quarta-feira, 24 de maio de 2017

UMA DÉCADA

Hoje o meu blog completa dez anos. Foi no dia 24 de maio de 2007 que me deu siricotico, depois de ler os blogs Introspective e Carioca Virtual (ambos já extintos, mas seus autores continuam meus amigos). Eu vivia uma espécie de crise profissional: trabalhava com propaganda e estava de saco cheio do cliente meter a mão em cada vírgula que eu escrevia. Resolvi criar um espaço onde só eu mandasse, sem a menor pretensão de ser lido por ninguém. Acabei pegando carona sem querer no boom de blogs gays que marcou aquele ano. De lá para cá, a internet se tornou ainda mais presente, com as redes sociais quase controlando nossas vidas. Pouquíssima gente ainda tem blog, e às vezes eu me pergunto por quê eu ainda atualizo o meu todo santo dia. Não, não vou dizer que é por sua causa, querido leitor. Nesse ponto eu sou como o Walter White de "Breaking Bad": eu faço isto por mim mesmo. Mas claro que eu adoro ser lido, e amo ainda mais receber comentários, e tenho orgasmos quando não são assinados por anônimos. Obrigado por me aturar. Você também não é fácil.

terça-feira, 23 de maio de 2017

50 TONS DE PRETO E BRANCO

Finalmente assisti à toda a primeira temporada de "Dear White People", a série da Netflix que se insere com garbo na onda "black is the new black"moue é o tema da minha coluna de hoje no F5. Baseado num filme do mesmo nome que não chegou a ser exibido por aqui, o programa encara de frente o racismo travestido da era pós-Obama, mas sem ignorar as contradições - ou o que seus personagens acham que é contraditório Como o fato da protagonista Sam White (a ironia já começa pelo sobrenome) ser uma mulata de olhos claros, e ainda por cima namorar um branco. Também tem a Coco, que faz a linha patricinha e usa uma peruca lisa, mas como escudo: ela vem de um bairro barra-pesada de Chicago, e não quer ser morta pela polícia como muitos parentes seus. Sem falar no Lionel, o favorito das beees, porque sua homossexualidade reprimida o incomoda mais do que a cor de sua pele. Com episódios curtos e algumas ótimas piadas (como "Difamation", a sátira de "Scandal"). "Dear White People" também fala sério e emociona. Mesmo que você seja branco e não se ache racista, vale a pena ver.

ADIVINHE QUEM VEM PARA CORRER


De vez em quando surge um filme que empurra a historia do cinema para a frente, mesmo sem ser uma obra-prima. Parece que é o caso do terror "Corra!", onde o mocinho é negro e os vilões são brancos. Quem quiser apenas um thiller vai se divertir com essa estreia na direção de Jordan Peele (da dupla de humoristas Key & Peele). Quem busca crítica social, vai entender as metáforas e ler nas entrelinhas. Porque é de racismo que estamos falando, ainda que na era pós-Obama. O ponto de vista de "Corra!" é o de um negro de classe média heterossexual, que mesmo assim ainda é tratado com estranheza pelo mundo branco. O roteiro tem vários cenas genuinamente engraçadas e outras bastante incômodas, mas é o final que está gerando mais discussão. Depois de hesitar muito, os autores optaram por um desfecho que agradasse à plateia, e a estratégia deu certo: o filme foi um tremendo sucesso nos Estados Unidos, e até aqui - onde filmes de temática negra costumam ir mal - as salas estão cheias. Mas é importante lembrar que "Corra!" faz parte de uma nova onda de filmes e séries de TV americanas que falam da relação entre as raças agora que já existe toda uma geração que frequentou escolas e bairros miscigenados. A tensão já baixou consideravelmente, mas é evidente que ainda há muito a ser conquistado.

(Leia mais sobre este assunto na minha coluna de hoje no F5)

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O ERRO E O CRIME

Erro é sair de casa em mangas de camisa e o tempo virar durante o dia. É não perceber uma placa e ir parar na casa do chapéu. É pedir um prato num restaurante e ele não ser nada do que você esperava: "droga, errei!". O erro é sempre involuntário. Você achava que estava fazendo a coisa certa, mas errou. Bem diferente do que pedir propina ou fugir com uma mala de dinheiro. Mas a novilíngua que impera na política brasileira, da direita à esquerda, permite que delatados como Temer, Aécio e Lula digam que podem até ter cometido erros, ou - suprema cara de pau - foram induzidos a eles. Não, o que cometeram foram crimes mesmo. Erro a gente conserta e perdoa. Crime dá cadeia. Confundi-los é mais que errado: é criminoso.

CRAQUELANDO A CRACOLÂNDIA

Moro bem perto de uma das várias cracolândias de São Paulo e sempre tem pelo menos um noia vagando pelo meu quarteirão. Nos últimos dias, mesmo antes da ação espetacular deste domingo, começaram a aparecer uns novos, provavelmente fugindo do climão que já estava piorando no centro. Agora estou à espera de uma nova leva de "walking deads" desalojados. Isto não quer dizer que eu seja contra o desmantelamento da Cracolândia (com C maiúsculo, pois estou me referindo à original). Ela existe há tanto tempo e parece tão insolúvel que nos acostumamos com a ideia, mas pouquíssimas grandes cidades do mundo têm um espaço tão acintoso e violento em sua área central. Tem mais é que derrubar tudo mesmo. Mas atenção, não estou falando em derrubar os dependentes químicos: estes precisam de tratamento e acolhida, é claro. Por enquanto estão se espalhando feito baratas, porque ontem a prefeitura e o governo do estado só se preocuparam com o aspecto policial. Já surgem relatos de descoordenação entre as duas esferas do poder público, e chama a atenção o fato do Alckmin dizer que este foi só "o primeiro passo" enquanto que  o Doria bate no peito e urra que acabou (sozinho) com a Cracolândia de uma vez por todas. Se ela não voltar mesmo, ele terá aumentado de forma considerável seu cacife para a eleição presidencial do ano que vem (falei isto num post no Facebook que muita gente entendeu como apoio à candidatura do prefeito, mas era só uma constatação). Mas é difícil acreditar nisto, porque o problema é grave e complexo. Só espero que ele não tenha sido agravado e que a minha vizinhança piore ainda mais.

domingo, 21 de maio de 2017

VOLTAR A VOLVER


O caso de amor entre Benjamin Biolay e Buenos Aires já está durando mais do que alguns dos casamentos do meu mais antigo noivo secreto. Apenas um ano depois de "Palermo Hollywood",  ele volta à capital argentina com "Volver". O novo disco é mais ensolarado que o anterior, mas a receita continua a mesma: tango, cumbia, rap portenho e a participação da ex- Chiara Mastroianni, com quem o desgraçado diz que formará uma família para sempre. Eu também vou me repetir: "Volver" é um álbum sensacional, e mais uma confirmação do imenso talento  do meu noivo. Fora que ele continua lindo.

sábado, 20 de maio de 2017

O HAMLET TRANSGÊNERO


O que eu mais admiro na Laerte nem é a coragem, é a lucidez. Que não deixa de ser coragem também, é claro. Ela tem o peito metafórico de se questionar o tempo todo, de rir de si mesma e de não entender nada de vez em quando. Não exige que ninguém a trate de determinada maneira e não põe x no fim do próprio nome. É a protagonista de uma incrível viagem de autoconhecimento, que uma hora faz questão de compartilhar; na outra, prefere ser esquecida em seu canto. "Laerte-se", o primeiro longa brasileiro produzido pela Netflix, é o documentário que ela ganharia mais cedo ou mais tarde, e suas dúvidas aparecem logo no começo. Laerte não sabe se desmarca ou não uma entrevista com Eliane Brum, uma das co-diretoras, numa sequência que dura um teco a mais do que o necessário. Aliás, esse é um defeito do filme: alguns momentos se alongam, outros são descartáveis (tipo, Laerte conversando com a vizinha sobre o gato), e ainda por cima falta música. Mas Laerte continua fascinante, pois ela mesma não para de se fazer perguntas. É gay, travesti, crossdresser, transexual? Deve / precisa / pode / quer por peito? E esse vestidinho, lhe cai bem ou não? O gosto de Laerte por moda, bijoux e maquiagem é palpável, e às vezes eu tenho a sensação de que toda sua problemática se resume a isto. Outras, no entanto, percebo um ser humano em plena ebulição e - por que não? - em pleno domínio de si mesmo, ainda que este "si mesmo" não pare de mudar e só se revele aos poucos.

A PRIMAVERA PERSA

Enfim uma boa notícia. Hassan Rowhani foi reeleito presidente do Irã, e por uma bela margem: mais de 60% dos votos. O que não quer dizer que o "país persa", como a Folha gosta de chamar, virou um paraíso de liberalidades. Mas Rowhani de longe era a melhor opção. Um clérigo moderado, empenhado em normalizar as relações do Irã com o Ocidente e favorável a uma certa flexibilização dos costumes. Não é à toa que a mulherada votou em peso nele, assim como a classe média, os centros urbanos e os mais educados. O Irã é um país complexo pacaray, onde uma cultura sofisticada convive ao lado de trevas medievais. Gostamos de demonizar os aiatolás, mas o regime deles permite uma participação popular bem mais ampla do que na maioria dos países muçulmanos. Tomara que o boçal do Trump não jogue Rowhani na mesma vala que o Taliban e o Estado Islâmico. Caso contrário, a chance de estourar uma guerra é grande.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

AQUÉM DE EMILY


Na década de 80, fui duas vezes ver um monólogo chamado "Emily", com interpretação de Beatriz Segall e direção de Miguel Fallabella. Foi minha introdução a Emily Dickinson, a poeta americana que levou uma vida reclusa e só foi descoberta depois de morrer aos 55 anos, virgem e solteirona. A peça era de uma leveza profunda, assim como a obra de sua protagonista. Mas "Além das Palavras", que está em cartaz já faz algumas semanas, segue por outro caminho. Entendo que é muito difícil dramatizar uma vida onde basicamente não aconteceu nada, mas algumas escolhas do diretor inglês Terence Davies me deixaram perplexo. Porque fazer o elenco declamar suas falas, num tom mais apropriado ao palco do que à tela? O texto sai como se tivesse sido decoradinho, o que de fato foi, sem nenhuma naturalidade. Emily Dickinson também é retratada como uma mulher cada vez mais amargurada, e a meia hora final - em que ela agoniza entre ataques epiléticos e uma doença crônica nos rins - é bem árdua de se ver. Achei que eu ia gostar bem mais.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O FIM DO AECIM

Eu já era adulto quando morreu Tancredo Neves. Participei ativamente da campanha pelas Diretas-Já e sofri feito um bezerrinho quando o primeiro presidente de oposição escolhido pelo Colégio Eleitoral da ditadura não conseguiu tomar posse. Tancredo ficou no meu imaginário como um político idealista, aquele que quase salvou o Brasil. Essa simpatia se transferiu depois para seu neto Aécio, que se vendia como uma versão remix do avô. Parecia inevitável que o jovem tucano um dia seria presidente: ele tinha muito apoio em Minas, foi um parlamentar hábil, era simpático e sorridente. Essa imagem começou a se partir para mim muito antes das eleições de 2014. Surgiam relatos de que Aécio só pensava em badalar, que passava mais tempo no Rio do que em BH e que quem tocava o governo mineiro para valer era sua irmã Andrea. Mesmo assim, votei nele no segundo turno, porque um novo mandato para Dilma me assustava ainda mais. Se eu soubesse o que sabemos hoje, teria anulado meu voto. Inclusive porque ele se comportou muito mal na derrota. Foi um péssimo perdedor. Fez o que pôde para melar as tentativas da ex-presidente de recuperar a economia e ainda entrou com o pedido de cassação da chapa Dilma-Temer no TSE. Enquanto isto, nos bastidores, cometia os mesmíssimos crimes de que acusava o PT. Ontem Aecim caiu em desgraça. O dinheiro que ele recebeu tinha chip, galera! E quem vai acreditar que o Joesley Safadão queria ajudá-lo a pagar seus advogados só por altruísmo e amizade? O mesmo desinteresse que fez o dono da JBS doar cinco milhões para Eduardo Cunha na cadeia? O mais patético é que Aécio Neves não vai fazer a menor falta. Com ele não some nenhum bandeira, nenhuma causa, nada. Só ele mesmo e sua turma. Próximooo!

TEMERMOTO

Estou chocado, mas não estou surpreso. Chocado, é óbvio, porque agora existe uma prova material, contundente e irrefutável de corrupção dentro do Palácio da Alvorada (vulgo do Alvoroço): não é todo dia que a gente ouve um presidente da república dizer que "tem que manter isso, viu?", com todas as letras e em alto e bom som. Mas surpreso? Claro que não. Ou alguém achava que Michel Temer, o Velho, era uma vestal impoluta dentro do puteiro que sempre foi o PMDB? Ele é o pre-si-den-te do partido, people. Não tem como não estar enrolado até a raiz dos cabelos com todo tipo de maracutaia. Agora o véio encara o último ato de sua ilustre carreira. Já havia dito que não se candidataria a nenhum cargo público depois de sair da presidência. Sonhava em passar para a história como o sujeito que aproveitou sua impopularidade para aprovar reformas necessárias na economia. O futuro o absolveria! Pois é, já era. As opções do momento são a renúncia, o impeachment ou a cassação pelo TSE, que de repente ficou bastante possível. Qualquer uma delas vai manchar pela eternidade a biografia desse político medíocre, que nunca foi bom de voto mas sempre comeu pelas beiradas. Se bem que o destino do Temer é o de menos: ele que se foda, né? O que importa é o que vem a seguir para o Brasil. É preciso manter algum sangue frio, porque o pouco que temos de instituições pode ir de vez para o caralho. Uma eleição direta atabalhoada, sem tempo para campanha e debate, não garante porra nenhuma. O melhor seria finalmente fazermos a tão cantada reforma política, antes de qualquer outra coisa. Porque um presidente eleito com o sistema que está aí não vai mudar nada. Continuaremos reféns das coalizões (i.e., do PMDB), e novos escândalos não vão demorar a aparecer. Mas quem teria credibilidade para conduzir tal processo? Quem seria aceito por todos os lados? Tá foda, viu? Se é que já não fodeu.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

O DEZESSETE DE MAIO

Houve um tempo em que eu achei que, uma vez aprovado o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a homofobia iria diminuir drasticamente. Afinal, se até a lei está do nosso lado, se os gays são reconhecidos e amparados pelo estado, o respeito viria naturalmente, não? Mas não foi o que aconteceu. Nem aqui e nem nos Estados Unidos, o epicentro do movimento LGBT que eclodiu nos anos 60. Gays, lésbicas, bissexuais e, principalmente, travestis e transgêneros ainda são perseguidos e até mortos. Aqui, lá, em muitos lugares do mundo. A eleição de Donald Trump fez com que os "deploráveis" americanos (na perfeita definição de Hillary Clinton) se sentissem empoderados, no pleno direito de extravasar sua tacanhice. No Brasil, é apavorante que uma figura grotesca como o Bolsonazi tenha 16% das intenções de voto para presidente, e que sua maior penetração seja justamente entre as classe mais ricas e educadas. É por isto que eu digo e repito neste Dia Internacional Contra a Homofobia: nossa única salvação é a visibilidade. É se expor e - gasp - dar a cara para bater. Porque a violência tende a aumentar, nesses tempos de ânimos exaltados e esconderijos virtuais. Sei que para muita gente não é fácil sair do armário, mas não é ficando lá dentro no quentinho que a gente vai melhorar as coisas. Também temos que aceitar todo o apoio que nos derem, sem essa besteira de dizer que estão roubando nosso "protagonismo" ou "lugar de fala" (graças a Deus, jamais ouvi um LGBT proferir tais sandices, mas vai que). Todos nós temos famílias e amigos e, se eles nos aceitam, precisam também se engajar nessa luta. Porque a homofobia, como qualquer preconceito, não é contra um grupo específico. É contra todo mundo.

SEM PEDIR DESCULPAS


Acho que nunca houve um vencedor do Eurovision menos pop do que Salvador Sobral. O cantor português não teve pruridos em dizer que achou a maior parte da concorrência sofrível, e que a torcida de Caetano Veloso por ele lhe valeu mais do que a vitória no festival. O fato é que o habitat do gajo é mesmo o jazz, como está claro em seu primeiro álbum, "Excuse Me". Das 11 faixas, uma única é cantada na última flor do Lácio: "Nem Eu", de Dorival Caymmi, numa interpretação que ouso dizer definitiva. O resto são standards que ficariam bem no bar do hotel Carlyle em Nova York, além de um par de canções em espanhol. Ou seja: "Excuse Me" vai desapontar quem esperava um disco cheio de lusitanidade. Nem mesmo "Amar pelos Dois" foi incluída. Mas é um biscoito finíssimo, que exige bagagem e atenção do ouvinte. E é só o começo do que parece ser um grande talento.

terça-feira, 16 de maio de 2017

GENOCÍDIO CINEMATOGRÁFICO


É realmente impressionante que ainda se faça um filme como "A Promessa". Um drama histórico de orçamento caríssimo, roteiro fraco e realização sem um pingo de imaginação. Talvez porque o produtor Kirk Kerkorian seja de origem armênia e tenha querido relembrar o massacre que seus antepassados sofreram da mão dos turcos durante a 1a. Guerra Mundial. A reconstituição de época é até bem feita, mas os personagens são muito mal construídos. O mocinho vivido por Oscar Isaac (que anda pegando todos os papéis que uns anos atrás iriam para Antonio Banderas) tem todas as qualidades possíveis e nenhum defeito. Sua amada é bonita, ponto. Christian Bale faz um heróico jornalista americano que ama a mesma moça, mas não chega a ser um rival. E o final ainda chupa um momento marcante de "Titanic", sem disfarçar a mão pesada. É uma pena, porque o genocídio armênio foi uma das tragédias do século 20. Merecia um filmão, não essa hecatombe.

AS IF WE'VE NEVER SAID GOODBYE

Bem sei eu que a essa altura vocês todas já viram o teaser da nova temporada de "Will & Grace" que a NBC divulgou nesta segunda-feira. Mas quantas perceberam que a música que eles cantam vem do musical "Sunset Boulevard", imortalizada nas vozes de Glenn Close e Barbra Streisand? Aff, se não sou eu pra avisar.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

FOGO DIVINO

À vezes esqueço que assinei Amazon Prime Video. Assisti à primeira temporada de "The Man in the High Castle" e gostei muito, mas quem disse que eu voltei para ver a segunda? Tem tanta coisa na Netflix e no Now e na Fox Premium que eu realmente não dou conta. Fora que o analfabeto tecnológico que eu sou ainda não conseguiu jogar a imagem da Amazon na TV, e eu acho saco ver qualquer coisa no computador. Tudo isto para dizer que eu estava ignorando "American Gods", apesar das ótimas críticas que essa série exclusiva da Amazon vem recebendo. Mas hoje precisei tomar tento na vida, porque o episódio disponibilizado ontem traz simplesmente a mais tórrida cena de sexo entre dois homens de toda a história da TV americana. Dois homens é força de expressão: na história um deles é um gênio da mitologia islâmica que solta fogo pelos olhos (e, pelo desenrolar da cena, também por outros lugares). Na vida real os atores Omid Abtahi e Moussa Kraish são amigos há dez anos, o que os ajudou nas filmagens - e o fato de ambos serem de origem árabe dá ainda mais peso político à putaria toda. Não encontrei nenhum vídeo com a cena avulsa dando sopa na internet para ilustrar este post, mas quem quiser ter uma ideia do que rolou pode clicar aqui. Ah, sim, teve nu frontal e até a silhueta de um pau duro no escuro.

PATRÃO ME EMPRESTA O CARRO


O diretor francês Joann Sfar começou como desenhista de histórias em quadrinhos e ainda não se livrou de sua antiga profissão. Seus dois primeiros filmes eram baseados em livros seus: o épico "Gainsbourg" e a animação "O Gato do Rabino". O terceiro acaba de estrear no Brasil e é adaptado de Sébastien Japrisot, um dos grandes nomes do romance policial. "Uma Dama de Óculos Escuros com uma Arma no Carro" é divertido de se ver, mas tão nutritivo quanto um copo de Orangina. A ação se passa na década de 1970 e o elenco inclui ninguém menos que meu noivo secreto Benjamin Biolay - um pouco mais gordo e envelhecido do que aquele que habita meus sonhos, mas ça va. A trama não passa de um trucão: uma secretária deixa o patrão e família no aeroporto e precisa levar o carro dele de volta para casa, mas resolve aproveitar a folga e escapar para a Côte d'Azur. Só que, no caminho, algo estranho acontece: todo mundo com quem ela cruza diz que já a viu antes. A explicação não tem nada de sobrenatural, mas não é tão espertinha quanto se acha. De qualquer forma, quadrinhos em movimento nunca cansam.

domingo, 14 de maio de 2017

LA SCIMMIA NUDA BALLA

O macaco nu dança. Este verso da letra da ótima "Occidentali's Karma", até sexta a favorita do Eurovision 2017, ganhou um novo significado com o resultado do festival. A vitória de Portugal deixou a concorrência não só comendo poeira como desnudou a indigência musical da maioria. "Amar pelos Dois" é uma música linda, mais nada. Seu único truque é Salvador Sobral, de voz cristalina e linguagem corporal esquisita. Já falei dele num post de ontem à noite e na minha coluna de hoje no F5. Agora não resisto a comentar o resto do que rolou na grande final. Teve até um engraçadinho que subiu no palco durante o número da cantora Jamala, vencedora do ano passado, e baixou as calças diante das câmeras. Apesar de enrolado na bandeira australiana, o sujeito é da Ucrânia, o país-sede deste ano.
Como a porra da organização do festival ainda não liberou os vídeos das performances de ontem, quem quiser ver o que eu vou citar vai ter que catar no vídeo acima. Teve uma biba gorda da Croácia fazendo dueto consigo mesma, em voz normal (em inglês) e voz de tenor de ópera (em italiano). A candidata da Romênia era um yodel, aquele estilo de canto alpino (yoleriiiitiii) típico da Suíça e da Áustria... só que não da Romênia. Mas também teve coisa boa: a música da Moldova, por exemplo, era bem animada, e seu saxofonista bofão inspirou esta montagem de DEZ HORAS disponível no YouTube. A da Bélgica parecia o single de uma banda indie bem dark, mas achei a cantora Blanche (de voz tão grave que eu pensei que fosse trans) muito morta no palco. E a Suécia mandou um número típico de boy band, com direito a esteiras rolantes chupadas do OK Go!.
A Ucrânia em si foi bastante comedida e não aproveitou o festival para fazer um grande infomercial de si mesma, como fez o Azerbaijão em 2012. Mas trouxe uma cantora interessante no intervalo para votação, Onuka, que tocou sua música eletrônica com uma orquestra folclórica do país. Teve até uma parente da cuíca.
Mas claro que nada superou o encerramento, com Salvador Sobral e sua irmã Luisa, a compositora de "Amar pelos Dois", dividindo os vocais da canção campeã. Já estão surgindo versões em inglês, como esta de Alexander Rybak, o violinista-gato da Noruega que venceu o Eurovision de 2009. E não duvido nada que este futuro clássico do cancioneiro em português entre para o repertório do próximo show de Caetano Veloso, que declarou seu amor pela música na internet.

sábado, 13 de maio de 2017

#SALVADORABLE


- Foi tudo comprado, na verdade.
- Agora vou ao e-Bay ver quanto custa (o troféu).
- Foda-se.
Foi com frases como estas (a última proferida em plena entrevista coletiva) que Salvador Sobral comemorou sua vitória acachapante no Eurovision, cuja final aconteceu neste sábado em Kiev, capital da Ucrânia. O rapaz nunca tinha prestado atenção no festival até ser convocado a participar, e não explodiu de alegria quando fez Portugal passar de "país que concorre há mais tempo sem nunca ter ganho" a "maior pontuação da história". Talvez sejam ordens médicas: apesar de não confirmados, estão cada vez mais fortes os rumores de que Salvador está na fila de um transplante de coração. O que fez, inclusive, com que sua irmã Luisa - também cantora, e a compositora da lindíssima "Amar pelos Dois" - o substituísse em alguns ensaios. A dupla lusitana desbancou a Itália, até ontem favorita nas casas de apostas, e ainda levou outros dois prêmios importantes: melhor composição, escolhido por todos os compositores presentes nesta edição, e melhor intérprete, escolhido pelos comentaristas. Foi um dia glorioso para a terrinha, ó pá! Começou com o papa canonizando os pastorinhos, passou pelo tetracampeonato do Benfica e culminou com este triunfo inédito, que levará o Eurovision do ano que vem para Lisboa (ai que vontade de ir!). Será que era este o quarto segredo de Fátima?

O NOBEL DA BOLUDEZ


Só mesmo a Argentina para fazer um filme onde um escritor seu ganha o Nobel de Literatura. Mais argentino ainda é esse escritor imaginário fazer um discurso na cerimônia de entrega reclamando de ter ganho o prêmio. É a boludez em estado puro, essa arrogância típica dos nossos vizinhos do sul. Mas, apesar desse começo aparentemente sério, "O Cidadão Ilustre" é uma comédia ácida, que critica tanto o pedantismo do famoso autor quanto a caipirice de sua cidade natal, para onde ele volta para dar um curso e receber homenagens. O choque cultural é enorme - e engraçadíssimo. Claro que há os reencontros previsíveis: a ex-namorada, o melhor amigo, a professora. Só que vilarejo não perdoa o fato de seu filho célebre ter se tornado um homem de gostos sofisticados. Os mal-entendidos logo descambam para a violência, e o filme termina em chave séria novamente. "O Cidadnao Ilustre" foi o representante argentino no último Oscar, mas não foi indicado. Mais um erro da Academia.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

EIS O MISTÉRIO DA FÉ

Queria muito ter fé em qualquer coisa como alguns amigos meus têm fé em Lula. Minhas timelines estão cheias de postagens comemorando o fato do ex-presidente ter "provado" que nunca foi dono do triplex no Guarujá. Como se esse misterioso apartamento fosse o único imbroglio onde ele está metido. Como se, acima das suspeitas de favorecimento pessoal, não houvesse o rombo na Petrobrás, nem as delações que estão ficando cada vez mais detalhadas e contundentes. Alguém acha, em sã consciência, que João Santana e Monica Moura inventaram absolutamente tudo o que dizem à Polícia Federal? Que eles estão tendo seus cachorrinhos ameaçados de morte, caso não colaborem? Juro que não entendo a confiança cega desse povo. Porque dava muito bem para ser de esquerda e pró-justiça social e etc. sem cair na conversa dessa quadrilha, né?

quinta-feira, 11 de maio de 2017

LES INTOLERABLES

José Serra foi presidente da UNE nos anos 60. Por causa disto, gravou depoimento para um documentário sobre a entidade estudantil. E posou para uma foto com a atual presidente, Carina Vitral, que é filiada ao PCdoB. Ambos postaram a imagem em suas redes sociais, e adivinha o que aconteceu? Abriram-se as portas do inferno, a da esquerda e a da direita. Os dois foram massacrados por falarem com o "inimigo". 

Faz uns dias, postei aqui no blog este elogiado comercial da Heineken, que prega o diálogo entre opostos. Logo descobri que tem quem reclame que o filme "nivela" opiniões que não seriam "equivalentes". Traduzindo: "não quero saber de papo com quem não pensa como eu".

Fiquei pasmo com a atitude infanto-juuvenil dos cineastas que retiraram seus filmes do festival Cine PE, porque haveria dois perigosíssimos longas de "extrema-direita" na programação. OK, um deles é um documentário sobre Olavo de Carvalho, mas o outro é uma ficção sobre o Plano Real, um fato histórico. Por causa desse esquerdismo de centro acadêmico, o festival teve que ser adiado.

Nem preciso ir longe. Foi só eu postar no Facebook um link para meu post de ontem sobre a Eleonora Menicucci que já apareceu um sujeito dizendo que ela merecia SIM ter perdido o processo movido pelo Frota, pelo simples fato de ser petista. Eu ainda tentei argumentar, mas aí o cara me acusou de petista e me bloqueou. Sim, moi, petista. A que ponto está chegando a nossa intolerância?

DONA MARISA AOS MONTES

Não foi o embate do século, nem nas ruas de Curitiba nem no tribunal. Lula e Moro não se enfrentaram num octógono de MMA. Não houve um vencedor e um derrotado; não houve sequer um ponto de virada na Lava-Jato. O ex-presidente está cada vez mais pregando aos convertidos e, se insistir no discurso de vitimização e no "nós contra eles", periga sequer passar ao segundo turno em 2018. Isto se conseguir se candidatar, é claro. Enquanto isso, novas delações vêm à tona quase todo dia. Tá ficando complicado para Lula continuar dizendo que nunca soube de nada, ou jogando tudo na conta de sua falecida esposa.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

TEORIA DA INVOLUÇÃO

O Mackenzie pode tirar o "universidade" da frente de seu nome. Nenhuma instituição de ensino que se preze pode cometer o descalabro de abrir um centro de estudos voltado ao design inteligente, vulgo criacionismo, vulgo contos da carochinha. Mas tampouco me admiro: há alguns anos, o Mackenzie emitiu um acintoso "Manifesto Presbiteriano sobre a Lei da Homofobia", o que gerou até uma passeata na época. OK, trata-se de uma entidade religiosa, mas treva tem limite. Será que os arqueólogos do futuro irão explicar como um templo da educação conseguiu involuir tanto?

EU ESTOU COM ELAS

Há quase um ano, publiquei uma coluna no F5 criticando a visita de Alexandre Frota ao então recém-empossado ministro da Educação, Mendonça Filho. Frota não gostou e, no dia seguinte, postou um vídeo no YouTube me esculachando. Não contente com isto, resolveu me processar. Fui defendido pelos advogados da Folha de S. Paulo, e o resultado foi feliz para mim: o cara perdeu. Isto deixa ainda mais surpreendente o resultado do processo que ele moveu contra Eleonora Menicucci. Ainda mais porque o veredito foi dado por uma juíza (no meu caso também, mas não pela mesma). A ex-ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres do governo Dilma foi condenada a pagar 10 mil reais a Frota, uma decisão que está provocando celeuma nas redes sociais. Hoje Menicucci assina, junto com a vereadora paulistana Sâmia Bonfim (PSOL), um artigo no blog #AgoraÉQueSãoElas (o mesmo onde a figurinista Su Tonnani denunciou o assédio que sofreu de José Mayer). Eu estava decidido a nunca mais tocar no nome desse sujeito, para não dar mídia a ele. Mas não posso deixar de registrar o meu repúdio a essa condenação espúria, e a minha total solidariedade às duas líderes feministas. Vocês não estão sozinhas. #contraaculturadoestupro