domingo, 16 de dezembro de 2018

À LA GARÇONNE


Toda vez que há uma onda de libertação feminina, as mulheres cortam os cabelos e usam calças. Não é porque elas queiram virar homens: é, antes de mais nada, a adoção de penteados e roupas mais confortáveis. Foi assim logo depois das duas guerras mundiais, e também foi assim na virada do século 19 para o 20. Nessa época - a bela época - explodiu Colette, cuja personagem Claudine se tornou um dos primeiros fenômenos da cultura de massa, enfeitando embalagens de balas e cigarros. A escritora francesa tem uma trajetória emblemática da luta pela emancipação da mulher. Casou-se muito jovem com um autor-empresário, que contratava ghost-writers para escrever seus best-sellers. Não demorou para ele por a esposa para trabalhar, mas ainda assinava como seus os livros dela. Essa história de origem é o foco de "Colette", uma visão britânica da literatura além-Mancha. O filme está dentro daquela zona de conforto que reúne atores de prestígio, direção de arte de extremo bom gosto e um ou outro peitinho de fora, só para não ser acusado de caretice total. Mas o roteiro ágil faz com que o tempo flua rápido. Até Keira Kightley, uma atriz com quem eu costumo implicar por causa do eterno carão, está convincente no papel-título. Além do mais, "Colette" aposta em uma tese que vem ganhando tração nos últimos tempos: assim que se torna dona do próprio nariz, toda mulher vira bi.

DOIS FUJÕES

Qual a semelhança entre João de Deus e Cesare Battisti, os dois foragidos da polícia que movimentam as manchetes deste fim de semana? É mole: ambos têm seguidores que acreditam piamente em sua inocência, apesar da avalanche de evidências em contrário. O médium de Abadiânia está sendo acusado de abuso pela própria filha  - e por mais de 350 outras mulheres, desde que o escândalo estourou há cerca de dez dias. Basta ligar a a TV para dar de cara com o relato apavorante de uma moça às lágrimas. Mesmo assim, houve passeata na cidade goiana clamando contra a "injustiça" de que o vidente seria vítima. O fato dele dedicar parte do dinheiro que arrecada para obras de caridade seria suficiente para livrar-lhe a cara, dizem alguns. É como diz a ombudsman da Folha na edição de hoje: somos muitos mais dispostos a aceitar denúncias de corrupção do que de assédio. Os homens "seriam assim", e ponto. VTNC. Já Cesare Battisti foi condenado há 40 anos pela Justiça da Itália, uma democracia que vive sob o estado de direito desde 1945. Sucessivos governos italianos, mais à esquerda ou à direita, querem que Battisti cumpra sua pena. Mas por aqui ele caiu nas graças do PT - o mesmo PT que capturou e devolveu a Cuba dois boxeadores que tentaram pedir asilo no Brasil durante os Jogos Panamericanos de 2007. É preciso ser muito tapado para acreditar que Battisti é um anjo. A essa altura, ele já deve estar na Bolívia, um dos poucos países sul-americanos ainda governados pela esquerda (para a Venezeula aposto que ele não vai, risos). Enquanto isto, João de Deus sinalizou que se entregaria à polícia ainda neste domingo. Oremos.

sábado, 15 de dezembro de 2018

ME PEÇA QUE EU DOU

Agora sou um dramaturgo publicado. Minha primeira obra escrita especialmente para o teatro foi incluída no livro "Peças Curtas", junto com as de outros 13 colegas da Oficina de Dramaturgia voltada para a Comédia que eu cursei em novembro. Foram duas semanas intensas, divertidas e muito curtas: queria ter estudado mais, escrito mais, aprendido mais sobre Aristófanes e Beckett. Hoje rolou o lançamento do livro no Espaço Parlapatões, com a presena de quase todos os alunos e professores da Oficina. Exibidos como somos, lemos algumas das peças em voz alta no palquinho do bar. Entre elas estava a de minha "larva", "A Pistolinha", que eu transcrevo logo abaixo. Leia, coragem.


A PISTOLINHA

Sala de um apartamento de classe média. Ouvimos o som de uma campainha. HELOÍSA, 22 anos, entra afobada, vinda de seu quarto. Ela está terminando de se arrumar para sair: coloca um brinco na orelha ou coisa assim.

Heloísa:
Já vai!

Ela abre a porta e tem uma grande surpresa: do outro lado está uma sósia, HELOÍSA 2, mas com um corte de cabelo diferente, roupas meio gastas e um ar de desleixo. Heloísa 1 (como ela será idenitifcada daqui em diante, para diferenciá-la da outra) tapa a própria boca para conter um grito de espanto.

Heloísa 2:
Eu sei, eu sei, eu devia ter avisado. É que no futuro não tem mais WhatsApp. Foi proibido depois da Guerra Civil de 2020.
(entra e faz uma pausa dramática)
Heloísa, eu sou você. Você, daqui a cinco anos.

Heloísa 1:
Mas como??

Heloísa 2:
Ah, a tecnologia avançou muito. Lá de onde eu venho, já é possível viajar no tempo. E eu voltei ao passado para te convencer a mudar o futuro. O nosso futuro.

Heloísa 1:
Peraí, peraí, como é que é? Tecnologia? Passado? Futuro?

Heloísa 2:
Heloísa, eu sei que você está esperando o Armando. Que vocês estão saindo já faz um tempo, que ele é super legal, é um gostoso na cama, etc. etc. Eu sei, porque eu sou você, não é mesmo?

Heloísa 1:
Eu até achei que era ele quando ouvi a campainha. Mas, então, se você vem do futuro, me dá um número de loteria! Quem vai ganhar a Copa?

Heloísa 2:
Heloísa, presta muita atenção no que eu vou te dizer. Você vai romper com ele, entendeu? Vai terminar tudo. Dessa noite não passa!

Heloísa 1:
Mas, por quê? Você mesma acabou de dizer que ele é super legal!

Heloísa 2:
Bom, na verdade, ele não é tão legal assim. Se você sair com ele esta noite, vocês vão transar. E você vai engravidar.

Heloísa 1:
Mas eu tomei pílula!

Heloísa 2:
Tava vencida. Foco, Heloísa! Você vai engravidar, e vai querer tirar. Mas o Armando vai te convencer a ter o bebê. Vai prometer casamento e tudo.

Heloísa 1:
Ué, mas então...

Heloísa 2:
Então ele vai sumir, um mês antes de você ter esse filho. Vai de-sa-pa-re-cer no ar. Evaporar. E você vai ter que criar o garoto sozinha.

Heloísa 1:
É um garoto? Como se chama?

Heloísa 2:
Armandinho. Ai, que burra que eu fui de dar o mesmo nome do pai pro bebê! Agora eu lembro daquele canalha todos os dias.

Heloísa 1:
Mas você não está feliz, sendo mãe?

Heloísa 2:
Não! Eu tive que largar a faculdade. Agora trabalho num emprego de merda e crio o moleque sozinha. Ah, e sabe que mais? O moleque é um pentelho! Fica o dia todo com uma pistola das galáxias que faz um barulho infernal, eu tô ficando louca! Tão louca que eu trouxe essa pistolinha comigo.

Heloísa 2 tira uma pistolinha de plástico do bolso e a entrega a Heloísa 1.

Heloísa 2:
Toma! Essa porra vai ficar aqui, no passado.

Ouvimos de novo o som da campainha.


Heloísa 1:
É o Armando! Vai se esconder lá dentro, rápido!

Heloísa 2:
Vou. Mas não esquece, hein? Dá um pé na bunda desse cara!

Heloísa abre a porta para ARMANDO, 25, boa pinta, enquanto Heloísa 2 corre para dentro do apartamento.

Armando:
Oiê! Com quem você estava falando?

Heloísa 1:
Eu... eu tava falando sozinha. Escuta, Armando, a gente precisa conversar.

Armando:
Mas, agora? O filme que a gente vai ver começa daqui a quinze minutos. Não dá pra ser depo/

Heloísa 1: Eu não vou mais ao cinema.

Armando:
Mas foi você quem escolheu esse filme!

Heloísa 1:
Armando, eu não vou mais ao cinema nem a lugar nenhum com você, entendeu?

Armando: Hã?
Mas a gente se falou faz uma hora, e estava tudo bem...

Heloísa 1:
Só que não está mais! As coisas mudaram. Eu mudei.

Armando:
Helô, o que é que está acontecendo? Você está tão esquisita. Parece até outra pessoa.

Heloísa 1:
Já te disse, eu mudei! Não quero mais saber de você. Tchau.

Heloísa começa a empurrar Armando para fora do apartamento. Enquanto ele se debate, Heloísa 2 entra na sala, vinda de dentro. Agora ela usa roupas elegantes e algumas joias. Está maquiada e penteada.

Heloísa 2:
Ahá! Deu certo!

Heloísa larga Armando. Ambos estão espantados com a aparição.

Armando:
Quem é você??

Heloísa 2:
Ué, você não me conhece mais? Sou eu, Armando! A Heloísa!

Armando:
E essa aqui, quem é?

Heloísa 2:
É a Helena, minha irmã gêmea. A gente fez uma aposta. Ela disse que conseguia te enganar. E pelo jeito, eu perdi!

Heloísa 1:
Armando, não é nada disso!

Heloísa 2:
Agora já deu, né, Helena? Não precisa mais ficar no personagem. Você já ganhou a aposta.

Armando:
Mas eu nunca soube que você tinha uma irmã gêmea!

Heloísa 2:
Ih, longa história. Ela mora no Amapá, tá passando por dificuldades... (sussurra) É mãe solteira. Vamos embora, que eu te conto no caminho.

Heloísa 2 vai saindo com Armando, quando Heloísa a puxa pelo braço.

Heloísa 1:
Que história é essa? Não era para eu terminar com o Armando?

Heloísa 2:
E você fez muito bem! Quando eu voltar para o futuro, minha vida já vai ser outra. Olha só como eu estou! Terminei a faculdade de Direito, virei uma advogada fodona e estou namorando o Ministro da Justiça. Ah, e o mais importante: não tem mais moleque nenhum me enchendo o saco!

Heloísa 1:
Que ótimo, mas... onde é que você tá indo com ele agora?

Heloísa 2: U
é, ao cinema! Depois jantar, e depois... transar, wuhuu! O Armandinho é um canalha, mas é um gostoso na cama. Tchau!

Heloísa 2 e Armandinho saem, deixando Heloísa atônita na sala. Ela então se dá conta de que está com a pistolinha na mão, e a dispara. O barulho é mesmo horrível, e Heloísa leva um baita susto.

O IDIOTA DE OURO

Acho fabuloso os minions chamarem a imprensa séria de fake news, ao mesmo tempo em que eles próprios produzem um noticiário paralelo sem qualquer conexão com a realidade. Estão circulando, por exemplo, a balela de que o STF teria condenado a repórter Patrícia Campos Mello a pagar 200 mil reais ao clã Boçalnaro (agora que a "rachadinha" deve cessar, eles vão ter problemas de caixa...). Também há quem acredite piamente na capa falsa da "Time" com o Bozo eleito "Pessoa do Ano" pela revista. Nananina, quem ganhou foram justamente os jornalistas perseguidos. Mas há um prêmio de consolação: o presidente eleito faturou dois troféus no concorrido concurso "Os Idiotas do Ano", realizado pelo programa "Je t'Aime Etc." da televisão francesa. Solnorabo foi indicado nas três categorias - misógino, racista e ignorante do ano - e levou as duas primeiras. Pela quantidade de barbaridades que ele e sua prole continuam proferindo, aposto que em 2019 a família Bostonazi vence todas. Vai, BonOuro!

(Merci beaucoup à Pedro HMC pour avoir me renvoyé le vidéo du prix)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

A TOAST

Hoje eu não estou a fim de dar minha opinião sobre nada aqui no blog (já dei lá no F5). Hoje eu só quero compartilhar o primeiro teaser de "Downton Abbey"; o filme em si estreia em setembro do ano que vem. Eis aí um pretexto para brindar.

via GIPHY

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

DEZEMBRO LARANJA

Alguém ainda tem dúvida? A Janaína Paschoal não tem. A deputada mais votada de todos os tempos postou um thread com DEZOITO tuítes explicando como funciona o esquema de repasse de salários que certos assessores fazem para os errados parlamentares que os contrataram. O tempo todo ela diz que não está se referindo a ninguém específico, imagina, mas alguém tem dúvida? O João Doria também não tem. Depois de lançar a campanha Bolsodoria no segundo turno, o governador eleito de São Paulo agora diz que o PSDB não vai dar apoio automático ao próximo presidente. Claro que um predador  oportunista como o Doria não está pensando em se descolar da reputação em queda livre da família Bozo, que só não cai mais rápido que a do João de Deus. Não, imagina.

WILL & GRACE À BRASILEIRA

Gostei mais de "Os Homens São de Marte e É Para Lá Que Eu Vou" no teatro do que no cinema. Sozinha no palco, Monica Martelli conseguia traduzir perfeitamente a busca de sua alter ego Fernanda por um sujeito que preste. Na tela, mesmo com muitos outros atores e  locações espetaculares, o resultado ficou a desejar. Mas a bilheteria foi boa e a continuação, inevitável. "Minha Vida em Marte" começa oito anos depois do primeiro filme, com a personagem em crise no casamento. Só que suas agruras conjugais nem são o principal dessa sequência. Como se vê no trailer acima, o novo longa é vendido como uma buddy comedy: dois amigos atrapalhados que se metem nas mais loucas confusões. E esse amigo é Aníbal, que já tinha aparecido antes, mas agora assume ares de coprotagonista. Paulo Gustavo faz o mesmo de sempre - mas, bem dosado como aqui, arranca mais risos do que suspiros de enfado. Ele e Monica têm uma química palpável, fazendo de "Minha Vida em Marte" uma versão tupiniquim da fórmula de "Will & Grace": uma dupla de sexos opostos que se ama loucamente, mas não pode consumar este amor porque compartilha das mesmas preferências na cama, O filme flui leve e gostoso, com algumas cenas desnecessárias (a viagem a Nova York só enche um pouco os olhos, mais nada), mas zero de barriga. O próximo passo também me parece óbvio: uma série para a televisão.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

GOIABÃO, GOIABÃO, GOIABÃO


Não estou lelé
Jesus no pé
Na minha frente
Fiquei mais crente

Ele é um homem tão lindo
Sempre com essa boca sorrindo
Pegou uma fruta
E jogou na minha mão
Iê, iê

Goiabão, goiabão, goiabão
Goiabão, goiabão, goiabão

Jesus na cuca
Não sou maluca
E a mulherada
Não é de nada

Vou fazer o tal do estatuto
Vou salvar todos nascituros
Nem se for estupro
Ninguém aborta mais não
Iê, iê

Goiabão, goiabão, goiabão
Goiabão, goiabão, goiabão
Goiabão, goiabão, goiabão

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

SINTO-ME BEIJADO


No começo dos anos 80 houve um surto de Nélson Rodrigues no cinema brasileiro. Talvez porque o autor tivesse acabado de morrer, deram para filmar muitas obras suas. E uma que me marcou foi "O Beijo no Asfalto", dirigido por Bruno Barreto. Foi o primeiro Nélson de que eu realmente gostei; hoje, conhecendo outras peças, posso dizer que ainda é a minha preferida. E agora acho que gosto ainda mais, depois de ver o maravilhoso tratamento que Murilo Benício deu a ela, em seu primeiro longa como diretor. Havia muitos pés-atrás: fotografia em preto-e-branco, que costuma afastar o público, e metalinguagem, que costuma desagradar à crítica. Os atores são filmados lendo o texto ao redor de uma mesa e discutindo falas e intenções. Depois, corta-se na mesma cena para interpretações em cenários, realistas como devem ser. Chato? Pretensioso? Só que o elenco é de fechar o comércio, para usar uma expressão daquela época. Tem Lázaro Ramos como Arandir, dando uma nova camada ao personagem. Tem Débora Falabella, com quem eu sempre impliquei, no melhor desempenho de sua carreira. E tem Fernanda Montenegro, para quem a peça foi escrita. Ela fazia a jovem Selminha em 1960 e agora faz a vizinha faladeira, com o mesmo brilho habitual. Mas pairando acima de todos ainda está Nélson Rodrigues. "O Beijo no Asfalto", sobre o escândalo causado por um homem que atende ao pedido de outro, moribundo, e lhe dá um beijo antes que este morra, corria o risco de ficar datado. Mas os acontecimentos recentes deixaram a obra subitamente contemporânea, quase 60 anos depois de sua estreia. Não é um filme para grandes bilheterias, mas quem gostar de teatro vai amar. Penso até que deveria ser nosso representante no Oscar: tem Fernandona, que os gringos conhecem, e tem Nélson, que eles precisam conhecer. Quem sabe no ano que vem?

GUARDIÕES DA GALÁXIA

Primeiro os minions pagaram um mico do tamanho do King Kong. Promoveram uma intensa campanha online para que o Bozo vencesse a enquete da revista "Times" (segundo eles), que perguntava ao público quem deveria ser a Pessoa do Ano. A tigrada não sabe que o título não é um prêmio: como já foi dito, Hitler, Stálin e o aiatolá Khomeini foram Pessoas do Ano da Time. Aí saiu o resultado da pesquisa, e o Solnorabo ficou em oitavo lugar: em primeiríssimo, a banda de K-pop BTS, muito mais relevante para o mundo moderno. Hoje saíram as Pessoas do Ano para valer, escolhidas pela direção da revista. E agora a derrota dos seguidores do mito foi total: os eleitos são os chamados Guardiões - nada menos do que os jornalistas que enfrentam a guerra contra a verdade que os obscurantistas vêm travando. Entre eles está o saudita Jamal Khashoggi, morto no consulado de seu país em Istambul. Também foi citada Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, que revelou o esquema de financiamento ilegal de mensagens pró-Bozo pelo WhatsApp. Todos eles sofreram ameaças e alguns pagaram um preço altíssimo por isto, mas ninguém se calou. Uma imprensa livre e ativa é o melhor antídoto contra a maré de desinformação que quer nos engolir. É bom já ir se acostumando: o jornalismo vai continuar fazendo seu trabalho.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

BOY NEON


Poderia haver uma história propriamente dita em "Tinta Bruta". O protagonista Pedro responde a um processo criminal: durante uma briga com um bully, ele escondeu uma chave entre os dedos e acabou cegando um olho de seu oponente. Mas os diretores Filipe Matzembacher e Marcio Reolon estão mais interessados em traçar um perfil do personagem do que contar o que acontece com ele. O problema é que Pedro não é terrivelmente interessante. É um rapaz meio apático, que só se solta quando lambuza o corpo com tintas fosforescentes e se exibe pela webcam para internautas, que pagam pelo seu showzinho. Além do mais, o longa poderia perder uma meia hora sem remorsos. Apesar de tudo, o terço final é admirável, assim como a desinibição de todos os atores (tem até pau duro em cena). Acho um pouco exagerados os prêmios que o filme vem ganhando, mas não vou reclamar do cinema queer made in Brazil. Que venham mais - e, se possível, melhores.

ILUSTRE SESSENTONA

Hoje se comemoram os 60 anos da Folha Ilustrada, o caderno de cultura da Folha de S. Paulo, do qual eu tenho o prazer e a honra de ser um colaborador fixo. Fui ao jornal por volta da hora do almoço para assistir ao documentário acima, que conta com depoimentos de todos os editores da Ilustra desde o final da década de 1970. Quem preferir ler (e ainda há quem prefira) pode mergulhar no textão que o Ivan Finotti (também diretor do filme) publicou no jornal de hoje. E quem não tiver tempo pode ver o curta abaixo, que resume tudo em seis minutos. Longa vida à que é, até hoje, nossa mídia mais importante na área de arte e entretenimento.

domingo, 9 de dezembro de 2018

O MUNDO É DELA


Não sei se eu fico contente com tantos filmes europeu estrearem por aqui direto na Netflix. Talvez eles nem viessem para o Brasil: se for assim, então iupiii. Mas eu ainda prefiro cinema na telona, portanto fico com sentimentos contraditórios. De qualquer forma, numa tarde de chuva é muito bom ter "O Mundo É Seu" ao alcance de uns cliques. O segundo longa dirigido por Romain Gavras, filho de Costa-Gavras, traz o melhor papel em décadas para aquela que foi minha musa absoluta durante muito tempo: Isabelle Adjani, uma das maiores combinações de beleza, talento e mistério que o bom Deus pôs sobre a Terra. Hoje em dia já não vibro tanto, mesmo tendo a visto em pessoa no teatro. La Adjani está com 63 anos e parece ter 40, mas não dá para dizer que ficou ótima. Seu rosto parece artificial, quase uma máscara, e ela sorri pouquíssimo. Mesmo assim, sua mãe-de-gângster em "O Mundo É Seu" é engraçada: uma perua golpista, que atrapalha o filho bundão que quer deixar a vida de crimes. Ele aceita um último job em Benidorm, na Espanha, e as coisas começam a dar errado no primeiro segundo. Daí para a frente, muita confusão e gritaria, além de alguns movimentos de câmera de cair o queixo. Não é nenhuma obra-prima, mas existem maneiras piores de gastar um sábado.

A BENÇÃO, JOÃO DE DEUS

É pra lá de deprimente ouvir os depoimentos das mulheres que foram molestadas pelo médium João de Deus. É também um lembrete de que não devemos idealizar ninguém, em nenhuma atividade humana. Claro que existe gente honesta, mas ninguém é santo. E que nojo pensar que tantos santos modernos - Baghwan Shree Rajneesh, o guru Prem Baba e agora o John of God de Abadiânia - abusam da vulnerabilidade de suas discípulas, literalmente metendo a mão nelas. Não fui criado como mulher, portanto me é difícil entender porque as vítimas não reclamaram na hora. Mas ainda bem que reclamaram, e são tantas, com relatos tão parecidos, que não dá para duvidar da veracidade. Mesmo assim, ainda tem gente que duvide - gente que escapou ilesa, e que prefere crer que, se o cara não lhe apalpou, então não deve ter apalpado ninguém. E assim cai mais um mito brasileiro. Como com um certo presdidente eleito, não são os pés que são de barro, mas as mãozorras que entraram em lugares onde não foram convidadas.

sábado, 8 de dezembro de 2018

MAS JÁ?

Que o Bozo não é uma pessoa 100% honesta, já se sabia pelo menos desde que veio à tona que ele usava dinheiro público para reforçar a renda da Wal, a mulher de seu caseiro em Angra dos Reis. Depois houve a revelação do aumento do patrimônio do clã, o que me fez esperar a eclosão de um grande escândalo ainda no primeiro ano do próximo governo. Mas nem precisou passar a posse. O escândalo já está aí, e fartamente documentado. Ninguém conseguiu esclarecer porque o motorista de um dos filhos movimentava tanto dinheiro; justificativas do tipo "não tenho tempo de ir ao banco", como o presidente eleito deu para explicar porque 24 mil reais foram depositados na conta de sua mulher, só pioram. Sem saber o que falar à imprensa, Boçalnaro teve um mal súbito e apresentou um atestado médico para ficar em casa, menos de uma semana depois de ir a um estádio lotado e erguer uma taça de 20 quilos. Enquanto isto, no WhatsApp, a inexperiente e arrogante bancada recém-eleita por seu partido troca farpas que vieram a público. Lição número 1: não  se faz um grupo com mais de 50 pessoas, se não quiser que nada vaze dali. Lição no. 2: não se vota em gente despreparada até para mentir. Solnorabo e seu entorno já estão derretendo. Pois é, minionzada: era só mito mesmo, mais nada.

ATUALIZAÇÃO: Ruth Sheherazde, a fictícia gêmea boa da Rachel ( se bem que ultimamente eu tenho achado que elas são a mesma pessoa), postou uma explicação totalmente plausível para a origem do dinheiro:

Pra quem tá confuso e não entendeu como um motorista-assessor-laranja que tb é policial pode movimentar R$ 1,2 milhão em sua conta corrente, eu explico:

1) A família Bolsonaro tinha 4 políticos nas câmaras ou assembleias em que atuavam.

2) Cada um com direito a verba pública para contratar assessores.

3) Imagina que cada um deles contratasse esses assessores e usasse toda a verba para contratação mas que fizessem a contratação dos que aceitassem repassar metade do salário depositando na conta do motorista-assessor-laranja, que repassaria de volta aos Bolsonaros. Coisa comum entre deputados mequetrefes do baixo clero.

4) Imagina que o salário médio de cada assessor girasse em torno de R$ 9 mil.

5) Assim teríamos:

- 4 deputados ou vereadores x 5 assessores + motorista-assessor-laranja totalizando 21 assessores

- 21 assessores x R$ 9 mil de salário totalizando R$ 189 mil por mês

- 12 meses + 13º salário = 13 salários por ano

- 13 salários x R$ 189 mil = R$ 2,457 milhões

- R$ 2,457 milhões x 50% devolvidos à família Bolsonaro via conta do motorista-assessor-laranja = R$ 1.228.500,00

Viu como é perfeitamente possível um motorista movimentar R$ 1,2 milhão num ano?

E vc aí acreditando que o valor que o motorista depositou na conta da 1ª dama era o pagamento de um empréstimo que o honesto, probo e bondoso presidente mito tinha feito ao motorista, afinal foi o próprio mito que disse isso depois de passar mal e sumir um dia todo....

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

KKKKKK-POP

Sou capaz de rir daqui até Seul com o resultado da enquete  da revista Time (ou Times, como dizem os minions). Apesar da intensa campanha online, o Bozo amargou o oitavo lugar. Os mergulhadores da caverna da Tailândia, o príncipe saudita Mohammed Bin-Salman, a ex-primeira-dama Michelle Obama e até o planeta Terra passaram-lhe à frente. Claro que a pesquisa não quer dizer muita coisa: a Pessoa do Ano é escolhida pelos editores da publicação, e será anunciada na próxima terça (aposto no maléfico Bin-Salman). Enquanto isto, vamos bailar ao som dos favoritos do público, a banda de K-pop BTS. Alguém sabe o que quer dizer a sigla? Agora poderia ser Beat The Shit (out of Boçalnaro).

TRÊS MULHERES E NENHUM HUMOR


"Viúvas" quer ser um empolgante thriller de ação ao mesmo tempo em que discute temas sérios como machismo, racismo e corrupção na política. Para tanto, o diretor Steve McQueen ("12 Anos de Escravidão") não mediu esforços. Para reforçar o ponto de vista feminino, escreveu o roteiro com Gillian Flynn, autora de "Gone Girl" e "Sharp Obejcts". E convocou um elenco de famosos para quase todos os papéis: Viola Davis, Liam Neeson, Michelle Rodriguez, Robert Duvall, Colin Farrell e a minha nova musa e futura vencedora do Oscar, a australiana Elizabeth Debicki. Todos estão bem e a trama prometia: assoladas pelas dívidas dos maridos mortos, uma gangue de bandidos, três viúvas vão à luta e resolvem cometer um grande assalto. O resultado é "Oito Mulheres e um Segredo" sem um pingo de humor. O roubo em si demora muito a acontecer, e não é lá muito espetacular. No final, a sensação é a de que comemos um bolo com ingredientes demais, que não combinaram entre si. e ainda sobra uma dúvida: por que Viola não corrige o defeito das pernas que sempre a faz mancar?

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

A GLENN E O GLOBO

Glenn Close recebeu hoje sua 14a. indicação ao Globo de Ouro, por "A Esposa". Ela já venceu duas vezes, ambas por trabalhos na TV:  em 2007, pela série "Damages", e em 2003, pelo telefilme "O Leão no Inverno". Portanto, não dá para dizer que é uma eterna injustiçada pela Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood. Mas é pela Academia, e essa nomeação de hoje é mais um passo da atriz rumo ao Oscar que lhe escapa há mais de 30 anos. Se perder de novo, dificilmente ela terá outra chance - aos 71 anos, são raros os papéis principais. Mas ninguém quer mais criar novos Richard Burtons ou Peter O'Tooles, que foram indicados trocentas vezes e morreram de mãos abanando. Fica mal para a Academia, não para os atores. Contra si, Glenn tem uma concorrência fortíssima: Lady Gaga tem chances no páreo, já que "Nasce uma Estrela" concorre como drama nos Globos. E, na categoria comédia, desponta outra rival que fatalmente irá enfrentá-las no Oscar: Olivia Colman, de "A Favorita". Também não ajuda o fato de "A Esposa" não concorrer a mais nenhum outro prêmio, apesar de ter ido bem de crítica e público. A seu favor, minha atriz predileta tem não só o fato de ser uma eterna injustiçada, como também a máquina de marketing da Sony Classics, especialista em ganhar Oscars. Né por nada não, mas "A Esposa" estreia no Brasil no dia 10 de janeiro - logo após a entrega dos Globos de Ouro, que acontece no dia 6. Acho que Glenn leva (e Gaga ganha pela melhor canção). Mesmo assim, ela parece apreensiva.
Glenn participou da versão 2018 da mesa-redonda que a revista "Hollywood Reporter" promove todo ano com algumas das atrizes favoritas aos prêmios. Cata só como ela é centrada, articulada, sábia, diva, maravilhosa, absolutaaaaaaaaa!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

O CARREFOUR NA ENCRUZILHADA

Alguém aí gosta de fazer compras no Carrefour? A rede francesa de hipermercados é conhecida pelos preços baixos e pela grande variedade de marcas que oferece, mas não pela experiência em suas lojas. Para começar, elas costumam ficar em bairros afastados ou à beira de avenidas de grande movimento: não é a vendinha da esquina, onde você vai para comprar três ovos e pendurar na conta. Além disso, anda-se léguas para encher o carrinho, o que só é bom para quem tem quilos e tempo a perder. O Carrefour nunca se preocupou em se tornar uma "love brand", querida pelos consumidores. Ao contrário do rival Pão de Açúcar, nunca fez campanha usando musiquinha pentelha da Clarice Falcão. E agora a rede está com uma batata em chamas na mão: a morte do cachorro Manchinha, que apanhou com uma barra metálica de um funcionário da loja de Osasco. A internet entrou em erupção, e logo surgiram notícias de maus-tratos a animais em outras lojas do país. Já tem até quem proponha boicote ao Carrefour, o que é meio perda de tempo: é a maior rede do Brasil, e o povão que depende dele para comer não está muito preocupado com os "white people problems". Mas digo só meia perda de tempo porque a simples ameaça de um boicote já costuma surtir efeito. A rede já não tinha uma imagem das mais simpáticas, e agora está com ela na lama. Não basta soltar comunicado dizendo que os responsáveis serão punidos e que ama a natureza: é preciso, como diz a Tatá Werneck, promover ações concretas, como doações a ONGs. A percepção da crueldade com animais vem crescendo muito nos últimos anos, e não foram poucos os candidatos que concorreram nas últimas eleições prometendo proteger os bichos (alguns foram eleitos). As empresas precisam se tocar dessa mudança de atitude, pelo menos entre os formadores de opinião. Só preço baixo não basta.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

TERROR INCONSÚTIL

Para entender o que aconteceu na Noruega no verão de 2011, é melhor ver primeiro "22 de Julho". O filme do americano Paul Greengrass está disponível na Netflix há alguns meses, e narra em detalhes os dois atentados que sacudiram o país, assim como o julgamento do alucinado de extrema-direita responsável pela morte de quase uma centena de pessoas. É um thriller político bem ao estilo do diretor, tenso e consequente. Agora, quem quiser dar um passo adiante também pode ver "Utøya 22 de Julho", m cartaz em SP. Trata-se de uma produção 100% norueguesa que reconstrói em tempo real os 77 minutos do ataque do terrorista na ilha de Utøya, onde acontecia um acamapmento de jovens ligados a um partido político. A câmera acompanha uma única menina, em sua fuga desesperada enquanto o atirador vai ceifando seus colegas. O filme todo passa a sensação de ter sido feito em um único take (não é, graças às maravilhas da tecnologia) e escapa de todos os clichês dos filmes de horror. Não há sustos pontuais nem pegadinhas, muito menos um arco dramático tradicional. Sem falar nos tempos mortos, em que não acontece nada: a moça apenas se esconde, chora ou tenta consolar um amigo. O resultado é pra lá de incômodo, e passa ao largo do entretenimento. Mas "Utøya 22 de Julho" é quase uma instalação em realidade virtual, e avança o cinema em alguns centímetros. Também é o mais próximo que a maioria de nós vai chegar de uma experiência de terror absoluto.

DAMARES A PIOR

Gostaria de parabenizar todas mulheres e gays que votaram no Bozo. Vocês ajudaram a conduzir a pastora Damares Alves ao Ministério dos Direitos Humanos. Eu sei, eu sei: podia ser pior. Podia ser o Magno Malta. Mas foram os militares (e não vocês, que fique bem claro) que impediram que o futuro ex-senador assumisse um cargo no primeiro escalão do próximo governo. Para não descontentar os teocráticos, o Boçalnaro está considerando uma assessora de Malta para o posto que ele tanto cobiçava. Damares já disse que o papel da mulher é ser mãe, chama de "satanistas" as religiões de matriz africana e espalhou que Marta Suplicy, quando prefeita de São Paulo, gastou dois milhões de reais para ensinar os pais a masturbarem os bebês. Esse é o nível da pessoa que pode cuidar que os direitos das minorias sejam respeitados. Inclusive os dos gays e das mulheres.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

OLAVO DE SMASCARADO

A súbita notoriedade de Olavo de Caravlho tem um lado extremamente negativo - para ele. A grande imprensa finalmente se deu conta da influência do auto-denominado "filósofo" sobre alguns integrantes do futuro governo, e se admirou de sua capacidade de indicar ministros (justamente dois dos mais desqualificados para os cargos...). O resultado é que os três grandes jornais brasileiros entrevistaram o Olavão na semana passada, e ele agora adorna a capa da Veja. Está tendo seus livros esmiuçados e suas credenciais escarafunchadas. Como que ele alega ter uma "genius visa" para os Estaods Unidos, se não tem uma obra reconhecida internacionalmente nem curso superior completo? Gilberto Dimenstein, do Catraca Livre, entrou numa cruzada para desmascarar o charlatão, e por enquanto está ganhando de lavada. O guru da extrema direita, que não acredita nas vacinas e acha que educação sexual é para ensinar putaria, só respondeu com palavrões até agora, sem apresentar provas convincentes. Claro que seus seguidores não precisam de evidências científicas: é gente boçal, que finalmente achou um boçal ainda maior para ecoar suas asnices. Mas o resto do Brasil está percebendo quem é esse ex-astrólogo, que fala baboseiras travestidas de grosserias e passa por oráculo pelos mal-intencionados de alma.

BICHO-MAGIA


Nunca fui fanático pelo universo de Harry Potter, mas meu marido é. Por causa dele, vi todos os filmes da franquia - inclusive "Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald", que nem estava na minha lista. Acabei gostando mais do que esperava, porque o novo longa tem uma beleza atordoante e um ritmo ágil, que não deixa a peteca cair nem um segundo. O que não tem é um roteiro dos mais claros: quem está lutando contra quem, e por quê? O mago Grindelwald quer impedir os humanos de se matarem na 2a. Guerra Mundial - e isto faz dele um malvado? Johnny Depp está meio ridículo no papel, mas ele já está acostumado. Quem se mostra um ator limitado é Eddie Redmayne, que , apesar de um Oscar, faz sempre um homem de aspecto frágil dotado de uma grande força interior. Dessa vez os bichos aparecem menos do que no primeiro filme, mas Paris (feita em estúdio) se mostra uma locação interessante. O próximo capítulo vai se passar no Rio de Janeiro. Animais fantásticos não vão faltar, nem balas perdidas.

domingo, 2 de dezembro de 2018

SOUTH AMERICAN WEIWEI

Saímos da Bienal e fomos para a Oca, logo ali adiante. A mostra "Raiz Weiwei" fica até o dia 20 de janeiro, mas já que estávamos ali... Trata-se nada menos da maior exposição individual daquele que é, talvez, o mais importante artista plástico em atividade. A variedade e a inventividade das obras é de tirar o fôlego: incrível pensar que saiu tudo da cabeça do mesmo cara. Muitas, inclusive, inspiradas pelo e executadas no Brasil. Como a que aparece na foto acima, que tem o singelo nome de FODA - Fruta-do-conde, Ostra, Dendê e Abacaxi. Todo o subsolo da Oca também está tomado por obras "brasileiras" de Ai Weiwei, como a impressionante coleção de peles bovinas marcadas a ferro com letras do alfabeto armorial de Ariano Suassuna, formando citações em português que vão de Pero Vaz de Caminha a Marcelo Yuka, ou os ex-votos confeccionados sob encomenda em Juazeiro do Norte. Ai Weiwei consegue a façanha de ser extremamente chinês e totalmente cosmopolita ao mesmo tempo. O efeito estético é belíssimo e a mensagem contundente, como nos vasos de porcelana que reproduzem, no estilo tradicional, as agruras dos modernos imigrantes. Se fosse em alguma capital do Primeiro Mundo, haveria longas filas e ingressos esgotados. Como estamos em São Paulo, deu para entrar na hora - e olha que o ingresso mais caro custa 20 reais. "Raiz Weiwei" é uma ótima desculpa para visitar a cidade.

MAMMA, JUST WENT TO THE BIENAL

Há mais de uma década que São Paulo não recebia uma Bienal tão boa quanto esta, que sai de cartaz na semana que vem. Claro que nem tudo é bom: ainda abundam as instalações que parecem ter sido feitas pelos alunos da Tia Cleide com tudo que havia no armário de limpeza. E ainda há o problema eterno do pavilhão desenhado por Niemeyer, que obriga o visitante a percorrer léguas por uma rota que nunca é racional. Mas a ideia das subcuradorias - o curador espanhol Gabriel Pérez-Barreiro chamou artistas do mundo inteiro para fazerem suas próprias seleções - funciona bastante bem. E não é que essas várias mostrazinhas conversam bem entre si, justificando o tema "Afinidades Afetivas"? Mas nenhuma é melhor que a da pintora sueca Mamma Andersson, de quem eu nunca havia ouvido falar. Ela escolheu diversas obras suas e de conterrâneos seus, além de ícones russos do século 16, móveis modificados e até uma peça exclusivamente sonora. Também me encantei com o paraguaio Feliciano Centurión e o guatemalteco Aníbal López, ambos já mortos mas autores de trabalhos fortíssimos. Ainda tem a série completa "Césio 137", pintada há mais de 30 anos por Siron Franco como comentário/denúncia do grave acidente atômico que abalou Goiânia. Para variar, eu devia ter ido antes: agora não vou ter tempo para uma segunda visita à Bienal.