sábado, 23 de junho de 2018

NEYMARKETING NEGATIVO

O Brasil nunca foi muito reverente com seus ídolos. Não faltam piadinhas sobre a perna mecânica de Roberto Carlos ou a morte de Ayrton Senna. Mas o que está acontecendo agora com o Neymar me parece ser de outra natureza. As pessoas estão de saco cheio do rapaz. De sua vaidade, seus chiliques em campo, seu choro no jogo de ontem. Quantos memes você recebeu esta semana pelo WhatsApp? Tem o cachorro do Neymar, o sanfoneiro do Neymar, o cabrito do Neymar... Aliás, nem é só ele. Parece que metade da nossa seleção é composta por flores delicadas, que se despetalam sob pressão - tipo Thiago Silva, a quem eu tenho votade de dar uma bifa. Que saudades do tempo em que os jogadores eram uns pinguços safados, seguidos por uma fila de mulheres grávidas ou com bebês no colo exigindo teste de DNA. Os de hoje são quase todos evangélicos e agradecem a Jesus por cada gol, sem a menor criatividade - isto quando não doam o salário para o pastor. Neymarketing e sua namorada Bruna Marketingue estão cansando o público, que preferia ver bola na rede do que os dois se lambendo no Instagram. Se o Brasil cair fora logo, vou me bandear para a torcida de Portugal. Cristiano Ronaldo pode ser um pavão metrossexual, mas não é dado a frescurites na hora do jogo.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

ELAS ESTÃO DESCONTROLADAS


Adoro atrizes, especialmente as de uma certa idade. Quando várias delas se juntam num mesmo filme, então, sai da frente. Mas se o roteiro for ruim, não adianta ter Jane Fonda & Diane Keaton & Candice Bergen no elenco (Mary Steenburgen é competente, mas está bem abaixo do estrelato das colegas). "Do Jeito que Elas Querem" parecia ser um passatempo refinado e despretensioso, do nível de "Clube das Desquitadas" ou dos filmes de Nancy Myers. Mas tudo é - aham - velho nessa comédia rasteira. A começar pelo ponto de partida: quatro amigas que leem o mesmo livro todo mês escolhem, com apenas seis anos de atraso, "50 Tons de Cinza". Claro que as peripécias de Christian Grey acendem as periquitas de todas, que resolvem ir à luta e arranjar namorado. E conseguem, com uma facilidade de dar inveja a uma boate gay sob o domínio da bala. Até aí, beleza, cinema não é realidade, mas as piadas precisavam ser boas. Mas são óbvias e grosseiras, indignas de uma turma que quase que tem mais Oscars e Emmys do que anos.

ESPELHO, ESPELHO DELE


François Ozon é um dos meus cineastas prediletos. Vi todos os seus 17 longas-metragens, além de alguns curtas. Por isto, estou no meu lugar de fala para dizer que "O Amante Duplo" não está entre seus melhores trabalhos. Não é exatamente um filme ruim e até que tem seus bons momentos, mas os defeitos são tantos quantas as qualidades. Numa história em que a barriga tem uma função central (a protagonista sofre de prisão de ventre, e há uma cena mais para o fim que, enfim, deixa pra lá), Ozon deixa que uma barriga cresça e arraste a trama. A escolha de Marina Vacth para o papel principal também me parece equivocada: a moça é linda, mas tem exatamente uma única expressão, que ela usa o tempo todo. Dito isto, era meio que inevitável que Ozon aproveitasse o tema do duplo em algum ponto de sua obra, repleta de farsas e perversões. Desde o começo do filme, fica claro que os psiquiatras gêmeos que dividem a mesma mulher não são 100% reais; o desfecho consegue ser satisfatório e prosaico ao mesmo tempo. E o melhor de tudo é mesmo Jacqueline Bisset, esplendorosa aos 72 anos de idade, numa personagem recorrente na filmografia de François Ozon: a mulher mais velha (geralmente, uma mãe) que surge próxima ao desenlace para ajudar na revelação de um segredo. Mas não tenho o que lamentar por causa desse ligeiro tropeço. Ozon filma sem parar, e seu próximo filme, "Alexandre", já está em pós-produção.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

ELA NÃO LIGA MESMO

Achei que eram fake news quando vi pela primeira vez. Que Melania Trump até seria capaz de cometer tal vestimenta, mas não para visitar filhos de imigrantes separados dos pais. Só que não: a primeira-dama usou mesmo um casaco onde nas costas pode-se ler "I Really Don't Care, Do U?" ("Não Tô Nem Aí, e Você?"). É um modelo da Zara do ano passado, no valor de 39 dólares. Já seria esquisito a mulher de um presidente desfilar com esse troço em QUALQUER situação. Para uma visita como a de hoje, é imperdoável. Não que ela tenha feito de propósito: Melania simplesmente não se tocou. Ela não liga mesmo! Mais fascinante ainda é não haver um único assessor por perto para sussurrar "calma lá, isso pode pegar mal". Ou seja, nem contratar aspone direito essa Casa Branca consegue. Trump ainda aumentou a cagada ao tuitar que a esposa no. 3 estava se referindo à mídia malvada, num ato falho evidente de que sim, ele liga muito para o que a mídia fala. Então tape os ouvidos, porque lá vai.

O MONSTRO DE FLORIANÓPOLIS

Procurei no Google e no Facebook uma foto do promotor Henrique Limongi, o celerado de Floripa que já tentou anular 69 casamentos homoafetivos. O babaca virou o inimigo no. 1 dos LGBT esta semana depois de enviar uma intimação a Anelise e Adrieli Nunes Schins, casadas legalmente desde dezembro do ano passado. Não, eu não ia fazer nada de mais com a foto ou o perfil do troglodita, só postá-la aqui no meu blog. Aí vocês, queridos leitores, é que iriam resolver o que fazer com elas. Todo mundo já é bem grandinho, né mesmo? Ninguém precisa acatar a minha sugestão de infernizar a vida do sujeito. Gritar com Limongi nos restaurantes, passar trote na casa dele, jogar tomate podre no carro oficial... Sei lá, vocês é que sabem. "Ãin, mas você está sendo infantil, não é assim que se combate a homoblábláblá whiskas sachê". Então eu respondo: Limongi é um bully, que só quer encher o saco de gays e lésbicas. Ele sabe muito bem que o casamento homoafetivo foi considerado constitucional pelo STF em 2011, por unanimidade. Só vai conseguir que os casais de Florianópolis percam tempo e dinheiro com advogados. Portanto, é um alvo lícito: tomate nele!

quarta-feira, 20 de junho de 2018

NOSOTROS, LOS CERDOS

Somos uns porcos. Somos todos unos cerdos. Nós, não apenas os brasileiros, mas os latino-americanos em geral. O machismo e a falta de educação nos são inerentes. Não sabemos nos comportar em uma Copa do Mundo. Enquanto não param de surgir vídeos dos nossos compatriotas zoando grosseiramente das russas, dois exemplos desalentadores vêm dos nossos vizinhos regionais. Torcedores colombianos fizeram parecido com turistas japonesas e ainda entraram com álcool no estádio de Saransk. Resultado: atraíram a ira divina, e a Colômbia perdeu do Japão. Já no México uma galera achou que seria uma boa ideia celebrar a inesperada vitória de domingo passado queimando uma bandeira da Alemanha. Quero só ver o placar do próximo jogo da seleção mexicana...

(Obrigado pelas dicas, Daniel Ortiz!)

terça-feira, 19 de junho de 2018

GRITO! BERRO! MURO!

O plano de Trump era simples. Quando começasse a gritaria por causa das criançaas separadas dos pais imigrantes, ele jogaria a culpa nos democratas. Afinal, foi durante o governo Obama que foram aprovadas as leis anti-imigração atualmente em vigor (que são duras, é verdade, mas que em nenhum momento falam em separar pais de filhos). "Change the laws!", gritou o presidente no Twitter, em seu delicado estilo característico. Só que, para mudar as leis agora, ele impõe uma condiçãozinha: que o Congresso também aprove o muro que prometeu construir na fronteira com o México. O que Trump não previu foi a reação negativa colossal, vinda até de republicanos de carteirinha como a ex-primeira-dama Laura Bush. E ainda surgiu a gravação de algumas dessas crianças chorando, que é de cortar o coração. O que acontece agora? Trump é um poço de insegurança e quer ser amado pelo povo, mas também costuma recrudescer no erro quando é muito criticado. Não aposto que nada vá mudar de imediato. Já a médio prazo... as cagadas estão se acumulando. Aguardemos.

O CAPITÃOZINHO DO MATO

Fernando Holiday se ofendeu porque o Cirão da Massa disse, numa entrevista sobre uma possível aliança do PDT com o DEM, que ele era um "capitãozinho do mato". O vereador paulistano - que, apesar de ser negro, é contra as cotas para negros nas universidades e até mesmo contra o Dia da Consciência Negra - quer processar o presidenciável por racismo. Antes de procurar um advogado, o celbatário deveria procurar um livro: a maioria dos capitães do mato era negra, como registra a famosa gravura de Rugendas. Alguns eram escravos, outros alforriados, incumbidos pelos sinhôs de caçar os fujões e devolvê-los às senzalas. Negros que perseguiam negros. Se a carapuça serviu...

segunda-feira, 18 de junho de 2018

I GOT EXPENSIVE FABRICS

Marquei uma touca monumental com o clipe "This Is America" do Childish Gambino. Quando dei por mim, todo mundo já havia comentado e eu não tinha mais nada a acrescentar. Por isto hoje acordei disposto a fazer logo um post sobre "Apeshit", o vídeo que Jay-Z e Beyoncé gravaram dentro do Louvre. Comecei a fazer o texto e aí pensei: por que não ganhar dinheiro com ele? Então transformei o post na minha coluna de hoje no F5. Quer saber o que eu penso sobre The Carters? Vai lá e paga para ler, bitch. Eu também tenho hábitos caros.

A ROSA DE MOSCOU

Imagine o deus-nos-acuda se, na Copa de 2014, um grupo torcedores croatas tivesse postado na internet um vídeo com uma brasileira gritando "buceta rosa" na língua deles. Pensando bem, talvez não acontecesse nada: desconfio que o machismo dos brasileiros seja mais forte que os brios patriotas. Mas o mundo mudou e a mulherada não deixa mais passar batida uma brincadeira escrota como a que viralizou pelo WhatsApp. Esse tipo de piada é, sim, uma agressão. E os agressores, além de tudo, são burros: esqueceram que, nos tempos que correm, é relativamente fácil identificá-los pelas redes sociais...

domingo, 17 de junho de 2018

MEU NAMORADO DO COLÉGIO ERA GAY


Alguns anos atrás, um site com o título deste post fez muito sucesso. Nele, mulheres adultas postavam fotos da adolescência, abraçando garotos que elas juravam ser seus namorados. Tolinhas: bastava um olhar mais treinado para perceber que os mancebos eram futuras bibas, mesmo que os próprios não soubessem. O site não existe mais e o próprio fenômeno está em extinção, porque os LGBT estão sacando cada vez mais cedo qual é a deles. Antes que ele desapareça, vale a pena ver "Alex Strangelove" na Netflix. Em menos de um ano, é o terceiro longa sobre o aflorar da homossexualidade masculina. Não chega aos pés da obra-prima que é "Me Chame pelo Seu Nome", mas é mais engraçado e emocionante que "Com Amor, Simon", que passou há poucos meses nos cinemas. O Alex do título fica tão amigo de uma garota que os dois viram namorados, mas ela começa a estranhar quando não rola sexo entre os dois. Ele então conhece um rapaz interessante, e as coisas ficam confusas. Sem problemas com os pais nem com os amigos, a vida do protagonista é um pouco fácil demais, mesmo para os padrões de hoje. Mas como seria a minha vida se eu tivesse visto um filme assim nessa idade? Talvez eu não teria tido namoradas.

sábado, 16 de junho de 2018

HOMOSSEXUALIDADE ABSTÊMICA

Minhas timelines estão ardendo desde ontem por causa do voto de castidade de Fernando Holiday, o vereador negro e gay que tem, digamos, uma relação complexa com o fato de ser negro e gay. A bem da verdade, a expressão "homossexualidade abstêmica", que tanto reboliço vem causando, não saiu da boca dele: está na legenda de uma foto e deve ter sido escrita pelo repórter Danilo Thomaz ou algum editor da revista "Época", que nesta semana traz uma matéria sobre os gays de direita. Quem são? Onde vivem? O que comem? Pelo jeito não comem muita gente, já que alguns deles escolheram obedecer à Bíblia e à Igreja Católica. Febo, que ilustra a capa, diz que não se confessa, por causa da incompatibilidade entre sua fé e seu desejo. Não é tão honesto quanto o Fernandinho Feriado que, pelo menos, tenta seguir as regras do clube para fazer parte dele. Não tenho o que opinar sobre sua propalada abstinência: sou totalmente a favor de que cada um faça o que quiser com o próprio corpo, contanto que não prejudique ninguém. Só desconfio que o rapaz pode estar  mentindo para agradar seu eleitorado antediluviano, que não gosta de Queermuseus e similares. Enfim, a reportagem da "Época" é interessante: mostra vários matizes de gays diretistas, de um alucinado que defende o Bolsonazi a um libertário no sentido mais amplo. Estes últimos merecem todo o respeito, pois têm uma posição política que contribui para o debate. A bandeira LGBT foi encampada pela esquerda no Brasil, para o bem e para o mal. Ninguém deveria se espantar com a existência de homossexuais que defendem a iniciativa privada ou a prevalência do indivíduo sobre a comunidade. Mas gay que vota em seu maior inimigo é mesmo caso de internação.

BRILHA BRILHA ESTRELINHA


Eu escolhi esperar. Demorei mais de uma semana para ver "Oito Mulheres e um Segredo" porque meu marido estava viajando, e queríamos ir juntos ao cinema. Ontem finalmente fomos, e saí satisfeito: nada desaponta, mas tampouco surpreende. Escrito e rodado antes da eclosão do movimento "Me Too", o filme não fala em assédio, mas esbanja empoderamento feminino. O único homem que tem alguma relevância no plot aparece mais do que fala, e é usado abertamente como um objeto sexual. A gangue de ladras de joias liderada por Sandra Bullock mistura várias etnias e estilos de atuação, mas tem uma química irresistível. Só que, como acontece nos filmes dessa franquia, nem todo mundo tem espaço para brilhar. Senti que a gloriosa Cate Blanchett está meio desperdiçada, sem uma grande cena que justifique seu cachê. Quem rouba (hehe) o filme é Anne Hathaway, como uma estrelinha de cinema cheia de vontades, mas não tão burrinha como aparenta ser. O plano para surrupiar um colar de diamantes em pleno Met Gala é complicadíssimo e pra lá de improvável, e senti falta de uma reviravolta final que nos tirasse o chão. Talvez seja querer demais: com roupas fabulosas, alguns diálogos ferinos e várias deusas contracenando, "Oito Mulheres e um Segredo" cumpre o que promete. Diversão garantida para um "actressexual" como eu.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

TRANSCONCIS

Incrível como o preconceito e a ignorância vicejam até entre quem mais sofre com eles. O Pedro HMC do canal Põe na Roda vem recebendo uma chuva de críticas e piadinhas imbecis por estar namorando um rapaz trans, o Paulo. OK, vá lá, eu confesso que também me espantei quando soube pela primeira vez que existiam trans gays (pode isso, Arnaldo?), mas já faz um tempão. Só que agora,  depois da Ivana da novela "A Força do Querer", ninguém mais tem desculpa para confundir identidade de gênero com orientação sexual. Quem continua sem entender como é que é isto deve assistir ao vídeo em que Pedro e Paulo, com paciência e bom humor, respondem a perguntas indiscretíssimas de internautas. É natural ter curiosidade sobre este assunto (que de fato é novo), assim como é natural ser transexual e homossexual ao mesmo tempo. Transicionemos todos para a luz.

DELENDA MDB

Ninguém precisa me lembrar nos comentários. Já estou farto de saber que o Ciro Gomes é um coronel pós-moderno, que nem todos os dados que ele cita estão corretos, que ele não condena a ditadura venezuelana com todas as letras. Mas também sei que está cada vez mais difícil não pender para o lado dele. Não que eu o apoie com entusiasmo, mas quem sobrou para ser votado? O Alckmin vai se aliar a tudo que há de mais podre na política brasileira. Marina só diz frases vagas e não sustenta um raciocínio até o fim, mesmo que equivoccado. João Amoedo?? Um liberal que é contra a descriminalização das drogas e a favor do armamento da população? Desculpa, isto não é liberal. Fora que o Cirão está partindo com gosto para cima dos adversários. Chamou o Bolsonazi de fascista despreparado, algo que o Picolé de Chuchu não tem culhão para dizer. E falou que o MDB precisa ser destruído, apenas, e que o Temer vai para a cadeia. Como não amar?

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O TRUMPLER

Aqui está, em quase todo seu esplendor, o vídeo que Donald Trump enviou para Kim Jong-un antes do encontro de ambos, e que também foi exibido à imprensa presente em Singapura. O "quase" se deve às imagens lavadas, já que a Casa Branca não disponibilizou essa pérola na internet. O que vemos acima foi gravado pelo celular de um jornalista. Mas o que importa é o conteúdo, ou a falta dele. Em tom de trailer de blockbuster, o filminho promete um futuro glorioso para a Coreia do Norte se Kim apertar a mão gorda de Trump - caso contrário... Não dá para saber se essa obra-prima da cafonice ajudou a convencer o Supremo Líder. Mas uma coisa é certa: este é o tipo de linguagem que convenceria o próprio Trump.

AHORA ES CUANDO

Não adianta proibir o aborto. A mulher que quiser interromper uma gravidez sempre encontrará um jeito - mas, se o aborto for ilegal, é grande a chance de que esse jeito seja perigoso. Portanto, quem é pró-escolha (a favor do aborto legalizado) também é pró-vida. E quem é contra, na verdade, está assentindo que milhares de mulheres morram todos os anos nas mãos de carniceiros. Simples assim. E foi esta argumentação que fez com que 129 deputados argentinos votassem a favor da legalização do aborto no país em qualquer caso até a 14a. gestação, uma maioria apertada de apenas quatro votos. Os números não mentem: no vizinho Uruguai, onde o aborto já é legal desde 2012, as mulheres não só não morrem mais por causa dele, como o número total de abortos vem caindo. Pois é: se queremos diminuir o número de abortos, legalizá-lo é o melhor caminho. A lei argentina ainda precisa passar pelo Senado, que é majoritariamente conservador, mas a pressão das ruas está sendo grande. Se a legislação for aprovada, a Argentina entrará para o seleto rol das nações mais avançadas: em apenas todas o aborto é legal. Enquanto isto, nesse Bananistão que é o Brasil, não faltam projetos na Câmara para proibir o aborto em qualquer caso, e a maioria da nossa população chucra é contrária à mulher ser dona do próprio corpo. Só que #AhoraEsCuando, como diz o slogan dos pró-escolha na Argentina. Sem aborto legal, a mortandade continua. Simples assim.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

MARRA SÓ NÃO BASTA

Coitadinho do Marrocos. Achou que a Copa de 2026 estava no papo. Era o único candidato, até que surgiu um inimigo imbatível: nada menos do que a América do Norte inteira, unida como se não houvesse muros. E, ainda por cima, brandindo uma infra-estrutura já pronta, sem o risco de atrasos nem de protestos contra os gastos. Por outro lado, bem-feito para o marrento Marrocos. Apesar da proximidade com a Europa e da atmosfera bem mais relaxada do que nos outros países islâmicos, a homossexualidade também é crime por lá. E assim escapamos de uma terceira Copa seguida com perseguição à bicharada. Não que os gângsteres da FIFA estejam muito preocupados com isto. Na verdade, desde que o Brasil deu "pobrema" na Copa de 2014 e na Olimpíada de 2016 que só países do Primeiro Mundo farão eventos desse tipo (o México está entrando de coadjuvante em 2026, com apenas 10 jogos programados). Por aqui, só peladas e olhe lá.

terça-feira, 12 de junho de 2018

O DIA DOS DESAMORADOS


"Custódia" já vem sendo apontado como um forte candidato a representar a França no próximo Oscar. O filme ganhou o prêmio de melhor direção no Festival de Veneza o ano passado, vem tendo boas críticas e está passando no Festival do Cinema Francês; entra em cartaz normal no dia 5 de julho. E é bom avisar: não tem nada de divertido. A história de um ex-casal brigando pela guarda do filho pequeno é contada de um jeito seco e realista, sem atores famosos nem trilha sonora. A princípio, parece ser um daqueles casos onde todo mundo e ninguém tem razão. Mas logo fica claro que o problema é o homem, violento e irascível, e que a mulher está certíssima em se esconder dele. Quem vem de uma família conturbada ou está passando por uma separação deve ficar longe desta porrada cinematográfica. Os demais, prossigam com cuidado.

O DIA DOS NAMORADOS

Eles têm muito a ver um com o outro. Os dois são filhos de pai rico e herdeiros de dinastias poderosas. Querem ser obedecidos cegamente e são dados a destemperos verbais. Também estão acima do peso ideal, e ostentam bizarros cortes de cabelo. Era meio esperado que Kim Jong-un e Donald Trump iniciassem um bromance tão logo trocassem olhares na romântica ilha de Sentosa, já que um é praticamente o espelho do outro. Tá certo que Trump nunca (ou ainda não) mandou matar um membro de sua própria família, mas vamos dar tempo ao tempo. O que eu não sei se podemos dar é crédito ao teatro montado em Singapura: tanto Kim quanto Trump têm vasto histórico de bravatas proferidas e promessas furadas. Enquanto isto, love is in the air, everywhere I look around.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

O PRIMEIRO TONY NINGUÉM ESQUECE

Eu nunca tinha assistido a uma cerimônia inteira de entrega dos Tonys. Quer dizer, continuo sem ter assistido: me confundi com o horário e quando sintonizei no canal Film & Arts, que transmitiu os Tonys pela primeira vez para o Brasil, já havia perdido meia hora. A maior graça do evento são números completos dos musicais indicados, e claro que eu fiquei doente para ver todos - até mesmo "Frozen", que não é exatamente my cup of tea. Meus favoritos foram o sapateado da lula Squidward de "Spongebob Squarepants" (sim, fizeram um musical do Bob Esponja), absolutamente espetacular, e as três atrizes principais de "Summer" cantando "Last Dance" - nada espetacular mas, ei, é o musical da Donna Summer! Além do "fuck Trump" de Robert De Niro, não faltou política nos agradecimentos. Sempre tem muito gay dedicando o troféu ao namorado e neste ano não foi diferente, mas a vitória de "The Band's Visit", com egípcios e israelenses convivendo numa boa, trouxe um pouco de política internacional para a festa. Ainda teve um grupo de garotos sobreviventes do massacre de Parkland cantando "Seasons of Love" tão divinamente que eu achei que eram profissionais. Ah, e por que é que não montam logo a peça do Harry Potter no Brasil? Ele não tem fãs por aqui? Era o jeito, já que não ponho os pés na Boradway há mais de cinco anos e não tenho a menor perspectiva de voltar em breve. Fuck Temer.

(queria ilustrar este post alguns vídeos dos números musicais, mas a porra da CBS não libera no YouTube. Fuck CBS.)

FUCK TRUMP

Cerimônias de premiação são plataformas perfeitas para manifestações políticas. A transmissão é ao vivo, milhões de pessoas estão assistindo e é sempre bom chacoalhar o clima de ação entre amigos com um grito de guerra inesperado. Mesmo assim, em meus mais de 40 anos como espectador dessas festas, eu nunca tinha visto algo tão agressivo como a fala de Roberto De Niro durante a entrega dos prêmios Tony ontem à noite. A plateia do Radio City Music Hall aplaudiu de pé, e ele ainda disse "fuck trump" uma segunda vez. Foi blipado na TV americana, mas claro que todo mundo entendeu o que ele disse. E claro que a internet se dividiu, com gente achando que foi criancice e mais gente ainda xingando junto.  Minha opinião? Xingo também. Até já escrevi artigo defendendo o uso de grosserias de vez em quando, ainda mais quando o alvo é alguém grosseiro como o Malafaia ou o próprio Trump. O presidente dos EUA acaba de protagonizar mais um vexame histórico: saiu esperneando da reunião do G7 e ainda acusou o aliado Justin Trudeau de "desonesto e fraco", só para posar de durão para os imbecis de seu público cativo. Trump chegou ao ponto em que não merece mais o menor respeito, porque ele mesmo não se dá a isto. Seus tuítes impensados, sua arrogância cretina, tudo isso merece ser atacado em praça pública. Um buly só enfia o rabo entre as pernas quando é peitado. Fuck Trump!

domingo, 10 de junho de 2018

TREM MAU

"Comboio de Sal e Açúcar" foi o primeiro filme de Moçambique a concorrer a uma vaga no Oscar. Não conseguiu a indicação, mas merece ser visto pelo simples fato de ser moçambicano: um país com que temos tanta coisa em comum e, no entanto, conhecemos muito mal. O diretor Licínio Azevedo é um brasileiro que mora lá há mais de 40 anos e o roteiro foi baseado em um livro seu, por sua vez inspirado em fatos reais. Durante a longa guerra civil, um trem (comboio, no português de lá e de Portugal) ia de Moçambique ao vizinho Malawi cheio de gente disposta a trocar sal por açúcar, que faltava na antiga colônia lusitana. Junto ia uma escolta de uns 50 soldados, para proteger os passageiros dos ataques dos guerrilheiros da outra facção. Mas quem precisa de inimigos, quando os próprios soldados violavam as mulheres a bordo e roubavam as cargas de sal? Ou seja, uma puta barra, e também uma metáfora das divisões internas que quase destruíram Moçambique. Pena que o filme fique aquém do que poderia ser por causa dos diálogos cheios de discursos embutidos, que tampouco ajudam os atores. Mesmo assim, interessados na África e na lusofonia vão gostar de ver.

O NOVO APARTHEID

Na quinta-feira passada, o Itamaraty disponibilizou na rede o "Guia Consular do Torcedor Brasileiro", que pode ser lido ou baixado daqui. Trata-se de um documento de 138 páginas com dicas para quem vai à Copa da Rússia. Algumas são até bem óbvias, mas necessárias quando se lembra que esse tipo de evento constuma atrair gente que nunca viajou na vida. Mas o que chamou a atenção da nossa imprensa foi o parágrafo ao lado, que pede para a bicharada segurar a onda em um país onde a homofobia é uma política oficial do Estado. É quase que um aviso de que só os discretos e fora do meio serão bem-vindos, como bem me apontou o Pedro HMC. Só que o perigo é para valer, e não vem só da polícia: vem também das milícias nacionalistas, que prometem chicotear as bibas afetuosas, ou até coisa pior. O maior absurdo disso tudo é a FIFA ter escolhido a Rússia para sediar a Copa. Isto não teria acontecido na África do Sul nos tempos do apartheid, por exemplo. E é desalentador pensar que a Copa de 2022 será no Qatar, um país ainda mais retrógrado. Só que os cartolas não estão nem aí: como vêm provando as investigações, quase todos eles, no Brasil e no mundo, foram corrompidos pela grana que países e corporações lhes jogam na cara. Aí surge o dilema: um gay deve boicotar a Rússia? A Copa do Mundo, como um todo? Os patrocinadores da Copa, como a Coca-Cola, que se diz tão moderninha? Não são perguntas fáceis, mas que precisam ser feitas.

sábado, 9 de junho de 2018

O VINGADOR MASCARADO


"Nos Vemos no Paraíso" foi o segundo filme francês mais premiado de 2017, só perdendo para "120 Batimentos por Minuto". O curioso é que ambos têm um mesmo ator: o argentino Nahuel Pérez Biscayart, que está muito em moda na Europa. Aqui ele faz um soldado que perde a mandíbula em uma batalha no finzinho da 1a. Guerra Mundial. Passa a usar uma máscara, mas não quer que a família o veja assim. Então falseia a própria morte, a primeira de uma série de vigarices. Baseado em um romance de sucesso, "Nos Vemos no Paraíso" é quase um novelão, com um vilão muito malvado e um pouco de coincidências demais. Mas é uma delícia de ser ver, pois também tem cenários e figurinos suntuosos, excelentes atores e ótimos movimento de câmera. Cinemão de encher os olhos, e pelo menos parte da alma.