terça-feira, 25 de abril de 2017

REAÇÃO POSITIVA

Muita gente está apavorada com o avanço da extrema direita em diversos países do mundo e com tudo o que ela traz junto: repressão, preconceito, ignorância. Mas a reação também já começou, haja vista as recentes derrotas dos neofascistas na Europa. Ano que vem provavelmente teremos o Bolsonazi concorrendo à presidência do Brasil. O cara não é "simpático", ""bonitão", "competente": é um inimigo da liberdade como um todo e dos gays em particular.  Temos que agir para ele não ultrapassar os 9% que tem hoje nas pesquisas, e a primeira coisa é não ficar calado. É se expor, é dar a cara para bater, é chamar na chincha. Para servir de inspiração, aqui vão três vídeos corajosos. Este aí acima é da dupla inglesa Hurts. "Beautiful Ones" conta a história de um ataque homofóbico de trás para frente, e o protagonista é o próprio vocalista da banda.
O cantor e compositor santista Silvino não deixa margem para dúvidas em seu primeiro clipe, "Olhos Amarelos": é HIV positivo. Tem que ser muito homem.

O terceiro vídeo não é musical. É o discurso que Etienne Cardiles fez hoje de manhã no Palácio do Eliseu, em Paris, em homenagem a seu marido: o policial Xavier Jugelé, morto no ataque terrorista da semana passada. Pois é, ele era gay. No trecho acima, o viúvo revela que seu amado adorava Britney e Madonna; sinto um frisson de prazer ao lembrar que a babaca da Marine Le Pen estava na plateia (assim como seu rival e futuro presidente da França, Emmanuel Macron). Quem quiser ver o discurso inteiro, em francês e sem legendas, pode clicar aqui.

ELE CANTA PORQUE O INSTANTE EXISTE


“Paterson” tinha tudo para ser um filme chato. Ao longo de quase duas horas, acompanhamos uma semana na vida de um motorista de ônibus, dia por dia. Não acontece quase nada: o cara acorda, vai trabalhar, ouve as conversas dos passageiros, volta para casa, janta com a mulher, depois vai sozinho a um bar para tomar uma cerveja. Nas horas vagas, escreve poesia. Deu vontade de sair correndo? Acontece que o diretor Jim Jarmusch usa os recursos do cinemão para segurar o interesse da plateia: planos curtos, montagem ágil e música, muita música. Nada daquele estilo seco do Dogma que tenta reproduzir a vida, monótona como ela é. Porque a vida de Paterson não é monótona: ele tem a sensibilidade de se encantar com as pequenas coisas e traduzi-la em versos livres, que começam banais e acabam profundos. Jarmusch inclui algumas rimas no roteiro: o nome do protagonista também é o da cidade onde ele vive - justamente o berço de seu poeta favorito, William Carlos Williams. E a sutil ironia de Adam Driver estar fazendo um driver? Além disso, todos os dias Paterson cruza com um par diferente de gêmeos idênticos. Aviso? Coincidência? Ou só mais um mistério do cotidiano? Ele também tem uma idiossincrasia, como todos os personagens jarmuschianos: escreve seus poemas à mão e se recusa a usar computador ou smartphone. Esta teimosia gera o único fiapo de drama de todo o longa, que tem um certo parentesco com a vida quieta da poeta americana Emily Dickinson. Delicado sem ser piegas, “Paterson” me tocou feito um sussurro.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

OS NOVOS CARETAS

Se o comercial acima mostrasse um casal hétero, seria um dos piores de todos os tempos. Não tem ideia nenhuma; apenas apresenta as vantagens do produto num contexto absolutamente banal. Mas como o casal mostrado é formado por dois homens, ainda por cima com filhos, o filme passa modernidade e até ousadia. Por um lado, adoro que uma grande empresa como o Google esteja 100% do nosso lado. Por outro, até quando a viadagem vai ser notícia e servir como diferencial?

AVANTE, FILHOS DA PÁTRIA

Alguns comentaristas reparam que, depois da vitória de Trump nos EUA, a extrema-direita amargou o segundo lugar nas eleições da Áustria, da Holanda e, ontem, da França. Faltou lembrar que o atual presidente americano também chegou em segundo, e que só foi alçado à Casa Branca por causa de um sistema eleitoral anacrônico. A minha conclusão de tudo isto é que esses neofascistas, antes grupelhos insignificantes, agora fazem muito barulho e parecem prestes a tomar o poder pelas urnas em inúmeros países. Só que eles ainda não contam com a simpatia da maioria da população. Pelo menos, ainda não.

Hoje minha timeline amanheceu com um monte de gente equivalendo Marine Le Pen a Bolsonaro e Emmanuel Macron a João Doria. A primeira comparação tem fundamento, apesar da líder do Front National ainda dispor de uma certa finesse que passa batida pelo nosso candidato a ditador. Já Macron é bem diferente do prefeito de São Paulo: o pessoal se esquece (ou nem sabe) que ele era o ministro da Economia do governo socialista de François Hollande, e que nunca se vendeu como "gestor". O provável futuro presidente francês conseguiu passar para o segundo turno se apresentando como alguém do sistema, mas nem tanto. Ele jamais disse que é "contra tudo o que está aí". 

A França é uma democracia muito mais madura que o Brasil, e a situação de lá é bem melhor do que a nossa. Mesmo assim, tenho esperança de que surja um Macron nas nossas eleições do ano que vem. Alguém que não seja um príncipe montado num cavalo branco, prometendo resolver todos os problemas num passe de mágica. Mas com experiência, equilíbrio e - claro - ficha limpa. Quem?

domingo, 23 de abril de 2017

O NONO PASSAGEIRO


Um filme de ficção científica só tem relevância se falar de um medo contemporâneo. Por este ângulo, "Vida" até ganharia uma dimensão a mais: a criatura que os astronautas recolhem em Marte e acaba se voltando contra eles pode ser uma metáfora para a invasão de refugiados no Ocidente, que traria escondida as sementes da destruição. Só que "Vida" padece de um problema anterior, e incontornável. É um remake mal-disfarçado do clássico "Alien, o Oitavo Passageiro". As diferenças são mínimas: agora a tripulação da nave é multiétnica, e o monstrinho começa como uma ameba que só vai lembrar seu antepassado ilustre depois de crescer bastante. Aliás, como crescem. Por que esses alienígenas têm um apetite infinito, que não se sacia nunca? "Vida" talvez seja divertido para as novas gerações, mas eu vi o primeiro "Alien" no cinema, bebê. Esse pastiche desnecessário só melhora no final, que eu confesso não ter previsto. É pouco.

sábado, 22 de abril de 2017

O SALVADOR DA PÁTRIA

Eu sei que procurar qualidade musical entre os concorrentes do Eurovision é uma tarefa inglória, mas todo ano tem algo que se salva. Apesar da terrível safra de 2017, repleta de cantoras intercambiáveis de um nome só, encontrei duas pérolas no meio da porcariada. Em comum, ambas têm o fato de serem cantadas nas línguas de seus países, sem concessão para o inglês universal. Uma delas é a belíssima "Amar pelos Dois", composta por Luisa Sobral - um nome em ascensão na cena lusitana - e interpretada por seu irmão Salvador. Dono de uma voz cristalina e de uma linguagem corporal para lá de esquisita, ele já lançou um disco meio jazz chamado "Excuse Me" e, segundo as casas de apostas, promete levar Portugal para a grande final pela primeira vez em muitos anos. A terrinha compete no festival desde 1966, mas nunca foi além do sexto lugar. Agora vai?

(Meu outro favorito, que também é o favorito para a vitória, fica para outro dia)

sexta-feira, 21 de abril de 2017

AHMADINEJAD ERA

O Irã se diz uma democracia, mas o fato é que lá ninguém se candidata à presidência sem o aval dos aiatolás. Das 1.636 pessoas inscritas (incluindo 137 mulheres), só seis foram aprovadas: todos homens, todos ligados ao establishment religioso que governa o país há quase quatro décadas. O lado bom dessa história é que entre os barrados está Mahmoud Ahmadinejad, o mal-ajambrado, que foi presidente de 2005 a 2013. O cara radicalizou a corrida atômica iraniana, atraiu sanções que pesam até hoje e ainda teve uma reeleição contestadíssima em 2009, com saldo de mortos e tudo (um dos poucos que o apoiaram foi Lula, que comparou a revolta da oposição de lá a uma mera rusga entre torcidas de futebol, a única metáfora de que ele é capaz). Tudo indica que o atual presidente, o moderado Hassan Rouhani, continuará no poder. Foi ele quem quase chegou a um tratado de paz com Barack Obama - mas agora, com Trump na Casa Branca, não dá para prever o que quer que seja.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

AS CONFIDÊNCIAS MINEIRAS


Tiradentes é meio que um mito inventado pela república. O verdadeiro Joaquim José da Silva Xavier não era o líder dos Inconfidentes, nem seu mentor intelectual. Era apenas o menos conectado com gente importante, e por isto foi escolhido para dar o exemplo. Pouco se sabe de sua vida pregressa, e é ela que o filme "Joaquim" tenta inventar. O alferes que surge na tela é imaginário, mas totalmente plausível. Além disso, o diretor Marcelo Gomes o cerca de uma Brasil-colônia sem um pingo de romantismo: pobre, sujo, muitas vezes violento. O único ator mais conhecido do ótimo elenco é Júlio Machado, que também está despontando na TV. Ele tem uma presença imponente, física e intensa. Já o roteiro às vezes perde o rumo: não há bem uma história, mas sim um amontoado de episódios que se propõe a mostrar como um sujeito comum se tornou um revolucionário. Quase sem música, com muita câmera tremida, fotografia lavada e narrativa austera, "Joaquim" não vai arrastar multidões aos cinemas. Mas quem for vai ver um retrato íntimo, ainda que ficcional, de uma figura emblemática da nossa história.

UBERQUISTÃO

As Filipinas não são exatamente o lugar mais liberal da Terra, ainda mais agora com o presidente Duterte matando a torto e a direito. Por isto, é surpreendente que este comercial de Uber tenha sido rodado lá (tem que clicar no link para ver no site, não consegui embedar aqui). O filme faz parte de uma campanha chamada #UberSTORIES, baseada em relatos reais de usuários do serviço. Claro que não foi incluído nenhum desses episódios de terror de que todo mundo já ouviu falar, tipo motorista tarado ou que não sabe onde fica o aeroporto. Só tem final feliz, como o de Aj Tabangay. Mas talvez a maior surpresa seja que lá nas Filipinas você pode pagar o Uber com dinheiro.


ATUALIZAÇÃO: Errei rude. Aqui no Brasil também se paga Uber com dinheiro. Mas como é que eu ia saber, se eu só circulo na minha limusine com chauffeur?

quarta-feira, 19 de abril de 2017

LUZ, CÂMERA, CANHÃO


Qualquer um que se interesse por cinema e história vai se refestelar com "Five Came Back". Essa minissérie documental do Netflix tem apenas três episódios de uma hora, que equivalem a uma aula magna sobre como a realidade influencia a arte e vice-versa. Apresentada por cinco grandes diretores contemporâneos - Steven Spielberg (também produtor do programa), Guillermo del Toro, Paul Greengrass, Lawrence Kasdan e Francis F. Coppola - e com locução off de ninguém menos que Meryl Streep, "Five Came Back" conta como os cinco maiores diretores de Hollywood na década de 1940  filmaram a 2a. Guerra Mundial e por ela foram afetados. Francis Capra, John Ford, George Stevens, William Wyler e John Huston já eram consagrados, alguns com vários Oscars na estante. E todos atenderam ao chamado do Exército para dirigir documentários sobre o esforço de guerra americano. De filminhos para incentivar o alistamento a devastadores testemunhais das mais cruentas batalhas. Os cinco arriscaram as próprias peles e alguns até perderam membros da equipe. Nenhum conseguiu produzir uma obra-prima como "O Triunfo da Vontade" de Leni Riefenstahl, a mais resplandecente peça de propagada nazista, mas seus filmes rodados no front foram bem de bilheteria e acabaram entrando para a história. Terminado o conflito, algo curioso aconteceu: todos os cinco, sem exceção, fizeram os melhores filmes de suas carreiras. Ver tanto sofrimento in loco, tanta destruição e desumanidade, fez com que esses veteranos redescobrissem a si mesmos. "Five Came Back" vai ser bombardeado de prêmios merecidos, e é obrigatório feito o serviço militar.

CASSIUS PLAY

A ideia não é nova. Eu mesmo tentei usar esse recurso de tela dividida numa campanha de remédio contra resfriado, sete anos atrás. Mas não me lembro de tê-la visto tão bem executada como nesse clipe da dupla Cassius, lançado na semana passada. Os caras surgiram há mais de uma década, quando a música eletrônica feita na França entrou na moda. Andaram sumidos por um tempo e agora estão de volta, com a ajuda do onipresente Pharrell Williams - o que faz com que "Go Up" soe como  seus conterrâneos do Daft Punk. Ei, nada contra.

terça-feira, 18 de abril de 2017

FLORES BASCAS E ESPECIALÍSSIMAS


Em 2015, pela primeira vez, um filme falado em basco representou a Espanha no Oscar. "Flores" não chegou entre os nove semifinalistas nem estreou no Brasil, mas está disponível no Netflix. É uma experiência curiosa, e não só pelo idioma indecifrável. A história é tristonha, nublada como o país de onde veio. Uma mulher casada começa a receber flores de um anônimo, até que um dia elas param de chegar. Um colega de trabalho morre nessa mesma época, e ela liga os pontos. Enquanto isso, a mãe e a viúva do sujeito... já contei demais, chega. Mas não se trata de um filme cheio de reviravoltas, e sim um ensaio sobre o pertencimento e a perda. "Flores" não se parece com nada que eu tenha visto recentemente. Delicado, meio lento, mas interessante.

OS RUSSOS NÃO ESTÃO CHEGANDO

Pronto, já é aquela época do ano outra vez: vem aí o Eurovision!! E a temporada de notícias sobre o festival mais cafona do mundo começa com um bafão. A edição de 2017 acontece em Kiev, a capital da Ucrânia, e adivinha o que aconteceu? Julia Samoylova, a representante da Rússia, teve o visto de entrada negado. Porque em 2015 ela fez uma turnê pela Crimeia, a península ucraniana que há três anos foi tomada (de volta, dizem os russos) pelas tropas de Vladimir Putin. A organização do festival ainda tentou propor que a moça se apresentasse diretamente de Moscou, mas a TV estatal russa não quis nem saber. Resultado: Samoylova, que sofre de atrofia muscular espinhal e é cadeirante desde pequena, não irá mais participar do Eurovision 2017. Cujo slogan, ó cruel ironia, é "Celebre a Diversidade"... Se bem que, por mim, tudo bem. A Rússia tem mais é que levar umas invertidas de vez em quando. Fora que, além da música "Flame is Burning" ser horrível, Julia Samoylova tem um dos sorrisos mais pavorosos que eu já vi.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

CHOCHANDO A CHECHÊNIA

Este ursinho acariciando um gatinho aí ao lado é ninguém menos do que Ramzan Kadyrov, o presidente da Chechênia - a república autônoma russa que voltou às manchetes depois da denúncia de que 100 gays chechenos haviam sido presos num campo de concentração e três deles já sido mortos. Kadyrov nega tudo, usando um argumento que meio que confirma tudo: na Chechênia não existem homossexuais. A pressão internacional está sendo grande e muita gente vem alterando a foto no perfil do Facebook com um triângulo rosa sobre o rosto, mas duvido que surta algum resultado. Alguns anos atrás, a Chechênia tentou se separar do resto da Rússia e foi violentamente reprimida. Seu atual mandatário, hiperativo no Instagram, é apaniguado de Vladimir Putin, que aprovou leis duríssimas contra "propaganda gay" em seu país. Claro que ele vai deixar a republiqueta do Cáucaso matar umas bichinhas, só para manter feliz a maioria muçulmana que vive lá. Para terminar este post pessimista numa nota infame, vou usar uma piada velha e torcer para que esteja tudo bem em outra república russa de nome sugestivo: a Carélia.

O BON VIVANT

Aos poucos, bem aos poucos, vejo gente de esquerda desembarcando da canoa do Lula. Claro que ainda tenho amigos fazendo a defesa intransigente do ex-presidente com textão nas redes sociais. Para eles, todas as delações são mentirosas e não há pedalinho com nome de neto que prove o que quer que seja. Mas quem tem mais de dois neurônios percebe que não é bem assim. O Meio de hoje traz links para matérias dos blogs The Intercept Brasil, Conversa Afiada (de Paulo Henrique Amorim) e Socialista Morena que simplesmente não tapam o sol com a peneira. Nenhum dos três retirou apoio à uma cada vez mais improvável candidatura de Lula em 2018, mas é óbvio que alguma coisa está mudando. O "Amigo" perdeu a aura de santo impoluto, tantas são as evidências contra si. E causos de um passado distante voltam à tona, como o contado na coluna "Primeiramente, Fora Lula!" de Ricardo Noblat (que inveja do título, queria ter pensado primeiro). Por isto, não me espanta que o finado general Golbery do Couto e Silva, a eminência parda do último governo militar, tenha dito que Lula não era de esquerda quando o conheceu, mas sim um "bon vivant". Aliás, eu me lembro das primeira entrevistas do então sindicalista, assim que despontou para a fama no final dos anos 1970, onde ele dizia que pensava em fundar um partido sem ideologia. É fato registrado que Lula só se "esquerdizou" mais tarde, e agora parece que foi só um verniz. Se bem que não tenho nada contra alguém buscar as coisas boas da vida, porque eu também busco. Só não pode fazer isto com o dinheiro dos outros, e muito menos com o suado dinheiro dos nossos impostos.

domingo, 16 de abril de 2017

O ACORDÃO EM DESACORDO

Nunca escondi aqui no blog que eu sou fã de Fernando Henrique Cardoso. Não acho que ele tenha sido um presidente perfeito e estou bem longe de idolatrá-lo, mas sua postura de intelectual e estadista sempre me impressionou. Claro que a minha admiração sofreu um abalo com as delações da Odebrecht, que revelam que ele recebeu doações via caixa dois nas eleições de 1994 e 1998. Também estou horrorizado com o papo de que FHC estaria articulando um acordão com Lula e Michel Temer, o Velho, para garantir a sobrevivência da atual classe política. Como diz o Elio Gaspari na Folha de hoje, isso é formação de quadrilha. O pior é que consta que é o próprio FHC quem está espalhando essa história. Talvez para mostrar que continua relevante aos 85 anos e que é o único tucano de raiz com alguma credibilidade. Cultivada nos anos pós-Planalto com atitudes dignas de aplauso, de quem está mais interessado em fazer a coisa certa do que em concorrer a um cargo público. Mas agora FHC se deixa tragar por sua célebre vaidade, ao invés de ficar do lado certo da história. Vai aqui um apelo, presidente: fuja de Lula, de Temer, dos seus correligionários enrolados do PSDB, dessa corja toda. E preserve sua biografia.

sábado, 15 de abril de 2017

O FALSO TEATRO


Pronto, ela já está de volta. Um mês depois da estreia de "Souvenir" no Brasil, Isabelle Huppert reaparece com "As Falsas Confidências", um telefilme que está sendo lançado nos cinemas fora da Europa. A ideia prometia: adaptar uma peça do século 18 para os dias de hoje, utilizando o suntuoso Théatre de l'Odéon de Paris como cenário. Mas muita coisa não deu certo na realização. Para começar, o texto não funciona na tela grande e a trama de fofocas domésticas entre patrões e empregados tem pouco a ver com os dilemas atuais. Além do mais, o teatro não é o teatro: suas áreas internas foram cenografadas para parecer uma mansão, e o resultado é falso. Sobram Huppert e Louis Garrel, com quem a gente nunca recusa passar uma hora e meia junto.

REFERENDO ALLA TURCA


Amanhã a Turquia vai às urnas para decidir se oficializa Recep Erdoğan como ditador ou se ele continua no poder de qualquer jeito. O "sim" está vencendo por uma margem estreita nas últimas pesquisas de opinião; não duvido nada que a vitória seja, aham, consagradora. Não importa o que der: a única democracia muçulmana do Oriente Médio está deslizando rapidamente para sua própria versão do chavismo, com um líder forte e popular se tornando cada vez mais autoritário. A imprensa livre já era, e agora eu temo até pela cena pop de Istambul. Deixa eu curtir enquanto posso o novo álbum da diva Sezen Aksu - quem sabe se haverá outro? Pena que ela não escolheu para o clipe a faixa "Manifesto", a mais animada e política de "Bir Pop Bir Sezen".

sexta-feira, 14 de abril de 2017

MAL-VINDOS

Nos Estados Unidos são frequentes as notícias de gays hostilizados no bairro em que moram ou no lugar onde trabalham. No Brasil nem tanto - as notícias, já que os casos devem ser tão abundantes quanto lá. Por isto, o casal de curitibanos João Pedro Schonart e Bruno Banzato fez muito bem em chamar a polícia e divulgar a agressão, pois os homofóbicos anônimos contam com o medo de suas vítimas. O texto do panfleto distribuído nas redondezas da casa que os dois acabaram de construir é constrangedor de tão absurdo, além de - claro - ter erros de português (imagine se um babaca desses saberia usar aspas direito). As fotos não são do casal. O lado bom é que muitos vizinhos jogaram o panfleto fora, e amanhã vai acontecer uma manifestação de solidariedade em frente à casa de Bruno e João Pedro. Do que é que esses caras têm tanto medo? De pegar gosto pela coisa?

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O HAMBURGER CONECTADO

A ideia é tão óbvia que o fato de ninguém ter feito antes a torna ainda mais genial. O comercial aí em cima do Burger King, veiculado ontem na TV americana, dura mais que seus 15 segundos se o seu celular for Android e estiver perto da TV. O ator pergunta para o Google Home (o Siri dos pobres) o que é que tem num Whooper Burger - e o treco responde a descrição da Wikipedia. Claro que no minuto seguinte tinha gente mexendo no verbete do sanduíche, listando carne de rato e unhas entre seus ingredientes. Mais claro ainda que o próprio Google desabilitou qualquer resposta apenas três horas depois, para não fazer propaganda grátis. Tarde demais: hoje o comercial foi notícia no mundo inteiro, multiplicando algumas vezes a verba de mídia. E ainda vem prêmio em Cannes.

A MENINA NOIVA


O Iêmen está em guerra civil há anos, com áreas inteiras controladas por grupos como a al-Qaeda. Ainda assim, no ano passado o país se inscreveu pela primeira na corrida pelo Oscar de filme em língua estrangeira. E com um filme escancaradamente político, dirigido por uma mulher e com tudo para irritar os fundamentalistas islâmicos. "Nojoom, 10 Anos, Divorciada" está em cartaz há uma semana em SP, e merecia mais atenção. Porque fala de um assunto terrível, comum a dezenas de países: o casamento de crianças. O filme é baseado na história verídica da menina que foi literalmente vendida pela família paupérrima. O noivo prometeu não tocar na coitada até que ela atingisse a puberdade, mas já atacou-a na noite de núpcias. Os maus tratos foram tantos que Nojoom (Nojood, na vida real) procurou um tribunal para se divorciar. O caso rendeu manchetes e pegou mal para o Iêmen, mas a prática continua. Já como cinema, "Nojoom" é mediano. As paisagens são deslumbrantes e o roteiro se preocupa em dar voz ao outro lado - os homens são analfabetos, que não têm muita noção do mal que fazem. Mas a encenação é muitas vezes canhestra, revelando o amadorismo dos atores. Enfim: valeu como turismo cinematográfico, e também para saber que tem lugares onde o assédio é ainda pior do que aqui.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

REZANDO UM ROSÁRIO

Maria do Rosário, gente. Fuckin' Maria do Rosário. A deputada mais combativa de todas, a paladina do feminismo, a inimiga no. 1 do Bolsonaro foi incluída na lista do Fachin. Ela está sendo acusada de ter recebido 150 mil reais em caixa dois, e claro que o brucutu já gravou um vídeo tripudiando. A delação da Odebrecht está sendo ainda mais devastadora do que eu esperava, ceifando nomes até então acima da minha suspeita. O que acontece agora? Os processos na Justiça podem correr de maneira lentíssima e só gerar algum resultado daqui a dez anos. Enquanto isto, os políticos vão se unir de algum jeito para estancar a sangria desatada. Vão tentar aprovar o voto em lista e se eternizar em seus cargos, para não perder foro nem boquinhas. Resta a nossa vigilância A gente tem que se unir também e parar com essa bobagem de coxinhas e mortadelas, porque somos nós que estamos sendo comidos. Por enquanto, sobrevivem a extrema-esquerda e a extrema-direita: é só isto o que a gente quer nas eleições do ano que vem? Está pintando cada vez mais que o Doria será candidato, e duvido que o Lula consiga se viabilizar. A esquerda precisa arranjar um nome forte para ontem. E nós precisamos tomar muito cuidado para não embarcar na canoa furada de um aventureiro. O Brasil já acreditou no Collor em 89, livrou-se dele em 92 e, no entanto, olha ele aí de novo. Vamos tomar tento, gente. Caixa dois pode não ser o pior crime do mundo, mas ainda é crime. Fora todos eles, sem exceção. Vamos varrer a corja toda em 2018.

O NERD ERÓTICO

Ayrton Montarroyos não venceu a 4a. edição do "The Voice Brasil" porque lá só se valoriza quem grita. Ele até que chegou bem longe (entre os quatro finalistas) com sua voz de veludo. E talvez tenha dado sorte, porque uma vitória no programa nunca firmou a carreira de ninguém. O pernambucano de 21 aninhos acaba de lançar seu primeiro álbum, já disponível em todas as plataformas digitais. É música para transar, pois quase todas as letras falam de sexo. Mas sempre numa pegada suave, evocando ritmos que não tocam mais no rádio: bossa nova, tango, bolero, seresta, fado. Muitas das faixas são obras pouco conhecidas de compositores consagrados como Zeca Baleiro e Caetano Veloso, então tudo soa meio inédito. Falando assim parece até variadíssimo, mas não é: é como transar com a mesma pessoa, mas sempre variando as posições.  Ah, o jeito sonso desse magricela de óculos e sotaque delicioso nunca me enganou. Sua voz não vem só da garganta.

(O vídeo-letra de "E Então" só pode ser visto  na página de Ayrton no Facebook)

terça-feira, 11 de abril de 2017

DUETO COM SI MESMO

Hoje eu estou que nem o "Jornal Nacional": ainda não estou podendo comentar a lista do Fachin. É muita coisa para digerir; até o Haddad foi citado! Preciso me segurar para não sair gritando "fora todos" e pavimentar a estrada para o Bolsonazi. Então vamos falar de coisa boa? Olha que lindeza esse dueto acima: ambos são o cantor trans Charlie Peck, com nove meses de tratamento hormonal de diferença. Como diz a letra, a gente está em casa quando está com si mesmo.

MEIO ASSIM

O Meio é uma newsletter diária com curadoria do jornalista Pedro Doria. Assino desde que foi lançada, no final do ano passado. É a minha primeira leitura do dia, ainda na cama: um resumão das principais notícias, com links para os veículos de onde elas vieram. Hoje tive a grata surpresa de ver minha coluna de ontem no F5 incluída no Meio. Só posso agradecer incentivando mais gente a assinar (é grátis!!): www.canalmeio.com.br