terça-feira, 31 de março de 2009

LUAR DO SERTÃO

Tenho um leitor que se assina como "Anônimo Carioca" e adora me provocar, dizendo que eu só gosto de divas beeshas e preciso expandir meus horizontes musicais. Concordo: acho um vexame eu não manjar mais de música clássica, e tenho me esforçado neste sentido. Fim de semana passado comprei as "Variações Goldberg" de Bach com as duas interpretações que o pianista Glenn Gould gravou em sua carreira, em 1955 e 1981, e também "Debussy", o novo CD do Nelson Freire. Confesso que estava esperando uma musiquinha calminha, tipo piano-ao-cair-da-tarde, mas qual o quê. Isto é tudo menos música de fundo, e só prestando atenção dá para perceber porque Debussy foi tão importante para tudo o que veio depois. Deixo aqui uma palhinha: a manjadíssima "Clair de Lune", mas ainda mais bonita nas mãos de Freire. Não há, ó gente, ó não...

UNA LINDA MUJER

Impossível interpretar Salvador Dali e não cair no ridículo. O pintor espanhol era uma caricatura ambulante, com seus bigodinhos revirados e seu olhar calculadamente maluco. Robert Pattinson, o vampiro-galã de “Crepúsculo”, não superou o desafio: sua caracterização como o jovem Dali está tão pobrinha que parece digna de um clip da Stefhany. Mesmo assim, estou louco para ver “Little Ashes”, o filme que conta a juventude de Dali, Federico García Lorca e Luís Buñuel. Sabia que os dois primeiros foram “casos” (adoooro essa expressão fora de moda)? Pena que o filme é falado em inglês – aliás, em inglês com sotaque espanhol, qué asco. Mas Lorca é feito por Luís Beltrán, capa da “Out” desse mês e guapo a mais não poder.
Tem uns blogs por aí assanhadíssimos com a suposta nudez do Robert Pattinson em “Little Ashes”. Hoje o Perez Hilton jogou um balde d’água fria nessa cambada ao revelar que tudo o que vampirete faz no filme é esconder o bilau entre as pernas e se olhar no espelho – algo que todo homem já fez algum dia, para ver como seria se tivesse nascido mulher. Então vamos lá, todo mundo junto: pretty woman, walking down the street…

SIMPLESMENTE A.D.D.

Conheço gente que saiu encantada do cinema depois de ver "Simplesmente Feliz". Achei que este também seria o meu caso porque sou uma pessoa alegre e otimista, como a protagonista do filme. Acontece que Poppy não pára quieta um segundo, e tem o poder de concentração de um cachorrinho de dois meses. Tudo é motivo para piadas em que só ela acha graça. O attention deficit desorder da personagem é tamanho que o filme surtiu o efeito contrário em mim: saí irritado do cinema. Vai ver que não sou tão alegre e otimista assim.

segunda-feira, 30 de março de 2009

ÁGUA DE GISELE

Não é impressionante como está durando o reinado de Gisele Bündchen? Ela é a top no. 1 do mundo desde 2000 e, apesar de todo ano estrearem centenas de caras novas, ninguém lhe ameaça o trono para valer. Na verdade, ela já transcendeu a categoria supermodel, e agora é uma celebridade - ou o que os americanos chamam de household name, que nem precisa de sobrenome para ser reconhecida. A revista "Vanity Fair", que a pôs na capa de maio, pergunta se ela é a mulher mais bonita do mundo (o público não concorda: na pesquisa, ganhou Angelina Jolie disparado). Mais do que linda, acho Gisele fotogênica, versátil, uma estrela. Só não gosto quando abre a boca: suas entrevistas são insípidas como um copo d'água. Mas aí também é pedir demais.

SOPA DE COGUMELOS

É isto o que quer dizer “Röyksopp” em norueguês. Acho divertido uma banda com um som tão moderno e elegante usar um nome assim despretensioso, quase camponês. Depois de quase quatro anos, a dupla formada por Torbjørn Brundtland e Svein Berge está lançando “Junior”, seu terceiro CD. Não há grandes novidades: as letras continuam fofas, as músicas melodiosas, os arranjos interessantes. Baixe aqui a faixa “You Don’t Have a Clue”, e veja se não dá vontade de raspar o prato.

FESTA DO INTERIOR

Faz tempo que o 00 é considerado o lugar mais cool do Rio de Janeiro. Talvez um pouco cool demais: o carão costuma ser tão abundante que a casa também é conhecida como 0 a 0. Não ia lá há mais de um ano, mas este domingo conseguiram me convencer, e me espantei com algumas novidades. Odiei a tal da academia que construíram num pedaço do terreno: acabou com quase toda a vista e a sensação de espaço aberto. E a música, que já foi cutting edge, agora é um bate-cabelo dos mais rasteiros, digno de uma boate em Uberlândia ou Guaranésia. Mas é disso que o povo gosta: a pista estava lotada e todo mundo se divertia, embalados por um anmadíssimo grupo de indianos de camisa pra dentro da calça. Ainda não inventaram jeito melhor de terminar um fim-de-semana carioca.

domingo, 29 de março de 2009

ÁGORA É AGORA

O cristianismo faz um marketing enorme em cima de seus mártires, mas convenientemente se esquece dos mártires que ele próprio trucidou. Um dos primeiros foi Hipátia, filósofa, matemática e proto-feminista que viveu em Alexandria no século 4. Essa mulher sábia foi arrastada por uma malta ensandecida para uma igreja, onde lhe esfolaram viva e lhe atearam fogo. E no final do ano esse episódio brutal chega às telas no filme "Ágora" do diretor espanhol Alejandro Amenábar, que ganhou um Oscar por "Mar Adentro". Hipátia é feita pela também oscarizada Rachel Weisz, e, a julgar pelo trailer aí em cima, a produção consegue recriar todo um mundo que parecia perdido. Mas é claro que o assunto de "Ágora" não podia ser mais contemporâneo: como naquele tempo, agora também vivemos o risco das trevas do fanatismo vencerem a luz da racionalidade.

sábado, 28 de março de 2009

PERDENDO A TERNURA

Nâo deixa de ser irõnico ver um filme sobre Che Guevara feito com dinheiro americano. Aliás, muito dinheiro: as duas partes de "Che", de Steven Soderbergh, custaram 65 milhões de dólares. Por outro lado, um filme como este só poderia ser feito hoje, quando o sonho romântico da luta armada na América Latina desembocou no pesadelo das FARC, e Cuba virou um país falido que persegue blogueiros. Muito já se falou sobre o símbolo Che Guevara, um santo guerreiro que pouco tem a ver com o Che histórico. Mas este ícone está finalmente saindo de moda. Não se veem mais posters nem camisetas, já que a juventeude de hoje não se interessa por ninguém que não tenha MSN. E o filme, hein? O filme é chato como uma campanha militar na selva, só adquirindo algum ritmo na reta final. Os atores estão todos fantásticos, especialmente o mexicano Demián Bechir como Fidel Castro (e Rodrigo Santoro se sai muito bem falando espanhol). Daqui a um mês estreia a segunda parte, que trata da morte de Che na Bolívia. Ficou faltando um filme no meio, sobre os anos no poder em Cuba; talvez assim Benicio del Toro saberia que seu pesonagem tem milhares de mortes no currículo, e não passaria aquele vexame com a repórter em Miami. De qualquer forma, "Che" não empolga muito, porque o próprio Che não empolga mais.

sexta-feira, 27 de março de 2009

FRANCO-PHONY

De vez em quando surgem umas bandas tão legais que dá até vontade de fazer parte. Hoje estou complétement fou pelos Nous Non Plus ("Nós Também Não"), uma banda fake de pop francophone, estilo anos 60. Sim, fake: os caras são todos americanos (com a exceção de uma vocalista, que é suíça), e ninguém fala patavina de francês (mais uma vez, com exceção da suíça - aliás, é ela quem traduz as letras escritas originalmente em inglês). Os membros têm nomes maravilhosos como Jean-Luc Rétard, Céline Dijon e Bonnie Day (bonne idée). A música "Loli", do novo CD "Ménagerie", poderia ter sido gravada por Johnny Halliday, e tem um clip éblouissant (atenção para a cena do fio dental). Stop Betty!

CONSELHOS GRÁTIS

Com a mesma equipe e alguns atores de seu último longa, Pedro Almodóvar rodou um curta-metragem e o disponibilizou na internet. "A Conselheira Antropófaga" lembra os primeiros filmes do diretor espanhol, com uma mulher à beira de um ataque qualquer despejando uma torrente de safadezas. Não é nenhuma obra-prima, mas Almodóvar de graça? Sí por favor.
(Gracias por la sugerencia, Rodrigo Tanaka y Raul Juste Lores)

A ESCOLINHA DO PROFESSOR RAIVOSO

Muito tem se falado sobre “Entre os Muros da Escola”, o filme francês que venceu o Festival de Cannes do ano passado e foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Quase todas as críticas dizem que é um retrato do choque cultural que vive a França de hoje, com os filhos dos imigrantes lutando para se integrar ao novo país – ou esperneando para mudá-lo radicalmente. Sim, o filme permite essa leitura, mas acho que o que acontece ali, naquele colégio na periferia de Paris, não é tão diferente do que se passa em qualquer escola pública brasileira, onde as classes são culturalmente muito mais homogêneas. Lá e cá, os alunos passam o tempo todo contestando a autoridade e criando situações-limite, e o professor precisa da paciência de um santo para não explodir. O estilo de “Entre os Muros” é tão naturalista que lembra um documentário, e não recomendo o filme para quem está em busca de escapismo e histórias amarradinhas. Mas é intenso e envolvente, e levanta uma questão crucial: com tantas dificuldades, por quê ainda existem pessoas que insistem em ser professores?

quinta-feira, 26 de março de 2009

YES, I'VE BEEN BROKEN-HEARTED

Jennifer Saunders só é (pouco) conhecida no Brasil por causa do "Absolutely Fabulous", mas, na Inglaterra, ela e sua parceira Dawn French fazem programas de humor há mais de 20 anos, e são verdadeiras instituições nacionais. E para o "Comic Relief", uma espécie de "Criança Esperança" só com humoristas, as duas prepararam uma sátira com quase 15 minutos de "Mamma Mia!", a maior bilheteria britânica de todos os tempos. Jennifer está perfeita como Meryl Streep, e adorei a alfinetada de terem chamado Joanna Lumley para o papel de "Patsy". Explico: Christine Baranski, que fez a amiga magra de Meryl no filme, participou de uma série americana chamada "Cybill" descaradamente "inspirada" no "AbFab", e lá era justo seu personagem quem fazia as vezes de Patsy. Touché.
(Estefanio, obrigadíssimo pela dica, mas porque você não postou no GlamAddict? Achou que não era gay o suficiente?)

O DESABAFO DE ELIANA

"Caríssimos, e bota caro nisso, essa Operação Narciso me deixou aloPrada! Alguém me deFendi. Não sou dessa Alaia. Não é Versace o que Diesel por aí. Sou pessoa Dolce & Bacanna. Pucci que Paris!!! Estão me pegando para Christian, meu Dior. Preciso de um Cacharel em direito, um cara Valentino para dar um jeito nessa Bottega, antes que coloquem no meu Rabanne. Eu não vou botar o Galliano dentro não. Chloé? Vou continuar minha Missioni. Miu Miu, abraços para vocês!"

(Esta carta - apócrifa, evidentemente - circulou pela internet na primeira vez que Eliana Tranchesi foi presa, em 2005. Achei digno resgatá-la hoje, quando a dona da Daslu está de volta ao xilindró. Dizem até que ela já encomendou o uniforme de prisioneira à Burberry's.)

NÃO, NÃO, NÃÃÃO

Amy Winehouse deve estar se debatendo no túmulo. As discípulas de INRI Cristo finalmente bombardearam o mundo com a versão "mística" de "Rehab". Demorô, hein? E parabéns pelo upgrade nos valores de produção. Gostei especialmente das perucas beehive de Asusana e Alibera, cada vez mais antenadas com a modernidade. Só os vocais que continuam desanimados como sempre, capazes de desconverter o mais fiel dos apóstolos. Mais empolgação, meninas!
(Martina, obrigado pela dica. Que INRI Cristo ilumine o seu caminho)

quarta-feira, 25 de março de 2009

WHITE BOOT SENSATION

Muitos amigos me perguntam se eu vou ao Skol Sensation, a versão nacional de uma festa que faz sucesso na Europa. Acho que não. O ingresso mais barato custa 160 reais (eu não tenho carteirinha de estudante), e pra quê vou pagar tão caro se eu entro na The Week com meu pretinho básico? "Ah, mas você vai à TW toda semana. Vamos variar!" Variar? Fui muitas vezes ao Skol Beats, e confesso que hoje em dia sou mimado demais para passar por tudo aquilo de novo. Estacionar o carro a léguas do evento, ou então pagar uma fortuna pelo táxi da ida - o da volta não vai ter. Enfrentar uma fila imensa e tumultuada. E, uma vez lá dentro, ter só cerveja para tomar, e ainda aguentar um bando de mauricinhos HT num réveillon fora de época e - horror dos horrores - suas namoradas de bota branca. Are you ready, boots? Start walking!

HELLO... HELLO... HELLO...

Os irmãos Farrelly, que já deram ao mundo obras-primas como "Débi & Lóide", vão filmar uma nova versão dos Três Patetas, os cômicos mais doloridos de todos os tempos. O elenco é curioso: Benicio del Toro como Moe, Sean Penn como Larry e Jim Carrey, que terá que engordar muito para fazer um Curly convincente. Agora é chutar cachorro morto, mas um casting melhor talvez fosse Bush como Moe, Cheney como Larry e, como Curly, qualquer americano gordo que votou neles.

PEQUENA EPIFANIA

Finalmente fui assistir “A Alma Imoral”, o monólogo de Clarice Niskier baseada no livro do rabino Nilton Bonder, que estreou há quase três anos e já passou por diversas cidades brasileiras. Fui arrastado pela Marta Matui, que viu a peça há duas semanas e estava louca para ver de novo. Compreensível: o texto é absolutamente sensacional, e Clarice, nua em cena quase o tempo todo, também desnuda a própria alma enquanto cutuca as nossas. Há momentos em que ela conversa descontraída com a plateia, outros mais dramáticos que nos transportam a outra dimensão. Claro que na saída comprei o livro (o teatro fica dentro da Livraria Cultura, em SP). Faz tempo que preciso me aprofundar nas ideias do Nilton Bonder, e afinal chegou o momento. Estava exausto quando cheguei ao teatro, mas saí de lá tão aceso que precisei ir ao Ritz e tomar duas margaritas para baixar a bola. Epifanias fazem isto, acordam neurônios que dormiam há anos.

terça-feira, 24 de março de 2009

AS GARRAS DA VINGANÇA

Quem lê inglês não pode perder a maravilhosa crônica que o Woody Allen escreveu para a revista "New Yorker" desta semana. É sobre dois camaradas que perderam tudo no esquema fraudulento de Bernie Madoff, se suicidaram e voltaram ao mundo na forma de lagostas, só para acabar num restaurante chique em Nova York frequentado pelo próprio Madoff. Um texto mais gostoso que sauce béarnaise.

É TUDO VERDADE

Algumas pessoas estão questionando a veracidade do livro de receitas com esperma sobre o qual escrevi ontem. O livro existe mesmo: não é gozação, hahaha, e pode ser encomendado aqui. E as receitas estão todas lá, para quem tiver coragem de experimentar. Aqui vai um exemplo:

SPLASHARITA DE MORANGO

Ingredientes:
1 xícara de morangos cortados
1/2 xícara de tequila
1/2 xícara de Triple Sec
2 xícaras de gelo picado
1 colher de sopa de esperma fresquinho

Bata todos os igredientes no liquidifcador, menos o esperma. Despeje a mistura aveludada num copo com as bordas decoradas com açúcar. Deposite o esperma delicadamente sobre o líquido. Ele irá coagular, e dar um toque especial a este drink tão popular.


Tem também uma receita de "ostras artificiais" que só usa as cascas das ostras verdadeiras, mais esperma com sal e limão. Essa achei melhor não mostrar a foto.

YOU MADE ME LOVE YOU

Houve um tempo em que um dos grandes clichês da vida gay era ser fã de Judy Garland. Não peguei muito essa época, e as bibas mais novinhas talvez nem saibam quem foi a "maior entertainer de todos os tempos". Vi poucos filmes da mãe da Liza Minelli, e não tenho nenhum disco. Mesmo assim, vibrei quando soube que Anne Hathaway está fechando contrato para viver Judy no teatro e no cinema. Sim, é um contrato sui generis que envolve palco e tela, e isto provavelmente quer dizer que Anne não vai dublar, vai cantar de verdade. Tomara: ela mostrou que tem um vozeirão na entrega do último Oscar, e até que se parece bastante com la Garland. O desafio maior será superar Judy Davis, que, apesar de não se parecer nada e cantar menos ainda, levou todos os prêmios do planeta ao interpretar Judy em 2001, no telefilme "Me and My Shadows". Ah, Anne Hathaway: you made me love you, I didn't wanna do it, no I didn't wanna do it...

O PAPALHÃO

O Pavinatto achava que eu pegava pesado com o papa Adolf I, mas mudou de idéia depois que Sua Majestade Satânica fez um giro pela África e proferiu um rosário de bobagens. Não bastou a suprema imbecilidade de alegar que o uso de camisinhas ajuda a propagar a AIDS, prontamente rechaçada pelo mundo inteiro, o pontífice ainda atacou o "etnocentrismo" das missas que incorporam elementos culturais africanos (como se o latim é que fosse o verdadeiro idioma universal) e insultou as religiões tradicionais do continente, chamando-as de "bruxaria". A grita em torno dessas sandices foi tão grande que eu quase fiquei com peninha. Li num artigo semana passada que fontes do Vaticano - não identificadas, obviamente - já reclamam do "desastre" que está sendo esse papado, comandado por um velhote sem carisma e sem noção do que se passa no mundo. Por tudo isto, fui na direção contrária à do Pavinatto, e agora acho esse Ratzinger uma pândega, praticamente inofensivo de tão ridículo. Ninguém leva a sério o que ele diz, e está ficando divertido vê-lo se meter numa trapalhada atrás da outra. É um autêntico papalhão, enviado por Deus para nos fazer rir e refletir. Rá... tzin... bum!

segunda-feira, 23 de março de 2009

FAZENDO A GULOSA

Imagine um ingrediente rico em nutrientes - proteínas, minerais, açúcares - e extraordinariamente abundante. Fácil de se achar e, hmm, gostoso de se obter. Mesmo assim, a humanidade, essa preconceituosa, nunca levou a sério as propriedades culinárias do esperma. Mas isto pode mudar, graças ao livro "Natural Harvest", lançado há pouco tempo nos EUA. São receitas de doces, molhos e drinks, tudo à base de leite de minhápica. A autora Fotie Photenhauer - que nem deve desconfiar que seu nome soa, hmm, gozado em português - diz que o esperma se compara aos vinhos e aos queijos, tamanha sua versatilidade. Bom, se todo mundo come ovo de tudo quanto é bicho, por quê não?

DE TIRAR O FÔLEGO

Gui Boratto é, fácil, o maior nome da música eletrônica brasileira. Os puristas vão torcer o nariz: seu trabalho não contém nenhum elemento imediatamente identificável como “brasileiro”. As (poucas) letras são em inglês, e não há releituras moderninhas do maracatu ou coisa que o valha. O que é ótimo – não aguento mais ouvir bossa nova com batida drum’n’bass, já deu. O que Boratto faz é simplesmente música eletrônica de qualidade, sem bandeira nem fronteira. “Take My Breath Away”, seu novo CD, é menos variado que o anterior, “Chromophobia”, mas também é mais consistente, com pitadas de trance, minimal e muita melodia. “No Turning Back”, futuro hit das pistas, é a única faixa com vocais, da patroa Luciana Villanova. Chique no úrtimo.

DESCULPE O TRANSTORNO

A cada dia que passa, enfraquecem os argumentos dos opositores ao casamento gay. "É contra a ordem natural das coisas", dizem. Errado: a natureza pulula de exemplos de homossexualidade animal. "É contra as leis de Deus". Essa balela se baseia numa leitura literal do Antigo Testamento, que também proíbe o consumo de crustáceos e permite a escravidão. Se é para serem literais, então, que não sejam seletivos. E de uns tempos para cá os homofóbicos tentam se proteger atrás de uma equivocada "liberdade de expressão", numa total inversão de valores. O direito a se expressar é limitado, como aliás são todos os direitos. Ninguém tem o direito de expressar idéias racistas, por exemplo, e, se Deus quiser, em breve a homofobia será equiparada ao racismo. A estupidez dos reaças é tamanha que gerou esse ótimo quadro com a atriz Portia de Rossi, a mulher da Ellen DeGeneres, levado ao ar na semana passada durante o talk-show do Jimmy Kimmel, nos EUA. Portia pede desculpas pelos "transtornos" que seu casório teria causado aos babacas que foram às ruas fazer campanha pela famigerada Proposition 8, aquela que proibiu o casamento gay na Califórnia.

Com tantos argumentos furados sendo rechaçados um por um, vai ficando claro que a verdadeira causa da homofobia é a estrutura patriarcal, francamente machista, que domina a maior parte das sociedades humanas. Já disse isto muitas vezes aqui no blog, e vou repetir: as maiores vítimas deste esquema são as mulheres, os gays são só collateral damage. No dia em que a mulherada cair em si - e, felizmente, muitas já caíram - o jogo está ganho.

domingo, 22 de março de 2009

QUER ANDAR DE CARRO VELHO, AMOR?

Não conheço um gay que goste do Clint Eastwood. Nem mesmo como homem bonito, que ele ainda é aos 78 anos de idade. Acho que Clint lembra muito o pai distante, emocionalmente indisponível, que muitas bibas tiveram que aguentar. Em "Gran Torino" ele exagera sua persona de hétero durão às raias do ridículo. Sempre foi um ator de recursos limitados, e neste novo filme - o maior sucesso de sua carreira - está simplesmente péssimo, rosnando como um buldogue de desenho animado. Tematicamente, "Gran Torino" faz par com "Menina de Ouro": em ambos o personagem de Clint é um homem amargo que encontra uma redenção espiritual, descaradamente cristã, em meio a uma grande tragédia. Mas, ao contrário do filme mais antigo, este mais recente não foi indicado a nenhum Oscar, e logo se entende porquê. O roteiro é mal alinhavado e previsível, tem uma enorme barriga, e a maioria das atuações é constrangedora. Clint Eastwood nunca mereceu o prestígio que vem desfrutando nos últimos anos, e acho que finalmente a crítica enjoou dele.

sábado, 21 de março de 2009

READY FOR MY CLOSE-UP

Acabei de dar uma entrevista para o "Jornal da Band". Eles estão fazendo uma matéria sobre blogs que deve ir ao ar hoje à noite, às 19:20. Depois repete no Band News e no site. Só falei generalidades, nada de muito sensacional. Tomara que não cortem muito...

(Update: a reportagem da Band pode ser vista aqui. Henri, obrigado pelo link e pela entrevista)

sexta-feira, 20 de março de 2009

FELIZ NOWRUZ

Hoje é o equinócio de outono aqui no hemisfério sul, de primavera lá no norte: aquela data bi-anual em que o dia e a noite duram exatas doze horas, no mundo inteiro. Também é o iníco do ano zodiacal, com a entrada do sol em Áries. E também o ano novo persa, o nowruz. Esta noite Teerã vai pegar fogo, com todo mundo bebendo, dançando e se beijando até o sol raiar... er, não exatamente. Mas é uma festa importante no calendário deles, tanto que Barack Obama aproveitou a deixa para gravar uma mensagem em vídeo para o povo e os líderes do Irã. Então vamos aproveitar também essa noite mágica, e feliz 1388 para nós.

A ESTRELA DO ORIENTE

O tal do "Anônimo Carioca" sempre reclama que eu só falo de "divas beeshas", e que eu devia dar destaque pro show do Radiohead e do Kraftwerk. Olha, eu respeito o trabalho do Radiohead, tenho até uns discos, mas admito que nunca embarquei na música dos caras - talvez porque eu não fosse mais um adolescente angustiado quando eles surgiram. Mas o Kraftwerk pra mim é o Olimpo, o zênite, o ponto "fulminante" da música pop. Pena que hoje em dia eles gravem tão pouco, mas é impressionante como os discos que a banda lançou nos 70 e 80 continuam modernos e influentes. Já fui a dois shows deles, e fiquei com preguiça de encarar uma turba que deve estar mais interessada na volta dos Los Hermanos - sei que vão me jogar tomates e ovos podres, mas acho esses barbudos uns chatos pernósticos.

Depois dessa loooonga introdução, vamos à diva beesha de hoje. Se bem que o adjetivo "beesha" talvez enfureça seus fãs, na maioria muçulmanos conservadores. Estou falando de Oum Kalsoum, ou Umm Kulthum, ou أم كلثوم, a "Estrela do Oriente" (kawkab al-sharq), a voz do Egito e o maior nome da música árabe de todos os tempos. Seu estilo é difícil de definir para os ouvidos ocidentais: é pop, jazz, folclore e ópera ao mesmo tempo, com duas tâmaras em cima. Suas canções não tinham duracão definida - uma única podia levar até TRÊS HORAS, com ela improvisando e floreando até levar o público ao êxtase. Toda primeira quinta-feira do mês, ela dava um concerto pelo rádio que esvaziava as ruas do Cairo. E o ditador Nasser aproveitava para fazer seus discursos logo após, na certeza de ter audiência. Oum Kalsoum morreu em 1975, mas sua música toca no Egito até hoje. E as lendas em torno dela continuam: ela seria judia, mas nunca pôde assumir sua religião; o inseparável lenço com que ela se apresentava no palco estaria embebido em ópio, e por isto ela o levava de vez em quando ao rosto... Ficou curioso? Então baixe aqui uma gravação dos anos 40. Não é para qualquer gosto. Mas, como diria minha mestra Lindinalva, alargue seus horizontes musicais, não apenas seu edizón.

quinta-feira, 19 de março de 2009

COM BRASILEIRO NÃO HÁ QUEM POSSA

Um dos traços mais curiosos do caráter nacional é a nossa capacidade de transformar incidentes isolados envolvendo nossos conterrâneos no exterior em ofensas gravíssimas à mãe-pátria. Dois exemplos recentes: o assassinato de Jean Charles em Londres, e a maluca que rabiscou as pernas com estilete na Suíça. O primeiro é um caso brutal, sem dúvida, e os culpados merecem punição – mas é sempre bom lembrar que a Inglaterra estava em pânico naquela época, logo após um sangrento atentado terrorista. Jean Charles morreu por inabilidade da polícia britânica, mas isto não é motivo para manifestantes agitarem bandeiras do Brasil quando exigem justiça. Ele não morreu por ser brasileiro. Aliás, porque ninguém faz o mesmo para exigir justiça pelas centenas, milhares de vítimas acidentais que a polícia brasileira faz todos os anos? O segundo caso por pouco não se transforma em coisa parecida: já estava marcada uma passeata em Recife quando foi revelado que Paula Oliveira não sofrera nenhum ataque de neo-nazistas. Agora vivemos um clima de histeria em torno do menino Sean Goldman, com caminhadas pela orla carioca e, claro, bandeirinhas. Essa mentalidade de Copa do Mundo, de ninguém-tasca-o-que-é-nosso, transforma um caso que já é complicado num equivocado carnaval cívico. Sean precisa do que for melhor para a vida dele, não para o nosso patriotismo “ultrajado” e fora do lugar.

ILHA ILHA DO AMOR

O Clebs foi rápido no gatilho e já soltou um post super didático sobre como um ex-DJ acaba de assumir (ou surrupiar) a presidência de Madagascar. A vida imita a arte: quem viu os desenhos animados da Dreamworks sabe que a ilha é governada há muito tempo pelo alucinado rei Julien, aquele do "eu me remexo muito". E na vida real, qual será a primeira medida de Sua Excelência-com-nome-de-drag, Andry Rajoelina? Hino nacional em remix trance? Energético na merenda escolar?

YESSSS


Eu era fanático pelos Pet Shop Boys nos anos 80, mas meu interesse por eles foi se esvaindo a cada novo álbum. Achava que os PSB não se renovavam, que estavam soando datados. Fui ao último show que eles fizeram no Brasil e saí desapontado: aquilo ali era uma banda velha, um revival, mais um caça-níqueis no circuito nostalgia. Mas nada como um dia depois do outro: "Yes", o CD que eles lançam semana que vem, é a melhor coisa feita pela dupla desde, sei lá, o tempo em que os bichos falavam. Deve ser culpa do time de produtores Xenomania, especializado em criar sucessos para mocinhas como Kylie, as Sugababes e as Girls Aloud. Pelo jeito, para tias velhas também: não há uma única faixa mais-ou-menos em "Yes". O disco é bom do começo ao fim, e já entrou pra lista dos melhores do ano. Dá para ouvi-lo na íntegra clicando no widget lá em cima. E, antes que eu receba uma cartinha do Blogger como a que o Marcelo recebeu, clique aqui para o baixotildes de "Where I'm Coming From", o provável segundo single. E diga que sim enquanto é tempo.

(Também quero mandar um yessss pro Luciano e pro BHY. You go, boys!)

ARISTOGATA

Natasha Richardson era tudo o que a gente quer ser quando crescer: alta, linda, aristocrática, talentosa, filha da Vanessa Redgrave. Sua morte, causada por um acidente aparentemente bobo de esqui, me faz torcer para que esta semaninha funesta acabe logo.

quarta-feira, 18 de março de 2009

A VIDA É SONHO

De vez em quando preciso comparecer a uns eventos corporate chatíssimos, como o lançamento de produto a que fui esta noite. Chegando lá, um consolo: a mestre-de cerimônias era Angélica, uma das mulheres mais bacanas deste país. Ela superou todos os vestígios da apresentadora infantil meio brega, e hoje passa beleza, segurança e um ar de à vontade que só quem passou a vida inteira diante das câmeras consegue dominar. Mas sua intervenção foi curta, e ela logo chamou a atração musical da festa: o Monobloco, uma escolha esquisita para um encontro de engravatados em São Paulo. Curioso lembrar que os ingressos para os ensaios da banda na época do carnaval eram os mais disputados do Rio, enquanto que ali eles só conseguiam animar meia dúzia de secretárias embriagadas - mas essas, também, se animam com qualquer coisa. E eis que de repente surge alguém rodopiando bem em frente ao palco, fazendo a alegria dos fotógrafos: Ronaldo Ésper, uma presença totalmente injustificada. Só não tive vergonha alheia porque senti uma pontinha de raiva, e saudades enormes do Clodovil. Angélica, Monobloco, "Roubaldo"... tudo isto junto não monta, não soa verdadeiro. Parece um sonho sem pé nem cabeça. Em que bicho devo jogar amanhã?

MÃE RÚSSIA

Jantei com Bernardo Carvalho semana passada, e conversamos sobre a declaração que ele deu à "Folha de São Paulo" outro dia ("gay não lê"). Bernardo foi além: quem não lê, de maneira geral, são os homens, de qualquer orientação sexual. Quer dizer, não lê romances - pode até ler biografias, auto-ajuda, tratados de economia. Mas ficção? "O Código Da Vinci" e olhe lá. Quem sustenta o mercado editorial são as mulheres. Hmm, pode ser, respondi. Se for verdade, os homens estão perdendo mais um bom livro do Bernardo, o recém-lançado "O Filho da Mãe", que se passa na Rússia. É sua participação no projeto "Amores Expressos", que mandou diversos escritores brasileiros para viver um mês numa cidade estrangeira e escrever um livro. Ele foi para São Petersburgo, onde lhe roubaram um laptop logo nos primeiros dias. Será que este trauma contaminou sua escrita? "O Filho da Mãe" é barra pesada do começo ao fim, e sim, conta a história de um amor gay. Mas os personagens mais fortes são as mulheres: mães, avós, amigas, que se vêem destroçadas pela guerra e pela culpa. Um livro que dói no estômago como um copo de vodka virado de uma só vez.

COMENDO O BIG BROTHER

Imagine um dia comum na casa do Big Brother Brasil, com as futuras capas da "Playboy" e da "G" envolvidas nas futricas e baixarias de sempre. De repente, alguém abre uma porta e dá de cara com... um zumbi! Que se alimenta de carne humana!! Gritos, desespero, carnificina. Maravilhoso, não? Pois algo parecido é o que acontece em "Dead Set", uma série em 5 episódios que foi um enorme sucesso na televisão inglesa. O mais engraçado é que foi produzida pela Endemol, a criadora do Big Brother, e usou cenários reais do próprio programa, além de ter participações especiais de ex-participantes. Mas não é um reality show: tem roteiro propriamente dito, e atores de verdade interpretando os concorrentes. Seria ótimo se algo parecido acontecesse por aqui, mas com uma mistura maior de realidade e ficção, sem avisar os atuais ocupantes da casa. Mwahahaha.

(Os produtores de "Dead Set", num lance genial de marketing, desativaram a incorporação de todos os trailers disponíveis no YouTube - ou seja, não consegui colocar nenhum aqui no blog. Mas um deles pode ser visto aqui. Será que algum dia essa gente vai aprender a trabalhar com a internet? Eu aqui fazendo propaganda de graça, e os caras criando obstáculos!)

terça-feira, 17 de março de 2009

SEDA PURA E ALFINETADAS

Quando eu fazia faculdade de manhã, lá na era Mesozóica, saía correndo para chegar em casa a tempo de ver o quadro do Clodovil, que encerrava o “TV Mulher”. Não, não estava interessado nos modelitos que ele gentilmente rabiscava para as telespectadoras. Mas adorava a irreverência com que ele dava conselhos – “gorda e de vermelho, você vai ficar parecendo um caqui!” – e as piadinhas de bicha que ele contava.

Sim, Clodovil tirava sarro de gay. Mas ai de quem fizesse a menor gracinha pra cima dele: o cara se ofendia, esperneava, criava caso. Era uma contradição ambulante: a pessoa mais mordaz e ferina do mundo, totalmente incapaz de relevar quando o alvo era si próprio. Vai saber as gozações que ele sofreu durante a infância no interior… Mesmo assim, a falta de sabedoria e maturidade em alguns casos era mesmo chocante, ainda mais em alguém que se apresentava como sofisticado e cosmopolita.

Com o tempo, o veneno dominou sua imagem. Ainda nos tempos do “TV Mulher”, brigou de morte com as outras estrelas do programa, Marília Gabriela e Marta Suplicy, e nunca mais fez as pazes. Sua fama nos bastidores era de uma pessoa insuportável, amarga e mal-criada.

Essa amargura não vinha do nada. Ele mesmo declarava que nunca tinha experimentado o amor, só o sexo. E, depois de ser umas primeiras personalidades a se declarar homosexual (como se ninguém na soubesse, mas na época era necessário muito mais cojones do que hoje), na velhice Clodovil era a própria tia reacionária, “contra” qualquer avanço nos direitos dos gays.

Nos últimos anos, não lhe tinha a menor simpatia. Desperdiçou a honra de ser o primeiro deputado federal assumidamente gay eleito neste país, e sua passagem pelo Congresso foi marcada por confusões e bate-bocas – apesar de ter apresentado alguns projetos bem razoáveis. Mas claro que sua morte me deixa triste. Clodovil foi um pioneiro e um traidor da causa gay, e uma persona pública muito fácil de amar e odiar. Seus pitis tardios ofuscaram o papel fundamental que teve na moda brasileira. Mas seu bom humor naquelas manhãs dos anos 80 contribuíram para me dar coragem e alegria, um pedacinho de seus cojones que fosse. Brigado, Clô.

BROMANCE MODERNO

Americano não tem mais o que inventar. Agora a moda por lá é o "bromance", o romance a seco, sem sexo, entre dois caras héteros ("brothers"). A MTV acaba de exibir um reality show sobre o assunto, onde um rapaz procura seu novo melhor amigo. E uma comédia que está para estrear escancara a tendência: "I Love You Man" conta a história de um cidadão que tem tudo, menos alguém para convidar para ser seu padrinho de casamento. O filme é estrelado por Paul Rudd, um dos atores mais talentosos de sua geração, e um totoso (adoro a toalha escondendo os pontos fracos - mostre ao mundo só o que você tem de melhor!)Na verdade, "bromance" é só o nominho transado para um fenômeno muito antigo. Quantas mulheres não têm a sensação que seus maridos e namorados preferem passar mais tempo com os amigos do que com elas? E nem tem a ver com desejo latente ou homossexualidade reprimida, é só uma questão de afinidade. Uma vez li uma entrevista do roteirista Paul Schrader onde ele se declarava "emocionalmente gay". Só gostava de mulheres para trepar; para conversar, ir ao cinema, chorar as pitangas, tinha que ter parafuso (ouvi este termo no rádio outro dia, mas ainda não sei se gostei).

O "bromance" é comum até mesmo entre os gays. Conheço um monte de pares de amigos que são verdadeiros casais, fazem tudo juntos - menos transar. Alguns até tentaram, mas rolou falta de química ou conflito de interesses. E mesmo assim, eles mantêm entre si uma relação muito mais sólida e duradoura do que com qualquer namorado. Isn't it bromantic?
(Mais uma sugestão do Luciano Guimarães, correspondente deste blog no Vale do Paraíba)

JÊI ROU


Hoje o Clebs me fez uma cobrança: "Não vai postar o vídeo do "Jai Ho" das Pussycat Dolls?". Posta você, uai, pra quê serve o seu blog? Ou este vídeo não se encaixa dentro da sua linha editorial, mais preocupada em mostrar a Kylie fazendo a dança do macaco? Mas claro que eu acabei cedendo (sempre cedo), e aí em cima está o tal do vídeo. Sou só eu que achei a coreografia meio forçada? Não tem aquela fluidez bollywoodiana, que deixa até os movimentos mais difíceis com cara de facinhos, facinhos. E alguém podia ter avisado à Nicole Scherzinger que a pronúncia certa é "jái rou", não "jêi rou" - quem sabe A. R. Rahman, o autor da música, e que também participa do clip? Já errou, gata.

CAIA QUEM CAIA

Ontem à noite fui à TV Bandeirantes, aqui em SP, sentar na plateia do "CQC". Não entendo muito bem porque o programa precisa ser transmitido ao vivo: as matérias são todas pré-gravadas, e os apresentadores no auditório também poderiam ser, sem prejuízo para a empolgação. Mas o fato é que Marcelo Tas, Rafinha Bastos e Marcio Luque não erram, não tropeçam, não engasgam. São um time afiadíssimo que não perde o timing e não deixa a peteca cair. A experiência em si foi algo desconfortável para mim: esperava ser acomodado numa sala VIP, com prosecco e petits-fours, mas me instalaram na arquibancada mesmo, se bem que na primeira fila. Eu e minha acompanhante éramos de longe as pessoas mais idosas do auditório, só perdendo (por pouco) para o próprio Tas. A energia do público é incrível, que berra como se estivesse num show do Iron Maiden. Mas não aguentamos até o fim - caímos de cansaço e dor nas costas, e puxamos o carro discretamente pouco antes da meia-noite. Acho o programa longo demais, e humorístico não pode ter mais de uma hora de duração. Mesmo assim, foi divertido estar bem no meio de um dos fenômenos mais interessantes da televisão atual.

segunda-feira, 16 de março de 2009

INVASÃO DE DOMICÍLIO

“O Visitante” é um filme paradoxal: tem uma interpretação espetacular de Richard Jenkins, merecidamente indicada ao Oscar, de um personagem bastante mal-construído. O protagonista é mostrado no princípio como um viúvo turrão e fechado ao mundo, um professor universitário que não dá bola para seus alunos nem para muita coisa mais. Quando ele vai a Nova York a trabalho, descobre que seu apartamento na cidade, raramente usado, está ocupado por um casal de imigrantes ilegais. E aí, num passe de mágica, o professor mal-humorado se transforma na pessoa mais generosa do mundo, capaz de cancelar todos seus compromissos para ajudar dois estranhos. A transformação fica mais crível quando entra em cena a maravilhosa Hiam Abbass, por quem o viúvo logo se encanta. Mas o roteiro, que pretende denunciar a arbitrariedade da política de imigração nos EUA, não consegue cicatrizar seus buracos, nem com a presença de dois atores sensacionais.

ABRE A CORTINA DO PASSADO

Tem um circuito de prédios históricos e culturais no centro do Rio de Janeiro que eu não me canso de visitar: é a tríade Paço Imperial – CCBB – Casa França-Brasil. Foi para lá que nos jogamos no sábado à tarde, e não nos arrependemos. A CFB está em obras, para ficar ainda mais bonita quando começar o “Ano da França no Brasil”. Mas no Centro Cultural do Banco do Brasil está a simpática exposição “Brasil Brasileiro”, que já passou por São Paulo no ano passado e no Rio fica em cartaz até 5 de abril. Feita para comemorar os 200 anos do banco, a mostra reúne um apanhado de pinturas – só pinturas – dos séculos 19 e 20, agrupadas de acordo com os grandes clichês da brasilidade: natureza, futebol, carnaval… E não é que funciona? É uma visão panorâmica e compacta da arte nacional, perfeita para se levar um amigo estrangeiro. Dali fomos para o Paço, onde ainda está em cartaz (só por mais uma semana) a retrospectiva que celebra o centenário de Burle Marx. Artista mais do que completo, Burle Marx praticamente inventou o paisagismo, e ainda deixou uma obra imensa, com quadros, tapeçarias e até jóias, dignas da entrega do Oscar. Também é um rasante no Brasil do século 20, do ponto de vista de um único criador. E para completar visitamos um prédio que não conhecíamos, o Centro Cultural da Justiça Eleitoral, instalado num verdadeiro palácio, construído há mais de um século para ser um banco e que hoje ainda passa por uma reforma. É curioso como São Paulo, tão antiga quanto o Rio, praticamente conseguiu extirpar todos os vestígios de sua longa história: é uma cidade onde só existe o presente. Gosto de viver em SP, mas às vezes este “agorismo” todo me incomoda. Por isto é um prazer caminhar pelo centro histórico carioca, e ver que ele ainda está vivo e bem de saúde.

domingo, 15 de março de 2009

FLY ME TO THE MOON

André Almada acaba de voltar do espaço sideral, onde foi conferir o andamento das obras da The Week Lua. Que pelo jeito não vai lá muito bem, visto a quantidade de cabelos brancos com que ele retornou à Terra.

sábado, 14 de março de 2009

ARMA DE DESTRUIÇÃO EM MASSA

Gentem, o que é o pau do Dr. Manhattan no filme "Watchmen"? Na primeira vez que o personagem aparece, azul e pelado como nos quadrinhos, a câmera sempre dá um jeito de não enquadrar o dito cujo. "Vai ser assim até o final", pensei, "eles não vão ter coragem". Mas tiveram. Dali pra frente o pau aparece o tempo todo, enorme, balançando, quase uma trama paralela num roteiro que já é complicadíssimo. Claro que é um efeito especial: do ator Billy Crudup, só a voz e alguns traços do rosto. E fico feliz em dizer que o bilau atômico é só uma das coisas boas de "Watchmen". Li a historinha, perdão, graphic novel, há mais de 20 anos, e não lembrava um caralho (nem o do dr. Manhattan). Então fui pro cinema sem expectativa nenhuma, ou melhor, esperando me aborrecer, já que super-heróis não são exatamente my cup of tea. Mas me diverti à pampa porque, apesar de violentíssimo, o filme também é zexy (Matthew Goode, o Ozymandias, é zuzo de bom) e cheio de referências pop ("99 Luftballons!"). I watch the Watchmen!

sexta-feira, 13 de março de 2009

DEU NO "NEW YORK TIMES"

Olha aí a tal da "cauda longa" em ação. No dia 16 de fevereiro passado, subi um post aqui no blog falando do dublador brasileiro que se recusou a dublar Sean Penn em "Milk". Dois dias depois, me ligaram da "Folha de São Paulo" querendo saber de onde foi que eu desencavei tal notícia. Não fui de ajuda alguma, pois não podia revelar a minha fonte. Mas o pessoal da "Folha" é esperto e seguiu a pista certa. No dia 23, segunda-feira de carnaval, lá estava uma notinha no jornal. E a partir daí, a repercussão foi enorme. Esta semana, chegou a nível internacional. O caso foi reportado na "Adovcate", a mais respeitada revista gay americana, no "Variety", a "bíblia do show business" e, suprema consagração, no "New York Times". Não estou me vangloriando (muito), estou é espantado como que a marolinha gerada por um reles blog pode se transformar num tsunami de proporções planetárias. Se você googlar "Marco Ribeiro Milk", vão aparecer 23.500 resultados... Quase fiquei com pena do cara. Ele disse que recusou o trabalho neste filme para evitar aborrecimentos. Aposto que nunca se aborreceu tanto na vida.

CONAR, O TERRÍVEL

Como havia prometido no post sobre o comercial de Doritos, fiz mesmo uma reclamação no site do Conar. E hoje recebi a seguinte resposta:

Prezado(a) Sr(a). Luiz Antonio Barreto Goes

Em atenção à sua reclamação, recebida em 11/03/09, o CONAR informa que instaurou o processo ético nº 074/09, resultante daquela queixa e referente ao anúncio: “DORITOS YMCA".

O julgamento do processo ocorrerá brevemente e, tão logo seja possível, a decisão estará disponível em nosso site: www.conar.org.br - em Notícias.

Atenciosamente

Secretaria Executiva

CONAR - Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária


Vamos ver no que vai dar essa história. Às vezes o Conar é implacável e tira mesmo um filme do ar, duela a quien duela. Mas em outras a decisão sai tarde demais, quando a campanha já acabou, e aí Inês é "Marta". De qualquer forma, é sempre bom reclamar. Pelo menos ficam sabendo que teve gente que não gostou.

PERDOAI-OS, PAI

Tem coisa mais desconectada do mundo moderno que a alta hierarquia da Igreja Católica? O papa Adolf I admitiu, numa reunião no Vaticano, que não se deu conta que as declarações insanas daquele bispo des-excomungado que nega o Holocausto podiam ser facilmente encontradas na internet. Oi? Enquanto isto, aqui no Brasil, a CNBB corre para diminuir o estrago causado pelo arcebispo do Recife, que deu a entender que o estuprador merece o reino dos céus e a menina que engravidou dele aos 9 anos, o fogo do inferno (não foi bem isto que sua Eminência falou, claro, mas esta é a sensação que ficou). Numa tentativa de damage control, a cúpula da Igreja já reverteu a excomunhão da mãe da garota. Seria melhor que contratassem logo um daqueles mega-relações públicas americanos, como o que está cuidando da reabilitação da imagem do rapper Chris Brown. Daqui a pouco sai um dueto dele com a Rihanna, cantando alguma coisa tipo entre-tapas-e-beijos, e todo mundo esquece do episódio das porradas. Quem sabe se o papa gravasse uma versão em latim de “Umbrella”?

quinta-feira, 12 de março de 2009

NOME IMPRÓPRIO

Sabe com quantos Tiagos eu estudei na vida? Nenhum. Zero. Zilch. E olha que estou falando de três colégios diferentes, duas faculdades e inúmeras classes (viviam me trocando de turma, talvez para que eu desenvolvesse o gosto pelo futebol; não deu certo). Em compensação, havia dezenas de Marcelos, Paulos e Robertos. Hoje tenho muitos amigos bem mais jovens do que eu, e uns 70% se chamam Tiago. Não estou brincando. Foi por causa deles que tive que escrever o sobrenome de cada um na minha agenda telefônica, porque às vezes tenho a sensação de que TODO MUNDO se chama Tiago (ou Thiago).

Nomes entram e saem de moda, é sabido. O curioso é que hoje em dia muitos pais batizam os filhos como se estes fossem ser crianças para sempre. Antes de qualquer coisa, o nome tem que ser fofo (“Camila”, “Felipe”). Assim sumiram os nomes épicos, greco-romanos, que evocam o século 19 ou os políticos do Norte-Nordeste. Epaminondas, Agamenon, Alcebíades: esses nomes que já foram chiques hoje em dia nem bregas são, simplesmente porque não existem mais. Entre as classes menos afortunadas, diminuiu a moda de combinar os nomes do pai e da mãe (“Lurian”). Em compensação, num esforço de alpinismo social mal-assessorado, abundam os Máicon e os nomes de personagens de novela. Será que vem aí uma geração de Bahuans?

Tudo isto para dizer que o segundo filho da ex-lésbica Anne Heche foi batizado de… Atlas (o primeiro se chama Homer, uma escolha perigosa em tempo de Simpsons). As celebridades americanas adoram nomes bizarros, cool, ainda mais que as brasileiras (“Mano Wladimir”). E no site Nameberry, que ajuda os pais dos EUA a escolher um nome para o bebê, há uma página que lista os nomes mais em voga por lá – afinal, se for muito usado, um nome perde rapidamente a coolness. Gostaria que existisse algo parecido quando Tiago estava no auge.

A VOZ DO FABRICANTE

Este é o novo iPod Shuffle. Tão pequeno, mas tããão pequeno, que não sobrou espaço nem para os botões de controle. Estes foram para o cordão dos fones de ouvidos, e são apenas três: mais volume, menos volume e play/stop. Mas, ao contrário dos outros Shuffles, neste você pode pelo menos saber o que está ouvindo. Não há tela com informações ou capinha de disco, mas, se você continuar apertando o play, uma voz vai dizer o nome da música e do intérprete. Meio assustador, não? Esta mesma voz deve dizer durante as músicas, baixinho e ao contrário: "Compre Apple... compre Apple... Steve Jobs é Deus..."

quarta-feira, 11 de março de 2009

GOT MILK?

O post abaixo saiu um pouco erudito demais. Para contrabalançar, nada como um toque de grossura: uma cena de um episódio de "Family Guy" que está eriçando as penas dos conservadores americanos. Nela, o bebê Stewie percebe que o leite de seu cereal não é leite, é esperma de cavalo - e gosta. Afinal de contas, é mais nutritivo que um pacote de Doritos.

MADAME VS. MADEMOISELLE

E por hoje chega de tanta conscientização política. Lá vai um momento de senso fashion equivocado, sexualidade exarcebada e alienação ao resto do mundo: o trailer de "Coco Avant Chanel". Se alguém ainda não entendeu pelo título, é a história do começo da carreira de Coco Chanel, talvez a francesa mais influente do século 20 - estou entre ela e Madame Curie, a descobridora da radioatividade. Mas as invenções de Mademoiselle (era assim que Chanel exigia ser chamada) não ficam atrás: o tailleur, o pretinho básico e toda uma nova maneira de vestir a mulher, recém-liberta do espartilho e da crinolina. Com este filme, periga Audrey Tautou/"Amélie" recuperar o trono de atriz francesa mais quente do momento, perdido desde que Marion Cotillard /"Piaf" ganhou um Oscar. Estréia em Paris em abril, e no Brasil sabe-se lá quando. Hélàs.

(Antes que alguém me corrija: Madame Curie, née Maria Skłodowska, nasceu na Polônia, mas mudou-se ainda adolescente para a França, onde estudou, casou e fez carreira. Foi a primeira mulher a ter seus restos mortais trasladados para o Panthéon em Paris, onde estão sepultados os grandes heróis da pátria. Então pode ser considerada francesa.)

QUER DIVIDIR ALGUMA COISA COM OS AMIGOS?

Hoje tem um assunto incontornável: o comercial homofóbico de Doritos. O Celso Dossi postou ontem, dizendo que nem tinha achado assim tão grave, mas que estava tomando as dores de um amigo que se sentiu ofendido. E aí começou a polêmica. Até agora o Celso já recebeu 52 comentários, uns dizendo que o filme não tem nada de mais, outros propondo reclamação ao Conar e boicote aos produtos da Pepsico (a holding que controla a Elma Chips, fabricante do salgadinho). Estou entre esses últimos. A propaganda é homofóbica sim, gente, não há como negar. Se a intenção era tirar sarro da dancinha ridícula do garoto, então que tocassem a "Macarena", como o próprio Celso reparou, ou "Aserejé", ou "A Dança do Passarinho". "YMCA" é um hino gay. A letra é cheia de insinuações, pois até os anos 70 - época em que a música foi lançada - a Associação Cristã de Moços era famosa pela pegação que ocorria em seus vestiários (talvez ainda seja; não é um lugar que particularmente me interesse). E era cantada pelo Village People, faça-me o favor. O que o comercial diz claramente é: "não saia do armário, você vai levar merecidas porradas".

Sou publicitário, e sinto dizer que o meio é extraordinariamente preconceituoso. Há pouquíssimos gays trabalhando na minha área, a criação. Mais do que quando eu comecei há mais de 25 anos, mas ainda poucos. Sim, a homofobia e as brincadeiras bobas diminuíram - mais de uma pessoa já veio me pedir desculpas por alguma gracinha inapropriada, e eu geralmente não estou nem aí. Sim, eu também faço piada de bicha. Porque há muito do que se rir de uma bicha: o senso fashion equivocado, a sexualidade exacerbada, a alienação ao resto do mundo. Tudo caricatura de coisas que ocorrem, sim, na vida real. Mas tirar sarro da sexualidade reprimida de um adolescente? Isto agora é off-limits. Não pode. O que a agência - se não me engano, é a Almap/BBDO - e o cliente estão fazendo é brincar com a insegurança típica dessa faixa etária, um dos períodos mais difíceis da vida. E estão perpetuando o preconceito e a homofobia.
Vão dizer que não temos "senso de humor". Temos, assim como temos dinheiro. Este não verão tão cedo. O Daniel e o Pavinatto estão convocando um boicote, e eu já aderi. De hoje em diante, produto nenhum da Pepsico entra na minha casa ou passa pela minha boquinha. Também já fui no site do Conar e fiz minha reclamação; faça a sua você também. Quer dividir alguma coisa com os amigos? Divida sua indignação.

terça-feira, 10 de março de 2009

CINQUENTÃO ACABADAÇO

Não é engraçado que a Barbie e o Osama Bin Laden façam aniversário quase que no mesmo dia? Pois é, hoje o terrorista mais procurado do mundo completa 52 anos. Quer dizer, se estiver vivo - tenho cá comigo que Osama morreu quando os EUA bombardearam as montanhas afegãs de Tora Bora, no final de 2001. Porque, desde então, ele nunca mais apareceu: só em gravações em áudio, que os especialistas correm para dizer que são autênticas. Talvez os americanos não tenham como provar que Osama se fué, e claro que interessa à al-Qaeda passar a impressão que seu chefe está operante (também interessa aos americanos, que assim prosseguem a "guerra ao terror"). A Libanesa conta que, lá em Peshawar, a hospitaleira cidade paquistanesa onde ela foi achar namorado, todo mundo conhece a mansão onde mora Bin Laden. De qualquer forma, vivo ou morto, hoje ele não apita mais nada. É só um símbolo, quase um ícone pop. Jovens muçulmanos usam camisetas com seu rosto como se ele fosse um novo Che. Ou uma nova Barbie.

I WANNA DO BAD THINGS WITH YOU

Comecei a ver a série “True Blood” da HBO com má vontade, meio por falta de opção no horário (22 h de domingo). Sentia falta de glamour nesse programa sobre vampiros modernos, que lutam por seus direitos civis (óbvia metáfora gay) e tentam conviver mais ou menos em paz com os simples mortais. Mas esta lacuna é preenchida por um humor pra lá de negro. Logo num dos primeiros episódios, uma manchete de jornal dizia assim: “Angelina adopts vampire baby”. Depois surgiram humanos viciados em sangue de vampiro, ou “V”, vendido no mercado negro como uma droga afrodisíaca que deve ser inalada na forma de um pó vermelho. Tem um dealer gay que faz um trato com um vampiro tiazona: um pouco de sexo em troca de ampolas cheias de “V”. Os dois se encontram toda segunda, que para o cacura é a melhor noite da semana: “Primeiro tem “Heroes” na TV, depois você vem vem me visitar!”.

segunda-feira, 9 de março de 2009

ENTRA MUDA E SAI CALADA

A turnê "Circus" da Britney Spears vem recebendo críticas surpreendentemente boas. Há um clima de boa vontade com ela na mídia, apesar de Nonô estar mais vagaba do que nunca - saca só um dos modelitos mais discretos que ela usa em cena. Dessa vez nem houve o clássico debate se ela canta mesmo ou dubla: a própria soltou uma declaração de que não há um único vocal ao vivo durante todo o show. Brava, digo eu. Poupe sua vozica e gaste o popozão. Fiquei curioso para ver a tal versão bollywoodiana de "Me Against the Music", que ela lançou com a Madonna em 2003. Achei uns vídeos no YouTube, mas a qualidade tá ruinzinha demais. Então prefiro deixar aqui um remix indiano da música, feito muito antes dos dalits e badis entrarem na moda. Atchá!

CINQUENTONA ENXUTAÇA

A Barbie é sempre acusada de propor um ideal de beleza inalcançável para as pobres meninas que brincam com ela. De fato, as medidas da boneca são simplesmente impossíveis na vida real. O que seus inimigos não percebem é que ela foi, sim, uma feminista pioneira. Antes dela, as bonecas eram todas bebês ou crianças, e as garotas só podiam brincar de mamãe - ou seja, treinar para o único papel que a vida adulta lhes reservava. Barbie quebrou esses grilhões: ela é uma mulherrr, e pode ser o quiser. Aeromoça, sereia, Miss Universo, gueixa, operadora de telemarketing. E, apesar de seu sexo liso (ou "púbis angelical", como diria o escritor argentino Manuel Puig), também foi a primeira boneca a ter um namorado. Feliz aniversário, Barbie, you look fabulous. Como diz Jack Donaghy, o personagem do Alec Bladwin em "30 Rock": "50 is the rich people's 38".

BUSH/NIXON

Não dá para ver "Frost/Nixon" sem pensar em George W. Bush. Porque os crimes de Nixon parecem fichinha perto dos cometidos por Bush e Cheney. Espionar a sede do partido democrata? Não é nada comparável à guerra do Iraque, desnecessária e descontrolada. Nixon renunciou para não ser "impeachado", e viveu em desgraça pelo resto da vida. Não foi reabilitado nem mesmo quando os republicanos voltaram ao poder. Bush foi muitíssimo criticado, é verdade, mas agora vai viver uma alegre aposentadoria no Texas como se nada. Os tempos mudaram: mesmo sendo desonesto, Nixon tinha grandeza, tinha porte de estadista, e uma certa vergonha pelo que fez - ou pelo menos por ter sido apanhado. Bush não está nem aí, apesar de ter saído da presidência menor do que entrou. Enfim, estou divagando: o fato é que "Frost/Nixon" é um ótimo filme, que pensa e faz pensar. Não é para qualquer um - tem que gostar de história e de política para aproveitar. Se este é seu caso, então corre para o cinema.

(Um adendo: também não dá para pensar em Nixon sem lembrar de Collor, que igualmente renunciou para não sofrer impeachment. Nixon nunca foi acusado de corrupção, e mesmo assim morreu no ostracismo. Collor está aí, abençoado por Lula e pronto para meter a mão no cofre outra vez. Bem-feito pra nós.)

domingo, 8 de março de 2009

PADRE NOSSO

Ontem chamei um povo para beber em casa antes de irmos todos pra boate. Um dos convidados era um amigo que mora em Londres, e que trouxe a tiracolo um casal de ingleses. À primeira vista, nada de excepcional: dois caras mega-bombados de camiseta cavada, um tipo que se vê demais por aqui. Só que um deles era padre. Sim, padre; anglicano, não católico, mas padre. E em pleno exercício das funções. O bispo sabe dele, os paroquianos também, e ninguém está nem aí. Por causa das missas de domingo, ele nunca sai sábado à noite, nem se coloca jamais. Mas ontem ele e o namorado estavam curiosos para conhecer a The Week. Mesmo assim, padre David me perguntou onde haveria uma igreja bonita para assistir missa hoje de manhã. Católica mesmo, em português mesmo. Não consegui lembrar o endereço da catedral anglicana aqui em SP, então indiquei a Nossa Senhora do Brasil, uma das mais lindas da cidade. Espero que ele tenha se impressionado com os murais da igreja, assim como eu me impressionei com a história dele.

sábado, 7 de março de 2009

QUE NÃO OUSA DIZER SEU NOME

"A literatura é a possibilidade de escapar de um lugar no mundo, que é humano e restrito. Nenhum livro meu deixa de ter relação homossexual. Mas não quero o rótulo. Se você o aceita, funciona mercadalogicamente. Não sei se explodiria, até mesmo porque gay não lê. O meio gay não é especialmente letrado. Serei assassinado por dizer isso." Conheço o Bernardo de Carvalho há muitos anos, e já li quase todos os seus livros. Mesmo assim, quando vi essa entrevista dele na "Folha" de hoje, me deu vontade de publicar aqui no blog o endereço dele, para que alguém o encurrale logo. Como assim, gay não lê? Sei que é difícil imaginar as barbies descamisadas lendo "A Críica da Razão Pura" de Kant, mas a imensa maioria das bibas que eu conheço lê sim, e muito. Quem não lê são os héteros, que em geral preferem os canais de esportes. OK, isso também é um estereótipo, e claro que eu entendi que o Bernardo também quer escapar de outro clichê clássico: o escritor que só escreve sobre gays, para gays. Também não gosto do termo "blogayro". Porque todo mundo que escreve tem no fundo a mesma ambição: dominar o mundo, sem distinção de sexo,, raça ou religião.