quinta-feira, 6 de maio de 2010

O TINTIN DA VIDA REAL

Impossível não lembrar das aventuras do repórter belga ao ler os livros em quadrinhos do canadense Guy Delisle. A diferença é que, enquanto Tintin era notoriamente assexuado, Delisle é casado e tem um filho. Suas peripécias pela Ásia também não são coloridas como as desenhadas por Hergé, mas o nível de detalhe e observação é até maior. Já tinha lido “Pyongyang”, a melhor narrativa que encontrei até hoje sobre a fechadíssima Coreia do Norte. Em “Crônicas Birmanesas”, Delisle mergulha em Myanmar, ou melhor, na Birmânia (acho ridícula essa mania de países desimportantes exigirem serem chamados por seus nomes nativos. Imagina se teria cabimento a China querer ser conhecida como Zhongguo ou o Japão como Nihon). Enfim, a Birmânia é uma ditadura férrea há quase 50 anos, e muito pouco visitada pelos ocidentais. Como mme. Delisle trabalha para a ONG Médicos Sem Fronteiras, a família está sempre sendo transferida para algum lugar barra pesada (atualmente estão em Israel). Guy não tem o menor pudor de assumir as tarefas domesticas enquanto a patroa trabalha fora, o que também lhe dá tempo de se dedicar aos quadrinhos. As melhores cenas do livro vem justamente da interaqção entre pai e bebê com os costumes de uma sociedade exotica. Quando terminar este, vou comprar “Shenzen”, sobre a China. Agora viciei.

15 comentários:

  1. Tony,
    A diferença do Guy Delisle é que ele não é etapista igual ao Hergé. Não vai a lugar nenhum com a bandeira da sociedade ocidental para salvar ninguém. Vai a trabalho. Muito antes de ler a tese de Jean Marie Floch, já começava a achar TinTin pesado demais. Delisle tem julgamentos em relação às sociedades que visita mais suaves e com uma irônia francesa bem particular, principalmente para agluém que é canadense.
    Depois de ler Shenzhen (o melhor de todos, na minha opinião), embarque em Aline/ Albert et les autres. Excelentes também.

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  2. Hergé, nos primeiros trabalhos, era pior do que etapista: era colonialista, racista e extremamente ignorante.

    Não acho que tenha continuado assim ao longo de toda sua carreira. OK, num dos álbuns tardios, "Tintin no Tibet", o personagem vai ao Himalaia literalmente para salvar alguém - seu amigo Tchang - mas sem nenhuma bandeira da sociedade ocidental, só em nome da amizade (ou de uma atração homossexual sublimada, kkkk).

    Vi no seu perfil que você gosta de quadrinhos franco-belgas. Eu também! Vive la bande dessinée.

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  3. Tony, vi o vídeo do "Please Don't" no Youtube, com as imagens da Imelda Marcos cumprimentando todos aqueles presidentes famosos e depois li os comentários. Sempre achei que ela tivesse sido uma louca perua consumista e alienada com a pobreza do próprio país. Mas depois de ler os comentários dos filipinos fiquei em dúvida. O que vc acha dela?

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  4. @Tony, Rodrigo: Bem, impossível você produzir arte sem ser de alguma forma influenciado pela cultura vigente no local/época, néam? Inevitável que o Hergé tivesse uma tomada bem mais preconceituosa e colonialista do que o Guy Delisle, que escreve numa época onde somos bem mais cuidadosos com aquilo que falamos, etc e tal. Claro: sempre é a periferia do ponto de vista de um ocidental. Mas parece ser interessante!

    @Tony: Onde se acha esse livro, Tony?

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  5. Fernando, eu comprei o meu na livraria do cinema Unibanco Arteplex no Rio de Janeiro. Mas acho que ele é facilmente encontrável em qualquer das boas casas do ramo que tenha uma boa sessão de quadrinhos. As grandes, tipo Saraiva, Fnac, Livraria da Travessa, com certeza têm.

    Ah, e a editora brasileira se chama Zarabatana.

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  6. @Tony: Aquela livraria-sebo no Unibanco Arteplex (da Voluntários)?

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  7. @ Fernando: Unibanco Arteplex é o da Praia de botafogo, ao lado da Casa & Video, que antigamente era cinema de pagação (não que eu tenha ido lá, sabe...)

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  8. @Daniel, Tony: DOIS anos morando ali do lado, muitos frequentando a regiao, e eu AINDA confundo os dois cinemas. ;)

    Viele Danke!

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  9. Birmania (Burma) é o nome do tempo em que Myanmar era colônia do Império Britânico. Acho compreensível o resgate do nome nativo. E o país não é assim tão fechado aos ocidentais, pelo menos não aos turistas (fora do período das monções há hordas de ocidentais por toda parte).

    Mas sem dúvida o regime militar é dos mais malignos da face da Terra. Onde mais um exército atiraria em monges budistas velhinhos e desarmados? O Governo de Myanmar tá amarrado 3x.

    ivan.

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  10. Fernando,
    Eu moro longe, então tudo meu é pela Livrariacultura.com.br mesmo. Você acha os livros lá. Caso você leia em francês, manda uma carta para a L’association, a editora que publica o Guy Delisle na França, contando uma história bem triste, que você é um bolsista da CAPES perdido no meio do nada, sei lá, que eles te mandam uma caixa cheia de livros (entre eles todos do Delisle). Nessa, eles ainda me deram uma assinatura gratuita do Canard enchaîné. Minha lábia foi boa.
    Ah! Eles não trabalham com internet. O endereço é:
    L’association
    16, Rue de la Pierre-Levée
    75011
    Paris
    Eles são meio bicho-grilos, os livros não têm código de barra. As edições são lindas. Se chegaram à Calama, comunidade indígena a 3 horas de barco de Porto Velho, chegam para você também em um grande centro.

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  11. @Rodrigo:

    #1 Gente, to paÇado com essa história da editora mandando livros para o terceiro mundo inteiramente grátis. Por isso que eu AMO a França! :D

    #2 E qual o milagre que você fez para esses livros nao serem taxados na Receita?

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  12. Fernando, até onde eu sei, livros e qualquer tipo de material impresso não são taxados pela Receita.

    Quando compro livros pela Amazon, eles chegam direto na minha casa. Mas CDs ou DVDs ficam presos no Correio, e eu tenho que ir lá pessoalmente pagar o resgate.

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  13. Fernando,
    É o que o Tony disse. Livros são liberados QUASE automaticamente. As vezes a receita até abre, mas te devolve o pacote cheio de Durex. Ah, e se for comprar da França, compre pela amazon.fr , nada de FNAC. Eles demoram mais, vão pedir seu CPF e o pedido vai chegar só no quarto, quinto contato... VIVEMENT você tenha o Kindle. Tudo fica mais fácil e, na necessidade, a gente nem se coloca a pergunta "essas máquinas vão substituir os livros?" Com a umidade (ou "humidade", os dois são aceitos agora, né?) amazônica, você torce para que o papel acabe mesmo.

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  14. A FNAC francesa costumava mandar tudo por FedEx, ou seja: você ainda tinha que pagar um frete caríssimo. Fora que, sem ninguém em casa para pagar, o FedEx não deixa na portaria, e a entrega vira uma via-crucis. Reclamei e não adiantou nada. Mudei desde então para a amazon.fr, que envia tudo pelo correio normal.

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  15. Valeu a dica. Já tinha lido “Pyongyang” e virei fã do quadrinista. Comprei minhas "Crônicas birmanesas" pela cultura on-line. Gostei de novo e ri muito. Já comprei o “Shenzen” e estou só aguardando chegar em casa. Abraços.

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