quinta-feira, 17 de agosto de 2017

BOY NEON


Elias é bonito e resolvido. Trabalha numa confecção e não tem dinheiro no bolso, mas vive feliz e tem muitos amigos. Também tem muitos namorados, ou peguetes - não rolam ciúmes nem cobranças. Essa ausência de conflitos faz com que "Corpo Elétrico" se resuma a um retrato, bastante idealizado, de um gay na periferia de São Paulo. Cadê a homofobia? Cadê a angústia, que para a maioria das pessoas não precisa de quase nada para se manifestar? Elias não está nem aí: bebe, fuma, dança, trepa e anda de moto com a Márcia Pantera, um mito da noite paulistana. "Corpo Elétrico" vem tendo críticas ótimas, talvez porque seja o primeiro filme de pegada pernambucana rodado em SP (o diretor Marcelo Caetano foi assistente de direção em "Tatuagem" e fez o casting de "Aquarius"). Mas não bate com  meu gênero.

A POESIA CONCRETA DE TUAS ESQUINAS

São Paulo é uma das metrópoles mais feias do mundo. Mas nem sempre foi assim: em meados do século 20, a cidade viveu um boom imobiliário e se encheu de ousados arranha-céus, assinados por alguns dos maiores arquitetos do Brasil e do mundo. Especialmente entre 1950 e 1960, surgiram edifícios icônicos como o Itália, o Copan e o Conjunto Nacional. Este período de arrojo e beleza urbana, nunca mais repetido, é o tema do primeiro livro do jornalista Raul Juste Lores, que toda semana destaca em sua coluna na Folha alguma joia semi-esquecida no meio da feiúra. Aqui elas estão reunidas e têm suas histórias contadas, num trabalho tão essencial que até surpreende o fato de não ter sido feito antes. Fartamente ilustrado, "São Paulo nas Alturas" traz até um guia com itinerários a pé por alguns bairros paulistanos, para o interessado observar in loco muitos dos prédios citados. E depois se indagar o que foi que deu errado.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

MUITO COMÉDIA


Escrever a coluna "Multitela" da Folha me fez ver mais TV - como se eu visse pouca antes. Tenho descoberto muitas séries novas, e algumas realmente valem a pena. Como as três sitcoms de que eu falo neste post, já citadas por mim no jornal e todas  protagonizadas por mulheres complicadas. A que mais se aproxima do modelo tradicional, com "one-liners" e piadinhas em todas as cenas, é "Catastrophe", uma parceria entre a irlandesa Sharon Horgan e o americano Rob Delaney criada para o Channel Four e, por aqui, disponível no canal do GNT na plataforma NOW. Os roteiristas também fazem os personagens principais, que se conhecem num bar de Londres, passam uma semana transando e depois vão cada um para seu canto (o dele é em Boston, do outro lado do oceano). Até que ela descobre que está grávida, e ele volta. São três temporadas de apenas seis episódios cada, uma peculiaridade britânica. Por enquanto só vi a primeira, que é um primor. Especialmente o quarto episódio, em que eles suspeitam que o bebê que vem aí pode ter síndrome de Down. Um tema delicadíssimo, que mesmo assim rende risadas e um desenlace magistral. E ainda tem Carrie Fisher fazendo a mãe dele.

Bem mais amarga é "I Love Dick", que tem um ritmo mais solto e cenas que de cômicas não têm nada. É o estilo de Jill Soloway, que fez a badalada "Transparent" também para a Amazon. Aqui a mocinha é uma chata de galochas: uma cineasta fracassada que se muda com o marido para uma cidadezinha do interior do Texas, e fica com a periquita acesa por causa de um escultor local. Ela começa a escrever cartas secretas para seu novo amor, o marido descobre, o cara também descobre, confusão e gargalhadas. Ou não: o tom seco e impiedoso não tem nada a ver com o clima de camaradagem que ainda impera mesmo em séries mais moderninhas, tipo "Girls".

"Better Things" e eu ainda estamos nos conhecendo. Só vi o primeiro episódio, apesar da Fox Premium ter jurado que a primeira temporada completa estaria disponível para seus assinantes (e eu publiquei essa potoca na coluna). Pamela Adlon, discípula de Louis C. K., desenvolveu com seu mestre a história semiautobiográfica de uma atriz que cria sozinha três filhas adolescentes. São todas umas pentelhas, cada uma à sua maneira. Por enquanto, não vi "plot": só o popular "slice of life", sequências soltas que servem para apresentar os personagens. Pamela está indicada ao Emmy, e seu jeito de fazer comédia causa uma certa estranheza no princípio. Mas as críticas são tão boas que eu vou insistir. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

ENVELHECER É BOM

A revista feminina "Allure" é a mais importante publicação americana voltada aos cuidados com a beleza. Por isto, é de se admirar o manifesto que ela publica em seu número atual, com direito a chamada de capa. De agora em diante, a "Allure" vai parar de usar o termo "anti-aging" (anti-envelhecimento). Porque o termo soa como "anti-vírus", como se envelhecer fosse uma doença que precisa ser combatida. Na verdade, é um privilégio, dado que a alternativa seria morrer cedo. A revista vai além: quer evitar frases do tipo "você está linda para sua idade", e conclama a indústria de cosméticos a mudar de linguajar e postura. Já não era sem tempo.

CHERCHEZ LA FEMME

É duro acreditar que, num mercado onde já existem aplicativos de namoro até para cachorro, só agora surja um para meninas que gostam de meninas. O Femme é do Match Group, a mesma empresa que controla o Tinder e dezenas de outros apps. Mas não vai ser gratuito: as interessadas terão que desembolsar, no mínimo, R$ 21,99 por mês. Nada contra; o que realmente me incomodou foi o tom conservador da divulgação, que estressa termos como "relacionamento sério". Já convivi o suficiente com sapatas para saber que elas curtem uma putaria avulsa tanto como a mais promíscua das bichas.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

SIM, VOCÊ É RACISTA

Não é divertido como muitos safados simplesmente ignoram a tecnologia? Cometem crimes em ruas que são monitoradas por câmeras. Roubam celulares que avisam onde eles estão. Participam de manifestações racistas, esquecendo que serão fotografados - e depois, deveria ser óbvio, procurados na internet. É exatamente o que está fazendo a conta do Twitter Yes, You're Racist, que vem identificando vários dos babacas que marcharam em Charlottesville neste fim de semana. Alguns deles já foram até demitidos, bem feito. Talvez devessem ter imitado a Ku Klux Klan e desfilado com capuzes?

A GUERRA DA SEX-ESSÃO


Não vi a primeira versão de "O Estranho que Nós Amamos", estrelada por Clint Eastwood e Geraldine Page. Por isto, não posso dizer se o remake de Sofia Coppola é melhor ou pior do que o original. Só sei que achei o filme escuro demais, arrastado em diversos momentos e com um desenlace mais do que óbvio. Também não entendi algumas coisas: como que sete mulheres atraentes, morando sozinhas bem no front de batalha entre o Norte e o Sul na Guerra da Secessão americana, não eram estupradas por soldados de todos os lados? Como conseguiam sobreviver, se tinham apenas uma horta e uma vaca? O mercadinho mais próximo fazia entregas? Esses detalhes talvez não importem para Sofia, que encena uma batalha dos sexos onde as mulheres saem vitoriosas. Mas, para mim, faltou algo que justificasse o prêmio de melhor direção que ela ganhou em Cannes.

domingo, 13 de agosto de 2017

NOME AOS NAZIS

Recebemos com o leite da mamadeira a noção de que os nazistas foram os piores vilões de todos os tempos. A ideologia racista e violenta que floresceu na Alemanha em meados do século 20 é um saco de pancadas universal, e merece sê-lo. Durante muitas décadas, ninguém se atreveu a defender Hitler em público. Isto começou a mudar nos anos 1990, quando o movimento que nega o Holocausto ganhou visibilidade. Mais recentemente, surgiu na mídia americana a expressão "alt-right",  abreviatura para o que seria a direita alternativa, muito mais irreverente e conectada do que os conservadores de terno e gravata.

Ontem a máscara caiu. "Alt-right" quer dizer neo-nazi, e neo-nazi quer dizer nazista mesmo. Não há nada de jovem ou antenado entre as poucas centenas de rapazes brancos (e pouquíssimas mulheres) que marcharam em Charlotesville, na Virginia, empunhando tochas de jardim, dessas que seguram velas de citronela para afastar os mosquitos. Eles queriam lembrar uma turba atacando o castelo de Frankenstein, mas já viraram piada na internet.

Só que o fato de serem ridículos não os torna inofensivos. Um deles jogou o carro contra uma passeata de "antifas", ou antifascistas - qualquer um que defenda os direitos de negros, mulheres, gays, judeus, etc. etc. Uma pessoa morreu, outras tantas estão gravemente feridas. Também ferido está o presidente Trump, que tentou se safar condenando o ódio "de todos os lados". Mas os próprios nazistas deixam clara sua admiração ao boçal que ocupa a Casa Branca, que não tem culhão para chamá-los pelo que realmente são.

Aqui no Brasil também há quem faça piruetas verbais para se dissociar dessa feiúra toda, acusando o nazismo de ser uma ideologia esquerdista. Não, neném: o nazismo é totalitário, e, na prática, todos os totalitarismos se parecem. Porque, num regime desses, o estado tenta controlar todos os aspectos da vida dos cidadãos. Mas a origem do nazismo e do fascismo é mesmo a direita, que prega a desigualdade entre os seres humanos. É a preponderância do indivíduo sobre a comunidade, um dos pilares da direita, levada ao extremo.

É preciso dar nome aos bois, não pintá-los de outra cor. Nos EUA, a associação está mais clara: foi sob o slogan "Unite the Right" (unir a direita) que se convocaram as manifestações racistas de Charlottesville. Aqui no Brasil, onde falta estudo e decência, há quem caia na empulhação de que o nazismo é de esquerda. Inclusive leitores deste blog, que me mandam longos comentários com links para sites que "provam" essa deturpação. Estou recusando tudo, porque meu blog é a minha ditadura pessoal. Aqui mando eu, e só fala quem eu autorizo. Quer defender suas ideias tortas? Tá cheio de lugar por aí.

UM ADENDO: Para acabar com essa discussão tola de uma vez por todas, sugiro a leitura desse thread no Twitter de um cara que eu nem conheço, o Raphael Harris. É didático, bem escrito, cheio de detalhes históricos e claro como a luz do dia. O nazismo não é "complexo" quanto à sua origem e evolução, como defendem alguns direitistas que eu conheço. É uma aberração da direita, assim como o stalinismo é da esquerda. Lidem com isto.

sábado, 12 de agosto de 2017

ESPUMANTE SELTON


Em seu terceiro longa, Selton Mello elimina qualquer resquício de dúvida: é mesmo um diretor de cinema, não um ator que de vez em quando dirige. "O Filme da Minha Vida" é denso, poético, divertido e bonito - talvez um pouco bonito demais. Cenários e figurinos são tão bem cuidados que às vezes parecem falsos. Como se a história se passasse na Áustria, e não no interior do Rio Grande do Sul na década de 1960. O roteiro também dá uma patinadas lá pela metade, sem ir a lugar nenhum. Mas, de repente, vai, como o trem que abre e fecha o longa. Além do apuro técnico, todos os atores estão bem. Vincent Cassel já sabe falar português, Martha Nowill rouba as cenas em que aparece como uma puta, Johnny Massaro tem "star quality" e o próprio Selton se livra daquele estilo sussurrado de atuar que já tinha virado piada. "O Filme da Minha Vida" é um sério candidato à escolha do Brasil para o próximo Oscar de filme estrangeiro: é bem do jeito que a Academia gosta.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

E A GENTE FAZ UM PAÍS

As letras de Antonio Cícero fizeram parte da trilha sonora do começo da minha vida adulta, na voz da minha ídala de então - sua irmã Marina (na época ela ainda não usava o sobrenome Lima). Mas eu só passei a admirá-lo para valer depois que ele respondeu a um questionário tipo "perfil do consumidor", muito em voga na década de 80 (hoje quem participasse seria acusado de fazer parte da elite branca opressora). Quando perguntado qual seu perfume favorito, o poeta respondeu: "o do meu namorado atual". Aquilo me marcou de um jeito que vocês não fazem ideia. Lá estava uma pessoa pública admitindo, com total nonchalance, a própria homossexualidade. Ontem Antonio Cícero foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, onde será - se não me engano - o primeiro imortal assumidamente gay. E o segundo com um pé na cultura pop, depois de Geraldinho Carneiro. Assim, além de marimbondos de fogo, a casa de Machado de Assis agora também tem música, letra e dança.

CORREÇÃO: Comi uma bola colossal ao não citar o Paulo Coelho, que foi imortalizado pela ABL muito antes de Cícero e Geraldinho. Muita gente hoje nem lembra, mas o "mago" foi letrista de Raul Seixas durante muito tempo.

DISTRITÃO FEDERAL

Vai ser difícil a sociedade se mobilizar contra o chamado "distritão". Porque o projeto, que passou raspando pela comissão especial da Câmara para a reforma política, faz todo o sentido à primeira vista. Elegem-se os candidatos ao legislativo que tiverem mais votos e ponto. Com o fim do sistema proporcional, acabam os puxadores de voto à la Tiririca, que arrastam consigo um bando de nulidades em quem ninguém votou. Lembro com carinho da Senhorita Suely, que se tornou vereadora no Rio de Janeiro com pouco mais de 500 votos, só porque concorreu pelo PRONA, o partido do Enéas. Mas o "distritão" não resiste a um exame mais detalhado. Recomendo a leitura deste curto artigo do Bernardo Mello Franco, publicado na Folha de hoje, explicando que o que nos espera é um desastre de proporções afegãs, no qual os mesmos políticos de sempre conseguirão se eternizar no poder. Se mesmo assim você ainda não se convencer, lembre-se: Eduardo Cunha e Michel Temer são a favor do "distritão".

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

VELHO CHICO

Chico Buarque deve ser o último artista brasileiro que ainda usa a palavra "cantiga". Mas não é só por isto que ele soa antiquado (e nem pelo apoio acrítico e irrestrito ao PT). Hoje eu li no Huff Post este artigo interessante de Flavia Azevedo, onde ela conta que, junto com algumas amigas, se incomodou com o trecho da letra de "Tua Cantiga" onde Chico diz que larga mulher e filhos pela nova amada. Um homem que abandona os próprios filhos é o terror de qualquer mulher, e mesmo as que fazem o papel da "outra" não querem mais ter este débito em suas contas. "Caravanas", o novo álbum do cantor e compositor, só sai no final deste mês. Vou esperar ouvir tudo antes de dar meu veredicto.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

PRETTY WOMAN

Eu nunca tinha ouvido falar na soprano sul-africana Pretty Yende até ontem de manhã, quando li que ela está se apresentando em São Paulo. Menos de 48 horas depois, estou apaixonado por esta moça de nome delicioso. Seu álbum de estreia, "A Journey", traz árias como "Una Voce Poco Fa", de "O Barbeiro de Sevilha", e outras menos manjadas. Também inclui sua versão para o "Dueto das Flores" de "Lakmé", que a inspirou a estudar canto lírico depois de escutá-lo num comercial da British Airways. Sim, é quase um clichê, mas é belíssimo. Assim como bicha que gosta de ópera. Viens, Malikaaaa...

VOLVERÉ Y SERÉ MILLONES


Há mais de vinte anos, li um livro sensacional do falecido escritor argentino Tomás Eloy Martínez: "Santa Evita", com as peripécias do cadáver da ex-primeira-dama. Embalsamada logo após a morte, a mando de seu viúvo, Eva Perón foi escondida em lugares inusitados - atrás da tela de um cinema, que tal? - e levada para a Espanha e a Itália. Fui ver "Eva Não Dorme" esperando pelo menos parte desta saga rocambolesca (o filme não é baseado no livro). De fato há alguns pontos de contato, mas a pegada do diretor Pablo Agüero é quase impressionista. O longa, na verdade, é um compilado de cenas avulsas com personagens próprios, entremeadas por impressionantes imagens de arquivo. Gael García Bernal só aparece no começo e no fim, e mal abre a boca; o francês Denis Lavant protagoniza uma sequência impactante, mas que parece teatro filmado. Ainda mais teatral é o cativeiro do general Aramburu, sequestrado por guerrilheiros peronistas. Tudo isto para dizer que "Eva Não Dorme" só é recomendado  para quem se interessa pela Evita histórica, muito mais estridente que a vivida por Madonna. É o meu caso.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

OVO VIRADO

Não votei no João Doria e não morro de amores por ele. Ainda mais agora, que o prefeito de São Paulo virou BFF do Temer. Mas jogar ovo nele - que venceu uma eleição em primeiro turno, portanto transborda legitimidade - é mais do que ridículo. É contraproducente, pois gerou uma resposta do Doria igualmente ridícula. Estou de saco na lua do "nós contra eles", seja de que lado vier. Me dá vontade de tacar ovo em todo mundo.

MANÁ DO CÉU

Leio por aí que o centrão, o PMDB, o DEM e outros demônios estão tramando a candidatura de Henrique Meirelles à presidência, com Rodrigo Maia como vice. Não duvido da competência técnica do ministro da Fazenda, mas hahahaha, as if. Até parece que o povaréu desinformado vai votar num sujeito sem carisma, que acaba de aumentar o preço da gasolina. E os mais bem pensantes estão todos com hó-rreur de Temer, o Ladrão o Velho, e passarão ao largo de qualquer coisa que cheire a naftalina. Sem falar que Meirelles agora cogita elevar a alíquota máxima do IR para módicos 35%, uma porcentagem digna de país escandinavo com serviços públicos excelentes. Vai precisar chover maná e água de côco para que se eleja o primeiro presidente brasileiro... nascido em Anápolis, Goiás. Pensou que eu ia dizer outra coisa, né?

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

BARBEIRAGENS

Houve um tempo em que qualquer comercialzinho mostrando um casal gay era recebido com fanfarra aqui no meu blog. Hoje eles já fazem parte da paisagem - até no Brasil se tornaram mais frequentes. Nem por isto vou deixar de registrar os melhores, como esse filme americano das fraldas Luvs. O interessante é que é só mais um da campanha "Primeiro Filho, Segundo Filho", que a marca já veicula há alguns anos. Ou seja, gay é mesmo o novo normal. Ou está se tornando.

MARIDO NEURÓTICO, ESPOSA NERVOSA


O pessoal reclama que eu vou muito ao cinema mas não gosto de nada. Só que, de vez em quando - muito de vez em quando - aparece um filme que me deixa de quatro. É o caso de "Monsieur e Madame Adelman", que pode ser mal descrito como uma comédia amarga de Woody Allen falada em francês. O bonitão Nicolas Bedos dirigiu, estrelou e ajudou a escrever roteiro e música; só falta ter pau grande. Ele e sua mulher Doria Tillier (também atriz e co-roteirista do filme) se inspiraram em si mesmos para contar uma história de amor que dura 45 anos, com todos os altos e baixos possíveis. A montagem ágil, o uso esperto da trilha sonora e o espantoso trabalho de caracterização são as cerejas de um bolo consistente, onde as risadas se sobrepõem a um relacionamento complexo e crível. "Monsieur e Madame Adelman" deve ser indicado a um monte de prêmios no fim do ano. Mas um ele já levou: conseguiu a rara proeza de não me fazer olhar para o relógio.

domingo, 6 de agosto de 2017

MINA DE OURO

Tem um comercial de operadora que, toda vez que passa na TV, me faz largar tudo e correr para vê-lo. Não estou querendo mudar de plano, nem acho que o filme tenha uma puta ideia. Mas tem uma puta execução, com uma coreografia que me dá vontade de aderir. Esta semana descobri que os (poucos) vocais da trilha são da lendária Mina, monumento vivo do pop italiano. Aí baixei a faixa, e agora ensaio no banheiro. E não, este post não é jabá. Mas quem me dera.

HAPPY LITTLE DAY, JIMMY WENT AWAY


Tanta gente me falou bem de "Em Ritmo de Fuga" que eu me deixei convencer. O filme é quase que um musical para adolescentes que não gostam de musicais, só de filmes de ação. As muitas cenas de perseguição, a pé ou de carro, são sempre embaladas por clássicos do rock e da música negra. A mesma trilha sonora que o protagonista Baby ouve em seus iPods modelo 2002 (aliás, o título original, "Baby Driver", é muito melhor que o brasileiro). Baby é uma fantasia ambulante: guia melhor que o Speed Racer, dança feito um funkeiro das antigas, grava muito do que lhe dizem e depois transforma essas gravações em remixes para as pistas. Ah, e também mora com um velho negro surdo e paralítico, numa das maiores forçações de barra da história da sétima arte. No entanto, mesmo sendo lindo e talentoso, Baby é introvertido e caladão. Não tem namorada, e seu silêncio incomoda os ladrões de banco para quem ele dirige o carro nas fugas. Ou seja: Baby não tem pé nem cabeça, como, aliás, o filme todo. Que não deixa de ser divertido, porque as sequências de ação são mesmo bem dirigidas e o elenco ainda traz Kevin Spacey, Jon Hamm e Jamie Foxx. Sem falar no resgate de "Brighton Rock", uma faixa do Queen que nunca foi um hit, mas que combina com porrada e tiroteio.

sábado, 5 de agosto de 2017

TENTE ESQUECER EM QUE ANO ESTAMOS

"Ai, ai, meu Deus
Mas o que foi que aconteceu
Com a música popular brasileira?"

Rita Lee lançou "Arrombou a Festa" em 1977, metendo o pau em quase todos os medalhões da MPB da época. Dois anos depois, gravou uma nova versão e atualizou a letra. Sobrou para Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Raul Seixas, Martinho da Vila... Todos reverenciados hoje como talentos indiscutíveis. Mas será que Rita já não estava captando no ar a decadência da nossa música? Muitos pesquisadores concordam hoje que o apogeu se deu no começo dos ano 70. Nos primeiros anos daquela década, saíram trabalhos seminais como "Clube da Esquina", os Novos Baianos e os Secos & Molhados. Além da inovação musical, as letras transbordavam qualidade (as dos S&M eram quase todas poesias famosas). E mesmo assim os caras vendiam muito, tocavam nas rádios AM, iam ao programa do Chacrinha e eram conhecidos pelo povão.

Luiz Melodia foi um dos expoentes do período. "Pérola Negra" é uma canção sofisticadíssima, com timbres de jazz e letra isenta de clichês, e ainda assim se transformou num clássico popular. Aliás, toda a obra do cantor e compositor carioca, falecido ontem, é de um refinamento absurdo. No entanto, ele só faturou nos primeiros anos de carreira. Sem se dobrar às regras do mercado, em pouco tempo Melodia foi relegado à categoria cult, onde permaneceu até a morte.

Enquanto isto, as paradas  embregueceram de vez. O "mainstream" da MPB se encolheu num nicho, e os bárbaros transpuseram as muralhas. O resultado é o panorama desolador que vivemos hoje, dominado pelo sertanejo mais rasteiro, com musiquinhas chinfrins recheadas de rimas pobres. Não que eu também não goste de porcaria: adorei "Deu Onda", acho que a bobagem faz parte do pop.

Mas cadê o outro lado? Cadê a garotada com o calibre de um Melodia, um Belchior? Tem gente ótima por aí, eu sei, mas meio escondida. Claro que estou soando velho, reclamando de não me encaixar mais nos tempos que correm. Pode ser. Tentei ouvir Simone e Simaria, não deu. Prefiro música alfabetizada.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

SENTE O DRAMA


De quantas séries dramáticas o cerumano consegue dar conta ao mesmo tempo? No momento eu acompanho três, e não sei dizer qual é a minha preferida. Só a mais badalada: "Ozark", lançada pela Netflix há duas semanas e já saudada como a sucessora de "Breaking Bad". A diferença é que o protagonista Marty Byrde já é corrupto desde o piloto. Jason Bateman, que eu só conhecia de comédias, está ótimo no papel, além de dirigir alguns episódios. De Laura Linney, nem preciso falar nada além de que continua fantástica. Mas para mim a grande revelação é Julia Garner, que faz uma garota white trash que já é um gênio do crime aos 17 anos. Aliás, crime é o que não falta na idílica represa no estado de Missouri onde se desenrola a ação: tem talvez um pouco de bandido demais, mas caso contrário não haveria série. Exageros à parte, "Ozark" é mesmo de prender a respiração.

Também muito tensa, mas em chave mais cerebral, é a minissérie argentina "Jardim de Bronze", que está sendo exibida pela HBO. Faltam apenas dois capítulos para a revelação do que aconteceu com Moira, a menininha sequestrada aos 4 anos de idade e por quem seu pai ainda procura dez anos depois. Algumas mortes são ridiculamente violentas, compensadas pela beleza esguia do ator Joaquín Furriel - não estivessem seus olhos eternamente inquietos. Buenos Aires aparece como um cenário triste e sórdido, e o único personagem com algum senso de humor não sobrevive muito tempo. A melancolia portenha combina com o gênero policial.

As únicas armas presentes em "Quando Fazemos História" são os cassetetes dos homofóbicos e os punhos erguidos dos gays e lésbicas que deram impulso ao movimento LGBT, em São Francisco. A época - a virada da década de 70 para a de 80 - também coincide com o aparecimento da AIDS, o que tornou a luta pelos direitos igualitários ainda mais difícil. O roteiro de Dustin Lance Black se concentra em três figuras principais - um rapaz branco que foge de casa, uma sapatinha politizada e um negro que foi da Marinha - enquanto que estrelas como Whoopi Goldberg ou Rosie O'Donnell surgem em pequenas participações. O engajado diretor Gus Van Sant faz aqui quase que uma continuação do premiado "Milk", contextualizando e ampliando a saga contada naquele filme. Uma minissérie obrigatória para qualquer biba que se preze - especialmente as que acham que as nossas conquistas atuais se devem ao Johnny Hooker.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

CORAÇÃO INDEPENDENTE

O desenho animado acima foi feito por dois estudantes universitários, e já é um dos TCC mais bem-sucedidos de todos os tempos. Em apenas três dias, ultrapassou os 12 milhões de visualizações no YouTube. Nem era para menos: no estilo da Pixar, um rapaz se apaixona por outro, e seu coração literalmente salta para fora do peito. Me lembrou até aquele clássico fado da Amália Rodrigues, "Estranha Forma de Vida" ("coração que não comando..."). Mas com final feliz!

(Obrigado pela dica, Denise Bernstein! Semana que vem, vai pro Mutltiela)

SARAHAH MIOLO

Baixei o Sarahah. Para quem ainda não sabe: trata-se de um aplicativo criado por um saudita ("sarahah" quer dizer "franqueza" em árabe) que permite que você receba mensagens anônimas que, supostamente, falam o que as pessoas pensam de verdade a seu respeito. Isto eu já recebo há dez anos, e de enxurrada, aqui no meu blog, mas não resisti. E elas já começaram a chegar: minha favorita até o momento é "Eu deveria ter transado com você quando tive oportunidade", olha só que filho da puta. Tem também críticas ao meu trabalho e o eterno "você precisa emagrecer". Ahvah.