quarta-feira, 22 de novembro de 2017

CYRANO NA INTERNET


O amor por procuração é um tema em voga desde, pelo menos, que o escritor francês Cyrano de Bergerac pediu para um amigo mais bonito se passar por ele ao paquerar uma dama, no século 17. O episódio virou uma peça de teatro 200 anos depois e já passou por inúmeras variantes. A mais recente é o filme "Um Perfil para Dois". Pierre Richard - um astro na França, mas pouco conhecido por aqui - faz um viúvo que começa a paquerar online, fazendo muito sucesso. Só que a foto que ele usa em seu perfil é a do rapaz que lhe ensinou a navegar na internet, uns 50 anos mais novo. O resultado é previsível: desencontros, mal-entendidos e o inevitável final feliz. Só faltaram piadas melhores para este longa simpático ser chamado de comédia romântica.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

ZIMBÓRA

Robert Mugabe poderia ter sido o Mandela do Zimbabwe. Assim como seu colega sul-africano, ele também liderou a luta contra o apartheid, que vigorou na então Rodésia até 1980. Só que, uma vez no poder, o herói seguiu o mesmo caminho que tantos líderes africanos e se tornou ditador. O pior é que era um tirano incompetente: deixou-se a inflação chegasse a níveis estratosféricos, enquanto o povo continuava na miséria de sempre e sua família se refestelava. Infelizmente, sua queda não é garantia de mudança nenhuma. O que aconteceu por lá não foi uma revolução, e sim um golpe palaciano. O mesmo grupo que já mandava no país vai continuar mandando. Apenas se impediu que a primeira-dama Grace herdasse a presidência assim que o maridão batesse as botas, o que não deve demorar. Pelo menos Mugabe morrerá deposto, derrotado, sem o conforto de se sentir eterno. Sem ele, quem sabe o Zimbabwe finalmente deslancha? O potencial é enorme e a estrutura, bem melhor que a da vizinhança. Zimbóra, zimbabuanos.

APROPRIAÇÃO CULTURAL

Estou me apropriando da TV Cultura, pasito a pasito. Além de participar de dois "Roda Viva" (um deles ainda não foi ao ar), gravei duas "cabeças" para o "Metrópolis" dando dicas de séries de TV. A primeira foi exibida no programa deste domingo (no vídeo acima, na altura do 15:50). Agora estou negociando uma participação no desenho animado "Masha e o Urso", em papel ainda a definir.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

OH, TO SEE WITHOUT MY EYES

Hellooo, perdedores que ainda não conseguiram ver "Me Chame Pelo Seu Nome"! Quer dizer então que você mofaram na fila que ia do Cinesesc até São Bernardo do Campo? Pois fiquem sabendo que eu já vi DUAS vezes o filme do ano, uma no Festival do Rio e a outra na abertura do Festival Mix Brasil. Já vocês terão que esperar até 18 de janeiro; enquanto isto, distraiam-se com os memes do Arnie Hammer dançando, tirados da cena acima. Ele parece uma morsa no cio, ou talvez um presunto tender sob o efeito de tóchicos. E daí? Então é Natal!
Só não é melhor do que este vídeo colegial do Timothée Chalamet, que não foi promovido a meu noivo imaginário apenas porque eu não quero ser acusado de assediar dimenor. Além de revelar desenvoltura desde a tenra idade, Timmy T. ainda entoa o que talvez seja o refrão mais contagioso de todos os tempos. Todo mundo junto agora: Statistics, yup! Statistics, yup! Ms. Lawton! Ms. Lawton!

TEATRO VEZES TRÊS

Charles Darwin levou uma tartaruga gigante das Galápagos para a Austrália, durante sua volta ao mundo na década de 1830. A bichinha foi batizada de Harriet e morreu 175 anos, em 2006. Tamanha longevidade inspirou a peça espanhola "A Tartaruga de Darwin", onde o quelônio "evolui" para a forma humana e se transforma numa variante réptil do "Repórter Esso", a testemunha ocular da história. Henriqueta (como foi traduzida no texto de Juan Mayorga) viu tudo e conheceu todo mundo: estava na sala quando os emissários de Hitler e Stálin assinaram um pacto de não-agressão, por exemplo. Ana Cecília Costa está fantástica como a velha senhora e Tuna Dwek arrebata a platéia na montagem de Mika Lins que fica em cartaz no SESC Ipiranga, em São Paulo, até 17/12. E esta foi apenas a minha primeira peça deste final de semana.

A segunda foi ali ao lado, no saguão do Museu do Ipiranga: "Leopoldina, Independência e Morte". A primeira imperatriz do Brasil entrou na moda por causa da novela "Novo Mundo", e finalmente está deixando de ser retratada como uma gorda chata que merecia ser chifrada. Foi, na verdade, a grande artífice da independência, e o texto de Marcos Damigo (que também assina a direção) resgata sua importância histórica. Fabiana Gugli encarna tantas faces dessa personagem complexa que o espectador até esquece que está vendo um monólogo. O entorno suntuoso também ajuda: no alto da escadaria está uma estátua de Pedro I, com quem a rainha ferida discute. No último dia em cartaz, 3 de dezembro, o público da primeira sessão, às 15h, ainda terá uma visita guiada à cripta onde estão ambos, sob o Monumento, a algumas centenas de metros dali.

Encerrei meu périplo teatral com a badalada montagem de Gabriel Villela para "Boca de Ouro", do Shakespeare brasileiro - vulgo Nélson Rodrigues. Achei os figurinos coloridíssimos, uma marca do diretor, um pouquinho over, a ponto de me distanciar do universo rodriguiano. Mas as interpretações são fenomenais, a começar por Malvino Salvador, que exibe um "range" que a TV simplesmente não aproveita. Com muita música, sangue de mentirinha e energia transbordante, foi uma chave de ouro para o finde. 

domingo, 19 de novembro de 2017

MEU AMIGO HINDU


Em meados do século passado, George Cukor era considerado um grande diretor de mulheres. Hoje em dia esta honra caberia a Stephen Frears, embora parte da imprensa não repare que a maioria de seus filmes tem protagonistas femininas. Frears já conduziu Judi Dench, Meryl Streep, Glenn Close, Michelle Pfeiffer e Helen Mirren a indicações ao Oscar. Esta última ganhou, e a primeira volta a trabalhar com ele pela terceira vez. Mas agora duvido que vá muito longe, porque a concorrência está acirrada este ano. E também porque o filme até se esforça, mas o tom amargo da segunda parte não consegue elevar a fofura da primeira. Dench encarna novamente a rainha Vitória, 20 anos depois de "Mrs. Brown". Naquele filme, a soberana, já viúva há mais de uma década, encetava um romance platônico com um humilde jardineiro escocês. Em "Victoria & Abdul - O Confidente da Rainha", às portas da morte, ela encasqueta com um funcionário público indiano escolhido apenas por causa de sua altura para entregar-lhe uma medalha comemorativa durante um banquete. Vitória se afeiçoa ao cara, que a trata sem muitas mesuras, e me fez lembrar de alguns casos da vida real que presenciei, em que pessoas idosas de repente cismavam com alguém novo, de fora da família. Essa paixonite logo incomoda o resto da Corte, ainda mais porque Abdul parece estar tirando vantagens ao manipular sutilmente a rainha. Tudo isto é agravado pelo fato dele ter pele escura e ser muçulmano, praticamente um bicho para a aristocracia britânica da época. Mesmo com uma boa dose de crítica social no desfecho, no entanto, "Victoria & Abdul" não passa de um entretenimento leve para senhoras idosas, que adorariam ter um servo indiano para chamar de seu.

sábado, 18 de novembro de 2017

ALERJIA

Pessoas bem-informadas sabem faz tempo que a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro é uma pocilga, infectada por representantes das milícias, dos bicheiros e da máfia dos ônibus. Por isto, não é de se admirar o placar de 39 votos contra 16, que garantiu a soltura do presidente da casa, Jorge Picciani, e seus comparsas Paulo Melo e Edson Albergasse, todos presos em ação da operação Cadeia Velha da PF. Surpresa mesmo deve estar a ministra Covárden Lúcia, que nunca imaginou, coitada, que seu ato de tibieza em prol de Aécio Neves provocasse esta onda de impunidade nos parlamentos locais país afora. O Brasil arcaico está reagindo, como se não houvesse eleição no ano que vem. Se bem que, se depender de cariocas e fluminenses - que brindaram a si mesmos e aos demais brasileiros com Brizola, Garotinho, Cabral, Cunha, Bolsonazi, Pezão e Crivella - esses deputados que estão aí estão todos com a reeleição garantida. Ou será que, depois do estado quebrar e afundar, finalmente ficaram alérgicos a essa corja?

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

TÁ BOA, VAN SANT?

O diretor americano Gus Van Sant é o principal convidado internacional do 25o. Festival Mix Brasil, que está rolando em São Paulo até o dia 26. Além de uma retrospectiva de seus filmes, o evento também promoveu um encontro do cineasta com uma plateia formada principalmente por gente que estuda e/ou trabalha com cinema. Van Sant é muito simpático, mas não é exatamente um poço de carisma. Falava sempre no mesmo tom, com a maior calma do mundo, e algumas de suas respostas levaram vááários minutos. Alguns  espectadores também não ajudaram, fazendo perguntas em várias partes e sobre temas muito amplos, do tipo "como você encara a mise-en-scene de seus filmes? e o roteiro? e o catering?". Só eu fui curto e grosso, perguntando se ele sabia que o dublador habitual de Sean Penn no Brasil, que é evangélico, havia se recusado a dublar o ator em "Milk". Nesta única vez, Van Sant foi lacônico: "não, não sabia". E aí eu retruquei, "so now you know". Fim.

AGORA AGORA AGORA


Achei que "No Intenso Agora" ficou aquém do que prometia. O novo documentário de João Moreira Salles tem uma premissa ambiciosa: a influência dos acontecimentos históricos na vida privada e vice-versa. E o recorte no tempo foca na segunda metade dos anos 60, um período cheio de convulsões pelo planeta afora. A China era tragada pela Revolução Cultural, os tanques soviéticos acabavam com a Primavera de Praga, os estudantes faziam barricadas em Paris e a ditadura militar se consolidava no Brasil. O diretor mistura arquivos jornalísticos e filmes caseiros, principalmente os Super-8 que sua mãe rodou durante uma viagem à China. E mostra como tanta indignação e tanta utopia reverteram em poucas mudanças no cotidiano imediato das pessoas. Também fala muito em suicídio e em jovens que morreram cedo, além de ressaltar a felicidade aparente da mãe, Elisinha, nas imagens mais antigas. Mas acaba sonegando ao espectador um dado importante: o suicídio de Elisinha, em 1988. É mais do que compreensível que ele relute em tocar em um assunto tão delicado. Só que essa relutância deixou "No Intenso Agora" com o pé quebrado, sem uma conclusão clara. Tanto que, ao se aproximar do final, o filme começa a andar em círculos, reprisando os mesmos frames do périplo chinês e desviando para a poesia de Mao Tsé-Tung. Com uma meia hora a menos e um foco mais ajustado, "No Intenso Agora" seria muito mais intenso.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

COMO MULHER FALA

E como fala bem. Sei que uns 90% do meu leitorado são homens gays, e foi-se o tempo em que os gays eram fascinados por mulheres. Mas aqueles que ainda não tiverem horreur das rachas vão se divertir com o podcast "Grampos Vazados", cujo primeiro episódio foi ao ar esta semana. O programa é comandado por três humoristas cariocas - Luciana Fregolente, Liza Yabrudi e Martha Mendonça (esta última, do "Zorra" e do "Sensacionalista"), e está hospedado no site do Hysteria, o "departamento" feminino da produtora Conspiração. Preste atenção, logo no início, nos relatos sobre relacionamentos abertos. Eu ri tanto que até pedi permissão para roubar para o roteiro de um filme.

FERVENDO O CALDEIRÃO

E lá vem pedrada, porque eu vou declarar neste post que não tenho, a priori, nada contra uma eventual candidatura de Luciano Huck ao Planalto. Claro que ele está longe de ser o postulante dos meus sonhos. Mas juro que eu prefiro o dono do "Caldeirão" a muitos nomes que já estão por aí, como Lula, Alckmin, Bolsonazi e talvez até ao Ciro Gomes. "Ãin, mas ele não é preparado" - como se o Lula fosse, antes de se eleger em 2002. "Ãin, mas ele vai ser teleguiado pela Globo" - pois saiba que muita gente na emissora não vê essa empreitada com bons olhos. Huck e Angélica, aliás, arriscam muito se abandonarem seus programas de TV: não há garantia de volta, e uma derrota nas urnas pode reverberar nos contratos de publicidade que fazem a fortuna do casal. Por isto, ainda acho improvável que ele saia mesmo candidato. Mas é o tal negócio: analistas políticos já avisaram que, cada vez mais, nomes do showbiz se lançarão na política. Isto também vai acontecer no Brasil, agora ou daqui a pouco.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

G'DAY, MATE

Depois de uma árdua campanha de três meses, durante a qual os reaças tentaram de tudo para dividir o país, a Austrália disse "sim". O casamento igualitário teve uma vitória acachapante na pesquisa feito pelo correio: quase 62% dos votos, contra 38% para o "não". Sim, era apenas uma pesquisa, não um plebiscito formal, sem nenhuma consequência legal automática. Mas agora o Parlamento de lá vai ser obrigado a aprovar uma lei regulamentando o casamento entre pessoas do mesmo sexo - além do mai,s porque mais de 80% dos eleitores participaram da pesquisa, um índice impressionante para um país onde o voto não é obrigatório. A Austrália, tão moderna e civilizada, estava muito para trás no assunto: até nesta grande taba tupinambá em que vivemos os gays já podem se casar no civil. Comenta-se que os parlamentares conservadores ainda vão tentar enfiar jabutis na nova lei, garantindo o "direito" ao preconceito e à ignorância, mas faz parte do jogo. E por falar em jogo, a seleção australiana bateu Honduras - um paiseco que proíbe todas as formas de aborto - e garantiu sua vaga na Copa, no mesmo dia em que foi anunciada a vitória do "sim". Coincidência? Acho que não.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

LOS JUEGOS DEL HAMBRE


Tem gente comparando "Deserto", o filme escolhido pelo México para disputar o último Oscar, com o clássico "Encurralado" de Steven Spielberg. Afinal, aqui também se trata de uma perseguição implacável com uma paisagem árida ao fundo. Mas o longa de estreia de Jonás Cuarón - filho do premiado Alfonso Cuarón - me lembrou também uma versão tex-mex dos "Jogos Vorazes", aquela trilogia futurista sobre uma espécie de Olimpíada onde os jovens se caçam uns aos outros, até sobrar só um. "Deserto" tem um único caçador: um gringo tão alucinado que parece uma caricatura do eleitor de Donald Trump. O sujeito curte patrulhar a fronteira dos EUA com o México e, quando cruza com um bando de imigrantes ilegais, atira para matar. Esse fiapo de roteiro é conduzido com segurança pelo jovem Cuarón, que escalou o mais conhecido dos atores de sue país - Gael García Bernal - para o protagonista. Mas o filme revela um lado tão negro do sonho americano que até os republicanos devem ter se incomodado. Talvez por isto a Academia tenha ignorado solenemente este thriller realista.

RODA MOINHO, RODA PIÃO

Foi o meu segundo "Roda Viva". O primeiro foi gravado no final de setembro, mas ainda não foi ao ar: o convidado era o Hélio de la Peña, e acho que estão esperando o livro dele ser lançado para exibir o programa. Mas o de ontem foi ao vivo. Confesso que eu me surpreendi com a Maitê Proença. Sabia que ela é inteligente e articulada, mas sua coragem de enfrentar perguntas difíceis é admirável. O Bruno Meier, da "Veja", tocou no assunto mais delicado de todos - o assassinato da mãe dela pelo próprio pai - e, por um momento, achei que a conversa iria acabar por ali mesmo. Mas, qual: Maitê encarou de frente, e se expôs ainda mais quando eu lembrei que, em "Gabriela", ela interpretou uma mulher que era morta pelo marido. Foi intenso: confira acima, na altura do -30.

Participar do "Roda Viva" é um rush de adrenalina, é claro. Nas duas vezes em que fui lá, fiquei preocupado não só em falar alguma coisa, qualquer coisa!, como também em não falar em cima dos outros. O Augusto Nunes ajuda bastante, fazendo sinais discretos indicando quem deve ser o próximo a fazer uma pergunta. No final, todos ainda ganham a caricatura que o Paulo Caruso, generoso, fez de cada um (já tenho duas, vou mandar enquadrar). OK, não fiquei muito parecido nesta última. Mas o tempo rodou num instante nas voltas do meu coração.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

PÁSSAROS FELIZES


Consegui. Finalmente gostei de um filme do diretor finlandês Aki Kaurismäki, queridinho do circuito de festivais há quase duas décadas, mas que nunca havia me seduzido. "O Outro Lado da Esperança" é uma comédia dramática sobre um refugiado sírio que busca asilo na Finlândia: não exatamente a situação mais hilária do mundo, mas uma ou outra cena até que rende uma risada. Desconfio que o país retratado na tela pouco tenha a ver com o real, Ouvi dizer que a Finlândia ainda é muito provinciana, mas a de Kaurismäki tem um clima kitsch dos anos 50 que não é crível para um lugar que inventou os Angry Birds. Não é nenhuma obra-prima, mas é um filme interessante.  E qualquer coisa que venha da Escandinávia já me serve de refúgio contra essa gaiola infeliz que virou o Brasil.

18 A 1

Ando tão enojado do cenário político brasileiro que venho deixando passar em branco aqui no blog os descalabros mais recentes. Não emiti um pio sobre a acintosa troca de comando da Polícia Federal, onde assumiu um apaniguado de Sarney com o indisfarçável propósito de estancar a sangria da Lava-Jato. Nada falei sobre a destituição de Tasso Jereissati da presidência do PSDB pelo "walking dead" Aécio Neves, inclusive porque, para mim, o partido já está morto e enterrado: só voto em tucano no segundo turno se o oponente for Lula ou Bolsonazi. Mas os 18 a 1 que uma comissão especial da Câmara marcou ao aprovar a tramitação de um PL que proíbe o aborto no Brasil em qualquer caso me arrepiou os pelinhos do braço. Os 18 votos a favor vieram todos de deputados homens, a maioria da bancada da Bíblia; a única voz dissonante também foi a da única mulher presente, Erika Kokay do PT do DF. Rodrigo "Bolinha" Maia já avisou que este retrocesso não será aprovado em plenário, além do mais porque o resultado seria uma hecatombe - vai morrer MUITO mais mulher do que já morre em aborto clandestino. Obrigar alguém a levar a termo a gestação do fruto de um estupro ou de um feto anencéfalo, que não conseguirá sobreviver fora do ventre, é de uma violência absurda aos meus olhos. Mas é o tal negócio: quase todos que votaram eram homens, e  todo mundo sabe que, se os homens engravidasse o aborto seria um sacramento. E assim caminha o Brasil, nas mãos de gente que quer manter seus privilégios e o resto do país nas trevas.

domingo, 12 de novembro de 2017

APOLO E DIONÍSIO JOGANDO TÊNIS


A única partida de tênis profissional que eu vi na vida foi um jogo-exibição entre Björn Borg e Vitas Geuralitis, no Ginásio de Ibirapuera, em 1980. Achei um saco, óbvio, mas pelo menos tenho Borg no meu currículo. O cara ainda é uma lenda em sua Suécia natal: tanto que a produção local sobre sua rivalidade com o americano John McEnroe chama-se apenas "Borg" nos países escandinavos. É verdade que "Borg vs McEnroe", como o filme foi rebatizado no Brasil, pende mesmo para o viking das quadras. Sua família e seu entorno ganham mais destaque do que os do adversário, assim como o desfecho. Até aí, tudo bem. O que foi mais difícil de engolir foi a ênfase no esporte, um assunto que não está na minha lista dos 100 mais. Eu me diverti à pampa em longas como "Rush" (sobre o duelo entre Nikki Lauda e  James Hunt na Fórmula 1) ou o recentíssimo "Batalha dos Sexos", porque as abordagens eram mais amplas do que a mera disputa. Aqui ficou faltando, talvez, uma análise mais profunda desses dois jogadores tão diferentes. O gélido sueco (apelidado de "Iceborg" pela imprensa) era a encarnação do apolíneo: focado, esguio, controlado, estóico. Já o "bad boy" era dionisíaco em estado puro: bagunçado, impertinente, autoindulgente, hedonista. Talvez o roteiro devesse ter sido escrito por alguém que não manjasse de tênis?

JE NE VEUX PAS TRAVAILLER


O refrão de "Synpathique", o único hit do grupo americano Pink Martini, me caiu feito uma luva depois da audição de "Je Dis Oui": não quero mais saber de trabalhar, só de continuar escutando essa pequena obra-prima. Como todos os trabalhos deles, este aqui mistura standards conhecidos e pérolas obscuras em inúmeras línguas. Dessa vez, tem até "Solidão", nada menos que a épica "Canção do Mar" imortalizada por Dulce Pontes mas com uma letra completamente diferente (algo que de vez em quando acontece na mundo do fado - esta versão, inclusive, foi gravada por Amália Rodrigues). O álbum inclui Rufus Wainwright cantando "Blue Moon" e faixas em turco, árabe, persa e armênio. A única bola fora é um cover de "Pata Pata", com que Miriam Makeba sacudiu o planeta nos anos 60: a vocalista China Forbes alterou a tônica do refrão, que ficou paumolente. Mas o destaque mesmo vai para as canções compostas para o filme "Souvenir", estrelado por Isabelle Huppert, onde ela faz uma ex-cantora que concorreu no Eurovision. Era preciso algo bobinho e pegajoso para a trilha, e o resultado é a estupefaciente "Joli Garçon", que parece ter sido escrita por uma menina de 11 anos mas gruda no ouvido para sempre. Divertido, sofisticado e cosmopolita, o Pink Martini deveria ser promovido a banda oficial da globalização. Com eles não tem esse papo de fronteira. 

sábado, 11 de novembro de 2017

OS CORAÇÕES PROIBIDOS

Revi em DVD um dos meus filmes favoritos de todos os tempos: o francês "Os Corações Loucos", com Gérard Depardieu e Isabelle Huppert ainda cheirando a leite. O título original, "Les Valseuses", era uma antiga gíria para as bolas do saco. E faz jus ao roteiro: Depardieu e Patrick Dewaere (que estourou os miolos com um tiro de fuzil alguns anos depois) fazem dois rufiões que flanam pelo norte da França cometendo pequenos furtos, roubando carros só para passear e tratando as mulheres na porrada. Foi aí que a coisa pegou: eu lembrava bem do longa, mas mesmo assim fiquei chocado. Em dado momento, os pilantras encurralam uma mãe que amamenta um bebê num vagão de trem, sem nenhum outro passageiro por perto. Eles simplesmente a obrigam a dar de mamar para um deles - e ela, a princípio forçada, quase goza. Imagina o forrobodó que uma sequência como esta provocaria hoje. E não é a única: a personagem de Miou-Miou, uma "shampooineuse" (quem lava cabelo no salão de beleza) meio puta, é praticamente um objeto que passa de mão em mão, até que o primeiro orgasmo finalmente a transforma numa pessoa. O fato é que "Les Valseuses" transpira machismo (afinal, foi rodado em 1973), mas de maneira crítica, e todo mundo é complexo. Principalmente as mulheres, que  manifestam desejo mesmo quando recatadas - talvez dando munição a quem reclama de que os estupradores alegam que "no fundo elas gostam", talvez reconhecendo que mulher sente tanto tesão quanto o homem. Terminei com a sensação de que um filme assim talvez não fosse mais feito. Mas que bom que já foi: é uma obra-prima do pós-nouvelle vague, libertina e libertária, e ainda necessária. Tente ver, tem no YouTube.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A BENÇÃO, MADRINHA

Baixei o novo álbum da Preta Gil, "Todas as Cores", e não achei nenhuma maravilha. Mas música não é propriamente o forte da moça: é o humor, a presença, a atitude. E vem dela esse clipe-manifesto, postado ontem no YouTube, tirado do ar provavelmente por causa de alguma denúncia mas já devolvido onde lhe é de direito. Preta chamou sua madrinha Gal Costa para dividir com ela os vocais - um ato de supremo desprendimento, convenhamos - e o resultado é uma das primeiras reações à onda de boçalidade que se espalha da internet para a vida real. Os asnos vivem na ilusão de que são maioria: mesmo se fossem, não podem sair por aí jogando pedra em quem gostariam de calar. Que se benzam.

SAI POR CIMA

Em 2013, eu participei da sala de roteiristas da série "Meu Amigo Encosto", criada pelo Thiago Luciano. Durante os brainstorms, bolamos uma personagem que não estava na sinopse original: a presidente da União dos Encostos, uma mulher madura, sensual e manipuladora, que a Helena Perim batizou de Yolanda. Eu tive o privilégio de escrever os diálogos ferinos dessa megera. Um ano depois, a série finalmente foi gravada, e o papel coube à Márcia Cabrita. No único dia em que eu visitei o set, ela não estava: perdi, assim, a chance de conhecê-la em pessoa (mas a vi duas vezes em cena, no palco do "Sai de Baixo"). Pelo menos dei a sorte de ter uma atriz como ela dizendo o meu texto. É impressionante como Márcia era querida - minha timeline está coalhada de homenagens. Aqui vai a minha, com um beijo de gratidão a essa artista que se foi no auge de seus talentos. E força para todos.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

TODA A VERGONHA DO MUNDO

Já não estou mais defendendo o Kevin Spacey a qualquer custo, mas também acho que as represálias a ele estão indo um pouco longe demais. Preste atenção no trailer de "Todo o Dinheiro do Mundo": deve ser a última chance de ver o ator encarnando o bilionário J. Paul Getty, um personagem pelo qual ele já estava até sendo cotado para o Oscar.  O diretor Ridley Scott está refilmando quase todas as cenas de Spacey com Christopher Plummer - a quem, aliás, preferia para o papel. Spacey foi imposto pela Sony, que agora está pressionando Scott para re-finalizar até o filme antes da estreia nos EUA, que continua marcada para o dia 22 de dezembro. É uma medida drástica, que lembra a prática da URSS de apagar das fotos os líderes políticos caídos em desgraça. E abre um precedente perigoso: nesta era digital, a simples presença no mundo corre o risco de ser borrada.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

FIZEMOS A ÚLTIMA VIAGEM


"Gabriel e a Montanha" é uma beleza de filme. Mesmo sabendo que ele ganhou prêmios em Cannes, mesmo tendo lido críticas positivas, eu não esperava gostar tanto. Porque eu já sabia o final da história, que é real: em 2009, no fim de uma viagem de quase um ano que o levou para a Ásia e a África, o carioca Gabriel Buchmann se perdeu ao descer sozinho uma montanha no Malawi e acabou morrendo de frio (era julho, inverno tanto lá como cá). Cadê o arco dramático? Cadê a "mensagem"? Pois o longa de Fellipe Barbosa - que era amigo do verdadeiro Gabriel - tem tudo isso. Também tem paisagens belíssimas que servem quase como um documentário: o monte Kilimanjaro, a ilha de Zanzibar, as cataratas de Victoria. Acho que se trata do único filme brasileiro sem um único frame rodado no Brasil. João Pedro Zappa está incrível no papel-título, apesar de aparentar menos que os 28 anos que de fato tem (a mesma idade de seu personagem). Com humor e desenvoltura, ele cria um sujeito de uma simpatia irresistível, mas também cheio de teimosia e pretensão. Gabriel se recusava a fazer qualquer coisa que cheire a turista: preferia dormir na casa dos guias que contrata nas ruas, comer a comida deles e se sentir o mais local possível - o que não ia ser nunca, é claro. Essa cabeça dura acabou lhe custando a vida, ao enfrentar uma escalada árdua sem os equipamentos ou o tempo necessários. Sua jornada, que poderia ser uma viagem iniciática, teve um final abrupto. Mas rendeu um filme.

CHUPA, TRUMP

Ontem, como costuma ser toda primeira terça-feira do mês de novembro, foi dia de eleição nos Estados Unidos. Como estamos em ano ímpar, ela se restringiu a poucos lugares - o calendário eleitoral de lá não é certinho como o nosso, em que todo mundo escolhe governador ao mesmo tempo, por exemplo. Neste 7/11 só dois estados estavam em jogo, e os democratas levaram ambos: Virgínia e Nova Jersey. Também mantiveram a prefeitura de Nova York, elegeram a primeira prefeita lésbica de Seattle e - talvez a vitória mais emblemática de todas - conseguiram que uma ativista trans, Danica Roem, derrotasse ninguém menos que Ron Marshall, um deputado estadual da Virgínia que propôs uma famigerada lei que obrigava pessoas transexuais a frequentar os banheiros públicos de seu sexo biológico. Além dessas, muitas outras conquistas democratas por todo o país mostram que a maioria dos eleitores está de saco cheio não só de Donald Trump, mas também das políticas do partido Republicano. Ano que vem tem eleições para deputado federal e senador: se perder o controle do Congresso, Trump estará liquidado.