quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

MACUMBA PSICOLÓGICA

O Brasil foi vítima de um feitiço. As declarações machistas, racistas e homofóbicas de um deputado do baixo claro atraíram a atenção da mídia, que o transformou em presença constante nos Superpops da vida. Tais barbaridades horrorizaram boa parte do país, mas encantaram a outra. Quando o deputado se candidatou à presidência, a imprensa tentou confrontá-lo quanto a essas opiniões – o que só aumentou sua popularidade. Quando se percebeu que o flanco por onde o celerado deveria ser atacado – seu despreparo – já era tarde. Um providencial atentado à faca o retirou dos debates e entrevistas, e o converteu em mártir para muita gente. O cara acabou eleito com quase 60 milhões de votos.

Um pouco antes do segundo turno, eu soltei um post aqui no blog lamentando a pequenez da alma do Bozo. Um sujeito infantil, pirracento, ressentido, sem um quarto da envergadura exigida para o cargo máximo da nação. Agora, aos 50 dias de seu (des)governo, fica claro que até eu estava sofrendo de miopia. Boçalnaro é muito, mas muito pior do que a encomenda. Não tem a menor habilidade e está cercado por sacripantas. Seus filhos são péssimos e pelo menos quatro de seus ministros – Damares, Vélez, Araújo, Salles – estão abaixo de qualquer critério.

A demissão em câmera lenta de Gustavo Bebbiano foi um show de incompetência. O Bozo mentiu, foi desmentido, fez picuinha e perdeu a confiança de uma parcela significativa de seu próprio partido. A mais do que necessária reforma da Previdência corre risco. Sea economia não melhorar até o fim do ano, vai se começar a procurar um motivo qualquer para o impeachment, igualzinho ao que aconteceu com a Dilma. Mas já tem quem fale em impeachment "branco", como o Reinaldo Azevedo. O Bozo continuaria na cadeira, mas os adultos do governo assumiriam o real poder. Só isto para quebrar a macumba psicológica a que o país foi submetido. Todos juntos: I'm dreaming of a white impeachment...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

LO BITLE

Vir a Liverpool e não ver nada dos Beatles é como ir a Roma e não ver Anita Ekberg na Fontana di Trevi. Ainda mais porque o museu oficial, the Beatles Story, fica bem em frente ao meu hotel. Hoje o evento acabou mais cedo e sobrou um tempo para visitar Lo Bitle, que é uma gíria particular minha e do meu irmão - culpa dos livrinhos da Mafalda que líamos em espanhol quando pequenos, crianças metidas que ainda somos. O museu - ou "experiência" - é meio caça-níqueis, com salgadíssimos ingressos a quase 17 libras, e poucos objetos que realmente foram usados pelos Fab Four. Mas tem muitas fotos que eu não conhecia, uma programação visual agradável e uma linha do tempo fácil de acompanhar. De lá caminhei até a soturna Catedral de Liverpool, a maior do Reino Unidos, construída em estilo gótico inglês no final do século 19. É mais impressionante do que bonita, mas um símbolo da cidade - foi lá que Paul McCartney estreou seu "Liverpool Oratorio", a única peça de música clássica escrita por um dos Beatles. Voltei ao hotel sob uma garoa fina e friiia...

THE FUNK SOUL BROTHER

O BBC Showcase é um evento grandioso, para onde vêm compradores e jornalistas do mundo inteiro. Mas nem tudo é business: à noite, todos os presentes são convidados para um jantar, depois do qual se apresenta algum astro inglês. O de ontem foi Fatboy Slim, de quem eu não ouvia falar há algum tempo. Mas o cara continua afiadíssimo e mandou um set de arrepiar, com muito remix e mash-up da banda inglesa mais quente do momento, o Queen. Acabou por volta das onze e meia da noite, mas a brasileirada queria esticar. Eu me juntei a eles - hei, quando é que vou ter 58 anos de novo em Liverpool? - e tocamos para o lendário Cavern Club, onde os Beatles começaram. O bar fica um uma rua cheia de bares, todos tentando tirar uma casquinha dos Fab Four (bem na frente tem até um cover, o Cavern Pub). Mas o original fecha à meia-noite, então tivemos que nos contentar com o Sgt. Pepper's, na porta ao lado, e nos misturarmos aos torcedores do Bayern que vieram para um jogo. Voltei sozinho para o hotel, com admirável sendo de direção. Ainda mais depois de uns pints.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

MERSEYBEAT

Cheguei a Liverpool às cinco da tarde de ontem, vindo de trem de Londres. Até chegar no hotel, me instalar e ainda me registrar para o evento da BBC, já eram quase seis. Estou na Albert Dock, os antigos estaleiros que fizeram a fortuna da cidade nos séculos 18 e 19, hoje um complexo de museus, hotéis e restaurantes. Só que não consegui visitar o Beatles Experience ou o Museu Marítimo, as atrações mais top: tudo fecha cedo. Tive que me contentar com um longo passeio à luz da lua, me maravilhando com o icônico Liver Building ou pensando nos escravos que chegaram aqui (Liverpool era onde moravam os maiores mercadores de gente). A cidade enfrentou a decadência econômica no século passado, mas floresceu culturalmente graças aos Beatles, todos nascidos aqui, e à chamada Merseybeat, o som de Liverpool (Mersey é o rio em cuja foz ela cresceu). Vou ver se eu consigo fazer turismo. Mas agora, toca pro Showcase.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

LONDRES EXIBIDA

Essa cidade é inesgotável. Não importa quantas vezes se venha para cá: sempre tem algo novo para se ver e fazer. E mesmo o que é antigo é muito. Ainda não dei conta de tudo, e nem quero dar. Mas tiquei mais algumas casinhas nessa minha oitava viagem. Comecei pela Tate Modern, o gigantesco prédio à margem do Tâmisa que abriga a coleção do século 20 em diante da Tate Gallery. O ingresso para a retrospectiva de Pierre Bonnard, o mais tardio dos impressionistas (ele só morreu em 1947) custa 20 libras, mas a visita ao acervo permanente é gratuita. Tem obras essenciais de Picasso, Liechtenstein, Brancusi e também de alguns brasileiros, como Tunga ou Cildo Meirelles. Só que uma das maiores atrações da atualidade são os prédios residenciais de luxo que subiram bem ao lado do museu, quase que só com paredes de vidro. Os moradores chegaram a abrir um processo para obrigar a Tate a proibir os visitantes do terraço no último do andar de devassarem suas privacidades. Mas o juiz deu risada: quem mandou morar em apartamentos transparentes? Que comprem cortinas.

De lá cruzei o rio e fui à Somerset House, uma enorme instituição particular onde está em cartaz uma mostra sobre Charlie Brown e seu autor, Charles M. Schulz. Eu li muito Minduim (a simpática tradução brasileira de “Peanuts”) na minha adolescência – estava muito na moda nos anos 70. Revendo os personagens depois de tanto tempo, achei todos um pouco encucados demais, e o humor é muito amargo (quando há humor). Mas não dá para negar a importância cultural desses quadrinhos. Eles capturaram o espírito de seu tempo, e influenciaram tudo o que veio depois.

Isto foi ontem. Hoje tive a manhã livre antes de zarpar de trem para Liverpool. Como meu hotel fica em um canto dos Kensington Gardens (e o meu quarto dava para o palácio onde Diana morou no fim da vida) e o dia estava glorioso, lá fui eu passear pelo parque às nove da manhã. O tempo exato de chegar ao museu Victoria & Albert bem na hora em que estava abrindo, uma hora depois. Passei duas horas lá dentro e me maravilhei. O V&A nunca esteve no topo da minha lista, porque as artes decorativas tampouco estão. Mas a real é que aquilo lá é um palácio que transpira história da arte. A seção oriental é de cair o queixo, e a europeia começa no final do Império Romano. Só tive tempo de visita o térreo e o subsolo, mas vou tentar voltar lá na quarta-feira, quando passo a tarde em Londres. Talvez dê até para pegar a exposição do Dior, que estava com ingressos esgotados neste domingo(a 25 libras cada!) Enfim, a Victoria eu já vi. Agora falta o Albert.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

LONDON CALLING

Good morning. Amanheci em Londres, onde vou passar o dia de hoje batendo perna e visitando museus. Amanhã tomo um trem para Liverpool, o verdadeiro destino desta viagem: fui convidado pela BBC para cobrir o BBC Showcase, o grande evento anual onde a emissora pública do Reino Unido apresenta suas novidades. Vão ser dias bem intensos, mas pergunta se eu estou reclamando?

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

EXCELSO CELSO

Dizer que o discurso de Celso de Mello foi épico é pouco. O decano do STF fez uma brilhante defesa da criminalização da homofobia, expôs Damares Alves ao ridículo e ainda usou a palavra "weltanschauung", para desespero dos boçais. Agora o julgamento só será retomado na semana que vem, e nada garante que o resultado será positivo. O vice Mourão já expleiu que "não há urgência", como se quem já esperou dez mil anos pudesse esperar mais um pouquinho. E nossos inimigos caíram na armadilha: alegando defesa da liberdade de expressão e religião, eles estão se revelando os crápulas que de fato são. Pode ser que não dê em nada, mas o simples fato do Supremo estar discutindo este assunto mostra que a "pauta de costumes" tão sonhada pelos evanjas não terá vida fácil. Amém.

TREMENDÃO RHAPSODY


A cinebiografia de Erasmo Carlos padece do mesmo problema que sua autobiografia, publicada há quase dez anos: falta drama. O livro ainda cobria a vida toda do Tremendão, mas o filme opta por um recorte e se concentra nos tempos da Jovem Guarda. Justamente a época mais feliz, com mais sucessos, mulheres e carrões de uma carreira que nunca teve baixos muito pronunciados. Dito isto, "Minha Fama de Mau" é divertido, com uma esmerada direção de arte e um Chay Suede esbanjando carisma. Mas, ao contrário do que consegue Rami Malek em "Bohemian Rhapsody", em nenhum momento o espectador acha que está vendo o original. Não houve uma preocupação em transformar o esguio Chay no bochechudo Erasmo, o que me incomodou um pouco. Também achei meio "roteirice" o fato das namoradas que cruzam o caminho do astro serem todas feitas pela mesma atriz, Bianca Comparato, e terem nomes parecidos - Lara, Samara, Clara - até desembocar na Nara, a maior paixão, com quem ele viria a se casar e ter três filhos. Mas a história não chega até a separação do casal, nem ao suicídio de Nara, em 1995. Termina quase 30 anos antes, com uma briga algo forçada com Roberto Carlos, seguida pela reconciliação através da música "Amigo" (composta, na verdade, quase dez anos depois). Parece que está mesmo na moda inventar conflitos e alterar a ordem cronológica, como no filme do Queen. Só faltou "Minha Fama de Mau" terminar com Erasmo chamando Roberto e Wanderléa para anunciar que está com AIDS e depois fazerem juntos o último programa da Jovem Guarda.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

O PARTIDO DO SUCO DE LARANJA

O mais divertido desse embate entre Gustavo Bebbiano e o clã Solnorabo é que dá para torcer contra todos. Que se explodam! Eu tinha certeza de que essa galera era incompetente e corrupta, mas não esperava que o despreparo se manifestasse tão cedo. O Bozo tem um mês e meio de presidência, não fez nada de relevante até o momento e acumula uma crise atrás da outra. Claro que não foi o PSL quem inventou essa prática de lançar candidatas-laranja, só para cumprir a lei que obriga 30% de mulheres na disputa pelas vagas e para meter a mão no Fundo Partidário. Mas é justamente por ser um velho hábito, assim como a rachadinha, que mostra que de novo essa corja não tem nada. E o mito, hein? Tão machão, tão valente na internet e não tem culhão para demitir um ministro. Prefere ficar de futriquinha no Twitter, ui ui ui.

SÓ QUEM FECHA COM O BONDE

A expansão da internet e a crescente visibilidade LGBT trouxeram ao Brasil um fenômeno que existe há décadas lá fora: a cantora idolatrada pelas guei porque, além de produzir hits poderosos, também é incansável defensora dos nossos direitos. O paradigma máximo é Madonna, mas muitas outras merecem a faixa: Lady Gaga, Katy Perry, Cher, Beyoncé... Por aqui, não temos tamanha abundância. Primeiro foi Anitta quem tombou, ao relutar em aderir ao #EleNão. Agora é a vez de Valesca Popozuda, que achou que estava sendo super humana e solidária ao postar um Stories onde defende o direito de seu grande amigo Agustin Fernandez falar a merda que quiser. Tenho horror a esse sujeito e até recomendei ao Pedro HMC, que estava repercutindo o caso no Twitter, para seguir o conselho do Ricardo Boechat e não dar palanque a otário. Mas a otária neste caso é mesmo a Valesca, que perdeu sua credibilidade como musa gay. Dá para imaginar Madonna fazendo algo parecido? Passando pano para alguém que disse que os homossexuais querem "privilégios"? Por isto que Madonna reina há quase três décadas. Valesca já era, e a próxima da lista periga ser a isentona Ivete Sangalo. Ainda bem que temos Daniela Mercury, Preta Gil e várias outras que não abrem concessão. Aqui dois papos não se cria e nem faz história.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

BIBI CAMPEÃ

Houve um momento em que eu achei que Bibi Ferreria iria nos enterrar a todos. A mulher era um dínamo. Com mais de 90 anos de idade, estreava um show novo por ano, excursionava pelo Brasil e pelo mundo, cantava com Liza Minelli no Carnegie Hall. Consegui vê-la várias vezes na reta final dessa jornada gloriosa, que terminou hoje da maneira mais pacífica possível. Já estou com saudades, mas não dá para ficar triste: Bibi foi plena até o fim. Teve amores, uma filha, saúde de ferro, muito sucesso e uma das carreiras mais longevas da história do showbiz (ela era bebê quando entrou no palco pela primeira). Ainda ganhou a chance de assistir, no ano passado, ao musical que a homenageava. Pedir mais do que isso é abuso, e Bibi Ferreira deu muito em troca. Showwoman completa, diretora afiada, personalidade ímpar. O simples fato dela ter existido me faz crer que o Brasil talvez ainda tenha jeito.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

SE A RUA BEALE ANDASSE


Agora é oficial: Barry Jenkins é um diretor superestimado. Eu já não tinha achado "Moonlight" grande coisa, e "Se a Rua Beale Falasse" é simplesmente ruim. Não li o romance de James Baldwin, portanto não sei o quanto o filme é fiel à história original: só sei que a trama não anda. A história do rapaz negro preso por causa de um estupro que ele não cometeu cai em ponto morto logo depois de uma explosiva cena de briga de famílias, e dali não sai nunca mais. Nem Regina King, cotada para o Oscar de atriz coadjuvante, eu achei que estivesse particularmente bem. É pena, porque filmes que denunciam o racismo são cada vez mais necessários. Filmes chatos, não.

HOMOFOBIA = RACISMO

Quando um grupo que persegue outro vê seu "direito" de perseguir ameaçado, ele se põe na posição de perseguido. É o que o Infeliciano está fazendo neste exato momento: usando a retórica típica das pautas de esquerda para combater essas mesmas pautas. É asqueroso o anúncio que ele vem veiculando em seus perfis nas redes sociais, mostrando um rapaz aos prantos só porque não pode mais ser homofóbico. A chamada também contém erros de forma e de conteúdo. Por que aspas ao redor de homofobia? É impressionante como pouca gente consegue usá-las direito. E reparou como a frase deixa implícito que a homofobia é OK? Não, não é, e a ADO 26 está correta em equipará-la ao racismo. Mas talvez não seja a argumentação ideal para vencer no STF. Concordo que o assunto é espinhoso, até porque, no cristianismo mainstream, só alguns setores da Igreja Anglicana convivem bem com a viadagem. Talvez devêssemos seguir o exemplo do Canadá, que enquadrou a  homofobia sem melindrar (muito) as denominações religiosas. De qualquer forma, a votação de amanhã vai ser interessante. Vamos acompanhar com atenção.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

SENHOR CORAGEM

Estive com Ricardo Boechat uma única vez, no lançamento de uma série do Discovery na qual ele fazia a narração. Não perdi a oportunidade de cumprimentá-lo pelo culhão de peitar o sinistro Malafaia - para quem não lembra, em 2015 o jornalista mandou o horrendo pastor "procurar rola". Boechat riu e lamentou o processo que sofria, mas também disse que não se arrependia de nada. Sua morte em um acidente de helicóptero na manhã desta segunda-feira só reforça uma sensação terrível: a eleição do Bozo desequilibrou o universo e abriu um portal cósmico, de onde estão chovendo tragédias de todo o tipo sobre este país de infelizes. Ricardo Boechat fará uma falta tremenda, ainda mais neste momento em que tanto precisamos dele. Que sua coragem sirva de exemplo para todos nós.

O NAMORADO DO MARIDO DELA


O cinema asiático descobriu a viadagem. Há muitos filmes de temeatica LGBT vindos daquele canto do planeta, e um dos melhores acaba de estrear na Netflix. É o taiwanês "Dear Ex", que conta uma história que poderia se passar em qualquer país do mundo. Ao ficar viúva, uma mulher descobre que seu finado marido deixou um polpudo seguro de vida - só que em favor de um namorado, de quem ela nunca tinha ouvido falar. Esse ótimo argumento é desenvolvido com maestria pelos diretores Chih-Yen Hsu e Mag Shu (não consegui descobrir o gênero deles, nem se são parentes ou casados). A decupagem é fantástica, a pós-produção exagera as cores quentes da fotografia e ainda há uma das melhores trilhas sonoras dos últimos anos (já baixei no Apple Music: procure por DJ Dillidong). Desde já, um dos bons títulos do ano. No mais, é impressionante como a Netflix vem oferecendo, na média, filmes melhores do que os que chegam aos cinemas

domingo, 10 de fevereiro de 2019

DIANTE DO TRONO

Guardadas as devidas proporções, a festa de aniversário de Donata Meirelles em Salvador é uma espécie de Fyre Festival à brasileira. Os organizadores gastaram uma fortuna, usaram as mídias sociais crentes que estavam abafando e tudo o que conseguiram foi gerar uma treta que vai grudar feito craca nas reputações dos envolvidos. Não era, como alguns sites de esquerda disseram, um evento que tinha por tema o "Brasil colônia-escravocrata". Tampouco as modelos estavam vestidas de mucamas: o traje envergado é só uma versão festiva das vendedoras de acarajé soteropolitanas. Mas é preciso uma dose extra de falta de noção para uma branca se sentar em um trono ("de candomblé") em pose de rainha, ladeada por duas negras, e postar a foto no Instagram achando que o Brasil de 2019 vai achar lindo. não faltou quem lembrasse que o marido de Donata, o publicitário Nizan Guaanes, tem uma agência chamada África que emprega poucos negros. Como bem reparou a historiadora Lilia Schwarcz, tudo isso faz parte do racismo estrutural: aquele tão integrado no dia-a-dia que quem o comete nem percebe o que está fazendo. Donata Meirelles está pagando um preço, mas ela nem de longe é a única culpada. E, mesmo quando não houver intenção, vale sempre a pergunta: serei mal interpretado? O que diz o departamento do Vai-Dar-Merda?

sábado, 9 de fevereiro de 2019

PINTANDO DE OUVIDO


"No Portal da Eternidade" é um filme belíssimo. O diretor Julian Schnabel, que também é um pintor consagrado, consegue capturar a cor, a vibração e a textura das telas de Vincent Van Gogh. Enquadramentos inusitados, edição não-linear e o uso inteligente do foco dão a sensação de um quadro em movimento. Também tem a atuação indicada ao Oscar de Willem Dafoe, que quase convence, aos 63 anos, ter apenas 37. Dito isso, "No Portal..." também é um filme chato. Não é bem uma biografia, mas flashes da vida do artista, que foi desprezado em seu tempo e se tornou depois de morto o autor das pinturas mais caras já vendidas. Um detalhe me irritou um pouco: há cenas em inglês, cenas em francês e cenas em inglês com sotaque francês. Lento, em fogo baixo (não vemos Van Gogh cortando a própria orelha) e cheio de referências para os iniciados, o longa deve ter sido lançado nas salas brasileiras só por causa do Oscar. Aposto que "Boy Erased" teria mais apelo.

TERRA, ÁGUA E FOGO

Em setembro do ano passado, quando na mesma semana o Museu Nacional pegou fogo e o Bozo foi esfaqueado, eu postei que era horrível viver no Brasil, mas nunca monótono. Agora tudo o que eu quero é um pouco de monotonia: esttá duro suportar a sequência de desastres dos últimos dias, todos previsíveis e evitáveis. Gostaria de acreditar que a eleição de um governo de gente extremista e despreparada abriu uma espécie de portal da negatividade, deixando o Brasil ainda mais vulnerável do que de costume. Mas é claro que, qualquer que tivesse sido o resultado da eleição, essas tragédias teriam acontecido de qualquer jeito. São todas frutos do nosso descaso, do nosso jeitinho e da nossa ganância.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

POMBO NÃO CANTA


"Tito e os Pássaros" estreia semana que vem no Brasil já com prestígio internacional. O longa em animação participou de vários festivais no exterior, foi indicado a melhor filme independente no Annie (o Oscar dos desenhos animados) e entrou na shortlist do próprio Oscar (mas não ficou entre os cinco finalistas). Tecnicamente, é um prodígio. Personagens que parecem ter sido recortados com tesourinha de criança movem-se sobre fundos pincelados, numa paleta de cores que puxa para o sombrio e ao som de uma trilha excepcional. Mas o roteiro tem problemas. No varejo, há alguns detalhes complicados e confusos, como uma máquina que não serve para nada ou pombos que cantam (?). No atacado, uma mensagem política muito pertinente: vivemos uma cultura que semeia o medo, para depois tirar proveito dele. Mas será que a criançada,  a quem "Tito" se destina, está interessada nisso? A equipe do filme diz que as reações infantis têm sido ótimas, mas tenho cá minhas dúvidas se os petizes vão mesmo entender o que está sendo proposto. Manipulação pela mídia, apresentadores de extrema direita, medo de ter medo - tudo isso me parece fora do alcance de alguém com menos de 13 ou 14 anos. De qualquer forma, "Tito e os Pássaros" é mais um exemplo da maturidade da animação brasileira. Nosso Oscar ainda vai chegar.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

GATO POR LABRE

Conheço muita gente que votou no Bozo e nos candidatos do PSL por causa do PT. Muitos não prestaram atenção no reacionarismo absurdo de boa parte desses sujeitos, ou achou que era só folclore. Que qualquer coisa valia a pena para "varrer a corrupção". Agora já se sabe que o clã Boçalnaro é metido com milícias, e vários dos deputados eleitos estão expondo sua obtusidade. Um deles é o sensual deputado federal Márcio Labre, do Rio de Janeiro, que propôs uma lei proibindo a venda da pílula, do DIU e de quase todos os métodos anticoncepcionais (só faltou a camisinha) - seriam todos "mini-abortos". Não são, mas ignorância e desinformação sempre estiveram na metodologia dessa corja. Depois da reação das redes sociais, o parlamentar disse que o projeto não estava pronto, que havia sido protocolado por engano e que pipipi popopó. Melhor assim: esse episódio patético serviu para ele se expor como um energúmeno a ser marcado de perto. Também provou, pela enésima vez, que essa onda retrógrada (conservadorismo não é isso) que varre o mundo é, antes de mais nada, uma tentativa de conter o avanço dos direitos das mulheres.

NOUVELLE TRISTESSE

Cheguei hoje de manhã ao Brasil e dei de cara com duas notícias trágicas. A maior delas é a enchente no Rio de Janeiro. Ainda nem acabamos de contar os mortos de Brumadinho e já ocorreu outro cataclisma, também totalmente inesperado, imprevisível, surpreendente. Afinal, quando foi que choveu forte no Rio durante o verão? A outra notícia me atingiu mais diretamente: a morte do Carlos Fernando. Eu conheci o cantor no final dos anos 80, quando a cena musical paulistana teve um mini-boom que gerou grupos como o Luni, Os Mulheres Negras e o Nouvelle Cuisine. Este último era apenas a coisa mais sofisticada que já floresceu no pop brasileiro, com releituras inventivas de standards de jazz e algumas músicas próprias. Mas o melhor de tudo era a voz de Carlos Fernando: um timbre incrível, com uma interpretação suave e irônica ao mesmo tempo. Ele gravou com Ângela Maria e Sarah Vaughn, mas seu momento de maior destaque foi o dueto com Marisa Monte no primeiríssimo disco dela, registrado ao vivo. Eu tive a sorte de assistir a este show no MASP, e também vi o Nouvelle Cuisine algumas vezes. Mas a banda não chegou a completar uma década, e Carlos Fernando saiu dela no final dos anos 90. Em 1999 ele ainda lançou seu único disco-solo, dedicado inteiramente à obra De Chico Buarque. Consta que o próprio Chico adorou, porque o álbum focava mais na melodia de suas canções do que nas letras. Depois disso, Carlos Fernando ainda fez alguns shows em bares, mas aos poucos foi se afastando da música e focando na carreira de arquiteto e artista plástico. Não sabia nada dele há muitos anos, e fiquei chocado com sua morte solitária: ele foi encontrado caído em seu apartamento, dois ou três dias depois de um enfarte fulminante. Uma tristeza enorme, ainda mais porque fica a sensação de um imenso desperdício.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

IL LOUVRE D'ITALIA

Só agora, na quarta vez que vim a Milão, é que arranjei tempo para visitar o museu mais importante, a Pinacoteca Di Brera. A instituição surgiu em meados do setecento e recebeu uma guaribada de Napoleão Bonaparte, que quis transformá-la no equivalente italiano do Louvre. Durante um tempo, a Pinacoteca foi ligada a uma academia de arte: um lugar para se ver e aprender com os mestres. Mas depois ela descobriu sua verdadeira vocação: como o próprio nome diz, praticamente só tem quadros (as exceções são duas estátuas de Napoleão), e quase todos os italianos. Fui preparado para passar o dia, mas o museu em si ocupa menos de um andar inteiro do Palazzo di Brera. Com toda a calma, vi tudo em meia hora. Nem por isso saí menos maravilhado tem muito Caravaggio, Tintoretto, a italianada toda. Quase tudo arte sacra - acho que as que retratam deuses romanos foram todas para o Louvre mesmo. Ma è veramente incredibile.