segunda-feira, 21 de agosto de 2017

SAKHANAHJ

Baixei o Sarahah algumas semanas atrás e, durante dois dias, recebi mais de 20 mensagens - a maioria bastante simpática, ainda bem. Depois, um silêncio ensurdecedor: a brincadeira perdeu a graça mais rápido que o esfriamento de um suflê. Neste final de semana finalmente chegaram algumas, todas bastante suspeitas. Quem quisesse saber as identidades dos missivistas anônimos só precisava logar no aplicativo Sarahah Exposed (ou Spyer, ou View, ou Reveal), com quem o Sarahah teria estabelecido uma "parceria". Minha primeira reação foi "que puta falta de sacanagem". Primeiro os caras incentivam meio mundo a dizer umas verdades, depois puxam o tapete e desmascaram meio mundo! Mas então minha curiosidade falou mais alto - afinal, eu PRECISO saber quem foi que se arrependeu de não ter transado comigo quando teve a oportunidade. Só que eu não passei dos primeiros cliques: para "deslanchar" o Exposed, o usuário tem que baixar antes uns aplicativos de joguinhos, e deixá-los rodar por pelo menos 30 segundos. Golpe, é claro, mas suspeitei que fosse dos próprios criadores do Sarahah. Hoje descobri que não. Eles não dariam um tiro tão grande nos próprios pés, mas é golpe do mesmo jeito. Portanto, não caia nessa. Se já caiu, baubau: a esta altura, seu cartão de crédito deve estar sendo usado no Uzbequistão.

domingo, 20 de agosto de 2017

O BAGUNCEIRO ALOPRADO

Jerry Lewis foi, para a minha geração, o que os Trapalhões ou o Chaves foram para as gerações seguintes: o palhaço que fazia as crianças rirem, mas que a crítica execrava. Durante um bom tempo, Lewis só era respeitado como artista na França, o que acabou virando uma piada em si mesma. Mas já faz algumas décadas que ele é venerado como o gênio que de fato foi. Eu adorava seus filmes até descobrir Woody Allen, quando tinha uns 13 anos: aí Lewis realmente virou coisa do passado. Só voltei a gostar dele no magnífico "O Rei da Comédia", dirigido por Martin Scorsese em 1983. Na vida real, Jerry Lewis era um santo e um escroto. Foi ele quem inventou o formato "teleton", aquelas maratonas de caridade que se espalharam por todas as TVs do mundo. Mas também nunca se furtou a dizer qualquer besteira que lhe passasse pela cabeça, fosse machista ou homofóbica. Se bem que o castigo já veio: no telefilme "Martin e Lewis", que contava sua rixa de anos com o ex-parceiro Dean Martin, seu papel foi feito por  ninguém menos que Sean Hayes, o Jack de "Will & Grace".

Confira a mítica entrevista que ele deu em 2016, um esplendor de mau humor.

CHEZ NHONHÔ

Durante anos eu passei por aquele casarão numa das esquinas da Avenida Higienópolis imaginando as piores sevícias acontecendo lá dentro. Apesar da aparência elegante, ali funcionava a Secretaria de Segurança e a Divisão Anti-Sequestros, na época da ditadura militar. Foi preciso visitar o imóvel por dentro, numa visita guiada neste sábado à tarde, para saber que ali só funcionava a parte burocrática do aparelho de repressão. Ainda bem: o palacete construído pelo magnata do café Carlos Leôncio Magalhães, mais conhecido por Nhonhô, é um pequeno templo à arte e à cultura, e não merecia ser profanado pela violência. 

Logo na entrada há um balcão onde ficavam os músicos nas festas. No subsolo, um pequeno teatro, mais adequado para recitais de música do que peças teatrais. E no prédio todo, da garagem ao sótão, uma aula de arquitetura e decoração, tantos são os estilos misturados. Há um salão manuelino, um altar em art-nouveau, aposentos em art-déco e detalhes modernistas aqui e ali - inclusive uma parede com padrão geométrico que, suspeita-se, tenha sido pintada por Volpi. 

O próprio Nhonhô não chegou a morar lá: morreu em 1936, um ano antes da obra se completar. Mas sua família habitou o lugar por 15 anos, antes dele mudar de mãos. Hoje pertence ao Shopping Higienópolis, que está promovendo uma extensa restauração. Quando estiver pronta, pretende utilizar o espaço para shows e eventos. Por enquanto ainda há muitas alas fechadas e pouca iluminação nos andares superiores (recomendo a visita num dia de sol...). Mas abrir a visitação já é uma iniciativa mais do que bem-vinda, porque São Paulo é extraordinariamente ignorante de sua própria história.

sábado, 19 de agosto de 2017

THE GODFATHER - PART 2

Quatro anos atrás, o casamento entre Beatriz Barata e Francisco Feitosa Filho foi manchete em todo o Brasil. Nem tanto pela efeméride social em si, mas pela batalha campal que se armou ao redor do Copacabana Palace, onde acontecia a festa. Quis o destino que os pombinhos se enlaçassem justo quando o país vivia sua primeira grande onda de manifestações, e ficou célebre o artigo em que Hildegard Angel chamava o acontecido de "Bastilha carioca". Mas um detalhe passou quase desapercebido no texto da colunista: ela até cita que um dos padrinhos da noiva era o Gilmar Mendes, mas ninguém deu muita bola para isto. Naquela época, de fato o STF não andava tão em evidência como hoje, quando conhecemos melhor seus integrantes do que os da atual escalação da seleção brasileira. Pois é, amiguinhos: o juiz que numa semana absolve o Temer e na semana seguinte convida-o para jantar em sua casa, também é unha e carne com Jacob Barata Filho, o "rei do ônibus", preso ontem à noite no aeroporto do Galeão. Dá até para suspeitar que Gilmar é mesmo o padrinho - no sentido mafioso do termo.

ADENDO: Pela primeira vez na história deste blog, estou reprisando um post. A única novidade no texto, publicado em 3 de julho passado, é este adendo. Porque o resto continua igual, se não pior. Esta semana Gilmar Mendes mandou soltar DUAS VEZES seu compadre Jacob Barata Filho e ainda saiu-se com uma pérola que vai entrar para os anais da cara-de-pauzice brasileira. Disse que o fato de ter sido padrinho da filha de Jacob era irrelevante, porque "o casamento durou menos de seis meses". Quem dera durassem seis meses o que resta de seu mandato no Supremo Tribunal Federal, que ainda tem 12 anos pela frente.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

BOY NEON


Elias é bonito e resolvido. Trabalha numa confecção e não tem dinheiro no bolso, mas vive feliz e tem muitos amigos. Também tem muitos namorados, ou peguetes - não rolam ciúmes nem cobranças. Essa ausência de conflitos faz com que "Corpo Elétrico" se resuma a um retrato, bastante idealizado, de um gay na periferia de São Paulo. Cadê a homofobia? Cadê a angústia, que para a maioria das pessoas não precisa de quase nada para se manifestar? Elias não está nem aí: bebe, fuma, dança, trepa e anda de moto com a Márcia Pantera, um mito da noite paulistana. "Corpo Elétrico" vem tendo críticas ótimas, talvez porque seja o primeiro filme de pegada pernambucana rodado em SP (o diretor Marcelo Caetano foi assistente de direção em "Tatuagem" e fez o casting de "Aquarius"). Mas não bate com  meu gênero.

A POESIA CONCRETA DE TUAS ESQUINAS

São Paulo é uma das metrópoles mais feias do mundo. Mas nem sempre foi assim: em meados do século 20, a cidade viveu um boom imobiliário e se encheu de ousados arranha-céus, assinados por alguns dos maiores arquitetos do Brasil e do mundo. Especialmente entre 1950 e 1960, surgiram edifícios icônicos como o Itália, o Copan e o Conjunto Nacional. Este período de arrojo e beleza urbana, nunca mais repetido, é o tema do primeiro livro do jornalista Raul Juste Lores, que toda semana destaca em sua coluna na Folha alguma joia semi-esquecida no meio da feiúra. Aqui elas estão reunidas e têm suas histórias contadas, num trabalho tão essencial que até surpreende o fato de não ter sido feito antes. Fartamente ilustrado, "São Paulo nas Alturas" traz até um guia com itinerários a pé por alguns bairros paulistanos, para o interessado observar in loco muitos dos prédios citados. E depois se indagar o que foi que deu errado.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

MUITO COMÉDIA


Escrever a coluna "Multitela" da Folha me fez ver mais TV - como se eu visse pouca antes. Tenho descoberto muitas séries novas, e algumas realmente valem a pena. Como as três sitcoms de que eu falo neste post, já citadas por mim no jornal e todas  protagonizadas por mulheres complicadas. A que mais se aproxima do modelo tradicional, com "one-liners" e piadinhas em todas as cenas, é "Catastrophe", uma parceria entre a irlandesa Sharon Horgan e o americano Rob Delaney criada para o Channel Four e, por aqui, disponível no canal do GNT na plataforma NOW. Os roteiristas também fazem os personagens principais, que se conhecem num bar de Londres, passam uma semana transando e depois vão cada um para seu canto (o dele é em Boston, do outro lado do oceano). Até que ela descobre que está grávida, e ele volta. São três temporadas de apenas seis episódios cada, uma peculiaridade britânica. Por enquanto só vi a primeira, que é um primor. Especialmente o quarto episódio, em que eles suspeitam que o bebê que vem aí pode ter síndrome de Down. Um tema delicadíssimo, que mesmo assim rende risadas e um desenlace magistral. E ainda tem Carrie Fisher fazendo a mãe dele.

Bem mais amarga é "I Love Dick", que tem um ritmo mais solto e cenas que de cômicas não têm nada. É o estilo de Jill Soloway, que fez a badalada "Transparent" também para a Amazon. Aqui a mocinha é uma chata de galochas: uma cineasta fracassada que se muda com o marido para uma cidadezinha do interior do Texas, e fica com a periquita acesa por causa de um escultor local. Ela começa a escrever cartas secretas para seu novo amor, o marido descobre, o cara também descobre, confusão e gargalhadas. Ou não: o tom seco e impiedoso não tem nada a ver com o clima de camaradagem que ainda impera mesmo em séries mais moderninhas, tipo "Girls".

"Better Things" e eu ainda estamos nos conhecendo. Só vi o primeiro episódio, apesar da Fox Premium ter jurado que a primeira temporada completa estaria disponível para seus assinantes (e eu publiquei essa potoca na coluna). Pamela Adlon, discípula de Louis C. K., desenvolveu com seu mestre a história semiautobiográfica de uma atriz que cria sozinha três filhas adolescentes. São todas umas pentelhas, cada uma à sua maneira. Por enquanto, não vi "plot": só o popular "slice of life", sequências soltas que servem para apresentar os personagens. Pamela está indicada ao Emmy, e seu jeito de fazer comédia causa uma certa estranheza no princípio. Mas as críticas são tão boas que eu vou insistir. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

ENVELHECER É BOM

A revista feminina "Allure" é a mais importante publicação americana voltada aos cuidados com a beleza. Por isto, é de se admirar o manifesto que ela publica em seu número atual, com direito a chamada de capa. De agora em diante, a "Allure" vai parar de usar o termo "anti-aging" (anti-envelhecimento). Porque o termo soa como "anti-vírus", como se envelhecer fosse uma doença que precisa ser combatida. Na verdade, é um privilégio, dado que a alternativa seria morrer cedo. A revista vai além: quer evitar frases do tipo "você está linda para sua idade", e conclama a indústria de cosméticos a mudar de linguajar e postura. Já não era sem tempo.

CHERCHEZ LA FEMME

É duro acreditar que, num mercado onde já existem aplicativos de namoro até para cachorro, só agora surja um para meninas que gostam de meninas. O Femme é do Match Group, a mesma empresa que controla o Tinder e dezenas de outros apps. Mas não vai ser gratuito: as interessadas terão que desembolsar, no mínimo, R$ 21,99 por mês. Nada contra; o que realmente me incomodou foi o tom conservador da divulgação, que estressa termos como "relacionamento sério". Já convivi o suficiente com sapatas para saber que elas curtem uma putaria avulsa tanto como a mais promíscua das bichas.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

SIM, VOCÊ É RACISTA

Não é divertido como muitos safados simplesmente ignoram a tecnologia? Cometem crimes em ruas que são monitoradas por câmeras. Roubam celulares que avisam onde eles estão. Participam de manifestações racistas, esquecendo que serão fotografados - e depois, deveria ser óbvio, procurados na internet. É exatamente o que está fazendo a conta do Twitter Yes, You're Racist, que vem identificando vários dos babacas que marcharam em Charlottesville neste fim de semana. Alguns deles já foram até demitidos, bem feito. Talvez devessem ter imitado a Ku Klux Klan e desfilado com capuzes?

A GUERRA DA SEX-ESSÃO


Não vi a primeira versão de "O Estranho que Nós Amamos", estrelada por Clint Eastwood e Geraldine Page. Por isto, não posso dizer se o remake de Sofia Coppola é melhor ou pior do que o original. Só sei que achei o filme escuro demais, arrastado em diversos momentos e com um desenlace mais do que óbvio. Também não entendi algumas coisas: como que sete mulheres atraentes, morando sozinhas bem no front de batalha entre o Norte e o Sul na Guerra da Secessão americana, não eram estupradas por soldados de todos os lados? Como conseguiam sobreviver, se tinham apenas uma horta e uma vaca? O mercadinho mais próximo fazia entregas? Esses detalhes talvez não importem para Sofia, que encena uma batalha dos sexos onde as mulheres saem vitoriosas. Mas, para mim, faltou algo que justificasse o prêmio de melhor direção que ela ganhou em Cannes.

domingo, 13 de agosto de 2017

NOME AOS NAZIS

Recebemos com o leite da mamadeira a noção de que os nazistas foram os piores vilões de todos os tempos. A ideologia racista e violenta que floresceu na Alemanha em meados do século 20 é um saco de pancadas universal, e merece sê-lo. Durante muitas décadas, ninguém se atreveu a defender Hitler em público. Isto começou a mudar nos anos 1990, quando o movimento que nega o Holocausto ganhou visibilidade. Mais recentemente, surgiu na mídia americana a expressão "alt-right",  abreviatura para o que seria a direita alternativa, muito mais irreverente e conectada do que os conservadores de terno e gravata.

Ontem a máscara caiu. "Alt-right" quer dizer neo-nazi, e neo-nazi quer dizer nazista mesmo. Não há nada de jovem ou antenado entre as poucas centenas de rapazes brancos (e pouquíssimas mulheres) que marcharam em Charlotesville, na Virginia, empunhando tochas de jardim, dessas que seguram velas de citronela para afastar os mosquitos. Eles queriam lembrar uma turba atacando o castelo de Frankenstein, mas já viraram piada na internet.

Só que o fato de serem ridículos não os torna inofensivos. Um deles jogou o carro contra uma passeata de "antifas", ou antifascistas - qualquer um que defenda os direitos de negros, mulheres, gays, judeus, etc. etc. Uma pessoa morreu, outras tantas estão gravemente feridas. Também ferido está o presidente Trump, que tentou se safar condenando o ódio "de todos os lados". Mas os próprios nazistas deixam clara sua admiração ao boçal que ocupa a Casa Branca, que não tem culhão para chamá-los pelo que realmente são.

Aqui no Brasil também há quem faça piruetas verbais para se dissociar dessa feiúra toda, acusando o nazismo de ser uma ideologia esquerdista. Não, neném: o nazismo é totalitário, e, na prática, todos os totalitarismos se parecem. Porque, num regime desses, o estado tenta controlar todos os aspectos da vida dos cidadãos. Mas a origem do nazismo e do fascismo é mesmo a direita, que prega a desigualdade entre os seres humanos. É a preponderância do indivíduo sobre a comunidade, um dos pilares da direita, levada ao extremo.

É preciso dar nome aos bois, não pintá-los de outra cor. Nos EUA, a associação está mais clara: foi sob o slogan "Unite the Right" (unir a direita) que se convocaram as manifestações racistas de Charlottesville. Aqui no Brasil, onde falta estudo e decência, há quem caia na empulhação de que o nazismo é de esquerda. Inclusive leitores deste blog, que me mandam longos comentários com links para sites que "provam" essa deturpação. Estou recusando tudo, porque meu blog é a minha ditadura pessoal. Aqui mando eu, e só fala quem eu autorizo. Quer defender suas ideias tortas? Tá cheio de lugar por aí.

UM ADENDO: Para acabar com essa discussão tola de uma vez por todas, sugiro a leitura desse thread no Twitter de um cara que eu nem conheço, o Raphael Harris. É didático, bem escrito, cheio de detalhes históricos e claro como a luz do dia. O nazismo não é "complexo" quanto à sua origem e evolução, como defendem alguns direitistas que eu conheço. É uma aberração da direita, assim como o stalinismo é da esquerda. Lidem com isto.

sábado, 12 de agosto de 2017

ESPUMANTE SELTON


Em seu terceiro longa, Selton Mello elimina qualquer resquício de dúvida: é mesmo um diretor de cinema, não um ator que de vez em quando dirige. "O Filme da Minha Vida" é denso, poético, divertido e bonito - talvez um pouco bonito demais. Cenários e figurinos são tão bem cuidados que às vezes parecem falsos. Como se a história se passasse na Áustria, e não no interior do Rio Grande do Sul na década de 1960. O roteiro também dá uma patinadas lá pela metade, sem ir a lugar nenhum. Mas, de repente, vai, como o trem que abre e fecha o longa. Além do apuro técnico, todos os atores estão bem. Vincent Cassel já sabe falar português, Martha Nowill rouba as cenas em que aparece como uma puta, Johnny Massaro tem "star quality" e o próprio Selton se livra daquele estilo sussurrado de atuar que já tinha virado piada. "O Filme da Minha Vida" é um sério candidato à escolha do Brasil para o próximo Oscar de filme estrangeiro: é bem do jeito que a Academia gosta.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

E A GENTE FAZ UM PAÍS

As letras de Antonio Cícero fizeram parte da trilha sonora do começo da minha vida adulta, na voz da minha ídala de então - sua irmã Marina (na época ela ainda não usava o sobrenome Lima). Mas eu só passei a admirá-lo para valer depois que ele respondeu a um questionário tipo "perfil do consumidor", muito em voga na década de 80 (hoje quem participasse seria acusado de fazer parte da elite branca opressora). Quando perguntado qual seu perfume favorito, o poeta respondeu: "o do meu namorado atual". Aquilo me marcou de um jeito que vocês não fazem ideia. Lá estava uma pessoa pública admitindo, com total nonchalance, a própria homossexualidade. Ontem Antonio Cícero foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, onde será - se não me engano - o primeiro imortal assumidamente gay. E o segundo com um pé na cultura pop, depois de Geraldinho Carneiro. Assim, além de marimbondos de fogo, a casa de Machado de Assis agora também tem música, letra e dança.

CORREÇÃO: Comi uma bola colossal ao não citar o Paulo Coelho, que foi imortalizado pela ABL muito antes de Cícero e Geraldinho. Muita gente hoje nem lembra, mas o "mago" foi letrista de Raul Seixas durante muito tempo.

DISTRITÃO FEDERAL

Vai ser difícil a sociedade se mobilizar contra o chamado "distritão". Porque o projeto, que passou raspando pela comissão especial da Câmara para a reforma política, faz todo o sentido à primeira vista. Elegem-se os candidatos ao legislativo que tiverem mais votos e ponto. Com o fim do sistema proporcional, acabam os puxadores de voto à la Tiririca, que arrastam consigo um bando de nulidades em quem ninguém votou. Lembro com carinho da Senhorita Suely, que se tornou vereadora no Rio de Janeiro com pouco mais de 500 votos, só porque concorreu pelo PRONA, o partido do Enéas. Mas o "distritão" não resiste a um exame mais detalhado. Recomendo a leitura deste curto artigo do Bernardo Mello Franco, publicado na Folha de hoje, explicando que o que nos espera é um desastre de proporções afegãs, no qual os mesmos políticos de sempre conseguirão se eternizar no poder. Se mesmo assim você ainda não se convencer, lembre-se: Eduardo Cunha e Michel Temer são a favor do "distritão".

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

VELHO CHICO

Chico Buarque deve ser o último artista brasileiro que ainda usa a palavra "cantiga". Mas não é só por isto que ele soa antiquado (e nem pelo apoio acrítico e irrestrito ao PT). Hoje eu li no Huff Post este artigo interessante de Flavia Azevedo, onde ela conta que, junto com algumas amigas, se incomodou com o trecho da letra de "Tua Cantiga" onde Chico diz que larga mulher e filhos pela nova amada. Um homem que abandona os próprios filhos é o terror de qualquer mulher, e mesmo as que fazem o papel da "outra" não querem mais ter este débito em suas contas. "Caravanas", o novo álbum do cantor e compositor, só sai no final deste mês. Vou esperar ouvir tudo antes de dar meu veredicto.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

PRETTY WOMAN

Eu nunca tinha ouvido falar na soprano sul-africana Pretty Yende até ontem de manhã, quando li que ela está se apresentando em São Paulo. Menos de 48 horas depois, estou apaixonado por esta moça de nome delicioso. Seu álbum de estreia, "A Journey", traz árias como "Una Voce Poco Fa", de "O Barbeiro de Sevilha", e outras menos manjadas. Também inclui sua versão para o "Dueto das Flores" de "Lakmé", que a inspirou a estudar canto lírico depois de escutá-lo num comercial da British Airways. Sim, é quase um clichê, mas é belíssimo. Assim como bicha que gosta de ópera. Viens, Malikaaaa...

VOLVERÉ Y SERÉ MILLONES


Há mais de vinte anos, li um livro sensacional do falecido escritor argentino Tomás Eloy Martínez: "Santa Evita", com as peripécias do cadáver da ex-primeira-dama. Embalsamada logo após a morte, a mando de seu viúvo, Eva Perón foi escondida em lugares inusitados - atrás da tela de um cinema, que tal? - e levada para a Espanha e a Itália. Fui ver "Eva Não Dorme" esperando pelo menos parte desta saga rocambolesca (o filme não é baseado no livro). De fato há alguns pontos de contato, mas a pegada do diretor Pablo Agüero é quase impressionista. O longa, na verdade, é um compilado de cenas avulsas com personagens próprios, entremeadas por impressionantes imagens de arquivo. Gael García Bernal só aparece no começo e no fim, e mal abre a boca; o francês Denis Lavant protagoniza uma sequência impactante, mas que parece teatro filmado. Ainda mais teatral é o cativeiro do general Aramburu, sequestrado por guerrilheiros peronistas. Tudo isto para dizer que "Eva Não Dorme" só é recomendado  para quem se interessa pela Evita histórica, muito mais estridente que a vivida por Madonna. É o meu caso.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

OVO VIRADO

Não votei no João Doria e não morro de amores por ele. Ainda mais agora, que o prefeito de São Paulo virou BFF do Temer. Mas jogar ovo nele - que venceu uma eleição em primeiro turno, portanto transborda legitimidade - é mais do que ridículo. É contraproducente, pois gerou uma resposta do Doria igualmente ridícula. Estou de saco na lua do "nós contra eles", seja de que lado vier. Me dá vontade de tacar ovo em todo mundo.

MANÁ DO CÉU

Leio por aí que o centrão, o PMDB, o DEM e outros demônios estão tramando a candidatura de Henrique Meirelles à presidência, com Rodrigo Maia como vice. Não duvido da competência técnica do ministro da Fazenda, mas hahahaha, as if. Até parece que o povaréu desinformado vai votar num sujeito sem carisma, que acaba de aumentar o preço da gasolina. E os mais bem pensantes estão todos com hó-rreur de Temer, o Ladrão o Velho, e passarão ao largo de qualquer coisa que cheire a naftalina. Sem falar que Meirelles agora cogita elevar a alíquota máxima do IR para módicos 35%, uma porcentagem digna de país escandinavo com serviços públicos excelentes. Vai precisar chover maná e água de côco para que se eleja o primeiro presidente brasileiro... nascido em Anápolis, Goiás. Pensou que eu ia dizer outra coisa, né?

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

BARBEIRAGENS

Houve um tempo em que qualquer comercialzinho mostrando um casal gay era recebido com fanfarra aqui no meu blog. Hoje eles já fazem parte da paisagem - até no Brasil se tornaram mais frequentes. Nem por isto vou deixar de registrar os melhores, como esse filme americano das fraldas Luvs. O interessante é que é só mais um da campanha "Primeiro Filho, Segundo Filho", que a marca já veicula há alguns anos. Ou seja, gay é mesmo o novo normal. Ou está se tornando.

MARIDO NEURÓTICO, ESPOSA NERVOSA


O pessoal reclama que eu vou muito ao cinema mas não gosto de nada. Só que, de vez em quando - muito de vez em quando - aparece um filme que me deixa de quatro. É o caso de "Monsieur e Madame Adelman", que pode ser mal descrito como uma comédia amarga de Woody Allen falada em francês. O bonitão Nicolas Bedos dirigiu, estrelou e ajudou a escrever roteiro e música; só falta ter pau grande. Ele e sua mulher Doria Tillier (também atriz e co-roteirista do filme) se inspiraram em si mesmos para contar uma história de amor que dura 45 anos, com todos os altos e baixos possíveis. A montagem ágil, o uso esperto da trilha sonora e o espantoso trabalho de caracterização são as cerejas de um bolo consistente, onde as risadas se sobrepõem a um relacionamento complexo e crível. "Monsieur e Madame Adelman" deve ser indicado a um monte de prêmios no fim do ano. Mas um ele já levou: conseguiu a rara proeza de não me fazer olhar para o relógio.