terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

QUANDO PARIS ALUCINA


Michel Ocelot se supera. O diretor de obras-primas da animação como "Azur e Asmar" e "Kirikou e a Feiticeira" agora lança o que talvez seja seu filme mais deslumbrante, "Dilili em Paris". O roteiro é algo confuso e bem extemporâneo: uma garota  kanak (uma tribo da Nova Caledônia, na Oceania) ajuda a desbaratar uma quadrilha de sequestradores de menininhas, na Paris do final do século 19. Mas o visual é arrebatador: quase tudo o que a gente ama da capital francesa já existia, e aparece em riqueza de detalhes e cores estonteantes. O longa é para crianças, mas os adultos cultos vão vibrar com o desfile de cameos célebres: Dilili encontra nada menos do que Pablo Picasso, Sarah Bernhardt, Santos Dumont, Marcel Proust, Madame Curie, Louis Pasteur, Toulouse-Lautrec, o então príncipe de Gales e futuro rei Eduardo VII, Renoir, Degas, Monet, todo mundo e seu pai. Dommage que a dublagem brasileira não tenha contado com alguém que fale francês: a tradução está sofrível, as músicas perdem as rimas na versão ao pé da letra e os dubladores soltam pavores como "Zóla" e "Sátie", ferindo meus ouvidos eruditos. Mas o importante mesmo em "Dilili" é o visu e, para quem captar, as muitas referências.

COMPARTILHOU, VIRALIZOU, NEM VIU

Nada machuca mais um bully do que ser zoado de volta. A minionzada está cholando nas redes sociais, depois da performance épica de Marcelo Adnet no desfile da São Clemente ontem à noite. Foi demais para o gado ver seu mito pagando flexão na Sapucaí: não faltou quem lembrasse que Adnet deu suas puladas de cerca quando era casado, como se o Mijair nunca tivesse traído nenhuma de suas três mulheres. Essa choladêla só demonstra que o humorista, que também é um dos compositores do sensacional samba da escola, acertou na mosca e esfregou no cascalho o focinho dos boçais. Carnaval é pra isso mesmo, e não para ser uma "zona neutra (...) para falar de folclore, de coisas boas", como defendeu Oscar Magrini. Quem mandou votar num energúmeno despreparado? Agora aguenta.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

NÓS QUE LUTEMOS


Num ano com menos orbas-primas, "Luta por Justiça" teria sido indicado a vários Oscars. É um pesado drama de tribunal, eivado de boas intenções, do jeito que a Academia costumava prestigiar. Também é um tipo de filme que todo mundo já viu outras vezes: um homem condenado injustamente à morte tenta provar sua inocência, mas todo o sistema parece voltado contra ele. O que evita o sabor de prato requentado são as ótimas atuações e o clima tenso até o final, apesar do roteiro ser baseado numa história real (ainda bem que eu não googlei antes de ir ao cinema). "Luta por Justiça" bate com força no maior problema da pena de morte: o alto número de condenações equivocadas, propiciadas pelo racismo estrutural. Eu sou dos que acham que nem culpados merecem ser executados e que a pena capital é um resquício de tempos bárbaros; no Ocidente, só nos EUA ela ainda está em vigor. Claro que o filme falou de perto à minha alma liberal, mas não é preciso ser esquerdopata para se comover com a história. E nem ter bola de cristal para perceber que há um Oscar em algum lugar do futuro de Michael B. Jordan, o melhor ator afro-americano de sua geração. No mais, essa luta também é nossa.

BERNIE SANDERS VEM AÍ

O Glenn Greenwald tem uma hipótese apavorante: para garantir na reeleição de Donald Trump, desta vez a Rússia está ajudando Bernie Sanders. O senador pelo estado de Vermont desponta como o candidato dos Democratas às eleições de novembro, mesmo sendo uma figura divisiva dentro do partido. Que nem sequer é o dele: já há alguns anos que Sanders concorre como independente. Também tem 78 anos, um infarto na ficha médica e três casas - o que os adversários dizem ir contra seu auto-proclamado socialismo (quando, na verdade, ele é um social-democrata). Algumas pesquisas dizem que ele bateria Trump em estados-chave; eu já não sei. Um velhinho socialista parece o rival mais fácil de derrotar, para mim e para os russos. Mas Sanders tem uma torcida fanática que lembra a de Lula. Não votam em ninguém se não nele, e preferem ver o país nas mãos de um demagogo de direita do que nas de um centro-esquerdista. Essa galera mais radical será grande o suficiente? Sei não.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

A BELA SINTRA


"Frankie" é um título enganoso. O filme estrelado por Isabelle Huppert está mais para um ensemble, em que todos os integrantes do grande elenco têm suas próprias histórias. São até histórias demais, de variados graus de interesse. A protagonista é uma famosa atriz francesa, desenganada por causa de um câncer avançado. Ela então reúne a família em Sintra, Portugal, para uma última temporada juntos: o primeiro marido, o filho que tiveram, o segundo marido, a filha deste, com o marido e a filha, e mais uma amiga jovem que ela quer empurrar para o filho. Mas a amiga traz um namorado, a filha do marido está se separando e ninguém está se divertindo. O roteiro escrito pelo diretor Ira Sachs junto com o brasileiro Mauricio Zacharias perde um tempo enorme com a adolescente, que vai à praia sozinha, arranja um namoradinho português e ponto. Os diálogos soam forçados: parecem ter sido escritos em outra língua (português?), e depois traduzido para inglês ou francês por alguém não muito fluente. Salva-se a beleza de Sintra, que poderia até ter sido mais explorada, e a luminosa Marisa Tomei. Além, é claro, da própria Isabelle, mais uma vez fazendo o papel de si mesma - nem cortar o cabelo ela corta, para se adequar ao papel. Mas empresta seu star quality e seu eterno ar de superioridade intelectual a mais um filme menor. Já passa da hora de fazer outro à sua altura.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

PARA QUÊ A PRESSA?


Meus encantamentos musicais seguem dois padrões. Às vezes eu descubro alguém bem obscuro, falo que todo mundo tem que ouvir, ninguém ouve e fico eu desfrutando sozinho daquele tesouro por anos fio. Outras vezes eu chego muito atrasado, quando não há mais novidade nem para a avó de todo mundo. Este é o caso do meu crush atual pelo Tame Impala. Já tinha ouvido algo do grupo, achava bacaninha e ponto. Agora baixei o novo álbum "The Slow Rush" e finalmente me rendi. Também aprendi que não é bem um grupo, e sim um projeto do australiano Kevin Parker (o Tame Impala só vira banda quando sobe ao palco). São 12 faixas que variam da discothèque ao viajandão, às vezes com arranjos surpreendentes, mas sempre com um tema em comum: a inexorável passagem do tempo. É rock para velho.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

O PARASITA DA CASA BRANCA

Donald Trump já disse muita bobagem, mas poucas foram tão ridículas quanto suas críticas à vitória de "Parasita" no Oscar. Claro que ele nem viu o filme: como tuitou a distribuidora Neon, o Bebê Laranja não sabe ler. O presidente está revoltado com o fato de um filme sul-coreano ter vencido o prêmio de melhor filme, como se isto fosse uma ameaça à soberania nacional dos Estados Unidos. Patacoadas à parte, o subtexto da diatribe é claro: "somos racistas, não gostamos de gente amarela, o domínio cultural americano tem que ser mantido a qualquer custo, quem lê legenda é viado". Sim, ele quis dizer tudo isto. Eu sei ler. De resto, o verdadeiro mistério não é como "Parasita" ganhou o Oscar, mas como um parasita  ganhou a Casa Branca.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

ENSAIO GERAL

Foi gravíssimo o que aconteceu ontem em Sobral, no Ceará. Como é que PMs vestem balaclavas e mandam o comércio fechar as portas? Isso é comportamento de bandido, claro. E claro que Cid Gomes exagerou ao investir com uma retroescavadeira, mas o fato é que deu certo. A comoção pelos dois tiros tomados pelo senador fez com que o quartel fosse desocupado, que era o que ele queria. Mas nada me tira da cabeça que esse motim foi uma espécie de ensaio geral. A PM do Ceará não é a única que está disposta a aterrorizar a população para conseguir o que quer. E todas têm o apoio do Biroliro, que quer transformá-las em sua guarda pretoriana. O Despreparado talvez tente o autogolpe mais cedo do que pensávamos. Por que encheu o Planalto de militares? Justo na hora em que Paulo Guedes ameaça ir embora, e as suspeitas sobre a morte de Adriano começam a virar certezas?

MONEY MIKE

Quando estive em Miami, um mês atrás, não dava para ligar a TV sem dar de cara com um comercial de Michael Bloomberg. O ex-prefeito de Nova York também é o 9o. homem mais rico do mundo, e não está economizando em sua campanha eleitoral. O resultado é que ele já é o segundo favorito dos Democratas, atrás apenas de Bernie Sanders, e um nome muito mais ao centro do que o inflamado senador de Vermont. Mas não lhe faltam pontos fracos: Bloomberg é contra a saúde pública gratuita e bem pouco popular entre negros e latinos por causa do "stop and frisk". Também é uma espécie de Trump do bem. Ao contrário do Bebê Alaranjado, defende o combate ao aquecimento global, o controle de armas e a legalização do aborto, e ainda fez sua própria fortuna. Conseguirá chegar à Casa Branca? Na eleição passada, muito eleitores de Sanders se recusaram a votar em Hillary, o que beneficiou Trump. Por outro lado, Money Mike (o apelido carinhoso que Bloomberg recebeu de seus rivais) não tem muitos alvos que possam ser atingidos pelo atual presidente. É o candidato dos sonhos? Não, até porque isso não existe. Mas, neste momento,  talvez seja o mais indicado para reverter a maré reacionária.

ATUALIZAÇÃO: Escrevi este post antes do debate de ontem entre os principais candidatos democratas, e hoje fiquei sabendo que Bloomberg se espatifou. Nem de longe é a melhor opção. Claro que vou torcer por qualquer um contra Donald Trump em novembro, mas Money Mike não parece mais tão competitivo assim.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

QUASE FAMÍLIA


"Meio Irmão" é meio aparentado com "Sócrates", outro filme nacional de baixo orçamento feito por um diretor estreante. Ambos tratam de jovens abandonados, lidando com o florescer da sexualidade e com uma enorme carência de afeto e recursos. Também compartilham de uma certa secura de linguagem, que evita qualquer sinal de sentimentalismo. O longa de Eliane Coster é um pouco mais complexo. A personagem principal, Sandra, é uma menina da baixa classe média de um bairro da Zona Leste de São Paulo. Chatinha como toda adolescente, mas com boas razões para tanto: o pai não quer saber dela e a mãe nem aparece na história. Quando começa, ela já se mandou, fugindo de um agiota que quer cobrar uma dívida. Sem ninguém para cuidar dela e sem tostão no bolso, a menina só tem uma alternativa: procurar o meio irmão, que sua mãe branca teve com um homem negro. O rapaz tem seus próprios problemas. É, no mínimo, bissexual, e ainda gosta de filmar outras pessoas se agarrando, sem que elas percebam. "Meio Irmão" está mais para um estudo desses personagens do que uma trama bem urdida. O tom ultrarrealista é quebrado pela aparição de uma máscara de minotauro em dois momentos, uma simbologia obscura que só confunde o espectador. Mas, tirando esse detalhe, o filme é impressionante. Natália Molina e Diego Avelino encabeçam um elenco fenomenal de atores desconhecidos, e a segurança de Eliane Coster por trás da câmera sinaliza que está surgindo mais um nome forte para o cinema brasileiro.

SEM CINE NEM ARTE

Estou arrasado. Meu cinema favorito de São Paulo, o único que ainda existe desde que eu era pequeno, fecha as portas nesta quinta-feira. Era pedra cantada: desde que perdeu o patrocínio da Petrobras, um ano atrás, o Cinearte do Conjunto Nacional vinha enfrentando dificuldades para sair do vermelho. A sala 1 tem 300 lugares, uma enormidade para os dias de hoje, e há muitos anos que não lota, mesmo exibindo os filmes mais badalados do Oscar. É uma perda para a cidade tão grande quanto quase foi a do Belas Artes, que ficou fechado por três anos e só reabriu quando ganhou patrocínio da Caixa, também perdido em março do ano passado. O Belas Artes encontrou rapidamente um novo mecenas, a cervejaria Petra, e está firme e forte, apesar da inteira caríssima. O Cinearte (que, além de Petrobrás, também já teve os sobrenomes Bom Bril e Livraria Cultura) merece destino semelhante. Quem se habilita? Que tal ter sua sala própria em São Paulo, hein, Netflix, num dos pontos mais emblemáticos da cidade? Um lugar perfeito para grandes lançamentos, pré-estreias e festivais. Ah, e o melhor de tudo: a 15 minutos a pé da minha casa.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

BOCA DE ESGOTO

Sabe por que o Biroliro se sente à vontade para se referir a uma jornalista de renome nos termos mais chulos possíveis? Não é só porque seu gado cativo vai ao delírio quando ouve tanta merda. É porque o resto da aliança informal que o levou ao Planalto fica quieto. Quer dizer então que o mercado financeiro acha que tudo bem, contanto que a Bolsa suba? E os conservadores, não se incomodam com um ataque vulgar a uma mulher casada? E os militares, que exigem a mais rígida disciplina em seus colégios? Sem falar nos evangélicos, sempre tão prontos a apontar os pecados dos outros. Se todas essas turmas aquiescem, na verdade estão endossando o que o Despreparado defeca pela boca, e sendo tão baixos quanto ele. Por isto, precisam ser cobrados pelo restante da sociedade. Quanto à imprensa, fica a dúvida: vale a pena cobrir as aparições diárias do Mijair na porta do Alvorada, com aquela claque aplaudindo cada barbaridade que ele diz? Isso não é dar palanque para bandido?

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

DESPESA DÃO OS FILHOS DELE

A pavorosa declaração do Despreparado de que "uma pessoa com HIV é uma despesa para todos no Brasil" gerou pelo menos um resultado positivo. É a campanha "Eu Não Sou Despesa", promovida pela RNP + (Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS). Dois amigos meus aderiram e revelaram nas redes sociais que são soropositivos. Fizeram muito bem: ambos levam vidas normais, trabalhando e devolvendo para a sociedade muito mais do que se gasta com eles. Aliás, prefiro um milhão de vezes que o dinheiro dos meus impostos vá para os medicamentos gratuitos de controle do HIV do que para sustentar parasitas feito os filhos do Biroliro, que mamam há décadas nas tetas do Estado sem dar nada em troca. Quem dá despesa mesmo é a familícia.

O QUE A JAPONESA FAZ NO BRASIL

"Tormenta" não traz nenhuma grande revelação. Quem acompanhou com atenção o noticiário em 2019 já sabia de quase tudo que está no livro de Thaís Oyama. O despreparo do Biroliro, sua tibieza de caráter, os rompantes e os recuos, nada disso é novidade. Mas a ex-redadora-chefe da Veja consegue uma façanha e tanto: condensa, em menos de 250 páginas, a montanha-russa que foi o primeiro ano deste desgoverno. Um tipo de livro bastante comum nos Estados Unidos, mas ainda raro por aqui. É um resumão muito bem informado, recheado de detalhes saborosos dos bastidores, todos confirmados por mais de uma fonte. E é muito bem escrito: a linguagem é fluida, com objetividade jornalística, clareza e leveza até onde foi possível. Devorei "Tormenta" em dois dias, e quero mais. Porque assunto não vai faltar. A tragédia bostonazista continua, e seria ótimo se Thaís Oyama publicasse um novo volume ao final de cada ano. Ela, que é tão neta de imigrantes quanto o Mijair, foi chamada por ele de "essa japonesa que eu não sei o que faz no Brasil" - mais uma ofensa de um governante pródigo em ofensas e pobre em realizações.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

COMO PODERÍAMOS TER VIVIDO

Aos 18 anos de idade, Anton Tchekhov escreveu uma peça que ficou sem final e sem título. O texto só foi descoberto 20 anos depois de sua morte, e costuma ser montado como "Platonov", o nome de um dos personagens. Muitos dos elementos que mais tarde seriam reconhecidos como tchekhovianos já estavam lá: a aristocracia decadente, a casa de campo, a paixão de um homem solteiro por uma mulher casada. Mas o que a Companhia Brasileira de Teatro faz em sua encenação, batizada "Por Que Não Vivemos?", nenhum russo pré-revolucionário previu. A peça estreou em SP esta semana, depois de rodar o Brasil. O primeiro ato, com quase duas horas de duração, é um happening. Tivemos a sorte de sentar na arquibancada montada sobre o palco, e praticamente fizemos parte da festa que rolou na nossa frente (com direito a vinho branco, cerveja e até dancinha no fim). O elenco sensacional tem Camila Pitanga como atriz convidada, e a entrega de todos é total. Se fosse só isso já estaria bom, mas tem mais.

O segundo ato parece um espetáculo diferente, concebido por outro diretor. Só que não: é o mesmo Marcio Abreu. Fomos sentar plateia, e essa hora final, escura e fria, com lindas projeções e efeitos de luz, faz um contraste brutal como o fuzuê que veio antes. Tudo isso faz com que "Por Que Não Vivemos?" seja denso, intenso e divertidíssimo em vários trechos. Outros são bem tristes, e a semelhança entre a Rússia do século 19 e o Brasil atual é uma das conclusões possíveis. Teatro sólido, feito com prazer e seriedade.  Ainda estou sob o impacto.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

AMOR DE MÃE


Fui ver "Cicatrizes", basicamente, para ter um filme da Sérvia no meu currículo. Acabei conhecendo uma grande atriz: Snežana Bogdanović, uma grande estrela da antiga Iugoslávia, hoje radicada em Nova York. Ainda muito bonita aos 59 anos, ela faz uma mulher em busca do filho desaparecido, hoje com 18 anos. O bebê foi dado como morto logo ao nascer, mas ela tem certeza que foi sequestrado por uma máfia que envolve médicos e enfermeiras e vendido a outra família. O interessante é que, apesar do drama parecido com o da novela da Globo, a intepretação contida de Snežana é o oposto da de Regina Casé. "Cicatrizes" segue aquela linha árida, sem trilha sonora, que me irrita um pouco. Mas às vezes basta uma atriz de primeira linha para tornar um filme bom.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

TEMPO DE MORRER

Assim como o papel de James Bond, acho que a canção-tema de um filme de 007 só deveria ser confiada a britânicos. Essa regra que eu inventei agora nunca foi seguida: k. d. lang, Rita Cooldige e até os noruegueses do A-ha já cantaram nos famosos créditos de abertura. A próxima artista a receber tal responsabilidade é Billie Eilish, que nasceu um ano antes de Madonna entoar "Die Another Day". Hoje ela liberou a faixa "No Time to Die", do longa do mesmo nome, e a galera está se estapeando para ver quem elogia mais. Eu não: a música não é ruim, mas é a mais fúnebre e a menos sexy de todo o vasto cancioneiro bondiano. Vai me desculpar, mas James Bond É sexo. Também é moreno, coisa que Daniel Craig nunca foi. Como este é seu último filme como o agente com licença para matar, aqui está seu réquiem.

MAIS QUE MIL PALAVRAS

Será que a Veja fez bem em publicar - até na capa da edição desta semana - as fotos do cadáver baleado e costurado de Adriano da Nóbrgea? As redes sociais estão cheias de gente horrorizada com as imagens, acusando a revista de profanação e gritando "meus sais!". Nossa cultura lida mal com a morte. Mesmo um assassino monstruoso como o miliciano favorito dos Biroliro merece respeito e até alguma piedade depois de ter sido fuzilado, ainda que muita gente aprove a maneira como ele foi despachado para o além. Mas eu, sinceramente, acho que a Veja fez bem. Eu li a reportagem e vi todas as fotos: para entender o que de fato aconteceu no sítio em Esplanada, as imagens são mesmo necessárias. Tudo indica que Adriano foi morto à queima-roupa, e que ainda levou um "confere" - um tiro, não de misericórdia, mas para garantir sua morte - quando já estava alvejado e caído no chão. Ou seja, foi mesmo executado. A operação policial que o perseguiu jamais cogitou em capturá-lo vivo. Sim, as fotos são chocantes, mas só elas dão a verdadeira dimensão da gravidade desse caso. E não pensem que a Veja fez isto para vender mais. A redação deve ter debatido horas a fio se era mesmo preciso publicar essas fotos. Essas decisões nunca são fáceis na grande imprensa, coisa que alguns leigos não conseguem entender. Por isto, eu sugiro que deixemos de lado o debate sobre a pertinência ou não dessas imagens, e foquemos o que realmente interessa: o que Adriano da Nóbrega sabia?

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A BÍBLIA NÃO É UM IPHONE

Sharon Stone, fazendo o papel de si mesma, visita o papa João Paulo III (John Malkovich) no quinto episódio de "The New Pope", a continuação da série "The Young Pope". A cena tem momentos grosseiros (a atriz precisa até hoje ser lembrada para não descruzar as pernas?) e outros engraçadinhos, como a comparação entre a Bíblia e o iPhone: só este último é constantemente atualizado. O clipe foi divulgado pela HBO bem na semana em que o papa Francisco rejeitou a ideia de ordenar homens casados na Amazônia, onde há carência de padres. Bergoglio cedeu à pressão da ala conservadora do Vaticano, que prefere perder fiéis do que se modernizar. Só que o celibato não está na Bíblia. São Pedro e outros apóstolos eram casados, e há evidências críveis de que o próprio Jesus não morreu virgem. Foi só na Idade Média, quando a Igreja já acumulava terras e riquezas, que seus sacerdotes foram proibidos de ter mulher e filhos, o que implicaria em heranças. E assim, sem se adequar aos tempos que correm, o Catolicismo imita o Blackberry, que deixará de ser produzido em agosto.

MEU PINTINHO AMARELINHO

Na minha já longa carreira como roteirista de televisão e colunista de variedades, tive a oportunidade de conhecer nomes que vão de Hebe Camargo a Steven Spielberg, passando por Regina Duarte e quase todo o elenco da Globo. Entretanto, jamais, em tempo algum, eu cruzei com Gugu Liberato. O que é uma pena: se eu tivesse esbarrado nele, talvez agora pudesse entrar com um processo reclamando minha parte em seu espólio, avaliado em um bilhão de reais. A disputa pela herança, que já envolvia a "viúva" Rose Miriam di Matteo, esquentou ainda mais com a entrada do chef Tiago Salvático, tido como namorado de Gugu e acompanhante na derradeira viagem do apresentador, pelo Extremo Oriente. Salvático alega oito anos de união estável, e a briga promete ser feia. Não sou eu quem vai acusar Gugu do que quer que seja, pois é óbvio que ele não teria tido a carreira que teve (e nem amealhado tamanha fortuna) se, em algum momento, houvesse saído do armário. Mas é lamentável que essa vida tão cheia de segredos tenha deixado atrás de si um rastro de discórdia e acusações. Parece que Gugu Liberato não soube lidar direito com seu pintinho amarelinho, e agora são os herdeiros que pagam o pato.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

CHICAGADAS

Pauo Guedes é a versão gourmet do Justo Veríssimo, aquele personagem do Chico Anysio que queria que os pobres explodissem. O ministro da Economia pode até ter boas ideias para destravar o PIB brasileiro, mas precisa fazer um media training urgente. Outro dia ele disse que funcionários públicos são parasitas, durante uma justa crítica aos reajustes automáticos que a categoria recebe. Resultado: comprou briga com milhões de pessoas, a troco de nada. Hoje ele disse que o dólar alto é bom, porque "tem até empregada indo para a Disney". O que era para ser uma defesa do turismo interno saiu como o mais asqueroso preconceito de classe. Gente que já tarbalho com Guedes garante que ele é autoritário e que esses atos falhos são, na verdade, um retrato fiel do que ele realmente pensa. Gente que ente mais do assunto do que eu afirma que a escola de Chicago já está ultrapassada, haja vista o motim popular no Chile. O pior é ver o mercado aplaudindo essas chicagadas todas, ainda em muito efeito prático, enquanto ignora os descalabros do Biroliro.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

JE SUIS PATRÍCIA

Conheci Patrícia Campos Mello no primeiro curso que eu fiz na Folha, em 2016. O segundo curso, em 2018, aconteceu bem durante a campanha eleitoral, quando ela estava sob fogo cerrado por causa da reportagem que denunciava as milícias digitais do Biroliro. Mesmo sofrendo ameaças de morte, Patrícia seguia firme e forte. Hoje ela foi insultada em pleno Congresso Nacional, e justo pela cara que soprou o apito - agora ele deu para trás e diz que é tudo mentira dela. Há trocas de mensagens que provam justamente o contrário, assim como há provas de tudo que Patrícia publicou sobre o caso. Mesmo assim, já tem minion me mandando comentário atacando a jornalista e a Folha. Um aviso: não perca seu tempo, vá pastar uma graminha, porque eu apago sem ler até o fim. Eu nem precisava conhecer Patrícia ou escrever para a Folha para saber de qual lado ficar nessa história. O lado do profissionalismo e da verdade.

O PT EM SEU LABIRINTO

Nesta segunda-feira, 10 de janeiro, o Partido dos Trabalhadores completou 40 anos de existência. Não vou fazer o trocadilho óbvio com a sigla - perda total - mas não dá para ignorar que a marca tem problemas sérios. Partidos como o PFL e o PR trocaram de nome por muito menos. O PT deveria fazer o mesmo? Não chego a tanto. A estrela vermelha ainda é um símbolo sagrado para muita gente. Mas os petistas jamais voltarão ao poder federal enquanto Lula estiver vivo, pode anotar. Pois, o caudilho jamais desistirá de ser candidato, e sua mística ainda é forte entre seus correligionários. O problema é que, para boa parte da classe média brasileira, Lula virou sinônimo de ladrão (não estou discutindo se ele é ou não é, só estou constatando um fato). Sem apoio da classe média, ninguém vence eleição nenhuma. O PT também está envelhecendo: o número de filiações entre os jovens despencou. E não está conseguindo reverberar entre os negros, as mulheres ou os gays. A preocupação da cúpula agora é se aproximar dos evangélicos, e a gente lembra que, para conseguir esse tipo de apoio, o PT é capaz de rifar seus ideais. Como não há hipótese de que Lula se retire por vontade própria, nem que seja afastado do partido, só resta uma saída para esse labirinto. A natureza seguir o seu curso.