito engraçadas. Claro que deve ter ajudado o fato de Halpern ser senior writer do site da revista “Maxim” (e agora também roteirista de seu próprio programa de TV, que será estrelado pelo capitão Kirk original, o lendário William Shatner). É a primeira vez que um perfil no Twitter é adaptado para a televisão. Mas é só mais uma das vezes em que eu me arranco os cabelos e pergunto: por quê não pensei nisto antes?

E agora, alguns tweets de Halpern (ou de seu pai) selecionados e traduzidos:

“Você viu meu celular por aí?... Como que ele é? Parece dois cavalos fodendo. É um celular, filho. Parece com um celular.”

“Isso é Los Angeles, filho. É o epicentro do terremoto dos cuzões. Eles foderiam com você duas vezes se tivessem um pinto a mais.”

“Um pai é tão bom quanto seu filho mais burro. Se um filho ganha o prêmio Nobel e o outro é roubado por uma puta, o pai falhou.”

"Dá para falar depois? Está na hora do jornal. Se você estiver com tuberculose, ela não vai piorar na próxima meia hora."


Juro que é mais engraçado em inglês. Quer seguir? Clique aqui.

terça-feira, 18 de maio de 2010

UNIVERSO EM DESENCANTO

A eleição presidencial brasileira deste ano encerra uma contradição aparente. Tudo indica que vem uma campanha duríssima por aí, e tenho a sensação de que o vencedor – seja lá quem for – vai vencer por pouco, depois de um segundo turno disputado voto a voto. Mas este cenário de competição acirrada também apresenta níveis supreendentemente baixos de paixão e envolvimento.

É o que eu vejo e leio à minha volta. Amigos que se engajaram para valer em eleições passadas – principalmente em 2002, na época do “Lula lá” – agora se confessam desmotivados e com dificuldade para escolher um candidato. Nem mesmo a novidade representada por Marina Silva consegue empolgar por muito tempo: basta lembrar que ela pertence à Assembléia de Deus, a mesma igreja evangélica de Silas Malafaia, o inimigo no. 1 dos gays brasileiros, e qualquer entusiasmo arrefece na hora.

Sou bem mais velho que muitos dos meus amigos desencantados. Participei das passeatas pelas Diretas Já em 84 e pintei a cara contra Fernando Collor em 91. Hoje em dia, a única causa política que realmente me mobiliza é a luta pelos direitos dos homossexuais. Não nutro uma grande paixão nem uma aversão visceral por nenhum dos principais candidatos. E sabe o que mais? Isto é bom.

Democracias consolidadas costumam ter eleições chochas, sem vitórias acachapantes nem manifestações extremadas. É um sinal de que as coisas vão bem, e que uma rotina saudável vem se instalando. Candidatos que inflamam multidões são sempre de oposição, como Obama em 2008 ou Lula em 2002. Com a economia aquecida e nenhum assunto polêmico polarizando a sociedade, só podia dar no que deu: um ambiente político relativamente morno.

Os mais jovens se sentem meio órfãos, sem ter em quem votar. Os macacos velhos feito eu já não têm tantas ilusões. Hoje sabemos que é praticamente impossível fazer política sem sujar as mãos: Dilma tem o apoio de calhordas como Sarney e Renan Calheiros, e Serra tem o de canalhas como Quércia e, provavelmente, Maluf. Marina, se crescer, também vai ter que ceder. Infelizmente.

Se você é daqueles que estão desanimados com o panorama atual, não se assuste. É só um sinal de que o processo político brasileiro precisa cada vez menos de salvadores da pátria, e que está amadurecendo. Você também está.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

NUM DIA LINDO ASSIM

Sabia que hoje é o Dia Internacional de Combate à Homofobia e à Transfobia? Pois é, aqui na Brasil a data está passando meio batida: só os blogs e sites especializados estão comentando. Como conta o Daniel, o presidente em exercício José Alencar se recusou a assinar a lei que criaria o Dia Nacional de Combate à Homofobia, alegando preferir “deixar a honra para o presidente Lula”. Alencar é do PRB, partido ligado à Igreja Universal, e com essa desculpa esfarrapada conseguiu não eriçar seus correligionários. Aposto que Lula também vai sair pela tangente, e pelo mesmo motivo: em ano de eleição, é muito mais nocivo se indispor com os organizados evangélicos do que com a bicharada dispersa.

Nos EUA o IDAHo tampouco chegou às manchetes, mas foram organizados beijaços em diversas cidades. O tema deste ano é religião: como fazer as grandes crenças se tornarem aliadas da causa homossexual? Muito nobre o propósito, mas acho que é dar murro em ponta de faca. De qualquer forma, apesar do Alencar, várias notícias me deixaram animado hoje:

- O presidente português Cavaco e Silva assinou a contragosto a lei que regulamenta o casamento gay em terras lusas. Disse ele que prefere evitar um debate nesse momento em que a economia de Portugal está indo à matroca, e que também preferia que o casamento entre pessoas do mesmo sexo não se chamasse casamento – como acontece na Grã-Bretanha, na França e na Dinamarca, por exemplo. Pois por mim pode se chamar Manoel ou Joaquim, o que importa são os direitos iguais.
(leia aqui a notíca em detalhes, enviada pelo Daniel Francisco, meu mais assíduo leitor tuga.)

- A ex-primeira-dama americana Laura Bush está em plena turnê promocional, badalando sua recém-lançada autobiografia “From the Heart”. E não é que a mulher do pior presidente americano de todos os tempos - e que perseguiu os homossexuais não por convicção, mas por cálculo politico – já declarou em dois programas de TV que é a favor do casamento gay e do aborto? Ela também disse que discutiu muito com o marido sobre esses assuntos. Não adiantou muito, né? Mas que bom que ela agora, por assim dizer, saiu do armário.

- A atual fase militante da Globo começou antes do histórico “Profissão Repórter” da semana passada. Ontem o Alexandre Lucas do RH do Inferno postou uma cena de paquera gay exibida no “Malhação” em abril, que escapou dos radares da mídia (pelo menos da que eu acompanho). Os diálogos são meio bobinhos, mas a intenção é pra lá de boa. Talvez a emissora esteja mudando de nome para GLSobo, rárárá.

QUE BURCA QUE NADA

Todo mundo adora meter o pau nos EUA, mas o país deu mais um passinho adiante na noite de ontem ao eleger sua 1a. miss muçulmana. Rima Fakih nasceu no Líbano, mas sua família se mudou para o Michigan - um estado que tem uma enorme colônia árabe - quando ela tinha 3 anos de idade. Era, de fato, a mais linda das concorrentes, e se destacava fácil no meio daquele mar de louras genéricas. Falta-lhe um pouco de sustança no corpo, como podemos comprovar pela foto de biquíni. Mas não lhe falta coragem: a internet já está bombando com ameaças de fanáticos e engraçadinhos à moça, que ousou mostrar para o mundo o que as filhas de Alá têm por baixo dos véus. A extrema direita americana também está espumando, e até já acusou a família de Rima de terrorista. Resumo da ópera: uma mulher linda que consegue irritar tanto os radicais islâmicos quanto os reaças hidrófobos merece mesmo ser coroada.

SÓ AS CACHORRAS

Para promover o Café para Elas, a edição do Café com Vodka voltada para o público feminino que acontece no dia 4 de junho, o Duda Hering chamou vários amigos para se montarem durante o CCV de ontem. Eu cheguei até mesmo a bolar um look matador - turbante, óclão, brincão e uma boneca ensaguentada na mão - mas na hora medrei. Muitos outros tiveram coragem, e alguns resultados estão aí embaixo. Nem todos ficaram convincentes: ponha uma peruca comprida numa barbie tatuada e com a barba por fazer, e ela fica parecendo um jogador argentino. Mesmo assim, foi apoteótico o desfile-trenzinho das preparadas pelo Sonique, ao som de "Single Ladies". (perdão pela péssima qualidade das fotos: meu celular não tem flash.)O Duda é considerado um dos homens mais lindos de SP. Ainda bem que ele não nasceu mulher, né?A Rainha Branca da "Alice", etérea e delicada.Agora, moderno mesmo é uma menina montada de drag.

(Quer ver fotos decentes da festa? Então visite o Vipado, aqui e aqui)

domingo, 16 de maio de 2010

BEM-VINDO AO IRÃ, SR. PRESIDENTE

Lula já está em Teerã, onde banca a aposta mais alta de sua política externa. Se sua “certeza de 99,9%” estiver mesmo correta e Ahmadinejad assinar algum acordo que limite a capacidade nuclear do país, nosso presidente terá marcado um golaço histórico e elevado o Brasil ao patamar de uma potência a se considerar. Se, como acho mais provável, voltar de mãos abanando, terá passado por um vexame que arranhará nossa reputação internacional.

Nossa diplomacia cobriu os iranianos de beijinhos e carinhos sem ter fim: até mesmo a maior condecoração brasileira, a camisa da seleção, foi presenteada ao ditador. Enquanto isto, a besta-fera do Marco Aurélio Garcia finge que o fato do Irã enforcar prisoneiros politicos – só domingo passado foram 5 – é infinitamente menos grave que a deposição do Zelaya em Honduras.

Não sou espírito de porco: torço mesmo para Lula ser bem-sucedido, porque torço para o Brasil. Mas sinceramente duvido que todos esses afagos em regimes criminosos como o Irã, Cuba ou o Sudão sejam apenas realpolitik, sapos que têm que ser engolidos para alcançarmos um objetivo maior. Também têm muito de anti-americanismo raso e miopia política. As vidas desses jovens enforcados, quase todas parecidíssimas com as das lideranças do PT na juventude, mereciam mais respeito.

ATUALIZAÇÃO: Ufa, o acordo saiu. Ponto para Lula e para o Brasil. Agora, a imprensa internacional está reagindo com ceticismo: em parte porque não está acostumada em ver nosso país como um major player na mediação de conflitos, mas também porque o Irã não merece confiança. Já descumpriu inúmeros acordos, e pode ter se aproveitado de Lula apenas para ganhar tempo e adiar as sanções. Fique ligado.

MEIA-IDADE NA IDADE MÉDIA

Agora a moda é pegar histórias clássicas, manter mais ou menos os nomes dos personagens e jogar o resto no lixo. Foi assim com “Alice” e é assim com “Robin Hood”, que não conserva quase nenhum elemento da lenda original. Até aí zuzo bem, porque lenda é lenda, não aconteceu de verdade. Mas para mim que sou esnobe doeu o fato de um soldado filho de pedreiro saber ler fluentemente em plena Idade Média – e tudo que ele lê está escrito em inglês moderno, com caracteres tipográficos e perfeita separação entre as palavras. Estou sendo chato, né? Mas eu implico com essas liberdades típicas dos filmes históricos de Ridley Scott. Em “Gladiador” ele já tinha um protagonista que lutava pela democracia em plena Roma do século II. Agora a história da Inglaterra é travessamente reescrita: o rei Ricardo Coração de Leão morre num lugar onde não morreu, os franceses tentam uma invasão que nunca ocorreu e assim por diante. Além disso, Russell Crowe e Cate Blanchett, na casa dos 40, estão velhos demais para os papéis centrais. Mas, se abstraírmos disso tudo, até que “Robin Hood” é interessante, com boas cenas de batalha e alguma intriga política. E mil vezes melhor que a última versão para o cinema, que tinha Kevin Costner no papel mais ridículo de sua ridícula carreira.

sábado, 15 de maio de 2010

CHLOE A SUA

A premissa de "O Preço da Traição" é tão démodé que, para ser levado a sério, o filme teria que se passar nos anos 50 - ou melhor ainda, ter sido feito nos anos 50. Tem coisa mais cafona e datada do que uma mulher contratar uma puta para testar a fidelidade do marido? Hoje em dia tudo se resolveria com uma boa visita a uma casa de swing onde todos se divertiriam muito, mas não: os personagens vivem na Toronto de hoje, mas suas cabecinhas estão presas a um passado pré-pílula e pré-revolução sexual. O título brasileiro, digno de novela mexicana, até combina mais que o original, o pseudo-chic "Chloe". O diretor canadense Atom Egoyan, que já foi considerado um auteur, virou um sub-Adrian Lyne e não se enrubesce em banalizar "Nathalie X", o filme francês em que se baseia o roteiro. Lá tínhamos Fanny Ardant, Gérard Depardieu e Emmanuelle Béart; aqui temos Julianne Moore (tão ruiva que parece estar com rubéola), Liam Neeson e Amanda Seyfried, a gostosinha do momento. E mais um filho adolescente que não existia no original, além de uma cena de sexo lésbico gratuita e absurda - como é que uma ginecologista com mais de 20 anos de carreira descobre de repente que gosta de xoxota? "Chloe" tem lá seu sabor camp e provavelmente renderia mais nas mãos de um Almodóvar, que exageraria o melodrama. Do jeito que está, é uma mistura de "Atração Fatal" com comercial de perfume. E pensar que a pobre da Natasha Richardson morreu por causa deste filme...

TRISTEZA DO JECA

Visite qualquer museu importante nos Estados Unidos e você vai se deparar com um número enorme de alas batizadas com os nomes dos doadores. Por lá pega super bem a elite fazer contribuições milionárias para instituições culturais. Por aqui, esta prátca só é visível nos hospitais das grandes colônias de imigrantes: o Einstein, o Sírio, a Beneficência Portuguesa, todos exibem garbosamente os nomes de seus riquíssimos colaboradores, às vezes em prédios inteiros. E pelo jeito vai continuar restrita a este universo, depois da inacreditável demonstração de jequismo do centro acadêmico XI de Agosto, da São Francisco, uma das mais venerandas faculdades de direito brasileiras. Antes que o pessoal do interior pegue em armas, deixe eu explicar que estou usando a palavra jeca no pior sentido: de alguém atrasado, ignorante, feliz em seu mundinho pré-capitalista e refratário à modernidade. Não consigo pensar em nada mais jeca do que os diretores do XI de Agosto tapando os nomes das salas tinindo de novas da São Francisco, só porque são os dos doadores (teve dois que doaram mais de um milhão de reais cada um). Dizem eles que isto rompe a "tradição" de se batizar salas com nomes de antigos professores. O que está por trás disto é uma mentalidade esquerdista adolescente, aliás perfeitamente justificável dada a idade da molecada. Mas como disse o grande Ives Gandra Martins, é um tiro no próprio pé. Então era preferível que a elite escondesse essa grana nas Ilhas Cayman, como de costume? Larguem desse purismo policarpiano, rapazes, e aprendam a conviver com a vaidade humana. Chega de cantar que não há, ó gente, ó não, luar como este do sertão, e entrem de uma vez no século 21.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

PODEROSA AFRODITE

Tá difícil achar graça nas divas beeshas veteranas depois da Lady Gaga. Fico sentindo falta de uma lata de Coca enrolada no cabelo ou de um refrão épico para berrar na buatchy. Hoje Kylie Minogue divulgou na rede a capa e o nome de seu novo CD, "Aphrodite", e também o 1o. single, "All the Lovers", que só sai daqui a um mês. A música até que é bonitinha, com um vibe bem mid-90's, e tem potencial de hino se for remixada pelas mãos certas. A produção é de Stuart Price, que já foi descartado por Madonna, e o álbum ainda tem a participação do pessoal dos Scissor Sisters e outros menos cotados. Vou conferir: Kylie é entrenimento puro, sem pretensões de arte ou nem mesmo fashion. Ainda tem seu poder.

AUTOMOVINHOS

Sou totalmente a favor da lei Cidade Limpa, que proíbe quase todos os tipos de propaganda de rua em São Paulo. Mas ela também impede que se façam peças bacanas como esta, criada pela Ogilvy do México.

PIPOCA ANÊMICA

Filmes de super-herói são fast food em celulóide: sabores familiares em versão infantil, para serem devorados de uma só bocada e esquecidos mais rápido ainda. "Homem de Ferro 2" nem chega a isto. É um pacote de pipoca tamanho jumbo, salgadinho e gorduroso no começo, mas que logo perde a graça - e que parece não acabar nunca, por mais que você coma. Tem alguns momentos legais, como a corrida em Mônaco ou a festa em que Tony Stark/Homem de Ferro toma um porre e perde o controle, praticamente uma metáfora da vida de Robert Downey Jr. Mas há muitos tempos mortos, personagens em excesso e um vilão que pretende vingar a morte do pai, o mais antediluviano dos clichês. Pelo menos esse vilão é Mickey Rourke, mais xexelento e divertido do que nunca. A quantidade de explosões e objetos brilhantes me fez sentir o próprio índio, a quem Hollywood tenta seduzir com espelhinhos. Mas tanto vidro estilhaçado e tantos choques elétricos não escondem a anemia dessa sequel atrapalhada. Falta hemoglobina nesse ferro.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

QUEM MATOU O MEU MARIDO NÃO FUI EU

Eis o almodovariano clip de "Insanidade Temporária", a melhor música do disco da Marisa Orth, dirigido pela minha amiga e colega de trabalho Ivy Abujamra. Dá até vontade de enfiar a faca em alguém, não dá?

(Lô Politti, obrigado pela dica)

A CRUELLA BRASILEIRA

Sim, sim, a procuradora aposentada Vera Lúcia de Sant'anna Gomes é a pior pessoa de todos os tempos, e merece ser cozinhada em fogo lento enquanto é alvejada por setas envenenadas. Mas não dá para negar que a mulher tem um senso fashion no mínimo divertido. Primeiro ela aparece com longas madeixas louras totalmente inadequadas para sua idade, parecendo a Medusa depois da chapinha. Hoje ela se entregou à polícia de turbante, óclão e brincão, talvez achando que está num filme onde seu papel é interpretado por Glenn Close. Hay que torturar, pero sin perder el glamour jamás.

ADOTADOS PELA GLOBO

Pronto, tá aí a versão completa do depoimento que foi ontem ao ar logo depois do antepenúltimo capítulo de "Viver a Vida". Mais uma história de casal do mesmo sexo que conseguiu adotar uma criança. Obrigado ao Guga, que mandou o link. E agora dá para no mínimo desconfiar que a Globo, que sempre cortou os beijos gays de suas novelas, adotou a nossa causa e está jogando do nosso lado.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O ELEFANTE COR-DE-ROSA

Tá rolando o maior bafafá no meio artístico americano. Tudo culpa de um artigo publicado na versão online da revista "Newsweek", assinado por Ramin Setoodeh - que costuma escrever sobre assuntos gays e é tido e havido como do time também. Na já infame matéria (que pode ser lida aqui, em inglês), Setoodeh começa narrando seu desconforto ao ver o musical "Promises, Promises" na Broadway. Seguindo ele, havia um "elefante cor-de-rosa" no palco: o fato do personagem principal, que é hétero, ser interpretado por Sean Hayes, que acabou de sair do armário. Segundo ele, é praticamente impossível um ator assumidamente gay ser convincente fazendo um breeder. E seguiu dando exemplos, atacando inclusive a série "Glee". Não demorou muito para a atriz Kirstin Chenoweth - que tanto está em cartaz com "Promises..." como também já participou de "Glee" - escrever uma réplica basicamente mandando Setoodeh tomar no cu. Seguiu-se uma exigência de desculpas públicas pelo criador do programa, Ryan Murphy, logo secundado pelo presidente GLAAD, que defende os direitos bibais nos EUA. Meu coração está com eles, lógico, ainda mais porque a linha de raciocínio de Setoodeh soa antiquada e reacionária. Uma pessoa de bem pode perfeitamente interpretar um assassino, e assim por diante. Mas não deixo de reconhecer que o autor tem um pingo de razão: dá para imaginar o que seria da carreira de um George Clooney, por exemplo, se ele resolvesse soltar a franga?

TUDO EM FAMÍLIA

Há algo no ar além das cinzas do vulcão da Islândia (parênteses rápido: adoro como a Globo jogou a toalha e nem se atreve mais a dizer "Eyjafjallajökull". Agora ele se chama simplesmente "o vulcão da Islândia"). A autorização pelo STJ, há duas semanas, para que um casal de lésbicas registrasse seus filhos no nome de ambas deixou a homossexualidade mais na moda do que o cabelo do Justin Bieber. Na mesma semana em que a "Veja" deu capa, a Globo exibiu um "Profissão Repórter" mais do que simpatizante - praticamente militante. Durante o programa, foi recorrente os próprios apresentadores dizerem que queriam ajudar mais e mais pessoas. As chamadas apelaram um pouco: dizia-se que iríamos acompanhar o "drama das famílias que convivem com o preconceito". O que se viu na tela foram famílias que em grande parte já superaram os próprios preconceitos internalizados e hoje vivem o "drama" de uma vida normal: corre-corre, namoro, problemas de saúde. Mas quem somos nós, drama queens de carteirinha, para acusar alguém de carregar nas tintas?Então vou exagerar também: acho que o "Profissão Repórter" de ontem foi a melhor coisa que aconteceu para a bicharada brasileira desde que inventaram o carnaval. Me debulhei em lágrimas quando apareceu o almoço de domingo na casa dos Reder, no final. Lá estava uma arquetípica família de classe média, com pai conservador, irmão bofinho e mãe caretona, todos convivendo numa ótima com o filho caçula (um gatinho) e seu namorado (que vai melhorar quando tirar o aparelho dos dentes). Mais uma prova de que os direitos dos homossexuais vão mesmo avançar no Brasil por esta trilha: a cordialidade, as relações familiares, o amor. É o amoooor.

terça-feira, 11 de maio de 2010

CACHORROS RAIVOSOS

Lars Viks, o cartunista dinamarquês que desenhou Maomé como um cachorro, foi agredido por radicais islâmicos durante uma palestra na universidade de Uppsala, na Suécia, na tarde de hoje. Adivinha o tema da palestra? Liberdade de expressão. Que, na civilizada Suécia, é infinitamente maior do que em qualquer dos países de onde vêm esses extremistas. Dá vontade de imprimir camisetas com Maomé de cachorro e sair desfilando por aí.

ALFORRIA DIGITAL

Há meses que a NET vinha ligando para mim, tentando me convencer das delícias da TV digital. Em vão: além de achar mínima a melhora da imagem proporcionada pela nova tecnologia, tentei explicar várias vezes que no momento não estou podeeennndo trocar de aparelho. Mas a NET não se deu por vencida e continuou me ligando. Até que na última vez eu fiz uma contra-proposta: “por que vocês não me oferecem algo que eu realmente esteja querendo, como um troço tipo TiVo?" A moça quase riu na minha cara, e respondeu que o pacote HD Max inclui um gravador digital. Capitulei e autorizei a instalação. E foi aí que minha vida mudou.

A primeira surpresa foi, dou o braço a torcer, a qualidade da imagem. A engenhoca foi acoplada à TV do meu quarto, que é o único ponto da casa que tem todos os canais que eu assino, if you know what I mean. É uma Gradiente imensa, de 1995. Funcionou maravilhosamente esses anos todos, mas de uns tempos para cá vinha apresentando chuviscos e fantasmas. Hora de trocar, pensei. Mas não é que foi só chegar a porra do HD Max e a imagem da véia ficar perfeita, nítida, cristalina?

Mas a grande mudança é mesmo a liberdade. Sou viciado em séries de TV, e todo santo dia tem pelo menos uma que me interessa sendo exibida em algum canal a cabo. Como também gosto de ir ao cinema, ao teatro, jantar fora e fazer muitas outras coisas que não envolvem televisão, vivia no eterno dilema: saio para ver “Tulpan” ou fico em casa assistindo “Ugly Betty”? Era comum ter que garimpar nos horríveis sites da Sony e do AXN os horários alternativos dos meus programas favoritos – geralmente em pleno fim de semana, só para atrapalhar meus outros planos.

Agora isto é passado. Sou um homem livre. Com poucos toques no controle remoto, estou gravando tudo que não tenho tempo de ver na hora. Até o if you know what I mean entrou na roda, rárárá. Já acumulei um montão de coisas no disco rígido, que só estão esperando um momento livre para serem devidamente assistidas. Claro que o que está duro de pintar é o tal de momento livre, mas para isto não há NET que dê jeito.

(Sei que não dá para acreditar, mas juro que este post não teve patrocínio de ninguém)

GIVE ME A FUCKIN' BEER

Propaganda de cerveja sem álcool usa sempre a mesma piada: a pessoa acha que está bêbada quando na verdade não está. Mas este comercial holandês ficou divertido, porque Mickey Rourke não se incomodou em manter sua fama de mau.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

YOU'VE BEEN A VERY BAD GIRL, GAGA

Os posts de hoje saíram meio sisudos demais. Então, para contrabalançar, lá vai o flash mob mais divabeeshístico de todos os tempos, que rolou em Sydney sábado retrasado. Tente controlar seus pezinhos.

NEANDERTHAL MON AMOUR

Foi um alívio saber que o Homo Sapiens e o Homo Neanderthalis andaram aprontando e tiveram hominhos. Sempre me incomodou a ideia de que os neanderthais haviam sido varridos da face da Terra por uma espécie superior. Essa teoria tem sabor racista e parece justificar qualquer tipo de perseguição – “eles são mais atrasados do que nós, portanto merecem morrer”. Parece que a coisa não foi tão simples assim, já que descobertas recentes apontam que grande parte da humanidade tem alguma porcentagem de DNA neanderthal – todo mundo menos os africanos, que ironia deliciosa. Justamente o grupo étnico mais discriminado e escravizado é o único que pode se gabar de ser 100% sapiens. Mas no frigir dos ovos isto também pode se revelar uma bobagem, porque no fundo somos todos, sem exceção, uns selvagens trogloditas.

KAGAN E ANDAN

Na manhã de hoje, o presidente Barack Obama indicou a juíza Elena Kagan para ocupar a vaga que será aberta em breve na Suprema Corte americana. A indicação precisa ser aprovada pelo Congresso. E os republicanos, apesar de serem minoria, prometem mover céus e terras para melar o processo. Já estão acusando a indicada de praticamente tudo: esquerdista, despreparada, racista, nazista, corintiana, whatever. Ah, e lésbica, claro - Kagan é solteira, não tem filhos e não é exatamente uma rainha da beleza (sejamos francos, vai: tem a maior pinta de ser lésbica). Mas o que me irritou mesmo foi a resposta da Casa Branca. Ao invés de dizer que a orientação sexual não tem nada a ver com o desempenho de um juiz, os defensores de Kagan preferiram dizer que não há provas e que é tudo intriga da oposição. Ou seja, validaram o argumento do inimigo. Pode ser estratégia para garantir a vitória. Mas já pensou que legal se, depois de aprovada, a nova juíza assumisse publicamente sua sapatice?

domingo, 9 de maio de 2010

SONHO INTERROMPIDO

Heath Ledger morreu. Heath Ledger morreu. Heath Ledger morreu. Impossível não ficar com isto batucando na cabeça durante "O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus". Ainda mais porque, logo em sua primeira cena no filme, o ator aparece enforcado, pendurado embaixo de uma ponte. Quis o destino que ele morresse de verdade durante as filmagens, e fosse substituído por Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell. A solução até que funciona - os amigos funcionam como avatares do protagonista dentro do tal mundo imaginário - mas reforça ainda mais o refrão mental de "Heath Ledger morreu". O cineasta Terry Gilliam é um dos mais azarados do mundo. Suas filmagens são sempre acidentadas, e o processo tortuoso acaba se refletindo na tela. Como todos seus outros filmes, "Parnassus" é um delírio visual, com imagens vindas diretamente de sonhos. E também, como de costume, a narrativa é confusa, com idas e vindas desnecessárias e motivações sacrificadas em prol do deslumbramento. Vale a pena pelo clima psicodélico vitoriano, que foi indicado aos Oscars de figurino e direção de arte. E pela última interpretação, ainda que incompleta, do grande Heath Ledger.

sábado, 8 de maio de 2010

GERAÇÃO COLORIDA

Simpática e simpatizante a matéria de capa da "Veja" que saiu hoje. A revista mostra como os adolescentes estão saindo do armário cada vez mais cedo, sem maiores traumas. Resisitu bravamente à tentação de entrevistar o "outro lado", com religiosos e terapeutas de araque dizendo que essa garotada vai arder no fogo do inferno. Mas deu várias escorregadas, como pintar um quadro vário matizes mais rosado que a realidade - o André Fischer tem razão, ao dizer em seu blog, que ser teen e gay ainda é um problema seríssimo em quase todo o Brasil. Também é irritante a utilização de termos bobos, como "coloridos," ou incorretíssimos, como "opção pelo homossexualismo". Mas no geral o saldo é ultra positivo, pois pode dar alento a mais jovens e, principalmente, a seus pais, enfrentarem com coragem uma questão que ainda é delicada. E como eu queria ter naquela idade a desfaçatez da turma que posou para as fotos, com rosto, nome e sobrenome.

(A matéria pode ser lida aqui, e a versão online ainda traz uma seção de perguntas e respostas sobre união estável entre homossexuais que não aparece na versão impressa.)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

GOTAS DE SANGUE

Já estou com os caninos eriçados só de pensar que falta pouco para a estreia da 3a. temporada de "True Blood", a única coisa com vampiros que ainda vale a pena assistir (e muito). A HBO preparou uma campanha com "minisódios" de apenas alguns minutos: vinhetas que não têm a ver com as tramas que vêm por aí, mas que capturam, mordem e sugam toda a essência do programa. Dos 6 previstos já saíram 2, e este aí em cima é o segundo. Gostaria de dedicá-lo ao ex-governador Anthony Garotinho, que esta semana recebeu a desonrosa medalha do Mais Escroto Brasileiro Vivo. Ainda Vivo, aliás. Mwahahaha.

CHINGLISH

quinta-feira, 6 de maio de 2010

SOFT PORN

Sabe essas atrizes que pornô que, depois de darem muito em frente às câmeras, tentam fazer carreira no dito cinema sério? Certo, não tem muitas - só lembro da Traci Lords. Mas algo parecido está acontecendo com Isabella Rossellini. Ela fez duas temporadas de "Green Porno" para o Sundance Channel, um canal a cabo da TV americana: mini-episódios que dramatizavam, com figurinos bizarros, a vida sexual de insetos, moluscos e crustáceos. Agora ela pega mais leve com "Seduce Me". A linguagem visual é a mesma, mas o foco dessa vez é nas táticas de xavecagem do mundo invertebrado. A ação é interrompida antes da hora do vamo-vê. Só espero que, nessa busca por respeitabilidade, a ex-explícita Rossellini não acabe se tornando evangélica.

TANGO ASSEXUADO

Apaixonar-se por um argentino é decepcionar-se. Pode perguntar para qualquer pessoa que já tenha namorado um portenho. Esta experiência eu não tenho no meu currículo, mas a Argentina acaba de me causar a segunda decepção musical em menos de um mês. Primeiro foi o Fito Paez, agora o Gotan Project - nada menos que os criadores do tango eletrônico, um dos meus gêneros musicais favoritos. Já disse até que era a melhor trilha sonora para transar. Pois bem, o 3o. disco de estúdio da banda – imaginativamente chamado de “Tango 3.0” – quase consegue tirar todo vestígio de sensualidade do tango, como se isto fosse possível. Os arranjos, que eram revolucionários na estreia “La Revancha del Tango”, agora são predominantemente acústicos. E a levada da maioria das faixas é lenta, quase arrastada. O que salva é que ainda há muita inventividade, como a batucada gerada a partir do barulho de um trem em “Mil Millones” ou o coro de criancinhas em “Rayuela” (“Amarelinha”, e também o nome do romance mais famoso de Julio Cortázar, um dos mais emblemáticos escritores argentinos). “Tango 3.0” é muito bom, sem dúvida. Mas, apesar da capa com letras formadas por mulheres nuas, falta aquele tesão que os rivais do Bajofondo ainda têm. E que é essencial para se bailar una milonga.

O TINTIN DA VIDA REAL

Impossível não lembrar das aventuras do repórter belga ao ler os livros em quadrinhos do canadense Guy Delisle. A diferença é que, enquanto Tintin era notoriamente assexuado, Delisle é casado e tem um filho. Suas peripécias pela Ásia também não são coloridas como as desenhadas por Hergé, mas o nível de detalhe e observação é até maior. Já tinha lido “Pyongyang”, a melhor narrativa que encontrei até hoje sobre a fechadíssima Coreia do Norte. Em “Crônicas Birmanesas”, Delisle mergulha em Myanmar, ou melhor, na Birmânia (acho ridícula essa mania de países desimportantes exigirem serem chamados por seus nomes nativos. Imagina se teria cabimento a China querer ser conhecida como Zhongguo ou o Japão como Nihon). Enfim, a Birmânia é uma ditadura férrea há quase 50 anos, e muito pouco visitada pelos ocidentais. Como mme. Delisle trabalha para a ONG Médicos Sem Fronteiras, a família está sempre sendo transferida para algum lugar barra pesada (atualmente estão em Israel). Guy não tem o menor pudor de assumir as tarefas domesticas enquanto a patroa trabalha fora, o que também lhe dá tempo de se dedicar aos quadrinhos. As melhores cenas do livro vem justamente da interaqção entre pai e bebê com os costumes de uma sociedade exotica. Quando terminar este, vou comprar “Shenzen”, sobre a China. Agora viciei.

LET ME HEAR YOUR BODY TALK

It's official: "Glee" é a série mais gay de todos os tempos. Duas semanas depois da histórica recriação de "Vogue", Sue Sylvester ataca de "Physical" ao lado de uma replicante de Olivia Newton-John totalmente construída em laboratório. Qual será o próximo hino a ser profanado? Sugiro "Touch My Body".

(Tome esta, Dudubraga. E mais esta.)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A GUERRA DOS MUNDOS

Recebi um e-mail alarmado de uma amiga, com um link para uma notícia estarrecedora: "Casal gay foi impedido de adotar um surfista de 22 anos". Ela estava tão indignada que não percebeu que era piada. Não só ela, aliás: a boutade foi fartamente postada, blogada e twittada do Oiapoque ao Chuí. Um site evangélico, Ogalileo, deu com grande alarde - até aí, nenhuma novidade, porque esses crentes são todos umas antas. Mas nem o pessoal supostamente mais esclarecido do Mix Brasil escapou, veja só. Reproduziram a notícia inteira, com foto e tudo, sem se dar conta de que ela se originou no Sensacionalista, um site de humor que eu não conhecia (mas já favoritei, porque parece a versão tupiniquim do engraçadíssimo The Onion). Foi uma repetição em menor escala da famosa "Guerra dos Mundos", o programa de rádio de Orson Welles que causou pânico nos anos 30 fazendo os ouvintes crerem que a Terra estava sendo invadida por marcianos. O que me fez pensar cá com meus botões: a adoção por casais gays é um assunto que encobre um número enorme de medos e ansiedades, de todos os lados do espectro político. E algumas dessas ansiedades vieram gloriosamente à tona na tarde de hoje, só por causa de uma piada.

ATUALIZAÇÃO: O Mix Brasil tirou a notícia do ar. Este blog agradece a preferência.

CARGA PESADA

Quer trombetear para o mundo sua homossexualidade? Não, você não precisa sair na capa da revista "People", nem postar no seu site que você é "um gay de sorte". Nada grita mais alto que você gosta de queimar a rosca, sentar no kibe, falar no mike, etc. do que ser um pastor evangélico que persegue a bicharada (entendeu, Garotinho?). MAIS UM desses pastores (bocejo...) foi pego no flagra: George Alan Rekers foi fotografado no aeroporto de Miami chegando da Europa na companhia de "Lucien", um michê que oferece seus serviços na internet. O que mais dói é que esse rolé pelo Velho Mundo foi financiado com dinheiro público. O promotor-geral da Flórida pagou a Rekers a bagatela de 87 mil dólares para que o reverendo testemunhasse contra no processo que proibiu a adoção por casais gays no estado. Ainda bem que essa dor é aliviada pela desculpa patética de Rekers, que deve achar que a humanidade é tão idiota quanto ele: o rapaz foi com ele para Londres e Madri só para ajudar a carregar as malas. Atire a primeira pedra quem nunca contratou um prostituto para dar uma força com a bagagem.

DEPOIS QUE ACABOU

Não sei onde que eu estava com a cabeça quando achei que assitir “A Estrada” seria uma boa distração depois de um longo dia de trabalho. O livro em que o filme é baseado, de Cormac McCarthy (também autor de “Onde os Fracos não Têm Vez”), é tido por alguns como uma obra-prima. Eu já sabia que se tratava de uma fábula pós-apocalíptica, gênero que já rendeu coisas boas como “Ensaio sobre a Cegueira” ou “Filhos da Esperança”. A estrutura é quase idêntica: depois de uma catástrofe misteriosa, a humanidade agora está cega/estéril/quase toda morta. Muitos dos sobreviventes regridem a um estado de quase barbárie, e a violência come solta. No final, depois de muitas atribulações, vislumbra-se uma possibilidade de redenção. A diferença é que em “A Estrada” esse futuro pós-tudo é ainda pior do que de costume. Tão ruim que chega a ser inverossímil: se todos os animais morreram e as plantas seguem pelo mesmo caminho, como é que os protagonistas – pai e filho sem nome e sem lar – conseguem se manter não apenas vivos, mas relativamente limpos e saudáveis? OK, estão sempre fugindo de ladrões e canibais, mas o filme dá a entender que esta situação já dura anos. Talvez seja a saída que os produtores encontraram para não deixar a história mais desesperadora do que já é. A paisagem está sempre cinzenta, o tempo sempre frio, e a pouca comida que se encontra costuma ser salada de frutas em lata. Voltei a não gostar do Viggo Mortensen: ele tem uma certa solenidade que me desagrada, e aqui parece um Jesus Cristo sem santidade. O final semi-feliz soa forçado, e os personagens têm tão pouca empatia que eu quase torci para eles serem logos capturados e comidos. Se “A Estrada” não funciona como diversão, pelo menos podia dar margem a alguma reflexão. Mas que o ser humano é malvado, todo mundo já sabe faz tempo.