domingo, 17 de janeiro de 2021

UMA FACADA BEM DADA

Vê se aprende, Adélio Bispo. Não adianta matar o Bozo fisicamente. Isso só criaria um mártir. Tem que expor o despreparo do Despreparado, sua pulsão de morte, seu desprezo pela vida. Hoje, o governador  João Doria apunhalou Biroliro em seu ponto mais fraco: a incompetência. E de um jeito que está sendo impossível para a minionzada distorcer a narrativa. "Ãin, golpe de marketing". Doria tem todo o direito de se refestelar sobre esta conquista: ele trabalhou, correu atrás e não gastou um tostão de dinheiro federal. Já o Mijair faz marketing vazio (e perigoso) quando vai comer pastel na feira e provoca aglomeração. "A vacinação foi ilegal, a aprovação da Anvisa tinha que ser publicada antes no Diário Oficial". Nananina: a enfermeira Mônica Calazans foi uma das voluntárias que participaram dos testes da Coronavac no Brasil. Ela tomou o placebo, portanto tinha o direito de tomar agora a dose correta. A mulher foi muitíssimo bem escolhida. Além de profissional da saúde, negra, de origem humilde, obesa, diabética e hipertensa, ela ainda é super articulada, dessas que caíram no caldeirão do media training quando pequenas. O marketing implacável de Doria também já vacinou a primeira indígena, uma enfermeira, e amanhã vai enviar 50 mil doses para - adivinha? - Manaus. Enquanto isso, o general Capachuello gaguejou na coletiva, e o Pau Fino ninguém sabe, ninguém viu. Hoje é um dia histórico. Dia D de Doria, hora H de Hospital das Clínicas. De humilhar o gado. Hoje começou a cair o desgoverno Edaír Biroliro.

FINAL DE CAMPEONATO

Eu não sabia, mas as reuniões da diretoria da Anvisa são transmitidas ao vivo há mais de 10 anos. Precisou surgir uma pandemia e uma guerra política pela primazia da vacina para que a deste domingo, que está em andamento no momento em que escrevo este post, para que o país inteiro se interessasse. Parece uma final da Libertadores com time brasileiro. O debate vai levar cinco horas, e temo pelo resultado. Porque todos os cinco diretores foram indicados por Biroliro para seus cargos. E o Pau Fino, como sabemos, jamais se furtou a tentar interferir nos órgãos sob seu comando. Deixemos de lado o imunizante da Oxford/AstraZeneca. Mesmo que ele seja aprovado, não começará a ser aplicado tão cedo aqui no Brasil, e não há nenhum obstáculo político para sua aprovação. A "vachina do Doria" é outra história. Depois do fiasco do avião que iria à Índia, agora o desgoverno quer confiscar todas as seis milhões de doses já em posse do Instituto Butantan, para dar ao Pandemito a chance de aparecer na foto da primeira vacinação brasileira. Isso pode facilitar sua aprovação. Por outro lado, não duvido nada que a Coronavac seja reprovada - ou, mais provável, que tenha sua aprovação adiada em mais alguns dias ou semanas. Tudo para dar tempo das vacinas da Serum chegarem ao Brasil. É asqueroso que um assunto tão grave, que envolve a vida de milhões de pessoas, tenha se tornado um cavalo de batalha para o Biroliro e o general Capachuello. Mas não é surpresa: afinal, essa dupla dinâmica deixou acabar o oxigênio do Amazonas, apesar dos inúmeros avisos, e continua apregoando o imaginário "tratamento precoce", o novo nome do gado para a cloroquina. Deus ilumine os cinco diretores da Anvisa, Deus proteja todos nós. Por que não há mais ninguém para nos proteger.

ATUALIZAÇÃO: Eu estava enganado, felizmente. Toda a apresentação dos argumentos foi corretíssima, e ambas as vacinas foram aprovadas por unanimidade. Só não foram votos estritamente técnicos porque um dos diretores,Alex Campos, ainda esfregou a cara do Pandemito no cascalho, lembrando que não existe medicação comprovada contra a Covid-19 e criticando a incúria do desgoverno. Bem feito!

sábado, 16 de janeiro de 2021

WE ARE THE GADO

...we are the minions... Quis a Deusa que Bia Kicis e sua gangue de negacionistas criminosos divulgassem o vídeo de "Brasil Vencendo a Covid-19" na mesma semana em que o oxigênio acabou em Manaus e bebês prematuros estão sendo despachados às pressas para outros estados da federação. O clipe acima, que conta até com a participação da juíza que ensina a tomar sorvete para não usar máscara, é de virar o estômago, é de chamar o Juca, é de dar engulhos. É um dos pontos mais baixos da história da humanidade. O pior é que tem até médico participando dessa suruba de ignorância e má-fé. Pena que cada um deles não seja identificado por nome, RG e CPF, porque isso facilitaria quando esse desgoverno incompetente finalmente cair, para irem todos direto ao paredão de fuzilamento. Talvez morram antes, de Covid-19.

WANDARFUL

Já faz uma década que a Marvel se tornou a força mais titânica do cinema mundial. Desde que foi comprada pela Disney, os filmes da produtora costumam fazer um bilhão de dólares nas bilheterias, e os fãs mais aguerridos vão para a fila fantasiados, dispostos a virar a noite ao relento. Todo o planeta está dominado! Todo? Não. Um irredutível brasileiro ainda resiste aos filmes de super-herói, que ele só assiste quando se tornam fenômenos culturais incontornáveis como "Pantera Negra". Os executivos da Disney devem ter percebido a minha existência, e traçaram uma estratégia implacável para me seduzir. "WandaVision", a primeira série original da Marvel para a plataforma Disney +, parece ter sido calibrada tendo em mente um único espectador: euzinho. A primeira temporada vai desapontar os fãs hardcore do gênero, porque escapa de todos os clichês. É, na verdade, uma gozação-homenagem à história da televisão. Os dois primeiros episódios são em preto-e-branco, e satirizam, cada um deles, uma sitcom seminal: "I Love Lucy", dos anos 1950, e "A Feiticeira", dos 1960. Cenários, trilhas sonoras e até créditos de abertura são reproduzidos com fidelidade. Sem falar no ritmo dos atores e no camera blocking, típicos daquela época. Desnecessário dizer que eu a-do-rei. Mas tive que ir à Wikipedia para entender que a Feiticeira Escarlate, que já foi dos X-Men, criou uma realidade alternativa para viver seu casamento com Vision, um andróide criado no filme dos Vingadores de 2015. Whatever: o que importa é que "WandaVision" é um dos programas mais sofisticados e divertidos de 2021, com atuações primorosas, direção de arte impecável e roteiro à prova de bala.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

ELE SÓ PENSA... NAQUILO

Não basta um presidente poltrão, cujo pseudo-guru vomita imundícies nas redes sociais. O filho Zero-Dois, segundo vereador mais votado do Rio de Janeiro mesmo faltando a quase todas as sessões, também é do mesmo baixo calão do pai e sua entourage de milicianos. Para tirar sarro do panelaço marcado para as 20h30 desta sexta, Carluxo achou que seria excelente ideia postar o vídeo acima no Twitter. Impressionante como ele não percebe que o tiro sai pela culatra, ou que o fiofó a ser penetrado por este pinto de borracha é o dele mesmo - vai ver que é isso mesmo o que ele quer. Consumidor de remédios controlados por ser bipolar, o líder do Gabinete do Ódio também precisava de um controle mais rígido, porque esse tuíte não é digno do filho de um presidente da República. De resto, ele deu ótimas ideias para o protesto de logo mais. Vamos dar uma lustrada nos nossos dildos e consolos, porque é hoje que as panelas de todo o Brasil vão levar uma surra de pica.

O CAOS DE MANAUS


Enquanto muitos pacientes de Covid-19 estão sufocando em Manaus por falta de oxigênio, no resto do Brasil muita gente está berrando a plenos pulmões. Desde o início do desgoverno Biroliro, eu jamais tinha visto tamanha indignação nas redes sociais, e olha que nunca faltou reclamação. A grita é tamanha que já estão até pedindo que o Rodrigo Maia, ou seu sucessor, coloque em discussão no plenário um dos quase 60 pedidos de impeachment que repousam em suas gavetas. Mesmo com escassas chances de aprovação, esse debate irá desmascarar em frente às câmeras os deputados que ainda apoiam o Pau Fino, gerando imagens preciosas para a campanha eleitoral de 2022. 

O desastre de Manaus tem vários culpados, do governador Wilson Lima, que cedeu à pressão contra o lockdown, à própria população que foi às ruas reclamar do fechamento do comércio. Mas o epicentro desse show de incompetência, para variar, é o buraco negro que ocupa a Planalto, Edaír Pandemito, o pior presidente de todos os tempos. O cara ainda tem a audácia de dizer que Manaus está maus porque não usaram cloroquina, em mais uma tentativa épica de tirar o cu da reta. Enquanto isso, o general Capachuello, o Gugu do Mal, atrasa em um dia o voo que iria à Índia buscar dois milhões de vacinas, para ADESIVAR a aeronave - e agora surgiu a notícia de que a Índia, nossa suposta aliada, não vai nos vender vacina nenhuma. Já a Venezuela, nossa suposta inimiga, se prontificou a facilitar o transporte do oxigênio fabricado lá pela White Martins. E o Whindersson lidera uma campanha de artistas para levar oxigênio para o Amazonas, mostrando que a classe artística só é mamadora na cabeça dos bolsomijons. Na vida real, vemos youtubers e comediantes assumindo funções que seriam do Estado, enquanto criminosos como Bia Kicis e Osmar Terra correm para apagar os tuítes em que celebravam o "levante" dos manauaras. Agora muitos não se levantarão mais, porque estão morrendo sem ar. Mas o resto do país precisa fazer alguma coisa. A mais importante é derrubar o Genocida.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

DELÍRIO EM TEMPO INTEGRAL

A variante nacional das ideologias de extrema-direita que floresceram na década de 1930 foi a mais ridícula de todas. Os seguidores de Plínio Salgado gostavam de camisas verdes e gritar "anauê", e foram apelidados de galinhas verdes pelos comunistas depois de fugirem de um embate na Praça da Sé, em São Paulo. Mas o integralismo não tinha nada de fofo. Seu objetivo era criar uma sociedade "integral", sem divisões internas nem dissidências. Todo mundo submetido ao mesmo líder e vivendo a mesma vida. Até as bandeiras dos estados seriam proibidas, pois a nação era uma só. Esse delírio coletivo é contado no livro de Pedro Doria, "Fascismo à Brasileira", que termina com um capítulo fazendo a ligação entre o integralismo e o Biroliro. Há muito mais semelhanças do que diferenças entre ambos, mas o nosso momento histórico é bem outro. Faltam os facilitadores que permitiram que o fascismo nacional se espalhasse rapidamente, e falta lustro intelectual a todos os membros da familícia. O integralismo foi esmagado pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, mas sobreviveu nos subterrâneos e hoje dá as caras até no atentado à sede do Porta dos Fundos. O que me consola é lembrar que os fascistas costumam terminar pendurados pelos pés em praça pública.

BIROLIRO PELAS ORELHAS

O podcast "Praia dos Ossos", da Rádio Novelo, deixou nos meus ouvidos aquele gostinho de quero mais. Minha crise de abstinência durou pouco, porque a mesma produtora é responsável por outra série imperdível: "Retrato Narrado", que se propõe a ser uma biografia sonora. Na primeira temporada, o contemplado é o Biroliro, e é simplesmente estarrecedor escutar a reconstituição do caminho que levou esse energúmeno até o Planalto. O minucioso trabalho de pesquisa visita Eldorado do Sul, a cidade no Vale do Ribeira onde o Despreparado passou a infância e a adolescência, e entrevista alguns de seus amigos e parentes. Depois vai à Academia das Agulhas Negras, à famosa entrevista à revista Veja em que o próprio Pau Fino revelou seu plano maléfico de explodir a adutora de Guandu, e culmina com um episódio inteirinho dedicado aos filhos. Sabia que Dudu Bananinha, que tanto quis ser embaixador em Washington, nunca ouviu falar de Henry Kissinger, a figura mais importante da diplomacia americana na segunda metade do século 20? "Retrato Narrado" não tem nada de neutro, e deixa bem claro o espanto com a eleição de uma pessoa tão escancaradamente mentirosa e mau-caráter para o mais alto cargo da nação. Ainda não ouvi o episódio-bônus, sobre a obra de Olavo de Caravalho, mas já imagino o que me vem por aí. Estou esperando uma notícia boa, tipo a vacinação começar logo, para criar coragem.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

UNITY AND HEALING

Nesta quarta, Donald Trump sofreu impeachment pela segunda vez. Como nos EUA se considera um presidente impichado quando a proposta é aprovada pela Câmara, sem passar pelo Senado, o Bebê Laranja agora ostenta o título de ser o único presidente impichado duas vezes, ou bi-impichado. Faltando menos de uma semana para ele deixar a Casa Branca, o que se quer não é removê-lo do cargo, mas sim cassar-lhe os direitos políticos. Isto pode ser feito mesmo depois que Joe Biden assumir, e agora se fala que a votação definitiva no Senado só ocorrerá daqui a alguns meses. A ideia é que a fervura baixe um pouco, mas os democratas não vão ceder aos apelos de alguns republicanos por "unity and healing" (união e cura). O que esses caras pedem, na verdade, é uma gigantesca passada de pano. Que os muitos crimes de Trump sejam esquecidos, em nome da unidade nacional. Tá boua? Uma semana atrás, tresloucados armaram uma forca em frente ao Capitólio, e cinco pessoas morreram no choque com a polícia. Nunca houve um presidente derrotado nas urnas que não reconhecesse a vitória de seu rival, e muito menos um que incitasse uma horda de vândalos para melar o resultado. Untiy and healing, my ass: Trump merece arcar com todas as consequências de seus atos, inclusive uma possível prisão. Estamos sofrendo agora, aqui no Brasil, as consequências da burrada que foi anistiar os milicos no final da ditadura.

FAMÍLIA PÓS-MODERNA

Depois de décadas em que quase só havia filmes sobre a saída do armário, agora estão se tornando mais comuns os que mostram gays de meia idade. Um exemplo recente é novo do italiano de origem turca Ferzan Ozpetek, que tem toda uma filmografia dedicada à viadagem. "A Deusa da Fortuna" não entrou em cartaz nos cinemas brasileiros, mas está passando direto no canal HBO Mundi - consulte a sua operadora. Vale a pena ver, apesar do roteiro algo previsível. Um casal de homens junto há uns 20 anos mantém um relacionamento aberto, mas as coisas começam a sair do controle. Um deles não se furta em transar com um convidado durante uma festa em sua própria casa, e o marido percebe. Este, por outro lado, tem um caso fixo há dois anos, o que faz o caldo entornar. Mas eis que surge um complicador: a melhor amiga deles está muito doente, e precisa de alguém que cuide das crianças. O final óbvio é amaciado por vários diálogos inteligentes e um palazzo na Sicília onde Sophia Loren gravou um comercial. A atriz Jasmine Trinca venceu o David Di Donatello, o Oscar da Itália, mas meu leitorado vai gostar mesmo é de Edoardo Leo.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

NEGÓCIO DA ARGENTINA

Pouco mais de um ano atrás, Mijair Biroliro cometeu um dos atos mais irresponsáveis de sua despreparada presidência. O Pau Fino divulgou em seu perfil no Twitter a notícia de que a Honda, a L'Oréal (que obviamente ele grafou errado) e a MWM estavam deixando a Argentina pelo Brasil. Pena que nada disso fosse verdade. Como que um presidente da República solta uma dessas? Ou ele é mal assessorado, ou é mal intencionado - opa, na verdade as duas alternativas são verdadeiras. Ontem chegou o troco. A Ford anunciou que sai do Brasil, mas continua na Argentina e no Uruguai. A culpa não é só do Pandemito, mas o mérito pelas fake news de 2019 também não eram. Agora ele está, para variar, tecendo uma narrativa que o exima de qualquer responsabilidade pela perda de mais de cinco mil empregos. Enquanto isso, Paulo Guedes sonda a chinesa Chery para assumir as fábricas a serem fechadas. Sim, chinesa...

CANTEIRO DE OBRAS

Quem entrou hoje cedo aqui no meu blog deve ter estranhado. O layout estava completamente diferente. Eu tentei aplicar o template Dynamic Views do Blogger, mas não deu muito certo. Ele permite que o querido leitor escolha o formato da visualização: revista, mosaico, snapshot, flipcard, o escambau. Só que a letra é pequenininha e imutável. Eu colocava 300px, o troço voltava automaticamente para 100px. O pessoal que hoje reclama do texto em branco sobre fundo preto ia reclamar do tamanho ilegível, com toda razão. Aí resolvi voltar para o template anterior, mas cometi um erro crasso. Não salvei as minhas alterações personalizadas. Agora estou lutando para que os títulos dos posts recuperem o tamanho maior e a cor verde, mas não estou conseguindo. Pelo menos o tamanho da fonte cresceu. Sim, quero mudar o layout, já são mais de 10 anos com essa mesma cara, mas o Blogger não ajuda. Preciso contratar um webdesigner para criar um template só meu, deslumbrante e exclusivo. Quem pode me indicar alguém que não me custe os olhos da cara?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

CHATO PACARRETE

Não entendo como "Pacarrete" ganhou oito prêmios no Festival de Gramado de 2019. Trata-se de um filme chato sobre uma mulher chata, e só o fato de quem produz cultura no Brasil se sentir perseguido na conjuntura atual pode explicar tamanha hipnose coletiva. Pacarrete é uma bailarina aposentada que vive em Russas, no interior do Ceará, como se estivesse em Paris. Veste-se na moda da década de 1920, que ela não viveu, e insiste em dançar "A Morte do Cisne" na festa dos 200 anos da cidade. Só que ela não quer levar cultura para as massas, porque não se interessa por ninguém além de si mesma. É apenas uma figura egoísta, que exige aplausos para um talento que não tem mais, sem um pingo de generosidade. Quando ela adota um cachorro de rua, logo o coloca num berço de bebê, de onde o coitadinho não consegue sair. Para piorar, Marcélia Cartaxo tem uma interpretação teatral, no auge da afetação e da estridência, deixando a personagem francamente insuportável. Fuja, aos grand jetées.

A SAÍDA HONROSA

Na esteira da invasão do Capitólio, quase todas as redes sociais - incluindo o PornHub - finalmente baniram Donald Trump. Não por uma genuína preocupação com a segurança de ninguém, mas por medo. Medo de serem processadas por permitirem a incitação à violência e medo de serem desmembradas pelo governo Biden. Claro que o futuro ex-presidente já deveria ter sido banido há muito tempo, mas a questão é complexa e gerou um debate intenso nos últimos dias, na imprensa e na internet. Faz sentido banir Trump e deixar ditadores como Nicolás Maduro ou o aiatolá Khamenei? No Brasil, os acólitos da extrema-direita ficaram chateadíssimos e mudaram seus avatares para a fotinha do Bebê Laranja, numa imitação ridícula da campanha ˜Je Suis Charlie˜. Também mostraram, mais uma vez, que não estão nem aí com a liberdade de expressão alheia, só a própria. Uma curta coluna de Ruy Castro, publicada no domingo pela Folha,  sugeriu que Trump seguisse o exemplo de Getúlio Vargas e se suicidasse. Ruy tem um ponto: Getúlio talvez fosse lembrado hoje como o tirano que quase se aliou ao Eixo e que mandou Olga Benário para a câmara de gás, ou como o populista reeleito que se afundou no mar de lama. Mas o tiro no coração salvou sua reputação (e, segundo alguns historiadores, adiou em 10 anos o golpe militar). O suicídio seria a saída mais honrosa possível para Trump, e Ruy Castro estende a sugestão ao Biroliro. Como os minions acham que só o Bozo pode desejar a morte de alguém, mas ninguém pode desejar a morte dele, a grita foi geral. André Mendonça, o capacho da Justiça, já mandou investigar o articulista, assim como investigou Hélio Schwartsman e não deu em nada. Tanto melindre, obviamente, é desnecessário, pois tanto Trump como o Pau Fino não irão se matar. Ambos carecem da coragem e da dignidade necessárias para tanto.

domingo, 10 de janeiro de 2021

HER TOO

"A Assistente", que acaba de estrear na Amazon Prime Video, não é um filme fácil de ser visto. A trama toda se passa em um único dia, e parece ser contada em tempo real. Começa com a jovem Jane chegando ainda de madrugada ao escritório onde trabalha. Enquanto ainda não tem ninguém por lá, ela faz faxina, tira xerox e deixa tudo pronto para o dia que vai começar. Aos poucos, o espectador percebe que não se trata de uma firma de contabilidade. Uma mulher lindíssima espera na recepção para falar com o chefe. Uma outra é levada para um hotel, onde o chefe irá encontrá-la. O chefe nunca aparece, mas é alguém tipo Harvey Weinstein, o poderoso agente que acabou sendo acusado de assédio sexual por dezenas de atrizes. Incomodada com o que vê, a assistente vai falar com o chefe do RH. Só que ela é quase invisível, e também o alvo de dezenas de micro-agressões por parte de seus colegas ao longo desse dia interminável. Julia Garner, que já ganhou dois Emmys de melhor coadjuvante pela série "Ozark", navega com precisão cirúrgica nesse papel difícil, que só lhe dá uma cena para mostrar do que é capaz. Escrito e dirigido por uma mulher, Kitty Green, "A Assistente" é um retrato árduo do machismo estrutural. Não tem nada de escapista, mas merece ser assistido.

A TERCEIRA MÁSCARA DO TEATRO

Foi estranho e revigorante voltar ao teatro presencial depois de 10 meses. A peça com que fizemos nossa rentrée foi "Para Duas", em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, até 1o. de fevereiro. No palco, duas atrizes excepcionais fazem mãe e filha, que se reencontram para um tenso almoço depois de décadas de estranhamento: Chris Couto e Karin Rodrigues. Além da semelhança física que torna o parentesco crível, elas têm aquele talento eletrizante que é preciso ser apreciado ao vivo - nenhuma transmissão por Zoom consegue captar direito. Na plateia, pessoas salpicadas pelas poltronas, com muito espaço entre uma e outra, dando aquela sensação de casa vazia. E todas, sem exceção, de máscara. A tragédia e a comédia agora têm, pelo menos por enquanto, uma terceira colega.

sábado, 9 de janeiro de 2021

LOOSHO E UMIDIFICAÇÂO


Cheguei à blogosfera em 2007, e parecia que eu tinha entrado em um mundo novo e divertidíssimo. Eu não só escrevia este blog como também lia dezenas de outros, todos de gays sem papas nas línguas:  Introspective, Carioca Virtual, Que Pressão É Essa?, Te Dou um Dado?, RH do Inferno, Uomini, a lista é imensa. Conheci vários desses autores pessoalmente, e sou amigo de muitos até hoje. Naquela época também estavam na moda as personagens fictícias, como a Lindinalva, faxineira das boates, ou a Cleycianne, a crente do rabo quente. Sem falar, é claro, na que talvez tenha sido a mais influente de todas: Katylene Beezmarcky, traveschty de Xerém, criadora de expressões como "beesha" (que eu adotei), "traça ou repassa", "vomitadinha" e "umidifcação do dia", entre tantas outras. Seu blog Papel Pobre tirava sarro sem dó de famosos e adjacências, e lançava apelidos como Chatolina Dickerman, Bola Preta Gil e, o mais emblemático de todos, Neyde, para Britney Spears. Katylene foi "outed" por Dri Spacca sem razão nem porquê, e o Papel Pobre saiu do ar de uma hora para a outra. Mas ela logo ressurgiu em seu próprio site, e não demorou para que Daniel Carvalho assumisse com tranquilidade sua identidade não mais secreta. Tampouco tardou para a beesha ganhar programa próprio na MTV, em 2010, e o próprio Daniel fez uma rápida passagem pelo programa "Muito Mais", da Band, comandado por Adriane Galisteu, como comentarista de celebridades. Ontem ele passou para valer. Depois de uma longa internação em um hospital carioca, Daniel nos deixou, por insuficiência renal. Ele tinha apenas 32 anos, o que significa que tinha só 19 quando sua alter ego explodiu na internet. Hoje Katylene talvez fosse atacada pelas trans ativistas: afinal, ela era só a máscara de um homem branco cisgênero e blábláblá. Mas Katy também se tornou um símbolo da época em que as redes sociais eram quase que só pura zoação, antes que os influenciadores digitais nos infernizassem com suas monetizações e, principalmente, antes que a extrema-direita aprendesse a mexer no computador. Hoje estamos polarizados no mundo real e no virtual, mas temos a obrigação de levar adiante o legado bagaceiro da traveca mais babadeira de todos os tempos. Como ela mesma avisa em seu perfil no Twitter, "oi, miga! eu nunca morro".

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

O REI DA NOITE

O F5 publicou ontem uma matéria com os monólogos de abertura dos quatro principais talk shows noturnos da TV americana exibidos no dia 6 de janeiro, quando o Capitólio foi invadido por uma turba insana de extremistas de direita. Excepcionalmente, todos os programas foram transmitidos ao vivo, porque não daria tempo para gravar e editar os anfitriões improvisando em cima dos textos escritos no calor da hora. Só hoje eu tive tempo de assistir aos quatro, e foi ótimo ver esses concorrentes ferozes discorrendo sobre o mesmo assunto, no mesmíssimo dia. Dois deles podem ir diretamente para o lixo: Jimmy Fallon, que fez um mini-discurso choramingas sem a menor graça, e James Corden, a bicha hétero, que se perde sem tampouco fazer rir. E dois deles mais do que justificam os salários astronômicos que . Jimmy Kimmel dá nome aos bois, faz piadas cruéis com Eric Trump e jamais perde o foco. E Stephen Colbert se sai ainda melhor - fazendo o mesmo, mas com uma indignação tão furiosa que dá para cortar com faca. Agora já sei quem eu veria todas as noites se eu morassse nos EUA.

UMA MULHER INTEIRA

Já vou avisando: "Pieces of a Woman" não é para qualquer um. Muita gente vai se horrorizar com a longa sequência inicial do filme, que estreou ontem na Netflix: um excruciante parto caseiro, que termina com a morte do bebê. A atriz britânica Vanessa Kirby, até agora mais conhecida pelo papel da jovem princesa Margaret nas duas primeiras temporadas de "The Crown", transmite toda a dor física e emocional de sua personagem, um tour de force capturado num único take de quase 25 minutos pelo diretor húngaro Kornél Mundruczó. Daí em diante, o ritmo se torna um pouco irregular, alternando momentos de luto e contemplação com cenas explosivas, que certamente levarão Vanessa à sua primeira indicação ao Oscar. Mas eu achei o título enganoso. A protagonista se mantém inteira depois dessa enorme tragédia pessoal, enquanto todo mundo ao seu redor - principalmente as duas pessoas mais próximas, o marido (Shia La Beouf, excelente, apesar da fama de abusador no vida real) e a mãe (Ellen Burstyn, também ótima, mas, aos 88 anos, velha demais para o papel) - entram em parafuso, fazendo exigências descabidas justamente quando ela está mais frágil. O final também soa falso, mas serve para aliviar a barra pesada que veio antes. De qualquer forma, veja se você tiver coragem. Até porque "Pieces of a Woman" sinaliza a chegada de mais um nome ao panteão das grandes estrelas do cinema.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

VIVA A VACHINA

É um alívio saber que a Coronavac teve 78% de eficácia nos testes feitos no Brasil, e 100% na prevenção de casos graves de Covid-19. João Doria apostou seu capital político na vacina chinesa, e poderia ter ficado tão mal quanto o Biroliro se ela não funcionasse, ou atrasasse como a Oxford-AstraZeneca. Mas os deuses da democracia andam trabalhando dobrado nesses dias, e agora parece mesmo que a "vachina" começará a ser aplicada no dia 25 de janeiro. Não que eu torça pelo Doria, veja bem: não votei nele nas duas oportunidades que tive, e ainda acho que ele é almofadinha sem coração. Mas é inegável que o cara trabalhou, foi atrás e agora colhe os frutos, o que é 1.000% mais do que o Pau Fino fez durante a pandemia. Já sei de gente que pensa em vir a São Paulo só para se vacinar (não vai ser preciso mostrar comprovante de residência), e eu mesmo devo tomar a primeira dose no dia 8 de março, inshallah. Agora o Capachuello entrou no mode desespero e está falando em começar a vacinação no dia 20, e não duvido que ele consiga uma dose de qualquer uma só para o Mijaír tirar foto ao lado da primeira pessoa vacinada no Brasil. Quanto aos bolsominions, acho lindo que eles se recusem a se vacinar e insistam na cloroquina. É assim que funciona a seleção natural.

IT'S FUN TO STAY AT THE YMCA

Nunca, nem nos meus sonhos mais viados, jamais me passou pela cabeça que um dia o Congresso americano seria invadido pelo Village People. Pois foi mais ou menos isto o que aconteceu ontem: um grupo de saltimbancos, sem nenhum peso político, entrou no prédio do Capitólio com a anuência da polícia, roubou alguns papéis e souvenirs e posou para fotos de um ridículo atroz. O mais palhaço de todos é Jake Angeli, um ator do Arizona que também usa o singelo pseudônimo de QAnon Shaman. Ao contrário do que a imprensa brasileira vem dizendo, ele não estava fantasiado de viking: seu headgear de búfalo é um traje nativo-americano, não me pergunte de qual tribo. Também era do QAnon a mulher que morreu baleada, e com isso esses malucos acabam de ganhar seu primeiro mártir. Mas o que de fato interessa é que o circo do 6 de janeiro também pode ter sido o funeral da carreira política de Donald Trump. Ele queria dar uma demonstração de força e manter o partido Republicano sob seu jugo, mas exagerou na dose e agora pode simplesmente ser deposto por seu gabinete, que invocaria a agora célebre 25a. emenda. O Alaranjado será obrigado a fundar seu próprio partido, o que é dificílimo no sistema de lá. Isto, se não for para a cadeia.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

A DONA DA PORRA TODA

Um amigo americano que mora em Nova York se abalou até a Georgia e, em plena pandemia, foi fazer campanha pelo voto antecipado nos candidatos democratas ao Senado. Foi graças a gente como ele que o estado, antes um bastião dos Republicanos, não só elegeu um presidente como também dois senadores Democratas - um deles, negro. Mas a maior responsável por essa virada histórica foi Stacey Abrams, candidata a governadora derrotada em 2018 e depois cotada para vice do Biden. Essa advogada formada em Yale liderou, por anos a fio, um movimento para que cada vez mais negros se registrassem para votar, e ainda lutou para que as muitas barreiras a eles fossem superadas. Acabou se tornando um nome-chave para a política americana, tanto no presente como no futuro. 

A vitória de Jon Ossoff, projetada pela Associated Press na tarde de hoje, está passando batida em meio ao caos que Donald Trump inflamou no Capitólio, mas é o final feliz das eleições de 2020. O Congresso todo foi para as mãos dos Democratas, e Joe Biden poderá passar a legislação que bem entender. Com mais essa derrota, o Bebê Laranja não só sai humilhado da Casa Branca, como ainda leva a pecha de ter arrastado todo o partido Republicano com ele. A tentativa fracassada de golpe queimou o que restava de seu capital político, e duvido muito que ele consiga se candidatar em 2024 - até porque o partido Republicano está cheio de gente querendo concorrer à Presidência. Sem falar que, agora, a probabilidade de Trump e sua família irem presos aumentou muito...

É GOLPE MESMO

Hoje é daqueles dias de cantarolar o comecinho de "Bohemian Rhapsody" (Is this the real life? / Is this just fantasy...) Nunca imaginei ver a CNN americana estampar uma manchete como esta: "Trump vai falar a apoiadores em desesperada tentativa de golpe". A mais antiga democracia em funcionamento no mundo nunca passou por um golpe de estado, e realizou transições pacíficas de poder mesmo durante guerras ou crises econômicas. Mas o Bebê Laranja vem se revelando muito mais do que um rufião vindo do mundo dos reality shows. Ele quer mesmo é se tornar um ditador como Erdogan ou Maduro, e dane-se todo o resto. O Capitólio acabou se ser invadido em Washington, por uma manada de incels que há meses vem sendo insuflada pelo derrotado nas urnas. Não vai dar em nada, porque a maioria democrata no Congresso e os republicanos decentes nas duas casas vão respeitar a vontade do povo. Mas é um precedente gravíssimo, que pode ter desdobramentos funestos nos próximos anos. Ainda mais triste é ver bolsominion no Twitter expelindo que só Trump defende o Ocidente, num trailer apavorante do que vem aí nas nossas eleições de 2022.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

"EU NÃO CONSIGO FAZER NADA"

Com Trump escorraçado da Casa Branca, o Brasil pretende assumir a liderança informal dos países governados pela extrema-direita. Um bloco poderosíssimo, que inclui potências como a Hungria, a Polônia e as Filipinas. Só que o Pau Fino carece de algo que quase todos seus colegas autoritários têm: alguma competência para governar. Apesar da repressão à democracia, as economias estão crescendo sob Orbán, Duda e Duterte. Já o Mijair acredita que o Brasil "está quebrado" (mentira) e "não consigo fazer nada" (verdade). Este é um ponto fraquíssimo do suposto mito, que a oposição nunca explorou para valer: a incompetência. O cara não sabe nada, não quer saber e não delega a quem saberia. O resultado está aí. Não temos vacinas, não temos agulhas, não temos seringas, e os testes que tínhamos saíram do prazo de validade. Desse jeito, Biroliro só lidera os minions cegos que estão morrendo porque não usaram máscara. Pelo menos, não conseguem ver o novo penteado.

O CALO DOS COMUNISTAS

"Polícia acaba com festa na casa de Elba Ramalho em Trancoso". Por causa desta manchete dúbia, a cantora paraibana virou a inimiga pública no. 1 do Brasil durante algumas horas, na semana passada. Depois dela ser muito atacada nas redes sociais, ficou claro que a festa não era dela, só a casa. Elba alugou o imóvel para um sujeito que achou que um rega-bofe para 700 pessoas iria passar despercebido, ainda mais naquela aldeia que é Trancoso. Para provar que não tinha nada a ver com aquilo, a artista - que está mesmo por lá, mas hospedada num hotel - postou fotos onde aparece rezando na igrejinha do Quadrado, e afirmou que vai processar o inquilino por danos morais. Mas a imagem de preocupada com o distanciamento social durou pouco. O ator Tuca Andrada postou fotos em que Elba aparece sem máscara em outra festa, e o tempo fechou de vez entre os dois. Hoje começou a circular o vídeo acima, de uma live que aconteceu em data indeterminada. Elba de fato é católica devota, mas isto não é desculpa para as besteiras colossais que ela diz. E não, não é "opinião" achar que a pandemia foi criada pelos comunistas para acabar com os cristãos. É ignorância, é desinformação, é burrice mesmo. Podemos cancelar a Elba sem dó.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

MINHA PEQUENA EVE

Ganhei um stick e finalmente consigo ver na TV todas as plataformas de streaming que eu assino. Como eu não gosto de assistir séries na tela do computador, estou tirando o atraso. Depois de colocar no currículo "Modern Love", da Amazon Prime Video, chegou a vez de "Killing Eve" no Globoplay. Para quem ainda não sabe, trata-se da jogo de gato e rato entre uma assassina profissional e a agente do serviço secreto britânica encarregada de capturá-la, que logo descamba para a paixonite. Estou adorando, porque tem tudo o que eu gosto: personagens complexos, atores fantásticos, locações luxuosas por toda a Europa e roteiros cheio de sacadinhas, assinados por uma uma equipe encabeçada por Phoebe Waller-Bridge. A canadense Sandra Oh encanta com seu jeitão quase grosseiro de tão direto, e a inglesa Jodie Comer seduz com infinitas intenções. É tudo impecável até a metade da segunda temporada, quando as duas se juntam para capturar uma outra assassina e resolver um caso escabroso - achei que estavam forçando a amizade. Acabei de começar a terceira, a última até o momento, e torcendo para que a minha querida Camille Cottin entre logo. A estrela de "Dix pour Cent" (e também de "Mouche", a versão francesa de "Fleabag") participa de três episódios.

NÁO FAZ MAROLA

Imagine se um presidente da República ia se atirar no mar e nadar em direção à praia sem ter 100% de certeza que seria bem recebido. O aparato de segurança merecia ser demitido em massa se não checasse as condições do lugar, ainda mais quando tem que proteger um alvo em potencial que já foi vítima de um atentado. Tudo isto corrobora a impressão de que os rolés do Biroliro na Praia Grande não tiveram nada de "espontâneos". Já surgiram relatos que, no mergulho de sexta, não havia aglomeração nenhuma naquele ponto específico do mar. De repente, surgiram dezenas de homens que se jogaram n'água e ficaram esperando por alguma coisa. De fato, é facílimo convocar uma manada de gado disposta a se molhar pelos grupos do WhatsApp. Hoje o Edaír repetiu a brincadeira, mas sem mergulhar - deve ter ficado magoado com os memes que o compararam a um cocozão caindo na privada. Ele pode até achar que essas patacoadas reforçam a imagem de "homem do povo", e há quem acredite mesmo nisso. Mas tem cada vez mais gente que preferia um presidente que gostasse de trabalhar.

domingo, 3 de janeiro de 2021

PIOR QUE WATERGATE

Em 1973, foram descobertos grampos na sede do partido Democrata no edifício Watergate, em Washington. Os republicanos estavam espionando seus rivais. Richard Nixon havia acabado de vencer as eleições de 1972 pelo chamado "landslide", derrotando George McGovern em quase todos os estados, mas a reação popular foi imediata. A popularidade do presidente despencou e o escândalo teve inúmeros desdobramentos, levando à queda de vários integrantes do governo. Em agosto de 1974, para não sofrer impeachment, Nixon renunciou. Foi perdoado um ano depois por seu sucessor Gerald Ford, mas jamais se livrou da pecha de desonesto. Seus maiores feitos - o fim da Guerra do Vietnã e a reaproximação com a China - foram eclipsados para sempre pelo escândalo. 

As causas de Watergate parecem pueris para os dias de hoje. Espionar um partido que havia acabado de tomar uma tunda histórica nas urnas? Só isso? Francamente, temos mais o que fazer. Na conjuntura atual, nem mesmo o que Donald Trump vem fazendo em seus últimos dias na Casa Branca provoca muito espanto. Talvez porque ele só tenha mais 16 dias no cargo, ninguém está muito preocupado. Mas não resta mais dúvida: o que o Bebê Laranja está tentando é nada menos do que um golpe de estado, algo inédito na história dos Estados Unidos. O telefonema em que ele pede ao secretário de Estado da Geórgia que "ache" 11.779 votos, divulgado hoje pelo jornal Washington Post, é chocante e esperado ao mesmo tempo. Todo mundo sempre desconfiou que Trump seria capaz de uma coisa dessas. Agora temos a prova em áudio, em toda sua glória. 

O próprio Trump está reagindo no Twitter como se não tivesse feito nada de mais. Pelo seu tom na gravação, dá para desconfiar que ele mesmo começou a acreditar na potoca de que as eleições foram fraudadas. Também suspeito que foi o próprio secretário Brad Raffensperger quem vazou tudo: a voz dele está mais alta e clara no áudio, dando a entender que a gravação foi feita do seu lado da linha. É reconfortante saber que ainda existem republicanos dispostos a desobedecer ao rufião que tomou de assalto o partido. Estão mais preocupados com seus próprios futuros políticos do que em agradar a um populista fracassado.

Muito se tem especulado sobre o que Trump vai fazer depois que sair da presidência. O Bebezão adoraria criar seu próprio canal de notícias, mas para isto seria preciso um dinheiro que ele não tem e investidores dispostos a patrocinar um bandido confesso. Além do mais, sua narrativa de invencibilidade foi quebrada. Apesar das muitas falências e de ser muito menos rico do que se gaba, Donald Trump conseguiu forjar a imagem de um eterno ganhador. Alguém que se sai bem em qualquer situação e que reduz seus adversários a pó de traque. Uma grande parte dos americanos ainda acredita nisso, mas a tendência é que ela encolha - ainda mais se Joe Biden controlar a pandemia e expandir o Obamacare.

Tudo isto serve de trailer para o que vai acontecer no Brasil daqui a menos de dois anos. Biroliro vem falando em fraude há tempos e minando a confiança na urna eletrônica, mas no fundo ele não quer a volta do papel. Só com o voto eletrônico ele conseguirá manter a narrativa espúria que já começou. Tampouco duvido que tente um golpe militar tradicional, algo que Trump também arriscou - para levar um não das FFAA americanas, muito mais comprometidas com a democracia do que as nossas. Mas aqui os milicos estão adorando os empregos públicos para os quais não têm o menor preparo, porque ganham muito mais do que na caserna. Edaír também vai tentar mobilizar as polícias para o seu lado, o que é ainda mais apavorante. Cabe à sociedade dar um basta nesse aventureiro de baixo calão. Só que as nossas instituições não são sólidas como as dos EUA, que têm quase 250 anos de funcionamento. Vamos ver quem grita mais alto.