domingo, 19 de agosto de 2018

OSTENTAÇÃO ORIENTAL

Imagina se, obcecado como estou, eu não ia baixar a trilha de "Crazy Rioch Asians" no mesmo dia em que ela saiu. É uma compliação admirável para um filme de Hollywood: 13 das 14 faixas são cantadas por mulheres de origem chinesa, em chinês. Verdade que há algumas versões de hits americanos no meio, como "200度" na voz de Sally Yeh - originalmente conhecida como "Material Girl", de Madonna. Mas também há coisas do passado, como um cha-cha-cha made in Hong Kong, ou contemporâneas feito o dueto entre duas participantes de um concurso de rap que fez sucesso na televisão de lá. Não chega a ser uma introdução ao cantopop ou ao mandopop, as duas principais vertentes atuais da música da China. Mas é um álbum divertido, glamuroso e cosmopolita. Nesses tempos em que o mundo parece andar para trás, é tão necessário como um biscoito da sorte.

sábado, 18 de agosto de 2018

O ESTADO É LAICO

Agora é oficial: Marina abriu mão dos evangélicos mais radicais, em troca das pessoas sensatas e equilibradas. Tanto que o Malafaia já saiu vociferando contra ela no Twitter - o que talvez não queira dizer muita coisa, já que o pastor finge ter um poder muito maior do que de fato tem. Afinal, ele falou que ia engolir o Boechat há mais de três anos e, até agora, nada... Bolsonaro percebeu a estratégia e está tentando apilicá-la com o sinal invertido, em benefício próprio. Vai dar certo? Esses debates influenciam nas pesquisas? Só sei que a minha intenção de voto em Marina Silva está mais firme do que nunca. Vamos ver se ela não põe tudo a perder dizendo que não é bem assim, como das outras vezes.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

FESTIVAL NACIONAL


Perdi muitos longas brasileiros nos últimos tempos. "As Boas Maneiras", "Canastra Suja" e "Berenice Procura" não ficaram em cartaz tempo suficiente para que eu os visse no cinema. Como ato de contrição, esta semana vi nada menos do que quatro filmes pátrios. O primeiro foi "O Candidato Honesto 2", que só estreia no dia 30. Não vi o anterior, mas não tenho nada contra essas comédias de apoio popular. E acabei gostando mais do que esperava, porque o roteiro mexe com quase toda a política brasileira recente: Lula, Boçalnaro, Dilma, a Lava-Jato, o impeachment. E nada é mais engraçado do que o vice-presidente Ivan Pires ("vampires", entendeu? entendeu?), que não é refletido pelos espelhos. O maior trunfo do filme também é o seu problema: Leandro Hassum, ator de um personagem só, seja ele gordo ou magro. Hassum costuma enveredar por improvisos galopantes, que cansam quando passam da dose. O final também podia ser menos piegas...


A pieguice passa ao largo de "Uma Quase Dupla", que mantém a acidez do começo ao fim. Tatá Werneck está fantástica como sempre ("eu fui diagnosticada como feia aos 12 anos de idade" - aposto que foi ea própria quem escreveu essa fala para si mesma). A surpresa fica a cargo de Cauã Reymond, com quem ela forma uma dupla de policiais de estilos opostos que investiga um serial killer em uma pacata cidade do interior. Sem ser naturalmente engraçado, Cauã faz a lição de casa direitinho e consegue ter química com Tatá, que não o engole em cena. Com muito timing na direção e um bom elenco de apoio, desse eu até veria uma continuação.


Também tem muitos crimes em "O Nome da Morte", mas em chave totalmente distinta. Baseado na história real de um pistoleiro de aluguel, o roteiro de George Moura cria suspense a cada assassinato, mesmo com a gente sabendo o que vai acontecer. Marco Pigossi mostra que fez bem em sair da Globo: livre da obrigação de ser galã, ele faz um sujeito complexo, carregado de culpa e crueldade ao mesmo tempo. Fabíula Nascimento também está ótima, com um peronsagem pequeno porém melhor do que ela costuma encarar nas novelas. O diretor Henrique Goldman, que fez o mediano "Jean Charles", mostra que é um nome a se prestar atenção no cinema nacional.


Já "O Animal Cordial" é um filme-problema. Rodado com baixo orçamento em um único cenário, o longa de estreia de Gabriela Amaral não tem nada do que se espera de um "filme de mulher" - só uma forte protagonista feminina. No papel, Luciana Paes revela dois dotes desconhecidos para mim, que só a tinha em comédias: um baita talento dramático e um corpão da porra. Mas a história não tem muito pé nem cabeça: um assalto a um restaurante dá horrivelmente errado, quando o dono do lugar (Murilo Benício) resol ve que vai matar todo mundo. Qual é a motivação dele? Ou é uma metáfora do capitalismo? Enfim, gostei mais de ter visto do que do filme em si.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

R-E-S-P-E-I-T-O

Ah, as ironias do destino. Aretha Franklin morreu bem no dia do 60o. aniversário de Madonna, para nos lembrar que ela também é rainha e que sempre o será.

SESSENTA E SEX

Só hoje, no dia de seus anos, é que Madonna lançou no YouTube a versão completa de sua performance no Met Gala, em maio passado. O vídeo incorpora imagens gravadas pelos muitos celulares presentes, mas tem uma certa frieza. Por causa da ocasião? O tema do baile era a influência do catolicismo na arte e na cultura, e o repertório escolhido por Madge não fez por menos. Vai da clássica "Like a Prayer" à "Hallelujah" de Leonard Cohen, com a nova "Beautiful Game" no meio. Pode não ter sido uma apresentação histórica como o show do Super Bowl ou o "Vogue" à Luís XIV dos VMAs de 1990, mas dá para perceber que Madonna ainda bate um bolão. Agora estou doido para ouvir o álbum que ela está gravando - ao que consta, cheio de influências lusófonas. Será que vai ter a participação do pianista brasileiro João Ventura, que mora em Lisboa e participa do vídeo acima?

O CANDIDATO DA ALEGRIA


Hoje começa a campanha eleitoral na internet (na TV e no rádio, só a partir do dia 30). Portanto, vou começar desde já a fazer campanha pelo meu candidato a deputado federal por São Paulo: Wellington Nogueira, da Rede. Somos amigos há mais de 20 anos, mas não é só pela brodagem que eu vou votar nele. Wellington é o fundador dos Doutores da Alegria e conhece a fundo as mazelas da saúde pública no Brasil. Também é um cara sensível, antenado com seu tempo e defensor de várias causas que me são gratas, da democratização da cultura ao fim do foro privlegiado. Foi um dos 136 bolsistas aprovados pelo movimento Renova BR, que está preparando candidatos de diversos partidos para concorrer nessas eleições. Portanto, não é nenhum arrivista querendo mídia. Saiba mais sobre o Wellington e suas propostas em seu site, que acabou de entar no ar. E lembre-se: não adianta votar no melhor presidente do mundo se descuidarmos do Congresso. O poder Legislativo é o maior dos problemas políticos do país. Vamos expulsar a corja atual e eleger nossos verdadeiros representantes.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

JESUS É TRAVESTI

Não existe homofobia no Brasil, dizem os homofóbicos. Homofobia é violência física: se eu nunca dei uma lampadada numa bicha, então eu posso discordar do homossexualismo, dizem os homofóbicos. Tenho até amigos gays, dizem os homofóbicos. No entanto, travesti é uma ofensa pesada para os homofóbicos que dizem que não o são. Acham que Jesus está sendo ultrajado se ele for retratado como travesti. É como se estivessem cobrindo o Redentor de merda, pois os travestis são a merda da sociedade para esses não-homofóbicos. Por isto, tentam censurar uma peça como "O Evangelho Segundo Jesus, a Rainha do Céu", onde Jesus é vivido pela atriz trans Renata Carvalho. Por isto, proíbem Johnny Hooker de se apresentar na Parada da Diversidade de Teresina, porque o cantor disse que "Jesus é travesti". Quer dizer, não proíbem: só não garantem a segurança, depois que Hooker recebeu ameaças de morte desses não-homofóbicos imbuídos de caridade cristã. Pabllo Vittar foi convidada a subsitituir Hooker: será que acham mesmo que ela é inofensiva? Seu eu fosse a Pabllo, abriria o show gritando em alto e bom som: Jesus é travesti! E se alguém reclamasse, eu então responderia: problema seu.

MARINA E OS DIAMANTES

Se o primeiro turno fosse hoje, eu votaria em Marina Silva. Já estava pendendo para ela, desde que Ciro Gomes cortejou o abominável Centrão. Fiquei ainda mais propenso depois que Eduardo Jorge entrou para a chapa de Marina: foi nele que eu votei em 2014, e concordo com todas as suas ideias. Hoje eu me decidi. Marina finalmente incluiu o casamento gay em seu plano de governo, o que também revela um cálculo político interessante. Ela deve ter percebido que os evangélicos mais radicais irão para o colo do Boçalnaro, e alguns até para o Cabo Daciolo. Melhor então remover o empecilho que não deixava os modernetes como eu aderirem à sua campanha. Pena que ela terá pouco tempo de TV, e que também seja um alvo fácil para seus adversários. Mas o meu apoio, Marina já conseguiu.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

OMAROSA COM AMOR

A imprensa mundial está fazendo um bafafá com a "tweetstorm" do Trump conta sua ex-assessora Omarosa Manigault, como se o presidente americano algum dia tivesse se comportado. O livro que a própria Omarosa está lançando, "Unhinged", também está atraindo muita atenção - apesar de não ser nenhuma novidade o fato de Trump ser desequilibrado. O que está passando meio despercebido é um detalhe curioso: Omarosa foi demitida pelo general Kelly, o chefe do gabinete de Trump (equivalente ao nosso ministro da Casa Civil), sem que o próprio presidente soubesse. E assim ficamos sabendo que quem cuida mesmo do dia-a-dia da Casa Branca é um discreto militar linha-dura, não o milionário desbocado que ameaça destruir o Ocidente. Isto é bom? Acho que sim - qualquer um é melhor que o bebê chorão alaranjado. Mas não deixa de ser engraçado ver que a ex-concorrente do programa "The Apprentice", tão despreparada quanto Trump para a vida pública, pisou num calo especialmente dolorido dele. Pisa mais, Omarosita.

QUALQUER GÊNERO DE PAPEL

Um mês atrás, Scarlett Johansson abriu mão do papel de um homem trans depois de ser massacrada na internet por não ser ela mesma um homem trans. Resultado: agora o filme "Rub and Tug" corre o risco de nem ser feito, pois simplesmente não há um homem trans famoso o bastante para atrair público e investidores. E já temos uma outra treta do gênero (DE gênero?) rolando online. O ator Jack Whitehall foi escalado para viver uma poc efeminada no filme "Jungle Cruise", baseado naquele clássico passeio de barco pela selva na Adventureland, na Disney. Mas ele é hétero na vida real, e portanto deveria ceder seu lugar para um pobre ator poc efeminado que só consegue papel de poc efeminado. Ninguém precisa me explicar como é difícil para qualquer ator se assumir gay, especialmente se ele for homem. Os papéis minguam mesmo, e toda uma carreira pode escorrer pelo ralo. Mas exigir que só gays façam papel de gays tem uma contrapartida perversa: então só HT pode fazer papel de HT? Acontece que atuar é justamente fingir ser algo que não se é. Eu sou a favor da escalação "color blind", que ignora a cor da pele do ator, e claro que também acho que a orientação sexual não deve ser levada em conta. A luta tem que ser para que todos tenham a chance de fazer tudo, e não se fazer reserva de mercado para esta ou aquela minoria. Ou é só assassino que pode fazer papel de assassino?

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

WAL PARAÍSO

Açaí, ôô, é um pouquinho de Brasil, aiai... Wal se acostumando, minions: vosso mito tem os pés de barro e a mão enfiada no dinheiro público. Está sendo divertidíssimo ver vocês tentando justificar o fato de Walderice Santos da Conceição, a feliz proprietária da loja Açaí da Val em Mambucaba, ser contratada como funcionária do gabinete do Bolsonazi. Não importa que o salário dela seja baixo: já pensou o que o vo-mito seria capaz de fazer se tivesse acesso aos contratos com as granes empreiteiras? Desonesto ele já provou que é. E vocês provam que são burros mesmo, pois caíram no conto desse espertalhão que só finge ser um paladino contra a corrupção. Vamos parar de rescura? Está na hora de vocês admitirem que gostam do Boçalnaro porque são tão machistas, homofóbicos e despreparados como ele. Ah, e desonestos.

CHINA IN A BOOK

Voltei da Ásia obcecado pela Ásia. Durante meu primeiro mês de volta ao Brasil, sonhava todos as noites que ainda estava por lá. Agora faço pequenas viagens logo antes de dormir, nas páginas de "Crazy Rich Asians". O livro de Kevin Kwan já foi lançado em português e gerou o filme "Podres de Ricos", que estreia por aqui em novembro. Antes disso, já estou me deliciando com este espécime exótico da "chick lit", os livros para garotas que são um dos pilares da indústria literária americana. A história não pode ser mais velhusca: garota de classe média é desprezada pela família do noivo rico, que acha que ela não passa de uma vigarista. Mas o frescor de "Crazy Rich Asians" vem do fato de que todos os personagens são de origem chinesa, movendo-se entre palácios e boutiques em cidades como Singapura, Hong Kong e Paris. Estou me divertindo à pampa, além de aprendendo um monte de gírias da comunidade chinesa no Sudeste Asiático que um dia podem ser úteis. E me perguntando: por que não existe "chick lit" made in Brazil? Alguém se habilita?

domingo, 12 de agosto de 2018

O JOGO DO DESCONTENTE

Só ontem que eu vi a tal da cena da novela "As Aventuras de Poliana" que eriçou a internet, exibida no capítulo de quarta passada. É de cair os olhos da cara, para não dizer outra coisa - veja com os seus próprios, ela começa na altura do 08:04 no vídeo acima. Eu já me posicionei algumas vezes contra o conceito de "lugar de fala", mas hoje vou enfiar minha viola no saco. Isto é o que dá quando não se tem um único negro na equipe de roteiristas de uma novela que resolve discutir o racismo. A fala da coordenadora Helô, vivida pela atriz Elina de Souza, jamais sairia da boca de uma negra na vida real. Dizer que boa parte do racismo não passa de mimimi dos próprios negros, que se colocam à parte do resto da sociedade, é justamente o discurso da direita mais radical. A mesma que jura que a homofobia não existe no Brasil e que o feminismo é o exato oposto do machismo. O SBT tem um longo histórico de piadinhas e atitudes desrespeitosas com os negros, e a maioria vem do próprio dono da emissora. E com quem é casada dona Íris Abravanel (como ela é chamada pelos funcionários do canal, mesmo os diretores mais graduados), a autora principal da novela? Pois é. Todos juram que não têm nada de racistas, porque jamais chicotearam um negro acorrentado ao pelourinho. Mas o racismo se manifesta em pequenos gestos, em palavras descuidadas, em cenas rápidas de novela. "As Aventuras de Poliana" é gravada com muita antecedência, mas o que cabia agora era preparar uma cena de retratação e colocá-la no ar o mais rápido possível. O SBT parece ter acordado para o clamor dos descontentes: o humorista Jacaré Banguela, por exemplo, não faz mais parte do júri do programa "Eliana" depois da piada que fez com Jaden Smith. Mas mexer na novela da mulher do patrão talvez seja pedir demais. E assim, uma programação que já é antiquada ruma a passos firmes ao século 19.

sábado, 11 de agosto de 2018

UBER DRIVER


"Você Nunca Esteve Realmente Aqui" vem sendo comparado a "Taxi Driver", o filme de 1976 que consagrou Martin Scorsese como um mestre do cinema. De fato, há alguns paralelos entre os dois filmes: ambos são protagonizados por homens meio malucos, que vivem em meio à violência extrema e encontram a salvação ao salvar uma garota loura. Mas Joaquin Phoenix não tem a empatia de Robert De Niro, que fazia a plateia torcer por ele mesmo quando falava "you talkin' to me ?" para o espelho. A diretora Lynne Ramsey constrói planos elegantes e usa o sangue de maneira inteligente, mas a trama não é das mais claras: se Phoenix vive um assassino de aluguel, porque ele se choca com tanta maldade? só veja se tiver estômago.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

URSAL MAIOR

E aí, já tirou seu passaporte da Ursal? Nenhuma pessoa com mais de dois neurônios na cabeça jamais tinha ouvido falar da União das Repúblicas Socialistas da América Latina até o debate de ontem. Aí o Cabo Daciolo deu com a língua nos dentes e a ideia pegou: agora todo mundo quer morar nesse país, o mais legal de todos. A quinta maior economia, todos os recursos naturais possíveis, todos os ecossistemas, as melhores praias, nove Copas do Mundo e apenas duas línguas, cujos falantes se entendem mutuamente. Ciro Gomes foi aclamado como o Líder Supremo, mas Manuela D'Ávila, em visita a Buenos Aires, convidou Pepe Mujica para ser o presidente ursalino - e ele aceitou!! Agora falta inventar o trago típico do novo país, à base de rum, pisco, cachaça e tequila. A dúvida é o que mais misturar nele. Carambola? Guanábana? Coca?

SÓ OUÇO VERDADES

Fiquei vendo o debate na Band até soçobrar de tanto sono, e acabei perdendo a estreia no "The Voice" da música que o Lulu Santos fez para o namorado. Mas a apresentação pode ser conferida na GloboPlay, que insiste em não deixar que seus vídeos sejam embedados. Que delícia que é ver um cara feito o Lulu, aos 65 anos, rebolando de amor por outro homem na maior emissora do país! "Orgulho e Preconceito" não é um hit imediato, desses que pegam o ouvido e não largam mais, mas sua importância não pode ser diminuída. É maravilhoso que um artista estabelecido (e tido por hétero por muita gente, que tolinhos) se exponha desse jeito, ainda mais numa época de trevas como a atual. Então era mesmo verdade o que diziam: Lulu só saiu do armário para ganhar mídia e faturar com essa nova canção. Eu já baixei. Lux, te amo.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

CABO DO MEDO

Por incrível que pareça, existe um candidato à presidência da República ainda pior do que o Boçalnaro. É o Cabo Daciolo, um fanático religioso que quer transformar o Brasil em uma teocracia. Daciolo elegeu-se deputado federal pelo PSOL, de onde foi expulso em 2015 depois de propor uma emenda para mudar o primeiro parágrafo da constituição para "todo poder emana de Deus". De lá foi para o PT do B e agora está no Patriota, o partideco que quase recebeu o Bolsonazi. Pastor evangélico, ele também "profetizou", no plenário da Câmara, que a deputada Mara Gabrilli, que é cadeirante, voltaria a andar. Pois eu profetizo que ele não irá muito longe nesta eleição, até porque não tem muitos minions. Faz parte da democracia que aberrações como o cabo possam se candidatar. Mas que ele me dá medo, dá.

NÃO CHORO POR TI, ARGENTINA

As verdes perderam? Sim, no curto prazo. Aposto que, no médio, vencerão - venceremos! Como eu já disse no post anterior, o debate na Argentina sobre a legalização no aborto conseguiu reformular o problema. Aborto vai acontecer de qualquer jeito: não adianta ser contra, a mulher que quiser abortar irá fazê-lo. O que está em jogo agora é a vida desta mulher. Por isto, cada um dos 38 senadores que votou contra a nova lei será responsável pelas mortas daqui para a frente. O resultado no Senado era até esperado, pois há mais conservadores ali do que na Câmara de Deputados. E o projeto de lei deveria ter sido alterado, para se tornar mais palatável: a data limite para abortar poderia ter baixado de 14 para 12 semanas, e uma "cláusula de consciência" (liberando os médicos que se dizem pró-vida), incluída. Mas a lição foi aprendida, e uma nova legislação sobre o tema já pode ser proposta dentro de seis meses. O mais importante é que, como dizem os americanos, o gênio saiu da garrafa, e para lá não voltará mais. Há toda uma geração de mulheres que não quer mais se submeter à cultura machista, e muita gente que era contra a legalização mudou de ideia (duvido que o contrário tenha ocorrido). Não vou chorar pela Argentina, porque a legalização do aborto já desponta no horizonte do país. Enquanto isto, aqui no Brasilistão...

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

¡A ABORTAR, DEJÁME!


Está em andamento a sessão no Senado argentino que irá votar a lei que descriminaliza o aborto no país, já aprovada pela Câmara de Deputados. Nada menos do que 60 dos 72 senadores irão discursar; a votação em si deve entrar pela madrugada. Infelizmente, a tendência neste momento é de uma derrota apertada para o lado pró-escolha. Mas o debate vai continuar, e não duvido nada que essa lei volte à baila no ano que vem. O importante é que já um houve um "reframing": a discussão não deve ser sobre a existência ou não do aborto, mas se ele deve ser clandestino e perigoso ou legalizado e seguro. A sociedade de lá mudou a ponto que até já é possível fazer piada sobre o assunto. Como este vídeo produzido pela comediante Malena Pichot, que satiriza os temores dos católicos caso a lei do aborto seja aprovada.

(roubei esse vídeo da timeline da Sylvia Colombo no Facebook)

terça-feira, 7 de agosto de 2018

EU QUERO UMA CASA NO CAMPO

"Pousada Refúgio" fez sucesso nos dois meses em que esteve em cartaz no SESC Pompeia, em São Paulo. Mas o SESC é implacável: ao mesmo tempo em que financia peças que não teriam muita chance no circuito comercial, também não deixa que elas fiquem por lá muito tempo. A fila tem que andar! Mas a comédia dramática de Leonardo Cortez ganhou uma sobrevida, e agora está no Teatro Vivo todas as terças, até o final de novembro. Não duvido que dure mais tempo, que excursione, que seja montada no exterior. Porque o texto é acessível, sem apelar jamais. Em alguns momentos, o nível dos diálogos e das situações me lembrou Yasmina Reza. A trama tem mesmo um parentesco com as da autora francesa: dois casais se reúnem para jantar, junto com o irmão problemático de uma das mulheres. Ao longo da noite, eles comemoram a pousada que estão construindo juntos no interior de Minas, até que os segredos começam a aflorar. Aí o ritmo acelera e "Pousada Refúgio" se transforma em uma denúncia cômica da ganância universal. Eu ri de nervoso.

MALANDRO E INDOLENTE

O Boçalnaro acha que não é racismo dizer que "o afrodescente mais leve lá pesava sete arrobas": é só uma piada. O vice de sua chapa, o general Hamilton Mourão, vai além. Defende que, por ser de origem indígena, está autorizado a declarar que os brasileiros herdamos nossa "indolência" dos povos nativos (e ainda vomitou que nossa "malandragem" veio com os africanos, aqueles que se escravizaram sozinhos). Dá para perceber que os candidatos do PSL estão querendo fazer com o racismo a mesma coisa que pastores evangélicos tentam com a homofobia: criar a noção de que só quando acontece violência física é que ele de fato se manifesta. Gracejar, ofender ou "não concordar", tá valendo. Esse tipo de raciocínio dá uma espécie de salvo-conduto aos racistas e homofóbicos que pretendem votar na dupla. Mas só entre eles: no mundo real isto é racismo mesmo, e merece ser punido. Inclusive nas urnas.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

ABRIL DESPEDAÇADA

Uma amiga jornalista já tinha me cantado a bola há duas semanas, e hoje ela se confirmou. A Editora Abril demitiu centenas de funcionários (o número exato não foi divulgado) e fechou uma dezena de revistas. Entre elas, as versões brasileiras da "Elle" e da "Cosmopolitan" (que ficou mais conhecida pelo primeiro nome que teve no Brasil, "Nova", ou então como a revista das secretárias). Meu coração também se despedaça um pouquinho: a Abril foi uma parte importante da minha formação, dos quadrinhos aos fascículos, passando, é claro, por várias de suas revistas. Além disso, fui colaborador da casa durante seis anos, quando assinei coluna na "Women's Health". Tenho pena dos que perderam seus empregos; da empresa em si, nem tanto. É notória a inabilidade da Abril em se adaptar aos tempos da internet, tida como "um modismo passageiro" por membros da diretoria de uma década atrás. De qualquer forma, ela continua, assim como quinze de seus títulos mais rentáveis. Desses sobreviventes, o único que eu ainda compro de vez em quando é a "Superinteressante", uma excelente leitura para viagens de avião. O fato é que eu quase não gasto mais meu dindim com revista nenhuma, depois de ter sido viciado nelas por mais de três décadas. Também não compro mais CD, não alugo mais vídeo... Culpa do tal modismo.

GÊNIO INDOMÁVEL

Não sei quase nada sobre a depressão. Mas aprendi, nos últimos tempos, que não é preciso nenhuma razão objetiva para alguém ser deprimido. A pessoa pode ter tido pais amorosos e a infância mais feliz do mundo: se sua química cerebral for predisposta à depressão, já era. Dito isto, fiquei um pouco frustrado com o documentário "Robin Williams: Entre na Minha Mente", que a HBO exibe logo mais às 22. O subtítulo não se justifica. Entramos pouco na cabeça de um dos maiores gênios cômicos de todos os tempos. Seus últimos anos são cobertos de maneira superficial pelo filme. Colegas dizem que ele já não tinha o mesmo brilho nos sets de filmagem, mas por quê? Uma novidade, para mim, foi o diagnístico de Parkinsons que Williams recebeu pouco tempo antes de se suicidar. Isto esclarece um pouco as coisas, mas não tudo. Mesmo assim, o documentário vale muito a pena, principalmente por dedicar boa parte de seu tempo ao começo da carreira do ator. Seus anos como stand-up comic são pouco conhecidos no Brasil, onde ele só se tornou famoso por causa do cinema. A energia frenética e o vício em aplausos estão todos lá. Quase compensam o final abrupto - não se diz sequer que Williams se enforcou - talvez por que o filme seja meio chapa branca, feito com o aval da família. Mesmo assim, meio incompleto, reitero: vale a pena.

domingo, 5 de agosto de 2018

O MÊS DO DESGOSTO

Se você estiver em São Paulo, largue tudo e corra para o SESC Consolação, porque ainda dá tempo: hoje é o último dia em cartaz de "Agosto". A premiada peça de Tracy Letts já rendeu o filme "Álbum de Família", com Meryl Streep, mas nunca havia sido feito no Brasil. Demorou, mas ganhou uma montagem onde tudo funciona: da direção de marcas precisas ao elenco todo bom, com uma feroz Guida Vianna no papel da matriarca ferida. Eu nunca a havia visto como protagonista, nem em registro dramático, e saí arrepiado. Letícia Isnard não fica atrás no papel que, no cinema, foi de Julia Roberts, e todos os 11 atores aproveitam as generosas falas que o texto reserva para cada um. "Agosto", com suas desgraças temperadas com humor e paixão, é teatro como deve ser.