terça-feira, 16 de novembro de 2010

O "DIREITO" DE SER HOMOFÓBICO

A semana homofóbica começou animada: agressões na Av. Paulista, tiros na Parada Gay carioca e agora o tal do "Manifesto Presbiteriano sobre a Lei da Homofobia", publicado no portal da universidade Mackenzie, de São Paulo. O manifesto, que saiu na página das Homílias do portal, já não está mais lá. Talvez tenha sido retirado por causa dos comentários contrários; mas o fato é que uma busca por "Lei da Homofobia" no próprio portal leva o internauta a esta página. De qualquer forma, o texto original pode ser lido aqui, no Blog da Folha de Pernambuco. Já tem até campanha de boicote contra a escola em andamento, mas gente, na boa - qual é a novidade? Nunca ninguém reparou no nome "Universidade PRESBITERIANA Mackenzie"? Ninguém sabe o que isto quer dizer? O Mackenzie é uma instituição religiosa, como muitas das escolas pagas do Brasil. Não é só ele que pensa assim. Teríamos que estender o boicote à PUC, à Metodista, a todos os colégios com nome de santo... Isto me faz mais uma vez pensar se a luta pela aprovação da Lei da Homofobia é mesmo uma estratégia acertada. Não sou contra a lei, evidentemente. Mas ela enfrenta uma resistência ferrenha por parte das igrejas, que se sentem atacadas numa liberdade que é garantida pela consituição. Ninguém vai conseguir mudar uma religião por decreto. Por outro lado, é claro que o que é pregado nos púlpitos também é reflexo do que pensa a sociedade ao largo. O racismo já foi defendido com base na Bíblia, mas hoje nenhuma denominação se atreve a ensinar a discriminação racial. Seria enquadrada na mesma hora. Falta muito para a homofobia chegar neste ponto, apesar dela ser tão grave quanto o racismo. Por isto, apesar de achar a lei extremamente necessária, ainda mais tendo em vista os ataques cotidianos a gays por todo o Brasil, penso que a luta pelos direitos iguais talvez deva acontecer por outro lado. Pela adoção por casais homo, que é mais e mais aceita; pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo, que é a tendência nos países avançados. Lutar abertamente contra a religião é dar murro em ponta de faca.

16 comentários:

  1. Tony, que a Mackenzie é presbiteriana e não poderíamos esperar outra coisa da sua chancelaria, tudo bem. Mas que é incoerente se manifestar frente a isso, não concordo, não.

    Especialmente os alunos que lá estudam. Mackenzie é uma grande universidade, não acredito que a faceta religiosa da instituição seja o maior apelo pros seus tantos alunos - e a comunidade que estuda ou trabalha por lá é bem diversa. Além disso, eles podem muito bem ser religiosos e decidir se ocupar de questões espirituais mais relevantes que a homossexualidade.

    Mesmo igrejas protestantes de outros países têm posições diferentes em relação à homossexualidade, vide a igreja anglicana. Ninguém vai boicotar a universidade em que estuda dessa forma, nem acho que seja o caso, mas manifestações de desagrado quanto à postura do chanceler devem existir, sim, mostrando o quanto ela não é representativa da comunidade acadêmica (mesmo que o nome seja presbiteriana).

    Beijão!

    ps: sobre a lei da homofobia, acho que o movimento acreditou que seria mais fácil passar que a da parceria e outras, mas não previram a reação fundamentalista. Na época da lei da união civil, os conservadores católicos eram os principais opositores e o fundamentalismo cresceu muito de lá pra cá. Agora, a lei da homofobia está no senado, pelo menos, mas temos de retomar a questão do casamento/união civil sim, super concordo.

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  2. Concordo totalmente com sua ponderação, aliás, as leis SEGUEM a sociedade e não o contrário... Acho muito mais eficiente a disseminação da aceitação da diversidade e tolerância quanto à orientação sexual sem passar por leis que tentem amordaçar quem quer que seja, até porque precisaria de fiscalização, como qualquer lei e ainda de punição, para ter algum resultado. Assim, neste Brasil continental, legislar sobre o que se fala em uma missa ou pregação nas infinitas igrejas é uma tarefa impossível, para dizer o mínimo. Já evidenciar os MUITOS julgados que reconhecem pensões para companheiros do mesmo sexo, beneficiários do INSS que pleiteiam assistência a seus parceiros, reconhecimento de dependência na decalarção de IR, TUDO isso são nossas futuras leis, nascendo de juízes sensatos e conectados com a realidade e com a mente progressista de que os gays e a sociedade justa e igualitária precisam e merecem, mas que são construídas ao longo do tempo, dificilmente de forma abrupta e invertendo a oredem sociedade-lei, que é universal. O divórcio, lembrem-se, veio depois que mais que a torcida do Flamengo, Corinthians, Athletico e Bahia juntas estavam "vivendo em pecado" com filhos, netos e bisnetos dos "desquitados" que se juntaram e fizeram valer seu direito de fazer uma família com quem bem entendessem. Assim, acredito que a adoção (ainda tímida, mas promissora) e todos os outros direitos acima citados e já em vigor no Brasil, serão o alicerce da futura lei que garantirá a liberdade sexual a todos os brasileiros. Depois então desse amadurecimento da sociedade é que uma lei virá para consolidá-lo. A luta continua, avanti!

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  3. É dar murro em ponta de faca assim como foi a luta dos abolicionistas, também deram murro em ponta de faca até que conseguirar. A CULPA pela perseguição que sofremos é em grande parte da igreja e ponto final. Em algum momento essa posição arcaica vai ter de mudar. Não sei se tens acompanhado o que está a acontecer na Finlândia, mas hj mesmo a maior autoridade da Igreja Católica na Finlândia pediu desculpas aos gays e reconheceu que a Igreja tem errado. A Igreja Luterana tem feito o mesmo nos últimos tempos.

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  4. Realmente é repugnante ouvirmos igrejas falando mal de gays e colocando outdoors ofensivos, mas uma faculdade do gabarito da Mackenzie lançar um manifesto deste só nos mostra que estamos num mundo que só não nos aceita, como nos discrimina. Uma pena que nem todos os gays acordaram pra isso.
    A cada ano as coisas só pioram. É impressionante como a sociedade está regredindo e em passos largos. Uma pena.

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  5. Tony, a saída é simples. Basta acrescentar um artigo que expressamente crie uma exceção para igrejas. Foi o que ocorreu no Civil Marriage Act do Canadá, que regulamentou o casamento gay no país: "(...) 2. Marriage, for civil purposes, is the lawful union of two persons to the exclusion of all others. 3. It is recognized that officials of religious groups are free to refuse to perform marriages that are not in accordance with their religious beliefs. (...)" Simples assim. O texto completo do diploma legal pode ser encontrado em http://www2.parl.gc.ca/HousePublications/Publication.aspx?Docid=3293341&file=4

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  6. Acontece que a liberdade religiosa é uma faceta da liberdade de expressão a qual não é absoluta. Realmente, a coisa está feia para o nosso lado. Se formos depender da vontade da maioria, estamos ferrados.

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  7. Tony,

    Seu post é certeiro. Em um momento, eu achava que só eu tinha essa visão da lei que criminaliza a homofobia, e estava me culpando por isso.

    É necessário que primeiro convençamos a grande maioria da sociedade(a começar pela célula dela, que é a família, vide a cena de Milk, onde o personagem pede que cada um se assuma para sua família) de que não somos monstros, doentes, marginais, de que não há nenhum problema conosco. Isso é chato, mas é necessário.

    E a lei do divórcio é realmente um exemplo a ser seguido.

    Abraço,
    do leitor de Salvador/BA.

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  8. Tuitei sobre isso e tive que ler resposta de aluno gay do Mackenzie defendendo a instituição.
    Quer saber?
    Além da maioria que é contra, ainda temos que aturar muita bicha que não se dá o valor.

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  9. Se você ler na Bíblia a historia de Sodoma e Gomorra verá que as cidades foram condenadas por "deus" a serem destruídas pelos anjos porque praticavam sodomia. Só quem escapou foi Ló, sua mulher olhou para trás e virou estatua de sal. O homosexualismo é amplamente condenado pelo judaísmo, pelo cristianismo e pelos muçulmanos. Acho difícil que um dia exista algum apoio de igrejas ou de religiosos.

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  10. bem acho que assim como tem gente q simplesmente não gosta de maçã, odeia e não come, mas nem por isso quer queimar todos os pés de maçãs, cada um tem o direito de achar o que bem entende, desde que não agrida ninguém. mas acho também q a igreja católica, e grande parte das igrejas evangélicas deviam começar tirando os próprios gays q lá estão, vestidos ( ou seria travestidos??) de padres e pastores, não sei você mas nas últimas vêzes que fui à igreja católica( já com um olhar mais apurado do lance) vejo o quanto tem gays trabalhando ali, seja como padres, ou ajudantes que eu lá sei como chamam. ou seja se for começar a caça a bruxas que comecem no próprio jardim, vamos ver quantos frutos sobram...

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  11. p.s. pra marta: olha eu que nunca estudei teologia, religiões e afins e não abro uma bíblia desde o século passado, não penso assim tão pequeno, é só você relembrar um pouquinho o curso da história, a igreja passou da fase de penitência pessoal & riqueza, para a fase de menos penitência & jejuns mas com voto de pobreza, prometendo riqueza só no céu, na vida eterna. e o avanço do capitalismo? deu como resultadoo quê? é só você ligar a tv e ver 90 por cento dessas igrejas novas estão prometendo riqueza NESSA VIDA que deus está ali para ajudá-los a prosperar. que deus é grana. que você dá -o dízimo- e recebe -oportunidades. logo, as igrejas refletem o querer da sociedade e não mais o contrário. biblia não se lê apenas: se interpreta, e como toda interpretação...

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  12. Não acho que devamos esquecer a lei da homofobia em detrimento de por exemplo a adoção por casais gays. Essa lei é ainda mais importante que o casamento, pois a partir dela a sociedade será obrigado a nos respeitar, correndo o risco de ir para a cadeia caso nao o façam. Hoje alguem escuta algum comentario racista contra os negros? Lembra de como era antes da lei? Infelizmente nao dá para esperarmos um mudança no comportamento de um população que elege um deputado como tiririca, é fundamental que essa lei seja aprovada.

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  13. A questão do Mackenzie é ancestral, e não se limita à condição homo-afetiva. Quando lá estudei, nos longínquos 1982 (28 anos atrás...), suspenderam um casal hetero que se beijava no centro acadêmico. Nossa turma era um pouco "heavy metal", e, em protesto, promovemos uma noite do beijo - todos que entravam eram beijados por homens e mulheres. Foi uma confusão danada...Saí de lá e fui terminar na Belas Artes, que não tinha este viés religioso escancarado. E Tony, concordo com vc & Marta - apesar de sermos um estado dito laico, as bancadas religiosas estão aí para propagar seus dogmas - e a aceitação civil da relação homoafetiva tem que ser pensada do ponto de vista do princípio básico E LEGAL da isonomia -conforme consta no artigo quinto da COnstituição Federal, que simplesmente concretiza o DIREITO de igualdade. Os meandros e subtextos jurídicos são intrincados, mas a base legal é clara.

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  14. Posso assegurar que a PUC-Rio não é assim.

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  15. A questão não é só não nos aceitarem ou nos descriminarem. É não entender que estas posturas fomentam atos como o da Paulista e centenas de mortes todo ano no Brasil. Ontem, na casa da minha mãe, assisti à pregação de um desses neo-petencostais. Ele pediu ao espectador que pegasse uma blusa (sim, uma blusa) de alguém que estivesse precisando de ajuda e aí incluiu doentes, drogados, adúlteros, etc e eu lá esperando ele citar um homossexual. O que não aconteceu textualmente, citando apenas "aqueles que estão no caminho errado" (que inclui um monte de gente, né?). Penso que se isso já não é algum reflexo de toda essa discussão recente sobre a Lei da Homofobia. Pode ser um início, mas concordo com quem disse que vamos, sim, continuar dando murro em ponta de faca até legalizar o que for necessário! Ah sim, ele ia virar a tal blusa pelo avesso pra dar uma "virada" (ui!) na vida da tal pessoa....

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  16. Nunca aplaudi o projeto de criminalização da homofobia, não porque não ache correto seu conteúdo, mas porque, trabalhando com Justiça Criminal, há muito tempo deixei de pensar que é criando crimes que vamos resolver os problemas de nossa sociedade. Durkhiem já dizia que o Direito Penal é o direito das sociedades mais "primitivas", enquando o Direito Civil era o das sociedades mais avançadas. Ao contrário do que muita gente acredtia, não acho que o racismo diminuiu por causa de uma lei. E, sinceramente, já temos crimes para resolver a maior parte dessas agressões. Agressões físicas já são crimes, e agressões verbais também (podem ser uma difamação ou uma injúria, arts. 139 e 140 do Código Penal). A questão é que, no caso desses últimos, quem tem que mover a ação penal é a vítima, e não o Ministério Público, e aí quase todo mundo deixa para lá. Enquanto não se trabalhar com as novas gerações, ensinando tolerância e respeito, não vejo como a criação de um crime possa fazê-lo.

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