terça-feira, 16 de julho de 2019

VISIT AND SHALLOW NOW

Eis a nova marca que irá promover lá fora o turismo no Brasil. A Embratur está se gabando de ter desenvolvido tudo internamente, sem nenhum gasto com agências especializadas. De fato, o logo parece ter sido feito pelo Rubens do RH, aquele cara que "mexe" com computador, enquanto o slogan deve ser da autoria da Shirley do Contas a Pagar, que está no segundo ano do Yázigi. A estatal ainda ressalta o tom patriótico do troço - como se sabe, o patriotismo é um quesito importantíssimo para o estrangeiro que pensa em vir para cá, assim como as nossas mulheres. Mas os gays não são bem-vindos, mesmo que sejam ricos.

FIFTY QUID

A Itália já havia colocado Leonardo Da Vinci nas antigas notas de mille lire, mas não sei se ele conta. O pintor da Mona Lisa não era "oficialmente" gay, até porque o conceito não existia em sua época. Acho que a honra de ser o primeiro homossexual a adornar uma cédula de dinheiro vai mesmo para Alan Turing, que irá ilustrar as próximas notas de 50 libras esterlinas. É uma honra mais do que merecida: o matemático Turing foi um dos pais da informática, e exerceu um papel-chave ao decifrar os códigos nazistas na 2a. Guerra Mundial. Também foi um mártir, submetido à castração química depois que sua viadagem foi descoberta. Até hoje rola o debate se ele se matou mordendo uma maçã envenenada, ou se foi um acidente. O simbolismo desse gesto do governo britânico é profundo, mas também levanta uma questão. Nesses tempos obscurantistas, quantos homofóbicos não concordariam com a condenação de Turing, mesmo sabendo que ele prestou relevantes serviços à pátria? Que medo.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

REI JÍAR

Biroliro é o rei da marcha-à-ré. Não é raro que ele solte uma barbaridade e depois a retire, ou nunca mais toque no assunto, se a reação nas redes sociais for ruim. Por isto, é curiosa a insistência na indicação do 03 para a embaixada em Washington, mesmo depois de quatro dias de má repercussão. Nem os minions mais fanáticos se uniram para apoiar a ideia: por motivos diversos, até Janaína Paschoal e Olavo de Carvalho se manifestaram contra. Entretanto, hoje o Bozo disse que, se está sendo criticada, então a proposta está certa. Hmm, e se fosse o contrário? Que lógica é essa?

A Luciana Coelho, minha colega na Folha, teve a coragem de apontar algumas vantagens no 03 como embaixador na corte de Donald Trump - claro que com muitas ressalvas. Ela vê coerência na atitude do Mijair. Eu também vejo, e é por isto que estou apavorado. Mais do que o despreparo evidente do rapaz para o cargo, mais até do que o próprio nepotismo do gesto, o que esta indicação revela é o desejo do Boçalnaro de fundar uma dinastia. Tal qual o déspota de um país do Oriente Médio, ele quer que os filhos sejam os herdeiros naturais de seu poder. Os próprios "garotos" (nenhum com menos de 35 anos) já se comportam como príncipes, mesmo sem terem cargos no Planalto. Esse desejo, afinal confesso, talvez traga em si a semete de sua própria destruição. Muitos (não todos) que votaram em Bostonazi não querem um ditador perpétuo, nem um monarca absolutista. E o favorecimento dos filhos é um sinal inequívoco de que não, a mamata não acabou. Como o "Rei Lear" de Shakespeare, o presidente se revela um mandatário inepto. Só falta seus três filhos mais velhos lutarem abertamente pelo trono. Mas não deve faltar muito.

domingo, 14 de julho de 2019

ÉDIPO COMPLEXO

"Tebas Land" começa com o ator Otto Jr. se apresentando para a plateia e explicando que queria montar um espetáculo sobre um prisioneiro de verdade, com o próprio em cena. Só que a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo não deixou, então o que se vê no palco é o ator Robson Torinni representando o preso. Os encontros entre os dois são reencenados: Martim matou o pai a garfadas, e os detalhes e a motivação do crime vão surgindo aos poucos. Mas Robson também volta a ser ele mesmo, e os dois discutem o texto que estão fazendo. Eu estava acreditando em tudo, até que lembrei que o texto é do uruguaio Sergio Blanco e já foi montado no mundo inteiro. Nada é real na peça, só as emoções. "Tebas Land" é uma variante interessantíssima do mito de Édipo e um jogo de espelhos teatral como há tempos eu não via. Fica só mais uma semana em cartaz no Sesc 24 de Maio, em São Paulo: eu recomendo para quem gosta de se perder em labirintos.

sábado, 13 de julho de 2019

LA ROSALÍA

Conheço essa música há mais de dois meses, mas talvez fosse melhor não conhecer. Sou súdito da espanhola Rosalía desde a virada do ano e acho sua mistura de flamenco com batidas eletrônicas uma das melhores coisas do pop atual. Também não vejo a hora dela medir forças com Anitta em um clipe. Os mesmos feats elas já têm: J Balvin participa da contagiosa "Con Altura", que não sai da minha cabeça por causa do "la Rosalía" lá pelo final. Vou atravessar a rua, olho para um lado, olha para o outro, la Rosalía. Busco um copo d'água na cozinha, abro a geladeira, la Rosalía. Ligo a TV, la Rosalía. Mudo de canal, la Rosalía, mudo de novo, la Rosalía, desligo, La Rosalía. La Rosalía. La Rosalía.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

SE EU FOSSE OUTRO EU

Quando eu tinha uns 13 anos, meu maior medo era cair em um universo paralelo. Uma matéria na extinta revista "Planeta", especializada em assuntos esotéricos, me deixou apavorado. Mas hoje em dia eu gosto desses filmes que mostram o que aconteceria se o personagem não fosse quem fosse. Uma realidade alternativa, onde outras possibilidades se concretizaram - mas no fundo ele continua o mesmo. Esse mote é reciclado em "Amor à Segunda Vista", uma bobagem romântica que foi bem de bilheteria na França e acaba de estrear no Brasil. O protagonista é um escritor famoso, casado com uma mulher frustrada por não ter seguido a carreira de pianista. Um belo dia, ele percebe que sua vida não é mais a mesma. O pobre não passa de um professor de literatura, e agora está solteiro. Sua mulher - que nem o conhece mais - é uma pianista de sucesso, e está noiva de outro. Ele então decide reconquistá-la. Essa premissa bonitinha é diluída ao longo de duas horas (tempo demais para uma comédia), e lá pelas tantas o roteiro patina. Mas o desfecho salva o dia: além de ligeiramente surpreendente, é generoso,  e está em perfeita sincronia com os dias de hoje.

TERRIVELMENTE NEPOTISTA

Sabe quem costuma nomear os próprios filhos como diplomatas? Ditadores africanos. Emires árabes. Déspotas em geral, que comandam monarquias disfarçadas. Por que é nisto o que a familícia Biroliro quer transformar o Brasil: numa capitania hereditária, onde eles se tornariam uma dinastia. Mijair acha que despachar o 03 para Washington vai pegar super bem com o Trump, como se não nosso embaixador nos EUA não precisasse ter boa relação com o Congresso de lá (que é majoritariamente democrata). Tomara que o STF barre essa molecagem. Este é mais um chute nos militares, que se venderam ao Bozo mas não ganharam nada em troca. E mais um downgrade na nossa combalida imagem internacional.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

DEPUTÁBATA

Não estou eufórico nem furioso com a reforma da Previdência. Sei que ela é necessária e acho que a que foi aprovada, até agora, foi a possível. Claro que acho absurda a pressão dos policias por mais benefícios. Também não entendo por que as mulheres poderão se aposentar antes que os homens, com menos tempo de contribuição: elas não vivem mais que eles? Mesmo assim, defendo uma das líderes da bancada feminina, a Tábata Amaral. A deputada federal pelo PDT-SP é firme, coerente e preparada, ao contrário do que choraminga a esquerda saudosista. Ciro Gomes estará sabotando a si mesmo se expulsá-la do partido (e nem será a primeira vez). Não votei na Tábata nas últimas eleições, mas vou considerá-la com carinho para tudo a que ela se candidatar daqui para a frente. Quer dizer... se ela se bandear para o Novo, a versão gourmetizada do PSL, nem fodendo.

AVE DE RAPINOE

Estou preparando uma galeria com os grandes heróis da resistência deste ano, e a mais nova integrante é Megan Rapinoe. A capitã da seleção americana de futebol feminino não é só uma baita jogadora: também é uma líder política, sem medo de peitar Donald Trump. Sua recusa em visitá-lo na Casa Branca e suas declaracões pró-inclusão mostram que ela é mesmo uma águia, dessas que voam alto e enxergam longe. Enquanto isso, aqui no Brasil, os craques do escrete canarinho gritam "mito!" e fazem fila para cumprimentar o Bozo. Até o Marquinhos, que passou reto pelo Despreparado, jurou que já haviam se confraternizado antes. Só o Tite agiu com um mínimo de decência, porque nunca se mistura com políticos.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

NO-SHOW

A desistência de Nick Minaj em se apresentar na Arábia Saudita levanta uma questão interessante: um artista deve se apresentar em ditaduras? A minha resposta é... depende. Quando o convite é para cantar na festinha particular do ditador, como Jennifer Lopez já fez no Turcomenistão, é claro que não. Mas sou a favor de Milton Nascimento fazer show em Israel, ou Madonna na Rússia. OK, esses dois países não são exatamente ditaduras. Mas Israel oprime os palestinos e a Rússia persegue os gays. Vale a pena boicotá-los? Eu respeito quem acha que sim, mas acho mais producente ir lá e se apresentar para um público que, não raro, também é vítima do regime. Madonna e Lady Gaga até correram o risco de ser presas, por se manifestarem a favor dos LGBT em terras de Putin. Mas a Arábia Saudita é diferente. É uma tirania asquerosa, de forte pendor teocrático, que decapita domésticas que matam seus estupradores. O príncipe Mohammad Bin Salman vem tentando modernizar o país: foi ele permitiu quem que os cinemas voltassem a abrir, e que as mulheres tirassem carteira de motorista. Também foi ele quem ordenou a morte do jornalista Jamal Kashoggi, além de muitas outras barbaridades. É decente colaborar com o plano de poder de um déspota sanguinário? Fora que o festival em que Nicki Minaj se apresentaria é segregado, com homens e mulheres em lados separados. E por que os pudicos sauidtas convidaram a cantora do escandaloso "Anaconda"? Ha, eu acho que sei por quê.

A PRIMEIRA VÍTIMA?

Vou admitir: eu não era muito fã do Paulo Henrique Amorim. Até gostava bastante de seu estilo incisivo e coloquial - uma novidade na época em que ele despontou na Globo, em meados dos anos 80. Depois PHA passou por várias emissoras até se fixar na Record, onde foi útil enquanto o PT esteve no poder. Veja bem, minha pinimba não era o fato dele ser petista roxo. É desejável que um jornalista seja imparcial, mas não é obrigatório. Acontece que, em seu afã partidário, muitas vezes PHA cometeu injustiças, divulgou notícias mal apuradas e até agiu de modo grosseiro com colegas. Também foi um dos responsáveis pela criação da sigla PIG (Partido da Imprensa Golpista), que ajudou a minar a credibilidade do jornalismo profissional. Mas não deixo de me condoer com seu destino cruel. Só sua viúva poderá confirmar se ele andava cabisbaixo depois de ter sido tirado do "Domingo Espetacular" e encostado pela emissora, onde ainda tinha dois anos de contrato pela frente. Impossível não lembrar de Paulo Francis, que também morreu jovem do coração, acossado por um processo movido por um executivo da Petrobras. Terá sido Paulo Henrique Amorim a primeira vítima fatal do expurgo em andamento na imprensa pró-Bozo? Mais do que nunca, é preciso resistir. Ninguém solta a mão de ninguém.

terça-feira, 9 de julho de 2019

SOB O SIGNO DE LAGOSTA

A notícia saiu no domingo, mas eu estou rindo até agora com o #Lagostagate. Dessa vez a culpa não é do Bozo, mas não é incrível como ele atrai esse tipo de trapalhada? A Embaixada de Israel em Brasília cometeu o photoshop mais tosco de todos os tempos, ao pintar de preto (e sem cobrir direito) os lagostins que Biroliro e o embaixador de seu país favorito saborearam em um almoço. É estranho o cerimonial do Alvorada cometer uma gafe dessas: crustáceos não são kosher, portanto não podem ser comidos por judeus  religiosos. Vai ver é um olavete quem cuida agora dos cardápios presidenciais, e ele ainda conferiu se os bichos foram pescados perto da muralha de gelo que circunda a Terra Plana.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

MATCH POINT

Agora já sabemos para que servem as lives que o Biroliro faz toda quinta no Facebook: para lançar um tema aleatório, absolutamente irrelevante para a crise que vivemos, que vai ocupar a mídia e as redes sociais nos dias seguintes e desviar a atenção do desmonte da educação e da destruição do meio ambiente. Semana retrasada foram as pulseiras de nióbio. Na passada, o trabalho infantil, algo que não está em discussão há mais de 100 anos. O Bozo se jactou de ter "quebrado milho" aos nove anos de idade, no que foi prontamente desmentido pela própria mãe. Na sequência, o gado amigo passou a compartilhar os terríveis esforços que foram obrigados a fazer no escritório do papi ou na loja da mami, que lhes custaram a infância e os marcaram para sempre. Até a Leda Nagle, que muita gente ainda não sabia ter sido cooptada pelo lado negro da Força, aderiu. O lado bom é que não faltou declaração ridícula, nenhuma mais do que a tuitada pela deputada federal Bia Kicis (PSL-DF):  

"Aos 12 anos de idade, eu fazia brigadeiros para vender na minha escola. E o mais interessante era que eu não precisava, mas eu sentia uma enorme satisfação de pagar as minhas aulas de tênis com o esse dinheiro. Eu me sentia criativa e produtiva".  (dei uma melhorada na sofrível pontuação da parlamentar)

Vamos respirar fundo antes de repetir? Aulas. De. Tênis. A desonestidade intelectual (para não dizer burrice) dessa minionzada supera qualquer previsão, sem falar nas profundezas a que eles são capazes de rebaixar, só para defender um misógino racista homofóbico defensor da tortura e totalmente despreparado para o cargo. Pelo menos, Bia Kicis se mostrou uma ótima redatora para os memes da Barbie Fascista. Por isto, de hoje em diante, ela será chamada de Barbie Kicis aqui no meu blog. Só espero não ter que falar muito dela.

domingo, 7 de julho de 2019

PAVÃO DESMASCARADO

É fascinante o perfil de Carlos Biroliro publicado na revista Piauí deste mês, de autoria da jornalista Malu Gaspar. Eu confesso que esperava mais detalhes da infância e adolescência, mas o texto dá muitos rasantes na problemática do 02. O trecho mais instigante diz que o pai não gosta de brigar com o filho, pois tem medo que ele cometa um "gesto extremo". Não que a gente não desconfiasse, claro. O texto também revela que Carluxo e Léo Índio estão rompidos, depois que o primeiro-primo andou abusando de seu suposto poder político, mas não entra na discussão do será-que-ele-é. O grande assunto é, na verdade, a estrutura que o vereador carioca montou para atiçar a minionzada nas redes sociais. Li o artigo justo no fim de semana em que o tal do Pavão Misterioso voltou a voar no Twitter, com supostos prints de mensagens entre Glenn Greenwald, Davi Miranda, Jean Wyllys e Marcelo Freixo. O gado ficou todo excitadinho, mas não demorou muito para que internautas mais sérios percebessem que tudo não passa de uma farsa grosseira. E todos os indícios apontam para a verdadeira identidade do pavão: é óbvio, é o Carluxo, que se acha um gênio do mal mas é só do mal mesmo.

SINAN FECHADO



Poder de síntese não é o forte do diretor turco Nuri Bilge Ceylan. Seus filmes costumam durar mais de três horas, como é o caso do recente "A Árvore dos Frutos Selvagens" - que eu não teria visto, não fosse o representante da Turquia no último Oscar. Preparei uma matula com mantimentos, aproveitei que o marido estava ocupado com outra coisa e encarei o troço com a maior das boas vontades. Gostei mais do que esperava, risos. O protagonista é um jovem escritor chamado Sinan que está juntando economias para publicar seu primeiro livro; seu maior conflito é com o pai, que tem dívidas de jogo e vive surrupiando trocados do filho. Também tem uma ex-namorada de infância que vai se casar com outro, a mãe, a irmã, o cachorro e um poço cheio de metáforas. E muita, mas muita falação. Cada cena pode levar até 20 minutos corridos, com Sinan conversando com um editor ou com o prefeito de sua cidade. Tem horas em que é fascinante. E tem horas que enche o saco.

sábado, 6 de julho de 2019

O HOMEM, O MITO, O CHATO

Vamos falar a verdade; João Gilberto era chato pacaralho. Pobre de quem tinha que lidar com ele, produzir um show, gravar um disco. A gente releva porque ele era mesmo genial - e se hoje não soa genial para nossos ouvidos blasés, é preciso lembrar que os cantores brasileiros empostavam a voz antes dele, num estilo que ficou insuportável (basta escutar Francisco Alves). Além da obra, João Gilberto deixou para a posteridade um rosário de lendas, que podem ou não ter um pé na verdade. Consta que Caetano Veloso, ao produzir o último álbum de estúdio de JG, teve um ataque de nervos e mandou tudo às favas - e olha que Caetano talvez seja o mais devotado súdito do cara de todos os tempos. Mas a melhor história mesmo é protagonizada por Elba Ramalho. Ela teria telefonado para João um belo dia e, para sua surpresa, ele estava simpaticíssimo. Até perguntou se ela tinha um baralho. Elba saiu de casa eufórica, comprou um baralho e foi bater na porta do apartamento do eremita, crente que eles iriam varar a noite jogando um carteado. Chegando lá, João Gilberto se recusou a recebê-la. Só pediu para Elba passar as cartas por baixo da porta. Uma por uma.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

O PAU MANDADO

Louis Garrel vem se revelando um diretor de filmes fofos. Em "Um Homem Fiel", seu personagem tem o mesmo que em seu longa de estreia, "Dois Amigos", e é ainda mais bonzinho. Para não dizer que é um pau mandado: ele obedece sem pestanejar tudo o que as mulheres lhe pedem. Quando sua namorada avisa que engravidou de seu melhor amigo e que quer que ele saia de casa, ele sai. Quando os dois se reencontram nove anos depois, no enterro do amigo, ela quer que ele volte para ela, e ele volta. Mas agora a irmã menor do falecido também o quer: a primeira mulher então sugere que durmam junto para ver qual é, e ele aquiesce. É meigo, mas também não é nada de mais. Sobra a beleza do elenco: Laetitia Casta, Casada com garrel na vida real, foi top model e já interpretou Brigitte Bardot, e Lilly-Rose Depp é a filha de Johnny Depp com Vanessa Paradis. Sem falar no próprio Garrel, que fez mais um filme em homenagem a si mesmo.

LINHA DE PASSE

Para não pensar em besteira quando eu acordo no meio da noite, costumo fazer joguinhos mentais que eu mesmo invento. Um dos mais populares é listar os personagens de "Game of Thrones" em ordem de importância, alternando homens e mulheres. Mas nesta semana eu fiquei obcecado por outro desafio: traçar uma linha contínua ligando todas as unidades da federação do Brasil, sem nunca passar duas vezes pelo mesmo lugar (lembrando que o Distrito Federal tem uma curta divisa com o município de Cabeceira Grande, no norte de Minas Gerais). As pontas dessa linha têm que ser, obrigatoriamente, o Amapá e o Rio Grande do Sul: esses dois estados só são limítrofes a um único outro. Pois bem. Torci essa linha de tudo quanto é jeito, fui na diagonal, no zigue-zague, no periquito-maracanã, e nada. O máximo que eu consegui foi deixar o DF de fora. Hoje finalmente eu consultei um mapa e, 30 segundos depois, lá estava a linha ininterrupta, rindo da minha cara. Tão óbvia, tão ululante. Alguém aí se habilita?

quinta-feira, 4 de julho de 2019

QUEM SAMBA NA BEIRA DO MAR É SEREIA

Que a internet abriu as comportas do pior do ser humano, isso todos nós já sabemos. O que surpreende são as formas perversas que assumem o racismo, o machismo e a homofobia, sempre disfarçados de liberdade de expressão. Hoje subiu nos TTs mundiais a hashtag NotMyAriel, levantada pelos escrotinhos que se revoltaram com a escalação de Halle Bailey para o papel principal da versão live action de "A Sereiazinha". Afinal de contas, não existe sereia negra, não é mesmo? São todas brancas de cabelos vermelhos. Os babacas choramingam que a Disney estaria traindo suas memórias de infância, como se esses remakes caça-níqueis tivessem a obrigação de saírem idênticos aos desenhos. Que sejam, portanto, coerentes, e exijam uma atriz azul para interpretar a feiticeira Úrsula.

TENHO CHORADO PRA CACHORRO

Assisti da plateia a quase todas as edições do VMB. Ajudava muito meu irmão ser diretor da MTV Brasil, é claro. A premiação acabou junto com a emissora, e foi substituída pelo Miaw nessa nova encarnação da MTV. O novo troféu ignora os videoclipes e dá muita ênfase à internet, o que é compreensível para os tempos que correm. Fui convidado para a festa do ano passado e não fui, mas este ano relevei a desfeita. Quase me arrependi. Peguei um trânsito infernal para chegar ao Credicard Hall, me recusei a pagar 60 reais no estacionamento e deixei meu carro na rua. Na entrada, outra surpresa desagradável: não tem lugar sentado. Só pista, o que é um pouco demais para um ancião como eu. Por sorte, os shows que eu queria ver foram todos no começo. Abriu com Anitta e Ludmilla, depois teve Anavitória com Vitor Kley e, por fim, Emicida feat. Majur e Pabllo Vittar. Eu ainda não tinha ouvido "AmarElo" e fiquei impactado: trata-se de um hino, mas quem mais merece louros é o Belchior. O refrão, além de tudo, combina com esse período de luto que eu ainda estou vivendo. Terminado o terceiro bloco, me mandei. Nem o glamour do Hugo Gloss, nem a picardia de Sabrina Sato compensavam a minha exaustão.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

NÓIS É CAUBÓI

Nunca fui muito ligado em rap. Até já comprei discos de Jay-Z e Kanye West, mas não consegui gostar - acho que por causa da minha idade e/ou da minha cor. Mas precisei dar uma conferida em "Old Town Road", a mistura de trap (a variante do momento) com música country feita por Lil Nas X, que se tornou o maior sucesso do ano até agora nos Estados Unidos. A versão com Billy Ray Cyrus, o pai da Miley, está unindo o país, mesmo depois de Lil Nas X ter se revelado gay. Palmas para a coragem do moço, que só tem 20 anos, e viva esse mistureba. Que também rola por aqui, com resultados diversos: alguém aí gosta de funknejo?

TOCANDO O TERROR


Em novembro de 2008, um grupo de terroristas paquistaneses chegou a Mumbai, na Índia, de bote inflável. Desembarcaram em uma praia sem que ninguém os incomodasse, dividiram-se em táxis e promoveram matanças em 12 lugares diferentes. O mais fotogênico deles foi o hotel Taj Mahal Palace, o equivalente local do Copa, onde cerca de 30 pessoas morreram ao longo de três dias intermináveis. Essa história horripilante é contada em detalhes gráficos em "Atentado ao Hotel Taj Mahal". O filme de estreia do diretor australiano Anthony Maras é tenso do começo ao fim, com ótimas atuações e uma reconstituição minuciosa do interior do hotel. Mas é entretenimento? Será que é moralmente justificável transformar esse horror da vida real em atração de cineplex? A pergunta foi feita por muitos críticos americanos, e eu respondo que sim. "Atentado..." não é, de maneira alguma, para quem busca escapismo. Mas a verdadeira questão que ele levanta é interessante: o que você faria numa situação como essa? Muitos funcionários do hotel optam por dar no pé, outros ficam para proteger os hóspedes. Um traficante de armas russo que gosta de putas se comporta de maneira repugnante, até o momento em que age como um herói. Muitos dos personagens são fictícios ou compostos por várias pessoas reais, e os três dias de suplício são condensados em uma única noite. No final saí exausto, certo de ter visto um baita filme. Mas Deus me livre de ver de novo.

terça-feira, 2 de julho de 2019

PFFFFFFFF

Minha admiração por Sergio Moro sofreu o primeiro abalo quando ele divulgou o áudio daquela conversa entre Lula e Dilma. O conteúdo do diálogo era mesmo escandaloso, mas Moro estava infringindo as regras - e, por consequência, pondo em risco a própria Lava-Jato. Operações anteriores, como a Castelo de Cartas ou a Satiagraha, foram anuladas porque não andaram na linha. Mesmo assim, dei uma relevadas, justificando para mim memso que não dava para enfrentar um esquema tão grande sem jogar sujo de vez em quando. Hoje eu faço um mea culpa: ética é que nem gravidez. Não existe pela metade.

Um golpe mais forte aconteceu quando Moro aceitou ser o ministro da Justiça do Bozo. O simples fato dele participar do governo de um celerado já era grave o suficiente. Mas o pior era mostrar que, sim, ele sempre teve um lado, e estava se beneficiando da prisão de Lula, a quem ele mesmo condenara. Mas quem sabe o ex-juiz não funcionaria como um contrapeso moral aos excessos birolíricos?

Agora não sobra mais nada. Não tenho mais respeito, admiração, simpatia. Moro se revelou um sujeito tíbio, carreirista, de pouca fibra. Os vazamentos do Intercept comprovam que ele nunca foi imparcial. Seu depoimento de hoje no Congresso reiteram sua venalidade. Mandar o Coaf investigar as finanças de Glenn Greenwald é um ato digno da Venezuela chavista. Moro está cada vez menor - ou talvez só agora eu me dê conta de seu real tamanho. Ele e o Bozo se merecem.

No mais, é lamentável que o Brasil continue precisando de um salvador da pátria. É uma herança do sebastianismo? Um reflexo da nossa pouca educação? O grave é que esses super-heróis, mais cedo ou mais tarde, são desmascarados. Getúlio, Jânio, Collor, Lula... passamos por isto algumas vezes, não aprendemos nada e estamos passando de novo. Nós também merecemos o Bozo e o Moro.

MAJOR MISTAKE

Eduard von Westernhagen era mesmo nazista? O major alemão foi de fato condecorado por Hitler, por atos de bravura durante a Segunda Guerra Mundial. Mas não foi julgado por crimes contra a humanidade. Tanto que se reincorporou ao exército da Alemanha em 1955, quando ele foi recriado. Tampouco estava clandestino no Brasil, quando foi morto - por engano - por um grupo de extrema-esquerda em 1968. Mesmo assim, pega mal pacaray essa homenagem que o nosso querido Exército resolveu prestar a ele, ainda mais nesse momento de intensa polarização. O intuito maior parece ser provocar a esquerda, mas a que custo? Meu pai, que lutou na Itália pela FEB, ficaria ultrajado se vivo fosse. Por que o Exército insiste nessa vergonha? Que falta que faz um bom RP, hein?