terça-feira, 17 de setembro de 2019

ARREGÕES VÃO ARREGAR

A viagem a Nova York já foi adiada em um dia. Biroliro tem feito a frágil diante das câmeras de TV. E a deputada Carla Zambelli lançou uma campanha para que ele desista de abrir a Assembleia-Geral da ONU, no próximo dia 24. Ou seja, o plano está se desenrolando conforme o previsto. Dessa forma, o Bozo escapa de um vexame, e o Brasil também. E eu colho as glórias de ter previsto que ele iria arregar. Mas não sou só eu: até os bebês já sabiam disso.

C.S.I. DO BANHEIRÃO

Quase todas as gueis bem relacionadas do Rio e São Paulo receberam por WhatsApp um vídeo supostamente gravado no banheiro da The Week. É uma suruba sem camisinha, e os rostos dos felizardos não aparecem. Foi o que bastou para desencadear uma cruzada moralista nas redes sociais, com bichas puras e superiores criticando o comportamento libertino de suas irmãs. Algumas, com a cabeça ainda na década de 1980, pregam contra a disseminação do HIV, como se não existissem o PrEP ou os tratamentos que tornam o vírus indetectável (ou seja, intransmissível). Hoje me mandaram um vídeo onde um dos rapazes do banheirão é identificado por causa da tatuagem que tem no peito. Descobriram seu nome e até seu perfil no Instagram, como se fosse um perigoso bandido que precisa ser eliminado. Por que não gravam vídeos dos batedores de carteira que atuam nas boates? Não dá para reclamar de Crivellas ou Malafaias quando temos inimigos desse calibre no meio de nós.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

MEU NETINHO TERRORISTA


Não sei se fiquei mais exigente ou só chato mesmo, mas "Adeus à Noite" é o terceiro filme seguido que eu vejo cuja premissa é melhor do que a realização. A oitava parceria entre Catherine Deneuve e o diretor André Techiné ainda sofre de um certo atraso: fala da luta de uma avó para impedir que seu neto se junte ao Estado Islâmico, que já foi quase eliminado da face do planeta. A primeira hora é meio arrastada, e a agitação que vem depois não chega a tornar o filme realmente bom. Mas há Deneuve, como uma fazendeira: de cabelos escuros, com o glamour no mínimo (a zero ela não consegue), mas ainda e sempre Deneuve.

ETERNAMENTE EM BERÇO ESPLÊNDIDO

A direita gosta de espalhar que o atual clima de confronto na sociedade brasileira nada mais é do que uma reação natural aos anos de domínio do PT. É verdade que foi Lula quem deu o pontapé inicial no "nós contra eles", mas, tirando uns puxões de cabelo na Yoani Sánchez, a esquerda jamais partiu para as vias de fato contra seus críticos. Nunca houve antes um caso de escritor que não foi a um evento por causa de ameaças, como aconteceu há alguns meses com a Miriam Leitão (e olha que os petistas jamais gostaram dela). Hoje foi a vez do Felipe Neto cancelar sua participação no Educação 360. O vlogueiro até avisou que já tirou sua mãe do país. Claro que os minions vão dizer que tem treta aí, como dizem até hoje do Jean Wyllys (e não é uma graça eles não acreditarem que o ex-deputado vai dar aula em Harvard?). O que está acontecendo no Brasil é gravíssimo e é um indício óbvio de uma escalada fascista. E aí, vamos continuar dormindo até quando?

domingo, 15 de setembro de 2019

PERDIDO NA TRADUÇÃO


Só me animei a ver "O Tradutor" agora, depois que ele foi escolhido para representar Cuba no próximo Oscar. Depois de uma passagem discreta pelos cinemas, o filme está no Telecine Play, e vê-lo em casa talvez seja menos frustrante do que na telona. Porque não é grande coisa, apesar da boa premissa: no final da década de 1980, um professor de russo de Havana é deslocado para um hospital, onde servirá de intérprete entre os funcionários e os pequenos pacientes soviéticos, vítimas do desastre de Chernobyl. Rodrigo Santoro está fantástico como o protagonista, falando um espanhol com sotaque cubano quase perfeito e um russo que soa convincente (não sei avaliar). Também é surpreendente o alto padrão de vida do personagem, que mora numa casa ampla e confortável e faz compras com cupons em um supermercado repleto de artigos importados. O nível cai de repente, junto com o Muro de Berlim, levando Cuba a um buraco fundo de onde não saiu até hoje. O interesse pela trama também despenca: não há propriamente uma curva dramática, e os probleminhas que vão surgindo não justificariam um filme. Mas os letreiros finais esclarecem que os diretores são filhos do tradutor. Só eles mesmos para acharem que a vida do pai é uma epopeia cinematográfica.

sábado, 14 de setembro de 2019

ALGO DE PODRE NO REINO


A Dinamarca ainda não escolheu seu representante no próximo Oscar, mas periga ser "Rainha de Copas". O filme vem ganhando prêmios em festivais e tem um ótimo argumento: uma mulher de meia idade tem um caso com seu enteado adolescente, filho do primeiro casamento do marido, só porque ela pode e quer. Para piorar, ela é uma advogada esepcializada em abuso de menores. Infelizmente, roteiro e direção não estão à mesma altura. A história se arrasta ao longo da primeira hora, e só começa a ficar mais animada depois que Tryne Dyrholm - uma das atrizes mais desinibidas do mundo - cai de boca no que deve ser uma prótese. A personagem é de uma podridão só, capaz de qualquer coisa para se proteger. Merecia um filme melhor.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

SESSÃO DE TERAPIA

O repórter João Paulo Saconi, da revista Época, fez cinco sessões de coaching à distância com a terapeuta Heloísa Wolf, a sra. 03. O resultado foi esta matéria aqui, que só traz uma revelação surpreendente: na intimidade, o casal não é tão homofóbico como aparenta. Saconi se declarou gay e Heloísa não tentou "curá-lo", apesar de ter feito campanha pela chapa de Rozangela Alves no Conselho Federal de Psicologia. De resto, a moça se mostrou simpática e até um pouco indiscreta, dando detalhes do sogro. Terminado o tratamento de R$ 1.350,00, o jornalista avisou que iria publicar a reportagem, e Heloísa preferiu não acrescentar nada. Hoje Biroliro e o 03 estão fazendo escarcéu nas redes sociais, acusando Saconi de "se passar por gay" (ele é mesmo) e gritando que "a conversa deveria ficar entre os dois, por questão de ética". Quem não pode contar nada é o analista, não o analisando. E Saconi, na verdade, fez um test-drive nos serviços da bolsonora, coisa comum na imprensa mundial. O coaching que ela oferece é de uma bobagem estupefaciente, mas é bem-intencionado. Bem piores são as fake news espalhadas por sua nova família.

APESAR DE VOCÊ AMANHÃ HÁ DE SER

Não passaram nem 24 horas do "adiamento" de "Marighella", e eis que já temos um novo caso de censura. A embaixada brasileira no Uruguai, uma das patrocinadoras Cine Fest Brasil que acontece em outubro em Montevidéu, "pediu" que o filme "Chico: Um Artista Brasileiro" não fosse exibido na mostra. A nota do Ancelmo Góis n'O Globo não traz nenhuma razão para isto, mas fica patente a estupidez da nossa Chancelaria. Se tivessem deixado quieto, o documentário passaria por lá e quase ninguém ficaria sabendo. Agora temos uma notícia para agradar ao minguante gado bolsominion e estarrecer os demais brasileiros. Fora que os uruguaios, o povo mais liberal e educado da América Latina, devem estar se coçando para ver o filme proibido. Como há tempos que ele já existe em DVD (é de 2015), não duvido nada que um cineclube ou mesmo um bar promova uma sessão. Quem vai proibir quando o galo insistir em cantar?

ATUALIZAÇÃO: O Uruguai deu mais uma prova de que é um dos países mais bacanas do mundo. A produtora Inffinito, responsável pelo  Cine Fest Brasil, deu uma solene banana para a embaixada brasileira e avisou que VAI incluir "Chico" na programação do festival. Também vai perder o patrocínio, é claro, mas a liberdade tem seu preço. Que esta desobediência nos contamine.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

É CENSURA QUE CHAMA

A estreia de "Marighella" nos cinemas brasileiros estava prevista para abril passado. Com receio da euforia ainda reinante entre a minionzada pelo começo do governo do Despreparado, produtores e distribuidor preferiram esperar mais um pouco. Remarcaram a estreia para 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Aí começaram a surgir notícias de que a Ancine estava regulando um repasse de um milhão de reais para o lançamento e outras burocracias mil. Hoje, a estreia de "Marighella" foi mais uma vez cancelada. Ou adiada para abril de 2020, como explica a Cristina Padiglione nesta matéria em seu blog Telepadi. Tomara que esse imbroglio se resolva logo, porque eu estou doidinho para ver o filme - inclusive porque meu marido está nele. Mas, enquanto essa estreia não acontecer, estamos diante de um caso de censura. Ainda disfarçada, traiçoeira, olhando de soslaio. Mas não me venham com justificativas: essa joça tem cheiro de censura, cara de censura, gosto de censura. Então olha a censura aí, gente!

O ARMÁRIO DE VIDRO OPACO

É ótimo que famosos como Paulo Gustavo e Carlinhos Maia sejam assumidamente gays. Mas é péssimo que os dois tenham se recusado a beijar os próprios noivos quando se casaram, em festas fartamente cobertas pela imprensa. Paulo Gustavo tampouco incluiu um beijo na cena do casamento gay que estará em "Minha Mãe É Uma Peça 3", que deve estrear no fim do ano. Todos esses não-beijos se curvam a uma suposta lógica do mercado, que reza que os fãs desses comediantes assumidamente gays deixariam de sê-los se os vissem beijando outro homem. É a velha linha do "tudo bem você ser o que quiser, mas não na frente de todo mundo". Um armário moderno, de porta de vidro opaco, que só sugere o que tem dentro. E que vai na contramão da revolta da Bienal do Livro, mas combina com os móveis jecas com que o governo Bozo quer enfeiar o Brasil.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A HÉRNIA PROVIDENCIAL

Biroliro não estava com dor nem nenhum problema sério por causa da hérnia que surgiu em seu abdômen. A cirurgia para retirá-la poderia ser realizada a qualquer momento, ou jogada para as calendas. Foi marcada para o mês em que começa a Assembleia Geral da ONU, tradicionalmente aberta pelo presidente do Brasil. Bozo diz que irá a Nova York mesmo em uma cadeira de rodas, mas o plot para que ele não "possa" viajar já está em andamento. Depois de dois dias de plena recuperação, hoje o Despreparado teve uma complicaçãozinha e divulgou esta foto aí ao lado, onde pelo menos seus dois ombros estão cobertos. Nos próximos dias, deve vai surgir um atestado médico proibindo-o de fazer qualquer coisa (já não faz mesmo), e ele será poupado do vexame no plenário da ONU, com embaixadores se retirando, imprensa internacional caindo de pau e manifestantes berrando do lado de fora.

A SÉRIO NA SÍRIA

Sacha Baron Cohen talvez seja o homem mais engraçado do mundo, e com certeza é o mais cara-de-pau. Comédias-reality como "Borat" e "Brüno" fizeram com que eu não consiga pensar nele sem ter vontade de rir. Mas esta ânsia amainou um pouco depois que eu vi "O Espião", minissérie em seis episódios que acaba de chegar na Netflix. Sacha faz seu primeiro grande papel dramático: Eli Cohen, o israelense que conseguiu se infiltrar na elite política e econômica da Síria no começo da década de 1960. Nascido no Egito e fluente em árabe, Cohen convencia tão bem como o comerciante Kamel Amin Thaabet que chegou ao posto de ministro da Defesa do arqui-inimigo de Israel. A história é real e eu já sabia como acabava quando comecei a assistir, o que não prejudicou em nada a tensão que a série transmite. Com ótima reconstituição de época, "O Espião" discute vaidade, amor à pátria e até que ponto um Estado pode exigir sacrifício de seus cidadãos. Também fará com que Sacha Baron Cohen seja levado a sério.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

MARKETING DO ÓDIO

Era uma vez uma pequena cervejaria do sul do Brasil. Sem dinheiro para uma grande campanha publicitária nem um diferencial forte para seu produto, seus donos resolveram apelar. Publicaram o banner ao lado em sua página no Facebook, na esperança de receber pedidos de todo o país. Os comentários negativos se acumularam, e os homofóbicos postaram que estão sendo vítimas da intolerância, ai que dó. Parece até que estamos na Polônia. Processo neles?

KIMFIM

Shippei aí no título os deputados federais Sâmia Bonfim (PSOL-SP) e Kim Kataguiri (DEM-SP), mas não fluiu. A conversa entre os dois deu mais certo: é o segundo episódio da série "Fura Bolha", do Quebrando o Tabu. Vai ser triste para os minions ver que eles se tratam com cortesia na vida real, e um alívio para os civilizados como nós perceber que nem tudo está perdido. Também é bacana ver que o fralda-marrom está aos poucos se tornando hominho, deixando para trás as molecagens que marcaram os primórdios do MBL. Tomara que seja para valer.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

NO MAMES, GÜEY


Para que a plateia torça por um protagonista bandido, ele precisa ser simpático, charmoso ou pelo menos ter um ótimo motivo para ser do mal. Cagalera, o pivete violento e covarde de "Chicuarotes", não é nada disso. Não dá nem para culpar o meio de onde ele vem: seu irmão gay e gorducho é pacato e quase um intelectual. Palmas para Gael García Bernal, que não quis sequer criar um anti-herói neste filme que dirigiu. "Chicuarotes" bebe da fonte de "Amores Perros", "Cidade de Deus" e outros tantos títulos que tratam da miséria e da marginalidade. O México que aparece na tela é horrendo. Masculinidade tóxica é elogio para os brutamontes que ditam o ritmo de uma pequena cidade na periferia da capital, e Cagalera será um deles no futuro. Cabe às mulheres mudar o curso da história, e tanto a mãe como a namorada do personagem o fazem. "Chicuarotes" não é propriamente agradável de se ver - mas propõe uma reflexão interessante, güey.

O PAÍS A FAVOR DE FELIPE

Ainda estou sob o impacto da atitude madura e progressista do Felipe Neto nesse auê da Bienal do Livro. Se eu não tivesse idade para ser pai dele, estaria apontando o youtuber aos marcianos que me pedissem "levem-nos ao seu líder". Mas claro que o rapaz não é unanimidade. O deputado federal Carlos Jordy (PSL-RJ) - o mesmo que, em março passado, tentou jogar em Felipe a culpa pelo massacre na escola de Suzano (!!!) - subiu no Twitter a hashtag #PaisContraFelipeNeto, só para vê-la explodir na sua mão feito a bomba do Riocentro. Os apoiadores do vlogueiro tomaram-na dos minions e bots, em mais uma vitória do Bem contra o Mal. Só que essa não é a única investida contra Felipe Neto: tem muito gado mugindo nas redes que ele "apresenta as crianças ao mundo dos travestis" e outros absurdos do gênero. O fato é que essas fake news só atingem quem já não gostava do cara, e pouco abalam seu enorme fã-clube. Mais triste é ler críticas de gente que nem é bolsominion, mas acusa Felipe de "querer se promover" e/ou de surfar na modinha LGBT, já que em priscas eras ele fez vídeos contrários aos direitos igualitários. Tem também os sommeliers do bolso alheio, que o criticam por não dar dinheiro às escolas carentes ou para reaparelhar a polícia, funções que cabem ao Estado. Aliás, fica a dica: quando você se deparar com esse tipo de "whataboutism", fuja em desabalada carreira. É a pessoa que o faz que tem todos os defeitos que quer denunciar nos outros.

domingo, 8 de setembro de 2019

STONEWALL IN RIO

Bem-feito pro Bozo. Planejou um 7 de Setembro onde ele seria a grande estrela. Chamou Silvio Santos, Edir Macedo e o Véio da Havan para coadjuvantes, desfilou no chão tentando sugar um pouco da popularidade de Sergio Moro, regeu os Dragões da Independência. E foi ofuscado pela molecada na Bienal do Livro, que fez passeata e gritaria contra a censura de Marcelo Crivella, e por um líder inesperado: Felipe Neto. Hoje finalmente o STF deixou claro que ninguém pode recolher livro nenhum, mas a Prefeitura do Rio ainda fez jogo de cena dizendo que vai entrar com recurso. Eles mesmos sabem que não vai dar em nada, mas o objetivo sempre foi apenas impressionar os trogloditas que querem que a homofobia seja política do Estado. Crivella não tem nada a apresentar em sua campanha de reeleição, então apela para o que há de mais baixo na humanidade. Doria, que foi pelo mesmo caminho, agora diz que não precisa pegar tão pesado assim. Pesado pegaremos nós: com a liberdade de expressão não se brinca, muito menos com a cidadania plena. Homofobia é crime e casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal. Se a sua religião acha feio, problema dela. Ontem rolou um Stonewall na Bienal do Livro, e foi só um aperitivo. Outros virão.

sábado, 7 de setembro de 2019

UM PREFEITO DE QUINTA

Naquela quinta-feira, Marcello Crivella acordou super bem-disposto. O prefeito do Rio de Janeiro se sentia ainda mais cheio de energia e amor do que de costume, e com uma vontade avassaladora de fazer algo especial pela cidade. Mas por onde começar? Qual problema urgente mereceria mais a sua atenção?

Um assessor lembrou da saúde pública, e Crivella pediu a seu motorista para tocar para um hospital municipal. "Vou dar uma incerta, chegar sem avisar", pensou, com um toque de malícia. Logo depois, se arrependeu. "Isto não é muito cristão de minha parte".

O prédio havia sido reformado recentemente e luzia de novo. O brilho do chão chegava a incomodar. No saguão amplo e arejado, algumas poucas pessoas iam de lá para cá, sem pressa nem aflição.

O alcaide foi até a recepção e pediu para falar com o diretor. "A diretora", corrigiu a recepcionista, portadora da síndrome de Down. Em seguida apareceu a dra. Cleusa, negra, lésbica, gorda a umbandista. Crivella conteve a supresa e perguntou: "Algum problema, senhora diretora? Em que podemos lhe ajudar?" 

Cleusa suspirou. "De fato, estamos com um probleminha", admitiu ela. "Há vagas sobrando. Minha equipe está ociosa. O pior é que o hospital estadual do bairro vizinho também está, e eles vêm até aqui para roubar os meus pacientes. Chegam a oferecer dinheiro para o pessoal se internar lá. Só ontem perdi dois!"

Crivella sorriu desanimado, disse que não podia fazer nada e despediu-se. Do hospital, rumou para uma comunidade carente. Quem sabe, lá ele conseguiria dar vazão aos ímpetos benfazejos que formigavam por todo seu corpo?

Qual o quê. Ruas asfaltadas e arborizadas, crianças na escola, comércio funcionando. Nada de esgoto a céu aberto. Nem uma única bala perdida. Uma monotonia só. "Maçada!", resmungou o prefeito, com cuidado para ninguém ouvir.

Na saída, ainda teve que se desvencilhar do pessoal de uma escola de samba, que o homenageou com o samba-enredo do ano que vem. Convidaram-no a desfilar. "Não sei se consigo, oito escolas já me chamaram", riu, sem graça. 

Disfarçando a irritação, Crivella entrou no carro oficial e pediu sugestões ao seu staff. Um colégio? Todos a plena vapor, atraindo alunos da rede particular. Uma delegacia? Quase todas viraram balcões de informações para turistas. Uma praia? Limpas, seguras, uma chatice. Fora que está nublado, não rende foto boa.

Começou a bater o desespero. Com mais de um ano de mandato pela frente, Marcelo Crivella se aterrorizou com o tédio que se aproximava a passos largos. Quer dizer, então, que não havia mais nada que ele pudesse fazer pelos cariocas? Nenhuma questão a ser resolvida? Como preencher tanto tempo? 

Foi aí que seu celular soltou aquele "ping" característico de mensagem entrando. Sem muita esperança, Crivela desbloqueou a tela do aparelho e entrou primeiro no aplicativo, depois no grupo. Então seus olhinhos se iluminaram. Bem à sua frente, descortinou-se aos poucos uma ilustração. Dois rapazes se beijando.

INFLUENCIADOR PARA VALER


Como qualquer pessoa acima dos 30 anos e com mais de dois neurônios na cabeça, eu achava o Felipe Neto um babaca até meados do ano passado. Não que eu prestasse muita atenção nos seus vídeos, mas o pouco que eu vi me bastou para arquivá-lo no meu almoxarifado mental. Aí, depois que o Bozo foi eleito, Felipe se revelou não só um rapaz dotado de senso crítico e inteligência, como um autêntico líder. Um influenciador que vai além do digital. Haja vista a ação que ele promove hoje na Bienal do Livro do Rio de Janeiro: a distribuição gratuita de 14 mil livros de temática LGBT. O que va ter de adolescente lendo essas páginas e se dando conta de que não é pecado ser gay, lésbica ou trans me enche o coraçãozinho de esperança. São reações épicas como esta que vão fazer oportunistas feito Doria ou Crivella perceberem que estão apelando para uma faixa ínfima do eleitorado. Enquanto estivermos vivos e com gente como Felipe Neto do nosso lado, esses retrocessos no pasarán.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

ALL MY TROUBLES SEEMED SO FAR AWAY


Toda a graça de "Yesterday" está no trailer. O roteiro não sabe o que fazer da ótima premissa: como seria um mundo onde quase ninguém se lembrasse dos Beatles? Jack Malik lembra e, graças a isso, passa de cantor de barzinho a superstar global em apenas um mês. Legal, né, mas e daí? Só os conflitos mais óbvios: a namorada de anos acha que está sendo esnobada, e Jack se sente culpado por estar mentindo. Não ajuda muito o ator Dimesh Patel não ser bonito, carismático ou mesmo um grande intérprete. Ele não teria cadeiras viradas no "The Voice", porque não passa do nível de... cantor de barzinho. Mas o filme traz várias piadas inteligentes, uma simpática participação de Ed Sheeran e um momento realmente tocante, que eu não posso dizer o que é. Pairando sobre tudo, a glória da música dos Beatles. Isso não é pouco, só que não é cinema.
Sabe o que é melhor do que "Yesterday"? "Tiozão", o vídeo produzido pelo Porta dos Fundos para promover o filme. Um exemplo de branded content bem feito.

LACRADO E RECOLHIDO

Quase todo político diz coisas que ele sabe serem inviáveis, só para agradar seu eleitorado mais fiel. Mas o prefake Marcelo Crivella foi longe demais, porque não demorou para quebrar a cara. O suposto bispo gravou um vídeo avisando que ia mandar a Bienal do Livro recolher "Vingadores - A Cruzada das Crianças", uma graphic novel da Marvel onde aparecem dois caras se beijando, "para proteger nossas crianças". O que chegou na Bienal foi uma notificação extrajudicial pedindo para que o tal gibi fosse embalado. E a Bienal respondeu que hahaha ocê num manda inheu. Não vai recolher nem embalar porra nenhuma, e Crivella teve a boquinha lacrada e foi recolhido à sua insignificância.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

ARAS BOLAS

Augusto Aras é uma escolha lamentável para a PGR. Mas esta indicação do Biroliro tem um lado positivo: deixa claro para a minonzada que o mito deles não está nem aí para a Lava-Jato ou qualquer forma de combate à corrupção. O que o Despreparado quer mesmo é blindar a si mesmo e à sua família contra qualquer investigação bisbilhoteira, que revele das rachadinhas aos laços com as milícias. O Bozo, no fundo, não tem nada de ideológico, muito menos de patriota. Tudo o que ele almeja é se dar bem. Quem lê jornal já sabia disso, mas que bom que essa notícia finalmente chegou ao gado.

PERDÓN, SEÑORA

Este é o novo normal: agora, toda semana, os brasileiros de bom senso e boa educação temos que pedir desculpas a alguma figura estrangeira pelas grosserias do Despreparado. Depois da madame Macron, o alvo da vez foi Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile e atual Comissária de Direitos Humanos da ONU. Nicolás Maduro também reagiu quando ela apontou os muitos abusos cometidos na Venezuela. Mas o Bozo conseguiu ser pior do que o ditador: tripudiou que o pai de Bachelet foi morto pelo regime de Pinochet. É de uma baixaria sem limites e indigna até dos brasileiros que votaram nesse estrupício. Pelo menos foi lindo ver Sebastián Piñera e outros nomes da direita do Chile cirticarem Biroliro, mostrando que conservadorismo e boçalidade não são necessariamente a mesma coisa. No mais, como diz minha amiga Mariliz Pereira Jorge: fala mais, Bostonaro. Porque, a cada barbardidade proferida, sua popularidade desaba mais um pouquinho.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

PACHÁ E CAUXI

O Cauxi está de volta. Depois de morar conosco entre 2012 e 2013, o gato amazonense da minha enteada voltou a São Paulo. Junto com ele chegou o Pachá, um siamês nascido em Brasília. Habituado a viajar e a trocar de estado, Cauxi foi despachado e desembarcou como se nada. Explorou a casa e está à vontade. Já o Pachá encarou um avião pela primeira vez. Veio na cabine junto com meu marido e se escondeu embaixo de um móvel assim que saiu da bolsa. Só agora que anoiteceu é que ele se aventurou a conhecer o apartamento. Os dois vão estranhar muito: até a manhã de hoje, moravam em uma casa nos arredores de Cavalcante, na Chapada dos Veadeiros. Agora vivem na região da av. Paulista. Só sairão daqui quando minha enteada, que está de mudança com a família para Lisboa, puder recebê-los por lá. Nesse momento, seria trabalheira demais. Já bastam duas crianças. Melhor para mim, que voltei a ter a casa cheia de bichos.

PRETINHO BÁSICO

Sábado é dia de usar preto pelo Brasil. Biroliro convocou o gado a vestir verde e amarelo "em defesa da Amazônia", o que não faz sentido: todo mundo sabe que foi ele quem deu o aval para grileiros e madeireiros tacarem fogo na mata. Portanto, vamos sair de luto pela pátria chamuscada. Mas também porque preto emagrece e cai bem, e a elegância é um insulto para aqueles que não a tem.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

FURACÃO DORIA

Não votei em João Doria para prefeito. Não votei em João Doria para governador. Mas talvez tenha que votar nele para presidente, se o outro candidato disputando o segundo turno de 2022 for o Biroliro. Doria está se movimentando para capturar o voto dos minions arrependidos, tentando se mostrar como um moderado e até encampando as pautas medievais desse eleitorado. Hoje ele mandou recolher um livro escolar que, supostamente, defende a ideologia de gênero, uma quimera da direita que não existe na vida real. Era um material para adolescentes, sem ilustrações e com definições claras de termos como "cisgênero". Doria não é um brucutu como o Bozo e sabe que não é a ausência de um livro que vai impedir que surjam gays e transexuais. Mas dá provas de cinismo e falta de escrúpulo ao destilar homofobia, ainda que de forma sutil. É um furacão no pior sentido da palavra: um desastre de categoria 5, capaz de destruir o que estiver no caminho para alcançar seu objetivo.

BORSCHT SEM CARNE


Não sei o que aconteceu, mas os filmes franceses estão chegando mais depressa no Brasil. Antes só vinham os premiados e as grandes bilheterias, muitas vezes com um ano de atraso. Agora eles entram em cartaz por aqui meros dois meses depois de estrear em Paris, e podem não ser grande coisa. É o caso de "Minha Lua de Mel Polonesa". O trailer acima vende uma comédia: um casal de judeus franceses - ela religiosa, ele nem tanto - vai passar uns dias em Cracóvia, na Polônia, gerando confusão e gargalhadas. O filme em si é bem mais sério: a moça procura traços da avó, que nasceu na Polônia, e está mais interessada em uma homenagem às vítimas do Holocausto do que em fazer turismo. Acontece que, como em outros filmes de temática judaica, não se fornece uma chave emocional para os goyim entrarem na história. Para mim o resultado ficou bem aquém do esperado, como a sopa borscht sem pedaços de carne que irrita a protagonista em um restaurante típico.