quinta-feira, 22 de agosto de 2019

OMODÊUSO

Levei quatro longos meses para ler "Homo Deus", de Yuval Noah Harari. E isto porque o livro já estava lá em casa há quase um ano. E isto porque levei outros dois para comprar, pois me disseram que era "Sapiens' requentado. Não é: na verdade, é um exercício de futurologia fascinante e assustador ao mesmo tempo. Harari diz que o homem está em vias de se tornar um deus - não o Deus onipotente e onisciente das religiões monoteístas, mas uma espécie de deus grego, com poderes limitados e ainda sujeito a paixões. Também falara que somos todos algoritmos, e que o dataísmo - a supremacia do fluxo de dados sobre todo o resto - está emergindo como uma nova fé. É um ótimo livro, que eu demorei para ler porque minha vida está um tumulto e porque troquei o hábito de ler na cama antes de dormir pelo hábito de ficar zapeando o celular na cama antes de dormir. E que o Bozo nem veja a capa. Ele vai achar que estão chamando Jesus de gay.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

TRANS QUE PARECEM TRANS

Enquanto eu assistia ao desfile de modelos trans que encerrará o programa "Born to Fashion", comecei a julgar mentalmente as meninas que encaravam a passarela. "Essa aqui quase parece uma mulher cis, essa outra nem tanto, aquela lá nem a pau...". Aí eu me dei conta de que estava usando um parâmetro antiquado: aquele que diz que, para uma mulher transgênero ser "bem sucedida", ela precisa convencer - ou melhor, tapear - que nasceu com genitália feminina. Ora essa, se hoje eu concordo que ninguém precisa passar por cirurgia de redefinição sexual ou coisa que o valha para ser reconhecido como do gênero a que diz pertencer, por que ainda me prendo tanto às aparências? O mercado ainda prefere modelos trans que passem por mulheres biológicas, como a belíssima Valentina Sampaio. Mas beleza é só um dos quesitos desejáveis numa top model: também contam presença, atitude, desenvoltura. E isso, muitas trans que parecem trans têm de sobra. Não há nada de errado com o corpo de ninguém, portanto não há nada de errado com uma trans que estampe, no rosto e no jeito, aquilo que ela de fato é: uma pessoa mais corajosa que a maioria de nós.

A VERDADE EM CHAMAS

Em 1981, um capitão e um sargento do Exército brasileiro tentaram soltar uma bomba no meio do público que assistia a um show em comemoração do Dia do Trabalho. O objetivo era culpar a esquerda e melar o processo de redemocratização que engatinhava no Brasil de então. Só que o artefato explodiu antes do previsto, quando os dois milicos ainda estavam no carro, matando um deles. Biroliro vem do mesmo porão de quartel de onde saiu o atentado do Riocentro. Faz parte de sua mentalidade cometer um crime para jogar a culpa no que ele vê como adversário. Por isto, não surpreende nada que hoje ele tenha dito que são "as ONGs" quem estão por trás dos incêndios na Amazônia, dos maiores de todos os tempos. Bozo usa "ONG" como se fosse o sinônimo de alguma organização horrenda, tipo... hã... milícia? E acha que é plausível que uma entidade que luta pela preservação da floresta seja capaz de tacar fogo na mesma. A reação internacional a essa barbaridade vai ser enorme, como já está sendo aos próprios incêndios. E bomba armada por Mijair vai estourar em seu colo, como aconteceu com os celerados de há quase 40 anos.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

SE FOR, VÁ NA PAZ

Não é todo ano que que o Brasil tem um filme competitivo internacionalmente. A última vez foi em 2016, com "Aquarius" - que acabou preterido por "Pequeno Segredo" na corrida pelo Oscar. Mas, em 2019, temos dois fortíssimos candidatos: "Bacurau", de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, e "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão", de Karim Aïnouz. Salvo uma zebra das galáxias, um dos dois será escolhido para representar o Brasil na próxima premiação da Academia. A seu favor, "Bacurau" tem justamente a injustiça cometida três anos atrás - além, é claro, do Prêmio do Júri em Cannes, a mais alta honra alcançada pelo cinema nacional naquele festival em décadas. Mas, neste momento, eu apostaria em "Eurídice". Alguns sinais estão no ar. O filme foi comprado pela Amazon, que não costuma brincar em serviço e tem um bom currículo em campanhas por prêmios. Está entre os cinco favoritos do  Film Experience, meu site favorito de previsões para o Oscar. E "Bacurau" já foi selecionado para concorrer pelo Brasil nos prêmios Goya, da Espanha - uma consolação antecipada? O júri da Academia Brasileira de Cinema terá que ponderar as qualidades de cada filme com suas supostas chances. O resultado sai dia 27.

MISS WHITNEY

Um dos prazeres que nos restam nessa Idade das Trevas é ver os luminares da extrema-direita meterem os pés pelas mãos e depois dizerem que não é bem assim. O Biroliro faz isso quase todo dia: primeiro brada que quem manda é ele, depois afina o discurso quando a PF reclama. Hoje foi a vez de Wilson "Whtiney" Witzel - aquele que adora desfilar com uma faixa imaginária de governador, feito miss recém-coroada. Whitney saltou de um helicóptero na Ponte Rio-Niterói comemorando a morte de um bandido como quem celebra um gol. Depois, diante das câmeras, lembrou que finge que é cristão, e lamentou que o desequilibrado que sequestrou um ônibus na manhã de hoje tenha sido alvejado pela polícia. Tomara que ele ainda cometa muitas gafes até 2022 e inviabilize sua candidatura à presidência. da República

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

LA NUIT BRÉSILIENNE

Os meteorologistas ainda estão debatendo o quanto de fuligem das queimadas causou o efeito de "noite americana" - um truque cinematográfico que faz o dia escurecer e rendeu o título de um dos melhores filmes de François Truffaut - na tarde desta segunda em São Paulo. Para mim, a explicação é mais simples: começou oficialmente a Idade das Trevas, povoada de quimeras e crendices.

O PROTETOR-GERAL DA REPÚBLICA

Tenho um misto de dó e raiva de quem votou no Bozo achando que ele combateria a corrupção. Dó porque a intenção era boa. Raiva porque era só prestar atenção nos noticiários para saber, mesmo antes da eleição, que a família estava metida em falcatruas. Mas está ficando mais difícil enganar os trouxas: depois do nepotismo escancarado de indicar o 03 para a embaixada nos EUA, agora o Despreparado ameaça nomear para a Procuradoria-Geral da República um sujeito chamado Antônio Carlos Simões Soares, com pelo menos dois escândalos no currículo: este aqui e este outro. Adivinha como ele chegou lá? Foi por sugestão do advogado de defesa do 01. Ou seja: Biroliro sequer está interessado em implantar uma revolução conservadora ou qualquer coisa que o valha. Só quer mesmo proteger a prole e o próprio mandato, mais nada. Já se fala em rebelião no Ministério Público e também na PF, que vem sofrendo ingerências indevidas do presidente. A briga vai ser boa: os rolos do 01 são simplesmente o ponto fraco do clã, porque, se alguém puxar o fio da meada, vai dar em ligações até com a milícia que matou Marielle. Mijair deve ir pras cabeças, posto que está se mijando.

domingo, 18 de agosto de 2019

PILANTRAGEM RHAPSODY


Os dois filmes começam com o cantor biografado à beira de um ataque de nervos, prestes a entrar em cena. O show que se aproxima será crucial não só para sua carreira, mas para o resto de sua vida. Aí começa um longo flahsback, e o show em questão é retomado na sequência final. A diferença é que, ao contrário do que acontece com Freddie Mercury em "Bohemian Rhapsody", Wilson Simonal dá com os burros n'água: o espetáculo-surpresa com que tentou fazer um comeback em 1975 foi um tremendo fiasco, e sua reabilitação só começou depois de morto  25 anos depois. Isso faz de Simonal uma figura ainda mais trágica que o vocalista do Queen, mas "Simonal" não está à sua altura. Talvez por problemas de orçamento, a cinebiografia do ídolo que levantou multidões nos anos 1960 não dá conta da grandeza de sua popularidade, nem de sua queda livre. Simonal pediu para seus amigos do DOPS darem um susto em um contador que ele suspeitava estar lhe roubando; os meganhas exageraram e torturaram o sujeito, que pôs a boca no mundo. Isso bastou para que colar a pecha de delator a serviço da ditadura no intérprete de besteiras deliciosas como "Mamãe Passou Açúcar em Mim" e "Meu Limão, Meu Limoeiro". Se alguém quiser uma visão muito mais rica dessa história, eu recomendo que procure o documentário "Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei", de 2009. "Simonal", infelizmente, não dá duro o bastante.

sábado, 17 de agosto de 2019

UN'ESTATE ITALIANA


Paolo Virzì é um grande cineasta? Fiquei com esta sensação depois de ver "O Capital Humano", que representou a Itália no Oscar de 2014. Gostei menos de "Loucas de Alegria, seu filme seguinte, e de "Ella e John", sua primeira incursão em língua inglesa. E admito que me desapontei bastante com "Noite Mágica". Acho que me empolguei demais com o trailer, e também fui para o cinema exausto de uma semana puxadíssima. Acabei achando que os atores falam depressa demais, e não mergulhei no imbróglio em que três jovens roteiristas se envolvem com um velho diretor. O lado bom é que tudo se passa em Roma, durante a Copa de 1990. Além da beleza da cidade, a trilha sonora ainda tem "Un'Estate Italiana", o tema do Mundial, composto por Giorgio Moroder (de cuja letra, nclsuvie, saiu o título do longa) e a inacreditável "Cacao Meravigliao", uma bobagem que seria inofensiva se não fosse racista.

RESISTIR ESTÁ NA MODA

Ontem fui assistir ao desfile que encerrará o reality "Born to Fashion", que estreia no canal E! no ano que vem. Trata-se de uma competição à la "Next Top Model", com um diferencial importante: todas as aspirantes a modelo são mulheres trans. O projeto está naquela famigerada lista dos que "não deveriam ser aprovados pela Ancine", junto com as séries "Me Chama de Bruna" (que o Bozo confundiu com o filme "Bruna Surfistinha") e "Dra. Darci" (cuja grande ameaça à família tradicional brasileira é o Tom Cavalcante vestido de mulher). "Born to Fashion" teve sorte. Já estava em produção quando Biroliro anunciou que não haverá mais financiamento público para obras de temática LGBT. Projetos que já estavam aprovados, agora ficarão a ver navios. Claro que isso se chama cen-su-ra.  Pelo menos ainda existem mecanismos estaduais e municipais de fomento às artes. E tem que existir vontade de resistir: se a gente não der força para os filmes e programas viadais , então a familícia já ganhou.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O IDIOTA DE IPANEMA

Biroliro foi chamado publicamente de idiota duas vezes nas últimas 48 horas. Uma foi por seu ex-BFF, o neotucano Alexandre Frota. A outra foi por Christian Ehring, apresentador do programa "Extra-3" da TV alemã, que também o xingou de "Samba-Trump". O Despreparado diz que são nossos embaixadores e o INPE que prejudicam a imagem do Brasil lá fora, mas só os minions mais tapados ainda acreditam nisso. Ao invés de Johnny Bravo, ele está é mais para Johnny Depp.

ENTRANDO NUMA FRIA MAIOR AINDA

O mundo inteiro está dando risada, mas essa ideia do Trump de comprar a Groenlândia para os Estados Unidos tem antecedentes históricos. No começo do século 19, os EUA adquiriram a Louisiana da França, um território muito maior do que o estado atual do mesmo nome. Anos depois, compraram o Alasca da Rússia. A Groenlândia também daria aos EUA um maior controle do oceano Ártico, hoje quase nas mãos dos russos. Além disso, graças ao degelo das capotas polares, daqui a pouco será navegável a mítica Passagem do Noroeste, que liga o Atlântico ao Pacífico pelo norte. Mas será que as 56 mil almas que vivem naquelas paragens topam sair dos sistemas públicos de saúde e educação da Dinamarca e cair sem rede no vale-tudo americano? Claro que não. Elas sabem, assim como nós, que Trump quer mesmo é explorar petróleo e gás natural, e talvez construir um campo de golfe. A Groenlândia que se exploda.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

BERLIM DO PARÁ

A ditadura militar viu florescer Chico Buarque, Caetano Veloso e dezenas de outros cantautores que criticavam o regime em letras censuradas. O governo Biroliro ainda não descambou de vez para o autoritarismo, mas o festival de excrementos emitido pela boca do Despreparado já merecia uma resposta à altura da atual MPB. OK, a vertente queer da nossa música está rija como nunca, com Johnny Hooker, Linn da Quebrada, Liniker, Jaloo e muitxs outrxs rompendo a heteronormatividade. Mas ainda falta um hino para a resistência. À faute de mieux, no momento eu vou de "Padê e Cachaça", que já me viciou. A cantora Crystyany Kettchy é uma paulistana radicada em Berlim, e no clipe só falta índio para ter tudo que os minions abominam. E aí, quem tá a fim de fazer uma festa?

ATUALIZAÇÃO: A própria Crystyany me escreveu para agradecer por este post! Ô glória. Ela também pediu para fazer uma correção: não nasceu no Pará, e sim em São Paulo mesmo, capital. Eu que entendi errado quando li seu perfil no Twitter. Pois ee, eu costumo misturar as coias. Alôka.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

FROTA SEM RUMO?

Alexandre Frota me processou em 2016, por causa desta minha coluna no F5. Ele perdeu em primeira instância e nunca mais recorreu. Mesmo assim, magoei. Jurei que nunca mais tocaria no nome dele aqui no blog, porque o mais terrível castigo para uma subcelebridade é a indiferença. Mas veja só as voltas que a vida dá. Frota foi eleito, como já era esperado, deputado federal pelo PSL de São Paulo. Uma vez empossado, como nunca foi esperado, tornou-se uma das poucas vozes razoavelmente sensatas na bancada do partido da Câmara, e se destacou pela capacidade de articulação política. Também saiu em defesa do cinema brasileiro e, pasme, virou um crítico contumaz do Biroliro e sua prole desqualificada. Foi aí que o caldo entornou. Consta que o próprio Despreperado, com sua grandeza de caráter e infinita capacidade de perdoar, exigiu sua expulsão do PSL. Então Frota se redimiu? Calma lá com esse andor. Na mesma época que me processou, ele também moveu açõs contra outras 10 pessoas, sempre por motivos fúteis - perdeu todas. Desde então, espalhou fake news contra Jean Wyllys, protestou na porta do MAM e continuou se comportando feito um brutamontes da extrema-direita. Foi só depois que entrou para o Congresso que afinou; mesmo assim, há denúncias contra ele de malversação de verbas públicas. Também estaria chateado por não ter conseguido emplacar apaniguados em postos oficiais. Ou seja: não dá para dizer que o Frotinha voltou para o lado claro da Força. E agora, tudo indica que ele vai para o PSDB de João Doria... Mais uma razão para eu nunca mais dar meu voto para os tucanos.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

BONITINHO E EXTRAORDINÁRIO

João Carlos Barroso começou a fazer parte da minha vida muito antes de eu perceber sua presença nas novelas. Só hoje, dia de sua morte, é que eu fiquei sabendo que, quando era ator-mirim, ele dublou a voz do pequeno rei Artur em "A Espada Era a Lei". Apenas o primeiríssimo filme que eu vi no cinema. Também sempre vou lembrar dele por causa da amiga de uma amiga que, nos anos 70, usava um gravadorzinho para capturar sua voz. Naqueles tempos pré-internet, só assim ela conseguia ouvi-lo sempre que quisesse. Barroso nunca se tornou um superstar, mas foi bom em tudo o que fez. E era mesmo uma belezinha, hein?

A PROCURADORA PERDIDA

Como Raquel Dodge é ingênua, meu. A procuradora-geral da República achou que tinha chance de ser reconduzida ao cargo pelo Biroliro. Achou que, uma vez presidente, ele levaria super na boa o fato dela tê-lo denunciado por racismo no ano passado. Esqueceu que o Bozo, além de mesquinho, também é um espertalhão. Ele encheu a tolinha de falsas esperanças, e o que foi que ela lhe deu em troca? Sentou em cima de todos os processos que investigam as falcatruas do Queiroz e demais laranjices cometidas pelo 01. Resultado: esses casos sumiram da mídia, os minions ainda acham que só o PT é corrupto e ela não está mais no páreo para a vaga, cujo próximo ocupante será anunciado em breve. Seja lá quem for, será um extremista de direita, que não deixará ninguém se aproximar dos primeiros-filhos. Ao invés de servir à pátria e fazer esses inquéritos avançarem, a sra. Dodge agiu no interesse da própria carreira. Perdeu o cargo, e também a reputação. Fuén.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

DES GRANDS PETITS MENSONGES

A onda criada por "Thelma e Louise" há quase 30 anos virou um tsunami. Hoje em dia não faltam filmes e séries sobre mulheres que resolvem dar o troco nos homens, um tapa na sociedade e ainda celebrar a sororidade. Um exemplo divertido desse subgênero é a comédia francesa "Rebelles", que ganhou no Brasil o infeliz título de "Mulheres Armadas, Homens na Lata". O começo é sensacional: três funcionárias de uma fábrica de peixe em lata se envolvem na morte acidental de um superior, que tentava estuprar uma delas. Aí elas descobrem que o morto deixou uma fortuna na mala de mão, e ocultam o cadáver... adivinha onde. Daí em diante o filme vira mais policial do que cômico, mas o roteiro ainda reserva algumas boas soluções. Fiquei pensando como seria um remake brasileiro.

CRISTINA KKKKKKKKK

Não sou muito fã de Cristina Kirchner. Sempre a louvarei pela aprovação do casamento gay na Argentina em 2010, mas a senhora K. tem um longo prontuário de corrupção e inépcia. Se bem que hoje eu estou gostando dela, só porque a chapa em que ela é candidata a vice derrotou fragorosamente o favorito do Bozo nas primárias argentinas. Esse favorito, claro, é Mauricio Macri, que tem mil defeitos, mas verdade seja dita: não é um proto-déspota feito o Despreparado. Só que este vem fazendo campanha para aquele, sem ligar para o fato dos argentinos terem uma memória da ditadura muito mais viva e dolorida do que a nossa, e que os milicos de lá nunca recuperaram o prestígio perdido. Mas duvido que Biroliro aprenda a não se meter nas eleições de outro país. Hoje ele já declarou que a Argentina se tornará uma nova Venezuela e o Rio Grande do Sul um novo Roraima, melando de cara qualquer chance de um bom relacionamento com o provável próximo governo do mais importante dos nossos vizinhos. Notícia vai ser quando o Bostonazi conseguir passar mais de 24 sem evacuar pela boca.

domingo, 11 de agosto de 2019

A GRANDE FEIÚRA


Hoje em dia, Silvio Berlusconi é uma carta fora do baralho. Mas dá para perceber que ele foi o precursor da cafajestada na política, abrindo caminho para Trump, Biroliro e tutti quanti. Essa figura histriônica agora recebe um filme-réquiem assinado por ninguém menos do que Paolo Sorrentino, talvez o melhor cineasta italiano em atividade. O ex-primeiro ministro cai como uma luva no estilo do diretor: suas festas cheias de putas ganharam coreografias magistrais, e o envelhecimento é o leit-motiv de toda a obra de Sorrentino. O Berlusconi que aparece em "Silvio e os Outros" é patético, com um sorriso soldado no rosto, que ainda se acha um grande sedutor aos 70 anos de idade. Toni Sevrillo - o mesmo ator de "A Grande Beleza" - se joga na artificialidade do personagem, que é exatamente o contrário do protagonista do filme que deu o Oscar a Sorrentino: um sujeito que realizou façanhas, mas que perdeu a capacidade de sentir o mundo como ele é. Uma feiúra absoluta. O primeiro terço do filme é praticamente um videoclipe, com baladas daquelas que a gente gosta e visuais deslumbrantes, culminando com um caminhão de lixo desviando de um rato e capotando sobre o Forum romano. Quando Berlusconi entra em cena o ritmo ralenta e há um pouco demais de minúcias da política italiana para os leigos. Mas "Loro" - "eles", no título original - ainda não tem data para estrear no Brasil. Por enquanto, pode ser visto na Festa do Cinema Italiano, em cartaz em várias cidades brasileiras, e é muito divertente. Mas dói o coração lembrar que, depois que Mr. Bunga Bunga se aposentou, vieram Matteo Salvini e os neofascistas da Lega Nord. Porca miseria.

sábado, 10 de agosto de 2019

CAÇA AOS POBRES

A Universal Picutres cancelou o lançamento do filme "The Hunt", que deveria estrear em outubro no Brasil. Trata-se de uma versão mais adulta de "Jogos Vorazes": um bando de ricaços captura pobres nos estados americanos que costumam votar nos republicanos, para depois caçá-los como num safari. É uma sátira política, mas não há clima nos EUA para ela depois dos massacres da semana passada. Até aí tudo bem. A coisa muda de figura quando sabemos que Donald Trump, precisando jogar a culpa em alguém, fez campanha contra "The Hunt" no Twitter, acusando Hollywood de racista e divisiva - exatamente os pecados que ele mais comete. O filme, segundo o laranja-mor, estaria jogando o resto da população contra as elites brancas. Isso serve como propaganda positiva para "The Hunt", que agora pode ser visto como uma peça subversiva. Cadê a HBO ou a Netflix para comprar os direitos, e exibir "The Hunt" no mundo inteiro?

DE VOLTA À PRISÃO


Fui a uma festa de lançamento de "Orange is the New Black" em São Paulo, seis anos atrás, e conversei muito com Piper Kerman, a autora do livro e a avatar na vida real da protagonista Piper Chapman. Esse papo me atiçou o interesse pela série, e devorei a primeira temporada. Gostei um pouco menos da segunda e, quando terminei a quarta, decidi que não queria mais ficar naquela penitenciária. Ver TV é viajar um pouco, é ir para outro lugar, e eu preferia ir para Downton Abbey do que continuar na cadeia rodeado de lésbicas problemáticas. Até porque o tom do programa foi mudando: o que era uma comédia no início foi se transformando em um drama pesado, com muito sofrimento e pouca esperança. Também não ajudou o desagradável subplot do comércio de calcinhas sujas: sei lá, é uma coisa minha. Depois li que a quinta e a sexta temporadas eram bem fraquinhas, e não me senti culpado por pulá-las. Mas agora voltei. A sétima e última safra estreou no final de julho, coberta de elogios. Fiquei curioso para saber o destino de algumas daquelas mulheres, e comecei a ver de novo. E não é que eu estou adorando? O nível dos roteiros está altíssimo, as atrizes estão melhores do que nunca. E ainda incorporaram o drama dos campos de concentração para imigrantes ilegais criados pelo ICE, Immigration and Customs Enforcement, que está separando famílias e deportando gente que vive desde bebê nos Estados Unidos. Já sei que alguns personagens vão morrer, outros vão se dar bem, mas por favor não me contem nada. Agora eu quero ficar preso.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

AFROLÉSBICAS


"Rafiki" quer dizer amigo em swahili, uma das línguas mais faladas no leste da África. É o nome do mandril de "O Rei Leão", aquele macaco que ergue o Simba recém-nascido para apresentá-lo aos outros animais (uma cena muito comum na natureza, rs). Também é o título do primeiro filme do Quênia a estrear comercialmente no Brasil. Mas as duas protagonistas são mais do que amigas: são namoradas, em um país onde a homossexualidade é punida com até 14 anos de cadeia. Kena é uma "tomboy" que joga futebol com os garotos, e Ziki faz a linha gatinha, toda trabalhada nos dreads coloridos. Os pais delas são rivais políticos: estão disputando a mesma vaga de vereador. Para piorar, as duas não são muito discretas, e logo todo o bairro fica sabendo que elas colam velcro. Em termos dramáticos, o filme da diretora Wanuri Kahiu é quase simplório. Mas as cores vivas e a música vibrante mostram que estamos na África, que pode ser muito atraente na superfície e bastante atrasada nos costumes. Não acho que "Rafiki" mereça todos os prêmios que recebeu, mas vale pela viagem.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

A PAÇOCA E A CAVEIRA

Uma das boas notícias do dia: essa nova série "Furando a Bolha", produzida pelo portal Quebrando o Tabu. O primeiro vídeo traz dois porta-estandartes da direita e da esquerda, a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP) e o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ). Muita gente imaginou que os dois se engalfinhariam e sairiam rolando pelo chão. Outros tantos não gostaram de vê-los não só se tratando com cortesia, mas encontrando muitos pontos em comum. Fora que é fofo vê-los tirando perguntas de uma caneca da paçoca Amor ou de uma de caveira do Tim Burton. Ninguém mais tem saúde para tanta polarização. Qualquer tentativa de diálogo é mais do que bem-vinda. Quem virá no próximo?

FICÇÃO POLPUDA


Eu estava na festa de um amiguinho do colégio quando ficamos sabendo do assassinato de Sharon Tate. Sim, foi desses acontecimentos horrorosos que fazem a gente se lembrar pra sempre onde estávamos quando soubemos da notícia. Pelo jeito, esse crime que marcou a minha infância também marcou a de Quentin Tarantino. Ele é pedra angular de "Era Uma Vez... em Hollywood", o nono longa-metragem do diretor e quiçá o melhor de todos. Todos os filmes de Tarantino são sobre o cinema, mas este é o único que se passa no mundo do cinema. Mais precisamente, em 1969, quando a velha Hollywood do studio system agonizava, abrindo espaço para uma geração de cineastas rebeldes - entre eles, Roman Polanski, o marido de Sharon Tate. Leonardo Di Caprio nunca esteve melhor do que como Rick Dalton, o astro de fama mediana em fim de carreira, e Brad Pitt nunca esteve tão lindo (aos 56 anos!) como seu dublê e melhor amigo, Cliff Booth. Os dois fazem o que podem para sobreviver em uma indústria em mutação, e se mudam para a casa ao lado da dos Polanski. Não dá para contar mais nada. Só que, ao longo de mais de duas horas e meia, as cenas vão se sucedendo sem um elo forte entre si, mas sempre muito bem realizadas e divertidas. Tarantino tem aqueles momentos em que ele parece deixar a câmera rolar solta, só para ver onde vai dar. Também recheou a trilha de spots e vinhetas de rádio, além da avalnache habitual de referências à cultura pop. Desa vez, homenageou a própria filmografia: há um pouco de artes marciais ("Kill Bill"), nazismo ("Bastardos Inglórios"), faroeste ("Django Livre" e "Os Oito Odiados"), carros à toda ("À Prova de Morte") e muita violência (toda sua obra), mas menos gratuita do que nunca. É uma delícia ver Di Caprio inserido em um filme de Steve McQueen, e rir dos produtos fictícios como a comida de cachorro Wolf's Tooth (nos sabores pássaro, lagarto, rato e racoon) ou os cigarros Red Apple (presentes em todos os filmes de Tarantino). Mais maravilhoso ainda é o desfecho revisionista, uma vingança da arte contra a boçalidade. Ah, e não saia antes dos créditos finais, hein?