quinta-feira, 18 de abril de 2019

PODE SER A GOTA D'ÁGUA


Eu não tinha idade para ver a primeira montagem de “Gota d’Água”, um monumento da cultura brasileira na década de 70. Mas lembro de ler muito a respeito e ficar curioso: a peça de Paulo Pontes e Chico Buarque traz para a favela carioca o mito grego de Medeia, a mulher que trama contra o ex-marido a vingança mais terrível de todos os tempos. Bibi Ferreira, que já era uma atriz consagrada, galgou mais alguns degraus rumo à glória como Joana, a versão carioca da maior bitch da Antiguidade clássica. O impacto foi tão grande que, talvez por isto,  “Gota d’Água” tenha demorado tanto tempo para ser remontada. Mas finalmente foi, e de uma maneira que não compete com a memória do original. “Gota d’Água (a Seco)” é uma versão de câmara do primeiro espetáculo. Sumiram todos os coadjuvantes, restando só os dois protagonistas em cena: Joana (Laila Garin) e seu amado Jasão (Alejandro Claveaux), muitos anos mais novo do que ela e que acaba de trocá-la pela filha de um homem poderoso. O contraste entre eles seria mais nítido se a diferença de idade entre os atores fosse gritante, mas ambos dão mais do que conta do recado. Alejandro é lindo e canta direitinho, mas Laila é dona de uma das vozes mais potentes surgidas no Brasil recentemente. O diretor Rafael Gomes transformou a peça, que já tinha algumas músicas, em um musical para valer, enxertando canções que Chico Buarque compôs em outros contextos, mas que se encaixam na trama com perfeição. Há três anos em cartaz pelo país, “Gota d’Água (a Seco) acaba de reestrear em São Paulo para uma temporada de pouco mais de um mês no Teatro Porto Seguro. Quem nunca tinha visto esse marco – tipo eu – tem agora mais uma chance.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

SENTINDO FRIO EM MINH'ALMA


"Ayka" venceu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes do ano passado e esteve entre os nove pré-finalistas do último Oscar de filme estrangeiro, representando o Cazaquistão. É de fato bom, mas é só para masoquistas. Em uma hora e 40 minutos, o roteiro condensa cinco dias angustiantes na vida da personagem-título, uma imigrante cazaque que faz trabalhos degradantes em Moscou. A primeira cena já é uma porrada: Ayka simplesmente foge pela janela de uma maternidade, depois de ter dado à luz um bebê. Talvez elas devesse ter ficado lá, pois sua vida lá fora é um horror. Cobradores ameaçam machucá-la se ela não pagar logo uma dívida; o dono da pensão onde mora também quer os aluguéis atrasados; a polícia está sempre no encalço dos trabalhadores ilegais; e a pemrissão de trabalho de Ayka venceu faz um ano, o que a impede de aceitar até os empregos mais horrendos. Tudo isso sob um frio tremendo, com a cidade coberta de neve. O interessante é que a protagonista não é uma mártir, nem um exemplo de luta e coragem. Ela tenta fugir de suas responsabilidades, mas o longa de Sergei Dvortsevoy não a julga. A atuação contida de Samal Yeslyamova também é admirável, e só explode no final. Quem estiver num dia bom pode ir ver "Ayka", mas sabendo que irá sofrer. Quem não estiver, melhor ler jornal, que é mais leve.

O INIMIGO AGORA É OUTRO

A esquerda se refestelou com o artigo do José Padilha publicado pela Folha nesta quarta. Pouco mais de um ano depois da primeira temporada de "O Mecanismo", o diretor reconheceu que errou ao confiar em Sergio Moro. O então juiz serviu de modelo para o personagem de Selton Mello na série, mas não é de agora ele demonstra que não é incorruptível. Moro, que já havia pisado no tomate algumas vezes ao longo da Lava Jato, aceitou ser ministro da Justiça na esperança de primeiro aprovar aseu pacote contra o crime e, depois, tornar-se ministro do STF ou até presidente da República. Para iso, como Padilha bem mostra em seu texto, Moro engole sapos gigantescos e faz de conta que não vê as ligações do clã Mijair com as milícias cariocas. Setores mais estridentes agora exigem que Padilha "corrija" a primeira temporada de "O Mecanismo", mas eu estou mais curioso para ver o que ele fará na segunda. O cineasta de "Tropa de Elite" é um bicho raro no Brasil: não é macaca de auditório de ninguém, pois põe a ética acima da ideologi.

terça-feira, 16 de abril de 2019

O AMIGO DO AMIGO DA ONÇA

É senascional a estratégia do Dias Toffoli para ninguém ficar sabendo que ele foi apontado por Marcelo Odebrecht como sendo "o amigo do amigo do meu pai". O presidente do STF fez com que seu colega Alexandre de Moraes mandasse a revista online Crusoé e o site O Antagonista retirarem do ar a matéria que apenas relatava os fatos. Moraes acabou agindo como o Amigo da Onça. Graças a essa absurda censura, agora MUITO MAIS GENTE está lendo o artigo e sabendo que Odebrecht apontou o dedo para Toffoli. O pior é que o Supremo acaba dando munição aos seus inimigos, num momento em que até a Regina Duarte clama pelo fechamento da nossa mais alta corte. Mas, agora, está difícil defender esses ministros. E está fácil contrariá-los: basta ler aqui a matéria censurada, que foi republicada pelo Intercept Brasil.

OS MONSTROS TAMBÉM AMAM


E se os neanderthais ainda vivessem entre nós? Teriam os mesmos direitos que os sapiens? Essa questão existencial me assombra desde a adolescência e toma forma em "Border", o representante da Suécia na disputa pelo último Oscar de filme estrangeiro.  A protagonista Tina, a bem da verdade, não é uma mulher pré-histórica: está mais para um troll, uma criatura do folclore sueco que hoje se disfarça de bolsominion. Tina trabalha na alfândega de um porto e está sempre identificando os contrabandistas: seu olfato apuradíssimo, uma característica neanderthal, percebe que ela fareje o medo. Um belo dia ela ajuda a capturar um traficante de pornografia infantil. Também conhece um homem com suas mesmas características físicas (inclusive a cicatriz de um rabo nas costas), e aos poucos se envolve com ele. Essas duas tramas se misturam, mas o resultado fica aquém do prometido. Mas "Border" vale a pena pelo simples fato de que não se parece com nada. Ah, sim, e os neanderthais teriam os mesmos direitos que nós.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

FÓSSEIS VIVOS NÃO SÃO BEM-VINDOS

O Museu de História Natural de Nova York é um lugar sagrado para a ciência e famoso por suas ossadas de dinossauros. Não fazia mesmo o menor sentido que esse santuário recebesse um jantar em homenagem a Bolsonaurus Minimus, um réptil antediluviano que escapou de extinção. O Bozo é um notório inimigo do conhecimento, haja vista os cortes que vêm fazendo nas pesquisas e seu apoio aos evanjas criacionistas. Que a Câmara de Comércio Brasil Estados-Unidos realize seu rega-bofes anual em local mais apropriado, tipo a sede da Ku Klux Klan. O mais legal é que, depois desse cancelamento e das críticas do prefeito Bill De Blasio ao presidente brazuca, já tem minion convocando boicote a Nova York pelas redes sociais. Isso mesmo, garotada, asustem a cidade mais importante do mundo com a fúria das suas hashtags.

NOSSA SENHORA DE TODOS NÓS

Certa vez, há muitos anos, fiz uma excursão de dia inteiro à Catedral de Chartres, a cerca de 90 km de Paris. É uma obra-prima da arquitetura gótica e um ds mais belos templos do mundo. Alguns dias depois, voltei à Catedral de Notre-Dame, na capital francesa, que eu já conhecida de outras viagens. E caí para trás. Que mané Chartres, que nada.  Talvez o Duomo de Milão seja até mais bonito por fora, mas nada se compara ao interior da igreja que serviu de palco para o romance entre Quasímodo e Esmeralda. Por isto, hoje estou rezando a todos os deuses para que este incêndio horroroso acabe logo e poupe muita coisa. Também acredito que tenha sido só um acidente, e não um atentado islâmico, como já tem afobado urrando nas redes sociais (Jesus e Maria são venerados no Islã). Porque a Notre-Dame, dada sua importância histórica, sua beleza icônica e sua presença na cultura popular, não é só de Paris. É do mundo inteiro, e é de todo mundo.

domingo, 14 de abril de 2019

A PONTE DOS SUSPIROS


Nunca vi o "Suspiria" do Dario Argento, um clássico do terror dos anos 70 que dizem ser um delírio psicodélico. Mas li que Luca Guadagnino acrescentou muita coisa em seu remake que não constava do original. Referências ao nazismo, ao Baader-Meinhof e até um personagem novo - um psicanalista idoso que só um tapado não percebe que é feito pela Tilda Swinton. Nenhuma dessas novidades melhor a história em si, que já não era grande coisa: mocinha americana entra para uma companhia de balé em Berlim e descobre que são todas bruxas. Ponto. Guadgnino tenta racionalizar o que era uma experiência estritamente sensorial, e só traz complicações desnecessárias. Logo ele, que fez filmes quase táteis de tão sensuais como "Eu Sou o Amor" e "Me Chame pelo Seu Nome". Portanto, deixe o cérebro de lado e se entregue a essa doideira. Tilda está fabulosa como um arremedo de Pina Bausch, coadjuvada por um elenco cheio de grandes atrizes europeias de uma certa idade. E Dakota Johnson mostra que tem muito mais do que 50 tons em seu repertório. "Suspiria" marca um desvio de rota na obra guadagniana. Vamos ver se ele continua por essa ponte ou se logo retorna às tramas intensas em mansões elegantes.

sábado, 13 de abril de 2019

OH MY MY MY

O K-Pop me pegou. Desde ontem que eu ouço sem parar "Boy With Luv", do BTS feat. Halsey. É pop pré-fabricado em estado puro, com as mesmas propriedades nutricionais do algodão doce sabor banana enlatado que eu comprei no mercado coreano. Também estou fascinado com a viadagem generalizada: eles sequer fingem, e as mina pira. O vídeo, inclusive, para no exato momento em que vão tirar a roupa e começar uma suruba. Mas é de uma energia contagiante, e é disso que eu preciso neste fim de semana do Songkran, o réveillon tailandês. Para quem não liga o nome à pessoa: a primeira lua cheia da primavera no hemisfério norte marca o início da estação das chuvas por lá, e as pessoas comemoram jogando água umas nas outras no meio da rua. Em 2018 eu festejei em Chiang Mai e foi um chuá.  Portanto, jogue água em quem você ama, e feliz ano novo.

A DOR DO JEAN

Eu tentei ver a entrevista do Jean Wyllys ao Pedro Bial na madrugada de quinta para sexta, mas soçobrei. A Globo inventou uma porra de "Festival Zorra", e o resultado é que esta semana o "Conversa Bial" entrou no ar quando o primeiro galo já estava cantando. Só hoje consegui assistir ao programa, e não foi uma experiência agradável. A dor do Jean transborda da tela. Se eu mal aguentei ver até o fim, não consigo nem imaginar o que ele passou nos últimos anos, quando até gays supostamente esclarecidos o transformaram em saco de pancada. O próprio Jean quer entender a sua estranha trajetória , de vencedor do "BBB 5" em 2005 a inimigo público no. 1 em 2018. É surpreendente como as fake news espalhadas pelo Bozo colaram com facilidade nele. É como se aquela turma que não gosta de assumir a própria homofobia só estivesse esperando uma mínima justificativa para deixar aflorar seus preconceitos - no caso, a alegação de que Jean é pedófilo e/ou defende a pedofilia, uma calúnia a céu aberto. Ainda acho que muito do que aconteceu com ele foi por decorrência de sua aparência: magro, baixinho, sem se enquadrar nos padrões vigentes, Jean Wyllys tem o physique du rôle do garoto que apanha de todo mundo do colégio (seu suplente David Miranda, que é atlético, bonitão e pai de família, deve escapar da mesma sina). Temos uma dívida eterna com Jean Wyllys, e ele deve ser recebido com fanfarra e tiara de flores quando voltar ao Brasil. Talvez algum dia o mereçamos outra vez.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

PRIMINHO TÁ BEM?

Fernando Haddad foi ou não foi homofóbico? Acho a questão complexa e interessante. A primeira coisa que me salta aos olhos é a vontade do PT de emular a agressividade da extrema direita nas redes sociais. O paritdo gastou muito tempo e dinheiro treinando suas tropas virtuais, que foram pulverizadas sem deixar traço pelo rolo compressor dos bolsominions. Mas vamos ao cerne da pergunta. É válido jogar esta carta na mesa? Depende. Se o Carluxo for um gay enrustido, não vale. Ninguém merece ser arrancado à força do armário. Com uma única exceção: se o Carluxo for homofóbico, sua hipocrisia precisa ser exposta à luz do dia. Mas aí entram duas variantes. A primeira: o 02 é gay mesmo? Temos fotos sugestivas, declarações de apreço e muita fofocaiada, mas falta aquilo que o Agildo Ribeiro chamava de "fotocópia da bunda". Eu não posso dizer por a+b que o Carluxo seja do Vale, não tenho provas definitivas (alguém aí tem?). A segunda variante: Carluxo é homofóbico? O 03 nós sabemos que é, pois já fez campanha nas redes dizendo que todo pedófilo é gay e vice-versa. Já o 02 tem um bonito discurso defendendo a diversidade, em uma das poucas vezes que ele abriu a boca na Câmara de Vereadores do Rio. Mas a família como um todo é pré-medieval, e jamais um de seus membros discordou do outro em público. Carluxo pode ser acusado de homofobia por osmose? Alguém aí teria um exemplo dele atacando as guei? De qualquer forma, é meio desalentador ver um homem refinado como Haddad se rebaixando ao nível de seus oponentes. E aí surge uma outra questão: será que a única maneira de derrotar a boçalidade é se tornar um boçal também?

quinta-feira, 11 de abril de 2019

VIVA A LIBERDADE DE OFENDER

escrevi sobre o assunto no F5, mas vou me estender por aqui. Estou surpreso com a quantidade de gente boa que está festejando a condenação do Danilo Gentili a quase sete meses de cadeia, em regime semiaberto. Não que eu seja fã do cara: acho um escroto de marca maior. A voz mais representativa da classe média jovem, branca, heterossexual e direitista. Na verdade, se fosse só isso, tava bom: o problema é que Gentili joga seus seguidores contra seus desafetos (contra mim foram duas vezes), e um dia alguém pode se machucar de verdade. Mas, por enquanto, foram só ofensas dignas da quinta série. Acho até razoável a Maria do Rosario entrar na Justiça, mas querer calar Gentili à força é coisa digna do regime... cubano. Ou do nazista, que era de direita. No frigir dos ovos, não dá para torcer para que só nossos adversários paguem caro por seus crimes. Esta pena desproporcional abre o precedente para que, amanhã ou depois, o Carluxo consiga prender alguém que faça piadas sobre ele e o Leo Índio, alegando que lhe ofenderam a honra e coisa e tal. Mais ponderação e menos punitivismo, pessoal: a liberdade de expressão envolve, sim, uma certa liberdade de ofender. Se todo mundo só proferisse delicadezas, ela nem seria um direito necessário.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

DONIRENIS TARGARYEN

A gente mal se recuperou do áudio do Seu Armando -  que não é fake, é arte - e já tem um novo meme nas paradas. É este comercial da rede de supermercados Queiroz, do Rio Grande do Norte. A Danaerys é feita pela humorista dona Irene, a garota-propaganda da marca. Vou comprar pro meu bichinho.

A VERDADE VEM À TONA


Ontem a Folha promoveu em São Paulo uma sessão especial de "Boy Erased - Uma Verdade Anulada". Como se sabe, o filme tinha sua estreia no Brasil prevista para janeiro. Chegou a ter trailer legendado e poster nos cinemas, mas a Universal cancelou o lançamento na última hora. A distribuidora alegou razões econômicas, mas pegou mal pacas: ficou com cara de, no mínimo, autocensura. Seria uma submissão ao "menino veste azul, menina veste rosa", um slogan oficioso do novo governo? O próprio Bozo disse no Twitter que não tinha nada a ver com isto. De qualquer forma, a Universal merece o prêmio Anti-Top de Marketing. Não aproveitou a comoção em torno do cancelamento para fazer um lançamento ainda que pequeno, e prejudicou seriamente a própria imagem. Na semana que vem, "Boy Erased" sai em DVD por aqui. Eu mais que recomendo: o longa é ainda melhor do que eu esperava. Adaptado de um livro autobiográfico, o roteiro trata de um adolescente criado em uma família evangélica. Quando ele admite que sente atração por outros rapazes, o pai pastor não tem dúvidas: despacha o moleque para uma clínica de "cura gay", onde ele sofre o diabo. Mesmo tendo como companheiros de pena ninguém menos que Troye Sivan e Xavier Dolan - apenas o cantor gay e o cineasta gay mais relevantes da atualidade. Lucas Hedges está fantástico, mais uma vez, comprovando que é mesmo um ator com uma longa carreira pela frente. Nicole Kidman e Russell Crowe, em papéis coadjuvantes, também brilham, mas a grande supresa é mesmo o Flea do Red Hot Chilli Peppers. Sem falar no diretor Joel Edgerton, que também interpreta o diretor da clínica - há uma surpresinha sobre o personagem nos letreiros finais. "Boy Erased" só traz verdades.

E por falar em verdade, eu me envolvi sem querer num mal-entendido. Houve um sorteio de brindes antes da sessão. Cinco espectadores ganhariam o livro  original e o DVD do filme. Eu estava sentado justamente em uma das cadeiras contempladas, mas recusei o prêmio. Como sou colaborador da Folha, achei que não seria ético eu levar os brindes. Dei tudo para o sujeito sentado ao meu lado, que falava ALTO e parecia muito empolgado com o sorteio. Mais tarde, no debate que seguiu a sessão, esse cara fez um monte de perguntas impertinentes, interrompendo os demais. Um chato de galochas. Hoje fiquei sabendo que muita gente pensou que ele fosse o meu marido, e que eu simplesmente teria dado o prêmio para ele. Ou seja: eu quis dar uma de bacana, desperdicei meu brinde com um babaca e ainda fiquei mal na foto. A minha verdade foi anulada!

terça-feira, 9 de abril de 2019

OUSE SONHAR

Agora é oficial. Depois de algumas semanas de especulação, ontem foi confirmado que Madonna se apresentará na final do Eurovision, em Tel Aviv, no dia 18 de maio. Mas será que vai mesmo? A imprensa de Israel diz que Madge cantará duas músicas, uma nova e uma antiga, e que uma delas incomodou a organização do festival. Será "Indian Summer", cujo clipe ela gravou em Portugal e que deve ser o primeiro single do próximo álbum? Também corre que a Rainha Né Mores gravou um vídeo de viés político, que também teria irritado os israelenses. Só que o cachê de um milhão de dólares cobrado pela diva será pago por um empresário que luta contra os boicotes a Israel: só de aceitar essa grana, Madonna estará endossando a anexação dos territórios palestinos? Ousemos sonhar que não é bem assim, e que ela emprestará seu prestígio ao evento mais cafona do mundo. Ousemos sonhar ainda mais: que o novo trabalho não se chame "X", como levam a crer esas postagens no Instagram. Este título já foi usado por Kylie Minogue em um disco de 2007. Rainha não copia as súditas.

FODA-SE AS LEIS E TODAS AS REGRAS

Anotem o que vou dizer agora: o bozoarismo cairá porque não é um movimento orgânico. Não é como o petismo, que levou décadas para construir sua militância. Aposto que mais da metade da corja que hoje surfa na onda da extrema-direita está lá por puro oportunismo (e falta de caráter, é óbvio). Um sujeito que fazia filme pornô de repente é contra as obras de arte "imorais"? Uma jornalista que postava tuítes contra o golpe de 64 de repente adere a ele? Mas nenhum caso é mais engraçado do que o de Ana Campagnolo, eleita deputada estadual em Santa Catarina depois de posar com armas e fazer campanha para os alunos filmarem seus professores esquerdistas. Alguém finalmente vasculhou o Twitter da carreirista, e descobriu que, em 2012, ela defendia as delícias da maconha e a vontade de enriquecer sem trabalhar. A moça correu para deletar sua conta (como se assim fosse possível apagar o passado) e já abriu outra, onde só está ganhando comentários negativos. É só mais uma hipócrita, que fingiu ser conservadora e cristã para ser eleita - e assim, wuhuu, enriquecer sem trabalhar. Uma deputada estadual que pode te prejudicar.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

OITENTA TIROS

A notícia mais chocante do dia deveria ser a troca do ministro da Educação: sai um celerado que não é do ramo nem entende picas de gestão, entra um celerado que também não é do ramo mas entende um pouquinho. A crise entre olavistas e militares vai continuar, e não se iludam sobre quem vai sairá vencedor. Afinal, quantas tropas mesmo tem o ex-astrólogo? Mas, se os milicos são o fio-terra da racionalidade desse desgoverno que vivemos, hoje eles têm muito a responder e a nos pedir perdão. Porque o assassinato de Evado Rosa dos Santos no Rio de Janeiro não é aceitável em hipótese alguma. Não há engano que justifique 80 tiros de fuzil sobre um carro: só há o racismo e a truculência de quem acha que arma é solução para tudo. Os 12 militares já presos precisam ser sumariamente defenestrados do Exército. Caso contrário, a cúpula das Forças Armadas estará endossando mais essa selvageria.

SÓ A CABECINHA


O embate entre Mary Stuart e Elizabeth I já foi contado tantas vezes que fica difícil encontrar um novo ângulo. A saída encontrada por "Duas Rainhas" foi rejuvenescer as atrizes. Nem Saoirse Ronan nem Margot Robbie já fizeram 30 anos, e cá estão elas representando papéis que costumam ser dados a grandes damas do teatro em língua inglesa. Levando em conta que a trama para quando Mary é presa por Elizabeth, aos 25 anos, até que faz sentido. Depois há um salto para a execução da rainha da Escócia, quase 20 anos depois, mas deixaram que Saoirse mantivesse sua carinha serelepe. A pobre Margot, tida como uma das beldades do cinema atual, teve pior sorte: sua cútis angelical foi coberta por camadas de pancake e pústulas de varíola, eca, num dos mais impressionantes trabalhos de maquiagem que eu já vi. A beleza das imagens ajuda a contar histórias, repleta de detalhes tediosos que significam pouco para quem não foi à escola na Grã-Bretanha. A diretora Josie Roarke, vinda do teatro, também opta pela escalação de elenco color blind: há atores negros e orientais em papéis de cortesãos britânicos do século 16, e foda-se. "Duas Rainhas" era tido como um dos pesos-pesados do último Oscar, mas só emplacou duas indicações técnicas e não converteu nenhuma. Talvez por isto só esteja sendo lançado por aqui em abril, quando a poeira da temporada de prêmios já baixou. É uma experiência suntuosa, que vale a pena mesmo sabendo como termina o choque entre essas duas mulheres.

domingo, 7 de abril de 2019

JÁ COMEU KIMTCHI?

Gostei do kimtchi só pela descrição, sem nem ter provado: picles de acelga, bem apimentado. Aí provei em um supermercado de Bangkok no ano passado, e confirmei minha suspeita. É mesmo muito bom. Voltei decidido a comprar a iguaria em alguma loja coreana de São Paulo, mas levei um ano para por a intenção em prática. Ontem finalmente fui ao Otugui, no Bom Retiro, e pirei o cabeção, Levei não só kimtchi como também shoju, temperos e até Dr. Pepper Cherry, que não é da Coreia mas é bom pacas. Também fiz uma cesta com alguns produtos, para dar de aniversário a um amigo. Só quando cheguei em casa é que me toquei: esqueci da carne de cachorro!!

sábado, 6 de abril de 2019

VOCÊ PINTA COMO EU PINTO?


Depois de três filmes, dá para sacar qual é a do diretor argentino Gastón Duprat. "O Homem do Lado" falava de arquitetura.;"O Cidadão Ilustre", de literatura; e o atual, "Minha Obra-Prima Maestra", de pintura. Duprat discute não só o que é arte, como também a maneira de avaliá-la. Fama e grana sempre estiveram perto de seus personagens, mas em "Obra-Prima" elas estão no centro da história. Que poderia ser assinada por Banksy: um galerista de Buenos Aires finge a morte de um dos artistas que representa, para que os preços de suas obras disparem. A dupla de vigaristas é feita por duas lendas do cinema argentino, Guillermo Francella e Luís Brandoni, e a química entre ambos faz crer mesmo que sejam amigos de décadas. O longa não é uma obra-prima feito "O Cidadão Ilustre", mas o bom roteiro honra a tradição dos nossos vizinhos. Vale o preço do ingresso.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

NÃO NOS REPRESENTA

Douglas Garcia cometeu estelionato eleitoral? Seus eleitores continuariam votando nele se soubessem que ele é gay? Talvez: a extrema direita ama de paixão quando um de seus perseguidos adere a ela. Acham que isto prova que quem reclama é mimizento. Dessa maneira, figuras bizarras como Douglas e o Fernandinho Feriado só ajudam seus (nossos) inimigos. O deputado estadual do PSL faz uma burrada maior ainda ao dizer que o movimento LGBT "não o representa". É graças a esse movimento, que sempre teve travestis e transexuais na linha de frente, que ele talvez não leve porrada na rua. Já sua transfobia me parece uma mistura de oportunismo político (ele quer agradar os celerados de sua base) com ignorância pura e simples. Douglas Garcia tem 25 anos, vem de uma família evangélica de uma favela barra pesada e a direita lhe pareceu um jeito de consertar o mundo. O convívio com Erica Malunguinho pode lhe fazer bem. Na entrevista que ele deu à Folha, Douglas soa como um rapaz que ainda está permeável a novas ideias. Por outro lado, também foi ao Twitter dizer que, agora que saiu ao armário (por ter sido ameaçado de ter um vídeo de sexo divulgado e levado um pito da Janaína, bem feito), sua primeira medida para combater a homofobia vai ser propor ao Mijair a facilitação do porte de armas (que sacada, o despreparado nunca tinha pensado nisso). Aí sou eu quem vai comprar um revólver. Tem cada vez mais gente que merece ser abatida a tiros.

O CAVALO DE TROYE

Uma das vantagens do home office é deixar a televisão ligada enquanto a gente trabalha. Costumo sintonizar na Globo News, mas hoje mudei para o canal Bis por causa do Lollapalooza: queria dar uma espiada no Troye Sivan. E me surpreendi não com o show em si, que não tem nenhum efeito cênico além do próprio cantor, mas com o público, que sabia todas as músicas de cor. Claro que metade era biba, mas a outra era de mulheres louquinhas por esse garoto. E fiquei me perguntando: será que se eu tivesse ido um ídolo abertamente gay (Freddie Mercury não era) na adolescência, eu teria saído do armário mais cedo? 

quinta-feira, 4 de abril de 2019

EMMA-EMMA-EMMA


"Um Ato de Esperança" começa como um filme de tribunal. Uma juíza durona precisa (Emma Thompson, em seu melhor papel em anos) decidir se um rapaz com leucemia pode receber uma transfusão de sangue. O problema é que nem ele nem os pais querem: são todos Testemunhas de Jeová. Mas o roteiro de Ian McEwan, baseado em seu próprio livro, vai além da discussão sobre lei e moral. A juíza é tão focada em seu trabalho que seu casamento está indo pras picas, e ela não consegue mais sair do mode on profissional em nenhuma situação. O final precisava de uma catarse mais intensa para calar fundo, mas a ausência de sentimentalismo também é bem-vinda. De vez em quando, é bom ver um filme feito só para adultos.