quarta-feira, 19 de junho de 2019

FAZ TREMER TODA A RIBEIRA

Manda a Madonna de volta pro estúdio, porque a música portuguesa não para de avançar. A novidade do momento é a dupla Fado Bicha, que mereceu matéria na Ilustrada de anteontem. Hoje fui conferir o som dos gajos e adorei: o primeiro single, "O Namorico do André", é uma versão paneleira de "O Namorico da Rita", de Amália Rodrigues. Tem muito mais no YouTube deles, dando uma palhinha do que será o álbum. Já faz parte da minha trilha dessa semana do Orgulho LGBT+.

ARMINHA EMPERRADA

Biroliro se gabou de ter uma caneta mais poderosa do que todas as cinco toneladas do Rodrigo Maia. Tal artefato lhe permitiria legislar por decreto, sem passar pela chatice do Congresso, estabelecendo uma linha direta com a população. Mas não é bem assim: ontem o Senado metralhou o decreto do rearmamento, e mais pipocos devem vir da Câmara. De nada adiantaram as ameaças que alguns parlamentares receberam. Hoje tem minion mimimizando nas redes sociais, pedindo o fechamento do Congresso. É impressionante a quantidade de gente supostamente educada que não fazideia do funcionamento das instituições e achou que estava elegendo um ditador. Até o Bozo acreditou nisso, e eis aí o resultado: um tiro pela culatra atrás do outro.

terça-feira, 18 de junho de 2019

ARTISTAS EM CONSERVA

Pode ser artista e conservador ao mesmo tempo? Não, porque fazer arte é quebrar regras, é inovar. Pode menos ainda ser artista e burro. Alguém declarar apoio ao Bozo a esta altura, depois de quase seis meses de um governo patético, é sintoma de burrice em estado terminal. Mas Roberto Alvim e sua mulher Juliana Galdino passaram um recibo de estupidez ao convocar supostos artistas conservadores para um banco de dados, destinado a montar uma "máquina de guerra cultural". A única resposta possível a essa bobajada é a adesão em massa: vamos todos mandar nossos currículos para lá e infiltrar esse banco com abortistas, feministas, travestis, maconheiros  não-binários, comunistas e adeptos de sexo bizarro em geral. Ainda mais agora que a Lei Adney acabou, é a nossa chance de seguir mamando nas tetas do governo. Bora!

A FLOR PEITA O GIGANTE

Em 1989, a ditadura chinesa não teve o menor escrúpulo em promover um massacre na Praça da Paz Celestial, em Pequim, onde, havia meses, se concentravam manifestantes contra o regime. Por que não fizeram o mesmo agora, contra os milhões de pessoas que saíram às ruas de Hong Kong? Porque, antes de mais nada, seria um desastre de relações públicas. Num momento em que a China tenta se vender como uma potência benigna, que ajuda os países pobrezinhos a construir portos e estradas, pegaria muito mal uma nova chacina - ainda mais em uma ex-colônia inglesa, que culturalmente ainda faz parte do Ocidente. Segundo, porque tal repressão provocaria uma fuga de capitais. Hong Kong talvez deixasse de ser um pólo financeiro, e isto traria repercussões indesejadas para todo o sul da China. Nas últimas décadas, floresceram por lá megalópoles com Shenzhen e Guangzhou, mas Hong Kong é o centro, o esteio e a razão de ser dessa próspera região. Mesmo assim, não deixa de ser curioso ver os chineses enfiarem a viola no saco. A tal da lei que previa a deportação para o continente de criminosos da ilha tentou pegar carona num rumoroso caso de assassinato do ano passado, mas o povo de Hong Kong é gato escaldado e sentiu de longe o cheiro da tramoia. A flor que orna sua bandeira se mostrou, por enquanto, capaz de dobrar o gigante chinês. Mas por quanto tempo ainda?

segunda-feira, 17 de junho de 2019

SOLTA O PAVÃO

Educação, cultura, conhecimento, nada disso nunca foi o forte dos extremistas de direita. Até porque, se fosse, eles não seriam extremistas, n'est-ce pas? Mas a ignorância dessa manada atingiu um novo píncaro com o suposto "Show do Pavão", que agitou as redes sociais na tarde de ontem. A teoria da conspiração que garante que Jean Wyllys foi comprado por Glenn Greenwald e David Miranda cai gostosamente por terra aos pés de erros crassos de inglês, que os minions nunca estudaram direito. Mas aí já seria pedir demais de uma corja que acha que um ex-astrólogo que não concluiu o ensino médio seja um filósofo, ou que um deputado do baixo clero que passou 28 anos mamando nas tetas do governo e só aprovou dois projetos insignificantes seja a pessoa indicada para tirar o Brasil da crise.

DÓI MESMO


A única razão que justifica a França ter escolhido "Memórias da Dor" como seu candidato ao último Oscar de filme estrangeiro é o fato da história se passar no final da 2a. Guerra Mundial, quando os foram soltos os prisioneiros dos campos de concentração nazistas. Os diários de Marguerite Duras, que teve dois casos extraconjugais enquanto o marido, da Resistência, estava preso, servem de base para o roteiro - e acabam por afundá-lo, gerando um excesso de locução em off e longas passagens onde não acontece absolutamente nada. A fotografia escuríssima também depõe contra, e a participação discreta de Benjamin Biolay não compensa o esforço. "Memórias da Dor" me doeu mesmo: cansei de me mexer na cadeira, buscando uma posição.

domingo, 16 de junho de 2019

CORTEM-LHE A CABEÇA!

Biroliro é um líder execrável, sem grandeza humana nem a menor noção do que seja comandar uma equipe motivada. Sua mania de fritar em público seus próprios ministros vai custar caro: de ontem para hoje, pediram demissão o perigoso comunista Marcos Barbosa Pinto e também o sujeito que tentou infiltrá-lo no governo, o líder stalinista Joquim Levy. Tenho vontade de esfregar essa notícia na cara dos meus ex-amigos do mercado financeiro, que acharam tudo bem jogar os amigos gays no fogo porque, afinal, Paulo Guedes teria ampla autonomia para implantar a pauta liberal e transformar o Brasil numa potência econômica. A realidade é bem outra: Bozo governa feito a Rainha de Copas da Alice, aos gritos de "cortem-lhe a cabeça!" e nenhuma ideia na própria. Mas a fatura não vai demorar. Muita gente que se uniu ao Bostassauro já está se articulando para cair fora, haja vista o jantar para João Doria na casa de Paulo Marinho, no Rio de Janeiro. Até a mega-oportunista da Joice Hasselman foi.

sábado, 15 de junho de 2019

FAST FOOD DISFARÇADO DE SOUFFLÉ


As credenciais de "Greta" são impecáveis. É o primeiro longa de Neil Jordan, que dirigiu pérolas como "Mona Lisa" e "The Crying Game",  em mais de uma década. Também é um thriller estrelado por Isabelle Huppert. Mas o título genérico que o filme ganhou em português, "Obsessão", revela melhor sua verdadeira natureza: é uma obra descartável, com um roteiro que parece ter sido escrito por um comitê de computadores. Huppert empresta seu eterno ar de superioridade intelectual a uma viúva solitária que gosta de perseguir mocinhas com idade para serem seu filha. Chloê Grace Moretz, que faz uma jovem que perdeu a mãe há pouco tempo, parece a vítima perfeita. A ingenuidade da personagem até justifica alguns de seus erros óbvios, mas só até certo ponto. Moretz agora é uma mulher adulta e parruda, e bastaria um peteleco seu para nocautear sua stalker. "Greta", na verdade, é um filme rotineiro e banal, cujo diretor e elenco já fizeram coisas bem melhores. Bobo fui eu, que achei que esse Big Mac era uma iguaria.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

PRA QUÊ DISCUTIR COM MADAME


Confesso que eu estava com medo de me decepcionar com "Madame X". A princípio, eu esperava um álbum fortemente influenciado pela música que se ouve em Lisboa, cidade para onde Madonna se mudou há dois anos. Ela mesma cansou de postar vídeos onde surgia caracterizada de fadista ou curtindo um som em uma tasca na Alfama. Mas as primeiras cinco faixas divulgadas foram para outro lado. "Medellín" é gostosinha, "I Rise" e "Crave" são fofas, "Future" me fez gostar de reggae e "Dark Ballet" é a "Bohemian Rhapsody" de Madge. Mas, por melhores que sejam essas músicas, a lusofonia passa longe.

Só que o resto do disco é bem como eu queria, e até mais. Madonna canta em português o tempo todo, e os arranjos trazem guitarradas, funk carioca e até violinos da disco music setentista. O "Faz Gostoso" da Blaya, o maior hit português de 2018, agora ganhará o mundo com a ajuda de Anitta. "God Control" é sensacional, talvez minha favorita. E as letras politizadas são até um pouco óbvias, mas é um alívio não ver mais Madonna se fingindo de adolescente que brigou com o namoradinho. Pela primeira vez em anos, ela soa como o que realmente é: uma mulher inteligente, vivida, sexualmente ativa, no esplendor dos 60 anos. "Madame X" entra para o panteão dos grandes trabalhos de Madonna, ao lado de "Confessions on the Dancefloor", "Ray of Light" e "Like a Prayer".  Talvez também já seja o melhor álbum de 2019.

HOMEM À BEIRA DE ATAQUE DE NERVOS


"Dor e Glória", o novo filme de Pedro Almodóvar, é aquilo que a crítica americana chama de "flawed masterpiece": uma obra-prima imperfeita. O diretor espanhol quis produzir uma meditação sobre o envelhecimento, a solidão e a amargura. Pela primeira vez, lançou um filme claramente autobiográfico. Até o nome do protagonista é óbvio: Salvador Mallo, um quase-anagrama de Almodóvar. Mas o roteiro é meio frouxo e deixa algumas pontas soltas. Na primeira metade, há um personagem secundário que parece ser importante para a trama, um ator que encena um monólogo escrito por Mallo e o apresenta à heroína. Mas a função desse cara é só servir de escada para a chegada do ex-namorado do diretor, feito pelo argentino Leonardo Sbaraglia. Depois ele desaparece, e a droga também não acarreta maiores consquências. Mas o reencontro dos amantes é uma das melhores cenas da obra almodovariana: Banderas está simplesmente sublime, fazendo por merecer o prêmio de melhor ator que recebeu em Cannes e a indicação ao Oscar que talvez ainda receba. A outra sequência icônica é a da descoberta do desejo por Mallo ainda criança, quando ele desmaia ao ver um homem adulto nu pela primeira vez. Penélope Cruz está ótima como sempre como a mãe do protagonista, e pena que ela não tenha uma cena junto com Banderas. Almodóvar também sempre dá um jeito de incluir no elenco quem quer que seja que esteja caliente no momento na Espanha: dessa vez é a cantora de flamenco eletrônico Rosalía, que aparece lavando roupa no rio ao lado de Penélope. "Dor e Glória" talvez seja o filme mais sombrio e circunspecto da carreira do cineasta, mas tomara que não seja seu testamento artístico. A tu vera, a tu vera, siempre la verita tuya...

quinta-feira, 13 de junho de 2019

OITO A TRÊS

A criminalização da homofobia já tinha maioria para ser aprovada quando a votação foi retomada hoje no STF. Agora há pouco saiu o placar final: oito votos a favor, três contra. Não se repetiu a unanimidade que aprovou o casamento igualitário em 2011, mas, ainda assim, é uma vitória acachapante. E não se pode acusar os ministros Lewandowski, Dias Toffoli e Marco Aurélio de homofóbicos: eles também votaram a favor do casamento gay, oito anos atrás. Mas dessa vez preferiram declarar que essa competência cabe ao Congresso, que, no entanto, continua omisso. Aliás, se deixarmos para os nossos nobres deputados, a homofobia é capaz de se tornar obrigatória em todo o país. Na verdade, nenhuma religião sofrerá repressão alguma: se fôssemos ser rigorosos com todas elas, a Igreja Católica teria que ordenar mulheres, e as Testemunhas de Jeová não poderiam proibir as transfusões. Tenho até amigos gays que preferiam que o Supremo não se metesse nesse assunto, e eu respeito essa opinião. Mas sou do campo contrário, e hoje estou contente - ainda mais porque o casamento gay também foi aprovado pela Suprema Corte do Equador. Agora poderemos processar quem nos xinga!

GOL DE PEPECA

Que tal a capa do "Charlie Hebdo" desta semana? O desenho em "homenagem" à Copa do Mundo de futebol feminino, que acontece na França, está causando bafafá nas redes sociais - ça va sans dire. Muita gente achou nojenta, machista, irritante e por aí vai. Concordo (mais ou menos) com os críticos em um ponto: por que sempre se apela para o sexo quando o assunto é mulher? Por outro lado, o "Charlie" é aquele jornal que já pôs na capa o Pai, o Filho e o Espírito Santo se enrabando mutuamente. E claro que não dá para esquecer do atentado de 2015, que matou alguns de seus melhores cartunistas por causa de piadinhas com Maomé. Eu penso o seguinte: se podemos brincar com a religião, então também podemos brincar com qualquer coisa. Fora que eu faço uma leitura progressista dessa capa. Vejo o clitóris sendo comparado a um golaço. Em-po-de-ra-men-to! Pois é, je suis toujours Charlie.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA

A repugnante Joice Hasselman chama David Miranda de "marido", com aspas, de Glenn Greenwald. A minionzada está chafurdando na homofobia para atacar o casal, e até circulou um vídeo de Miranda sambando sem camisa, sem perceber que isto, na verdade, conta pontos para o deputado. Mais graves são as ameaças de morte: devem ser blefe, mas o assassinato de Marielle Franco já mostrou do que os milicianos são capazes. E mais patética é a hashtag #DeportaGreenwald. O jornalista do The Intercept tem filhos brasileiros (sim, são seus filhos na letra da lei) e não seria deportado facilmente nem se tivesse cometido um crime. Mas não cometeu: só expôs a hipocrisia de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Pode-se até discordar das ideias políticas de Greenwald e Miranda: eu, por exemplo, estou bem mais ao centro do que eles. Mas não se pode por em dúvida o casamento dos dois, nem o fato de que tiraram dois meninos de um orfanato para criá-los com todo amor. Quem faz isto é  covarde. Mas desde quando a coragem é algo inerente aos bostominions?

terça-feira, 11 de junho de 2019

CINDERELA FLOP


Tem alguns filmes americanos que conseguem ótimas críticas, indicações a prêmios e bilheterias razoáveis, e mesmo assim não estreiam nos cinemas brasileiros. É o caso de "Oitava Série", disponível por enquanto apenas no streaming (ou em aviões - eu o vi no meu voo para Nova York). Trata-se um filme para adultos sobre a adolescência: é improvável que garotas da idade da protagonista Kayla queiram se ver desse jeito na tela. Elas preferem "Cinderela Pop". Isto não quer dizer que "Oitava Série" não seja otimista. Mas Kayla é um poço de inseguranças, e nossa vergonha alheia só aumenta quando ela grava vídeos de autoajuda para o YouTube que ninguém vê. Elsie Fisher está fantástica no papel, e concorreu ao Globo de Ouro de melhor atriz de comédia por ele. O ultracompetitivo ambiente escolar dos Estdaos Unidos funciona quase como uma casa mal-assombrada, repleta de terrores, e a gente só não sofre mais porque sabe que é só uma fase. Divertido, irônico e sem um pingo de pieguice, o longa de estreia do ex-youtuber Bo Durnham vale a pena. Até porque o diretor e a atriz irão longe.

IN-CHER-PTION

Queria muito ter visto "The Cher Show" porque, né, maricona. Mas minha agenda em Nova York estava tão corrida que o musical vencedor do Tony de melhor atriz ficou para uma próxima viagem. Pelo menos vi uma cena do espetáculo durante o ensaio e a cerimônia da premiação, quando as três Chers de diferentes idades cantam juntas e outras oito aparecem ao lado delas fazendo carão. A própria Cher não se fez de rogada e já se juntou algumas vezes a suas avatares da Broadway. Aí em cima temos as quatro cantando juntas no programa do Jimmy Fallon. E, logo abaixo, a original visita suas cópias no teatro e todas cantam juntas outra vez. É Cher dentro da Cher cercada por Cher acima da Cher. Até o ponto em que o mundo inteiro será composto por Chers, inclusive você e eu.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

TONY WENT TO THE TONYS

Estou fechando a mala em Nova York. Volto hoje à noite para São Paulo. A mala vai leve, não comprei quase nada. Mas a cabeça ainda está processando o turbilhão de informações dos últimos dias. Fui duas vezes ao Metropolitan Museum, abri a exposição de Burle Marx no Jardim Botânico e hoje ainda conferi a Bienal do museu Whitney. Também subi no Vessel: 16 lances de escada, cada um com 14 degraus. Revi dois amigos queridos. Fui a dois shows da Broadway. Participei de uma mesa-redonda transmitida pelo Facebook. Jantei no Sardi's, o lendário restaurante dos artistas. Andei a Hih=gh Line todinha. E ontem dediquei o dia inteiro aos Tony Awards. Fui ao ensaio geral de manhã e à cerimônia de entrega à noite, ambos no Radio City Music Hall. Depois teve uma festa no ex-hotel Plaza, hoje um flat mas ainda grandioso. Vou contar detalhes de tudo isso na minha coluna de quarta no F5, não "perda". E mesmo com uma agenda tão cheia, sinto que não fiz anda. Por mais tempo que se passe em Nova York, sempre sobra um bilhão de coisas por fazer. Como, por exemplo, subir ao novo World Trade Center. Já estou sonhando com minha próxima visita a essa cidade que até dorme, mas não acaba nunca.

DESMORONAMENTO

Não tem hacker nenhum. É praticamente impossível interceptar mensagens enviadas pelo Telegram - não é à toda que é o aplicativo favorito do Estado Islâmico e de outras organizações terroristas. Foi alguém do círculo íntimo de Sergio Moro, provavelmente um membro do grupo, quem vazou as conversas comprometedoras do ex-juiz com procuradores. A pergunta de um milhão de dólares: por que? Para acabar com suas chances de virar ministro do STF? Para sabotar, três anos antes, sua possível candidatura à presidência da República? Tenho amigos petistas que estão radiantes, achando que Lula vai ser solta e ainda indenizado. Não é bem assim: não há nada que inocente o ex-presidente. Só indícios cada vez mais fortes de que Moro não agiu com imparcialidade - o que, de resto, não foi surpresa para quase ninguém. Mas isto abalará a popularidade do ministro da Justiça? Entre os bolsominions, não. Essa turma não tem o menor respeito pelas instituições e acha lindo que um juiz aja de acordo com suas preferências políticas (contanto que bata com a dela, claro). A dúvida é como Moro fica entre os antipetistas moderados, que jair-estão-se-arrependendo. Vai desmoronar?

domingo, 9 de junho de 2019

TRANSBORDANDO DE ORGULHO


Fui ver meu segundo musical dessa temporada. Era uma matinê, e metade do teatro estava tomada por um público que não é tão frequente na Broadway: negros. Um pessoal que tem vindo em massa prestigiar o espetáculo sobre os Temptations, o grupo masculino de rhythm'n'blues de maior sucesso de todos os tempos. "Ain't Too Proud" tem uma montagem enganadoramente simples, sem cenários físico, mas com um uso inteligente de telões, esteiras e palcos giratórios - toda a glória da tecnologia. A trilha reúne todos os hits do grupo e mais uns tantos da gravadora deles, a lendária Motown. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi a energia masculina em cena. O elenco tem só quatro mulheres ao lado de 15 homens e no final eles surgem todos de terno e gravata, dançando com testoterona. As coreografias são complicadíssimas e o clima reinante no teatro lembrava o de uma igreja no Harlem: muito aplauso em cena aberta, muito grito, e no final a plateia toda de pé, algo bem raro fora do Brasil. "Ain't Too Proud" na verdade contradiz o próprio título, porque é um musical que celebra a cultura negra com todo orgulho possível. Justíssimo, aliás.

sábado, 8 de junho de 2019

BURLEMARXISMO CULTURAL

Abriu hoje, no Jardim Botânico de Nova York, uma grande exposição em homenagem a Roberto Burle Marx. Peguei o metrô para o Bronx e fui conferir logo de manhã. É de cair o queixo: a peça de resistência é um jardim tropical percorrido por um calçadão que evoca o de Copacabana. Quanto tempo levou para que as plantas todas crescessem e ficassem deslumbrantes? Também há uma estufa com muitas espécies brasileiras e de outros países que Burle Marx gostava de usar, inclusive algumas que levam seu nome. Além de um espelho d'água com plantas aquáticas e muitas plaquinhas com códigos QR, que fazem seu celular tocar música brasileira ou levam a testes tipo "que planta mais combina com você?" Para terminar, há uma pequena mostra do trabalho de Burle Marx como artista visual (ele fazia quadros, tapeçarias e litogravuras) e uma recriação do ateliê em seu sítio fluminense. Fiquei orgulhosíssimo de ser seu conterrâneo, mas também preocupado: o Brasil de hoje está entregue a uma idiocracia, empenhada em destruir o que sobrou do nosso meio ambiente. Como que um país que gerou um ecologista como Burle Marx desceu a esse ponto?

MUDANÇA DE GÊNERO


Uma das melhores comédias dos anos 80 virou um dos musicais mais engraçados de todos os tempos. A versão de "Tootsie" em cartaz na Broadway me fez rir alto, algo que não vem fácil para um sujeito blasé como eu. O roteiro do filme foi adaptado para os tempos que correm e está sensível a questões como o empoderamento feminino. A maior parte da ação também não se passa mais nos bastidores de uma novela de TV, mas nos ensaios de... um musical da Broadway. Mas o essencial continua lá: Michael Dorsey, um ator temperamental que gosta de brigar com os diretores, não consegue emprego de jeito nenhum. Aí ele descobre que há um papel para o qual não estão encontrando a pessoa certa; faz o teste e passa. Só que, claro, é um papel de mulher. E para isto ele tem que se tornar uma atriz de meia-idade da qual ninguém nunca tinha ouvido falar, Dorothy Michael. Segue-se muita confusão, com Michael/Dorothy se apaixonando por uma colega de elenco, e um outro colega de elenco se apaixonando por Dorothy/Michael. Tudo isso ao som de músicas memoráveis e atores fabulosos, dos quais quatro estão concorrendo ao Tony. Um deles é barbada: Santino Fontana faz a gente se esquecer de Dustin Hoffman, inclusive porque canta maravilhosamente bem nos dois gêneros. Acho que desde "Xanadu", há mais de dez anos, eu não me divertia tanto num musical.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

MUSICAL THEATRE IS NOT FOR SISSIES

Hoje de manhã eu participei, aqui em Nova York, de uma mesa-redonda animadíssima sobre teatro musical. Estavam lá o coreógrafo colombiano Sergio Trujillo, o ator mexicano Mauricio Martínez, a jornalista mexicana Susana Moscatel e o youtuber brasileiro Igor Saringer. Discutimos durante mais de meia hora a presença de latinos na Broadway (Trujillo e Martínez fazem carreira aqui) e a paixão que todos temos pelos musicais. É um gênero teatral tão puxado que Martínez até nos contou o bon mot que dá nome a esse post: teatro musical não é para mariquinhas. A íntegra da conversa pode ser vista aqui, neste vídeo na página do canal Film & Arts no Facebook. Vá deslumbrar-se com o meu espanhol.

DARK BALLET

Eu sempre sonhei em entrevistar a Madonna. Iria perguntar sobre suas influências e preferências atuais. Também contaria que a acompanho desde 1983 e que tenho todos seus álbuns. Ela me reconheceria como mais do que um fã: como um igual, alguém de quem ela poderia ficar amiga para sempre. Me convidaria para jantar e até para eu gravar um feat. com ela. Claro que se eu realmente pudesse conversar com ela aconteceria a mesma coisa que está se passando com Vanessa Grigoriadis, a repórter do "New York Times" que escreveu um longo artigo chamado "Madonna aos 60". Ela passou dias com a cantora em Londres, quase entrou em sua intimidade e a cobre de elogios em seu texto, de resto muito bom. Madonna odiou, claro. Foi ao Instagram dizer que se sentiu "esuprada" (um termo que ela usa para qualquer contrariedade que sofre) e que "morte ao patriarcado", porque, né? A real é que Madge é uma control freak desde sempre. E ter uma jornalista independente escrever o que quiser sobre ela, sem o crivo de um assessor de imprensa, deve ser crime de lesa-majestade em sua cabeça. Eu venero Madonna, mas perdi quase toda a vontade de me aproximar dela. Não tenho mais saco para essa dança macabra que ela faz com a imprensa.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

SINÔNIMO DE VIADAGEM


Lembra do Met Gala do mês passado? A festa também marca a abertura da exposição anual do departamento de vestuário do museu, sempre com o mesmo tema da festa. Que, em 2019, é o camp: um termo que a imprensa está pagando um dobrado para explicar para os leitores héteros, quando poderia simplesmente o sinônimo mais conhecido, "viadagem". A grande Susan Sontag escreveu em 1964 um ensaio que ficou famoso, "Notes on Camp", onde definia o termo como a artificialidade, o exagero, a cafonice transada. Mas é só viadagem mesmo, como fica claro desde o começo da mostra. Lá estão estátuas de Antínoo e retratos do Cavaleiro d'Eon, que viveu como mulher a segunda metade de sua vida. Também há registros do surgimento da palavra "camp" no pajubá inglês do século 19 - sim, já havia um mundinho gay naquela época. Acho que sempre houve. Somos antediluvianas.
Mas "Camp: Notes on Fashion" é, antes de mais nada, uma exposição de moda. Depois da intordução, o que tem é vestidos e mais vestidos, um mais divino, escandaloso e deslumbrante do que o outro (tirei muitas fotos e postei no meu Instagram, vai lá). Tem Saint-Laurent, Gianfranco Ferré, Moschino, Viktor & Rolf e muita coisa vintage - algumas, vitorianas. Tudo ao som de, claro, Judy Garland, quem mais? Senti falta de stage clothes de Madonna e Lady Gaga, sacerdotisas do camp, mas tá valendo. A ausência delas foi compensada por um remix de nove minutos do vídeo de "Deep in Vogue" do Malcolm McLaren, um ano mais velha que o "Vogue" da Madge. No YouTube só tem a versão normal, mas não falta viadagem. "Camp" fica em cartaz até 8/9: quem vier a NY não pode perder.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

TONY GOES TO THE TONYS

Há anos que eu venho ameaçando com um processo a American Theatre Wing pelo uso indevido da marca. Como assim, os prêmios da Broadway têm o meu nome e eu não recebo um dólar de royalties? Não importa que os Tony Awards existam desde 1947: eu quero a minha parte em dinheiro. Mas vou ter que me contentar só com uma viagem mesmo. A convite do canal Film & Arts, embarco daqui a pouco para Nova York, para cobrir a entrega dos Tonys no domingo à noite. Serão cinco dias intensos, com pouco tempo livre e muitas entrevistas com gente de teatro, culminando com a cerimônia no Radio City Music Hall. Ainda estou me beliscando, mas não com muita força que é para não acordar.

O PRAZER DE SE ESPATIFAR

Eu sei que está ficando monótono, porque todo dia o Mijair comete pelo menos uma barbaridade. Até pensei em não comentar as mudanças que ele propôs para o Código Nacional de Trânsito, mas consegui passar batido. A mais grave é não obrigar mais sua claque de caminhoneiros a fazer exame toxicológico: o uso de rebites e afins vai explodir, os acidentes irão aumentar e, mais cedo ou mais tarde, morreremos todos nas ferragens. Também vai ter bebê batendo a cabecinha e morrendo porque não estava na cadeirinha, bêbado atropelando velhinha e geral se arrebentando por aí. Ah, mas quer saber? Que se fodam. A única coisa que importa é o prazer de dirigir. Mais nada. O tiozão do churrasco que ocupa o Palácio do Planalto não tem nenhuma visão de estado mais sofisticada do que aliviar as próprias multas e as de sua família, talkei?