quarta-feira, 26 de junho de 2019

UM MILITAR DE CARREIRA

Duvido que esta tenha sido a primeira vez que o tenente Manoel Silva Rodrigues tenha transportado cocaína em um avião da FAB. Pela quantidade apreendida em Sevilha, o cara era profissional. Quis o azar que, depois de 29 viagens nas comitivas de três presidentes diferentes, ele fosse pego justamente em uma viagem do Bozo. O Despreparado teria que ser ainda mais chucro do que parece ser para ter algo a ver com isto, mas uma coisa é certa: ele atrai bandido para o seu entorno. É divertido ver sua credibilidade virar, aham, pó. Mais engraçado ainda é ver sua cara aplicada sobre a de seu arqui-inimigo Wagner Moura.

CORRIDA MALUCA

É estranhíssimo o entusiasmo do Biroliro em levar a Fórmula 1 para o Rio de Janeiro. A cidade está quebrada e falta tudo, inclusive um autódromo. Um novo circuito teria que ser construído do zero, no distante subúrbio de Marechal Deodoro. Já foi criada uma empresa para erguê-lo e administrá-lo, antes mesmo da prova ser transferida para a cidade. Não duvido nada que estejam rolando milhões nos bastidores. Enquanto isso, o Doria esperneia para manter a Fórmula 1 em São Paulo: o evento ainda é a maior atração turística paulistana, com faturamento superior à Parada Gay, ao carnaval e à Virada Cultural. Adoro ver o presidente e o governador em rota de colisão, e nesse caso eu torço pelo segundo. Mesmo sabendo que a Fórmula 1 está decadente, perdendo público e dinheiro no mundo inteiro. Mesmo com os helicópteros que não me deixam dormir no dia da corrida.

terça-feira, 25 de junho de 2019

CIRO NO PÉ

Tem como não amar o Ciro Gomes? Eu só votei nele no primeiro turno do ano passado porque parecia o mais capaz de derrotar o Bozo no segundo, e jamais concordei com todas as suas ideias - principalmente a relutância em reconhecer que há uma ditadura na Venezuela. Mas Cirão tem carisma de popstar, visão de estadista e coragem de jagunço. No Monring Show desta terça, na rádio Jovem Pan, ele voltou a chamar Fernando Holiday de capitão-do-mato e ainda juntou um "nazista" ao epíteto.  E isso porque Ciro já perdeu em primeira instância e com certeza vai enfrentar mais um processo. Como não amar esse cara-de-peste?

PETRA SOBRE PETRA


A turbulência política que se instaurou no Brasil desde as manifestações de 2013 já rendeu alguns documentários. Mas nenhum teve tanta repercussão quanto "Democracia em Vertigem", creio que por duas razões. A primeira é a Netflix: é muito mais fácil alguém ver esse tipo de filme em casa do que sair, pagar estacionamento, comprar ingresso caro e pipoca a 20 reais. A segunda é que a diretora Petra Costa consegue dar um tom bastante equilibrado, apesar de ter um ponto de vista claro (lembremos que cineasta não precisa ser imparcial e cinema não é jornalismo). A moça tem uma história de vida peculiar. Seu avô foi um dos fundadores da Andrade & Gutierrez, uma das maiores empreiteiras do país e frequentadora dos inquéritos da Lava-Jato. Já seus pais foram militantes de esquerda, que passaram um tempo no exílio. Na locução em off, a diretora assume com todas as letras que pertence à classe rica, e não endeusa Lula nem Dilma. Também consegue imagens históricas da intimidade dos dois ex-presidentes, jamais vistas em outro lugar. O tom didático explica o imbroglio brasileiro aos gringos, e "Democracia em Vertigem" já está cotado ao Oscar. Não traz novidades para quem acompanha o noticiário com atenção, mas serve como uma visão panorâmica dos últimos seis anos. É um filme interessante, a que se assiste com prazer. E ninguém é obrigado a concordar com a opinião de Petra Costa. Afinal, ainda somos uma democracia.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

SINAL VERDE

Eu estava esperando uma parada ultrapolitizada, cheia de gritos de guerra e performances ultrajantes. O que vi na Paulista foi uma festa de família, com crianças, gente educada e nenhuma baixaria. Não que eu seja contra: acho que parada gay pode, sim, ter algo de ultrajante. Mas este ano não teve. Sim, havia faixas  Lula Livre e camisetas #EleNão. Só que em clima de paz e amor, sem confrontação nem ressentimento. Foi então que eu percebi: melhor assim. A Parada do Orgulho LGBTQ+ de São Paulo já faz parte da rotina da cidade. Não é mais um evento disruptivo. É um carnaval temático, que tem muito a celebrar e muito pelo qual ainda lutar. O mais legal foi perceber que ninguém se amedrontou com as sandices homofóbicas do Bozo e seu entorno. Ficou claro que ele passará, e a Parada seguirá em frente. Até porque estamos chegando perto da de Nova York em número de patrocinadores: até que enfim descobriram que gay dá dinheiro, entre outras coisas. O lado chato foi ser atacado nas redes sociais por dois minions que eu nem conheço pessoalmente. Mas eu entendo a frustração deles. Esses boçais acham que elegeram um ditador, e que no dia seguinte as bichas, sapatas e trans voltariam para o armário. Como continuamos sambando na cara deles, apelaram para a violência verbal. Tô nem aí: palavras de estranhos não me ferem, ainda mais quando escritas com erros de português. E vamos em frente, como os bonequinhos que a Prefeitura colou nos semáforos.

A LUTA É UMA SÓ

Conheço o Dario Menezes há muitos anos. Ele foi editor do "Fantástico" e hoje atua como diretor e produtor independente. Ano passado, seu documentário "Abrindo o Armário" traçou um panorama interessante da homossexualidade masculina no Brasil. Este ano, Dario dedicou boa parte do primeiro semestre à matéria de quase 15 minutos exibida ontem pelo "Fantástico", sobre os 50 anos do levante de Stonewall e suas consequências sobre os direitos LGBT aqui no Brasil. Eu gravei meu depoimento em abril, e fiquei contente de ver que muita coisa foi aproveitada (é normal que se corte bastante, o tempo na TV é exíguo e precioso). A repercussão da reportagem está sendo, aham, fantástica: muita gente não sabia sequer da existência de Stonewall, o marco zero da nossa luta pela igualdade. Aliás, acho que vou parar de falar em "nossa luta" quando eu me referir às pautas LGBT. Como diz a Milly Lacombe no final da matéria, a luta é uma só: contra o racismo, contra o machismo, conta a homofobia. E as vítimas desses preconceitos não são só os negros, as mulheres ou os homossexuais. É a sociedade como um todo. Quanto mais gente se juntar, mais fácil cairá o muro.

domingo, 23 de junho de 2019

CARA E COROINHA


François Ozon é um dos meus cineastas favoritos. Vi todos os seus longas e tenho pelo menos dois - "8 Mulheres" e "Uma Nova Amiga" - na minha lista da ilha deserta. Por isto eu estava especialmente ansioso por "Graças a Deus", que estreou no Brasil depois de vencer um prêmio em Berlim e receber ótimas críticas da especializada. Mas acabei indo ao cinema em um mau dia. Eu estava muito cansado, com sono atrasado, e a austeridade do filme me derrubou. Ozon está sóbrio como nunca, sem um pingo de humor ou ironia. Quase ninguém ri em cena, quase não há música. E tem muita, mas muita, muita locução em off, por quase duas horas e meia. É interessante ver como ele retrata católicos fervorosos sem ridicularizá-los. Esses personagens deixam claro que querem denunciar os abusos de que sofreram quando crianças para ajudar a Igreja, não para destruí-la. Mas a própria Igreja não lhes dá ouvidos, seguindo a rota suicida que adotou há décadas e que nem o papa Francisco ainda conseguiu mudar. Só que o roteiro é pouco mais do que uma série de encontros e reuniões em fogo baixo, sem piques emocionais. Ser abusado por um padre é muito chato, claro, mas relatar esse abuso é quase tão chato quanto - e essa parece ser a mensagem que Ozon queria passar. Verei de novo na TV paga.

HOMOFOBIA IMATURA

Uma beleza a capa da Veja São Paulo dessa semana, que fala de um fenômeno comum mas que pouco aparece na mídia: pessoas que se assumem gays depois de terem casamentos heterossexuais e até filhos.  O texto reúne depoimentos em primeira pessoa que surpreendem pela banalidade (no bom sentido). Meu próprio marido foi casado com mulher por 12 anos antes de me conhecer, mas o caso dele não foi exatamente uma descoberta tardia. Também tenho um sobrinho que se separou da mulher depois de sete anos juntos, porque não aguentava mais levar uma vida dupla. Mas as reações no perfil no Instagram da Vejinha são de apavorar, como convém a esse tempos tenebrosos. No fundo, acho que a minionzada está "perplecta" pelo Brasil não ter se transformado em uma ditadura religiosa depois da eleição do Despreparado. Ainda existe dissenso, ainda existe diversidade e ninguém vai voltar para o armário. Mais fácil o Queiroz ser preso.

sábado, 22 de junho de 2019

AS AREIAS DO TEMPO

Minha obsessão deste fim de semana é cantora turca Melis Güven, que só canta sobre bases eletrônicas. Eu já conhecia "Zaman" ("Tempo") desde o ano passado, e agora não paro de ouvir a nova "Kum" ("Areia"). Pode ir, era só isto mesmo.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

ROLINHO PRIMAVERA


Estamos presenciando o surgimento de um novo subgênero cinematográfico: a comédia boba da Netflix. Filmes que seriam quase execráveis numa sala de cinema, mas até divertem no conforto do lar. Dizem que é o caso de "Mistério no Mediterrâneo", que eu só não vi ainda porque meu marido abomina o Adam Sandler. E também o de "Meu Eterno Talvez", que embarca na onda de "Podres de Ricos" com seu elenco quase todo oriental. A diretora Nanatchka Khan e o ator e roteirista Randall Park trabalham juntos na sitcom "Fresh Off the Boat", que não passa no Brasil mas já me fez rir muito em aviões. O longa não chega a tanto, mas tem seus bons momentos. A trama é óbvia. Namoradinhos de infância (ela é a comediante Ali Wong) se reencontram na vida adulta, e adivinha o que acontece? A melhor cena é com aquele que está pintando como o homem mais caliente de 2019: Keanu Reeves, que não só faz o papel de si mesmo como ainda tira sarro de si mesmo. Apesar de render algumas risadas, "Meu Eterno Talvez" tem aquele efeito-clichê da comida chinesa: depois de uma hora, a gente já está com fome outra vez.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

UM COMENTARISTA FANTÁSTICO

Um leitor fofo me acusou de cumplicidade na morte do Rubens Ewald Filho. Afinal, eu também defenderia a ideologia de gênero que tirou o comentarista do Oscar deste ano, fato que teria colaborado para o acidente que ele sofreu em uma escada rolante há pouco mais de um mês. Para quem não se lembra: durante a transmissão do Oscar de 2018 pela TNT, Rubens disse que a atriz trans chilena Daniela Vega "na verdade, é um rapaz". Abriram-se as portas do inferno, e o canal meio que o jogou para escanteio este ano: só comentários pré-gravados dele foram ao ar, para evitar acidentes. Eu só conhecia o Rubens de dizer oi e nunca privei da intimidade dele, então não posso dizer o quanto este episódio o afetou. Também acho que lhe faltou um teco de sensibilidade para os tempos que correm, mas a reação do tribunal da internet foi desproporcional. Eu mesmo já apanhei muito aqui no blog por usar "o travesti", algo que meu leitor fofo talvez desconheça. Não uso mais, por duas razões: 1) apesar do substantivo "travesti" ser masculino, a língua é um organismo vivo em perene mutação e blábláblá; 2) preguiça de brigar. Rubens era bem mais velho do que eu, então seu apego às antigas formulações devia ser ainda mais forte. É triste que o final de sua longa e ilustre carreira tenha sido marcado por esta derrapada. Mas é bom que agora, depois que ele se foi, seu nome ganhe ares de unanimidade. Um grande sujeito.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

FAZ TREMER TODA A RIBEIRA

Manda a Madonna de volta pro estúdio, porque a música portuguesa não para de avançar. A novidade do momento é a dupla Fado Bicha, que mereceu matéria na Ilustrada de anteontem. Hoje fui conferir o som dos gajos e adorei: o primeiro single, "O Namorico do André", é uma versão paneleira de "O Namorico da Rita", de Amália Rodrigues. Tem muito mais no YouTube deles, dando uma palhinha do que será o álbum. Já faz parte da minha trilha dessa semana do Orgulho LGBT+.

ARMINHA EMPERRADA

Biroliro se gabou de ter uma caneta mais poderosa do que todas as cinco toneladas do Rodrigo Maia. Tal artefato lhe permitiria legislar por decreto, sem passar pela chatice do Congresso, estabelecendo uma linha direta com a população. Mas não é bem assim: ontem o Senado metralhou o decreto do rearmamento, e mais pipocos devem vir da Câmara. De nada adiantaram as ameaças que alguns parlamentares receberam. Hoje tem minion mimimizando nas redes sociais, pedindo o fechamento do Congresso. É impressionante a quantidade de gente supostamente educada que não fazideia do funcionamento das instituições e achou que estava elegendo um ditador. Até o Bozo acreditou nisso, e eis aí o resultado: um tiro pela culatra atrás do outro.

terça-feira, 18 de junho de 2019

ARTISTAS EM CONSERVA

Pode ser artista e conservador ao mesmo tempo? Não, porque fazer arte é quebrar regras, é inovar. Pode menos ainda ser artista e burro. Alguém declarar apoio ao Bozo a esta altura, depois de quase seis meses de um governo patético, é sintoma de burrice em estado terminal. Mas Roberto Alvim e sua mulher Juliana Galdino passaram um recibo de estupidez ao convocar supostos artistas conservadores para um banco de dados, destinado a montar uma "máquina de guerra cultural". A única resposta possível a essa bobajada é a adesão em massa: vamos todos mandar nossos currículos para lá e infiltrar esse banco com abortistas, feministas, travestis, maconheiros  não-binários, comunistas e adeptos de sexo bizarro em geral. Ainda mais agora que a Lei Adney acabou, é a nossa chance de seguir mamando nas tetas do governo. Bora!

A FLOR PEITA O GIGANTE

Em 1989, a ditadura chinesa não teve o menor escrúpulo em promover um massacre na Praça da Paz Celestial, em Pequim, onde, havia meses, se concentravam manifestantes contra o regime. Por que não fizeram o mesmo agora, contra os milhões de pessoas que saíram às ruas de Hong Kong? Porque, antes de mais nada, seria um desastre de relações públicas. Num momento em que a China tenta se vender como uma potência benigna, que ajuda os países pobrezinhos a construir portos e estradas, pegaria muito mal uma nova chacina - ainda mais em uma ex-colônia inglesa, que culturalmente ainda faz parte do Ocidente. Segundo, porque tal repressão provocaria uma fuga de capitais. Hong Kong talvez deixasse de ser um pólo financeiro, e isto traria repercussões indesejadas para todo o sul da China. Nas últimas décadas, floresceram por lá megalópoles com Shenzhen e Guangzhou, mas Hong Kong é o centro, o esteio e a razão de ser dessa próspera região. Mesmo assim, não deixa de ser curioso ver os chineses enfiarem a viola no saco. A tal da lei que previa a deportação para o continente de criminosos da ilha tentou pegar carona num rumoroso caso de assassinato do ano passado, mas o povo de Hong Kong é gato escaldado e sentiu de longe o cheiro da tramoia. A flor que orna sua bandeira se mostrou, por enquanto, capaz de dobrar o gigante chinês. Mas por quanto tempo ainda?

segunda-feira, 17 de junho de 2019

SOLTA O PAVÃO

Educação, cultura, conhecimento, nada disso nunca foi o forte dos extremistas de direita. Até porque, se fosse, eles não seriam extremistas, n'est-ce pas? Mas a ignorância dessa manada atingiu um novo píncaro com o suposto "Show do Pavão", que agitou as redes sociais na tarde de ontem. A teoria da conspiração que garante que Jean Wyllys foi comprado por Glenn Greenwald e David Miranda cai gostosamente por terra aos pés de erros crassos de inglês, que os minions nunca estudaram direito. Mas aí já seria pedir demais de uma corja que acha que um ex-astrólogo que não concluiu o ensino médio seja um filósofo, ou que um deputado do baixo clero que passou 28 anos mamando nas tetas do governo e só aprovou dois projetos insignificantes seja a pessoa indicada para tirar o Brasil da crise.

DÓI MESMO


A única razão que justifica a França ter escolhido "Memórias da Dor" como seu candidato ao último Oscar de filme estrangeiro é o fato da história se passar no final da 2a. Guerra Mundial, quando os foram soltos os prisioneiros dos campos de concentração nazistas. Os diários de Marguerite Duras, que teve dois casos extraconjugais enquanto o marido, da Resistência, estava preso, servem de base para o roteiro - e acabam por afundá-lo, gerando um excesso de locução em off e longas passagens onde não acontece absolutamente nada. A fotografia escuríssima também depõe contra, e a participação discreta de Benjamin Biolay não compensa o esforço. "Memórias da Dor" me doeu mesmo: cansei de me mexer na cadeira, buscando uma posição.

domingo, 16 de junho de 2019

CORTEM-LHE A CABEÇA!

Biroliro é um líder execrável, sem grandeza humana nem a menor noção do que seja comandar uma equipe motivada. Sua mania de fritar em público seus próprios ministros vai custar caro: de ontem para hoje, pediram demissão o perigoso comunista Marcos Barbosa Pinto e também o sujeito que tentou infiltrá-lo no governo, o líder stalinista Joquim Levy. Tenho vontade de esfregar essa notícia na cara dos meus ex-amigos do mercado financeiro, que acharam tudo bem jogar os amigos gays no fogo porque, afinal, Paulo Guedes teria ampla autonomia para implantar a pauta liberal e transformar o Brasil numa potência econômica. A realidade é bem outra: Bozo governa feito a Rainha de Copas da Alice, aos gritos de "cortem-lhe a cabeça!" e nenhuma ideia na própria. Mas a fatura não vai demorar. Muita gente que se uniu ao Bostassauro já está se articulando para cair fora, haja vista o jantar para João Doria na casa de Paulo Marinho, no Rio de Janeiro. Até a mega-oportunista da Joice Hasselman foi.

sábado, 15 de junho de 2019

FAST FOOD DISFARÇADO DE SOUFFLÉ


As credenciais de "Greta" são impecáveis. É o primeiro longa de Neil Jordan, que dirigiu pérolas como "Mona Lisa" e "The Crying Game",  em mais de uma década. Também é um thriller estrelado por Isabelle Huppert. Mas o título genérico que o filme ganhou em português, "Obsessão", revela melhor sua verdadeira natureza: é uma obra descartável, com um roteiro que parece ter sido escrito por um comitê de computadores. Huppert empresta seu eterno ar de superioridade intelectual a uma viúva solitária que gosta de perseguir mocinhas com idade para serem seu filha. Chloê Grace Moretz, que faz uma jovem que perdeu a mãe há pouco tempo, parece a vítima perfeita. A ingenuidade da personagem até justifica alguns de seus erros óbvios, mas só até certo ponto. Moretz agora é uma mulher adulta e parruda, e bastaria um peteleco seu para nocautear sua stalker. "Greta", na verdade, é um filme rotineiro e banal, cujo diretor e elenco já fizeram coisas bem melhores. Bobo fui eu, que achei que esse Big Mac era uma iguaria.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

PRA QUÊ DISCUTIR COM MADAME


Confesso que eu estava com medo de me decepcionar com "Madame X". A princípio, eu esperava um álbum fortemente influenciado pela música que se ouve em Lisboa, cidade para onde Madonna se mudou há dois anos. Ela mesma cansou de postar vídeos onde surgia caracterizada de fadista ou curtindo um som em uma tasca na Alfama. Mas as primeiras cinco faixas divulgadas foram para outro lado. "Medellín" é gostosinha, "I Rise" e "Crave" são fofas, "Future" me fez gostar de reggae e "Dark Ballet" é a "Bohemian Rhapsody" de Madge. Mas, por melhores que sejam essas músicas, a lusofonia passa longe.

Só que o resto do disco é bem como eu queria, e até mais. Madonna canta em português o tempo todo, e os arranjos trazem guitarradas, funk carioca e até violinos da disco music setentista. O "Faz Gostoso" da Blaya, o maior hit português de 2018, agora ganhará o mundo com a ajuda de Anitta. "God Control" é sensacional, talvez minha favorita. E as letras politizadas são até um pouco óbvias, mas é um alívio não ver mais Madonna se fingindo de adolescente que brigou com o namoradinho. Pela primeira vez em anos, ela soa como o que realmente é: uma mulher inteligente, vivida, sexualmente ativa, no esplendor dos 60 anos. "Madame X" entra para o panteão dos grandes trabalhos de Madonna, ao lado de "Confessions on the Dancefloor", "Ray of Light" e "Like a Prayer".  Talvez também já seja o melhor álbum de 2019.

HOMEM À BEIRA DE ATAQUE DE NERVOS


"Dor e Glória", o novo filme de Pedro Almodóvar, é aquilo que a crítica americana chama de "flawed masterpiece": uma obra-prima imperfeita. O diretor espanhol quis produzir uma meditação sobre o envelhecimento, a solidão e a amargura. Pela primeira vez, lançou um filme claramente autobiográfico. Até o nome do protagonista é óbvio: Salvador Mallo, um quase-anagrama de Almodóvar. Mas o roteiro é meio frouxo e deixa algumas pontas soltas. Na primeira metade, há um personagem secundário que parece ser importante para a trama, um ator que encena um monólogo escrito por Mallo e o apresenta à heroína. Mas a função desse cara é só servir de escada para a chegada do ex-namorado do diretor, feito pelo argentino Leonardo Sbaraglia. Depois ele desaparece, e a droga também não acarreta maiores consquências. Mas o reencontro dos amantes é uma das melhores cenas da obra almodovariana: Banderas está simplesmente sublime, fazendo por merecer o prêmio de melhor ator que recebeu em Cannes e a indicação ao Oscar que talvez ainda receba. A outra sequência icônica é a da descoberta do desejo por Mallo ainda criança, quando ele desmaia ao ver um homem adulto nu pela primeira vez. Penélope Cruz está ótima como sempre como a mãe do protagonista, e pena que ela não tenha uma cena junto com Banderas. Almodóvar também sempre dá um jeito de incluir no elenco quem quer que seja que esteja caliente no momento na Espanha: dessa vez é a cantora de flamenco eletrônico Rosalía, que aparece lavando roupa no rio ao lado de Penélope. "Dor e Glória" talvez seja o filme mais sombrio e circunspecto da carreira do cineasta, mas tomara que não seja seu testamento artístico. A tu vera, a tu vera, siempre la verita tuya...

quinta-feira, 13 de junho de 2019

OITO A TRÊS

A criminalização da homofobia já tinha maioria para ser aprovada quando a votação foi retomada hoje no STF. Agora há pouco saiu o placar final: oito votos a favor, três contra. Não se repetiu a unanimidade que aprovou o casamento igualitário em 2011, mas, ainda assim, é uma vitória acachapante. E não se pode acusar os ministros Lewandowski, Dias Toffoli e Marco Aurélio de homofóbicos: eles também votaram a favor do casamento gay, oito anos atrás. Mas dessa vez preferiram declarar que essa competência cabe ao Congresso, que, no entanto, continua omisso. Aliás, se deixarmos para os nossos nobres deputados, a homofobia é capaz de se tornar obrigatória em todo o país. Na verdade, nenhuma religião sofrerá repressão alguma: se fôssemos ser rigorosos com todas elas, a Igreja Católica teria que ordenar mulheres, e as Testemunhas de Jeová não poderiam proibir as transfusões. Tenho até amigos gays que preferiam que o Supremo não se metesse nesse assunto, e eu respeito essa opinião. Mas sou do campo contrário, e hoje estou contente - ainda mais porque o casamento gay também foi aprovado pela Suprema Corte do Equador. Agora poderemos processar quem nos xinga!

GOL DE PEPECA

Que tal a capa do "Charlie Hebdo" desta semana? O desenho em "homenagem" à Copa do Mundo de futebol feminino, que acontece na França, está causando bafafá nas redes sociais - ça va sans dire. Muita gente achou nojenta, machista, irritante e por aí vai. Concordo (mais ou menos) com os críticos em um ponto: por que sempre se apela para o sexo quando o assunto é mulher? Por outro lado, o "Charlie" é aquele jornal que já pôs na capa o Pai, o Filho e o Espírito Santo se enrabando mutuamente. E claro que não dá para esquecer do atentado de 2015, que matou alguns de seus melhores cartunistas por causa de piadinhas com Maomé. Eu penso o seguinte: se podemos brincar com a religião, então também podemos brincar com qualquer coisa. Fora que eu faço uma leitura progressista dessa capa. Vejo o clitóris sendo comparado a um golaço. Em-po-de-ra-men-to! Pois é, je suis toujours Charlie.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA

A repugnante Joice Hasselman chama David Miranda de "marido", com aspas, de Glenn Greenwald. A minionzada está chafurdando na homofobia para atacar o casal, e até circulou um vídeo de Miranda sambando sem camisa, sem perceber que isto, na verdade, conta pontos para o deputado. Mais graves são as ameaças de morte: devem ser blefe, mas o assassinato de Marielle Franco já mostrou do que os milicianos são capazes. E mais patética é a hashtag #DeportaGreenwald. O jornalista do The Intercept tem filhos brasileiros (sim, são seus filhos na letra da lei) e não seria deportado facilmente nem se tivesse cometido um crime. Mas não cometeu: só expôs a hipocrisia de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Pode-se até discordar das ideias políticas de Greenwald e Miranda: eu, por exemplo, estou bem mais ao centro do que eles. Mas não se pode por em dúvida o casamento dos dois, nem o fato de que tiraram dois meninos de um orfanato para criá-los com todo amor. Quem faz isto é  covarde. Mas desde quando a coragem é algo inerente aos bostominions?