quinta-feira, 22 de julho de 2010

POR BAIXO DA ABAYA

Sou fascinado pela Arábia Saudita, o país onde tudo é proibido e quem fizer qualquer coisa será preso e decapitado em praça pública. Por isto, caí de boca em "Sex and the Saudis", uma matéria escrita pela jornalista Maureen Dowd para o número atual da revista "Vanity Fair" (que tem Angelina Jolie na capa). Maureen é a colunista mais liberal ("de esquerda" em americanês) do "New York Times" e uma das minhas 'ídalas' na imprensa americana (a outra 'ídala' é Dan Savage, que assina a coluna "Savage Love", de conselhos eróticos, no "Village Voice"). Esta foi a terceira vez de ms. Dowd no "Reino" (para os íntimos), mas a primeira a passeio. Uma mulher de férias na Arábia Saudita é uma contradição em termos, e é isto que torna a reportagem tão engraçada. As restrições são tantas e tão absurdas que geram aberrações como o "burquíni" - sim, isto mesmo, a burca para se ir à praia. O site da revista traz uma seleção de fotos da viagem, mas quem quiser ler o relato completo vai ter que passar na banca. Recomendo especialmente aos defensores dos pesados véus islâmicos, que animaram um debate aqui no blog semana passada.

16 comentários:

  1. Tony,

    O que os sauditas seguem é uma linha do islamismo chamada Wahhabismo, que seria uma linha de interpretação e costumes ultra-conservadora do islamismo sunita. Portanto, o "ultra conservadorismo" da sociedade saudita é específico da sociedade saudita, não encontra equivalente em nenhum outro país do mundo islâmico. Discutir o tema do véu no contexto da sociedade deles é completamente diferente do que discutir o véu no contexto de uma sociedade bem mais liberal com relação às mulheres, como o Irã. E BEM diferente do que discutir o véu numa sociedade ocidental, como a França.

    E relembrando aquele argumento seu do "fim da relativismo cultural", por que o Ocidente não questiona a falta de democracia e direitos humanos da última monarquia absolutista do mundo mesmo, hein? Afinal, os americanos encheram o saco com aquelas imagens das mulheres usando burca.

    Easy. Petróleo.

    O Ocidente fecha os olhos para aquilo que lhe convém, darling. Sempre foi assim, sempre será assim.

    (E Dan Savage rules. Tirando que é LINDO de morrer!)

    Abraços,
    Fer.

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  2. Sim, eu sei que o wahhabismo impera na Arábia Saudita. O problema é que essa linha radical do Islã vem sendo exportada para o mundo inteiro, por causa da grana dos sauditas. Madrassas (escolas) e mesquitas são construídas por todo o Oriente Médio financiadas pelo petróleo saudita. Até mesmo aquela imensa mesquita de Buenos Aires foi um "presente" do Reino, e adivinha qual a linha do islã que ela segue? Bingo. Medo.

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  3. Não foram os americanos que ajudaram a instalar/manter a família real saudita no poder, a única que botou o seu nome no nome do próprio país?

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  4. Tony,

    Sim, o medo é compreensível. Mas também temos que ser racionais. Primeiro, levar em conta que o wahhabismo é sunita, enquanto o que mais cresce no mundo islâmico é a seita xiita (ou seja, nada de esperar aliança entre Irã e Arábia Saudita, porque um considera o outro infiel). Segundo, o próprio wahhabismo só encontra voz na Arábia Saudita devido às muitíssimo especiais condições que só existem na Arábia Saudita (racha do poder entre clérigos x família real, ausência de sérios problemas econômicos, possibilidades quase infinitas de financiamento de projetos insanos-e-malucos). Nem nos satélites imediatos da Arábia Saudita (Kuwait, Qatar, EAU) o wahhabismo conseguiu se estabelecer na mesma forma. O sistema saudita não é sustentado por vontade popular, mas por um sistema de controle sofisticadíssimo, intolerante à críticas, e que portanto é melhor ser mantido do que criticado. Portanto, difícil esperar que o mundo islâmico se torne um equivalente deles.

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  5. Tony,
    Um dia ainda te conto sobre a sensação de assistir a uma execução em praça pública. Foi em Khamis Mushayt, no sul da Arábia Saudita, e o réu foi morto com um tiro porque foi desta forma que ele havia cometido o crime (olho por olho...). Havia uma grande multidão para assistir, e os pais levam os filhos para ver o exemplo. Nunca mais consegui esquecer a cena.

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  6. Ai, os árabes são tudo de gostosos... sofri quando estive em Omã... hehhehehhe

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  7. Vocês não lembram do livro "Princesa", em que uma princesa da Casa Real Saudita conta o que era a vida dela lá? Ela teve uma amiga que foi afogada pelos pais na piscina da casa por ter saído com um homem acompanhantes vigilância. Ela provou que continuava virgem, mas os pais a afogaram assim mesmo - e a comunidade os apoiou! Essa é o país que os EUAS apoiam incondicionalmente, pois precisam do Petróleo saudita.
    Pergunta: qual a nacionalidade da maioria dos terroristas nos aviões de 11/9? Sauditas!

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  8. Pois é, Guilherme, tanto Osama Bin Laden como 15 dos 19 terroristas do 11 de setembro são/eram sauditas - e sunitas wahhabistas. Os sunitas raramente cometem atentados; a maior parte da violência islâmica, dentro e fora do mundo árabe, é cometida por sunitas. E, dentre esses, os wahhabistas são de longe os mais radicais.

    O que me consola é que a Arábia Saudita tem prazo de validade. O petróleo do país deve se esgotar em no máximo 50 anos, e o "Reino" vai voltar a ser um monte de areia com duas cidades sagradas. Os sauditas não diversificaram sua economia - ao contrário dos emirados do Golfo, que estão buscando saídas nas finanças ou no turismo. Também não investiram em educação. Quando o óleo se for, o país vai perder seu poder e a monarquia talvez caia. Vai ser um lugar tão relevante quanto é hoje a Mauritânia.

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  9. Tony,

    Eu já trabalhei na área de consultoria em energia, e essa estatística dos 50 anos é altamente discutível, porque depende de algumas variáveis muito criticadas por especialistas na área.

    O grande poder dos sauditas no setor não está somente na quantidade, mas na qualidade do petróleo que eles produzem: é o mais "leve" existente na terra, facílimo de se extrair os derivados de alto valor como gasolina e querosene. Quanto mais pesado o petróleo, mais caro e difícil produzir os derivados importantes, dos quais a economia mundial é dependente. Esse tipo de petróleo é só encontrado na Arábia Saudita (a qualidade do iraquiano/iraniano chega "perto", a do sul-americano fica parecendo piche). Em outras palavras, acabou o petróleo saudita, acabou a economia mundial na forma que conhecemos.

    (E por favor, energia renovável pode servir pra aquecer água de chuveiro, mas ainda está longe de ser alternativa economicamente viável para substituir a matriz energética com base em combustíveis fósseis em larga escala.)

    E isso desconsiderando o pequeno detalhe de que os sauditas são administradores excepcionais do único asset que eles tem, meaning: qual o motivo para os sauditas venderem todo o petróleo que eles possuem sem antes elevar o preço à estratosfera levando a economia mundial a um colapso? Eles já deram um preview disso no final da década de 1970, nada leva a crer que eles teriam medo de recorrer à esse mecanismo mais uma vez.

    Portanto, dependemos deles. E sim, o mundo é mau. :D

    (@Daniel: quando os americanos chegaram, os Sauds já estavam consolidados como os regentes da península Arábica, depois de derrotarem todas as outras tribos.)

    Abraços,
    Fernando.

    P.S.- Eu não estou planejando um ataque terrorista à Arábia Saudita, só sei disso tudo porque tive que ler os livros na área quando trabalhava na consultoria citada acima. EU SOU NAO SOU NERD!

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  10. Tony,

    Enfim, tem um livro excelente sobre petróleo chamado "The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power" do Daniel Yergin (que vem a ser o presidente da empresa em que eu trabalhei) que super vale a pena ler. O livro é ótimo, escrito numa linguagem total jornalística, acessível a leigos, ganhou o Pullitzer etc&tal. Essencial para qualquer um que queira entender bem geopolítica, economia e história mundial no último século e principalmente, Oriente Médio.

    (A parte em que ele relaciona a derrota do Hitler à falha dos alemães em conquistar regiões com reserva de petróleo e ao estoque quase infinito dos aliados é pavoroso de tão lógico que é!)

    Não, não tenho ações de empresa, então não ganho nada com a venda do livro. E sim, eu prometo ficar uma semana sem comentar aqui depois da enxurrada de comentários-gigantes hoje. :D

    Abraços,
    Fernando.

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  11. Para com isso. Comentário é que nem pau: quantos mais e maiores, melhor.

    Já li muito sobre a Arábia Saudita, desde o "Princesa" (ouvi dizer que ela foi assassinada, será verdade?) até "Inside the Kingdom", de um jornalista que viveu anos lá.

    Mas nunca me aprofundei muito sobre o assunto petróleo (bocejo...). Mesmo assim, morro de curiosidade para ver o que vai acontecer nas próximas décadas quanto à questão energética. Como será o mundo pós-petróleo? Os grandes players atuais (empresas e países) deixarão este mundo nascer?

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  12. Tony,

    Eu sou mega hiperativo para livros, e sendo chato/formal/técnico demais, eu jogo logo de lado. O livro do Daniel Yergin é nada assim: ele escreveu o livro num esquema de capítulos-artigos, onde eles são praticamente independentes entre si. Realmente, o livro é MUITO bom, e não recomendaria a um leigo da área sem pensar no fator atratividade.

    E pensar no mundo sem petróleo? Difícil hein... De duas uma: ou esse mundo vai se concretizar somente no longuíssimo prazo, ou alguma revolução mega-ultra-blástica na energia vai acontecer nas próximas décadas para rever completamente o nosso conceito de produzir energia (tipo, encontrar uma forma ridiculamente barata de produzir energia do... nada).

    E você disse bem: SE as empresas global players deixarem esse mundo nascer. Olha, tem cada história de prática empresarial nessa área que é de arrepiar os cabelos! E tipo, não tô falando de Oriente Médio não: tô falando de Argentina, Venezuela, Uruguai...

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  13. Que prazer ler comentários como esses!Só chez Tony tem.

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  14. a wahabbya já chegou a São Paulo. Tenham medo.

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  15. Esse Fernando é o máximo! Mas vc , caro blogueiro, devia entender um pouco mais sobre tolerância. O mais chato de não admitir que não tem o conhecimento suficiente para fazer os comentários intolerantes e cheios de preconceitos q vc faz é o fato q vira e mexe vc quer voltar pro mesmo assunto. Acaba tomando mais uma trolha e...volta pra mais. Tá bom q vc gosta de uma trolha ( quem aqui não gosta? heheheheh) , mas convenhamos, muda o assunto!!! A cruzada contra o "relativismo cultural" já deu. Ou pelo menos vai se informar um pouquinho mais. Joga no Google. Fernando Rules!!!

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  16. Falando de árabes bonitos, vcs tinham de ver os sudaneses...
    Acabei de voltar de um casamento lá, e a mistura de negros com árabes é simplesmente linda!
    ô gente bonita, alta, sensual, alegre, passei mal lá em Cartum...

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