sexta-feira, 25 de maio de 2018

ONCEAÑERA

Foi ontem e nem me toquei, talvez porque eu tenha coisas mais graves com que me preocupar do que o 11o. aniversário do meu blog. De qualquer forma, fica aqui o registro: sem dúvida que é uma façanha manter essa porra no ar por uma década e um ano, ainda mais ao ritmo habitual de dois posts por dia. Dessa vez não espero o tradicional tsunami de cumprimentos, porque sei que boa parte do leitorado atual só vem aqui para catar "typos" e me xingar de esquerdista ou reaça. Acho até que pode ser útil. Daqui a mil anos, quando desentarrarem este blog dos escombros da civilização, os comentários servirão de cápsula desse tempo bizarro em que estamos vivendo.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

POUCA AREIA, MUITO CAMINHÃOZINHO

Antes de sair dizendo que no tempo da Dilma é que era bom, é bom levar em consideração alguns detalhes. Longe de mim defender Temer, o Velho, mas a Petrobras precisa reajustar os combustíveis quase que diariamente por causa do rombo aberto nos anos do PT do poder. Além disso, o Brasil paga hoje o preço de ter se tornado dependente exclusivamente do transporte rodoviário. E aí a culpa é do Lula, do FHC, dos militares e de todos os governos que desmatelaram a rede ferroviária e não investiram em outra coisa que não estradas. Ser caminhoneiro requer pouco mais do que uma carteira de motorista: o resultado é que hoje temos caminhoneiros demais, que ganham pouco nas mãos das transportadoras por causa do excesso de mão-de obra. E assim formou-se uma tempestade perfeita, onde todos têm razão e ninguém sabe o que fazer. Enquanto isto, já começa a faltar comida, a gasolina sobe a dez reais e o WhatsApp ferve com fake news do apocalipse zumbi. Neste país, tudo o que está ruim pode piorar muito.

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA NA SELVA

Ontem foi lançado em São Paulo o Manual de Comunicação LGTBI+, que se propõe a ser um guia para ajudar jornalistas e comunicadores bem-intencionados a empregarem o palavreado mais correto quando se referirem a bichas e afins. Acho uma iniciativa para lá de louvável, dado que ainda tem gente que fala "opção sexual" em pleno século 21. Como eu sou espírito de porco, também catei uns defeitinhos no manual. O tom, por exemplo, é o de um livro de catecismo. Parece que estão admoestando os infiéis a lidar direito com as escrituras sagradas, caso contrário, arderão no fogo dos infernos. Nunca é demais lembrar que o vocabulário LGBTetc. está em constante mutação. A começar pela própria sigla, que está sempre ganhando uma inicial a mais. Até outro dia transexual era uma coisa, transgênero era outra, depois as duas se confundiram, se separaram e agora estão tentando reatar. Sem falar na minha eterna pinimba com "a" travesti, que dói nos meus ouvidos cultos até hoje. De qualquer maneira, o Manual é útil e necessário, e merece ser divulgado. Baixe o seu daqui: é grátis.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

AZEDOU PRO AZEREDO

Hurra! Um tucano foi preso! Um tucano de plumagem rala e cores esmaecidas, mas ainda assim um tucano. E justo aquele no epicentro do mensalão mineiro, que ameaçava ficar sem punição, enquanto vários nomes do mensalão petista apodrecem na cadeia. A prisão de Eduardo Azeredo foi digna do lema na bandeira de Minas Gerais: tardou, mas não falhou. Com ela, a Justiça se livra um pouco da pecha de não prender filiado ao PSDB. E deixa uma batata quente no colo de Geraldo Alckmin, que pelo menos passou o dia dizendo que não vai atacar as instituições nem sair por aí gritando "Azeredo, guerreiro / do povo brasileiro". Mas acho que não vai adiantar. O PSDB perdeu o trem-bala da história ao não expulsar Aécio do partido quando este se viu enrolado com Joesley. Já votei muito nos tucanos. Agora, só voto de novo se o segundo turno for entre o Alckmin e o Bolsonazi.

terça-feira, 22 de maio de 2018

GAJO POR LEBRE


Embora não seja das mais originais, até que a premissa do filme "Alguém Como Eu" é simpática. É mais uma variação no tema da troca de corpos, inventada por Méliès no jardim de infância. Uma brasileira (Paolla de Oliveira) em Lisboa sente-se entediada com o namorado português (Ricardo Pereira) e pede a Deus por alguém mais parecido com ela. Como Deus existe no cinema, a brasileira passa a ver o namorado como mulher. Esta situação poderia render sacadas do tipo ela gostar mais de transar com alguém do mesmo sexo ou, depois de um tempo, se irritar com as frescuras de mulherzinha da nova companheira. Mas essa troca de corpos não dura nem meia hora, e aí "Alguém Como Eu" vira apenas a história de um casal em crise. Nem de comédia pode ser chamado, porque quase não há piadas. Trata-se, portanto, de propaganda enganosa: o trailer acima vende uma coisa, o filme entrega outra. É um caso para a Deco, o Conar de Portugal.

O EX-PAÍS DO FUTEBOL

A seleção brasileira chegou à Copa de 1966, na Inglaterra, como franca favorita (o Brasil havia ganho as duas Copas anteriores), mas foi eliminada logo na primeira fase. Um vexame histórico. Quatro anos depois, às vésperas da primeira Copa do México, o país se energizou de forma nunca vista. Foi o tempo dos "90 milhões em ação", até hoje o hino mais empolgante do nosso futebol. O fenômeno se repetiu nas Copas seguintes: não importava muito o resultado anterior, nós sempre nos tingíamos de verde-e-amarelo. A publicidade, então ia à forra. Criava personagens (quem lembra do Pacheco?), lançava campanhas milionárias, faturava para o ano inteiro e o próximo. Eu participei, eu estava lá.

Mas estou com a nítida sensação de que essa euforia acabou. Ligo a TV e quase não vejo comerciais falando da Copa. Não tem bandeirinhas nas ruas, muito menos os grafites coloridos que cobriram o Rio em 1982. Falta menos de um mês para jogarmos contra a Suíça e parece que ninguém está nem aí. Tem até pesquisa que mostra que apenas 20% dos brasileiros se importam com o futebol. Por um lado, acho isso ótimo. Nossa vitórias em campo sempre foram usadas politicamente pelos políticos de plantão, como o governo militar ou o asqueroso Paulo Maluf. E o frenesi futebolísitco tinha mesmo cara de ópio do povo, para nos distrair dos problemas de verdade. Mas alguma coisa aconteceu, talvez por causa do 7 a 1. Aquela derrota para a Alemanha foi vendida pela mídia como se fosse um 11 de setembro, uma tragédia irreparável em nossa psiquê. Mas a verdade é que, para a maioria dos brasileiros, aquilo foi apenas uma partida de futebol. É chato perder, mas ganhar não paga as contas. O desemprego e a violência são bem mais chatos. Isto é sinal de amadurecimento, claro. Mas também há um lado ruim: estamos desalentados, brochados, sem ânimo para nada. A crise que já dura anos e a falta de perspectivas nos deprimiu. Nem a seleção do Tite, a mais eficiente em décadas, consegue nos tirar da pasmaceira. Claro que uma vitória arrasadora logo de cara vai nos dar um up, e não duvido  nada que o Brasil se sagre hexacampeão na Rússia. Mesmo assim, sinto que não podemos mais ser definidos como o país do futebol. Mudamos, e ainda não sei se para melhor.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

RCHLO VTNC

Fernandinha e Fernandona tiveram a integridade que o gay Hugo Gloss não teve: se recusaram a fazer propaganda para a Riachuelo, por causa do Flavio Rocha. As duas foram convidadas para a campanha do Dia das Mães, mas preferiram não faturar com um boçal que persegue os gays abertamente (sim, ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo é perseguição). Já o "influenciador" Gloss (na boa, quem se deixa influenciar por esse cara?) continua firme na incoerência, tão brasileira. Ah, e antes que me acusem de incoerência por ter promovido o hashtag da Jovem Pan aqui no blog: mea culpa, mea maxima culpa. Conheço o povo do "Morning Show", já fui ao programa e sei que de homofóbicos eles não têm nada. Mas a campanha estava mesmo mal formulada, e com a maior cara de ter sido criada por héteros. O fato é que muita gente lá dentro da JP também estava incomodada, e quem viu/ouviu o "Morning Show" do dia 17, com Fefito e Mel Candy falando sobre a violência contra os LGBT, sabe que temos aliados naquela rádio. Mas eu prometo que vou tomar mais cuidado antes de aderir a qualquer coisa que me propuserem.

VENEZUELA PODRIDA

Nicolás Maduro (que alguns locutores dos nossos telejornais insistem em chamar de "Nícolas") se reelegeu na Venezuela, para surpresa de ninguém. Na prática, apenas um em cada três eleitores votou no ditador - e isto se os dados oficiais forem confiáveis, o que provavelmente não são. Mesmo assim, seria preciso um milagre para que as urnas confirmassem as pesquisas, que apontavam Henri Falcón na frente. O chavismo fez de tudo para não perder: da ridícula cédula eleitoral acima, onde Maduro aparece dez vezes, ao fechamento da fronteira para impedir que os refugiados voltassem para votar na oposição. A Venezuela caminha célere para se tornar uma nova Cuba, onde o governo autoritário não cai porque deu poder e benesses aos militares. Só que a situação venezuelana já está além do desespero, e tende a piorar. Nossos partidos de esquerda têm que parar ontem de apoiar esta farsa, porque não se trata mais de uma questão ideológica. O regime de Maduro é corrupto e incompetente, mais nada. Quem elogiá-lo perderá votos em outubro. Agora, vamos ver como o povo venezuelano irá reagir. No fundo, o responsável por essa desgraça é ele mesmo. Se não consegue derrubar a ditadura, que a aguente.

domingo, 20 de maio de 2018

ZONA CINZA


Somos quem achamos quem somos ou só um amontoado de células expostas a tempestades químicas? "Você Desapareceu", que representou a Dinamarca no último Oscar, se pergunta até que ponto temos livre arbítrio. O filme não conseguiu a indicação nem chegou aos cinemas brasileiros, mas pode ser alugado no sob demanda. Só que eu já vou avisando: não é um programa levinho, muito menos enternecedor. A protagonista é a mulher de um professor que está sendo acusado de desviar milhões da escola que dirige. Ele tem uma ótima desculpa - um tumo no cérebro, que de fato vem alternado seu comportamento. O sujeito perde a noção do perigo, dirige feito um doido, grita sem pensar e sente um tesão incontrolável o tempo todo. Mas será que esse tumor também o fez roubar? Em alguns momentos, a mulher se pergunta se vale a pena continuar casada, na dúvida se ele tem recuperação ou se é mesmo honesto. Embora o dilema moral se dilua na duração excessiva, é um filme que cai bem em uma tarde cinzenta.

sábado, 19 de maio de 2018

A CANTORA MAIS IMPORTANTE DO BRASIL

Chega pra lá, Gal. Fica na moita, Marisa. Vai cuidar das gêmeas, Ivete. Vocês todas são ótimas, mas neste momento - neste exato momento - ninguém está faznedo um trabalho mais importante que Elza Soares. Aos 87 anos, Elza acaba de lançar o sucessor de "A Mulher do Fim do Mundo", seu aclamado álbum de 2015. "Deus é Mulher" segue a mesma fórmula: músicas inéditas compostas por jovens (algumas, especialmente para ela), com arranjos eletrônicos e letras que falam do Brasil de agora. Não são musiquinhas bonitinhas para relaxar depois de um dia de trabalho, nem hits para se jogar nas pistas. Algumas são até difíceis de ouvir: a voz rascante de Elza, as palavras incômodas, o acompanhamento pesado. São para prestar atenção, e se deslumbrar. Elza está lúcida e indignada. Seu repertório, que sempre teve um pé no social, agora reclama de machismo, homofobia, racismo, intolerância religiosa e repressão. Uma resposta afiada ao caos que vivemos hoje, sem cair na banalidade do "Fora Temer" ou "Lula Livre". "Deus É Mulher" não vai tocar no rádio nem no Faustão, mas talvez já seja o melhor disco brasileiro do ano. Que privilégio termos alguém como Elza Soares.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

COLHENDO MADURO?

Não sei quase nada sobre Henri Falcón, só que ele é ex-chavista (o que não é exatamente uma boa credencial). Mas claro que estou na torcida por ele, o mais forte candidato oposicionista na eleição presidencial que acontece na Venezuela neste domingo. As pesquisas mais recentes apontam a vitória de Falcón e uma derrota fragorosa de Nicolás Maduro, talvez o ditador mais incompetente de todos os tempos. Com a economia em frangalhos, a violência fora de controle e a população para lá de desesperada, isto é o que aconteceria em qualquer democracia normal. Só que a Venezuela não é mais uma democracia, e essas previsões devem ter acendido todos os alarmes na cúpula do governo. Já têm denúncia de que Maduro estaria pagando para colombianos atravessarem a fronteira para votar nele, e não será surpresa se houver bloqueios e initimidações de todo tipo. Maduro não vai cair graciosamente, mas tomara que seja colhido pelo Falcón.

A PARTE DO LEÃO

Passei um ano envolvido com uma produção de "O Leão no Inverno" que não vingou. Fiz uma tradução do maravilhoso texto de James Goldman, que já é um clássico do teatro contemporâneo. A peça se passa no Natal de 1183, na corte do rei inglês Henrique II. Especialmente para as festas, ele liberta sua mulher Eleonora - que está presa em um castelo por ter tramado contra o marido - e o que se segue é uma mistura fabulosa de conspiração política com episódio de sitcom. Sim, "O Leão no Inverno" é uma comédia, com tiradas impagáveis, apesar do amargor e das espadas em cena. Existem duas versões filmadas: o longa de 1968, que deu o Oscar a Katherine Hepburn, e o telefilme de 2003, que deu o Globo de Ouro a Glenn Close. Mas todos os papéis são bons, o que só aumenta o mistério dessa obra-prima, por mais de 50 anos, não ter sido montada no Brasil.

Já estávamos autorizados a captar recursos para o projeto quando soubemos que não só os direitos da peça haviam sido comprados por outros, como que também já havia uma montagem em andamento. Ontem fui assistir à pré-estreia dessa montagem em São Paulo, com uma certa apreensão: será que vou detestar? E se a montagem for sensacional, será que vou detestar ainda mais? Ah, o ciúme.

Prestei especial atenção à tradução de Marcos Daud. Ele manteve os nomes dos personagens no inglês original - inclusive com a pronúncia inglesa dos franceses Alaïs (que soa como "Élis") e Phillipe. Eu preferi verter todos os nomes para o português, porque dois dos filhos de Henrique II são conhecidos por aqui como Ricardo Coração de Leão e João Sem Terra. Mas o que me incomodou mesmo foi um erro crasso: lá pelas tantas, o rei diz que "não no meu relógio". O texto original é "not on my watch", que não tem nada a ver com relógios de pulso (aliás, inexistentes no século 12). Uma tradução ao pé da letra seria "não no meu turno". Em português mais corrente, "não enquanto eu estiver vivo" ou "não se eu puder evitar". Mas enfim, qual é o tradutor que nunca cometeu um deslize?

Mais grave é a concepção do diretor Ulysses Cruz. Alegando falta de verba, ele começa a encenação como se fosse um ensaio, com os atores já no palco antes do início do espetáculo (o que, para mim, quebra boa parte da magia do teatro) e, uma vez começado, com o texto na mão, como se não tivessem decorado. Cenários e figurinos feiosos também não ajudam a criar clima (mas a luz do Caetrano Vilela está linda, como de costume). Ulysses Cruz adere ao vício recorrente dos modernos diretores brasileiros: querem ser maiores que o texto, acrescentando percussão ao vivo, coreografias, efeitos, etc., que não servem ao autor (e, portanto, também não servem ao espectador). Já vi duas montagens brasileiras de "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?", por exemplo, que jogavam no lixo o texto do Albee. Aí vi uma encenação ortodoxa na Broadway e pirei...

Mesmo durando quase duas horas, sem intervalo, o texto sofreu alguns cortes importantes. Aí a culpa é do público nacional, que não tem saco para um espetáculo mais longo. Mesmo assim, os diálogos geniais de Goldman prevalecem. Ainda mais porque os dois atores principais, Regina Duarte e Leopoldo Pacheco, estão à altura do dramaturgo. Ela, então, está esplêndida, com tempos exatos de comédia e uma profunda compreensão do que está dizendo. Eu, que já impliquei com Regina outras vezes, agora virei seu súdito.

Dito tudo isso, este primeiro "O Leão no Inverno" brasleiro vale demais a pena. Quase todo o texto precioso de James Goldman está lá, na boca de dois gigantes das nossas artes cênicas. É a parte do leão, e não é pouca coisa, não.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

ES CONTAGIOSO

E já que estamos no Dia Internacional de Combate à Homofobia, o que você opina deste comercial argentino do canal TyC Sports? Eu achei ótimo tirarem sarro da escandalosa homofobia oficial do governo russo, mas tanta gente problematizou que o filme saiu do ar. Tem uma ONG que diz que ele "banaliza a gravíssima situação da população LGBT na Rússia". Para mim, é exatamente o contrário: o comerical lembra que a bicharada paga um dobrado no país-sede ca Copa, e ainda ridiculariza o Putin e seus asseclas. Isso sim é que é contagioso.

VAI TER LUTA, VAI TER BEIJO

É a velha história: o Dia Internacional de Combate à Homofobia tem que acabar. Só quando não precisarmos mais de datas como esta é que poderemos dizer que L, G, B, T e todas as siglas ainda por surgir são cidadãos plenos, reconhecidos como tal por toda a sociedade. Enquanto isto, a luta continua. Nos mais variados fronts: até no "Morning Show" de hoje (no ar no momento em que escrevo este post!), com um segmento voltado ao tema.

O programa da rádio Jovem Pan está promovendo um tuitaço com a tag #MinhaÚltimaMúsica, convidando a galera a contar qual seria a música que ela pediria se fosse vítima de um ataque homofóbico (a minha seria "Que Delícia Ser Viado", para agredir meus agressores e mostrar que nem me matando eles conseguem destruir o prazer de ser quem eu sou). E chamou o jornalista Fernando "Fefito" de Oliveira e a cantora Candy Mel, do programa "Estação Plural" da TV Brasil, para debater o assunto. Nunca é demais lembrar que o Brasil é o país onde mais se matam gays e trans - mais de um por dia, que tal?

Mas também acho fundamental lembrar que a homofobia não se manifesta apenas por violência física. Não podemos cair nessa armadilha, muito usada por evangélicos e reacionários. Homofobia é qualquer atitude que discrimine os LGBTQetc. Basta um olhar enviesado para o sujeito ser considerado homofóbico. Basta não reconhecer que temos os mesmos direitos e deveres que todo mundo, sem nenhum privilégio especial. E que podemos nos beijar na frente das crianças.

É nesse sentido que muitos beijaços acontecem hoje, em vários países do mundo. Aqui em São Paulo vai ser no vão livre do MASP, das 18h às 19h, promovido pelo aplicativo Hornet. Mas não precisa ter o app instalado (e eu aposto que você tem) para participar. Bora beijar estranhos, amigxs!

quarta-feira, 16 de maio de 2018

I'VE HUNGERED FOR YOUR TOUCH

O ator pornô gay brasileiro Rafael Alencar está prestes a se aposentar e, numas de saideira, deu uma entevista entregando algumas celebridades que usaram de seus serviços. Tudo com muita discrição e elegância, é claro: alguém aí faz ideia de quem seriam Mommy Hilfinger ou Malvin Klein? Mas o nome que mais me chamou atenção foi o de Matrick Swayze, que eu tenho quase certeza que era o ator de "Ghost". Matrick não está mais aqui para confirmar ou não essa história, e no fundo isso não importa muito. Só digo que ele estava bastante convincente como uma drag discreta e elegante no filme "Para Wong Foo, Obrigada por Tudo! Julie Newmar".

LA CASA DE MICHEL


Com tanta série no mundo para indicar, Temer, o Velho, disse que estava vendo "La Casa de Papel". Não ocorreu aos gênios que cuidam da comunicação do Planalto que este talvez não seja um bom programa para se associar a um presidente que teve um assessor flagrado correndo* pela rua com uma mala de dinheiro, como se houvesse acabado de assaltar a Casa da Moeda. Eita eita eita.

(* o corre que o cargo exige)

terça-feira, 15 de maio de 2018

GUARANTEED TO BLOW YOUR MIND

Acaba de sair o primeiro trailer de "Bohemian Rhapsody", a cinebiografia autorizada de Freddie Mercury. O filme teve uma produção para lá de acidentada, que se arrastou por anos. Primeiro era Johnny Depp quem ia fazer o papel de Freddie, depois Sacha Baron-Cohen, depois Ben Whishaw e, finalmente, Rami Malek. Em comum com Faroukh Bulsara, o astro de "Mr. Robot" tem ascendência no Oriente Médio: um era de origem persa, o outro, de egípcia. Mas só vendo as primeiras imagens do filme eu me convenci de que a escalação foi acertada. As filmagens ainda foram afetadas pela demissão do diretor Bryan Singer, envolvido em casos de assédio sexual. E tem ainda um complicador: Brian May e Roger Taylor, que controlam os direitos do Queen, exigiram que o longa tivesse um final feliz. Pois é. A história agora acaba no Live Aid de 1985, seis anos antes da morte de Freddie. O mote é que ele teria descoberto naquela época que estava com AIDS, e que mesmo assim foi em frente. The show must go on! (embora, pelo que eu lembro, ele só soube que estava doente em 1987). De qualquer forma que o vento sopre, eu acompanhei em tempo real todos os desdobramentos da carreira da minha banda favorita de todos os tempos. Mesmo sabendo que essa é uma obra chapa-branca, tremo em pensar que lá pelo final do ano eu vou ver na tela a trajetória (ou parte dela) do maior dos meus ídolos. Dynamite with a laser beam!

segunda-feira, 14 de maio de 2018

AQUI, AGORA E NUNCA MAIS


Descobri "Here and Now" tardiamente - talvez um pouco tarde demais. A série foi exibida pela HBO entre fevereiro e abril, mas só fui vê-la agora, quando todos os episódios já estnao disponíveis no sob demanda. E adorei, como sempre acontece com uma série nova criada pelo Alan Ball."Here and Now" tem, inclusive, um parentesco nítido com "A Sete Palmos", um dos marcos da TV na década passada. Ambas falam de famílias ligeiramente disfuncionais, com um filho gay e uma caçula rebelde. A diferença é que, no seriado mais recente, três dos quatro filhos do casal são adotivos, de raças diferentes. Há um vietnamita tão obcecado pela perfeição que resolve ser celibatário; uma africana que se ressente um pouco por não ter sido criada por uma mãe negra; e um colombiano que tem visões estranhas, talvez um sintoma de esquizofrenia. Ramon, este último, é que é o personagem gay, e é desnecessário dizer que estou apaixonado pelo ator que o interpreta, o costarriquenho Daniel Zovatto - tão lindo que faz jus ao apelido de "Baby Jesus" que tem no programa. Também há uma interessante família muçulmana, em que o pai psiquiatra tem uma ligação misteriosa com Ramon, e o filho consegue ser religioso e gender-fluid ao mesmo tempo. Ou melhor, havia: eu ainda não havia terminado de ver quando a HBO anunciou que não fará uma segunda temporada de "Here and Now". E isto apesar do último episódio terminar com todas as pontas abertas, sem resolver nada. Ou seja, já era. Mesmo assim, valeu a pena.

ASSALTO À MÃE ARMADA

Um ladrão tem que ser muito mané, ou então estar sob o efeito de tóchicos, para assaltar um grupo grande de pessoas em plena luz do dia. A chance de ter alguém armado no grupo é razoável - e, na frente daquela escola em Suzano no sábado passado, tinha. Os mais cínicos diriam que o rapaz foi vítima da seleção natural. Além de tudo, o cara apontou uma arma para crianças na presença das mães. Ou seja, cutucou leoas com vara curta. Infelizmente ele morreu, o que fez com que a internet se dividisse entre os que exaltam sua morte e os que acham que a mãe-PM reagiu com violência desnecessária. Eu não acho: a mulher deu três tiros no sujeito, mas só exagerou para quem não tem uma cria para proteger. No entanto, eu também lamento mais essa tragédia brasileira. O ladrão era negro, pobre, pé-rapado. Não vou dizer que ele era inocente, porque tem muita gente que nasce nas mesmas condições adversas e mesmo assim não descamba para o crime. Mas, convenhamos, um país onde um assaltante é baleado em frente a uma escola não é um bom lugar para se viver. O pior é que este caso pode dar munição aos asnos que defendem que todo mundo ande armado, não só policiais que passaram por treinamento rigoroso. Nossas cidades podem virar um bang-bang ainda mais sanguinário do que já são. Agora, vou confessar algo de que não me orgulho: revi várias vezes o vídeo, por causa da expressão de dor e surpresa do assaltante. Como muita gente, eu também tenho um lado sádico e vingativo.

(O título original deste post era "O Dia da Mãe", mas mudei para esta sugestão do Rodirgo Guaxupé)

domingo, 13 de maio de 2018

EU SEI QUE NÃO SE AMA SOZINHO

Eu me encantei pelo Eurovision em 2009, depois de ler uma matéria no "New York Times" sobre o festival. Aí descobri que a Televisión Española transmitia a final para o Brasil, e me converti. Desde então, o Eurovision virou assunto recorrente aqui no meu blog, e também na minha coluna no f5 - meu sétimo texto sobre o concurso já está no ar. Não tenho muito mais a acrescentar: apesar de realizada em Lisboa, a edição deste ano não gerou uma música antológica, e as candidatas que se atropelaram na reta final empalidecem diante de "Amar pelos Dois", que ganhou participação de Caetano Veloso no intervalo. Mas foi divertido acompanhar o espetáculo de ontem pela segunda tela. Facebook e Twitter já estão cheios de brasileiros que aderiram ao Euro, e rola até briga. Ano que vem o festival se transfere para Israel, com tensão política e tudo. Se eu ganhar na loteria, ou se finalmente tiver meu talento reconhecido, lá estarei em pessoa.

sábado, 12 de maio de 2018

O LOOPING DE MARINA

Depois de quatro anos na moita, Marina Silva ressuscita às vésperas de uma nova eleição presidencial. As primeiras pesquisas mostram a candidata muito bem posicionada, com chances de captar votos à esquerda e à direita. Ela então quebra o silêncio e começa a dar entrevistas, proferindo platitudes. Até que ressurge a pergunta que não quer calar: e as guei, Marina? Evangélica de carteirinha, a ex-senadora tem um histórico de hesitação quanto a este assunto. Mas eis que, ó surpresa, Marina se posiciona a favor dos direitos igualitários! Festa no Vale dos Homossexuais, show de Pabllo Vittar, agora podemos votar nela! Calma lá, pessoal, não é bem assim. Marina diz que sim, apoia, mas que não assina embaixo nem assume compromisso. Precisa refletir. E reflete. E reflete. E reflete.

Há oito anos que embarcamos no looping marinesco. Eterna postulante ao Planalto, Marina Silva não resolveu até hoje o conflito entre sua fé e as demandas de boa parte de seu eleitorado potencial. Coitada, não teve tempo, né? Precisa refletir. Pois eu não reflito mais. Minha gota d'água foi o fato de Marina ter dito no "Roda Viva" de 1o. de maio que tinha assinado a mesma carta de compromisso com os direitos LGBT que Ciro Gomes e Manuela d'Ávila, e depois ter desmentido o que foi dito. Teria apenas recebido a tal da carta, a qual ainda estaria analisando. VTNC, Marina. Vai analisar as dobras do Malafaia. O momento político exige clareza e firmeza, duas coisas que você provou PELA TERCEIRA VEZ que não tem. Eu ia votar em você, ainda mais depois da desistência do Joaquim Barbosa, mas agora percebo que não dá. Cansei do seu looping. Chega.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

SE CASAR, NÃO JOGUE


Existe todo um subgênero de comédia americana em que noites que deveriam ser divertidíssimas descabam para o caos e a violência. Muitas vezes são despedidas se solteiro/a, mas também há aquelas em que casais pacatos são tragados para tramas que envolvem a máfia ou coisa pior. Este é o caso de "A Noite do Jogo", que tem elenco estrelado e trailer engraçadíssimo, mas fica aquém do que promete. O roteiro é pródigo em pegadinhas, mas para mim faltou o mais importante: risadas. Claro que uma sala mais cheia teria ajudado, porque algumas sacadas são mesmo ultrajantes. De qualquer forma, filme que tem Sharon Horgan (da ótima série "Catastrophe") + cachorrinho coberto de sangue merece a minha atenção.

QUE CIRO FOI ESSE?

Lula foi atingido por uma bala ainda mais mortífera do que sua prisão. Se Ciro Gomes for eleito em outubro - e as chances são grandes, ainda mais se seu adversário no segundo turno for o Bolsonazi - a carreira política do ex-presidente estará enterrada de vez. Cirão da Massa vai precisar fazer um governo pior que o da Dilma para que Lula tenha alguma chance em 2022 - se Lula já estiver solto, é claro. Não é por outra razão que a ala petista liderada por Gleisi Hoffman foge de Ciro feito o diabo da cruz. O que ideologicamente não faz o menor sentido: se o PT se aliou  a Maluf, Sarney e aos evangélicos, por que essa ojeriza com alguém que lhe está tão próximo no espectro político? Os mais ajuizados do partido sabem que o caminho para a sobrevivência passa por Haddad como vice de Ciro. Mas isto também significa virar a página de Lula, que passaria para a história ainda em vida.