sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

NASCE OUTRA ESTRELA


"Wild Rose" estreou no Brasil no começo de outubro, mas eu nem liguei. Estava chegando de uma viagem a Los Angeles e prestes a mergulhar no turbilhão da Mostra de Cinema, e o filme não era dos mais badalados. Mas agora me senti compelido a vê-lo no avião, depois que a atriz Jessie Buckley foi indicada ao BAFTA de melhor atriz. A moça está por aí há tempos e participou até de "Chernobyl", mas eu só reparei nela em "Judy", onde ela faz uma funcionária de nighclub. Esse papel discreto não me preparou para o tour de force que ela dá em "As Loucuras de Rose", o título infeliz que este bom filme ganhou por aqui. Jessie faz uma doidivanas que sonha em ser cantora de country music. Depois de um ano em cana por causa de tráfico de heroína, ela tem que encarar os dois filhos pequenos que ficaram com a mãe e a dificuldade em assumir qualquer responsabilidade. Enquanto isto,  solta o vozeirão em bares e durante a faxina que faz na casa de uma família rica. E que voz: de dar inveja a Lady Gaga, com quem Jessie guarda uma certa semelhança (só que é mais bonita). Num ano mais fraco, ela teria sido indicada ao Oscar, mas é só questão de tempo. Rodado que sou, eu reconheço uma estrela de longe.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

RENOVAÇÃO DE INTERIORES

Em janeiro de 1971, quase 50 anos atrás, eu saí do Brasil pela primeira vez. Estava indo à Disneylândia, junto com minha mãe e algumas amigas dela com filhos na faixa dos 10 anos de idade. Mas nossa primeira parada foi Miami. E o primeiro hotel no exterior onde me hospedei na vida foi o Nautilus, na avenida Collins, em Miami Beach. Hoje passei por lá e me surpreendi   dele ainda existir, com o mesmo nome e a mesma aparência. Mas, por dentro, passou por um retrofit e virou um design hotel. Agora é tudo lindo e moderno. O mesmo aconteceu comigo. Eu também ainda existo, também mantenho a mesma aparência, mas estou com o interior totalmente renovado. 

JÁ COMEU TRES LECHES?

Tres leches é um bolo úmido muito popular em todas as margens do Caribe, da Flórida à Venezeula, que leva leite normal, leite condensado e creme de leite. Eu já havia comido durante meus périplos pela América Latina, mas nessa viagem a Miami tive uma revelação. Tres leches é a melhor coisa do mundo. Experimentei duas versões gourmet, e achei que tinha sido absolvido dos meus pecados. O troço é um exagero de cremosidade, e eu precisei me controlar para não devorar um inteiro. Claro que só de olhar engorda. Você mesmo já engordou, só de olhar para essa foto (que não faz jus aos que eu comi), mas foi por uma boa causa.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

ME IGUANA QUE EU GOSTO

Você acha que tem problemas? Aqui no sul da Flórida, a frente fria que derrubou a temperatura também está derrubando as iguanas das árvores. Como todo réptil, as bichinhas têm sangue frio, e ficam paralisadas quando os termômetros caem a 12.C, como na noite de ontem. Mas é só dar uma aquecida que o metabolismo das iguanas volta ou normal. Aquecendo mais, pode acrescentar batatas.

OPERAÇÃO VAZA-VALDO

Agora não passa uma semana sem que alguém do governo Biroliro - ou ligado a ele de alguma forma ataque - as bases da nossa democracia. Um desembargador carioca tenta reinstituir a censura com uma canetada; um secretário solta declarações nazistas e joga a culpa no diabo. O último alvo é Glenn Greenwald, numa quebra indisfarçável das garantias constitucionais. Só em países autoritários que jornalistas são culpados pelas notícias que divulgam. O mais chocante é ver babacas felizes com isto, só porque Verdevaldo mostrou que o Moro não é o herói que eles imaginavam. É por isto que eu defendo a volta de uma matéria chamada OSPB - Organização Social e Política Brasileira - ao currículo do 1o. grau. Essa turma não faz a menor ideia do que sejam instituições.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

BYE BYE NAI NAI


Consegui ver no avião para Miami um filme que estava há meses na minha lista: "The Farewell", uma comédia dramática que estava cotada ao Oscar e acabou não sendo indicada para nada. Pelo menos, a protagonista Awkwafina ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz em filme cômico - mas nem isto animou os distribuidores a lançar o filme no Brasil. Talvez porque o elenco inteiro seja de origem asiática e 70% dos diálogos sejam em chinês? Talvez o espectador médio só tenha espaço para um longa oriental por ano, e esta vaga foi preenchida por "Parasita". Uma pena: apesar da distância cultural, "The Farewell" conta uma história que toca fundo. O roteiro é baseado em uma prática comum na China: quando uma pessoa é desenganda pelos médicos, os parentes não contam a ela que tem pouco tempo para viver. Assim poupa-se mais sofrimento, acreditam. Mas isto vai contra a cabeça ocidental de Billi, criada nos EUA  mas ainda muito apegada à avó que ficou em Beijing. Ela viaja com os pais sob o pretexto de um casamento, mas estão todos indo ver a vovó pela última vez - ou nai nai, como eles a chamam. Não dá para ser mais básico do que isso, mas a diretora Lulu Wang cria um filme sofisticado, com excelente uso de trilha sonora e uma edição que nunca resvala para a pieguice. Tomara que "The Farewell" chegue logo ao Brasil, via streaming ou mesmo download ilegal. Em casos como este, a pirataria está liberada.

MIAMI ICE

Buenos días desde Miami, la capital de Latinoamérica. Cheguei hoje de manhã e fico até quinta à noite. Vim cobrir o NATPE, uma feira de TV, a convite da Turner. São menos de três dias, mas não me importo: Miami não tem aquela oferta cultural de Nova York, então não fico na pilha de estar perdendo muita coisa. Talvez um mergulho no mar, mas o tempo não está ajudando. Hoje a mínima vai ser de 16 graus, podendo cair a 13 de noite. Culpa da Greta e do Leonardo, claro.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

NOT TODAY, SATAN

Ainda não cheguei a uma conclusão quanto ao Roberto Alvim. Trata-se de um nazista de verdade? Um reles aproveitador? Um desequilibrado mental? Mas não tenho dúvidas de que ele sabia exatamente que a frase, a encenação, a música, tudo remetia ao 3o Reich. Será que ele achou que ninguém ia perceber? A extrema direita passou o fim de semana suspeitando de que os malvados  assessores esquerdistas de Alvim teriam armado uma arapuca para ele. Também duvidaram que um jornalista brasileiro teria a capacidade de idetificar as palavras de Goebbels - logo, foi algum jornalista que plantou elas lá e depois deu o alarme. Hoje Alvim livrou a cara de sua equipe e admitiu que foi ele quem escolheu tudo. Mas deu um jeito de jogar a culpa, veja só, em Satanás. Não duvido nada, mas acho que o demo entrou faz tempo nessa história. No momento em que o agora ex-Secretário da Cultura jogou no lixo sua reputação e passou a bajular Biroliro, este sim o verdadeiro Filho das Trevas. Dava uma bela ópera.

VIDAS PARTIDAS


Sempre fui contra a Partição da Índia: a divisão em 1947 da antiga colônia britânica em duas nações, Índia e Paquistão, que se tornaram inimigas desde o primeiro minuto. Com imensa maioria muçulmana, o Paquistão virou um país conturbado que serve de abrigo para terroristas. A Índia, onde os hindus são maioria mas que ainda tem 200 milhões de muçulmanos, se deu melhor, mas o atual primeiro-ministro Modi está tentando transformar o país em um estado autoritário, de forte teor religioso. Como ainda sou ingênuo, prefiro acreditar que a Índia seria rica e poderosa se não tivesse se fragmentado. "O Último Vice-Rei", filme britânico que acaba de chegar à Netflix, levanta uma hipótese polêmica: Churchill quis criar o Paquistão para afastar as fronteiras indianas da então União Soviética. Os historiadores dizem que não há documentos que comprovem a teoria, mas isso não diminui o interesse do filme da diretora Gurinder Chadha. Mas Lord Mountbatten, o tal do vice-rei encarregado de supervisionar o processo de independência, não se parece nada com o ator Hugh Bonneville ("Downton Abbey"). E o roteiro ainda encaixa uma história de amor meio forçada, para ficar menos árido e mostrar o efeito danoso da Partição na vida do povo. Mas serviu para o domingo à noite.

domingo, 19 de janeiro de 2020

TRIPA ADVISOR

Fui ao Rio no meio da semana passada para o lançamento de uma novela da Globo e acabei sabendo só de orelhada a treta sobre venda de órgãos. Quando me dispus a escrever sobre o assunto, estourou a bomba nazista do Roberto Alvim. Foi até bom, porque me deu tempo de ler mais sobre o assunto. Só que não cheguei a nenhuma conclusão absoluta. Proibir que as pessoas vendam seus órgãos não-vitais é como proibir o aborto ou a maconha: quem estiver muito a fim, vai conseguir. Tem um cidade em Minas (não me lembro qual) onde muita gente viajou para a África do Sul para vender um rim e faturar uma grana. O problema desse comércio é incentivar o crescimento de algo que já existe e é apavorante: o roubo de órgãos, vitais ou não. No fiml, tendo a me aproximar do Joel Pinheiro da Fonseca, que detonou essa polêmica graças à ressurreição de um texto seu de 2015, com o qual ele nem concorda mais. Joel pesou prós e contras em um fio no Twitter, e tampouco deu o debate por concluído. Prefiro recolher minha colher e ouvir quem é do ramo: os profissionais da saúde, que dizem que o maior problema não é a falta de órgãos e sim a falta de pessoal treinado para fazer transplantes. E rio do apelido que o Joel ganhou, que dá nome a este post.

QUE DÓ, A FORMIGUINHA


Essa minha obsessão por ver todos os filmes inscritos por seus países no Oscar Internacional, hein? Vou te contar. Ela me leva a assistir coisas ótimas como "Buoyoncay, da Austrália, que passou na Mostra. Mas também me empurra para títulos que não fazem nada meu gênero, tipo "O Despertar das Formigas". Trata-se do primeiro filme da Costa Rica que eu vejo na vida, mas não há nada nele que me faça identificar sua origem. A trama é batida, embora ainda necessária: uma mulher casada e com duas filhas sente-se oprimida pela rotina de esposa e mãe, mas não sabe como se libertar porque ama muito sua família. O símbolo de sua opressão são os cabelos compridos, que o marido adora mas que a fazem derreter de calor. Para piorar, formigas começam a pulular em volta dela: no chão, no chuveiro, subindo pelas pernas. Uma metáfora para o desejo sexual, que ela deixa de reprimir? O surgimento da consciência? Tudo isso é lindo, mas a diretora Antonella Sudassassi é adepta daquele estilo naturalista, sem música ou firulas de câmera. Valeu pelo aspecto antropológico, e para ticar a Costa Rica na lista.

sábado, 18 de janeiro de 2020

ÁGUAS TURVAS

Parece que nenhuma desgraça é pouca para o Rio de Janeiro, pelo menos até o dia em que a cidade aprenda a escolher seus governantes. Três causas possíveis me ocorreram para a água suja que jorra das torneiras da cidade:

1) INCOMPETÊNCIA
Nossa velha conhecida, tão brasileira quanto o jeitinho e a jaboticaba. A barbeiragem pode ser inercial, mas também pode ter sido provocada pelo governador Wilson Witzel: ele demitiu técnicos importantes da CEDAE, e colocou gente desqualificada no lugar. Êêê Brasil.

2) GANÂNCIA
Witzel teria colocado gente desqualificada de propósito. Desta forma, cria-se uma grita contra a empresa pública e abre-se o caminho para ela ser privatizada. Aliás. WW já avisou que quer vender a CEDAE.

3) SABOTAGEM
Crivella foi a Brasília esta semana, para confabular com Biroliro. O alcaide quer ajuda federal para se reeleger. O Bozo pode ter exigido uma contrapartida: "envenene a água dos cariocas! Assim a gente liquida o Whitney de uma vez por todas e enterra a investigação para cima do Zero-Um".

Todas as três hipóteses são plausíveis. Todas são assustadoras.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

A QUE FOI SEM NUNCA TER SIDO

Que dia bizarro. Essa patacoada do Roberto Alvim descambou num convite para Regina Duarte assumir a Secretaria Especial da Cultura. Claro que podia ser pior: pelo menos a atriz é do meio, ao contrário da fanática da Opus Dei que foi para a Ancine. Além do mais, o direitismo de Regina não é de raiz. Ela só se tornou reacionária depois de se casar com um rico fazendeiro, desses que defendem menos terra para os índios. Mas a ex-namoradinha do Brasil também já deu sobejas mostras de que não entendeu porra nenhuma de "Malu Mulher" e outros trabalhos que fez. Agora ela diz que está seriamente tentada a aceitar o posto. Alguém já avisou a Regina que ela vai ter que sair da Globo? A própria emissora não deixa que seus contratados exerçam cargos públicos (e, cá entre nós, vai adorar se livrar de uma figura detestada por boa parte do elenco). Regina não precisa do dinheiro: ganha bem desde os 18 anos de idade, e ainda tem o maridão a lhe garantir a aposentadoria. Mas vai abrir mão do gordo salário que recebe todo mês, mesmo quase não tendo trabalhado nos últimos 10 anos? Suspeito que, em relação ao convite do Bozo, ela vá dar uma de Viúva Porcina, famosa pelo título deste post.

COMIGO ME DES-ALVIM

Neste governo formado por despreparados e alucinados, Roberto Alvim é a figura mais enigmática de todas. O cara era um diretor de teatro respeitado, que adaptou até um livro de Chico Buarque para o palco. Também dizem que quebrou seu cabaré em São Paulo, o Club Noir, por causa de seu vício em cocaína. Alvim diz que teve um câncer e que se curou graças a Jesus. Este milagre, sabe-se lá por quê, o empurrou aos braços do Biroliro. O recém-convertido logo descobriu que, quanto mais puxasse o saco do chefe, com mais cargos e verbas seria contemplado. Seu ataque gratuito a Fernanda Montenegro lhe rendeu a Secretaria Especial da Cultura. Mas, antes disso, Alvim já havia dito a que veio: quando estava na Funarte, tentou contratar a empresa da própria mulher pela bagatela de três mlhões de reais. Ontem o sujeito divulgou este vídeo estarrecedor, que abalou até quem o apoia. Por que emular o discurso de Goebbels, o chefe da propaganda de Hitler? Por que tocar Wagner ao fundo? É claro que a atmosfera nazista é de propósito. Mas qual é o objetivo de se aproximar de uma ideologia tóxica, que os membros do governo dizem ser de esquerda? Só me ocorrem duas hipóteses. A primeira é que o vídeo faz parte de um esforço para distrair a imprensa e o público do escândalo da Secom. Acho improvável, porque dificilmente teriam tempo de inventar e gravar tudo isso em 24 horas. Fora que a coordenação política do governo é um balaio de gatos, onde todos se fuzilam mutuamente. A outra teoria é mais provocadora. Roberto Alvim estaria desempenhando uma grande performance. Uma pegadinha épica, para desmascarar, de dentro do governo, as reais intenções do Mijair. Uma hora ele vai gritar, "ahá!". Ou então, é o quê? Alguém teria uma explicação melhor?

ATUALIZAÇÃO: Eu mesmo cheguei em uma explicação melhor. Roberto Alvim tem pretensões políticas. Está em campanha eleitoral, mas pode ter errado a dose. Explico melhor na minha coluna de hoje no F5.

MAIS UMA ATUZALIZAÇÃO: Caiu TODO o canal da Scretaria da Cultura no YouTube - inclusive, claro, o vídeo nazista do Roberto Alvim. Mas ele sobrevive em outros sites, é óbvio. Já substituí aí em cima.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

GOSTO MUITO DE ROUBAR LEÃOZINHO


Não entendo muito o frisson ao redor de "Os Miseráveis". O filme é bom, veja bem: o diretor Ladj Ly imprime um clima de tensão que só derrapa pouco antes do epílogo, mas é logo retomado. Mas não há nada nele que Fernando Meirelles não tenha feito melhor em "Cidade de Deus", quase 18 anos atrás. A novidade (para os franceses) talvez seja uma história que se passa na periferia, escrita e dirigida por um cara nascido nessa periferia. A ação se passa em um único dia em Montfermeuil, o subúrbio de Paris onde Victor Hugo escreveu "Os Miseráveis". O livro é até citado pelos personagens, mas não serve de base para o roteiro. Habitado por africanos, árabes e ciganos, o bairro é o proverbial barril de pólvora. E a faísca vem de uma escaramuça boba, logo vingada com o roubo de um filhote de leão de um circo. Seguem-se várias perseguições, com um trio de policiais - um deles, em seu primeiro dia na região - se comportando cada vez pior. Claro que tudo isso é petit four perto da barra pesada das cidades brasileiras. E claro que eu saí do cinema pensando em "Bacurau", com quem "Os Miseráveis" dividiu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes. O longa de Kléber Mendonça e Juliano Dornelles é melhor e mais inovador do que este aqui. Teria tomado seu lugar entre os indicados ao Oscar?

UMA TELA PARA MARIGHELLA

"Marighella" debutou no Festival de Berlim de 2019, há quase um ano. A estreia no Brasil foi marcada para a Semana Santa, mas logo depois cancelada: o distribuidor achou que ainda havia um clima de polarização excessiva no país (risos), que poderia prejudicar a carreira do filme. Remarcou-se então para 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. E aí começou a via-crúcis do primeiro longa dirigido por Wagner Moura. Surgiram mil entraves burocráticos para dificultar a estreia, numa tentativa mal disfarçada de censura. Até de calote foi acusada a O2, a maior produtora do Brasil. Hoje saiu a notícia de que "Marighella" finalmente entra em cartaz no dia 14 de maio. Será? A Ancine vai deixar, agora que é comandada por uma mulher da Opus Dei? Sim, porque o Biroliro diz que "a cultura tem que ser feita para a maioria" (balela, cultura é para todos), e todo mundo sabe que a Opus Dei, uma organização marginal dentro da Igreja Católica, é maioria esmagadora no Brasil, n'est-ce pas? Mas eu tenho cá um palpite. Adivinha quem será o indicado pelo Brasil para nos representar no próximo Oscar? O governo não apita nada nessa escolha. Risos.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

J.LO-WOOD

Quem diria, um ano atrás, que J. Lo, Eddie Murphy e Renee Zellweger seriam os astros da capa do 26o "Hollywood issue" da revista Vanity Fair" Tudo bem que só um deles foi indicado ao Oscar, mas todos ressuscitaram suas carreiras. O ensaio de 2020 tem mais gente do que outras vezes, e pode ser visto aqui em toda sua extensão. Gosto quando os editores enlouquecem e resolvem contar uma história, ao invés de um monte de fotos de atores fazendo carão. Tem alguns de quem nunca ouvimos falar e outros de quem não ouviremos falar novamente. Faz parte, ué.

RUIM BARBOSA

Letícia Dornelles é uma roteirista respeitada. Já escreveu novelas, séries e programas de variedades, e tem alguns livros publicados. Mas seu extenso currículo não a habilita, de forma alguma, a assumir o comando de uma instituição como a Casa de Rui Barbosa, um importante centro de produção cultural no Rio de Janeiro. Sua única credencial, aos olhos deste governo, são as posições conservadoras. Claro que isto não basta. Letícia iniciou sua gestão cortando nomes fundamentais da estrutura da Casa. Chegou a anunciar um evento sobre astrologia, depois cancelado. E provocou a ira dos funcionários, que ontem fizeram um ruidoso protesto nas ruas de Botafogo. Antes que alguém diga que o lugar era um ninho de esquerdistas: em 2011, a Casa de Rui Barbosa reagiu à indicação ideológica de um novo presidente feita pela então presidente Dilma Rousseff, e o cara não foi empossado. Letícia deveria lembrar que nenhum governo é para sempre, mas que o estrago que ela está causando em sua reputação pode muito bem ser.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

EU TE VI NAS ARTES PLÁSTICAS

"Flerte Revival" saiu há mais de dois anos, mas faz só um mês que eu descobri essa obra de arte. Desde então, ela não sai mais dos meus ouvidos e da minha cabeça. Letrux já está preparando um novo álbum: prometo prestar mais atenção.

THAMMY JUNTO

Não sei se, nos tempos que correm, é recomendável a um homem trans que poste fotos do filho nas redes sociais. É óbvio que o gado irá mugir. Mas quem sou eu para julgar os outros? Thammy Miranda tem todos os motivos para estar orgulhoso. No mais, como pessoa pública, ele precisa mesmo de exposição. Só que o nascimento de seu bebê deu a deixa para o Carluxo descer mais alguns degraus na escala da decência. O Zero-Dois, que andava quieto, achou que seria uma pândega assumir sua semelhança com o filho da Gretchen, e postou duas fotos de seu sósia com a mulher e o bebê, atraindo uma enxurrada de comentários maldosos da minonzada. Vai levar um processaço nas costas, bem-feito. E talvez mudar a dose dos reguladores de humor, que agora sabemos que ele toma graças ao livro "Tormenta", da jornalista Thaís Oyama. Já tens o teu?

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

CULTURA EM VERTIGEM

Em 2016, a Academia de Hollywood contrariou todos os palpiteiros profissionais que previam a vitória do alemão "Toni Erdmann" e deu o Oscar de melhor filme estrangeiro para o iraniano "O Apartamento", muito menos badalado. Foi um gesto político. Uma reação ao então recém-eleito Donald Trump, que tentou decretar que cidadãos de diversos países do Oriente Médio - entre os quais o Irã - simplesmente não pudessem entrar nos Estados Unidos. Achei que este ano os acadêmicos fariam coisa parecida, indicando "A Vida Invisível" para espicaçar o governo Biroliro, o inimigo no. 1 do cinema brasileiro. O filme de Karim Aïnouz não ficou nem entre os pré-classificados, mas hoje nós fomos à forra. É bastante possível que "Democracia em Vertigem" tenha conquistado a indicação ao Oscar de melhor documentário menos por suas qualidades e mais por seu significado. O filme de Petra Costa não é um retrato isento do impeachment de Dilma Rousseff, mas cinema não é jornalismo: não tem a obrigação de ser imparcial. De resto, não creio que tenha chances contra "Indústria Americana", que ainda carrega o selo de qualidade do casal Obama. Mas, vai saber? Uma declaração desastrada do Mijair na véspera da votação, e as nossas chances crescem! Talvez já estejam até maiores depois que Roberto Alvim, o nefasto secretário da Cultura, se manifestou contra "Democracia em Vertigem". Fala mais, Bozo! Fala mais, Comigo-me-desalvim! Nosso primeiro Oscar pode estar não nas mãos, mas nas bocas sujas de vocês.

J. TO THA LO


Hoje, mais uma vez, os membros da Academia de Hollywood provaram que não entendem nada de cinema. Os caras não sabem reconhecer uma verdadeira estrela nem se ela esfregar a bunda na cara deles, como Jennifer Lopez fez em "As Golpistas". No esplendor dos 50 anos, J. Lo aprendeu pole dancing e chegou a fica na horizontal, prendendo-se ao poste pelas, aham, pernas - queria só ver a Kathy Bates fazer isto. Ou melhor, não queria. Os anos indo à cerimônia mesmo sem ser indicada a nada, a dedicação ao ofício de entertainer, a bilheteria do filme, a campanha intensa, nada disso comoveu o Oscar. J. Lo perdeu sua grande chance, e dificilmente terá outra. Mas continuará no meu coração para sempre, e também nas minhas playlists. A Academia pode ficar com a feia da Laura Dern.

(Mais sobre as indicações ao Oscar na minha coluna de hoje no F5)

domingo, 12 de janeiro de 2020

O INJUSTICEIRO DOURADO

O Oscar sempre cometeu injustiças. Todo ano tem alguém que ganha sem merecer, ou que merecia e sequer foi indicado. Desta vez vai ser pior ainda. 2019 foi um ano de filmes excepcionais, e é inevitável que muita gente boa fique de fora das indicações, que serão anunciadas amanhã de manhã. Mesmo a categoria principal, na qual podem concorrer até 10 títulos (mas que, de uns anos para cá, traz só oito ou nove) não vai dar conta de tudo de bom que foi produzido no ano passado. Como diria minha amada Glenn Close, derrotada nada menos que sete vezes: VTNCGCC.


Quem que eu acho que vai ser indicado, e quem vai fitar o vazio?

MELHOR FILME
1917
Adoráveis Mulheres
Coringa
Era Uma Vez... em Hollywood
História de um Casamento
O Irlandês
Jojo Rabbit
Parasita
Quem pode surpreender? "Ford vs. Ferrari", no lugar das mulherzinhas.
Quem vai ser injustiçado? "Dois Papas". Puta falta de sacanagem.

ATUALIZAÇÃO: Entraram todos os oito que eu previ, mais "Ford vs. Ferrari. PFS.

MELHOR DIRETOR
Pedro Almodóvar (Dor e Glória)
Bong Joon-Ho (Parasita)
Sam Mendes (1917)
Martin Scorsese (O Irlandês)
Quentin Tarantino (Era Uma Vez... em Hollywood)
Quem pode surpreender? Greta Gerwig (Adoráveis Mulheres), mais por ser mulher do que pelo filme em si.
Quem vai ser injustiçado? Ih, tanta gente... Todd Phillips (Coringa), Fernando Meirelles (Dois Papas), Taika Waititi (Jojo Rabbit). Mas também não será surpresa se um desses for indicado. A categoria de direção é a mais imprevisível entre as principais.

ATUALIZAÇÃO: acreditei nos sites especializados e apostei no Almodóvar. Entrou Todd Phillips no lugar dele. Não reclamo, mas sinto pelo Fernando Meirelles.

MELHOR ATOR
Antonio Banderas (Dor e Glória)
Leonardo Di Caprio (Era Uma Vez... em Hollywood)
Adam Driver (História de um Casamento)
Taron Egerton (Rocketman)
Joaquin Phoenix (Coringa)
Quem pode surpreender? Christian Bale (Ford vs. Ferrari). A Academia AMA o cara.
Quem vai ser injustiçado? Jonathan Pryce (Dois Papas). Acho um escândalo um ator desse naipe jamais ter sido indicado a nada, mas ninguém me ouve nessa droga de Academia.

ATUALIZAÇÃO: Jonathan Pryce entrou!!! Sinto pelo Taron Egerton, mas ele é jovem e a vida é bela.

MELHOR ATRIZ
Cynthia Erivo (Harriet)
Scarlet Johanson (História de um Casamento)
Lupita Nyong'o (Nós)
Charlize Theron (O Escândalo)
Renee Zellweger (Judy)
Quem pode surpreender? Saoirse Ronan (Adoráveis Mulheres). A Academia AMA a moça.
Quem vai ser injustiçado? Awkwafina (The Farewell), com Globo de Ouro e tudo.

ATUALIZAÇÃO: Novamente, acreditei no sistes que torciam pela Lupita. Entrou Saoirse. #OscarsAlmostSoWhite.



MELHOR ATOR COADJUVANTE
Tom Hanks (Um Belo Dia na Vizinhança)
Al Pacino (O Irlandês)
Joe Pesci (O Irlandês)
Brad Pitt (Era Uma Vez... em Hollywood)
Song Kang-Ho (Parasita)
Quem pode surpreender? Willem Dafoe (O Farol), que foi indicado nos dois últimos anos.
Quem vai ser injustiçado? Anthony Hopkins (Dois Papas). Já deu para reparar que eu não boto muita fé nas chances de um dos meus filmes favoritos de 2019.

ATUALIZAÇÃO: Anthony Hopkins entrou!!! Que bom que eu estava errado.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Laura Dern (História de um Casamento)
Scarlet Johanson (Jojo Rabbitt).
Jennifer Lopez (As Golpistas)
Florence Pugh (Adoráveis Mulheres)
Margot Robbie (O Escândalo)
Quem pode surpreender? Kathy Bates, pelo decepcionante "Richard Jewell".
Quem vai ser injustiçado? Zhao Shuzhen (The Farewell), uma veterana atriz chinesa. Nem vi o filme, mas torço por ela. Me julguem.

ATUALIZAÇÃO: Aqui aconteceu a maior injustiça da história da humanidade. Kathy Bates, que já ganhou uma vez e foi indicada outras tantas, entrou no lugar de J. Lo, que merecia muito mais e está num filme muito melhor. Mas o Super Bowl vem aí, para mostrar quem realmente manda.

MELHOR FILME INTERNACIONAL
Atlantique (Senegal)
Corpus Christi (Hungria)
Dor e Glória (Espanha)
Les Misérables (França)
Parasita (Coreia do Sul) 
Quem pode surpreender? Qualquer um dos seis pré-classificados da Europa Oriental. Deus queira que não sejam os chatíssimos "Uma Mulher Alta" (Rússia) ou "Aqueles que Ficaram" (Hungria).
Quem vai ser injustiçado? Já foi: O Brasil. "A Vida Invisível" é melhor do que os dois filmes citados logo acima, e nem está mais no páreo.

ATUALIZAÇÃO: Os chatíssimos não entraram, ufa. Mas de fato não importa muito, porque esse prêmio já é do "Parasita".

De resto, duvide-o-dó que "Democracia em Vertigem" emplaque entre os cinco indicados a melhor documentário. Vai ter minion comemorando, dizendo que a Academia é de direita... ai que preguiça.

ATUALIZAÇÃO: "Democracia em Vertigem" entrou! A Academia é de esquerda! Chupa, minionzada!

Amanhã eu volto para comentar meus erros e acertos.

sábado, 11 de janeiro de 2020

BUFÊ DE SOBREMESAS


Aconteceu uma coisa engraçada comigo quando vi "Mulherzinhas", perdão, "Adoráveis Mulheres" (ainda prefio o título com que o livro foi traduzido para o português). Eu me diverti muito durante o filme. Achei os atores ótimos, os figurinos lindos e o roteiro interessante. Nem a montagem que mistura dois tempos diferentes me incomodou, apesar de me confundir de vez em quando. Mas aí veio o final excessivamente feliz, e eu saí do cinema enjoado. Parecia que eu tinha comido dez sobremesas de uma vez. Todas deliciosas, mas né? A diretora e roteirista Greta Gerwig deu um viés ainda mais feminista ao romance de Louisa May Alcott, mas também açucarou demais a receita. As irmãs March não passam mais fome e nenhum problema resiste a um sorriso e a um abraço. "Adoráveis Mulheres" é agradável, mas não há campanha que justifique Gerwig na mesma turma que Tarantino, Scorsese, Almodóvar, Sam Mendes e Bong Joon-Ho. Sua versão de uma obra fundamental da literatura americana ficou com cara de novela das seis - uma boa novela, mas sem o impacto ou a importância da concorrência. E agora, uma dúvida sincera: alguém sabe me explicar por que a tia March é rica, se ela nunca se casou, e seu irmão, o pai das moças, não é? De onde surgiu o dinheiro?

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

UM ANO INCONSÚTIL


1917, que ano lôko. Passou voando, em menos de duas horas. O difícil foi recuperar o fôlego depois. Porque "1917" é um filme espetacular, que não desperdiça com super-heróis a tecnologia disponível em 2020. É uma experiência sensorial, um passo antes da realidade virtual. Nunca me senti tão dentro de uma guerra, e pensei em meu pai o tempo todo: ele lutou na Itália pela FEB, em 1944. A ação de "1917' se passa um conflito mundial antes, na França. Dois solados ingleses são despachados com uma mensagem para o comandante de outro batalhão, além das trincheiras alemãs. Eles precisam chegar o quanto antes e avisar que o inimigo armou uma emboscada, mas claro que há mil perigos pelo caminho. Tudo isso em um take só - na verdade, claro, a ilusão de um take só. Apenas em dois momentos óbvios, quando a tela escurece, eu saquei os pontos de corte, mas há dezenas de outros. Não vejo a hora de chegarem os making ofs, para entender como que o diretor Sam Mendes e o cinematografista Roger Deakins conseguiram dar esse tour de force. "1917" levou os Globos de melhor filme dramático e melhor direção no domingo passado, e agora é um canhão apontado para a concorrência no Oscar. É mil vezes mais empolgante do que "O Irlandês", mas não sei se dialoga com os dias de hoje como "Coringa" ou "Parasita". Justamente por isto, talvez a Academia decida premiá-lo. É cinemão em estado de graça, um filme quase perfeito naquilo que se propõe. E ainda comete um pequeno sacrilégio, ao colocar um Lannister e um Stark como irmãos.

¿QUÉ POEMAS NUEVOS FUISTE A BUSCAR?

Ontem foi um dia de estreias para mim: fui pela primeira vez ao Blue Note de São Paulo e assisti ao meu primeiro show de Marina de la Riva. Eu até já tinha um disco dela, mas nunca havia visto-a no palco - e fiquei passado. Que vozeirão, que presença elegante em cena e que bom gosto à prova de bala. Com apenas dois músicos acompanhando, um no cello e o outro no piano, Marina recria canções da Cuba de seus pais, com toques de MPB, musicais americanos e até Erik Satie. O defeito do show é ser curto: eu teria ficado a noite inteira ouvindo boleros e poemas.