segunda-feira, 29 de novembro de 2021

A NOIVINHA DO ARISTIDES

Biroliro gosta de ostentar seu talento como estadista e expor sua visão sobre o Brasil bancando o boneco de posto de beira de estrada, acenando para os motoristas. Mas foi-se o tempo em que o Despreparado só ouvia elogios. Uma mulher que passava em frente à AMAN, em Resende, gritou "noivinha do Aristides" para o Edaír, e ele ficou tão possesso que mandou prender a dita cuja. Esse arroubo de autoritarismo terá uma única consequência: agora o país inteiro sabe da existência do Aristides, instrutor de judô nas Agulhas Negras na época em que o Bozo estudou lá. Segundo o finado senador Jarbas Passarinho, os dois eram mais do que amigos, hohoho. Então, atenção pessoal: é proibido chamar a Noivinha do Aristides de Noivinha do Aristides, porque ela fica bravinha.

domingo, 28 de novembro de 2021

FATHER, SON AND THE HOUSE OF GUCCI

O problema central de "Casa Gucci" é que a história que está sendo contada é uma tragédia, mas o filme se vende como uma comédia. Todos os personagens se dão mal - no entanto, o que os inúmeros trailers mostram são cenários luxuosos, figurinos deslumbrantes e sotaques italianados que nem uma novela das sete tem mais coragem de fazer. No epicentro dessa bagunça está Lady Gaga, com um overacting tão glorioso que merece sua  segunda indicação ao Oscar de melhor atriz. Mas Ridley Scott, especialista em grade épicos com muita ação, talvez não fosse o nome mais indicado para essa sátira social que termina em crime. Ryan Murphy, talvez? Também faltou alguém para cortar meia hora das duas e meia de duração. Mesmo assim, eu me diverti muito. Com locações em Nova York, no lago de Como e em Milão (inclusive na Villa Necchi Campiglio, que apareceu em "Io Sono l'Amore"), "Casa Gucci" é um passeio delicioso por alguns dos lugares mais luxuosos do mundo. A trilha sonora, com muitos hits de Donna Summer, Eurythmics e Blondie, também é divertida, mas por que não puseram mais músicas italianas para dar clima? Além dos homens que ilustram o pôster, o elenco ainda conta com duas mulheres de peso. Uma delas é Camille Cottin, da série "Dix pour Cent", mais linda do que nunca com os cabelos louros a lhe emoldurar o narigão. A outra é Salma Hayek, na vida real a senhora François-Henri Pinault, CEO da holding Kering - que, entre várias outras marcas de luxo, também controla a Gucci. Será que rolou pistolão?

sábado, 27 de novembro de 2021

MANDE ENTRAR OS PALHAÇOS

Semana passada assistimos ao ótimo "tick, tick... BOOM!" na Netflix, e um dos personagens da cinebiografia de Jonathan Larson é Stephen Sondheim, que se tornou uma espécie de mentor do jovem compositor. Comentei com meu marido: "que ironia da vida, o Larson morreu tão moço, aos 36 anos, e o Sondheim está aí até hoje, aos 91".  Não deu outra. As parcas me ouviram, e ontem levaram Sondheim embora. Pelo menos foi uma morte súbita, sem sofrimento. Na quinta ele até recebeu amigos para um almoço de Thanksgiving. E tinha mais é que dar graças mesmo, pois teve uma vida gloriosa. Stephen Sondheim é, possivelmente, o nome mais importante da Broadway de todos os tempos, com uma carreira que abrangeu sete décadas. Começou como letrista de clássicos como "Gipsy" e "West Side Story", mas não tardou a assinar também a música e o libreto. E compôs inúmeros hits que ganharam vida própria. Mesmo que você não esteja ligando o nome à p'ssoa, aposto que conhece vários. Cata só:
Mesmo sendo fanático por musicais, não vi muitos espetáculos de Sondheim no palco. Assisti a uma remontagem de "Follies" em Londres, em 1988, "Into the Woods" em Nova York em 1989, e depois versões brasileiras de "Gipsy", "West Side Story" e "Company". Das suas obras mais tardias, de uma sofisticação ímpar, só vi "Sweeney Todd" no cinema. Perdi "Sunday in the Park with George", "Passion" e "Assassins". Essas duas últimas são de espantar tutistas: a primeira é sobre crimes passionais, a outra é sobre assasinos de presidentes. Brrr.
Minha favorita é "Losing My Mind" na voz de Liza Minnelli com produção dos Pet Shop Boys - a mistura mais bicha da história da humanidade.
E ainda tem "Sooner or Later", vencedora do Oscar de melhor canção em 1991, pelo filme "Dick Tracy". O vídeo acima traz o único momento na vida em que você vai ver Madonna nervosa. Repare como a mãozinha dela treme, na altura do 1:50! Cantar Sondheim é mesmo uma enorme responsabilidade, pois suas músicas são teatro puro. Ele nunca precisou "send in the clowns", como diz o título desse post. Uma gíria do meio, que significa tentar salvar uma peça fracassada com palhaços.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

MINEIRIM SAFADO

É muito fácil ter ódio do Arthur Lira. O presidente da Câmara ostenta aquele sorrisinho seboso de quem sabe que pode cometer as maiores falcatruas, pois dificilmente será punido. De quem tem o Despreparado na mão, mas não usa esse poder para o bem: só em causa própria, hahahaha. Rodrigo Pacheco é outra história. Vozinha macia, sotaquim mineirim, carinha de quem apanhou muito no recreio do colégio mas hoje está bem de vida. Critica o Edaír com muito mais frequência do que seu colega alagoano, e várias vezes soa como uma pessoa sensata. Esse jeitinho manso fez com que Gilberto Kassab pensasse em Pacheco como candidato à Presidência pelo PSD, na certeza de que tudo o que o Brasil deseja agora é um presidente que nos dê soninho. Mas não deixe tanta candura te enganar: Pacheco é tão do Centrão quanto Lira, Nogueira, Valdemar e toda aquela cáterva que mama nas tetas do Erário. Não só endossou a recusa do Congresso em revelar os nomes dos parlamentares que receberam verbas do orçamento secreto, desobedecendo a uma ordem do STF, como ainda marcou um café com Rosa Weber para ver se hipnotiza com seu charme a ministra mais durona de todos. Rodrigo Pacheco não presta, é farinha do mesmo saco de onde saíram Eduardo Cunha e outros vermes. O que me consola é que suas chances de chegar ao Planalto são menores do que zero.

FAXINA DA PRÓPRIA VIDA

"Maid" estreou na Netflix no começo de outubro, mas só agora eu juntei coragem para assistir à minissérie. Li que a protagonista passa por mil desgraças, e desgraça não é exatamente o que preciso para me distrai neste momento. Mas o meu interesse por Margaret Qualley falou mais alto. Se antes eu já achava graça na filha da Andie MacDowell, agora estou jogado aos seus pés, eu sou mesmo exagerado. O fato é que tanto ela quanto a mãe, que também participa da minissérie, estão ótimas - e Margaret já ostenta um talento que Andie, que era apenas uma modelo quando começou no cinema, demorou anos para desenvolver. Dito isso, "Maid" é mesmo barra pesada. A protagonista Alex é uma jovem de 25 anos que adiou o sonho de ir para a faculdade porque teve uma filha com o namorado, um sujeito instável dado a bebedeiras e violência doméstica. Ela foge de casa com a menina logo no primeiro episódio, mas sua via-crucis está apenas começando. Tudo o que pode dar errado dá, fragorosamente, e ela termina esse capítulo com uma dívida enorme e dormindo no chão de uma estação de balsas, porque não tem a quem recorrer. A mãe é bipolar, totalmente irresponsável e vive no mundo da lua; o pai constituiu nova família e não quer muito contato com ela. Daí em diante é uma sucessão de idas e vindas, com pequenos sucessos se alternando com enormes problemas. Alex demora para entender que, além de fazer faxina na casa dos outros, também precisa limpar a própria vida, se livrando dos relacionamentos tóxicos que a impedem de ir para a frente. Bem escrita, bem dirigida e bem atuada, "Maid" é uma das melhores séries do ano.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

FAKE NEWS NO SÉCULO 19

Ontem teve pré-estreia do Festival Varilux do Cinema Francês, e os convidados podiam optar entre quatro filmes qual queriam ver. Meu marido e eu vimos todos os trailers, e fizemos a escolha certa: "Ilusões Perdidas", uma adaptação suntuosa do romance de Honoré de Balzac dirigida por Xavier Giannoli. Além do elenco estelar (que inclui Xavier Dolan e Gérard Depardieu) e do visual épatant, o roteiro trata de um assunto que não poderia ser mais atual: as fake news. A diferença é que os jornalecos do século 19 eram abertamente corruptos. Podia-se comprar uma crítica positiva ou negativa, ou plantar mentiras sobre um rival político. É nesse millieu que chega um jovem provinciano com pretensões literárias. Sem conseguir publicar seu livrinho de poesias, ele acaba trabalhando para um desses pasquins, deixando-se seduzir por um mundo de aparências e tapeações. O protagonista é vivido pelo lindinho Benjamin Voisin, de "Verão 85", que nos brindou com sua presença na sala. "Ilusões Perdidas" é cinemão da mais alta qualidade, e ainda vai passar várias vezes no festival. Depois, entra em cartaz. À ne pas manquer.

LONDON CALLING

O trailer de "Noite Passada em Soho" faz crer que se trata do filme mais bacana de todos os tempos. A Londres de hoje! A Londres dos anos 60! Musiquinhas iradas e figurinos sensacionais, e de repente... terror!! Tudo isso está de fato no longa de Edgar Wright, mas o resultado final fica aquém da expectativa. O roteiro não está à altura da produção requintada e do elenco fenomenal. A premissa é curiosa: uma jovem estudante de moda vinda do interior aluga um quarto na capital britânica, e começa a ter estranha visões. Ela é transportada para a Swingin' London de 1967, e meio que vive as mesmas experiências de uma outra garota, recém-chegada como ela. Thomasin McKenzie, revelada em "Jojo Rabbit", está ótima como protagonista, mas é Anya Taylor-Joy quem rouba todas as cenas em que aparece. Taí uma estrela de cinema de verdade, com uma longa carreira pela frente. Voltando ao filme: o que parecia pura diversão logo é contaminado por prostituição forçada e uma série de crimes sangrentos, e daí em diante nada mais faz muito sentido. "Noite Passada..." vale pelo visual estonteante e pela trilha sonora, e só.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

BECAUSE YOU DON'T KNOW WHAT IT MEANS TO ME

Ontem eu falei da importância do Ney Matogrosso para mim, mas existe uma pessoa ainda mais fundamental na minha vida. Ou existiu: hoje se completam exatos 30 anos que morreu Freddie Mercury, o maior vocalista de rock de todos os tempos. Eu o conheci no final de 1974, através de um amigo que comprava discos importados. Ele me emprestou o "Queen II", com aquela luxuosa capa desdobrável em preto e branco, e eu fiquei acachapado. Nunca tinha escutado uma voz tão bonita quanto a de Freddie (e nem escutei até hoje). Poucos meses depois, já em 1975, chegou "Sheer Heart Attack", o terceiro disco do Queen, e eu fui fisgado para sempre. Importante ressaltar que o Freddie do meu altar particular é o dos anos 70, de cabelo comprido, unhas pretas na mão esquerda e figurinos de Zandra Rhodes. A versão dos anos 80, de cabelo curtinho e bigodão, nunca fez a minha cabeça.

Freddie era um role model para mim. Apesar de jamais ter se assumido gay, era óbvio que ele era - até mesmo para um virgem inexperiente como eu. Sua autoestima transbordava. Além de saber-se talentosíssimo, ele fazia o queria da vida. Tinha atitude, bom gosto e senso de humor. Tudo o que eu queria ter também.

No final dos anos 80, começaram a circular rumores de que Freddie estava com AIDS. A coisa ficou óbvia quando o álbum "Innuendo" (insinuação) foi lançado no começo de 1991. Muitas letras anteviam um fim próximo, nenhuma mais do que "The Show Must Go On". Por isto não foi uma supresa total quando chegou a notícia de sua morte, no dia 24 de novembro. Freddie sofreu muito, como depois li nas várias biografias. Mas deixou um legado imenso, e hoje tem fãs que nem eram nascidos quando ele morreu. Em mim, deixou marcas indeléveis. Convivemos por apenas 17 anos, mas tive a oportunidade de vê-lo três vezes em cena (duas no Morumbi, em 1981, e uma no Rock in Rio de 85). Lamento não tê-lo conhecido pessoalmente: será que ficaríamos amigos? Ou talvez seja melhor assim. Ídolo é ídolo, não é para dar rolé junto. De qualquer maneira, Freddie segue comigo, onde quer que eu vá.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

AMIGUINHOS DE DITADURAS

Em 2010, Lula flertou com a ideia de se candidatar a um terceiro mandato consecutivo, e citou a primeira-ministra alemã Angela Merkel. "Se ela pode ficar tanto tempo no poder, por que eu não posso?" Porque a Alemanha adota o regime parlamentarista e o Brasil, o presidencialista. Lula sabe disso muito bem, é claro, mas neste fim de semana se fez de sonso outra vez. Durante uma entrevista ao jornal espanhol "El País", o ex-presidente teve o desplante de comparar Daniel Ortega com Merkel - só para levar uma invertida da repórter, que apontou que a alemã nunca mandou prender nenhum adversário.

Não deu dois dias e foi a vez de Dilma Rousseff se levantar da tumba e cometer uma burrada parecida. No lançamento de um livro sobre a China, a presidenta incompetenta disse que a ditadura chinesa, que executa dissidentes com um tiro na nuca, é "uma luz diante da decadência ocidental". Dilma nunca escondeu que adora um estado "forte", que intervenha pra valer na economia, e não mudou de ideia mesmo depois de ter provocado recessão e desemprego. Agora, defender a China a menos de um ano da eleição, é tão estúpido quanto apoiar a Nicarágua. Ela e Lula forneceram farta munição para seus inimigos, que explorarão ao máximo essas incoerências. Nem o Alckmin como vice vai adiantar, se o PT não parar agora de elogiar ditadores.

MINHA VIDA, MEUS MORTOS, MEUS CAMINHOS TORTOS

Já contei aqui no blog várias vezes, mas vou repetir de novo. Eu tinha 13 anos de idade quando Ney Matogrosso explodiu na cultura brasileira, como vocalista dos Secos & Molhados. Mal consigo descrever o impacto que aquela figura estranha, não-binária antes do termo existir, causou no adolescente que eu era. Nas cinco décadas seguintes, eu me aproximei e me afastei do Ney seguidas vezes. Houve épocas em que eu comprava todos os discos, outras em que esquecia de sua existência. Mas em 2009 a Folha me escalou para cobrir o show "Beijo Bandido", e eu me rendi novamente. Ney voltou com tudo para a minha vida. Por tudo isto, foi com enorme prazer que eu li "Ney Matogrosso - a Biografia", do jornalista Julio Maria. A narrativa começa antes mesmo do nascimento do cantor, explicando sua família e o cenário quase de faroeste em que ele se criou. Há muita ênfase nos Secos & Molhados, que no final duraram apenas três anos, e capítulos inteiros dedicados a cada álbum/show (os dois sempre vinham juntos) até 1990. Aí a história fica tristíssima. Ney perde, em pouco tempo, o namorado Marco, o ex-namorado Cazuza e o amigo Rafael Rabello, violonista que o acompanhou muitas vezes. Os últimos 30 anos ganham apenas as últimas páginas do volume, sem maiores detalhes da vida pessoal - até porque talvez eles não existam. Ney meio que sossegou o facho, apesar do nude que ele mesmo vazou há poucos meses. Também deve ser imortal. Aos 80 anos, tem o corpo de um homem de 55, e sua mãe ainda está viva! Dona Beíta faz 100 no ano que vem. Seu corpo fechado fez com que ele jamais fosse contaminado pelo HIV, apesar de uma vida de saliências. No ano passado, Ney testou positivo para o novo coronavírus, mas como é feito de aço inoxidável, não apresentou nenhum sintoma da Covid. Vai nos enterrar a todos.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

QUE DROGA DE INFÂNCIA

Deve ser horrível morar num país em que o narcotráfico domina vastos territórios, com poder de vida e morte sobre a população. O México vive há décadas esse drama, que volta e meia rende assunto para o filme que o país envia ao Oscar. É o caso de "A Noite do Fogo", uma coprodução com o Brasil, também premiada na mostra "Un Certain Regard" do Festival de Cannes. O longa de Tatiana Huezo acompanha a vida de uma garota do interior do estado de Guerrero em dois momentos: a infância, quando sua mãe a ensina a se esconder em uma cova para escapar dos traficantes, e a adolescência, quando eles aparecem para "confiscá-la". Mesmo nesse clima de terror constante, a menina consegue brincar com as amiguinhas e mais tarde se engraçar para o primeiro namorado. Não cheguei a vibrar, mas também não desgostei. No entanto, saí do cinema preocupado. Nos créditos finais, aparece que a preparadora do elenco foi a Fátima Toledo. Será que os atores apanharam muito?

A INCONSCIENTE BRANCA

Como é que alguém ainda posta, em pleno ano da graça de 2021, o vídeo do Morgan Freeman criticando o Mês da Consciênca Negra? O próprio ator já voltou atrás. É preciso ser muito burro para propor o "Dia da Consciência Branca", mas Regina Duarte já deu repetidas provas de sua limitada capacidade mental. A ex-atriz que encarnou Malu Mulher não aprendeu nada com sua personagem feminista, e seu arcabouço mental está tão preso aos anos 50 que ela acha normal ser humilhada por um homem. O simples fato de Regina continuar apoiando o Biroliro depois de tudo que ele fez com ela mostra sua falta de autoestima. Como se não bastasse, ela continua questionando a eficácia das vacinas, mesmo com o número de mortes e internações caindo por todo o Brasil. Regina Duarte segue a cartilha da extrema-direita, que não é propor soluções para os problemas, e sim negar a existência deles. Uma burrice colossal, que espalha morte e sofrimento e só serve para manter uma quadrilha no poder. Além de destruir carreiras consagradas.

domingo, 21 de novembro de 2021

O BIROLIRO DO CHILE

O que o mundo menos precisa neste momento é de mais um líder de extrema-direita. Infelizmente, José Antonio Kast foi o mais votado no primeiro turno das eleições presidenciais chilenas, e periga vencer o segundo turno se as forças democráticas não se unirem em torno do esquerdista Gabriel Boric. Como é que pode, um país que sofreu horrores durante a sangrenta ditadura de Pinochet eleger um cara que defende essa mesma ditadura? Só que nenhum regime dura tanto tempo - foram 17 anos - se não tiver apoio de uma fatia considerável da sociedade. E as forças que apoiaram Pinochet acordaram de sua hibernação depois que o Chile foi sacudido por uma onda de protestos que levou à convocação de uma Constituinte. É uma reação ao avanço dos progressistas, como nos outros lugares do mundo em que a extrema-direita chegou ao poder. Kast tem propostas parecidas com as do Biroliro, sem ser grosseiro como o quadrúpede que nos governa. Que os eleitores de lá vejam o que aconteceu por aqui, e tomem a decisão correta em 19 de dezembro.

sábado, 20 de novembro de 2021

ANTES DA EXPLOSÃO

Parece que Jonathan Larson sabia que tinha pouco tempo. Prestes a completar 30 anos e AINDA sem ter feito seu próprio musical na Boradway (Stephen Sondheim fez o dele aos 27), o futuro autor de "Rent" deu para escutar uma bomba-relógio. A cada segundo, a explosão estava mais próxima. Larson então escreveu um show autobiográfico chamado "tick, tick... BOOM!", onde cantava as agruras de ser um compositor talentoso preso a um emprego numa lanchonete. Esse show temcenas recriadas no filme do mesmo nome, que acaba de estrear na Netflix. É a estreia na direção do multi-talentoso Lin-Manuel Miranda, criador de "In the Heights" e "Hamilton". Também é a oportunidade para o ex-Homem-Aranha Andrew Garfield mostrar que sabe cantar e dançar (vem uma indicação ao Oscar por aí). "tico, tico... BOOM!" é um jorro de energia e um hino de amor ao teatro musical. Apreciadores do gênero irão se deleitar. Mas não vá esperando nenhuma música de "Rent".  A história acaba antes de entrar em cartaz o espetáculo que mudou a história da Broadway. Mas imagens de arquivo e letreiros contam o que aconteceu: Larson morreu de aneurisma no dia da pré-estreia, aos 36 anos. O coração dele explodiu.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

A MARÍLIA MENDONÇA DOS INGLESES

Foi preciso Marília Mendonça morrer para eu me dar conta das semelhanças dela com Adele. Duas mulheres com vozeirão, que compõem músicas cheias de dor de cotovelo e sofrência. Ambas com corpos fora do padrão e longos cabelos alourados. Duas campeãs de vendas em seus respectivos idiomas. Só faltou Marília plagiar uma música do Martinho da Vila. O sambista carioca também não aparece em "30", o quarto álbum de Adele e o primeiro em seis anos. Pelo título, a maioria das faixas foi escrita três anos atrás; a cantora já está com 33 anos. "Easy On Me", o primeiro single, me fez temer pelo pior: mais uma sessão de choradeira, para se ouvir comendo sorvete direto do pote. Mas "30" é, de longe, o trabalho mais variado de Adele, e também o melhor. Ela não chega a se aventurar pela dance music, mas há muita animação nos ritmos e um certo otimismo nas letras. Adele se separou do marido, teve um filho e virou uma adulta propriamente dita. Tudo isso transparece, com arranjos criativos e impecáveis. A voz dela também nunca esteve tão precisa, mesclando drama e galhofa em doses exatas. Como Marília e Martinho, Adele também é chegada num copo. Como seria maravilhoso reuni-los todos ao redor de uma mesa de bar.

OVERDOSE DE DIREÇÃO DE ARTE

Muitos críticos estão dizendo que Wes Anderson passou do ponto com "A Crônica Francesa". Que o novo longa do diretor sucumbe ao peso dos maneirismos e da direção de arte levada ao extremo. De fato, é tanta informação visual na tela que lá pela metade eu já estava enjoado. Mas este excesso só incomoda para valer quando o roteiro escorrega. Como todo filme episódico, alguns episódios são melhores que os outros. Aqui são só três, e o segundo realmente deixa a desejar - isto, apesar da presença de meu adorado Timothée Chalamet. O trio de histórias é baseado em casos reais vividos por escritores da revista "New Yorker", mas com aquela dose de exagero que só Wes Anderson é capaz de dar. O elenco tem tantas estrelas que basta piscar o olho para perder alguém (foi só nos créditos que eu percebi que Cécile de France faz a mãe do Timothée). Quase toda a ação se passa na fictícia cidade francesa de Ennui-sur-Blasé, um nome tão pretensioso que nem chega a ser engraçado, mas é uma Paris mal disfarçada. Há muitos momentos divertidíssimos, mas o que pretendem emocionar não conseguem justamente por causa da overdose imagética. "A Crônica Francesa" é o equivalente cinematográfico a um banquete só de macarons. Hélas.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

LEITE ESTRAGADO

Queria muito votar num candidato moderno, carismático, de ideias arrojadas. Se ele ainda por cima fosse gay assumido, então, era sopa no mel. Infelizmente, Eduardo Leite não é esse candidato. O jovem governador do Rio Grande do Sul, que despontou como uma das poucas novidades da próxima corrida presidencial, enterrou de vez suas chances comigo ao admitir que telefonou para João Doria, a pedido do general Ramos, para convencer o governador paulista a adiar o início da vacinação. Alguém que, a essa altura do campeonato, ainda age para não deixar o desgoverno Biroliro sair mal na foto não merece o meu voto. Leite estragado a gente joga fora.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

OS OVOS DE CLEÓPATRA

Dificilmente eu iria assistir "Alerta Vermelho" no cinema. Como o filme está dando sopa na Netflix e ostenta o título de produção mais cara de todos os tempos da plataforma, consegui vê-lo sem sair da minha chaise longe. E me diverti muito! Agora eu sei para onde foram todas as piadas que deveriam estar nos filmes de James Bond do Daniel Craig. Dito assim, parece que o roteiro é genial, mas tem bobagens colossais. A começar pelos ovos de Cleópatra, relíquias da antiguidade disputadas por dois ladrões de obras de arte. A produção sequer tomou o cuidado para deixar esses objetos com cara de terem sido feitos no Egito ptolemaico. Pra quê, não é mesmo? O público-alvo não ia perceber mesmo. Mas a falta de verossimilhança é compensada pelas locações espetaculares (algumas criadas em computador) e pela quase-química do trio de protagonistas, Dwayne Johnson, Ryan Reynolds e Gal Gadot. As sequências de luta também são de doer no espectador, e adorei o fato de ninguém morrer. Ufa, ainda bem que acabei esse post, pois já estou esquecendo do filme.

JOVEM KLAN NEWS

Outro dia me perguntaram o que eu estava achando do canal de TV Jovem Pan News, e eu respondi: não assisto nem por dever profissional. Com raríssimas excecões, aquilo lá é uma cambada de velhos matusquelas e ignorantes perniciosos, que defendem as pautas mais retrógradas com os argumentos mais furados. Mas a JP News dá sempre um jeito de chegar até mim. Desde que foi inaugurado duas semanas atrás, o canal vem sendo notícia toda vez que algum de seus asnos comentaristas zurra mais alto do que de costume. Ontem talvez tenha zurrado alto demais: José Carlos Bernardi, birolista de carteirinha, sugeriu que a Alemanha é rica porque confiscou as fortunas dos judeus "no pós-guerra". O confisco aconteceu mesmo, só que antes, e de nenhuma maneira pode ser apontado como a causa da riqueza do país. Bernardi ainda sugeriu que o Brasil deveria fazer algo parecido... Como as entidades judaicas têm mais poder e influência por aqui do que quaisquer outras que defendam minorias, a emissora e o próprio Bernardi correram a pedir desculpas. O sujeito ainda apelou para o desgastado "fui mal-entendido", quando deveria simplesmente assumir seus erro. Para mim, de nada adianta. Vou continuar não assistindo. 

 (o trecho em questão pode ser visto a partir da 1:30:00 do vídeo acima)

terça-feira, 16 de novembro de 2021

MONUMENTO AO GADO

"Bull" significa que a Bolsa está em alta. "Bear", que está em baixa. Esses termos do mercado financeiro americano nunca pegaram no Brasil. Isso não impediu que uma corretora "presenteasse" São Paulo com a estátua de um touro dourado, instalada em frente à Bolsa de Valores da cidade. O bicho evoca o bezerro de ouro, cujos adoradores foram fustigados por Moisés depois que o profeta desceu do Monte Sinai com as tábuas dos 10 Mandamentos. Mas é, na verdade, uma cópia mal-ajambrada do touro de Wall Street. Que, aliás, mudou de sentido depois que a estátua de uma menininha corajosa surgiu do dia para a noite diante do bicho. O bovino daqui, como se vê pelo meme acima, também já está sendo ressignificado.

O AMOR VEM PRA CADA UM

Smithers, o assistente do Mr. Burns, deu pinta de gay desde a primeira temporada de "Os Simpsons", de 1989. Os indícios eram muitos, desde sua obsessão por limpeza até sua coleção da boneca Malibu Stacy. O personagem finalmente saiu do armário em 2016, mas continuava assexuado. Sua paixão doentia pelo patrão o fazia ignorar qualquer chance de afogar o ganso. Isso vai mudar no episódio que vai ao ar nos EUA neste domingo. Smithers conhecerá um designer chamado Michael de Graff, e os dois irão namorar. Hurra! A notícia, na verdade, é uma série tão iconoclasta como "Os Simpsons" ter levado 32 anos para incorporar um romance gay em suas tramas. Mas a mensagem é de esperança. Se até o Smithers desencalhou, você também consegue.

(O título desse post é o nome da versão brasileira de "Love Comes to Everyone", do George Harrison, imortalizada por Zizi Possi. Ouça sempre que sentir carente. O clipe foi dirigido pelo senhor meu marido.)

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

A INFÂNCIA DO MAFIOSO

Vou cometer um sacrilégio. Achei esse filme novo dos Sopranos melhor do que muita coisa do Scorsese. Claro que a influência do capo di tutti capi é enorme na série que mudou a história da TV, mas "Os Muitos Santos de Newark" consegue superar, por exemplo, "O Irlandês". Ajuda muito se você tiver visto "Família Soprano" na HBO. O longa é cheio de referências e ovos de páscoa, e resolve alguns mistérios. A ação se passa em 1967, quando Tony Soprano ainda era criança, e 1974, com o futuro mafioso adolescendo e já delinquindo. Mas o personagem principal é seu tio Dickie Moltisanti (daí o título), cujo trato civilizado disfarça uma índole violenta. É ele a verdadeira figura paterna do jovem Tony, cujo pai está na cadeia. O elenco fenomenal traz Vera Farmiga, Leslie Odom Jr. e a italiana Michela de Rossi, uma quase sósia de Penélope Cruz, além de Michael Gandolfini, filho de James, com a versão mais jovem do papel que consagrou seu pai. Devem vir mais filmes por aí, contando o que aconteceu antes da série. Só espero que não venha nenhum que se passe depois. Aquele final perfeito merece continuar em aberto.

VTNC VOCÊ E SEUS FILHOS

Carluxo passou a semana mandando mensagens para o pai, avisando que até entre o gado mais tacanho estava pegando mal essa história de filiação ao PL. Mas o Edaír não está nem aír: se a minonzada engoliu o Queiroz, a saída do Moro e a corrupção no ministério da Saúde, não há de ser um ladravaz de terceira geração como Waldemar da Costa Neto que irá desanimá-los. O chefe da familícia adiou sine die sua adesão a um dos partidos mais enlameados do Centrão por uma razão bem mais prosaica. Ele quer o controle de todos os diretórios, e o compromisso de que os "liberais" (risos) não vão apoiar nos estados ninguém de que ele não goste. Só que aí já é pedir demais. O Centrão sempre apoia quem parece ter mais chances, não quem tem o melhor projeto. O mais divertido é que o relógio está correndo e o Despreparado tem cada vez menos tempo para se juntar a algum partido. Vai acabar topando qualquer coisa, e VTNC. Ele e seus filhos.