terça-feira, 4 de agosto de 2020

FROM THE LEBANON, THE LEBANON

Referência é tudo, né, gente? Pensei em marcar esse dia em que o porto de Beirute foi pelos ares com uma música da diva Fairouz, mas eu não tenho muita intimidade com ela. A verdade é que, quando eu ouço notícias vindas do Líbano, o que toca na minha cabeça é "The Lebanon", do Human League. Então vou ser fiel a mim mesmo e homenagear as vítimas dessa catástrofe do jeito que eu sei.

OSHUN ENERGY

Não vou entrar na polêmica da Beyoncé. Não vou entrar na polêmica da Beyoncé. Não vou entrar... Entrei. Eu não resisto, mesmo não sendo meu lugar de fala. Mesmo não tendo visto "Black Is King" - aliás, alguém sabe como ver? A porra da Disney + não existe no Brasil, e no YouTube só tem trailer e clipes. Bom, como só vi esses pedaços, não posso dizer que o novo álbum visual da diva seja isto ou aquilo. Também me faltam referências e estudo para entender tudo o que ela cita. Eu ainda estou aprendendo o que é afrofuturismo, mas acompanho a carreira da Bey desde os tempos do Destiny's Child. Tenho todos os discos dela e acho que, de uns anos para cá, a sra. Carter transcendeu o papel de uma simples cantora para se transformar numa ativista política, ainda mais ambiciosa que Madonna.


"Black Is King" é a versão em vídeo de "The Gift", o disco que Beyoncé lançou no ano passado com canções inspiradas pela nova versão de "O Rei Leão". Ela acaba de relançar o disco, sem os diálogos do filme e com algumas faixas-extra. Musicalmente, não acho seu melhor trabalho, mas é interessantíssimo que ela chame músicos africanos e afro-americanos para criar uma espécie de trilha sonora contemporânea para a negritude na diáspora. Só que agora me dá medo de criticar a Beyoncé. A historiadora branca Lilia Moritz Scharcz ousou apontar o que lhe pareceram incoerências de "Black Is King" em artigo publicado pela Folha, e teve que pedir desculpas públicas depois de ser massacrada nas redes sociais. Em sua defesa, diga-se que nem o título ou o subtítulo do artigo são de sua autoria. É comum que os editores escrevam essas chamadas, em função do espaço disponível. Mas alguns dos termos usados - "erra", "precisa entender", "artifício hollywoodiano" - sequer aparecem no texto de Lília. Mesmo assim, ela de fato sugere a Beyoncé "sair um pouco da sala de estar" no último parágrafo, o que pega mal para caralho no mundo de 2020. Enfim: muitas das reações contrárias à matéria são bastante compreensíveis. Os negros das Américas estão finalmente construindo uma nova mitologia própria. Algo que os brancos temos desde sempre, e tão enraizado que nem estamos conscientes de sua existência. Hoje em dia, há cada vez mais negros mulheres e gays em posições de poder - se não de fazer, pelo menos de dizer. E o establishment branco-macho-heterossexual anda estranhando essas novas vozes, mesmo que, muitas vezes, concorde com elas. Ou queira concordar. Ninguém quer passar por racista, mas o racismo estrutural existe e precisa ser combatido. A própria Lília reconhece isto em seu post no Instagram. Trata-se de uma intelectual séria, que há anos estuda a escravidão, e não merece ser cancelada por causa de algumas palavras mal escolhidas. Mas dizer que só um negro pode comentar o trabalho de outro negro é uma bobagem colossal. Nunca é demais lembrar: perder tempo atacando quem já está do lado certo é tudo o que os nossos inimigos querem que a gente faça.

(o título desse post é parte da letra de "Black Parade", o novo single da Bey. Ela vem se revelando devota de Oxum, orixá das águas doces e meio que equivalente a Vênus na cosmologia iorubá. Também é a minha orixá, veja só)

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

PORQUE TE VAS

Juan Carlos nasceu no exílio e passou toda a infância e a juventude fora da Espanha. Agora vai passar o que lhe resta da velhice também. Hoje o rei emérito anunciou que está se picando do país onde reinou por quase 40 anos. Já havia caído em desgraça quando precisou renunciar em 2014, por causa dos muitos escândalos que protagonizou - de uma caçada a elefantes à amante alemã, passando por milhões de dólares que recebeu da Arábia Saudita num caso de suborno relativo à construção de uma ferrovia. É de cair o queixo que um monarca, que já vive em palácios e tem todos os boletos pagos para todo o sempre, ainda ache que é pouco e dê um jeito de se corromper. Acho bem-feito que Juan Carlos termine seus dias na infâmia, com a pecha de fujão e longe dos filhos e netos. Ele se vai para salvar a Coroa, mas já passa da hora da Espanha voltar a ser república.

FALE COM ELA

Ontem eu revi "Orlando", o primeiro grande papel de Tilda Swinton no cinema. É uma atuação minimalista: ela fala pouco, mexe os olhinhos e serve de cabide para um desfile de moda que vai de 1600 até os dias atuais. Mesmo assim, fiquei tão impressionado que dei a Tilda o meu prêmio de melhor atriz de 1993, mal sabendo que ela iria me espantar cada vez mais pelas décadas seguintes. O próximo assombro está quase pronto: é o curta-metragem "A Voz Humana", dirigido por ninguém menos do que Pedro Almodóvar. O monólogo de Jean Cocteau é uma obsessão de longa data do cineasta espanhol, e já foi citado em seu filme "A Lei do Desejo". Agora finalmente veremos a versão completa, no primeiro trabalho de Almodóvar em inglês. Previsto para rodar em abril, o curta teve que ser adiado para julho por causa da pandemia, e pela foto aí do lado dá para ver as medidas de segurança seguidas no set. A estreia está prevista para setembro, no Festival de Veneza - que, por enquanto, promete ser presencial. Também quero ver "A Voz Humana" no cinema. Quem sabe na Mostra de SP, que ainda não foi cancelada?

domingo, 2 de agosto de 2020

ALMAS EM CHAMAS

Ao contrário da Netflix, que eu consigo ver na TV, a Amazon Prime Video só pega no meu computador. Isso me faz perder alguns programas de lá, ou assistir com algum atraso. Foi só esta semana, dois meses depois da estreia, que eu me entreguei a "Little Fires Everywhere", uma das melhores minisséries do ano. No livro de Celeste Ng, a raça de Mia Warren, feita por Kerry Washington, não é citada. Mas o fato dela ser negra na TV acrescenta camadas ao embate entre Mia e Elena Richardson, a personagem da também produtora Reese Witherspoon. A primeira é uma artista nômade, que arrasta a filha única de cidade em cidade, sem nunca passar muito tempo no mesmo lugar. A outra é uma versão extrema da Madeline de "Big Little Lies", também encarnada por Reese: a dona-de-casa perfeita, tensa a mais não poder, que transforma a vida da família num inferno. Dois estilos de vida contrastantes, que entram em rota de colisão quando o racismo estrutural entra na equação. Elena se acha muito liberal, mas é do tipo que faz questão de mencionar sua suposta bacanice a qualquer negro que lhe passe pela frente. Já Mia obrigou a filha a uma vida de desconforto e amigos cambiantes, e só aos poucos vamos entendendo por quê. Muitas cenas são aflitivas. Eu fiquei constrangido comigo mesmo ao me flagrar torcendo pelos brancos, meio que no piloto automático. O roteiro é tão bem escrito que faz com que o espectador entenda as motivações de todo mundo, até dos coadjuvantes. Tem um lado folhetinesco, e um outro bem sério que não foge da discussão sobre a desigualdade. Quando terminou, senti minha própria alma reduzida a cinzas.

sábado, 1 de agosto de 2020

OS MUPPETS DO MAL

Edaír Biroliro é uma piada internacional. Tanto que já é habitué da série "Puppet Regime", do canal GZERO Media no YouTube, que transforma políticos em fantoches. No episódio "Corona Kings", divulgado ontem, ele participa de uma chamada em vídeo com seus cupinchas Donald Trump e Vladimir Putin. O assunto, claro, é saber quem tem o país com mais casos de covid-19. Os diálogos são absurdos, mas só um detalhe é inverossímil: o inglês escorreito do Bozo.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

REMEMBER MY NAME

Hoje morreu o diretor britânico Alan Parker. Confesso que eu meio que tinha me esquecido dele: seu último filme, "A Vida de David Gale", saiu em 2003, e eu nem me interessei em ver. Confesso que também sinto vergonha disso, porque, durante um bom tempo, Alan Parker fez o filme certo na hora certa - para mim, pelo menos. Eu estava me descobrindo gay quando saiu, em 1978, "O Expresso da Meia-Noite", a primeira vez em que eu vi dois homens se beijando na tela. Além da incrível história verídica, o longa ainda tinha uma trilha eletrônica de Giorgio Moroder, tão inovadora que levou o Oscar. Em 1980, Parker lançou outro título para a minha ilha deserta, "Fama". Muitos dos meus leitores só devem se lembrar da série de TV, ou do - brrrr - remake de alguns anos atrás. Procurem o original! "Fama" é o pai de "Glee" e similares, mas nunca foi superado.A história de um bando de garotos estudando na Juilliard, a famosa escola de Nova York para as performing arts, me pegou de um jeito que eu tive que comprar o VHS e furá-lo de tanto rever. Depois, Parker ainda fez "The Wall", que eu vi no primeiro dia que passei em Londres; "Coração Satânico", um filme de terror de luxo, com Mickey Rourke e Robert De Niro; "e "Evita", que obrigou Madonna a ter as aulas de canto que mudaram sua voz para sempre. Uma sensibilidade pop afiada, que merecia ter sido mais reconhecida. Inclusive por mim. Não esquecerei seu nome.

NINGUÉM ME CALA

O vídeo que Felipe Neto gravou para o New York Times foi uma pedrada nos birolistas. O maior influenciador do Brasil articulou para o mundo inteiro, num inglês perfeito, o que muitos comentam em voz baixa no Brasil: o Bozo é o pior presidente do mundo no combate ao coronavírus. Esse grito de "o rei está nu" redobrou os ataques ao rapaz, que já vem há tempos sofrendo uma intensa campanha de difamação. Ao invés de mostrar dados que provem que, sim, Edaír está fazendo um excelente trabalho contra a pandemia, os minions usaram o que julgam ser uma arma nuclear: acusar Felipe de pedofilia. A "prova" é um tuíte criado em Photoshop, que até sua tia do zap sabe que é falso. Ontem um futuro candidato a deputado levou um carro de som à frente do condomínio onde o vlogueiro mora no Rio, na tentativa de obter uma foto como aquela do brucutu rasgando uma placa de Marielle Franco, que o ajudou a se eleger. Esse sujeito também estava entre os que soltaram fogos contra o STF em junho. Ou seja: esse papo de #TodosContraFelipeNeto é cascata, pois são os mesmos gatos pingados e alguns robôs. Enquanto isso, Felipe segue impávido. E lúcido como nunca, como demonstrou ontem na live com o ministro Luís Roberto Barroso. O gado está certíssimo em ter medo dele.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

TANTRUMP

Hoje o Bebê Laranja armou um berreiro - ou um tantrum, como se diz em inglês - para que as eleições de novembro sejam adiadas. Hmm, talvez por uns dois anos? Até a pandemia passar, a economia subir e o Biden morrer? Biden feio, bobo e mau, que bate o Bebê até em estados que votam há décadas nos republicanos. É bom lembrar que as eleições presidenciais americanas jamais foram adiadas ou canceladas, há mais de dois séculos. Acontecem a cada quatro anos, chova, faça sol ou haja guerra. O que há agora é apenas um presidente incompetente levando um pau nas pesquisas.  Trump não tem o menor poder de adiar o pleito, mas sua declaração é um teaser do que está por vir. Ele vai espernear, gritar que houve fraude e jogar o sujíssimo para não ter que sair da Casa Branca. Mas vai sair.

EMMA. EMMA. EMMA.

No final da década de 90, houve uma onda de filmes baseados em livros de Jane Austen. Um dos mais vistosos foi "Emma", de 1996, que deslanchou a carreira de Gwyneth Paltrow. Talvez a história se repita agora com a ótima Anya Taylor-Joy, que protagoniza a nova versão da história. "Emma." (com ponto final no título, como era o costume no começo do século 19) é o longa de estreia de uma diretora cujo nome caberia numa drag queen intelectualizada, Autumn de Wilde, e seu visual parece inspirado numa caixa de macarons. Tudo é rosinha, verdinho, azulzinho, e alguns enquadramentos são tão lindos que dão vontade, ao mesmo tempo, de comer e pendurar na parede. Além da própria Anya, brilham duas coadjuvantes: Mia Goth e Miranda Hart, aquela atriz grandalhona que quem viu a série "Call the Midwife" aprendeu a amar. Já a trama continua a mesma, leve feito algodão doce: Emma Woodhouse, "bonita, inteligente e rica" como diz o poster, acha que controla todo mundo à sua volta. Faz e desfaz casamentos, sem perceber seus próprios sentimentos.  Não é nada muito profundo, mas os gringos tratam Jane Austen como se fosse Machado de Assis - e o fato é que os romances da autora costumam render bom cinema. "Emma." é um dos primeiros filmes importantes do ano a estrear diretamente no sob demanda, e merece que o próximo Oscar lembre dele em várias categorias. Quer dizer, se houver Oscar.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

DUZENTINHA

Já pensou? Você vai ao caixa eletrônico sacar uma grana, e vem uma nota de 200 reais. Ninguém tem troco, você não consegue passá-la adiante e acaba deixando-a em casa, com medo de perdê-la num eventual assalto. Esse trambolho pouco prático, anunciado para outubro pelo Banco Central, só deve ter uma finalidade: diminuir as malas com que os corruptos transportam o dim-dim que nos roubaram. Pelo menos o BC captou o zeitgeist e pôs um dos bichos da hora, o lobo-guará, para enfeitar a nova cédula. Mas não faltavam candidatos: podia ter sido o gado, a naja, a ema, o cachorro que mordeu o Guedes. Ou até, quem sabe, a cabeleireireleilaleileireila Leila.

BANANAS FOR TRUMP

Há um lado positivo no apoio explícito do Bananinha à reeleição de Donald Trump: quando o Bebê Laranja for, muito provavelmente, derrotado em novembro, a familícia Biroliro enfiará mais uma derrota no currículo. Só este. Todo o resto é um desastre, porque um político estrangeiro não deve emitir opinião sobre a eleição de outro país. O Zero-Três ainda é o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, e quase foi o embaixador brasileiro nos Estados Unidos. Deveria saber o mínimo sobre diplomacia, mas sua cegueira ideológica e sua burrice não permitem. É verdade que a tradição de neutralidade do Brasil foi rompida por Lula e Dilma, que torceram alegremente por Kirchner, Maduro e outros candidatos da esquerda na América Latina. Mas nada se compara à capachice do desgoverno Edaír. Abrimos as pernas para os EUA, e não recebemos absolutamente nada em troca. Nem uma mísera bananinha.

terça-feira, 28 de julho de 2020

PANDEMMYS

O Emmy foi a primeira premiação importante do showbiz americano a divulgar indicações durante a pandemia. A lista saiu hoje, mas a a cerimônia marcada para 20 de setembro continua uma incógnita. Talvez vire uma live, olha só que chatice. Os concorrentes deste ano também parecem não refletir o que de fato andamos vendo na TV e no streaming - pelo menos aqui no Brasil, onde somos mais abertos para o mundo do que os americanos. Não há nenhum franco favorito nas principais categorias, mas eu apostaria em "Sucession" como melhor série dramática e "Maravilhosa Sra. Meisel" para série cômica. Dessa vez também falta um "Fleabag": uma novidade excitante que nos dê a sensação de viver no presente, e não num looping de anos anteriores. Lamento um pouco a ausência da Reese Witherspoon como atriz de drama, mas ela participou de nada menos que três programas diferentes, em diferentes canais, e deve ter espalhado seus votos. No mais, torço pela Bette Midler como atriz convidada em comédia, e talvez por "Nada Ortodoxa". Eu só estaria entusiasmado se meus queridinhos "Quase Feliz" e "Califado"  estivessem competindo, mas para eles existe o Emmy Internacional.

PAI CORAGEM

Cada vez mais eu admiro o Thammy Miranda. Ele não tem o menor medo de se expor, de mostrar sua linda família, de dar a cara para bater. E o povo bate: é apavorante a onda de ódio que se ergueu contra ele e a Natura, por causa da campanha da perfumaria para o Dia dos Pais. Ao lado de outros influenciadores, Thammy foi contratado para postar um vídeo com seu filho Bento no Instagram e usar a hashtag #MeuPaiPresente. As imagens são lindas e totalmente dentro do conceito publicitário. Mas uma parte do Brasil ainda não chegou sequer ao nível do Irã, onde os gays são enforcados mas os trans são aceitos. Porque eles, de certa forma, se adequam ao padrão heteronormativo: casam-se com alguém do gênero oposto e formam famílias-margarina, para conservador nenhum botar defeito. Só que o que temos por aqui não são conservadores: são boçais mesmo, em busca de alvos para despejar sua ignorância e seu ressentimento. Ainda bem que a Natura não está nem aí. Todo ano ela lança uma campanha polêmica, que suscita a ameaça de um boicote na internet. E aí, não acontece nada - a marca está cada vez mais rica, ela é poderosíssima. Thammy também segue impávido. Não fosse ele filho da Gretchen, a mulher mais forte do Brasil, que construiu uma carreira de quase meio século baseada em apenas três músicas que fizeram sucesso nos anos 70.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

CLOROQUINA NA CABEÇA

Um jornalista especializado em política não pode aderir escancaradamente a quem quer que seja, sob o risco de dizimar a própria credibilidade. Mas Alexandre Garcia foi além: em sua estreia na CNN Brasil, ele mostrou que prefere acreditar na propaganda do governo do que na ciência. Das duas, uma: ou Garcia é burro, ou é desonesto. Incrível que um homem de sua idade, com sua experiência, ache que foi a cloroquina quem curou o Bozo, só porque o Bozo disse que tomou cloroquina enquanto teve Covid-19 (eu duvido até que o Despreparado esteve mesmo doente...). A lógica do comentarista é tão rala que dá para apostar na segunda hipótese. O ex-global hoje faz parte da máquina de desinformação birolista, e vai endossar qualquer narrativa que venha do Planalto. Um triste efeito colateral da cloroquina, que parece ter afetado o cérebro de Alexandre Garcia. Ele amarrou seu fim de carreira ao projeto suicida do Edaír, e irão afundar juntos.

DUPLA IDENTIDADE


Pelo trailer, "Estado Zero" prometia ser bacanérrima. Uma minissérie criada por Cate Blanchett, que ainda faz uma participação especial, sobre refugiados que tentam entrar na Austrália e acabam confinados em um campo de concentração. Tudo isso é verdade, mas o resultado final fica aquém do esperado. Porque há duas histórias bem diferentes sendo contadas ao mesmo tempo: o desespero dos asiáticos e africanos que fogem de seus países,  e o drama específico, inspirado num caso real, de uma cidadã australiana esquizofrênica que se passou por turista alemã e foi detida como imigrante ilegal. Este episódio levou a toda uma reformulação da política migratória da Austrália, mas o roteiro da série não consegue inseri-lo de forma orgânica. Mais interessante é a crise de consciência dos guardas e diretores do tal campo, obrigados a tratar mal um bando de pobres coitados que só quer uma vida melhor. Pelo menos os atores são ótimos, com destaque para a bela Yvonne Strahovski (a Serena de "The Handmaid's Tale", que eu não sabia que era aussie). Cate Blanchett, é óbvio, também está divina como a líder uma seita que prega a transformação pessoal através de coreografias dignas da Broadway, mas a personagem soa apenas como um pretexto para a estrela exibir seus dotes musicais. Com duas personalidades distintas, "Estado Zero" é tão perturbado quanto sua protagonista.

domingo, 26 de julho de 2020

E O TEMPO NÃO LEVOU

Olivia de Havilland é o novo normal. Eu também quero chegar aos 104 anos esbanjando saúde e, se possível, morrer tranquilamente em meu apartamento em Paris. Também quero ser fotografado aos 103 andando de bicicleta - até hoje não aprendi a andar, mas ainda dá tempo. O tempo, o mais belo deuses, manifesta-se em toda sua glória no vídeo acima, gravado durante a cerimônia de entrega do Oscar de 2003. A lendária atriz de "...E O Vento Levou", aos 86 anos, vem anunciar um quadro que a Academia gosta de fazer de vez em quando: reunir no palco o maior número possível de atores que já ganharam o prêmio. É lindo ver tantos deles juntos, de tantas épocas diferentes, e não deixa de ser bonito pensar que muitos já se foram. Mas não de todo: o cinema, a memória, a internet, tudo isso faz com que eles continuem por aqui. Neste sentido, o tempo não é imbatível, mas sua marcha inexorável é positiva. Porque ele nos obriga a querer melhorar.

sábado, 25 de julho de 2020

CALDEIRÃO DO RICKY


Talvez eu devesse escrever sobre os perfis de birolistas que o Alexandre de Moraes mandou cancelar no Twitter. Ou sobre a pesquisa da revista Veja, que mostra o Bozo vencendo qualquer um no segundo turno em 2022 - aos que entraram em pânico, um toque: até abril passado, o Trump também batia o Biden nas pesquisas. Mas hoje é sábado, eu estou exausto e bebi um pouco no almoço. Então só quero saber mesmo é do Ricky Martin, que deu uma entrevista ao Luciano Huck no "Caldeirão" de hoje. A porra da Globoplay não deixa a gente embedar seus vídeos, mas aqui está o link para quem quiser assistir na íntegra. Ricky está promovendo "Pausa", seu novo EP de músicas tranquilinhas (e promete "Play" para breve, com mais animação e talvez feats de Anitta e Pabllo Vittar). Mas o mais legal da conversa foi o boricua ressaltar a importância de ter saído do armário. Lá se vão 10 anos já, e sua carreira não só não sofreu o menor abalo, como eu diria que Rcky Martin cresceu de importância. Agora ele também é ativista político e teve um papel fundamental na derrubada do primeiro-ministro de Porto Rico exatamente um ano atrás. Além disso, está envelhecendo maravilhosamente bem: aos 48 anos, pai de quatro filhos e casado com um artista plástico, o ex-Menudo é um exemplo para as gueis. Inclusive as novinhas, não sabiam que ele é gay e nem que fala português.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

CULTURA DO CANCELAMENTO

Hoje São Paulo perdeu seus três maiores eventos. A corrida da Fórmula 1, que lota hotéis e enche os cofres da cidade, foi cancelada. Os GPs dos Estados Unidos e do México tampouco irão acontecer: curiosamente, os três países são governados por populistas que se recusaram a enfrentar a crise. Os paulistanos também ficarão sem Parada LGBTetc., que já havia sido adiada de junho para novembro. E o carnaval de 2021 talvez só role em maio. Talvez. Enquanto a pandemia arrefece em boa parte do mundo, por aqui ela agora devasta estados que haviam sido poupados, como Minas Gerais ou Santa Catarina. É inacreditável que adultos em posse de suas faculdades ainda sejam infectados. Qual foi a parte de "use máscara e lave as mãos" que esse pessoal não entendeu? Se tivéssemos feito um lockdown radical no começo de abril, estaríamos mais tranquilos em agosto. Não estaremos. Enquanto militares incompetentes insistirem em ocupar cargos para os quais não foram preparados, enquanto derem apoio a um inepto que foi expulso de suas hostes, a tragédia continuará. Só o desalento não consegue ser cancelado.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

KICIS KICIS, BY BYE

De todos os deputados birolistas, a mais repugnante é Bia Kicis (DF), empatada com o asqueroso Daniel Silveira (RJ). Ele é o que rasgou a placa da Marielle; ela, apoia com entusiasmo qualquer barbaridade que venha de seu chefe. Mas o chefe não corresponde. Bia votou contra o Fundeb conforme ele havia mandado, mas Bozo mudou de ideia e fingiu que sempre apoiou o texto que acabaou aprovado.  Como prêmio, a lambe-botas foi destituída do cargo de vice-líder do governo. Já está claro um padrão: a familícia Bostonazi. Todos podem ser descartados, e serão. A única lealdade do clã é consigo mesmo.

O BEIJO DE MANUEL PUIG

Eu tinha uns 13 anos de idade quando descobri "The Buenos Aires Affair". Acho que não entendi metade do livro, mas adorei. Então li "Boquitas Pintadas" e me rendi a Manuel Puig. Lançado em 1969, este romance é moderno até hoje: conta a história de um triângulo amoroso no interior da Argentina nos anos 30, através de bilhetes, notícias de jornal e até uma radionovela. Posso dizer que eu já era puigmaníaco quando ele estourou mundialmente com "O Beijo da Mulher Aranha", que virou uma peça de teatro e um filme vencedor do Oscar. Depois ele ainda escreveu pelo menos outra obra-prima, "Pubis Angelical". Manuel Puig morou no Rio de Janeiro em meados da década de 1980, mas nunca cruzei com ele. Hoje faz 30 anos que morreu, aos 57, como bem lembrou minha amiga Sylvia Colombo em seu blog na Folha online. Fiquei com vontade de reler sua obra, até porque hoje em dia eu entendo espanhol muito melhor do que quando era adolescente (sempre teimei em ler no original). Também recomendo a quem ainda não o conhece. Toda bicha fina precisa ter Manuel Puig em seu currículo.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

SERRA ABAIXO

Votei inúmeras vezes no PSDB. Nem por isto me considero tucano: jamais quis ser teleguiado por partido algum e tampouco tenho bandido de estimação. Por isto, não vou sair por aí defendendo José Serra, que foi pego pela Lava Jato no comando de um esquema difícil de desmentir. É um final lamentável para uma carreira importante na política brasileira: ainda acho que Serra foi o melhor ministro da Saúde que tivemos, pois quebrou a patente de vários remédios, possibilitou o lançamento dos genéricos e ainda criou o programa de distribuição gratuita de remédios contra o HIV. O ex-prefeito da cidade de São Paulo e ex-governador do estado nunca desistiu do sonho de ser presidente, mas foi derrotado fragorosamente duas vezes pelo PT. Andava sumido desde que renunciou ao ministério das Relações Exteriores de Temer, por causa de dores nas costas, mas seguia no Senado. Agora virou mais um prego no caixão do PSDB, um partido que só não foi enterrado de vez porque ainda existe o Doria. E o Eduardo Leite, o jovem e belo governador gaúcho, que parecia promissor até soltar no "Roda Viva" desta semana que não se arrepende de ter votado no Bozo.

A PRESIDÊNCIA SOBRE NADA

Quando Donald Trump anunciou em 2015 que iria se candidatar à presidência dos Estados Unidos, muita gente não levou a sério. Teve até veículo de imprensa que se recusou a escalar repórter de política para cobrir a aventura do Bebê Laranja, que era considerada mero entretenimento. Agora, quando a desastrosa presidência de Trump entra na reta final, podemos voltar a tratá-la pelo que de fato é: uma piada. Trágica, é claro, mas, mesmo assim, uma palhaçada. É o que faz o pessoal do Lincoln Project, o grupo de republicanos arrependidos que faz campanha por Joe Biden. No vídeo acima, a entrevista que o futuro ex-presidente deu à Fox News, recheada de mentiras, ganhou o que merece: uma laugh track.

terça-feira, 21 de julho de 2020

TE PERDOO POR TE TRAIR

Num domingo de 2005, o então deputado federal Roberto Jefferson telefonou para a redação da Folha de S. Paulo. Atendeu uma das jornalistas que estava de plantão: Renata Lo Prete. Alguns dias depois, o jornal publicou a primeira matéria sobre o esquema que o próprio Bob Jeff chamou de mensalão, e que quase derrubou o governo Lula. Detalhe: o próprio parlamentar participava do esquema. Tanto que, mais tarde, foi condenado e preso por corrupção. É esta flor de pessoa que está sendo recebida com fanfarra pelo birolistas radicais. Um sujeito que não só é chegado num dinheiro público, como também trai seus aliados. Mas a minionzada não tá nem aí: chafurdam no jorro de impropérios despejada pela boca fétida do novo aliado, totalmente cegos para o perigo que ele traz. Porque tá assim de gente que votou no Bozo e agora se arrepende, ao ver que o pior do Centrão se junta ao suposto mito. Bob Jeff é radioativo. Quem chega perto, morre.

A OPÇÃO EQUIVOCADA

Na semana passada, depois que o Leandro Narloch foi demitido da CNN Brasil por causa de seu comentário infeliz sobre a liberação do STF à doação de sangue por homens gays, acabei me envolvendo numa treta pública com ele no Twitter. Quer dizer, mais ou menos: ele respondeu a mim apenas uma vez, enquanto eu devo ter soltado uns 800 tuítes. Percebi que a expressão "opção sexual" é um gatilho para mim. No final da adolescência, na única fase da minha vida em que eu fiz psicanálise, achei que conseguiria mudar o que eu sentia. Deu no que deu.

Mesmo defenestrado e jurando não ser homofóbico, Narloch continuou insistindo no termo. Isto, quando a esmagadora maioria dos homossexuais garante que não escolheram nada quanto aos próprios desejos, assim como os héteros. É verdade que existem lésbicas que defendem que é uma opção, mas eu ainda estou por ver uma boa argumentação da parte delas. As que eu conheço, no fundo falam o mesmo que eu: a opção que existe é por um estilo de vida. É sair ou não sair do armário. Ninguém controla o próprio tesão. O que escolhemos é se damos vazão a ele ou não. A Igreja Católica e outras entidades religiosas acham que essa vazão é pecado, como se o ímpeto sexual fosse um instinto assassino, mas nem ela chega ao ponto de dizer que também é uma escolha. Mas outros o fazem, inclusive vários evangélicos. A crença na opção é a base para as infames clínicas de cura gay e outros tratamentos espúrios, que causam tanto sofrimento inútil. 

Mas Leandro Narloch, mesmo depois da demissão, mesmo depois da chuva de críticas que tomou, mesmo depois dos meus 800 tuítes que ele não deve nem ter lido, não se redimiu um milímetro. Ontem, em entrevista ao Pânico, posando de vítima da cultura do cancelamento, ele disse que usaria o dinheiro da rescisão com a CNN para erguer outdoors onde se lê "Opção Sexual" em frente às sedes de ONGs do movimento LGBT. Mais um sinal de que está ultrapassado: desde a prefeitura de Gilberto Kassab que não existem mais outdoors em São Paulo.