terça-feira, 24 de abril de 2018

ZUMBIS DO BARULHO


Quem diria? O maior sucesso das bilheterias americanas no momento não tem um único diálogo propriamente dito. Mas tem gritos, sussurros, linguagem de sinais e um design de som digno de Oscar. "Um Lugar Silencioso" é uma variante esperta do apocalipse zumbi. No filme, uma catástrofe inexplicada fez com que a Terra fosse invadida por monstros devoradores de carne humana que se guiam exclusivamente pelo som. A consequência é que ninguém pode fazer o menor barulho - caso contrário, babau. Mas vai dizer isto para uma família com três crianças. O casal é casado na vida real: Emily Blunt, eterna injustiçada pela Academia e futura Mary Poppins, e John Krasinski, o Jim de "The Office", também diretor. Juntos eles fizeram um dos filmes de terror mais originais e eficientes dos últimos tempos, desses que dão mesmo vontade de berrar. Se houver coragem.

O GURU SEM FUTURO


Uma das minhas irmãs mais velhas foi sannyasin durante um bom tempo. Ela só se vestia em tons de vermelho e laranja, e chegou a mudar de nome. Como quase todos os seguidores do Baghwan Shree Rajneesh, o fervor dela não sobreviveu à morte do guru, em 1990. Foi graças a ela que eu comecei a ver  "Wild Wild Country" sem sair da estaca zero. O que foi bom, porque a série da Netflix não faz muita força ara ser didática. Os diretores optaram por usar um copioso material de arquivo e longos depoimentos dos envolvidos ainda vivos, mas dispensaram uma locução em off que poderia esclareer melhor as coisas. Jamais ficamos sabendo quais eram os fundamentos ensinados pelo Baghwan (que, no final da vida, tentou um rebranding ao se rebatizar de Osho). Como que tanta gente se deixava hipnotizar pelo cara, enquanto outros tantos lhe tinham horror? Além disso, os seis episódios poderiam er sido condensados em quatro, ou talvez em um documentário em longa-metragem. Mas nada disso diminui o impacto da história, quase surreal demais para ser verdadeira. Em 1981, fugindo de sua Índia natal por razões obscuras, Baghwan Shree Rajneesh adquiriu uma área cosndierável num canto remoto do estado americano do Oregon. A cidade mais próxima tinha 40 habitantes, quase todos velhos. Mas foram eles que se opuseram ferzomente à criação da comunidade de Rajneeshpuram, povoada por adeptos do "amor livre". Se fosse hoje, essa história esbarraria em questões como imigração e tolerância religiosa. Na época, quase descambou para um conflito armado, além de um misterioso episódio de envenamento por salmonella. "Wild, Wild Country" vale como registro histórico, e também como um drama complexo sem heróis nem vilões claros.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

SOLTO A AVÓ NA ESTRADA


"Ella e John" combina dois subgêneros do cinema. Um existe desde sempre: é o "road movie", em que os personagens passam por mil peripécias ao longo do caminho. O outro gênero é mais recente: as comédias com velhinhos maluquinhos, que não querem dar trabalho para os filhos e são muito raros na vida real. Helen Mirren e Donald Sutherland estrelam o primeiro filme em inglês do italiano Paolo Virzì, do excelente "Capital Humano". Eles fazem um casal de coroas que embarca em um "motor home" para o que parece ser uma última viagem a dois, já que ele apresenta sintomas de Alzheimer. Logo descobrimos que não é só isso, o que deixa a trama um tanto previsível. Os atores estão sempre meio tom acima, o que basta para deixar esses velhos inverossímeis. Espectadores menos exigentes vão se emocionar e quem sabe até tirar lições de vida. Já eu suspeito que Virzì nunca mais vai cometer outro "Capital Humano".

O PARAGUATO

Encontrei algo bom para falar de Mario Abdo Benítez, recém-eleito presidente do Paraguai: ele é um gato. Ponto. No mais, o rapaz é apenas a nova cara do partido Colorado, no poder há mais de 70 anos - inclusive durante a ditadura de Alfredo Stroessner, de quem o pai do novo presidente foi secretário. Nesse tempo todo, houve uma breve interrupção: o governo do impichado Fernando Lugo, ex-padre e pai de metade dos paraguaios nascidos nos últimos 30 anos. Depois desse breve interregno, o Paraguai voltou a ser o que sempre foi: um feudo dominado pela aristocracia agrária, de direita, que oferece pouquíssimos benefícios à população. OK, hoje em dia é o país que mais cresce na América do Sul, mas é fácil alcançar um número expressivo quando se sai de quase zero.

domingo, 22 de abril de 2018

PREJUDICADO

Já sofri de jet lag em outras ocasiões, mas nunca mais que dois dias. Na maioria das vezes, me adapto muito rápido ao novo fuso horário. Mas agora está sendo diferente. Cheguei há quatro dias, tenho dormido pacas e mesmo assim continuo prejudicado. Cabeceio de sono no meio da tarde e acordo todo pimpão às cinco da manhã. Tive uma noite inteira de insônia, algo raro para mim. E neste domigo estou caindo pelas tabelas, me irritando por qualquer coisinha. Mas férias bacanas são aquelas que deixam a gente precisando tirar férias.

CANDIDATO AO FORO

Temer, o Velho, sonhava em ser reeleito presidente, quiça por aclamação. A economia brasileira estaria tão maravilhosa no segundo semestre deste ano que nenhum outro postulante conseguiria convencer o populacho a votar em outro alguém. Além disso, as reformas trabalhista e da Previdência teriam sido aprovadas na íntegra, garantindo o apoio irrestrito dessa misteriosa entidade chamada "mercado". Não foi bem o que aconteceu. A economia melhorou, mas não a ponto das pessoas comuns sentirem no bolso. E Temer gastou quase todo seu capital político barrando duas denúncias de corrupção na Câmara; o  pouco que sobrou jogou a reforma da Previdência para as calendas. Por isto, é até bisonho ver o Velho insistindo que vai se candidatar em outurbo, como se sua rejeição não batesse recorde ou algum grupo político importante o apoiasse. Acho que tem algo por trás disso. Sabemos que Temer é desconectado da realidade do mundo moderno, mas não é possível que seja tão alienado assim. Meu palpite: ele vai sair candidato sim, mas a deputado federal. Uma eleição muito mais fácil, talvez até garantida. É que pegaria mal, neste momento, o véio assumir este plano. Porque escancaria sua real intenção: manter o foro privilegiado e retardar ao máximo o sarrafo que o espera (o cerco ao redor de seus amigos vem se fechando). Vai dar certo? Tomara que não, como muito do que ele quis não deu.

sábado, 21 de abril de 2018

COMANDO DE ELITE


Eu tinha quase 16 anos quando terroristas palestinos e  do Baader-Meinhof sequestraram o avião da Air France para Uganda, portanto lembro bem do episódio. Até vi um dos três filmes produzidos a toque de caixa nos meses seguintes, todos com viés pró-Israel (e spoiler no título: "Vitória em Entebbe"). Mais de 40 anos depois, é curioso que surja um quarto filme, e dirigido por um brasileiro. José Padilha mostrou que sabe lidar com uma situação com reféns em "Ônibus 174" e dessa vez, o Senhor seja louvado, ele não usa locução em off em nenhum momento. Não que o roteiro seja perfeito: a ação se arrasta lá pela metade, assim como deve ter se arrastado na vida real, e o "raid" promovido pelo comando israelense no final poderia ser mais explorado. Há um recurso narrativo original, um grupo de dança moderna de Israel executando uma coreografia impactante, que não só abre e fecha o longa como permeia as cenas de ação. Em geral funciona, mas teve momentos em que eu achei que era excessivo. A coreô também tira um pouco da imparcialidade do filme, que é em boa parte contado do ponto de vista dos dois terroristas alemães, crivados de dúvidas e medo. Mas Padilha também já disse que prefere ser obejtivo do que imparcial, e isto ele consegue. Quem odiou "O Mecanismo" vai ter certeza que o diretor se vendeu aos inaques; o resto de nós vai gostar de "7 Dias em Entebbe", mesmo que não seja uma obra-prima.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

LÁ VEM O NOIVO, TODO DE BRANCO


Não falta cantor assumidamente gay hoje em dia, do australiano Troye Sivan à brasileira Pabllo Vittar. Mesmo assim, o impacto do EP "Universal Love" é considerável: seis standards do cancioneiro em inglês cantados por artistas consagrados - com as letras ajustadas para que a pessoa amada seja do mesmo gênero que o artista. Trata-se um projeto de branded content (vulgo propaganda) criado pela agência McCann Erickson para a rede de hotéis MGM Resorts, mas elevado ao status de obra de arte graças ao quilate dos envolvidos. O repertório é beyond óbvio, e algumas das canções escolhidas sempre tiveram pelo menos um pé no Vale dos Homossexuais. É o caso de "Mad About the Boy", de Noel Coward, que virou "Girl" para caber na boca de Valerie June. Mas há surpresas genuínas, como "He's Funny That Way" cantada por Bob Dylan. Se bem que surpreendente mesmo é a voz de Dylan, macia como nunca.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

ANA AMÉLIA NÃO É MULHER DA VERDADE

Sempre achei a senadora gaúcha Ana Amélia uma figura interessante. Não que eu comungue de suas ideias: para começar, ela é do Partido Progressista, o mesmo do Maluf. Mas ter uma mulher conservadora e bem articulada no Congresso me parecia bom para o debate. Só que agora Ana Amélia deu uma derrapada moral que a fez deslizar para baixo no meu conceito. Não, ela não confundiu Al Jazeera com Al Qaeda: não disse isto em nenhum momento, ao criticar a fala da colega Glesi Hoffman à emissora árabe. Mas acusou a Narizinho de estar convocando o "Exército Islâmico" (que não existe) para defender Lula, e a blogosfera de direita se encarregou do resto. Ana Amélia é uma jornalista experiente, mas não foi das mais éticas ao usar termos imprecisos e jogar para a claque. Faltou-lhe verdade.

CUBA NÃO-LIBRE

Não dá para ficar animado com a "eleição" de Miguel Díaz-Canel para a presidência de Cuba. Nascido depois da revolução e criado dentro do Partido Comunista, o futuro chefe de estado não emite o menor sinal de que irá liberalizar o regime. Talvez só a economia, e olhe lá - a médio prazo, tudo o que Cuba pode almejar é emular a China. O pior é que, com Trump na Casa Branca, ficou para as calendas o desembarque na ilha dos McDonald's e Starbucks que poderiam desestabilizar o status quo. Outra incógnita é a sobrevivência da ditadura venezuelana, cada vez mais dependente de Havana. Díaz-Canel vai se cansar de bancar Nicolás Maduro, ou tudo segue como no tempo dos Castro? Aposto mais na segunda alternativa.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

VIVA HATE

Quase toda a minha geração se rendeu ao Morrissey quando ele surgiu em 1984, como vocalista dos Smiths. Eu não. Apesar de achar suas letras inteligentes e seu som legalzinho, nunca comprei a postura nem-lá-nem-cá que o moçoilo adotou quanto à sexualidade. Os tempos pediam tomada de posição, e Morrissey me soava covarde ao não se assumir gay com todas as letras (não se assumiu até hoje, aliás). Longe dos Smiths e da guitarra de Johnny Marr, Morrissey nunca mais repetiu o mesmo sucesso, e foi falando cada vez mais besteiras ao longo das décadas. Ano passado até surgiu a campanha "Shut Up, Morrissey", lançada por uma designer com bolsas e camisetas estampadas com a frase. Esta semana as vendas devem subir, porque Mozz não só se mostrou racista mais uma vez como passou o recibo definitivo de que é um boçal de extrema-direita (o que é pleonasmo é claro), ao regurgitar que "Hitler era de esquerda". Ainda bem que eu não desperdicei minha juventude idolatrando esse imbecil. Viva Freddie Mercury!

terça-feira, 17 de abril de 2018

ATÉ AÍ MORREU NEVES

Não conheço uma única pessoa que tenha votado no Aécio Neves que ainda o defenda. O senador mineiro não precisou de sítio, triplex ou palestras mal-explicadas para cair em desgraça com seu eleitorado. Não precisou  das "provas" que os lulistas insistem que não existem no caso do chefe deles. Bastou uma gravação onde ele pede dinheiro, mais nada. Acho saudável que seja assim: basta uma seita de fanáticos. Mais saudável ainda é Aécio finalmente ter se tornado réu, num sinal de que a nossa Justiça ainda busca um certo equilíbrio. E tomara que ele seja mesmo condenado. Sem choro nem comoção.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

SINFONIA DE HONG KONG

Acordamos em Chiang Mai às cinco horas da manhã, pegamos o voo das sete para Bangkok, desembarcamos no aeroporto doméstico, passamos no hotel para pegar as malas e chegamos ao aeroporto internacional com tempo de sobra paracomeçarmos nossa longa jornada de volta ao Brasil. Que seguirá uma rota diferente e tem uma escala de quase 24 horas no meio: Hong Kong, de onde escrevo este post. Estou encantado com a eficiência da cidade: a fila do passaporte anda rápido, tem um trem expresso que sai de dentro do aeroporto e te deixa no centro em menos de meia hora (e csta 12 reais por pessoa!), e ainda tem ruas que lembram a Nossa Senhora de Copacabana. Mal chegamos ao hotel, largamos tudo e corremos para pegar o ferry para Kowloon, do outro lado da baía. É de lá que se vê um espetáculo diário cafona e irresistível ao mesmo tempo: a "Symphony of Lights", em que os arranha-céus mais absurdos quase dançam ao som de música new age. Um final e tanto para uma viagem dos sonhos, em que vi coisas assombrosas e me diverti à pampa. Obrigado por viajar comigo! Até já.

domingo, 15 de abril de 2018

SONGKRAN

Quiseram os bodhisattvas que o nosso último fim de semana no Sudeste Asiático coincidisse com o Songkran, o Ano Novo tailandês, comemorado mais ou menos na mesma data por todos os países da região. As lojas fecham e os templos ficam cheios, mas a marca registrada desse feriadão de quatro dias são as batalhas aquáticas no meio da rua. Criancinhas, vovós e marmanjos se munem de gigantescas e coloridíssimas pistolas, famílias inteiras arrastam para a rua tonéis com água dos canais, e ai de quem passar achando que vai continuar sequinho. Qualquer resistência é inútil; quem sai no Songkran é para se molhar.

Chiang Mai tem a fama de ter o songkran mais animado de toda a Tailândia. Ontem, quando queríamos visitar os templos da cidade velha, levamos mais baldes d'água do que estávamos a fim. Hoje, depois de peregrinar até o santuário do monte Doi Suthep pela manhã, pusemos grana e celulares nos envelopes de plástico que ganhamos da agência e nos juntamos à folia. Demos de cara com um incrível desfile de blocos, cada um representando um hotel, um shopping ou uma aerolinha, cheios de lady boys e com um batuque irresistível. Até o Corpo de Bombeiros joga água na multidão, que fica encharcada e radiante. O cortejo de blocos seguia até a antiga Casa do Governador (hoje uma escola), e claro que fomos atrás. Nos jardins da residência, farta distribuição de comidas típicas e refri: tudo de graça, com pimenta por cima.

Recebi cada jato gelado como uma benção dos céus. Achei auspicioso estar aqui justo hoje, que marca o aniversário de uma data triste para mim. Meu ano de 2018 já começou bem, mas agora, com tanta água para lavar a alma, ah, agora vai. Feliz ano novo para todo mundo, e não deixe de jogar água em quem você ama. Beeem gelada.

sábado, 14 de abril de 2018

TCHUC-TCHUC PARA CHIANG MAI

Voltamos de ônibus de Siem Reap para Bangkok e, como somos mochileiros no apogeu da adolescência, emendamos com uma viagem de trem para Chiang Mai, no norte da Tailândia. Chegamos à capital antes das cinco da tarde, e o trem só saía às 19h35. Tempo suficiente para o táxi ficar preso em alguns engarrafamentos causados pelo Songkran, o ano novo tailandês (mais no próximo post). Fomos buscar nossos bilhetes na sede da agência 12GoAsia, em frente à estação, e fizemos uma horinha no simpático café de lá, com wi-fi. E aí, tocamos para a nossa plataforma 30 minutos antes da partida - que, pasito a pasito, se transformaram em três longuíssimas horas. Os thai são adeptos da tática "subiu no telhado": foram informando o atraso aos poucos, de cinco em cinco minutos, como se assim fosse mais fácil se acostumar com a ideia. Não foi: a estação estava bem cheia (os locais não se importam de sentar no chão), o calor beirando o insuportável, e o cansaço da viagem anterior quase nos fazia desmoronar.

O trem no. 13 finalmente saiu pouco antes das 23h. Não tínhamos cabine individual, e sim dois assentos que se transformam em um beliche. Um funcionário veio fazer as camas, uma por uma, com notável mau humor, e depois uma outra, bem mais simpática, recolheu os pedidos para o café da manhã. Instalei-me na cama de cima, puxei a cortininha e dormi razoavelmente bem, ajudado pelas músicas do meu telefone. Mas fomos todos acordados antes das sete, bem antes de Chiang Mai, onde só chegamos por volta das onze. Mas não teria adiantado chegar muito antes. Nosso hotel só queria liberar o quarto depois das 14h, e precisamos fazer algum estardalhaço para conseguirmos, enfim, tomar banho e descansar para valer. A adolescência nos deixou exaustos.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

FARTÃO À TAILANDESA

Estou há duas semanas na Ásia, e tenho comido pelo menos um prato típico daqui até no café da manhã. O resultado é que não aguento mais o sabor do capim-santo misturado com coentro e pimenta. Quero jogar a próxima tigela de "sticky rice" na cabeça da garçonete. E sinto que seria capaz de matar por um spaghetti à bolonhesa. A comida thai é uma mistura complexa de temperos, mas são sempre os mesmos... E a falta de uma gordurinha-base - um azeite, uma manteiga - me dá ganas de jogar um frasco de crème fraîche no yum tom sum. Fiz até uma aula de culinária em Bangkok, um programa quase obrigatório para quem tiver tempo, e me diverti muito aprendendo como se fecha uma trouxinha de flha de pandanus. Mas agora eu quero pizza. Também quero voltar para casa.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

SIÃO DERROTADO

A Tailândia até que leva numa boa. Siem Reap quer dizer o título deste post: a cidade próxima ao complexo de Angkor recebeu este nome para comemorar uma vitória dos khmer sobre os thai no século 18. Hoje em dia a Tailândia me parece algumas décadas mais avançada que o Camboja, e Siem Reap, apesar das hordas de turistas, tem ares de abandono em algumas áreas. Mas também tem uma bonita avenida às margens de um rio e um distrito animadérrrimo de vida notura conhecido como "Pub Street", apesar de serer várias ruas. Foi ali que eu finalmente encontrei os espetinhos de aranha e escorpião, que podem ser apenas alugados para uma foto. O povo daqui não consome mais essas iguarias, que servem apenas para espantar os visitantes. Não há prosituição visível, mas garotas são a segunda coisa que os motoristas de tuk tuk te oferecem uando te abordam na rua. Siem Reao também tem o ótimo Museu de Angkor, que visitamos depois de nosso segundo dia nas ruínas. Literalmente pegado ao museu há um pequeno e luxuosíssimo shopping chamado Galleria T, onde tudo está escrito em inglês e chinês; os khmer ainda não têm bala para lojas como Tiffany's ou Michael Kors. Aliás, nem eu.

O OLHAR DE QUEM VÊ


Interrompemos os posts sobre a nossa viagem pelo Sudeste da Ásia para falar de um filme nacional que acabou de estrear. Vi "A Teus Olhos" na Mostra de Cinema de SP em outubro passado, e esperei até agora para comentar. É um bom filme, com orçamento pequeno e um Daniel de Oliveira em estado de graça em mais de um sentido. Além de exibir o corpão de um professor de natação, o ator ainda dá ao papel de um acusado de abuso sexual contra um de seus alunos a ambiguidade necessária. Porque "A Teus Olhos" não entrega uma resposta fácil: a premissa do longa já está no título, sem spoiler. Incômodo e atual, o novo trabalho de Carolina Jabor chegou na hora certa.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

A CIDADE QUE É UM TEMPLO

Viemos ao Camboja para conhecer o máximo que der em dois dias do gigantesco complexo de Angkor, que ocupa uma área de 200 km2 com ruínas de templos e palácios meio comidos pela selva. O mais famoso deles e o primeiro que se visita é Angkor Wat, literalmente "a cidade que é um templo". Trata-se apenas do maior edifício de cunho religioso do mundo, construído ao longo de 37 anos no século 11 (ou seja, a toque de caixa para a época). É uma reconstituição simbólica dos cinco picos do monte Meru, no Himalaia, o Olimpo do hinduísmo - embora hoje em dia não faltem imagens e altares de Buda para todos os lados. Pagamos o micão obrigatório de ver o sol nascer nas ruínas, junto com a torcida do Flamengo e o que parecia ser toda a população do sul da China. Apesar de termos acordado às quatro e meia da manhã, o horário cedíssimo na verdade poupa o sofrimento de escalar as torres sob o sol escaldante do meio-dia. Do qual não fomos poupados, pois de lá seguimos para o imenso Angkor Thom - "a grande cidade" - e o mais impressionante de todos, Ta Prohm - "o ancestral de Brahma" - que tem suas pedras engolidas pelas raízes das árvores bunyan e serviu de cenário para uma cena famosa do primeiro "Lara Croft: Tomb Raider", de 2001:
Mas o momento de maior emoção do dia foi o que eu conto logo abaixo...

MACACOS ME MORDAM

Como saímos antes de começar o café da manhã, os gentis funcionários do hotel nos prepararam uma marmita com um ovo duro, um iogurte e algumas frutas. Quase toda a torcida do Flamengo que vai ver o sol nascer em Angkor Wat faz o mesmo, e os meninos que vendem bugigangas por ali enxergam de longe os tapué de styrofoam nas mãos dos turistas. E vêm te puxar pelo braço dizendo "nham nham". Sou uma pessoa para lá de horrível e não compartilhei uma mísera bananinha com os moleques. Mas, logo adiante, me enterneci vendo um macaco passeando pelo gramado. Me aproximei do bichinho e ofereci uma banana, que ele arrancou das minhas mãos e devorou com casca e tudo. Insaciável, a fera então tentou arrancar o pacote inteiro da minha mão. Um colega dele se animou e logo eu estava sendo MORDIDO por dois macacos selvagens no Camboja! Minhas pernas estão cheias de pontinhos vermelhos, que eu apenas lavei com água e cuspe. Deveria me preocupar? Ir ao médico? Chamar um padre? But I've never felt so alive! Mas sim, sinto que fui castigado por Brahma. Ah, e sabe o que aconteceu com as bananas que eles queriam? Enfiei no bolso, e elas derreteram em menos de uma hora. Minha guerra no planeta dos macacos foi inútil, assim como são todas as guerras.

terça-feira, 10 de abril de 2018

A BORDO DO GIANT IBIS

Quem é que vai para o Camboja por terra? Nós, que temos mais tempo do que dinheiro. Quando digo nós, somos só eu e meu marido. O imenso grupo de amigos que viajou junto durante dez dias se dispersou hoje, depois de um jantar de despedida em Bangkok. Como eu acho que o Sudeste da Ásia é longe demais para ficarmos tão pouco tempo, esticamos a viagem em mais uma semana. E hoje de manhã embarcamos em um ônibus da empresa Giant Ibis rumo a Siem Reap, a cidade cambojana próxima às ruínas de Angkor. Busão de luxo: poltronas reclináveis, ar condicionado, wi-fi, Nescafé latte em latinha. Levamos umas duas horas para sair do conglomerado urbano da capital da Tailândia, que tem muitas fábricas e um trânsito intenso. Depois de uma parada em um 7-Eleven que era praticamente um supermercado, a estrada mudou e fluímos bem até a fronteira. Um pouco antes de chegarmos lá, o comissário de bordo recolheu passaportes, formulários preenchidos e o equivalente a 40 dólares. O ônibus parou em um lugar esquisito, onde só haviam lojinhas fuleiras, e o comissário saltou. Voltou 20 minutos depois com nossos vistos de entrada devidamente estampados nos passaportes e misteriosamente assinados pelo cônsul cambojano. Na fronteira em si, começou o choque cultural. Tivemos que trocar de ônibus, mas para um idêntico ao primeiro e também com placa de Phnom Penh. Só que antes de reembarcar, uma certa via-crúcis. Primeiro, filas quilométricas para sair da Tailândia, num calor infernal. Logo em seguida, atravessamos um riacho imundo e cheio de lixo. A ponte já estava cheia de crianças esfarrapadas pedindo esmolas. Antes mesmo da imigração do Camboja, cassinos resplandecentes para arrancar dinheiro dos thais. Passado o controle de passaportes, subimos no novo ônibus, ganhamos quentinhas de arroz com carne de porco moída e entramos no Terceiro Mundo. Tudo o que não vimos na Tailândia, estamos vendo no Camboja: sujeira, miséria, bagunça. E motoristas que não fazem a menor cerimônia para ultrapassar o que quer que seja na estrada de pista única, pontilhada de postos de gasolina e vendinhas pobrinhas. Não imaginei que o contraste entre os dois países fosse tão grande. Agora estou exausto, mas contente com a aventura. E criando coragem para encarar a mesma maratona no sentido contrário, na sexta.