terça-feira, 18 de setembro de 2018

DONA DA PORRA NENHUMA

Vários artistas já aderiram à campanha #EleNão. Na música, contamos com o apoio de militantes históricas da causa LGBT como Marina Lima ou Daniela Mercury. Mas também tem algumas cantoras que preferem não se posicionar. É o caso de Anitta, Ludmila e Valesca Popozuda. Direito delas: no Brasil que eu quero para o futuro, o voto é facultativo. Só que tem uma coisa. Todas as três citadas têm um enorme público gay, e volta e meia são coroadas como rainhas de paradas e similares. Devemos deixar claro para elas que só isto não basta. Rainha de verdade defende os súditos e lidera as tropas contra o inimigo. Não fica só batendo cabelo em cima do trio elétrico. TEM QUE DAR A CARA PARA BATER, SIM. Se não, não é rainha de nada. Devolve a coroa e o cetro, e volta para o limbo de onde você nunca saiu.

TUDO RESOLVIDO

Não vou me alongar muito aqui sobre a entrega dos Emmys, que aconteceu na noite de ontem. Ela é o assunto da minha coluna de hoje no F5. Só quero compartilhar o número de abertura, muito mais comedido do que o de outros anos. Mas a mensagem é da hora: a televisão precisa espelhar a sociedade. Nos Estados Unidos isto está quase resolvido (e não tudo, como a própria canção admite mais para o fim). Aqui no Brasil, depois do barulho em torno do elenco quase todo branco de "Segundo Sol", esperamos novidades em breve. Ou não?

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

SOON-YI OR LATER

Já defendi tantas vezes o Woody Allen, aqui no blog e na minha coluna no F5, que não vou ficar me repetindo. Só um pouquinho: nunca acreditei que ele teria abusado de sua filha adotiva Dylan quando esta tinha apenas sete anos. Muito mais plausível é Mia Farrow ter plantado uma lembrança falsa na cabecinha da garota, machucada que estava por ter sido trocada por outra filha, Soon-Yi. Esta semana a sempre discreta coreana finalmente abriu a boca, em uma longa entrevista para o site Vulture. Leia, se você entende inglês. Só acrescento que concordo com tudo. E que estou puto com a Amazon, que cancelou o lançamento do novo filme de Woody, "A Rainy Day in New York". Que, para aumentar minha dor, tem Timothée Chalamet no elenco.

FREMDSCHÄMEN

Pelo menos há um lado engraçado nos ataques que a extrema-direita vem promovendo na internet: eles sempre são pegos de calças curtas, feito crianças que passam trotes fingindo que são adultas. Sofreram um vexame coletivo ao implicar com o vídeo produzido pela embaixada da Alemanha, onde se explica que o nazismo é, sim, de direita - como se um bando de toscos brasileiros entendesse mais da história alemã do que os próprios alemães. Foi, sim, um enorme fremdschämen (vergonha alheia), como bem disse o site brasileiro do jornal "El País". Outro fiasco foram as fake news de que o grupo Mulheres Unidas Contra Bolsonaro era uma fraude, o que foi espalhado até por um dos filhos genéricos do Bostonaro. Fraude para valer foi o que fizeram alguns dos apoiadores do inominável, ao hackear o grupo, mudar seu nome e até ameaçar suas administradoras. Mas essa turma não tem escrúpulo, haja vista o áudio em que alguém imita o padre Marcelo dizendo que apoia o Bozo. O próprio padre precisou vir a público esclarecer que não é ele. Golpes como esses só pregam aos convertidos e não ajudam a diminuir a rejeição recorde do protofascista. Mas servem para tumultuar ainda mais esta eleição. Que vergonha, mein Gott.

domingo, 16 de setembro de 2018

IRMÃZINHA QUERIDA


Uma das irmãs é uma estrela de cinema, dada a pirraças de diva. A outra também é atriz, mas só consegue trabalhos de dublagem. Com dificuldade para decorar textos, a famosa contrata a anônima para ser sua "coach" em um set de filmagem. É assim que começa "Carnívoras", um bom trhiller psicológico e mais uma variação do plot sobre inveja e puxadas de tapete que consagrou "A Malvada". Um dado interessante é que tanto as personagens quanto as atrizes que as interpretam são de origem árabe, mas isto não tem a menor importância no roteiro. Outra curiosidade é que os diretores também são irmãos - um é um ator conhecido, Jérémie Rennier (de "Cloclo"), e o outro, Yannick, não. Então só digo uma coisa: fica esperto, Jérémie.

sábado, 15 de setembro de 2018

RECONECTADO

Quase seis anos depois de ter saído de agência, eis-me de volta à propaganda. E de um jeito mais contemporâneo: fazendo storytelling no YouTube (e também sem carteira assinada, hehe - foi um freela, mas outros já estão vindo). Trabalhei na campanha "Reconectados" da Samsung junto com o pessoal da filial brasileira do The Story Lab, a mais importante agência de storytelling do mundo, e foi um dos jobs mais prazerosos de toda a minha carreira. Dos três episódios da série, este é o mais "meu", mas meti o bedelho em todos. Agora só falta voltar a ganhar bem.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

NENHUMA RAZÃO POR QUÊ


Não está sendo um bom ano para o cinema brasileiro,. O melhor filme que eu vi até agora foi "Benzinho", que é muito bem feitinho, mas não é nenhuma obra-prima. E mesmo assim devia ter ganho o Festival de Gramado, de onde saiu com vários prêmios - menos o principal. Essa glória foi para "Ferrugem", que trata de um dos temas da moda: o bullying por causa de um vídeo vazado, que resulta em um suicídio. Sim, é meio a trama de "13 Reasons Why", mas feita de um jeito leeento, com looongos silêncios e nenhuma música (outra moda que me dá nos nervos). Nenhum ator está bem - nem o geralmente ótimo Chico Diaz - e os adolescentes são uns poços de inexpressividade. Pelo menos não há maniqueísmo no roteiro, mas isto ainda é pouco. E por que o título "Ferrugem"?

QUEM QUE ELES PENSAM QUE ENGANAM?

A campanha do Bostonazi está adotando uma tática manjada, muito usada pelos evangélicos do mal: o clima de rolo compressor, de vitória inevitável, de já-ganhou. Divulgam pesquisas falsas, como a de que o Bozo já teria 45% das intenções de voto, e espalham que alguns gays estariam recebendo dinheiro para fazer campanha pelo Ciro Gomes - sim, porque o certo seria não apoiarmos quem nos apoia e votar em quem nos odeia, não é mesmo? 

Mas a realidade insiste em se impor. Nos últimos dias, cresceu uma tsunami de rejeição ao Bonoro na internet, com grupos de repúdio pipocando no Facebook e manifestações sendo convocadas para a semana que vem. A reação dos minions é a de sempre: andam mentindo por aí que o Mulheres Unidas Contra Bolsonaro, por exemplo, seria a página Gina Indelicada (ou a Gina Sincera, segundo outra versão) que teria mudado de nome - um truque sujo que diversos grupos de extrema-direita já fizeram outras vezes. É mentira, é claro, como mostra o Catraca Livre. No mais, para quem quiser sair de qualquer grupo, basta clicar em sair. E esses grupos antifascistas só crescem.

Um sintoma do desespero que começa a bater no lado de lá é o vídeo divulgado hoje, em que o Boçalnaro aparece abraçando o folclórico Amin Khader. Isto "provaria" que o candidato não é homofóbico... Mas o próprio Amin derruba sem querer a prova, ao dizer que o Bonoro "só não gosta daquela cartilha que inventaram". Isto é homofobia, é óbvio. Nenhum simpatizante da causa dos direitos igualitários vai se deixar enganar. Mas não é com eles que este vídeo está falando: é com os minions que precisam se convencer de que o candidato deles não é machista, racista, homofóbico e totalmente despreparado. Solonorabo precisa segurar os apoiadores que já tem, porque não está conquistando novos.

Temos que aguentar firmes. Resistir aos memes que desqualificam as pesquisas sérias, porque é isto o que os protofascistas querem nos fazer acreditar. Aderir ao maior número de grupos possíveis, para mostrar força numérica. E comparecer aos atos programados, SIM. Já vi gente boa dizendo que a presença nessas manifestações só daria mais visibilidade ao inominável. Pois eu já acho o contrário: dá visibilidade à rejeição que ele tem, tão negada por seus bajuladores. Bora pras ruas, bora pras urnas, bora nos unir contra os inimigos da democracia.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

OL-VI-DÉ CAN-CE-LAR EL MA-RIA-CHI

Quem estiver vendo "La Casa de las Flores" já tem uma nova paixão: Paulina de la Mora, a socialite de fala arrastada. No México, então, ela é a nova rainha dos memes. A série da Netflix é uma sátira impiedosa às telenovelas de lá, mas o curioso dialeto de Paulina não estava no roteiro original. Foi só no segundo episódio que a atriz Cecilia Suárez deu essa característica à personagem - e o diretor Manolo Caro gostou tanto que tiveram que dublar todas as cenas já gravadas. Mas por que Pau-li-na fa-la as-sim? Este vídeo aqui tem uma boa explicação: é porque ela toma Alprazolam, um medicamento contra ataques de ansiedade. Só que isto nunca é visto em cena. En-ten-de-do-res en-ten-de-rão.

DIAS DE TOFFOLI

Como será a gestão de Dias Toffoli à frente do Supremo? Dada a ligação histórica dele com o PT, não espero muita coisa. Por isto mesmo, acho que não vou me decepcionar como aconteceu com Cármen Lúcia. A ministra deixa a presidência do STF tendo comido um frango monumental, que, caso defendido, poderia ter mudado o curso da história do Brasil: ela pegou leve com Aécio Neves, e tudo segue como dantes no quartel de Abrantes. Não acho que Toffoli irá soltar Lula no primeiro dia, mas, ao lado de Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, ele é um garantista no momento em que o Brasil mais precisa de rigor contra os poderosos. Vamos ver como se comporta.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

UNIDOS VENCEREMOS

Vamos precisar de disciplina e determinação inéditas para derrotarmos o fascismo nessas eleições. Está ficando cada vez mais claro que o voto útil será necessário já no primeiro turno. Em português claro: Fernando Haddad é, dos quatro candidatos competitivos, o que tem mais chance de ser baitdo pelo Bostonazi no segundo turno, dado o antipetismo de boa parte da população. Mas, para a gente combinar o voto, antes é preciso conversar. Por isto, acho essencial se unir a um ou mais grupos que vêm brotando no Facebook. O mais vistoso é o Mulheres Unidas Contra Bolsonaro, que só ontem ganhou  meio milhão de adeptas.

Na esteira desse grupo surgiu o LGBTS contra Bolsonaro, que ressuscistou o S de simpatizante: não é preciso ser LGBT para aderir. Neste eu já me inscrevi, e quase adicionei amigos sem consultá-los. Mas me contive a tempo: odeio quando fazem isto comigo, então não farei com os outros. Fica aqui o convite.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

BYE BYE BIBI

Vi mais Bibi Ferreira de 2013 para cá do que em toda a minha vida anterior. Todo ano ela lançava um novo show, esbanjando vitalidade no palco. Cheguei a pensar que ela se alimentasse do sangue de virgens; cheguei a pensar que ela iria me enterrar. Talvez até enterre, mas não a verei mais em cena. Bibi anunciou ontem sua aposentadoria, aos 96 anos de idade. Depois de algumas internações, ela decidiu que está na hora de parar, mesmo não tendo nenhuma doença grave. Eu só tenho a agradecer por ela ter nos aturado tanto tempo. E fico feliz de viver num tempo em que muita gente trabalha à toda até quase fazer 100 anos. Além da Bibi, lembro do Tony Bennett (que está com 92) e do Charles Aznavour (94), ambos ainda em atividade. Quero chegar lá. E quero que a Bbi me enterre.

FACADA NA CARNE

Então a facada que o Bolsonazi levou na quinta passada foi só isto mesmo: uma facada. Não foi um atentado contra a democracia, não serviu de impulso para ele disparar nas pesquisas, não o transformou em um mártir. Funcionou, no máximo, para que o voto envergonhado nele saísse à luz do dia. Segundo o Datafolha, o candidato do PSL cresceu só dois pontos desde 20 de agosto, dentro da margem de erro. Ao que tudo indica, bateu no teto: seus seguidores são fiéis, mas também são antigos. Ele não está conquistando novos adeptos. Também, pudera: as declarações belicosas de seu entorno e, principalmente, a foto de sábado na cama do hospital, só confirmaram que o Bozo não tem ideias para além do discurso de ódio. Mesmo assim, é provável que ele passe ao segundo turno. O que pode gerar uma briga feia no pelotão de trás: não duvido que o Haddad, por exemplo, agora pegue beeem pesado com o Ciro, numa daquelas campanhas elegantes que o PT sabe tão bem fazer. Mas, por enquanto, vou me refestelar na boa notícia. O Bonoro perde para todos no segundo turno. Isso deve doer muito.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

EU HOJE VOU LHE USAR

Está subindo uma onda nas minhas redes sociais: o voto útil em Ciro Gomes, já no primeiro turno. Acho até que eu vou aderir. Algumas razões para tanto: 

1) Ciro tem carisma, propostas claras e apelo popular. Seu plano de tirar os devedores do SPC é exequível, fácil de entender e bom para a economia.

2) Ciro não tem a mesma rejeição que o PT amarga por aí. Vi muita gente razoável dizendo que prefere votar no Bostonazi do que reconduzir os petistas ao poder, tamanha a ojeriza causada pelos anos de Lula e Dilma no Planalto.

3) Ciro é nordestino e bastante conhecido na região. Acho mais fácil o pessoal de lá votar nele do que no "Andrade", que parece um frio tecnocrata perto do Cirão.

4) Ciro tem Katia Abreu como vice, o que atrai votos à direita. A vice do Haddad é Manuela d'Ávila. O fato dela ser comunista é um prato feito para os minions.

5) Ciro é um fofo. Nenhum outro candidato gera GIFs como esse lá de cima.

Nada disso significa que Ciro seja o candidato dos meus sonhos. Mas eu não sonho mais com candidato: tenho quilometragem o bastante para saber que ninguém é santo na política e que o presidente ideal não existe. Além disso, no momento em que o Brasil periga eleger um neofascista, Ciro Gomes se torna uma alternativa mais do que razoável. Fora que a primeira a correr para os braços dele será a minha preferida no momento, Marina Silva. Então, galera, bora cirar?

NAVALHA NA ALMA

Consegui a façanha de chegar à idade que tenho sem nunca ter visto "Navalha na Carne", talvez a peça brasileira mais montada de todos os tempos. Essa lacuna no meu currículo foi preenchida ontem, graças à encenação de Gustavo Wabner esterlada por Luisa Thiré. A atriz homenageia sua avó, Tonia Carrero, que deu uma guinada na carreira ao interpretar, em 1968, a prostituta Neusa Sueli, sem nada do glamour que a tornou famosa. O texto tem mais de 50 anos, mas continua atualíssimo: em um quarto de bordel, uma puta, seu cafetão e a bicha que faz a faxina brigam por dinheiro e por amor. E o espetáculo faz jus à importância de seus antepassados: cenário, figurinos, iluminação, elenco, tudo funciona direitinho, com momentos de tirar o fôlego e outros de partir o coração. Como uma criança que tapa os ouvidos quando vê um canhão entrar em cena, eu passei o tempo todo ansioso, à espera do momento em que uma navalhada rasgaria a pele de um dos personagens. Mal sabia eu que esse ferimento seria ainda mais profundo do que sugere o título da peça.

domingo, 9 de setembro de 2018

UN POINT DANS L'UNIVERS


Hoje eu acordei com la dégoûtée de ce monde: não quer saber de treta. O dia está lindo, eu estou com saúde e tenho uma pia de louça para lavar. Ao invés de brigar com estranhos nas redes sociais, estou mais a fim de mergulhar no novo single da minha ídola Mylène Farmer, um dueto com LP. Como muita gente, achei que LP fosse um homem: a aparência e a voz, meio de desenho animado, me levaram a esse engano. Mas trata-se de Laura Pergolizzi, uma artista americana que está por aí há anos e só agora eu tomei conhecimento dela. Já estou indo atrás de sua obra pregressa, e gostando muito. "N'Oublie Pas" é só um aperitivo do novo álbum de Mylène, "Désobéissance", que sai dia 28. Não posso me esquecer de me lembrar.

sábado, 8 de setembro de 2018

SEM A AJUDA DE APARELHOS

Acho que as campanhas adversárias não precisam suavizar seus discursos. Porque o próprio Bostonazi não suavizou: olha ele aí todo pimpão, já disseminando ódio sem a ajuda de aparelhos. O fato é que o Bozo sempre foi o maior inimigo de si mesmo, dispensando facadas de terceiros. Inclusive já circula um estudo mostrando que muita gente não dissocia o atentado do discurso intolerante do candidato; não é preciso ser um gênio para entender que violência gera violência. Não duvido que esta foto diminua bastante a eventual simpatia que o Solnorabo teria angariado nos últimos dias. Somem-se a isto as declarações belicosas de seus correligionários, e vamos ver o que dirá a pesquisa que sai na segunda-feira.

WE DON'T NEED NO EDUCATION

Ofuscada por chamas e facadas, tem uma discussão rolando no Supremo que merecia maior atenção. Anteontem, o relator do caso, o juiz Luís Roberto Barroso votou pela constitucionalidade do chamado "homeschooling". De fato, não há nada na Constituição que proíba explicitamente que os pais tirem um filho da escola para educá-lo em casa. Este assunto mal existia em 1988, quando a lei foi escrita, mas vem crescendo de importância. A moda começou entre fundamentalistas religiosos dos Estados Unidos, e chegou até aqui. Temendo que os filhos sejam contaminados pelo mundo secular - ou seja, expostos ao evolucionismo e à igualdade de direitos - esses malucos privam-nos do convívio com outras crianças, impedindo-os de fazer amigos e de se preparar para as relações da vida adulta. No limite, podem estar criando malucos ainda mais perigosos. Mas como reagir ao avanço dessa barbaridade? A lei não sobrepõe os interesses da criança aos direitos dos pais? Vamos ver como vota o resto do STF.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

MARVIN, AGORA É SÓ VOCÊ

Toda bicha que sofre bullying no colégio e/ou teve uma família incompreensiva vai se identificar com o protagonista do filme francês "Marvin". Nascido em um lar proletário em uma cidade do interior, ele sofre pacas até descobrir sua vocação para o teatro e se mandar, seguindo de perto a letra da canção dos Titãs. Em Paris, as aventuras continuam: Marvin conhece um senhor que o ajuda e o apresenta para... Isabelle Huppert, no papel de si mesma. Tudo isto fora de ordem, em uma narrativa não-linear que em nada prejudica o interesse pela história (inclusive porque o ator Finnegan Oldfield, indicado ao César de revelação masculina, dá uma ajudinha). "Marvin" não é um filme espetacular, mas comigo aconteceu uma coisa raríssima: não chequei as horas nenhuma vez.

ANDRADE

Eu gosto do Fernando Haddad. Não votei nele em 2012, mas mudei de ideia em 2016. Foi um bom prefeito de São Paulo. Descuidou um pouco da zeladoria, é verdade - mas saneou as contas da cidade, o que é uma façanha e tanto. Haddad é, de longe, o quadro mais preparado do seu partido (é só conferir seu currículo). Além do mais, as acusações contra ele são ralas e têm cheiro de eleitoreiras. Claro que a reboque vem o PT e sua sanha por propinas, sítios e triplexes. Mas sou infinitamente mais propenso a votar no "Andrade", como dizem alguns nordestinos que mal o conhecem, do que em Lula, dono de um discurso divisivo. E voto nele sem piscar se for ao segundo turno contra o Bostonaro. Mas vai ser uma ironia e tanto se, depois das passeatas de 2013, do impeachment e da ascensão da direita raivosa, o mesmo partido que venceu as últimas quatro eleições presidenciais vencer mais esta também. Não era bem isso o que eu queria, mas ainda é melhor do que um protofascista no Planalto.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

QUEM COM FERRO FERE

A eleição mais louca de todos os tempos descambou de vez? Ou vai haver algum tipo de acomodação, agora que Lula não pode mesmo continuar candidato e Bolsonazi não pode mais continuar viajando? Não, não vou mudar a maneira como eu chamo o candidato do PSL: não é porque ele foi esfaqueado que suas ideias de repente ficaram cheirosas. Mas este atentado, aumenta as chances dele, ou não interfere? Duvido que alguém decida votar nele por causa da facada, mas o que está acontecendo é tão inédito que não me atrevo a arriscar um palpite. Vou esperar pelas próximas pesquisas. Por enquanto, rezo muito, mas pelo Brasil. Oremos.

LODESTAR

Na mesma semana em que saiu o livro do Bob Woodward devastando sua presidência, Donald Trump levou uma porrada anda mais certeira. O "New York Times" publicou ontem um op-ed anônimo, supostamente escrito por alguém de dentro da Casa Branca. É raríssimo que um jornal de grande porte faça algo assim: o NYT diz saber de quem se trata, e a gravidade das acusações justificaria a publicação. O texto diz, apenas, que boa parte dos assessores de Trump tem plena consciência de que ele é um amoral irresponsável e imprevisível, e que eles trabalham para reduzir os danos. O bebê chorão alaranjado está furioso, claro, e quer descobrir logo quem é o traíra. Talvez já tenham descoberto: no meio do texto está a palavra "lodestar", um termo antigo que significa estrela-guia, usado frequentemente pelo vice-presidente Mike Pence. Sim, o número 2 do governo, que estaria tentando se tornar o número 1 - que nem seu colega brasileiro, que pelo menos não se escondeu no anonimato. Também já tem gente dizendo que a palavra pode ter sido incluída de propósito, para despistar. Mas é difícil negar que está se formando uma tempestade perfeita ao redor de Trump. Que pode eclodir em todo som e fúria em novembro, quando os democratas vencerem as eleições.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

MINHA MALVADA FAVORITA

Tive a sorte de ver Beatriz Segall algumas vezes no teatro. Tive mais sorte ainda quando a conheci pessoalmente: ela participou de um "Video Show" em 2014, na época em que eu trabalhei na Globo. O programa era um especial sobre vilões, e claro que ela era o primeiro nome que vinha à cabeça quando surgia esse assunto - ou melhor, vinha sua avatar, Odete Roitman. Depois de muito tempo tentando se distanciar da personagem, àquela altura Beatriz já tinha se dado conta da importância que Odete tinha na história da televisão brasileira. Conversamos um pouquinho no camarim, e claro que ela não escapou de uma selfie comigo. Sua morte não foi uma surpresa: Beatriz já andava doente há algum tempo. É mais uma grande dama que se vai, no sentido amplo do termo. Que sorte que tivemos nós todos.

(mais sobre Beatriz Segall aqui, na minha coluna de hoje no F5)

terça-feira, 4 de setembro de 2018

DÁ A CHUPETA PRO BEBÊ NÃO CHORAR

Reparou que os bolsominions têm a segurança emocional de um bebê de cinco meses? É só fazer um barulho mais forte que eles desatam num pranto convulso, desses que a gente têm que levá-los para passear de carro para voltarem a fazer naninha. Os nenês caíram num choro coletivo quando o cruel Marcelo Adnet divulgou seu vídeo satirizando o Bolsonazi, e ameaçaram contar tudo para a tia. Cata só o contraste: esta semana o Adnet lançou um vídeo em que imita o Ciro Gomes, que o próprio Ciro compartilhou em suas redes sociais. Ontem eu questionei na minha coluna no F5 se o rompimento do Pabllo "Vital" com a Victor Vicenzza traria algum prejuízo financeiro para a marca - veja bem: questionei - e os crybabies me xingaram de feio, bobo e mau. Mas esse berreiro tem hora para acabar. É só a gente parar de frescura e se unir em torno de dois candidatos fortes. Veja bem: dois. O suficiente para deixar os pele-fina fora do segundo turno.

DONDE ESTÁS AHORA, CUÑATAÍ


"As Herdeiras" se passa no Paraguai, o que pode até passar desapercebido. O filme tem poucas externas, e os personagens pouco falam do país em que vivem. A única referência mais explícita acontece nos créditos finais, que rolam ao som de "Recuerdo de Ipacaraí". É um pouco como tocar "Aquarela do Brasil" no fim de um longa brasileiro, mas a letra da mais célebre das guarânias têm mesmo a ver com a história. Duas mulheres de meia idade vivem juntas em uma mansão antiga; nada fica muito explicitado, mas elas estão juntas há 30 anos. Também sem muita explicação, uma vai em cana, acusada de fraude, enquanto a outra põe móveis e objetos para vender e trabalha como motorista particular para outras senhoras endinheiradas. Quase que só há mulheres em cena: o único homem com falas é o atendente de uma barraca de cachorro-quente. E assim, sem trilha sonora e com cenas aparentemente banais, vai-se construindo o retrato de uma senhora tímida, que aos poucos desperta para a vida. Quem, afinal, é a verdadeira prisioneira? A que está atrás das grades, ou a que ficou em casa tomando conta de tudo? Pena que esse dilema interessante se dilua na letargia.