sexta-feira, 23 de junho de 2017

TEAM QATAR

Vamos deixar bem claro: o Qatar não é nenhuma democracia. A família real não admite dissidências, os trabalhadores estrangeiros têm pouquíssimos direitos e está cada vez mais claro que o país comprou a Copa de 2022. Mas, nesse momento em que meio mundo árabe rompeu com os qataris, eu estou do lado deles. As exigências da Arábia Saudita para reatar os laços diplomáticos são absurdas: querem que o Qatar não só se afaste do Irã, como feche a emissora al-Jazeera, que é sediada lá. O grande canal de notícias faz uma cobertura equilibrada e até ousada para os padrões muçulmanos - menos do próprio Qatar, o que é hipocrisia, lógico. Mas seus vizinhos estão pegando pesado demais, e o pior é que têm o apoio do Trump. Como ajudar o pequeno (porém riquíssimo) emirado? Pensei até em fazer conexão em Doha ao invés de Dubai, se algum dia eu for mesmo para o oriente. E olha que, por causa do embargo e das restrições ao espaço aéreo, a viagem daqui para lá aumentou em quase duas horas...

NORWEGIAN WOOD

Alguém aí sabia que a Noruega já investiu mais de UM BILHÃO de dólares na preservação da Amazônia? Tremo em pensar no destino que boa parte desse dinheiro deve ter tomado. Mas agora o país nórdico vai repensar essa ajudinha, e o anúncio do corte foi só um dos vexames que Temer, o Velho, passou em sua visita oficial por lá. Os outros: ele foi recebido em Oslo por ninguém mais que o administrador do aeroporto; na entrevista coletiva havia um único jornalista, um rapazote recém-formado; e o presidente ainda chamou o rei da Noruega de rei da Suécia, numa gafe que o perseguirá até o fim de seus dias (que virá em breve).

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O PÓS-LULA JÁ COMEÇOU

Há uma nova esquerda se aglutinando no mundo, não necessariamente ao redor de caras novas. Nos Estados Unidos, ela é personificada por Bernie Sanders; na França, por Jean-Luc Mélénchon. Os dois saíram derrotados dos últimos ciclos eleitorais, mas a garotada os apoia cada vez mais - o que quer dizer que eles (ou suas ideias) estarão de volta nas próximas eleições. E no Brasil? Faz mais de 20 anos que por aqui esquerda é sinônimo de Lula e vice-versa. Mas tudo indica que o ex-presidente está no ocaso de sua carreira. Na remota hipótese dele escapar de uma condenação em segunda instância, ainda terá que vencer uma enorme rejeição para se reeleger no ano que vem. Portanto, não é de se admirar que PSOL, MTST e setores do próprio PT estejam se encontrando sem avisá-lo. Mas quem seria o líder dessa nova fase? Se ele quiser, aposto em Fernando Haddad. Duvido que ganhem em 2018, mas desconfio que a era pós-Lula já começou. Só não avisaram para ele.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

QUAL É O SEU KIKI?


Uma mulher só se excita quando vê o marido chorar. Uma outra, goza quando sente muito medo. E um homem dá soníferos para sua esposa paraplégica, para transar com ela adormecida. Estas são algumas das filias - ou taras, em bom português - apresentadas no filme espanhol "Kiki - Os Segredos do Desejo", que está passando discretamente pelos cinemas brasileiros. Mas não devia: "Kiki" é delicioso feito um tesão reprimido. O próprio título quer ser um sinônimo simpático para essas práticas pouco ortodoxas, mas talvez devesse ter sido trocado por aqui para atrair mais público, Pelo menos é mais sedutora do que "A Pequena Morte", o filme australiano no qual é baseado e que também ignoramos. Mas não perca esta versão, mais humana e caliente, com personagens verossímeis e algumas cenas antológicas (como a do surdo...). Let's have a kiki!

LIFE IN PLASTIC, IT'S FANTASTIC

Fui uma criança perversa - aliás, como quase todas. Gostava de tirar as roupas dos bonecos e promover surubas entre eles. Também os torturava: certa vez derreti o braço de um monstrinho de borracha, para ver como escorria. Esse meu instinto básico estava adormecido, mas foi despertado pela nova linha de Kens. O namorado da Barbie passou por um extreme makeover, o que já não era sem tempo, e ganhou novas cores, tipos de corpo e estilos de cabelo. Até aí, nada contra: viva a diversidade, etc. etc. Mas o Ken de coque samurai me dá vontade de matar. Acho que vou comprar um só para submetê-lo às mais cruéis sevícias, mwahahaha.

terça-feira, 20 de junho de 2017

NARIÇÕES DE RENANZINHO

Renan Calheiros tem medo. A exposição de suas falcatruas ao longo dos anos está pondo em risco sua reeleição em 2018 - e também a de seu pimpolho, governador de Alagoas. Mas o ex-presidente do Senado achou uma maneira de turbinar sua popularidade: agora ele é contra as reformas previdenciária e trabalhista, indo totalmente contra seu partido e o governo do qual faz parte. Tanto que seu voto contra hoje nem foi surpresa, o que não quer dizer que ele tenha se tornado o paladino dos desvalidos. É só mais um oportunista pensando exclusivamente na própria pele, e mais uma prova de que a permanência de Temer no poder não garante a aprovação de reforma nenhuma.

YOUNG MAN, I WAS ONCE IN YOUR SHOES

Levou 40 anos, mas finalmente uma filial da Associação Cristã de Moços - a da Austrália - se apossou do clássico hino do Village People, que sempre foi renegado pela entidade por causa de sua conotação gay. "Y.M.C.A." acabou de ganhar uma versão meio folk na voz de ninguém menos que Boy George, como tema da campanha "Why Not" que pretende reapresentar a marca à garotada australiana. Gostei, mas pena que com essa levada não dá para fazer a coreô.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

LEGAL PACAS


Elis Regina rendeu vários livros e um longa-metragem, e tem uma minissérie planejada na Globo. Maria Bethânia ganhou pelo menos dois documentários que contam sua trajetória. Mas Gal Costa, que com as outras duas forma o trio de grandes cantoras brasileiras surgidas nos anos 60, era pouco examinada até hoje. Essa lacuna está finalmente sendo coberta pela série "O Nome Dela é Gal", cujo segundo de quatro episódios foi exibido ontem pela HBO. A receita não tem nada de inovadora - depoimentos atuais e antigos são entremeados com imagens de arquivo - mas é didática e envolvente. E o roteiro realça o pioneirismo da ex-Gracinha, que foi, em pleno auge da ditadura militar, a cantora mais moderna que o Brasil teve até hoje. Fiquei tão curioso que fui ouvir o terceiro álbum de Gal, "Legal", de 1971, que ela gravou quando Gil e Caetano estavam exilados em Londres. O disco é assombroso: tem de uma versão à la Janis Joplin de "Eu Sou Terrível", de Roberto e Erasmo, a misturas psicodélicas de baião com rock, culminando no clássico "London, London". Muito mais avançado do que as tulipas e karinas de hoje em dia. Agora, se "O Nome Dela é Gal" reitera a importância artística da cantora, sua vida íntima permanece um mistério. Enquanto sabemos detalhes de cada amor que Elis teve na vida, os de Gal Costa continuam elusivos como o sorriso do gato de Alice.

TEAM RODIN X TEAM CAMILLE


Camille Claudel virou figurinha fácil no cinema. Ganhou seu próprio filme em 1989, com uma interpretação que rendeu a Isabelle Adjani sua segunda indicação ao Oscar. Reapareceu em 2013 com Juliette Binoche, no sombrio "Camille Claudel 1915". E agora vira coadjuvante em "Rodin", onde seu famoso amante é o protagonista. Mas não é mais uma personagem trágica, que enlouquece por ser rejeitada: aqui ela só é uma mocinha bonitinha e esforçada, sem nenhum glamour, que se torna uma chata a incomodar o talento de um gênio. Este é um dos defeitos de "Rodin", que está passando no Festival Varilux mas só entra em cartaz em novembro: o escultor é mostrado como um grande artista que tem o direito de comer as mulheres que quiser, pois o que importa mesmo é sua obra. É uma visão masculina, para não dizer machista, contrária ao mimimi a que nos habituamos sempre que Camille Claudel é mencionada. Além disso, o longa do veterano diretor Jacques Doillon é bem austero, com planos longos e pouca música, sem que nada de muito transcendental aconteça. Achei meio chato, e continuo sendo Team Camille.

domingo, 18 de junho de 2017

A PARADINHA-AH-AH-AH-AH

Cheguei às 14 horas e me instalei numa ilha no meio da Paulista, em frente ao prédio de um amigo meu. Chamei o dito cujo e assistimos juntos ao desfile de todos os carros da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Eu nunca tinha visto o desfile inteiro, do começo ao fim. E não posso dizer que adorei: os primeiros carros me pareceram beeem pobrinhos. Um deles nem faixa tinha, só umas bichas desanimadas em cima. As celebridades só começaram a aparecer da metade para o fim, a partir do carro da Daniela Mercury, que virou obrigatória em eventos do gênero. Avistei Rogéria, Fernanda Lima e Fafá de Belém, esta última cantando no trio do filme "Divinas Divas". Mas me chamou a atenção a ausência de políticos - alguém viu algum? Onde se meteu a Marta Suplicy? Jean Wyllys tampouco veio. E o Dória avisou que ia viajar, mas gravou um vídeo saudando as guei para sua página no Facebook (onde foi imediatamente massacrado). E a Anitta, onde parou? Saí às quatro e meia com a sensação de ter visto uma parada animada, sem problemas, mas também sem uma trans crucificada para entrar na história. Também não ajudou o tema quilométrico, impossível de caber numa hashtag: "Independente das nossas crenças, nenhuma religião é lei. Todos e todas por um Estado Laico'.  Me chamem no ano que vem, prometo que escrevo coisa melhor e não cobro nada.  Mas, enfim, vinte anos depois da primeira edição, a Parada de SP está mais que incorporada à rotina da cidade. Felizmente, parou com aquela bobagem de inflar seus números ano a ano: ela continua gigantesca, maior do que qualquer similar no mundo. Dessa vez o que mais me impressionou, na verdade, foram turmas de garotos e garotas bem novinhos, com cara de que tinham vindo de longe, todos dançando animadíssimos. Se essa energia for canalizada não só para a festa, mas também para o voto, não estaríamos mais debatendo se família só pode ser formada com um homem e uma mulher.

sábado, 17 de junho de 2017

BRASILSLEY

Acredito piamente em cada palavra da entrevista que Joesley Batista deu à revista "Época". Por quê? Porque tudo monta, tudo faz sentido. E é tudo absolutamente apavorante: o Brasil que emerge daquelas páginas é uma bosta. Riquíssimo em recursos, com dimensões continentais e um potencial incalculável, o país caiu nas mãos de uma quadrilha mafiosa. Não se deixem enganar, coxinhas e mortadelas: PT, PSDB e PMDB são só facções de uma mesma "Orcrim", a abreviatura de "organização criminosa" que Joesley nos ensinou. Não adianta tirar um para colocar o outro no lugar. Que se vayan todos, e já.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

VOYAGE VOYAGE


Faço muito turismo no cinema. Adoro passar duas horas viajando, mesmo se o filme for ruim. "Paris Pode Esperar" é médio: a trama e os personagens não tem lá muita substância, mas as paisagens são maravilhosas e a comida é tentadora. Dianne Lane (uma atriz que Hollywood precisava usar mais) faz a mulher de um produtor de cinema que desiste de acompanhá-lo a uma viagem de negócios a Budapeste, preferindo pegar carona de Cannes a Paris no velho Peugeot de um amigo do marido. O que era para ser um trajeto de oito horas acaba levando três dias, pois o francês faz questão de parar em cada restaurante e atração turística pelo caminho (inclusive a gloriosa Pont du Gard, o aqueduto romano que aparece no trailer aí em cima e que eu tive a honra de conhecer em 2014). Fica aquela tensão boba no ar: os dois vão ou não vão para a cama? "Paris Pode Esperar" é o primeiro longa de ficção dirigido por Eleanor Coppola (aos 80 anos de idade!), esposa de Francis e mãe de Sofia. É bem a fantasia de uma mulher casada e privilegiada, mas totalmente inofensivo. Não chega aos pés do resto da obra da família, mas enche os olhos e abre o apetite.

BUM BUM PRATICUMBUM PRUGURUNDUM

É im-pres-sio-nan-te o dedo podre de cariocas e fluminenses para escolher seus dirigentes. O estado já elegeu bandidos como Anthony Garotinho e Sérgio Cabral para governador. A cidade preferiu Eduardo Paes ao invés de Fernando Gabeira, e no ano passado foi de Marcelo Crivella para prefeito. Sim, um bispo evangélico no comando da capital nacional da putaria - e vindo da mais gananciosa de todas as igrejas neopentecostais, a Universal do Reino de Deus. Agora o Rio está em polvorosa com a queda de braço entre o alcaide e a Liga das Escolas de Samba, não exatamente um antro de virtude.  A disputa é o tema da minha coluna de hoje no F5, e mexe com os interesses de muito cachorro grande. Seria maravilhoso se Crivella saísse enfraquecido, pois o cara não faz a menor ideia do que seja o estado laico. Mas as escolas também merecem ser auditadas, para deixarem de ser sinônimo de contravenção (para não dizer crime). Só que isto é um sonho tão improvável quanto o Império Serrano voltar a ser campeão pelo Grupo Especial.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

VICTORIA ENGANOSA


"Na Cama com Victoria" foi indicado a vários Césars, inclusive de melhor filme. O trailer é ótimo. As críticas, excelentes. E assim armou-se o cenário para eu me decepcionar. Veja bem, em nenhum momento eu achei chato (ainda mais porque é bem curto). E o tema comum da mulher em crise, em casa, no amor e no trabalho, ganha acréscimos originais, como um jovem ex-traficante que é contratado como baby-sitter ou o amigo sedutor que, no entanto, tem um histórico de violência com as namoradas. Mas fui esperando rir mais, apesar de umas duas ou três piadas boas. Saí do cinema... derrotado (que bola fácil, hein?).

quarta-feira, 14 de junho de 2017

O CONTÁGIO QUE DESENDIREITA

Dizer que o populismo de extrema-direita vai engolir o mundo is the new black, assim como já o foi achar que o Brasil inteiro seria evangélico em 2020. Virou lugar comum até entre comentaristas renomados. Só que a realidade desmente a percepção. Desde que Donald Trump foi eleito, os demagogos nacionalistas perderam feio todos os páreos que disputaram na Europa. Começou pela Áustria: em maio do ano passado, os extremistas do Partido da Liberdade ficaram a meio ponto de vencer as eleições. Contestaram o resultado e um segundo turno foi realizado em dezembro. E aí, perderam por uma diferença de oito pontos... Na Grã-Bretanha, pegou muito mal Theresa May ser a primeira líder estrangeira a visitar o novo presidente dos EUA. A primeira-ministra acabou de perder a eleição que ela mesma convocou, e o partido semi-nazi UKIP não conquistou uma mísera cadeira no Parlamento. Na França, o Front National de Marine Le Pen terá no máximo cinco cadeiras. Ainda falta a Alemanha, que só vai às urnas em setembro, mas a popularidade de Angela Merkel vem subindo nos últimos meses. O fenômeno é analisado neste ótimo artigo (em inglês) de Nate Silver. É bom lembrar, no entanto, que tudo isto está acontecendo na Europa. Como será no Brasil?

LEITÃO À PURURUCA

É estranho que Miriam Leitão tenha levado dez dias para relatar a agressão que sofreu a bordo de um avião. É estranho que as testemunhas (não confirmadas) que apareceram até agora tenham diminuído a gravidade do incidente, quando não desmentem totalmente a jornalista (mas há um vídeo que mostra turba cantando palavras de ordem). O que não é estranho é o PT emitir uma nota em que lamenta o ocorrido e ainda assim culpar a Globo pelo clima de ódio que domina o país, quando o próprio Lula costuma atacar Míriam Leitão nos comícios para sua claque. Também não é estranha a divisão que aconteceu nas redes sociais, com os coxinhas defendendo a moça e os mortadelas xingando-a ainda mais. Esse tipo de divisão entre nós, cidadãos, só interessa à classe política, que assim se mantém no poder - como demonstra com brilhantismo este artigo do Pablo Ortellado publicado ontem na Folha Online. Eu sou totalmente a favor de que os políticos, de qualquer partido, sofram apupos quando aparecem em público. Afinal, eles têm poder: poder de aprovar leis e orçamentos, que afetam diretamente nossas vidas. Mas agredir jornalistas é demais. E, ao invés de discutirmos se Miriam Leitão mereceu ou não ser achacada, devíamos mesmo era nos unir contra essa asquerosa política velha.

terça-feira, 13 de junho de 2017

ENTALADOS

É triste ver os "cabeças-negras" do PSDB serem derrotados. A ala (mais) jovem dos tucanos queria sair já do governo Temer, porque ainda está no começo da carreira política e sabe que o eleitor não vai perdoar quem for percebido como cúmplice de ladrão. Mas Alckmin e Aécio conseguiram conter a revoada. O primeiro, porque acha que a manutenção do atual presidente é o caminho mais suave para ele próprio se candidatar em 2018. O segundo, porque vê em Temer sua única esperança de talvez, quem sabe, frear a Lava-Jato e escapar da cadeia. E assim o partido, que poderia ser o ninho de talvez, quem sabe, um Macron brasileiro, combinando o melhor da direita e da esquerda, condena a si mesmo à extinção. Fogo nele!

VEM CÁ, LUISA

O chavismo vai implodir? Talvez, porque suas fissuras internas já estão visíveis. A maior de todas é a procuradora-geral Luisa Ortega Diaz, a única pessoa que está conseguindo colocar algum tipo de obstáculo à determinação de Nicolás Maduro de convocar uma constituinte para se manter no poder. Chavista histórica, ela quer apenas que a constituição bolivariana de Hugo Chávez seja seguida ao pé da letra. Ou seja: que a Assembleia Nacional, hoje dominada pela oposição, tenha poder de fato; que as eleições para governador, programadas para o ano passado, um dia aconteçam; que os prisioneiros políticos sejam libertados, e assim por diante. Luisa Ortega é uma voz solitária dentro do governo, e é improvável que alguma coisa mude na Venezuela enquanto o exército apoiar Maduro. Mas já é um sinal de que a ditadura incompetente em que o país se tornou não é uma unanimidade nem entre os que queriam o socialismo.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

MAYHEM

Theresa May podia ter ficado quieta e governado com maioria no Parlamento até 2020. Achou que estava com a bola toda, convocou eleições e se deu mal (aliás, como seu antecessor David Cameron). Agora se vê obrigada a formar uma coalizão com o asqueroso UDP da Irlanda do Norte, que é contra o aborto e o casamento gay. Se não conseguir, pode perder o cargo de líder dos conservadores e, por conseguinte, o de primeira-ministra britânica. Como não nutro simpatia por essa vira-casaca que antes era contra o Brexit e agora é a favor, só vou ter saudade de uma coisa se ela sair mesmo: suas caretas. Toda vez em que falei de May aqui no blog, encontrei várias fotos de seu rosto se contorcendo em esgares. Uma mais feia que a outra.

YOU'RE LOOKING SWELL, DOLLY

Já faz mais de quatro anos que estive pela última vez em Nova York, e não tenho nenhuma perspectiva de voltar para lá em breve. Portanto, a cerimônia de entrega dos prêmios Tony (o Oscar da Broadway) na noite de ontem me atinge de duas maneiras distintas. A primeira é cruel: provavelmente jamais verei nenhuma das peças indicadas, que incluem um revival de "Sunset Boulevard" com Glenn Close e um revival de "Hello, Dolly" com Bette Midler. Mas a segunda maneira é simpática: o show mostra cenas dos musicais atualmente em cartaz, então pelo menos sobra uma palhinha para eu não morrer seco de vontade. E ainda tem números espetaculares e exclusivos, como a abertura com o anfitrião da noite, Kevin Spacey. O Frank Underwood de "House of Cards" não só mostrou que canta, dança e sapateia, como também que tem senso de humor: fez duas menções a "coming out" (sair do armário), justo ele que nunca se assumiu gay.
E a divina Bette finalmente ganhou seu primeiro Tony competitivo (ela tinha um especial, dado há mais de 40 anos) como melhor atriz de musical por "Hello Dolly". Seu discurso entusiasmado de agradecimento conseguiu calar a orquestra e só me deixou ainda mais ensandecido para vê-la no palco. O dia há de chegar.

domingo, 11 de junho de 2017

SENTINDO FRIO EM MINH'ALMA


Precisamos parar de achar que cada filme argentino que estreia por aqui é uma obra-prima. Mas o fato é que a produção média deles é mesmo superior à nossa. Vejamos o caso, por exemplo, de "Neve Negra". Trata-se de um thriller - barra - drama de família com elenco estelar, belas locações e roteiro não mais do que eficiente. Acompanhado pela esposa grávida, um homem vai visitar o irmão que vive isolado nas montanhas, para convencê-lo a vender a serraria da família. Uma outra irmã está internada num hospício, e o irmão menor morreu durante uma caçada quando era pequeno. Claro que há um segredo por trás de tudo isso, e nem foi difícil descobrir antes do final. Mas o clima de suspense se mantém, ajudado pela curta duração (apenas 90 minutos). "Neve Negra" é um bom passatempo, enquanto não chega o que parece ser o grande filme argentino do ano: "A Cordilheira", também com Ricardo Darín.

sábado, 10 de junho de 2017

CALOTE NA PIZZARIA

Surpresa? Nenhuma. E a crise política ainda estaria longe de terminar se Temer tivesse sido cassado ontem pelo TSE, porque Rodrigo "Botafogo" Maia assumiria a presidência interinamente e largaria na frente para ser eleito na indireta. Mesmo assim, o placar de 4 a 3 doeu. A desfaçatez de alguns ministros esvazia nosso estoque de frases feitas: taparam o sol com a peneira, foram pegos de calças curtas, deram as costas à sociedade... E perderam a chance de entrar para a história pela porta da frente. O governo de Temer, o Velho, ganha tempo para se arrastar até a próxima delação. O maior perigo é chegar até setembro e colocar um cupincha no lugar do Janot para melar de vez a Lava-Jato. Mas conseguirá? O Brasil que não quer pizza existe, e está esperneando nas redes sociais, nos jornais, na televisão. Agora precisa partir para o mano a mano com a velha política, à direita e à esquerda. Não é da JBS ou da Odebrecht que saem as mesadas milionárias, é dos nossos impostos. Não vamos mais pagar essa conta.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

KÁTIA CEGA


Katy Perry está tentando crescer. Justo ela, que despontou em 2008 com uma pegada meio alternativa, só para se vender ao pop mais desmiolado nos discos seguintes. Pintou o cabelo de todas as cores, vendeu mais que Lady Gaga e arrumou uma treta eterna com Taylor Swift por causa de um bailarino que ambas queriam para suas turnês. Tudo leve e inofensivo, assim como as letras de seus hinos de empoderamento "Firework" ou "Roar". Mas o mundo mudou, e nossa querida Kátia (como costuma ser chamada pelas gueis brasileiras) agora quer ser re-le-van-te. Quer mostrar que é contra Trump e ligada nas causas sociais. Mas sem deixar de faturar, né, meus amores? Por isto, ela não dispensa os produtores multimilionários e os hits pré-fabricados em "Witness", seu quarto álbum, lançado nesta sexta-feira. O tom é mais sombrio do que nos trabalhos anteriores, apesar dos três primeiros singles apontarem para a direção contrária. "Chained to the Rhythm" quis bailar ao som da revolução; "Bon Appétit" tem uma letra tão canhestra sobre sexo oral que envergonharia Madonna; e "Swish Swish" pode se tornar um sucesso nas pistas depois de alguns remixes. Nenhuma delas foi bem nas paradas americanas, num sinal de que o sonzinho bem-feito pero genérico de Katy Perry talvez já tenha dado. Talento ela tem de sobra. Falta abrir os olhos.

MULHERES SÁBIAS


"Sage-femme" quer dizer "parteira" em francês. Sem o hífen no meio, quer dizer "mulher sábia". Este também é o título original de "O Reencontro", cuja protagonista é justamente uma parteira (ou obstetriz, nas legendas brasileiras). Mas de sábia, a princípio, ela tem pouco: é uma mulher solitária e meio amarga, que só se realiza nos exaustivos plantões na maternidade. É o retorno repentino da segunda esposa de seu pai que a fará sair dos eixos e, por fim, adquirir sabedoria. As duas nunca se bicaram, e não se veem há mais de 20 anos. E claro que o contraste ente ambas é enorme: a madrasta é fútil, vaidosa e hedonista. Fuma e bebe sem parar, e só sabe ganhar dinheiro se for numa mesa de pôquer. Só que agora... Mais não vou contar, para não estragar o prazer desta versão moderna de "A Cigarra e a Formiga". Catherine Frot, talvez a mais conceituada atriz francesa do momento, está muito bem como a protagonista. E se deixa roubar por sua xará Catherine Deneuve, esplêndida aos 73 anos. "O Reencontro" - que está passando no festival Varilux e entra em cartaz no final de julho - não deixa de ser mais uma variação do clichê da pessoa apagada que redescobre o prazer da vida graças a uma visita inconveniente. Mas é um filme redondinho, que cumpre o que promete.