quinta-feira, 19 de maio de 2022

MORTOS-VIVOS DE RIR

Algo dá muito errado durante a rodagem de um filme de zumbis. Membros da própria equipe começam a se transformar em zumbis de verdade, sabe-se lá por que, e a atacar os colegas. Num único take de meia hora, a câmera registra o sangue jorrando feito esguicho cabeças de borracha sendo arrancadas a machado e gritos, gritos, muotos gritos. Só quando esse média-metragem acaba é que "Coupez!" (corta!, em francês) começa para valer. O novo longa de Michel Hazanavicius, diretor de "O Artista", não podia ser mais distante do elegante filme mudo que lhe rendeu um Oscar. É uma homenagem suja, irregular, com momentos dispensáveis, ao prazer de filmar, apesar dos obstáculos novos e antigos. Também é uma comédia semi-pastelão, que me fez rir alto várias vezes. "Coupez!", que abriu anteontem o Festival de Cannes, também é um metafilme: uma adaptação francesa de um roteiro japonês sobre a adaptação francesa de um roteiro japonês. Sobram críticas para os influenciadores que são contratados como atores sem a menor experiência e muitos elogios para a coragem e a disponibilidade das equipes de filmagem, sempre prontas ao improviso. Tomara que estreie logo no Brasil, mas já vou avisando: não é o tipo de humor que agrada a todo mundo.

LULANJA

Poucas coisas são mais ridículas do que os minions que reclamam da festa de casamento do Lula. Para começar, não foi nenhum evento nababesco: apenas uma recepção para 150 pessoas. Mas, e se fosse, qual o problema? Não foi gasto dinheiro público, e esse papo de que esquerdista tem que comemorar na laje, com cerveja quente e carne de segunda, só revela a má-fé de quem o diz. Pior ainda foram os gatos pingados que passaram na porta do bufê para chamar o ex-presidente de ladrão. Quem apoia miliciano que impõe sigilo de 100 anos sobre os gastos do cartão de crédito não tem lugar de fala para chamar quem quer que seja de desonesto. No mais, a seletíssima lista de convidados reuniu um mix inteligente de políticos e celebridades, perfeito para abrilhantar os sites de fofocas. Deu para perceber que houve um pensamento de marketing por trás. Que Lula e Janja sejam muito felizes, e que esta seja apenas uma das muitas chances de recomeçar que o destino está dando a ele.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

MENU CONFIANCE

Le Chateaubriand é um restaurante parisiense que existe há uns 15 anos, e se mantém na crista da onda por um detalhe interessante: não tem cardápio. O cliente não escolhe o que quer comer. A casa trabalha na base do menu confiance, um sistema comum por aqui, em que o chef manda para a mesa uma sequência de pratos surpresa, por um preço fixo. Hoje foram três entradinhas e quatro principais, sendo que os três primeiros eram à base de peixes ou frutos do mar. O último era carneiro. Depois, queijos ou duas sobremesas, sendo que uma é fixa - o doce espanhol tocino de cielo - e ainda morangos temperados com açúcar e anis para acompanhar o cafezinho, que nem tomamos. Postei quase tudo no meu Instagram (esqueci de fotografar as sobremesas...). Vai lá se você ficou curioso.

MAMÃE DANCEI

Eu esperava que Arthur do Val fosse cassado, mas o placar me surpreeneu: 73 a zero. É o que dá você ofender primeiro os servidores públicos, depois todas as mulheres do mundo. Nenhum deputado em busca de reeleição quer ficar mal com qualquer um desses dois grupos. Mamãe Falei é o típico direitomacho da nova geração. Fala merda sem o menor embasamento, posa com arminha e se finge de paladino da justiça. Está mais ligado nos "conteúdos" que produz para suas redes sociais do que nos proejtos de lei que pode apresentar. Caiu rude, assim como caiu o Monark no começo do ano. Um sinal forte de que pelo menos parte do Brasil anda de saco cheio desses ignorantões, que se acham donos da verdade e que suas opiniões racistas, machistas e homofóbicas estão acima da ética e da lei.

terça-feira, 17 de maio de 2022

MAS ELA É ARTISTA?

Interrompo as transmissões do meu séjour em Paris para dar um pitaco numa polêmica boba que está rolando aí no Brasil: Samantha Schmütz vs. Juliette. A esta altura, muito já foi dito sobre o preconceito de vários atores contra quem entrou na carreira artística por caminhos pouco usuais, especialmente pelo BBB. Eu prefiro dar dois passos para trás e reclamar de outra coisa: qual a pertinência de perguntar se Juliette é artista? Pessoas comuns não podem manifestar apoio ao Lula? Com isso, Samantha se arvorou em árbitro da categoria, e ignorou um detalhe importantíssimo: precisamos nos unir para derrotar o Biroliro. Não importa se a pessoa é artista, advogado, pedreiro, de direita, de esquerda, mau-caráter: declarou apoio ao Lula, tá dentro. Porque essa eleição não é sobre partidos nem pessoas, é sobre se queremos que o Brasil seja uma democracia ou uma ditadura militar. Simples assim.

VIVER PARA FILMAR

"Tombei amoroso" de Claude Lelouch em 1983, quando vi "Retratos da Vida" num cinema de Amsterdam. Meses mais tarde o filme estreou no Brasil, e eu aproveitei para revê-lo várias vezes. Já havia visto antes um ou outro título do diretor, mas aí fui atrás de "Um Homem e Uma Mulher" e pirei. Uma obra-prima, moderna até hoje. Tantos anos depois, Lelouch continua na ativa, mesmo acumulando alguns fracassos de bilheteria e muitas críticas negativas. Acho que implicam porque seu cinema não é político: ele sempre vai atrás do humano, das relações amorosas, familiares e de amizade. Calhou de eu chegar em Paris na semana em que entrou em cartaz um documentário sobre um dos meus cineastas favoritos, "Tourner pour Vivre" ("Filmar para Viver"). Philippe Azoulay passou três anos na cola de Lelouch, acompanhando as filmagens, a pós-produção e o lançamento dos longas "Salaud, Je t' Aime", inédito no Brasil, e "Un + Une", disponível na Netflix. Há momentos de intimidade profissional (e jamais pessoal) que só vão interessar aos aficionados como eu. De qualquer forma, o filme é uma belíssima homenagem ao homem que inventou o take giratório, em que ele fica rodando ao redor dos atores com uma câmera na mão.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

LE RÊVE EN NOIR ET BLANC

Hoje eu realizei um sonho de muitos anos. Consegui ter minha beleza imortalizada pelas lentes do Studio Harcourt, um lendário estúdio fotográfico parisiense que, desde 1934, fotografa celebridades e socialites sempre do mesmo jeito, num glamuroso preto-e-branco. Tout le monde et son père já passou por lá, de Edith Piaf a Cate Blanchett. Só que cada retrato custa por volta de dois mil euros, bem acima das minhas possibilidades. Mas eis que no Carroussel du Louvre, o shopping no subsolo do museu, há uma cabine automática em que a fotinha sai por apenas 10 euros. Você tem direito a três poses, e escolhe uma delas para imprimir.  A foto ainda sai assinada, e com uma moldura branca. A minha é essa aí acima. Gostou?

MOCKTAILS

Não posso beber nada alcoólico por causa do meu tratamento, e a amiga que me hospeda aqui em Paris tampouco consome goró. O que fazer, então, quando bate aquela vontade louca de encher a cara? Aí no Brasil são comuns as cervejas sem álcool, mas na Europa a oferta é bem maior. Tem até destilados, que nem se propõem a ser a versão light do gim ou da vodka. Compramos uma garrafa desses, e o líquido transparente parecia água saborizada, sem a menor graça. Gostamos bem mais das garrafinhas de Bellini 0%, que não dão onda mas são bem saborosas. Nos restaurantes também há cada vez mais "mocktails", com receitas elaboradas e caras em que só falta o guarda-chuvinha.

domingo, 15 de maio de 2022

SEM BOLSONARRÔ, ESPERRÔ

Esta é a 12a. vez que eu venho a Paris na vida, e até ontem eu nunca tinha visto um espetáculo do Théatre du Soleil. Porque também não é fácil: a lendária companhia teatral da diretora Ariane Mnouckkine está alojada na Cartoucherie, um conjunto de galpões no Bois de Vincennes, um parque no extremo leste da cidade. Mas dessa vez criei vergonha na cara e encarei com a minha amiga a longa viagem de metrô, seguida por um ônibus que nos deixou a três pontos da estação. O esforço valeu a pena. "L'Île d'Or", que saiu de cartaz neste domingo, é uma espécie de continuação do espetáculo anterior da trupe, "Un Chambre en Inde", com a mesma protagonista, Cornelia - uma espécie de avatar da diretora. Não há exatamente uma trama, mas uma colagem de cenas de altíssimo impacto visual, muito inspiradas na arte japonesa, mas não só. Cornelia, que está internada num hospital, sonha em fugir para Kanemu Jima, uma ilha no Japão que serve de refúgio para artistas do mundo inteiro. Mas este é só um pretexto para Mnouchkine atacar a ditadura chinesa, o conflito no Oriente Médio e até mesmo o agronegócio brasileiro, que termina com um amigo do "presidente Jaïr" matando sua amante a garrafadas. A própria Ariane fica na porta, recolhendo as entradas e recebendo o público. Não resisti e perguntei: "Madame Mnouchkine, esta montagem irá ao Brasil?" "Não fomos convidados", ela respondeu, "e só quero ir quando seu paísí já estiver sem Bosonarrô. No ano que vem, esperrô!" Ela última palavra ela disse em português, que aprendeu com sua mulher brasileira, a atriz Juliana Carneiro da Cunha, que participa em vídeo de uma cena.
 
Hoje fomos ver uma peça mais convencional, a comédia "Edmond", no deslumbrante Théatre du Palais Royal. Em ritmo acelerado, é contada a história da criação de "Cyrano de Bergerac" pelo dramaturgo Edmond de Ronstand, o maior sucesso do teatro francês de todos os tempos. Quase não há cenários, só cadeiras, lustres e adereços em cena, mas os atores são tão bons que o espectador mal percebe que a brincadeira dura duas horas seguidas, sem intervalo. Esta deve seguir temporada por muito tempo: estreou há cinco anos, e o público ainda não deixou que termine.

sábado, 14 de maio de 2022

BOLSA NOVA

O prédio circular da Bolsa de Comércio de Paris, que data da segunda metade do século 19, nunca esteve aberto para visitação nesses anos todos em que eu frequento a cidade. Mas, em 2017, a prefeitura parisiense comprou o imóvel por 86 milhões de euros, para transformá-lo num museu. Muitas reformas e uma pandemia depois, a Bourse de Commerce - Collection Pinault abriu as portas em maio de 2021. Como o próprio nome diz, o lugar serve para expor a interminável coleção de arte do bilionário francês François Pinault, dono do Magasin Printemps e do grupo Kering, que controla grifes de luxo como Gucci, Yves Saint-Laurent e Alexander Mc Queen. Ah, sim, e sogro das Salma Hayek. O museu não tem acervo fixo. Estão sempre em cartaz algumas exposições temporárias, focadas em artistas da coleção. A grande atração do momento é o escultor americano Charles Ray, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Saí de lá fã do cara.

Do lado de fora já havia uma escultura de Ray: um homem montar a cavalo, que de longe eu achei que era uma estátua viva. Lá dentro, muitos homens e rapazes esculpidos em mármore branco, vários deles nus. Meu gaydar apitou. Não tinha uma única estátua de mulher... As suspeitas foram confirmadas quando chegamos a uma sala com um viso na porta: "a obra exposta aqui pode abalar pessoas sensíveis".  E pode mesmo. "Oh, Charley, Charley, Charley..." é uma obra de 1992 que mostra uma orgia entre uns oito garotos, todos iguais de rosto e de corpo. Não vi ninguém desmaiando.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

AU VÔTIQUÉIN?

Consegui ver a bordo do avião que me trouxe para Paris um dos filmes que estavam no topo da minha lista: "Aline", a biografia não-autorizada de Céline Dion escrita, dirigida e estrelada pela francesa Valérie Lemercier. Pelo trailer eu achei que seria uma comédia desbragada, com muita tiração de sarro da magreza e da cafonice de Céline. Mas só tem uma cena que me fez rolar de rir, reproduzida aí embaixo: a família da cantora repete umas mil vezes "Vôtiquéin", ou Vaticano na pronúncia dp francês de Québec. O, resto apesar do tom quase sempre bem-humorado, é bastante respeitoso, e não duvido que a própria Céline tenha gostado. Até mesmo de Valérie tê-la interpretado em todas as fases de sua vida, desde os cinco anos de idade graças às maravilhas da tecnologia. Vamos ver se o filme chega ao Brasil.

C'EST UNE BELLE JOURNÉE

É sempre um belo dia quando a gente desembarca em Paris. Sim. amiguinhos, cheguei hoje à Cidade-Luz, onde passarei os próximos 10 dias indo a museus, teatros e restaurantes. Vim a convite de uma amiga que tem apartamento aqui: pas mal, n'est-ce pas? Minhas primeiras semi-férias desde 2018 - digo semi porque continuarei mandando colunas para a Folha, hélàs, mas algumas já estão bem adiantadas. O blog também não para. Em breve postarei minhas primeiras aventuras.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

MARIO VARGAS LOSER

Mario Vargas Llosa escreveu um dos melhores livros que eu li na vida, "A Festa do Bode", sobre o ditador Trujillo da República Dominicana. Já consagrado na literatura, ele concorreu à presidência do Peru em 1990, e teria sido um mandatário muito melhor do quenseu adversário eleito, o proto-ditador Alberto Fujimori. Desde então, Vargas Llosa foi caminhando cada vez mais rumo à direita, até passar do ponto de não-retorno. Um homem como ele, que conehce bem o Brasil a ponto de ter escrito um livro sobre a Guerra de Canudos, jamais poderia ter dito que, "apesar das palhaçadas", prefere Bolsonazi a Lula. Como disse o escritor e mue colega na Folha, ele poderia mudar o nome para Mario Vargas Loser. Até porque a derrota está se aproximando a galope.

OS FEIOS TAMBÉM AMAM

Meu post sobre a série "Hearstopper" causou um pequeno forrobodó. Não aqui no meu blog, nem no Twitter, onde eu sempre publico os links, mas no Facebook, onde supostamente só tenho amigos. Gente que eu não conheço pessoalmente e me solicitou amizade, veja só, depois se sente no direito de me atacar na minha própria timeline. E tudo isso, só porque eu falei que os atores da série são feios. Teve um sujeito que disse que eu deveria abandonar esse "discurso", já que eu não sou nenhum "deus grego". Um outro veio com o papo de que sentia vergonha alheia por mim, e teve até quem me xingasse de bolsominion. Todos foram devidamente limados do meu círculo de amizades, porque não é para virar talba de tiro ao álvaro que eu pago uma fortuna de Facebook VIP Mega Plus. Acontece que eu toquei num nervo exposto. Muitos entenderam que, ao dizer que não quero ver uma série romântica estrelada por rapazes dentuços e orelhudos, estou implicando que os feios não são dignos de serem amados. Claro que são. Longe de mim reforçar qualquer padrão, até porque eu mesmo não me encaixo neles. E quem me conhece sabe que meu gosto é eclético e que eu não tenho uma preferência nítida. Já fiquei com de tudo nessa vida. Quanto a "Heartstopper", acho maravilhoso que a garotada de hoje que está se descobrindo gay tenha uma série bobinha para projetar suas fantasias. A minha geração não contou com este privilégio.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

MIKE MYERS NO MULTIVERSO DA COMÉDIA

Fazia tempo que eu não via nada com o Mike Myers. Um dos comediantes que mais marcou a década de 90, ele andava fora do meu radar há alguns anos. Agora tive uma overdose: Myers faz nada menos do que oito papéis diferentes em "O Pentavirato", a minissérie que ele criou para a Netflix. Tem até uma personagem feminina que eu achei que fosse dele, só para descobrir depois que era da minha amada Jennifer Saunders. A trama gira em torno de uma sociedade secreta do bem, que age nas sombras desde a Idade Média para manter a humanidade no bom caminho. Só que seus integrantes começaram a morrer misteriosamente, e cabe a um repórter veterano da TV canadense esclarecer este mistério. Contando assim parece um romance de Dan Brown, o autor de "O Código Da Vinci", mas trata-se de uma comédia rasgada cheia de piadas de duplo sentido e até mesmo uma longa cena com Myers ostentando um nu frontal (não é grande coisa, já vou avisando). Com apenas seis episódios de cerca de meia hora cada, "O Pentavirato" dá para ser visto num escorregão, e tem momentos de fato muito engraçados. Mas o melhor de tudo é o multitalento de Mike Myers, que andava fazendo falta.

PULEI A CATRACA (QUASE)

Em qualquer cidade civilizada do mundo, você compra em qualquer estação de metrô um passe que pode ser diário, semanal ou mensal. Não em São Paulo. Outro dia tentei comprar créditos para meu Bilhete Único na estação mais próxima à minha casa, e fui gentilmente informado que o cartão havia expirado. Para tirar um novo, só indo pessoalmente a uma unidade da SP Trans. Mas esta não é a única inconveniência que o metrô paulistano inflige a seus usuários, que ele encara como estorvos. Para comprar bilhete com cartão de débito, não adianta ir ao caixa, que só aceita dinheiro em espécie. Tem que lutar com um terminal lentíssimo, que volta e meia está fora do ar. Hoje os três terminais da minha estação estavam "em manutenção". E aí, como é que faz? Fui ao caixa, que me mandou ao segurança, que tentou me despachar de volta ao caixa. Finalmente, uma guarda se apiedou de mim ("tenho 61 anos, estou atrasado para um compromisso, sou paciente oncológico" - sim, eu uso esse golpe baixo) e me liberou a catraca. Na volta, em outra estação, mesma coisa: todos os terminais fora do ar. Dessa vez a escrotinha da segurança não teve a menor dó. Aí eu falei que ia tirar uma foto dela e postar nas redes socias, e a mulher se escafedeu. Foi a minha deixa. Corri para uma das catracas de saída e entrei todo pimpão quando alguém saiu. Foi a primeira vez que entrei desse jeito no metrô, e espero que tenha sido a última. Também espero que a SP Trans tome vergonha na cara e ofereça um serviço muito melhor aos seus usuários.

terça-feira, 10 de maio de 2022

MARILYN MONROE NO MULTIVERSO DA LOUCURA

Hoje o mundo inteiro ficou embasbacado com o preço que o retrato de Marilyn Monroe por Andy Warhol atingiu num leilão: 200 milhões de dólares, cerca de um bilhão de reais. É o valor mais alto alcançado por uma obra produzida no século 20. "Ãin, mais alto do que Picasso?" Acontece que as grandes telas do espanhol, como "Guernica" ou "Demoiselles d'Avignon", não estão à venda. E Warhol, foi, sim, um dos maiores gênios das artes plásticas de todos os tempos. Ainda tá achando caro? Duzentos milhões de dólares foi quanto custou a produção do filme "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura". O mais recente opus da Marvel gerou centenas de empregos e deve render muito mais do que isso nas bilheterias globais. Agora, em termos puramente artísticos, vai dizer que vale mais que o retrato da Marilyn?

NÃO PAROU MEU CORAÇÃO

Cinco anos atrás, eu me derreti por "Me Chame pelo Meu Nome". Vi a história de Elio e Oliver quatro vezes no cinema, o tipo de coisa que eu não fazia desde a adolescência. Não imaginava que, a essa altura da vida, eu ainda encontraria um filme para a minha proverbial lista da ilha deserta. Tudo isso para dizer que qualquer obra que trate do momento em que alguém se assume homossexual, para o mundo e para si mesmo, sempre contará com a minha simpatia. Só que... "Heartstopper" não me pegou. Eu nem tinha planos de ver a série da Netflix, pois entendi que não era para a minha idade. Mas aí ela começou a fazer sucesso e alguns leitores pediram a minha opinião. Aqui vai ela: não sou mesmo o público-alvo. Não só porque superei faz tempo os draminhas escolares dos personagens, mas também porque os atores são feios que dói. Prontofalei. Sou de uma geração que quer ver gente bonita na tela. Já larguei a série "Young Royals", da Netflix,  porque uma das atrizes tinha a pele ruim... Os garotos de "Heartstopper", então - principalmente o protagonista - me fazem correr para as colinas. Saudades, Timothée.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

SE JUNTOS JÁ CAUSAM, IMAGINA JUNTOS

Omar Sy já era um astro na França muito antes de chegar à Netflix. Agora, graças à série "Lupin""ele virou um astro global, e a comédia de ação "Os Opostos Sempre se Atraem" só irá aumentar seu cartaz. Trata-se na verdade de uma continuação de "Os Opostos Se Atraem", um título ultra original para um filme de policiais de personalidades conflitantes, que o juntou com Laurent Lafitte pela primeira vez 10 anos atrás. Dessa vez a dupla vai investigar uma morte pavorosa - um sujeito cortado ao meio - e acaba descobrindo uma milícia de extrema direita na região da fronteira da França com a Suíça. Senti falta de ver o filme numa sala lotada, porque o público fatalmente explodiria em gritos e aplausos quando os malvados fascistas encontram seus merecidos castigos.

BONGBONG

Assim como aconteceu na Hungria em abril, as eleições nas Filipinas também não tiveram um final feliz. As pesquisas apontam para uma vitória esmagadora de Ferdinand Marcos Jr., vulgo Bongbong, filho do ditador que reinou sobre o arquipélago durante 22 anos, de 1964 a 1986, e também de de Imelda, aquela dos milhares de sapatos. Bongbong está longe de ser a ruptura necessária depois do governo populista de Rodrigo Duterte. Apesar de ter matado milhares de inocentes em sua guerra contra as drogas, Duterte entregou uma coisa que passou longe do Biroliro: crescimento econômico, um dos mais altos da Ásia. Assim ficou realmente difícil para a vice-presidente, advogada e ativista de direitos humanos Leny Robredo se eleger presidente. Ela, como assim, uma mulher com esse perfil era a vice de Duterte? Acontece que, nas Filipinas, a eleição para vice é separada, e às vezes rola de alguém de outro partido ser eleito para o cargo. Não deve ser o caso desta vez. A favorita para a vice-presidência é a companheira de chapa de Bongbong, Sara Duterte, filha do proto-ditador. Ah, nada como duas dinastias corruptas juntando forças para saquear um país.

domingo, 8 de maio de 2022

LALOVERSÁRIO

Hoje faz um ano que eu fui com minha amiga Marta à pet shop Vita & Carmelo, aqui em São Paulo, e saí de lá com um vira-lata de aproximadamente um ano, que havia sido abandonado pelos donos anteriores. No Instagram da loja ele aparecia como Theo, um nome dado pelos funcionários de lá, que eu imediatamente mudei para Lalo. Talvez devesse ter mantido a ideia inicial, que era batizar meu próximo cachorro de Lunga. O que eu trouxe para casa era um delinquente juvenil, com um lado violento que em nada ficava a dever ao personagem do Silvero Pereira em "Bacurau". Não, ele não roeu a casa inteira (de valor, só um par de fones de ouvido), e já chegou sabendo fazer suas necessidades na rua. Mas um cão que passou pelo que ele passou tem gatilhos, que nós fomos descobrindo da pior maneira possível. Quando ele se sente acuado, não hesita em morder seu suposto algoz, seja ele quem for. Mordeu minha amiga Jacqueline, que precisou levar nove pontos num dos pulsos. Mordeu os dedos do pé do meu irmão. Mordeu meu marido duas vezes, assim que o conheceu e, mais tarde, no veterinário. E mordeu a mim, seu salvador, quando eu tentei desentocá-lo para lhe dar um banho. Uma mordida em estéreo, em 3D, com os dois lados da minha mão devidamente furados. Mas não tem nada que o amor não conquiste, não é mesmo? Com carinhos, comida e uma rotina previsível (cachorros adoram rotina), Lalo se revelou um ótimo cachorro. É um team player, que cumpre os comandos na hora e parece sempre entender o que esperamos dele. Sua agressividade também foi virada do avesso. Agora ele pensa que o mundo é feito de amigos e que todo mundo gosta dele, então vive pulando em estranhos na rua pedindo afagos. Tem uma personalidade esfuziante, muito diferente do Pisco e do Nacho, meus anteriores, dois cocker spaniels recatados, dois lordes. O Lalo é um plebeu, mas também é um poço de amor, como qualquer cachorro bem cuidado. E do que é que o mundo anda precisando agora?

sábado, 7 de maio de 2022

A FRANÇA EM FRANGALHOS

"A Fratura" está sendo vendido como uma comédia, mas é tão tenso como um drama policial com reféns. O começo até engana. Um casal de lésbicas está a ponto de se separar. Uma delas, chata de galochas, passa a noite mandando mensagens para a esposa, que dorme ao seu lado. No dia seguinte, ao seguir a futura ex na rua, a pentelha escorrega e fratura um cotovelo. É então levada para um hospital público que, apesar de estar em greve, trabalha com um mínimo de funcionários e um excesso de pacientes. Muitos deles, feridos numa manifestação dos coletes-amarelos contra Emmanuel Macron. O caos é absoluto, com médicos e enfermeiros correndo de um lado para o outro, luta de classes no pronto-socorro, pedaços do teto despencando e a pentelha gritando por sua amada. O filme de Catherine Corsini pretende ser um raio-X dos diversos conflitos que quebraram a França em pedacinhos. Alguns momentos são francamente desagradáveis, outros até divertidos, mas nenhum espectador brasileiro vai demonstrar muita solidariedade. Nossas fraturas expostas são muito mais profundas e dolorosas que as da segunda maior economia da Europa.

EUROBÍCHION

As guei se apossaram do Eurovision lá por 1998, quando a israelense Dana International se tornou a primeira travesti a vencer o festival. Desde então, o vale se fez mais presente não só na plateia como também no palco. A edição deste ano, que começa na próxima terça, tem várias bibas competindo - nem todas, sinto dizer, especialmente talentosas. É o caso de Michael Ben David, também de Israel, que tentou criar um hino com "I.M." sem ter a voz ou o carisma para tanto.
Pior ainda é o cantor WRS da Romênia, que inventa palavras supostamente em espanhol como "bebébé" em "Llámame". Gosto do bate-cabelo de suas bailarinas, mas o sujeito é feinho de dar dó. E a música nem chega a ser tão ruim que é boa: é só ruim mesmo.
Não saberemos como é Sheldon Ridley no quesito formosura, já que ele opotou por esconder a cara com uma cortina de puteiro. Esse arremedo de Sam Smith vem daquele país que é o puro suco concentrado da Europa, a Austrália, mas sua baladona não é páreo para as favoritas "Brividi", da Itália (que também é meio gay), ou "Stefania", da Ucrânia.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

TESOURO DA JUVENTUDE

Dois milhões de novos eleitores é muita coisa. É mais do que o suficiente para virar o resultado de uma eleição que talvez seja apertada. Pois adivinha em quem vai votar que essa molecada entre 16 anos e 18 anos, que correu para tirar título de eleitor? No Bozo é que não vai ser. A campanha deflagrada por Anitta e endossada por Leonardo Di Caprio, Mark Ruffalo e tantos outros deu certo, para desespero dos minions. Pois eles não podiam simplesmente dizer "não, não tirem o título, vão fazer outra coisa". Na falta de argumentos, Edaír falou em baixar a maioridade penal para 16 anos, já que com essa idade se pode votar e dirigir. Mas por dentro ele está tremendo, tanto que fala todo dia no golpe que quer dar com as Forças Armadas quando for derrotado. Onde já se viu um golpe ser anunciado? Ele acha que põe medo em alguém quando fala em "meu exército"? Pois terá que se ver conosco, agora reforçados em dois milhões de jovens.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

MEU CLOSE NA GLENN

Já entrevistei muita gente que eu admiro, e às vezes mando às favas a objetividade jornalística e deixo meu lado fã bajular o entrevistado. Mas hoje eu tremi na base. Minha missão era nada menos do que conversar com minha atriz favorita de todos os tempos, a deusa suprema, a dona da porra toda. Glenn Close. Fiz a barba e até passei um perfuminho, mesmo sabendo que o papo seria por Zoom. Havia até a possibilidade de ela nem aparecer na tela: às vezes essas estrelas têm preguiça de se arrumar, e só o áudio chega até o repórter. Mas Glenn estava lá, toda sorridente, de óculos e cabelinho curto em seu apartamento em Nova York. Foi simpaticíssima, me chamou pelo nome e deu respostas detalhadas a todas as minhas perguntas óbvias, sobre sua participação na segunda temporada de "Teerã", que estreia amanhã no Apple TV+. O resultado está aqui. Antes eu já havia conversado também com a a atriz Niv Sultan, o diretor Daniel Syrkin e a produtora Dana Eden, e é uma pena que nem tudo que eles contaram coube no texto. Ainda estou zonzo, e com aquela ligeira sensação de que não há mais ninguém que me empolgue tanto para eu entrevistar.