sábado, 21 de outubro de 2017

TRISTESSE


Ontem foi meu aniversário. Como já fiz em outros anos, me dei a tarde livre e fui me enfurnar na Mostra de Cinema de SP. Queria muito ver "Félicité", o primeiro filme indicado pelo Senegal ao Oscar (apesar da ação se passar na República Democrática do Congo). Aproveitei para pegar o longa que passava imediatamente antes, o argentino "El Pampero". Apesar de não durar nem 1h20 e ter uma premissa interessante - mulher em fuga se esconde no barco de um homem amargurado - o filme é chato e melancólico. O que poderia ser uma boa trama policial vira uma meditação sobre a morte e a solidão, não exatamente do que eu estava a fim no dia de meus anos.
Pior ainda foi o meu aguardado "Félicité", uma das coisas mais maçantes que vi na vida. De novo, a premissa prometia: cantora da noite de Kinshasa precisa arranjar dinheiro para a operação do filho que sofre um acidente de moto. As críticas eram ótimas, e o filme ganhou o Urso de Prata (o equivalente ao segundo lugar no Festival e Berlim). Mas é uma tristeza só: miséria, desespero, sujeira, dívidas atrasadas, pernas amputadas. A protagonista, a despeito do nome feliz, quase não sorri. E da metade para o fim o troço vira uma obra de vanguarda, com cenas escuríssimas que não levam a lugar nenhum e zero de carga dramática. Ano que vem vou ao circo, ou quem sabe a um show sertanejo. Aniversário é pra gente se divertir.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

LEE LEE SANTOS


Rita Lee construiu toda sua carreira como a embaixadora do rock no Brasil, mas no fundo ela nunca me enganou. E nem ao Lulu Santos, que se propôs a dar tratamento pop a alguns dos grandes sucessos da mulher que mais vendeu disco em toda a nossa história. O tributo "Baby Baby!" não traz grandes surpresas: o repertório é meio óbvio, e nenhum dos arranjos se afasta radicalmente das versões originais. Mas é gostoso feito um pudim com uma calda diferente.

O MAIOR CARTAZ


Vão chover indicações ao Oscar sobre "Três Anúncios para um Crime", que está passando na Mostra de SP mas só estreia em janeiro no Brasil. A mais óbvia é para Frances McDormand, que encontrou nesta mistura de filme policial com comédia negra um papel sob medida para seus traços duros (ela está cada vez mais parecida com William Dafoe) e seu estilo ácido de atuação. E a maior barbada é para o roteiro original do também diretor Martin McDonagh: ele solta um monte de pistas falsas, desafia os clichês e faz o espectador não desgrudar os olhos da tela. A premissa sugere um drama pesadão: sete meses depois do brutal assassinato da filha adolescente, uma mãe inconformada com a lerdeza da polícia cobra resultados em três outdoors à beira de uma estrada em sua cidadezinha no interior dos EUA. Mas o que se segue, bem ao estilo dos irmãos Coen, é um estudo sarcástico das complexas relações entre os habitantes do lugar. Ninguém é santo ou vilão. Todos os personagens são humanos, e a violência explode entre eles muitas vezes em chave cômica. "Três Anúncios..." venceu o último Festival de Toronto, que só tem voto popular, e vai se tornar um fenômeno do boca-a-boca. Que puta filme.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

SOMOS O QUE SOMOS


Quase tudo o que eu falei da entrega do Prêmio Bibi Ferreira no ano passado vale para este ano. O show é tão bem elaborado, bem escrito e bem interpretado que deveria passar na TV aberta. É umas duzentas vezes melhor que a porcaria que fizeram para o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Alessandra Maestrini, eterna mestre de cerimônias, teve este ano o apoio de Miguel Falabella e outros nomes do teatro musical - a cena em que os dois aparecem com os trajes invertidos destruiu de vez o pouco que restava da família brasileira, já abalada com as aulas de ideologia de gênero que Pablo Vittar vai dar em Ponta Grossa. E os números dos espetáculos indicados mostraram que não falta qualidade nem quantidade aos nossos talentos. Meu único senão é o fato dos dois grandes premiados da noite terem sido as remontagens de "Les Misérables" e "My Fair Lady". Além do fato de serem peças gringas e já antigas, são o déjà-vu do déjà-vu. A primeira é uma franquia internacional, que pouco acrescenta à primeira encenação brasileira de 17 anos atrás. A segunda é quase um repeteco da montagem que Jorge Takla fez há uns cinco anos, embora com outro elenco. Assim, parece que se confirma a tendência do Bibi Ferreira premiar sempre as produções mais luxuosas da temporada. Mas o mais importante da noite foram mesmo os muitos protestos contra a censura, vindos de todos os premiados e apresentadores, e o número final, em que Falabella começou a cantar "I Am What I Am", da "Gaiola das Loucas", e depois passou a bola para algumas das drags mais famosas de São Paulo. Somos o que somos, e ninguém mais vai nos calar.

THE DARK SIDE OF BRAZIL

Graças à nossa educação incipiente e aos vestígios de uma mentalidade medieval, o Brasil nunca foi um país de gente esclarecida. Mas, há até pouco tempo, os ignaros tinham pouco acesso aos meios de comunicação. A internet mudou tudo isso e mostrou que o país era ainda pior do que a gente pensava. O curioso episódio Polenguinho / Pink Floyd funcionou como um prisma, revelando os matizes da estupidez que ainda grassa por aqui. Os asnos que reclamaram da brincadeira que a marca fez com a capa de um dos discos mais importantes da história do rock demonstram falta  de cultura geral (não sabem que a luz branca é composta por sete cores diferentes), falta de cultura pop ("The Dark Side of The Moon" vendeu 45 milhões de cópias desde 1973, mas pelo jeito não chegou no rincão remoto onde os asnos pastam) e falta de bom senso, achando que o anúncio de um queijo pode tornar uma pessoa gay. Ainda bem que muitos internautas rebateram os homofóbicos na lata, e a resposta da marca foi perfeita. Quem acha que o Polenguinho promove a "ideologia de gênero" (o nome que os preconceituosos descobriram para camuflar seu preconceito) pode muito bem deixar de comprá-lo. Também deveria desligar a Globo, sair do Facebook, evitar Coca-Cola, não ir à Disney, jogar fora o iPhone e boicotar todas as empresas que ajudam na luta pela igualdade de direitos.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

VIRANDO FARINHA

João Doria vem sendo avaliado como ruim de administração porém bom de marketing. Pois eu já acho que o prefeito de São Paulo anda derrapando na incessante autopromoção.  Não havia um mísero assessor por perto para sugerir que o anúncio do tal "granulado alimentar" - um biscoito feito com a farinha de alimentos por vencer - talvez caísse mal para a imagem dele? Não vou nem entrar no mérito se o produto é alimento ou suplemento, ou se fere a dignidade humana. O fato é que Doria, na ânsia de lançar sua pré-candidatura à presidência, soltou mais um vídeo precipitado, sem prever as reações na imprensa e nas mídias sociais. Desse jeito, tanta pretensão logo vai ser moída.

DE VOLTA A 1887

Em mais uma tentativa desesperada de garantir os votos que talvez lhe faltem para salvar seu mandato, o presidente Temer, o Velho, cedeu à pressão da bancada ruralista e aliviou a definição de trabalho análogo à escravidão. É um gigantesco passo atrás, criticado por FHC e pela própria Secretária de Direitos Humanos do governo Temer, Flávia Piovesan. Estamos quase abolindo a Abolição da Escravatura. Dá até vontade de rezar para que não surja uma terceira denúncia contra o Velho: o que mais será que ele é capaz de trocar pelos votos que o safem? Eu tremo só de pensar.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

R.I P. PSDB

Votei várias vezes nos tucanos. Nunca me considerei um deles, mas cravei PSDB em todas as eleições presidenciais (inclusive na de 89, em que fui de Covas no primeiro turno e nulo no segundo). Mas o partido já vinha se desfigurando há tempos, aceitando membros das bancadas BBB (bala, Bíblia e boi) e pendendo muito mais à direita do que nos tempos de FHC. Hoje o tucanato bateu o prego de seu próprio caixão, ao votar em peso pela manutenção do mandato de Aécio Neves. O senador mineiro tinha que ter sido defenestrado assim que surgiu a gravação onde ele se auto-incrimina, mas faltou honradez a seus correligionários. Agora, que arquem com o ônus nas urnas de 2018. Eu, pelo menos, jamais votarei neles.

O DESTIM DO AECIM

É quase comovente ver Aécio Neves lutando pela sobrevivência política, como um cristão atirado aos leões. O futuro ex-senador se debate, esperneia, chora, sussurra juras de amor e ameaça levar todo mundo com ele se não for salvo. Digo "futuro ex-senador" porque me parece que o destim do Aecim já está selado. Ele pode até se safar na votação que deve acontecer ainda hoje no Senado (talvez seja adiada por falta de quórum e/ou manobras). Mas seu mandato expira no ano que vem, e eu desconfio que depois ele sequer consiga se eleger deputado. Esta é uma característica positiva dos eleitores tucanos: um dos cardeais do PSDB foi exposto como um pulha, e ninguém que votou nele fica pentelhando por aí gritando "Aécio, guerreiro do povo brasileiro". Só os petistas é que têm um deus acima do bem e do mal (para não dizer ladrão de estimação).

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

KURTZGRILA

Outra eleição teve um triste resultado neste domingo, e dessa vez não podemos dizer que houve fraude. O partido conservador ÖVP ganhou na Áustria, e seu líder Sebastian Kurtz, de apenas 31 anos, deve ser o próximo primeiro-ministro do país. Até aí, tudo bem: nas democracias, é normal que haja alternância de partidos no poder. E quem é que vai reclamar de ter um gatíneo desses como chefe de Estado? Acontece que, para formar seu governo, Kurtz provavelmente fará uma coalizão com o FPÖ, da extrema-direita. Não sei vocês, mas eu fico todinho arrepiado só de pensar nesses caras mandando nos austríacos. Da última vez, parece que a coisa não foi bem.

TRISTE VENEZUELA

A Venezuela deveria ter tido eleições para governadores estaduais no ano passado. O pleito foi adiado duas vezes com desculpas esfarrapadas do chavismo, que temia perder nas urnas, e convocado às pressas assim que se instalou a espúria Assembleia Constituinte. Tratava-se de um golpe de marketing, bastante usado pelo falecido caudilho: buscar um mínimo de legitimidade no voto popular, para ninguém se atrever a chamar o país de ditadura. Mas boa parte da oposição decidiu participar, receosa de que se repetisse o mesmo que aconteceu após o boicote de 2005: o governo levaria tudo. Só que Nicolás Maduro já demonstrou que não joga limpo, e desta vez não foi diferente. Várias seções eleitorais foram alteradas do dia para a noite, especialmente no estado de Miranda - que rodeia Caracas e é governado atualmente por Henrique Capriles, o maior nome oposicionista. Resultado: os antichavistas perderam Miranda e levaram apenas cinco dos 18 estados em que eram favoritos, contrariando todas as pesquisas confiáveis. Se houvesse lisura, isto seria impossível: nenhuma situação vence quando a inflação é galopante e faltam itens básicos para a população, como remédios e comida. Mas agora Maduro vai se jactar de tolerar alguns governos estaduais de oposição (que, no entanto, ainda estão condicionados ao reconhecimento da espúria Constituinte), e dar argumentos ao PT e outras esquerdas de que a Venezuela é uma democracia em pleno funcionamento. Não é, e tão cedo não deixará de sê-lo. Além do mais, por causa da apatia reinante, já que muita gente se cansou de espernear contra o regime e só levar na cabeça.

domingo, 15 de outubro de 2017

A CASA DOS HORRORES

O UOL publicou neste domingo uma longa matéria sobre um hospital de São Paulo que, entre 1930 e 1945, "tratou" pacientes acometidos de "pederastia e homossexualismo". É uma visão do inferno: há registros de onze homens internados que foram submetidos a confinamento, eletrochoques e comas induzidos, e nenhum caso de sucesso. Um deles, inclusive, teve duas "recaídas" depois da primeira alta. A reportagem retrata a mentalidade vigente há mais de 70 anos, mas também é um lembrete do horror que estão querendo trazer de volta. Quem defende que alguém que esteja sofrendo por sua orientação sexual procure auxílio psiquiátrico para voltar a ser hétero geralmente tem em mente um adulto angustiado, em plena posse de suas faculdades mentais. É claro que essas pessoas existem, e é mais claro ainda que elas podem falar com psicólogos e psiquiatras sobre a dor que as aflige. E o profissional, se o for mesmo, não tentará "curá-las", mas tentar fazer com que elas se aceitem como de fato são. Mas o que importa aqui é que, se qualquer coisa com cheiro de "cura gay" for aprovada, suas vítimas preferenciais - sim, vítimas - não serão os tais adultos, mas crianças e adolescentes internados pelos próprios pais. Ainda existem centros desse gênero nos Estados Unidos e em alguns países da Ásia, e os relatos de quem sobreviveu a eles não fica muito a dever ao antigo Pinel de Pirituba. É bom ter isto em mente antes de achar razoável que se flexibilizem à marra as determinações do Conselho Federal de Psicologia. Também convém lembrar que lei nenhuma tem como mandar na ciência ou na natureza.

sábado, 14 de outubro de 2017

OLÊ MULHER RENDEIRA


"Entre Irmãs" é cinemão com todas as letras em caixa alta. É uma baita produção onde nada parece ter sido economizado: locações, direção de arte, música, tudo é copioso feito um açude transbordando. Inclusive a duração de quase três horas. Saí com a sensação de ter visto uma minissérie de uma só sentada, sem um único respiro - inclusive, suspeito que o filme ficará melhor quando for exibido pela TV neste formato, com breaks e ganchos. A história é folhetim puro. Duas irmãs do interior do Nordeste têm destinos diferentes: uma se casa com um ricaço e vai para Recife, a outra entra para o cangaço. Marjorie Estiano e Nanda Costa estão perfeitas, uma tranquila, a outra fogosa. Aliás, todo o elenco está soberbo. Mas o roteiro tem barriguinhas, que poderiam ter sido eliminadas e tornado este bom longa num épico sensacional. Um filme mais curto, inclusive, ganharia mais sessões nas salas. De qualquer forma, é ótimo que Brasil produza obras desse tamanho. Nosso cinema já sabe namorar: agora precisa aprender a fazer renda.

TOQUE DE CLASSE


Carla Bruni é a antítese do "The Voice". Madame Sarkozy canta de um jeito dolente, quase preguiçoso. Não sei se funciona no palco, mas seus discos sempre me dão a sensação de que ela está ali do lado, sussurrando suas canções no meu ouvido. "French Touch" não traz nenhuma composição dela, nem grandes novidades. São apenas covers de standards do pop em inglês, como se ela estivesse de olho no mercado anglófono. Não é um disco formidável, mas é uma delícia. E nada é mais gostoso que a levada bossa nova que ela deu a "Miss You", dos Rolling Stones. Perfeito para aliviar o stress.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

DIVAS INJUSTIÇADAS

Por incrível que pareça, Grace Jones e Maria Bethânia têm muita coisa em comum. As duas nasceram em pequenas cidades do Terceiro Mundo, em famílias numerosas e religiosas. Saíram de casa cedo para tentar a sorte e se deram bem rapidamente. Construíram carreiras que já duram décadas e ambas continuam na ativa, mesmo tendo por volta de 70 anos. Suas vozes graves e poderosas as fazem reconhecíveis na primeira nota. Elas também têm a capacidade de se apoderar de qualquer música que cantam, trazendo-a para seu universo particular. Para completar, as duas viraram o assunto de documentários fracos.

"Karingana - Licença para Contar" acompanha a visita de Bethânia a Moçambique em 2016. O título se refere a uma expressão local usada por alguém que vai contar uma história, mas é justamente história o que falta no filme. Quem não souber muito sobre a antiga colônia portuguesa na África Oriental vai continuar sem saber: não há contextualização, nem muitas imagens que mostrem o país. A diretora Mônica Monteiro preferiu colher depoimentos de moçambicanos louvando a língua lusitana, o que é lindo mas não é didático. Também vemos Bethânia com um grupo de dança folclórica e conversando com os escritores Mia Couto (moçambicano) e Agualusa (angolano), que ela depois traz ao palco de seu show. O espetáculo em si, mais de poesia do que de música, poderia acontecer em qualquer lugar: não sabemos como é o teatro, nem a plateia. Mas é o que acaba salvando "Karingana", porque Bethânia é sempre fenomenal. Um ímã para os olhos e os ouvidos, ela transborda felicidade por estar em cena e nos torna felizes juntos. Merecia bem mais.
Pior ainda é "Grace Jones: Bloodlight and Bami", em que a diretora Sophie Fiennes consegue a proeza de tornar chata uma das mulheres mais interessantes do mundo. Durante cinco anos, a irmã do ator Ralph Fiennes seguiu a cantora por estúdios, bastidores e viagens à Jamaica. Passou outros cinco finalizando o filme, mas em nenhum momento lhe ocorreu dar alguma estrutura ao material que rodou. As sequências são montadas de qualquer jeito, fora de ordem cronológica ou qualquer outra que lhes desse sentido. Grace aparece mais velha, depois remoça, depois envelhece de novo, sem uma mísera legenda que identifique data e local. Vemos a diva tendo um de seus famosos ataques, o que é sempre divertido, e um pouco de sua família - o filho Paulo, o ex-marido Jean-Paul Goude, a neta Athena, então recém-nascida, e muitos do clã da Jamaica. Mas nada é explicado, nem mesmo o título - "bloodlight" é gíria para a luz vermelha que se acende nos estúdios durante as gravações, e "bami"é  um pão típico da Jamaica. Se eu não tivesse lido a autobiografia de Grace Jones dois anos atrás, teria boiado legal.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

DORMINDO NO PONTO

Minha empolgação por Cármen Lúcia começou a diminuir assim que ela assumiu a presidência do STF. O estilo panos-quentes da ministra não era bem do que o Brasil estava precisando neste momento, que pede posições mais firmes. Me decepcionei ainda mais quando, há alguns dias, ela votou pelo ensino religioso nas escolas públicas, um descalabro num estado que se quer laico - e uma abertura de pernas imperdoável à sanha evangélica. Ontem Cármen Lúcia estava parada no ponto, mas não fez sinal e deixou passar o ônibus da história. Com um simples voto dela, a cleptocracia vigente no Brasil teria sofrido um abalo daqueles, talvez irreversível. Mas a mineirinha se enrolou, quis agradar todo mundo e deu uma sobeja demonstração de covardia. Livrou a cara de Aécio Neves e deu a senha para os que já roubam continuarem roubando, numa boa. Inclusive a nossa vida, a nossa dignidade e a nossa esperança por um país melhor. Agora é tarde, dorminhoca.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

QUEM DÁ MAIS?

E lá vamos nós outra vez. Está aberta mais uma consulta pública no site do Senado, agora perguntando se o internauta apoia "criminalizar a homofobia para punição de pessoas que atacam outras pessoas por serem LGBT". A frase é assim mesmo, mal-escrita e meio vaga, mas o nosso "sim" não deve titubear. Não que eu ache que uma vitória acachapante irá reverter na aprovação da lei, mas porque os homofóbicos vão fazer um carnaval se o "não" ganhar, o que "provaria que a maioria dos brasileiros é contra a ditadura gayzista". Vamos lá, é só clicar no "sim" e pronto; não vai tomar nem 30 segundos e dá para entrar via Facebook.

O CATECISMO FINLANDÊS


Tenho algo a acrescentar à minha crítica ao filme "Tom of Finland" que saiu hoje na Folha. Não coube no espaço que me coube no jornal, e a rigor nem é sobre o longa em si. Só queria ressaltar como Touko Laaksonen (o nome real do artista) virou um herói para as bibas que conhecem seu trabalho. Se ele desenhasse mulheres com peitões e bundonas, hoje talvez tivesse caído em desgraça, acusado de machismo e objetificação. Mas Tom of Finland criou um universo de beleza masculina tão exagerada que a gente sabe que aquilo é só uma fantasia. Seus homens são tão ridiculamente perfeitos e bem-dotados que não dá nem para dizer que ele estabeleceu um padrão impossível de ser seguido - até porque, na vida real, Tom era feio, magricela e barrigudo, não exatamente a combinação mais atraente. Acho isso um ponto positivo da cultura gay.  A maioria de nós não vê a sexualidade como um instrumento de opressão, e nossos astros pornôs são como semideuses. Pelo menos do puritanismo bocó, escapamos.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

LGBTV-BR

Hoje saiu no iG uma boa matéria sobre a representação de gays, lésbicas e trans na televisão brasileira, incluindo trechos de uma entrevista que eu dei semana passada para a repórter Karine Seimoha. O artigo também inclui declarações do diretor Daniel Ribeiro (de "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho") e do ativista Vinicius Oziel. Quase quatro anos depois do beijo entre Félix e Niko em "Amor à Vida", a gente analisa o que melhorou e piorou de lá para cá na nossa TV. Leia e comente, aqui ou lá - mas imploro para não resvalarmos para o debate insano entre direita e esquerda. Estamos falando de direitos humanos básicos, algo que nem deveria mais levantar polêmica. Valendo?

COLÔNIA DO SACO CHEIO


Lucrécia Martel não é para todo mundo. O estilo hermético da diretora argentina faz com que seja até surpreendente a escolha de "Zama" para representar seu país no próximo Oscar. O longa é uma co-produção com o Brasil e tem vários atores nossos no elenco, inclusive o sempre incrível Mateus Nachtergaele. O roteiro fala da obsessão de um oficial da Coroa espanhola baseado no que hoje é o Paraguai em capturar um malfeitor enquanto espera sua transferência de volta para a Europa, em pleno século 17. Mas está longe de ser um thriller: é um filme-cabeça de época, com animais invadindo o quadro sem mais nem menos (a cena da lhama é sensacional) e muita encucação, temperada com violência aqui e ali. A sessão em que eu o assisti no Festival do Rio terminou com algumas vaias e gritos de "vergonha!", mesmo na presença da diretora e da equipe. Talvez porque Zama mostra os escravos negros sendo maltratados? Não entendi. De qualquer forma, é um filme lindo e árido, que só vai agradar aos fãs de Martel.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

GENTE SEM LOÇÃO

Nos meus tempos de propaganda, trabalhei com uma grande empresa americana que achava que o mundo inteiro era igual aos Estados Unidos. Produtos e campanhas não eram adaptados para outros países, com resultados comicamente catastróficos. Também trabalhei com uma grande empresa europeia cuja filial brasileira vetava a presença de negros nos anúncios. Não era uma ordem da matriz: o gerente tupiniquim é que era racista. Mas nunca, em meus 25 anos neste mercado, topei com uma estupidez tão grande quanto o comercial da Dove que causou uma pororoca de proporções planetárias nas redes sociais neste fim de semana. Claro que convém vê-lo por inteiro, e não apenas o composit de imagens sem contexto que vem sendo replicado por aí. Dá para perceber que o conceito pretendido era algo como "sinta-se uma nova mulher cada vez que você usar a loção Dove". Num mundo menos carregado, talvez a mensagem tivesse passado sem problemas. Só que esse mundo não existe, e é de pasmar que uma empresa global como a Unilever, onde prima a diversidade (também trabalhei com eles), não tenha percebido a arapuca colossal em que estava se metendo. O passado de Dove condena: a marca já lançou um protetor solar para pele "de normal a escura", entre outros passos falsos. Mas esse filme desastrado, que já foi tirado do ar, talvez tenha danificado-a para sempre.

O MISTÉRIO DO AMOR


Das boas coisas da vida: ir ao cinema esperando adorar o filme, e adorar mesmo. Eu estava trepidando para ver "Me Chame pelo Seu Nome" desde que saiu o trailer, uns meses atrás. Consegui, no Festival do Rio - e é essa beleza toda que estão falando. A história não podia ser mais simples. Demora um pouco para engrenar e é até previsível. Mas é de uma delicadeza e de uma violência que me abalou os alicerces. Não vai faltar hipócrita gritando "pedofilia!" quando o longa estrear oficialmente no Brasil em janeiro, porque o personagem principal é um garoto de 17 que se envolve com um homem de 30. Os dois são as coisas mais bonitas que Deus pôs no mundo. Armie Hammer transborda magnetismo como o estudante americano que vai passar seis semanas na casa de um professor de arqueologia no norte da Itália. Mas o filme é de Timothée Chalamet. Lindo feito uma estátua romana, o rapaz ainda fala inglês, francês e italiano, toca piano e é um ator fabuloso. O diretor Luca Guadagnino já tinha feito um dos meus filmes favoritos, "Io Sonno l'Amore", e agora assina mais um para a minha lista da ilha deserta. Vão chover indicações ao Oscar, inclusive para a canção "Mystery of Love" de Sufjan Stevens. E eu vou ver de novo quando entrar em cartaz, ô se vou.

domingo, 8 de outubro de 2017

ARTE NÃO É PEDOFILIA

Pedofilia é um crime sério. Não dá para sair acusando alguém de cometê-la ou incitá-la sem provas, a torto e a direito, só para provocar comoção. Mas foi exatamente isto o que fizeram o MBL e políticos como João Doria, Marcelo Crivella ou Magno Malta. Todos tentaram criar uma onda de pânico moral e tirar proveito dela. Agora vão levar o troco. Adriana Varejão - a autora da tela "Cena do Interior II", de 1994, um dos pivôs do caso Queermuseu - vai entrar na Justiça contra seus difamadores. Gaudêncio Fidélis, o curador da exposição censurada, também. E toda a classe artística está se unindo ao lado deles. Hoje começou a ser divulgada a campanha da #342Artes, vertente do movimento liderado por Paula Lavigne. Mas ela não vai ficar só nos videos para a internet. Os acusadores vão ter que responder judicialmente às pesadas acusações que vêm fazendo, que são totalmente infundadas e fruto de má-fé para ludibriar os incautos. Quem cobra moralidade no mundo das artes está fazendo o jogo de quem preservar a imoralidade na política: simples assim.

(Olá, você que vai fazer um comentário dizendo que artistas mamam na Lei Rouannet e que a "maioria" é contra essas obras degeneradas: não precisa. Bjs.)

sábado, 7 de outubro de 2017

BOLSOMICO

Na reportagem de capa da "Veja" desta semana, Jair Bolsonaro diz que tem medo de que "o sistema" se volte contra ele. Vão fazer de tudo para impedir sua vitória nas eleições do ano que vem. E, se ele vencer, vão fazer de tudo para que sofra impeachment o quanto antes. O Bolsonazi tem razão: a própria chamada de capa da revista é um sinal de que o establishment brasileiro já está se voltando contra sua candidatura. Nenhuma democracia aceita fácil um extremista. Mesmo o Trump foi bombardeado pelos republicanos até a convenção do partido, e só ganhou por causa de um arcaísmo da constituição americana. Na Europa, a extrema-direita tem crescido, mas não o suficiente para tomar o poder - e eu duvido que consiga, mesmo com o impulso do terrorismo islâmico. Aqui, um país mal-educado e desinformado, existe toda uma geração que não viveu o regime militar e se sente ameaçada pelos perigosos movimento feminista, negro e LGBT. Bolsonazi fala para essa galera, e para alguns velhos além dela. A repercussão de suas ideias parece imensa, mas está confinada a uma bolha. No ano que vem ele finalmente será confrontado por rivais em debates. Provavelmente, irá xingar muito e desqualificar seus adversários, o que vai agradar quem já o segue. Mas será que consegue novos seguidores? É inevitável que surja um candidato de centro-direita, seja ele Alckmin, Doria ou algum outro nome, com apoio de boa parte da mídia e do grande capital. Meu palpite: o desarticulado Bolsonazi verá seus votos desidratarem, e não deve chegar sequer ao segundo turno (bate na madeira). Mas tem uma coisa com que é bom mesmo a gente "jair" se acostumando. A extrema-direita chegou para ficar, como em muitos outros países. Gostemos ou não, agora ela faz parte do jogo.

MODÉRNONA

Em 1986 - quando muitos dos meus leitores não eram sequer um brilho nos olhos de seus pais - Fernanda Montenegro estrelou no Rio uma montagem da "Fedra" de Racine, uma adaptação do século XVII de um mito grego. Imediatamente, um trio de atrizes lançou uma espécie de paródia chamada "Pedra, a Tragédia", juntando três textos curtos. No último, a grande (em todos os sentidos) Thelma Reston encenava sozinha os trocentos personagens de uma tragédia imaginária, "Ifigênia em Sodoma". Cada um deles merecia um gesto diferente: "quando eu fizer assim é Ulisses, quando eu fizer assim é Menelau...". Essa pérola do teatro besteirol não me saiu da cabeça durante "Antígona", o clássico de Sófocles que Andrea Beltrão transformou em um monólogo. O cenário é uma grande árvore genealógica na horizontal, explicando quem é filho de quem - algo essencial na história da filha de Édipo, que matou o pai e se casou com a mãe. Andrea muitas vezes assume um ar de professora, destrinchando os meandros da Grécia Antiga. Para ser bem esnobe: ela epiciza um texto dramático. Mas também encarna muitos dos personagens, dando-lhes corpo e voz e metamorfoseando-se neles. Sai do palco, corre pela plateia, sua, grita, se descabela. O problema é que a sala é grande demais: o enorme teatro Raul Cortez, em São Paulo, que não se presta a um espetáculo intimista. Mas nem por isto a abordagem que Andréa e o diretor Amir Haddad deram a um texto com 2.500 anos de idade deixou de me impactar. Os gregos tinham que ser montados mais amiúde: eles não são modérnonos, são etérnonos.