quinta-feira, 27 de julho de 2017

BICHA, MELHORE


Johnny Hooker caiu na besteira de atacar Ney Matogrosso justo na semana em que está lançando seu segundo álbum solo. Conseguiu contaminar seu novo trabalho: para mim, é impossível ouvir "Coração" sem pensar no Ney. O que nem é justo, pois, se por um lado Johnny compõe suas próprias músicas, por outro é um cantor bastante limitado. E esses limites ficaram claríssimos neste disco, onde ele sai à luz do dia já na capa. Foi-se o clima noturno, de cabaré enfumaçado, presente em sua estreia dois anos atrás, o impactante "Eu Vou Fazer uma Macumba pra te Amarrar, Maldito!". E entraram outros ritmos, como o tecnobrega paraense e a marchinha de carnaval. Mas essa aparente diversidade só acentua a pobreza da proposta de Hooker. Quase todas as letras destilam ódio a um ex-amor, uma fórmula que já deu o que tinha que dar. Rimas previsíveis, melodias ruins e vocais sofríveis fazem suspeitar que sobra atitude onde falta talento. É um caso parecido com o de Liniker, com quem o pernambucano faz dueto em "Flutua", a primeira faixa de trabalho de "Coração". Os dois aparecem se beijando na foto promocional, mas isto não basta para que a música seja de fato boa. Johnny Hooker ainda precisa melhorar muito para fazer jus à trilha que lhe foi aberta por Ney Matogrosso.

LOURAÇA BELZEBU

Ontem eu só tive cabeça para o Ney Matogrosso, então vou comentar hoje uma notícia que já está velha: o apoio irrestrito que a senadora Gleisi Hoffmann deu ao regime purulento de Nicolás Maduro. A presidente do PT foi ao encontro do Foro de São Paulo em Manágua e disse que o tiranete venezuelano tem "legitimidade", pois foi eleito pelas urnas. Ela esquece que essa legitimidade começou a evaporar quando Maduro passou a não reconhecer o Congresso dominado pela oposição, também eleita pelas urnas. E se esvaiu por completo quando as eleições para os governos estaduais foram canceladas no ano passado, porque o chavismo tem medo de quem as urnas possam eleger. É interessante saber que Lula preferia mais comedimento da parte de sua correligionária, pois ele sabe que as palavras dela poderão ser usadas pelas campanhas dos adversários. Principalmente contra a própria paranaense, que concorre à reeleição em 2018. Enrolada na Lava-Jato e agora fã declarada de uma proto-ditadura, Gleisi Hoffmann pode estar em fim de carreira.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

TEXTÃO MATOGROSSÃO

Perdão se aborreço, mas preciso voltar ao assunto Ney Matogrosso. Já tinha dado por encerrada a mini-treta em que me envolvi com alguns leitores deste blog neste post da semana passada, mas só ontem tomei conhecimento das declarações desastrosas que Johnny Hooker deu sobre um dos maiores ícones brasileiros de todos os tempos. Não, não acho que Ney seja incriticável: nenhum artista está acima do bem e do mal. Mas o que Hooker disse no Facebook é mais um exemplo da arrogância de uma geração que acha que o mundo começou com ela. Também mostra que o pernambucano não é lá muito bom em interpretação de texto - se é que ele leu a já famosa entrevista que Ney deu à Folha até o fim.

Johnny Hooker tomou vergonha na cara e apagou o post. Mas claro que, à essa altura, a internet registrou suas palavras para todo o sempre:

"É inconcebível ler a frase "Que gay o caralho, eu sou um ser humano" no país que mais mata LGBTs do MUNDO (!!).Vinda de um artista cuja carreira em grande parcela se apoiou na bandeira da luta dessa comunidade, de seu próprio público. Um artista genial que perdeu o andar que o mundo tomou, ficou cristalizado, um cânone. O que um dia foi uma das maiores forças libertárias do país hoje se reduz a reproduzir o senso comum do "fora todos". E ainda declara em outra parte "não sou travesti, sou homem, tenho pau e gosto de usá-lo" e só me vêm à cabeça as figuras de Linn da Quebrada e das Bahias, "mulheres de paus", comunicando pro agora e pro depois.  E em tempos de ‘Gay é o caralho’ a única resposta possível é que vai ter gay pra caralho, vai ser gay pra caralho sim, cada dia mais gay, cada dia um level a mais igual Pokémon".

Johnny, QUALQUER lugar onde o Ney esteja vai ter gay pra caralho. Porque Ney já estava rebolando e se assumindo gay muito antes de você nascer. O visual, as letras das músicas, a voz, tudo deixava claríssima a orientação sexual sem que ele precisasse dizer mais nada. Mas ele disse: em 1978, durante o governo Geisel (ou seja, em plena ditadura militar, com a censura bombando), Ney deu uma entrevista histórica à versão brasileira da "Interview", onde se declarava homossexual com todas as letras já na chamada da capa. A revista chegou a ser investigada por incentivar comportamentos desviantes, como se estivesse hoje na Rússia de Putin. Queria muito ver você ter a coragem de fazer o mesmo.

(Em tempo: a foto da "Interview" que ilustra este post foi roubada do Facebook do Mario Mendes, que já colecionava a revista antes de ir trabalhar na própria)

Ney Matogrosso jamais esteve no armário, mas se recusa a ser definido apenas como homossexual. Ele é muito mais do que sua sexualidade - como, aliás, qualquer um de nós. Foi isto o que ele disse à Folha, mas a militância emburrecida que temos hoje achou por bem problematizar um cara que abriu caminhos para ela. Inclusive para Johnny Hooker, que já copiou, inconscientemente ou não, maquiagem e figurinos de Ney. E que também disse nesta entrevista de dois anos atrás que "rejeita rótulos" e que "não existe música gay, existe música de gente".

Encerro este textão com outro, de Nelson Moraes, que já está viralizando:

Estava o Ney Matogrosso em seu camarim, terminando de retocar a maquiagem pro show, quando reparou que o reflexo no espelho apresentava, como direi, movimentos milimetricamente atrasados em relação aos dele próprio. Observou melhor, fez mais alguns gestos, e notou que o gap entre o que ele fazia e o que o reflexo mostrava devagarinho ia se ampliando, até chegar a algo como dois ou três segundos de atraso, o suficiente pra imagem no espelho se configurar como independente. Por fim o Ney sacudiu a cabeça e o reflexo não fez nada, só ficou olhando.
– Você é quem mesmo? – perguntou o Ney.
– Acho que não fomos apresentados – disse o reflexo, saboreando os primeiros respiros de vida própria. – Eu sempre me espelhei em você.
– Reparei – disse o Ney, olhando pro relógio do camarim.
– Você sempre foi um modelo que...
– Escuta – o Ney falou –, o show começa em um minuto. Você podia ir direto ao assunto?
– Claro. Aquilo que você disse.
– O que eu disse?
– “Que gay o caralho. Eu sou um ser humano.”
– Sim. E…?
– Olha – e aqui o reflexo tentou uma leve sacudida de cabeça, como se o atraso na imitação mostrasse que ele é quem ditava o ritmo. – Você tem que pedir desculpas por aquela frase. Pegou muito mal, e nós, que transgredimos a…
– Sabe qual é o problema do mundo? – falou o Ney, já se levantando.
– Não.
– Reflexo que não tem espelho em casa. Te enxerga.

terça-feira, 25 de julho de 2017

FOFINHOS EM PARIS


Uma amiga minha viu "Perdidos em Paris" e disse que era de rir alto. O filme nem estava na minha lista, mas lá fui eu. Descobri tarde demais que é dirigido por Fiona Gordon e Dominique Abel, de quem eu assisti "Rumba" alguns anos atrás - e do qual não gostei muito. O estilo do casal remete ao humor visual de Jacques Tati, e é preciso embarcar no clima "quirky" desde o primeiro minuto. Não foi o meu caso, e em vários momentos o excesso de fofura me irritou. Pelo menos tem a grande Emmanuelle Riva (indicada ao Oscar por "Amor" em 2013) num de seus últimos papéis. E, de qualquer forma, é sempre bom rever Paris.

O CONSENSO DE WASHINGTON

Cada vez mais, a circulação de notícias e não-notícias pelas redes sociais se assemelha àquela fábula indiana dos cegos tocando num elefante: cada um entende o que estiver mais à mão. A entrevista que Washington Olivetto deu ao site da BBC Brasil é um exemplo cristalino disso. A manchete "Empoderamento feminino é um clichê" foi interpretada de maneiras opostas à direita e à esquerda. Teve gente que achou que o publicitário estava "desmascarando" o feminismo; teve gente que achou que ele estava denegrindo as mulheres. Não, galera, Washington só estava dizendo que o USO do empoderamento feminino pela propaganda resvala, muitas vezes, no clichê (e não só ele, é claro). Que preguiça de ler uma matéria até o fim, hein?

segunda-feira, 24 de julho de 2017

PASITO A PASITO, SUAVE SUAVECITO

o bem e para o mal, "Despacito" já é A música de 2017. E nem a versão em português conseguiu ser tão horrível quanto sua apropriação como jingle da espúria Constituinte convocada por Maduro na Venezuela. Os compositores e o cantor Luis Fonsi já rejeitaram a gracinha, mais uma para o extenso rol de vexames do regime chavista. Que parece estar caindo devagarinho...

HADDAD 2018?

E de repente, minhas timelines se encheram de posts de amigos apoiando a candidatura de Fernando Haddad nas eleições presidenciais do ano que vem. É um fenômeno que já foi detectado pela imprensa: setores do próprio PT já partiram para o plano B, conformados com a provável condenação de Lula em segunda instância. Tem gente, aliás, que prefere Haddad mesmo se Lula puder sair candidato. Eu sou um deles, apesar de não ser petista. Acho que o tempo do ex-presidente já terminou. Sua carreira política foi ferida de morte por tantos escândalos, e uma eventual campanha sua em 2018 para voltar ao Planalto só vai dividir ainda mais o Brasil. Faz tempo que eu digo aqui no blog que o ex-prefeito de São Paulo é a melhor saída para o PT. Haddad é um quadro hiper-qualificado e seu nome não está envolvido (até o momento...) em nenhuma das maracutaias que afligem muitos de seus correligionários. O probleminha é que ele não foi reeleito para a prefeitura paulistana. Como, então, pode sonhar com a presidência já no ano que vem? Aí é que está: não pode. Sua candidatura em 2018 serviria para torná-lo conhecido em todo o Brasil, e turbiná-lo para 2022. Mas, para isto, Lula teria que largar o osso, o que parece improvável. Aposto que ele entrará com todos os recursos possíveis para se candidatar, não hesitando sequer em incentivar embates nas ruas. E assim, Haddad ficará para as calendas.

domingo, 23 de julho de 2017

PROGRAMA DE GAROTOS


Nunca contratei os serviços de um prostituto. Nada contra quem o faça, mas para mim funciona como Viagra ao contrário: nada mais brochante do que transar com alguém que não tem tesão por mim. Sem falar do perigo que é levar um estranho para dentro da sua casa, embora milhões de usuários do Grind'r façam isto todos os dias. Este flerte com o perigo faz parte da moderna experiência gay, e é um ingrediente importante de "Eastern Boys". O filme foi indicado a alguns Césars dois anos atrás e estava entre os incluídos de mais uma mostra do cinema francês, recém-terminada na Cinemateca Brasileira em São Paulo. Um francês de meia-idade conhece um garoto de programa ucraniano na Gare de Lyon, em Paris; não posso entrar em detalhes do que acontece daí para a frente. Só que "Eastern Boys" consegue a rara façanha de ser um thriller ao mesmo tempo em que é um estudo sobre a carência humana e a nossa necessidade de estabelecer laços onde quer que seja. Sei que falar de um filme que não vai entrar em cartaz é uma merda de dica, mas "Eastern Boys" pode ser encontrado na íntegra no YouTube, com legendas em inglês numa versão ruinzinha. Coragem!

sábado, 22 de julho de 2017

ANTÍPODAS NA PAULISTA

A Japan House abriu em maio em São Paulo, mas eu resolvi dar um tempo para ver se as filas diminuíam. Acabei escolhendo o fim-de-semana errado: a exposição do bambu já acabou, e a do papel só inaugura no dia 29. Pelo menos deu para ver a mostra do arquiteto Kengo Kuma, que ocupa o térreo. O lugar é menor do que eu esperava, e ainda não está totalmente pronto. Faltam as pop-up stores da Muji e da Beats Japan, que terminarão por me arruinar. Mas é mesmo um encanto, e merece ser visto com calma, durante a semana. Quero até comer no restaurante, e olha que eu não curto a cozinha japonesa. Saindo de lá atravessamos a Paulista e fomos...

...ao Itaú Cultural, cujos dois últimos andares são ocupados pela Coleção Brasiliana. É uma mostra permanente que reúne gravuras e documentos que contam a história do Brasil. Tem, entre muitas outras coisas, imagens manjadas e desconhecidas de Rugendas e Debret, um passeio virtual pelo palácio de Maurício de Nassau em Recife e uma vitrine com as assinaturas de todos os presidentes, de Deodoro a Tancredo. Um deslumbre, inaugurado há três anos e que só agora eu fui visitar. Aliás, fica a dica: o pacote Japan House/Brasilianas é um bom programa para fazer com um amigo gringo.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

MÚSICA DE FUNDO


O diretor americano Terrence Malick finalmente se livrou das amarras de um roteiro. "De Canção em Canção" sequer finge que conta uma história. É só um amontoado de cenas curtas, muitas delas belíssimas, sobre quatro jovens brancos sem problemas namorando entre si. Alguns deles trabalham com música, mas esta não chega a ser um tema importante para o filme como o título parece sugerir - é só um pretexto para mostrar, de vez em quando, ícones como Patti Smith ou Iggy Pop. Aliás, tema não há. Nem estrutura. Nem coerência. Malick parece ter ligado a câmera e pedido para seu elenco improvisar, mas não muito. Às vezes é agradável, às vezes é chato para caralho. Para me distrair nessas horas, fiquei matutando: com quem eu preferia passar o resto de meus dias, o Gosling ou o Fassbender? 

O DIA DAMIGO

Dois anos atrás, Marcos Damigo brilhou num monólogo baseado em "Dom Casmurro", de Machado de Assis. Agora o ator encara um desafio ainda mais difícil: em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", ele transforma a obra-prima machadiana num musical de um homem só. Com adaptação e direção de regina Galdino, o espetáculo é um autêntico tour de force, onde Damigo demonstra tudo o que sabe fazer - inclusive uma hilária imitação de João Gilberto. A peça estreou ontem no Teatro Eva Herz, dentro da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em SP, e fica em cartaz até o final de setembro. Saí com vontade de ler o livro, uma lacuna imperdoável no meu currículo.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

HOMÃO COM H

Ontem dei um tempo nas várias séries que eu estou seguindo ao mesmo tempo para ver a entrega do Prêmio da Música Brasileira, transmitido pelo Canal Brasil. A cerimônia deste ano não teve patrocínio e foi todinha feita na faixa, sem nenhum artista recebendo cachê e, pela primeira vez, com ingressos à venda para o público. A premiação em si foi meio atabalhoada. Os indicados de várias categorias eram anunciados por celebridades que devem ter enviado seus vídeos por WhatsApp, e as apresentadoras Maitê Proença e Zélia Duncan liam na sequência os nomes dos vencedores. Aí subiam todos ao mesmo tempo no palco para buscar seus troféus, sem direito a discurso de agradecimento (o que não deixa de ser um alívio). O homenageado da noite era Ney Matogrosso, e nomes como Ivete Sangalo, Chico Buarque e Lenine cantaram músicas do repertório daquele que eu acho o maior artista solo brasileiro de todos os tempos. Ninguém se saiu muito bem: os arranjos eram óbvios, o som estava empastelado e o palco do Municipal do Rio de Janeiro parecia mais amplo e vazio do que nunca. Até que entrou o próprio Ney, no esplendor de quem vai completar 76 anos daqui a dez dias. A voz continua um cristal; o corpo, requebrando como sempre; só os cabelos estão mais brancos e ralos, mas e daí? O cara é um monumento, uma entidade e um sábio (já leu esta entrevista publicada ontem?). Ney é homem com H, e da porra.

FNACULTURA

O momento em que entrei numa FNAC pela primeira vez foi daqueles em que eu achei que tinha morrido e ido para o céu. Foi na imensa loja subterrânea do Forum Les Halles, em Paris, em 1982. Ela se expandia para baixo e para os lados em progressão infinita, como a Biblioteca de Babel de Jorge Luís Borges. Qual não foi meu orgasmo múltiplo quando a cadeia abriu sua primeira filial no Brasil, no final da década de 90 - e bem perto de onde eu morava na época. Tive os mesmos frêmitos de prazer quando a Livraria Cultura inaugurou sua primeira megastore, no shopping Villa-Lobos, também próximo ao meu antigo endereço. Parecia o slogan do Pintos Shopping de Teresina: tudo o que você mais gosta, no lugar que você que sempre quis. Frequentei os dois locais durante anos, e depois suas novas unidades na Av. Paulista. Cheguei a ter cartão FNAC por um bom tempo, e ainda estou cadastrado no programa Mais Cultura. Mas aí veio a internet, esse meteoro que causou a extinção dos CDs físicos. Comecei a ir na Cultura só por causa dos livros, e na FNAC - bom, quase nunca, porque ela retomou por aqui sua vocação original: um magazine de eletrodomésticos. Mesmo assim, foi com tristeza que soube das notícias de que a cadeia francesa estava saindo do Brasil e que a brasileira estava em apuros financeiros. Ontem, no entanto, uma supresa: a Cultura vai assumir as 12 lojas da FNAC no Brasil, que manterão o nome original - e também o atual mix de produtos, muito mais voltado para telefonia e informática. Adorei, até por que irão sobreviver duas marcas que eu amo. E o espaço que elas ocupam não vai ser invadido por igrejas evangélicas: ô glória!

quarta-feira, 19 de julho de 2017

OS PROTOBANQUEIROS


Adoro uma boa série histórica. Me joguei em "Victoria", me esfreguei em "Versailles" e até hoje não me conformo que "Os Borgias" foi interrompida na terceira temporada. Talvez tivesse durado mais se não houvesse sido lançada antes de "Game of Thrones". E aposto que o sucesso de "GoT" foi o empurrão para "Medici", um seriado italiano falado em inglês que já está disponível no Fox Premium. Inclusive porque o ator principal é Richard Madden, que antes fez o Robb Stark. Só isto o credencia para o papel de Cosimo Medici, pois é jovem demais e talentoso de menos. Pelo menos Dustin Hoffman encarna Giovanni, o patriarca da família que dominou Florença durante séculos e foi uma das precursoras da modernidade. Porque os Medici não eram nobres proprietários de terras, como os demais poderosos do final da Idade Média. Enriqueceram primeiro com o comércio, e depois com uma novidade que mudou o mundo: o banco. Pena que a saga do clã não seja tão rocambolesca para fazer o espectador ver vários episódios de enfiada. Ou então vai ver que o roteiro é capenga mesmo. Fica a dica, mas só para os aficcionados.

terça-feira, 18 de julho de 2017

O PELOURINHO REFORMADO

Podem me chamar de feitor de escravos, mas o fato é que eu li e reli os principais pontos da reforma trabalhista e não achei nada de mais. Os direitos mais importantes - e que países como os Estados Unidos nem sonham em dar - continuam todos lá: férias, 13o. salário, FGTS. As novidades, achei bem razoáveis. Sim, o horário de almoço pode ser negociado para apenas meia hora, ao invés da uma hora atual - em compensação, o trabalhador poderá sair meia hora mais cedo. Sim, as férias poderão ser quebradas - mas quem quiser continua tirando 30 dias corridos. Sim, o home office e o trabalho intermitente serão regularizados, e juro que não vi o menor problema nisso. Posso estar redondamente enganado, ou vai ver que eu sou mesmo um sinhô desumano. Mas quem tiver objeção à nova CLT, por favor explicite suas críticas nos comentários abaixo. Agradecido.

RONALDINHO AMIGUCHO

Um desastre de relações públicas: desavisado e/ou nem aí, Ronaldinho Gaúcho achou que pegaria super bem visitar a Chechênia e posar fazendo joinha ao lado do ditadorete de lá, o sanguinário Raman Kadyrov. E isto NA MESMA SEMANA em que foi divulgada uma entrevista onde o brutamontes diz que "gays não são gente" e "que estão à venda", quase confirmando a existência de campos de concentração para as bibas nessa república autônoma russa. Dize-me com quem andas...

segunda-feira, 17 de julho de 2017

SNOW IN RIO


"Soundtrack" é o primeiro filme que se passa quase todo na Antártica (nunca mais vou escrever "Antártida", que não faz o menor sentido). A bem da verdade, o lugar não é especificado. Mas dá para desconfiar que está ao sul do planeta porque a) o Brasil está presente na Antártica, mas não no Ártico e b) um personagem recomenda ao outro que nunca caminhe rumo ao sul, para não se perder para sempre. O mais incrível é que ninguém saiu do Rio de Janeiro: o longa foi inteirinho rodado em estúdio, numa demonstração convincente do que a nossa produção já é capaz de fazer. Pena que "Soundtrack" seja apenas bonito de se ver (e ouvir, pois a trilha é mesmo ótima). Emocionalmente, a história é oca, sem a porrada que seus autores imaginam estar dando no final. Isto porque o personagem de Selton Mello é mal construído. Sua motivação é rala - uma exposição de selfies (?) - e seus conflitos internos, jamais explicitados. Sobra a neve que, mesmo artificial, surpreende.

MADURO APODRECE

Era óbvio que quem participasse do plebiscito informal que rolou ontem na Venezuela iria votar contra a Constituinte convocada por Maduro. Até me espanto que o "sim" (à rejeição) tenha ganho com "apenas" 98,4% dos votos. Mais espantoso ainda é o silêncio da esquerda brasileira, que pede diretas-já por aqui mas finge que não viu que o proto-ditador venezuelano cancelou as eleições para governador do ano passado, só para não perder de lavada. Mas nada menos que sete milhões de pessoas se manifestaram ontem, numa gritaria que o chavismo insiste em ignorar por sua conta e risco. Daqui a duas semanas, alguns - não todos - cargos na Assembleia Constituinte serão escolhidos pelas urnas. Quer dizer, se houver eleição. Do jeito que a coisa vai, talvez não haja mais Venezuela.

domingo, 16 de julho de 2017

O INVERNO CHEGOU

Uma massa de ar polar chega esta noite a São Paulo, coincidindo com a estreia da sétima temporada de "Game of Thrones". A HBO teve ter gasto uma fortuna.

NADA DE NOVO NO FRONT ANGOLANO


Poucos conflitos foram mais absurdos que a Guerra Colonial Portuguesa. Em 1961, a ditadura salazarista resolveu lutar contra a história: enquanto que potências como a Grã-Bretanha ou a França davam independência a quase todas suas colônias, Portugal quis manter seu império ultramarino a todo custo. Seguiram-se 13 anos de batalhas inglórias, que só terminaram com a Revolução dos Cravos em 1974 - liderada, justamente, por oficiais desgostosos que voltavam da África. Esse período conturbado é retratado em "Cartas da Guerra", baseado na correspondência entre o escritor António Lobo Antunes e sua mulher, enquanto ele servia em Angola. O filme foi o candidato de Portugal ao último Oscar, e é muito bonito: tem esmerada fotografia em preto e branco, enquadramentos bem cuidados e a presença do galã Ricardo Pereira, figura fácil nas novelas da Globo. Mas também é meio chato: consegue captar o tédio do front, onde os dias se arrastam sem que muita coisa aconteça entre um combate e outro. Não há uma história, e o espectador leigo vai sair sem saber como o sarilho começou ou acabou. Mas talvez o intuito fosse este mesmo: mostrar a saudade como inerente à guerra. Qualquer guerra. 

sábado, 15 de julho de 2017

CIDADE FEIA

Moro perto de uma das muitas mini-craolândias de São Paulo, instalada já há uns sete anos embaixo de um anel viário. Mas os noias não ficam restritos lá. Tem um casal que está montando uma espécie de barraco com objetos catados no lixo na esquina da minha quadra, e toda semana eles trocam de cachorrinho (talvez vendam para um restaurante coreano?). Também tem uns largados, que ficam caídos no meio da rua e não hesitam em tragar um cachimbão à luz do dia. Outro dia fui a pé à farmácia e me abordaram três vezes, um mais estropiado que o outro. Fico sempre na dúvida: dou uma moedinha ou não dou? Claro que ela vai ser gasta com crack, mas esses caras também precisam comer. E a caridade cristã, como é que fica? Mas, e se eu der para um, será que não aparecerão mais cem? Como quase não ando mais com dinheiro na carteira, passo reto, eu e a minha consciência pesada. Algo precisa ser feito.

Esta semana, um catador de papel foi morto pela polícia em Pinheiros, um bairro quase vizinho ao meu. O cara estava meio alterado e foi pedir comida numa pizzaria. Não deram, ele pegou um pedaço de pau, chamaram o 190, fim. Uma tragédia. E mais do que anunciada: a quantidade de craqueiros e/ou moradores de rua que se multiplicam pelas ruas de SP mais do que sugeria um confronto iminente.. Tenho a sensação de que esse foi só o primeiro. Junte-se uma população apavorada + policiais despreparados + crise econômica + ausência de políticas que não sejam apenas higienistas, e é só acender o pavio. Mas o buraco é muitíssimo mais embaixo, claro. É a desigualdade, a falta de oportunidade, o ensino precário e o próprio sistema semi-escravocrata que ainda temos. E agora?

sexta-feira, 14 de julho de 2017

TERNOS PRETOS CAFONA

Quem acompanha esse blog sabe que eu sempre defendi o Jean Wyllys, apesar de não compactuar com muitas das ideias dele. Acho um absurdo tantos gays atacarem o único deputado assumido de todo o Congresso, que nunca se furtou a defender nossos direitos. Também penso que é um despautério a campanha mentirosa que os adversários de Jean (e de todos os gays) promovem contra ele sem cessar, acusando-o de ter dito coisas que ele jamais disse e provocando-o com gracinhas e ofensas sempre que podem. De vez em quando o deputado perde a fleuma, o que é até perdoável. O que não consigo perdoar é ele usar o mesmo tipo de argumento que seus detratores empregam para denegrir o juiz Sergio Moro. Dizer que o cara usa "ternos preto cafona" e tem uma voz que não combina com o corpo soa muito engraçado numa mesa de bar, mas não num vídeo que o próprio Jean gravou e postou na internet. Já disse outras vezes que ele precisa de uma assessoria de imagem, senão vai continuar pregando para os que já estão convencidos - e estes são poucos. Chega de dar munição ao inimigo.

ÊITA MONICÃO DA PORRA

Suspeito que o Gilmar Mendes tenha se arrependido de processar a Monica Iozzi. Se ele tivesse deixado quieto, o caso já estaria esquecido, superado por dezenas de outras polêmicas em que o ministro do STF se envolveu. A disposição dele em negociar - chegou a baixar a indenização para 15 mil reais, contanto que Monica se retratasse publicamente - demonstra um desejo de suavizar a própria imagem, apesar de volta e meia repetir que não está nem aí para a opinião pública. Mas talvez Gilmar esteja preocupado com o que os livros de história vão dizer dele. E esse entrevero com uma atriz de TV, por insignificante que pareça hoje, deixou uma marca indelével em sua biografia. Ainda mais depois da atitude corajosa de Monica, que se recusou a fazer um acordo. Ela pegou os 30 mil reais que a Justiça a condenou a pagar ao juiz e esbofeteou-o com a grana diante do Brasil inteiro, saindo-se vitoriosa desse embate esdrúxulo. Ponto para as meninas!

quinta-feira, 13 de julho de 2017

AIA RODADA

Já assino Now, Netflix, Amazon, Globo Play e Fox Premium. E assinaria Hulu se tivesse no Brasil, só para ver "The Handmaid's Tale". Venho acompanhando o buzz sobre a série há algum tempo, e hoje ela recebeu uma pá de indicações ao Emmy - inclusive melhor drama e melhor atriz para Elisabeth Moss (a Peggy de "Mad Men"). Tudo isso, mais o trailer aí em cima, mais o pedigree literário - é uma adaptação do livro "O Conto da Aia", de Margaret Atwood - me deixou seco para ver. Um futuro distópico, onde as mulheres não têm direito nenhum! Não podem trabalhar, não podem ter conta em banco, e algumas não podem nem ter nome. Viram propriedade pessoal de políticos ricos casados com esposas inférteis, e devem gerar filhos para eles. Ou seja, uma representação do mundo que o Bolsonazi gostaria de implantar. Ou seja (2), é o programa mais interessante de todos os tempos desta semana. O curioso é que "The Handmaid's Tale" é uma série com temporadas, e não uma minissérie. Será que o livro - um único volume - chega para tanto, ou vão começar a inventar tramas? Não sei. Só sei que PRECISO ver ASAP, mesmo que eu tenha que quebrar a lei. Sugestões?

(Eu comento as indicações ao Emmy na minha coluna de hoje no F5)

DÓ-RÉ-MI-CHELZINHO

O Embrulha Pra Viagem existe há quase um ano e é mais um desses canais de esquetes de humor que surgiram no YouTube na esteira do Porta dos Fundos. Eu ainda não tinha prestado atenção nele até surgir esta obra-prima, que me tocou o coração. Ainda mais porque eu vi "A Noviça" quando estreou nos cinemas...