quinta-feira, 22 de outubro de 2020

A MULHER ESQUECÍVEL

A "Rebecca" de Hitchcock não era um filme de época. A trama se passava em 1940, o ano em que o filme foi lançado. Não entendo por que insistem em refazê-lo do mesmo jeito, só trocando o preto-e-branco original pelas cores. Houve uma minissérie da TV britânica em 1997, hoje lindamente esquecida. E agora há a versão da Netflix, com a protagonista anônima - só a conhecemos como Mrs. De Winter - um pouco mais pró-ativa, ao gosto dos dias que correm. Bobagem: ela precisa ser uma mosca morta para a história fazer sentido. Lily James tem até sal demais para o papel, e de pouco adiantam os esforços em mostrá-la mal-ajambrada. O bonitão Armie Hammer tampouco é Laurence Olivier, e minha adorada Kristen Scott Thomas faz o que pode como a governanta má, reduzida a pouco mais do que uma caricatura. Mas os cenários são deslumbrantes, e o resultado pode agradar à turma que está mergulhando em "Emly in Paris" para fugir da realidade. Eu preferia uma "Rebecca" contemporânea, talvez com um casal gay. Dessa ninguém ia esquecer.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

O PAPA É POC

Quer dizer, não é, mas é S. É simpatizante, como na antiga sigla GLS. Não que eu tivesse muitas dúvidas, mas Sua Santidade deixou claríssimo seu apoio aos casais do mesmo sexo com as declarações que deu ao documentário "Francisco". A atitude do papa é um chute no pau da barraca, e ele deve atrair para si ainda mais ódio da ala tradicionalista do Vaticano e dos blogueiros "cristãos". Só que essa turma já estava perdida mesmo. O verdadeiro alvo do Bergoglio são ex-católicos como eu, que se afastaram da Igreja por causa do machismo e da homofobia explícitas. Isto quer dizer então que vou voltar a ir à missa? Só quando ela puder ser celebrada por uma mulher. 

DEU GATILHO

Adorei "La Casa de las Flores", a sátira às novelas mexicanas que teve três temporadas na Netflix. A série passou meio batida aqui no Brasil, mas foi um êxito tremendo nos países de língua espanhola. Tanto que o showrunner Manolo Caro está em vias de se tornar um Ryan Murphy latino, pois já tem um produto novo na plataforma. Dessa vez, sem um pingo de humor: "Alguém Tem que Morrer" é uma minissérie de apenas três episódios que conta, com a mão mais pesada possível, uma história de viadagem, hipocrisia e repressão na Espanha dos anos 1950. Na ditadura franquista, bastava ser gay para ir em cana, e o roteiro explora essa barbárie sem a menor cerimônia. O protagonista é um rapaz de classe alta que volta a Madri depois de uma temporada no México. O que ele não sabe é que sua família lhe arranjou uma noiva. O que eles não sabem é que ele trouxe um bailarino mexicano na bagagem, por quem está perdidamente apaixonado. O elenco reúne astros hispânicos como a diva almodovariana Carmen Maura, o guapo Carlos Cuevas de "Merlí" e a Paulina de la Mora de "La Casa de las Flores", Cecilia Suárez. Só ela está realmente bem, porque é a ´punica que ganhou um personagem minimamente complexo. Os demais são clichês ambulantes, e as situações forçadas são dignas daquelas pecinhas que encerram as sessões dos circos do interior. Quem estiver a fim de um dramalhão bem produzido vai se regalar. Para mim, essa série obcecada por rifles deu gatilho.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

GOOD NEWS, EVERYONE!

A partir de hoje, eu pago meia entrada nos cinemas, nos teatros e nos museus. Posso estacionar nas melhores vagas do shopping, bem perto do elevador. Ônibus e metrô são de graça, inclusive em viagens interestaduais. Estou tentando dar uma de Professor Farnsworth da série "Futurama", que ficou puto quando um raio o rejuvenesceu e ele perdeu todas as vantagens da terceira idade. Porque fazer 60 anos é foda. Tudo bem que é apenas um número e eu aparento 57, mas a sociedade se preparou para me entregar um crachá de velho nesse dia. Agora eu sou oficialmente um senior citizen, e o preço do meu plano de saúde ficou ainda mais caro. O pior é a sensação de que, sendo bem otimista, dois terços da minha vida já se foram. Por outro lado, é sensacional chegar aos 60 e perceber que eu cumpri muitas das missões a que me propus. Também é formidável ter tantas outras missões ainda a completar, pois isso me dá gana para pular da cama e correr atrás. O tempo está passando cada vez mais rápido, mas pelo menos agora o metrô é grátis.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

MAS E A DEMOCRACIA

Há várias lições a aprender com as eleições da Bolívia. A primeira delas é que não há nenhuma onda de direita varrendo a América do Sul. Sim, partidos de direita chegaram à presidência na Argentina, no Chile, no Brasil e no Uruguai, mas em anos diferentes e com consequências mais diferentes ainda. O caso brasileiro parece ter sido um ponto de inflexão. Elegemos um energúmeno tão despreparado que assustamos a vizinhança e perdemos qualquer influência que poderíamos ter. A extrema-direita, para variar, mostrou-se incompetente no poder também na Bolívia. Não pacificou o país nem à força, administrou mal a pandemia e perdeu tanta popularidade que a presidente interina Jeanine Áñez precisou tirar o time de campo. Luís Fernando Camacho, o candidato mais reaça de todos, teve desempenho pífio, e o máximo que os moderados conseguiram propor foi Carlos Mesa, que foi presidente antes de Evo Morales. O resultado está aí: o Movimento ao Socialismo (MAS), o partido de Evo, venceu no primeiro turno. E então chegamos à segunda lição. A estratégia dos caras foi brilhante. Ao invés de insistir num líder indígena mais radical, o MAS deu a cabeça de chapa ao tecnocrata Luis Arce, que foi ministro da Economia, tem educação primorosa e carisma zero. Não ofusca o próprio Evo, que sem dúvida quer voltar daqui a alguns anos. Mas conseguirá? O ex-mandatário divide mais seus conterrâneos do que Lula aos brasileiros, e deu sobejas mostras de que pretendia se eternizar na presidência. Se Arce não for uma Dilma (i.e., inepto), o MAS terá um novo líder, como aconteceu no Equador. A terceira lição é a de que a democracia foi mais forte do que os militares e os golpistas. Biroliro deve estar se borrando neste momento.

QUE MISTÉRIO TEM CARICE?

Carice na Houten não é, nem de longe, um nome conhecido no Brasil. Mas muita gente já viu o trabalho dessa holandesa: ela foi a Melisandre de "Game of Thrones". A sacerdotisa do deus vermelho era uma mulher fria e controlada, sem grandes arroubos, e não deu a Carice a chance de mostrar seu enorme talento. Mas a atriz dá um show em "Instinto", o filme que representou a Holanda no último Oscar e agora está em pré-estreia em alguns dos cinemas reabertos. Sua personagem é mal construída: uma psicóloga experiente que, mesmo assim, se deixa manipular pelo estuprador de quem ela está cuidando em uma prisão (Marwan Kenzari, o Jafar de "Aladim"). A única explicação possível é o tesão em estado bruto, o instinto do título (e o filme só não levou pedrada porque foi escrito e dirigido por mulheres). Mas Carice perde as estribeiras pouco a pouco, uma por uma, até se desesperar pelo buraco em que caiu sozinha. Depois de um começo meio devagar, "Instinto" fica eletrizante. Não o bastante para ser um grande filme, mas sua grande atriz vale o preço do ingresso (que ainda é promocional).

domingo, 18 de outubro de 2020

JACINDA SUA LINDA

Jacinda Ardern ficou conhecida no mundo inteiro no começo de 2019, por sua resposta exemplar ao atentado que matou dezenas de muçulmanos na cidade de Christchurch. A premiê da Nova Zelândia vestiu véu para visitar os parentes das vítimas, recusou-se a dizer o nome do terrorista para não lhe dar visibilidade e ainda promoveu uma bem-sucedida campanha de recolhimento de armas automáticas. Este ano, Jacinda tornou-se uma superstar. É apenas a melhor líder mundial no combate ao coronavírus, mantendo seu país quase livre da doença. Ontem ela foi reeleita num "landsliede", um deslizamento de terra, que é como a imprensa anglo-saxã chama as vitórias eleitorais esmagadoras. A Nova Zelândia é tão evoluída que o partido rival da Jacinda também é liderado por uma mulher. Que um pouco dessa evolução se espalhe de lá pelo resto da planeta.

sábado, 17 de outubro de 2020

O ANO QUE RECOMEÇOU

1968 é chamado no Brasil de "o ano que não terminou", por causa do livro do mesmo nome lançado em 1988 por Zuenir Ventura. A tese do jornalista é que os acontecimentos daquele ano atribulado - manifestações estudantis em Paris, protestos nos EUA contra a Guerra do Vietnã, invasão da Tchecoslováquia por tropas soviéticas, recrudescimento da ditadura militar no Brasil - ainda repercutiam, 20 anos depois. Hoje 1968 está mais de meio século distante de nós, mas tenho a sensação de que começou outra vez. Porque voltamos a discutir assuntos que estavam em voga naquela época, como a igualdade da mulher e o autoritarismo do Estado. É incrível como uma série como "Mrs. America", que retrata a luta das feministas nas décadas de 60 e 70, soa atual. Também é o caso de "Os 7 de Chicago", o primeiro filme peso-pesado da próxima safra do Oscar. O segundo longa dirigido pelo roteirista Aaron Sorkin é um tenso drama de tribunal, condensando em duas horas o longuíssimo (mais de seis meses) julgamento de sete ativistas presos durante os protestos que tomaram Chicago durante a convenção do partido Democrata em 1968. Os sete, que originalmente eram oito, nem formavam um grupo homogêneo, e tinham estilos e objetivos muito diferentes. Mas foram tratados como terroristas pelo sistema judiciário, e foi ótimo ver o longa sem saber o veredito. O elenco quase todo masculino pode dominar a categoria de ator coadjuvante, com incríveis atuações de Sacha Baron Cohen como o tresloucado Abbie Hoffman e de Frank Langella como um juiz escroto. Os diálogos são tão teatrais e eletrizantes que suspeito que Sorkin tenha dado um upgrade na realidade, mas tá valendo. "Os 7 de Chicago é um filmaço, e também o registro de um conflito que voltou à tona.

AFUNDA ROBINHO

Às vezes, muito de vez em quando, eu acho que o Brasil talvez tenha jeito. Hoje é um desses dias. A reação de muitos internautas e de alguns patrocinadores levou o Santos a cancelar o contrato recém-firmado com Robinho, condenado em primeira instância na Itália pela participação no estupro coletivo de uma mulher alcoolizada. De nada adiantou subirem a hashtag LevantaRobinho: ela foi logo sequestrada pelos críticos ao jogador. De fato, os áudios das ligações gravadas pela polícia italiana não deixam margem para a menor dúvida. É chocante constatar que Robinho pensa que enfiar o pau na boca da vítima não é transar. Pior ainda é ele se dizer perseguido pela Globo e dedicar seu próximo gol ao Biroliro. Só confirma que machismo, cultura de estupro e birolismo são tudo uma coisa só. De resto, duvido que ele marque esse próximo gol, porque não vai entrar em campo tão cedo.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

A TRAVESTEEN

Queira ter gostado mais de "Alice Júnior", mas não consegui. O longa de estreia de Gil Baroni é editado como se fosse o vídeo de um influenciador digital, cheio de efeitinhos e gracinhas. Ou seja: não foi feito para a galera da minha idade. Mas a história da jovem trans que se muda de Recife para o sul do Brasil (estado não especificado) e cai num colégio ultraconservador é simpática, e a protagonista Anna Celestino Mota tem carisma. Por outro lado, o roteiro é cheio de incongruências - como assim, o colégio não sabia que sua nova aluna era trans? - e o resto do elenco está todo alguns tons acima, dando um clima farsesco a um drama bastante real. O filme ganhou prêmios em festivais, está em cartaz em alguns cinemas e acaba de chegar à Netflix. Vale a pena pelo final surpreendente, bem cabeça aberta, e por tratar com leveza de um tema que costuma ser trágico.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

QUEREM DESCRIMINALIZAR A HOMOFOBIA


Em julho do ano passado, quando o STF equiparou a homofobia ao racismo, o então ministro Celso de Mello deixou bem claro: a decisão não interfere com a liberdade religiosa. Isto quer dizer que nenhuma igreja será obrigada a casar pessoas do mesmo sexo e que padres e pastores podem continuar pregando contra quem se afastar da heteronormatividade. Um ano e pouco depois, com Celso já aposentado, a AGU resolveu pedir "esclarecimentos" ao Supremo. Quer saber se a criminalização da homofobia não interfere mesmo-mesmo-mesmo na tal da liberdade religiosa. “A proteção dos cidadãos identificados com o grupo LGBTI+ não pode criminalizar a divulgação – seja em meios acadêmicos, midiáticos ou profissionais – de toda e qualquer ponderação acerca dos modos de exercício da sexualidade”, diz o recurso. Ou seja: psicólogos "cristãos" poderiam continuar a dizer que o "homossexualismo" é uma doença curável, e qualquer "ponderação", vulgo insulto, estaria protegida. No limite, gays poderiam ser barrados em lojas, escolas, empregos e restaurantes, desde que o proprietário alegasse razões religiosas. Ou seja: acabou-se a criminalização da homofobia. O recurso foi encaminhado a Celso de Mello, quando já se sabia que seu provável sucessor Kássio Marques talvez não seja tão esclarecido assim. Se cair nas mãos dele, vamos gritar por nossos direitos e apontar os podres desse desgoverno. Gay pode gostar de levar na bunda, mas pelo menos não enfia dinheiro no cu.

A CORRUPÇÃO É UMA MERDA

A cada dia que passa, o Brasil de Biroliro se afunda mais no esgoto. Literalmente. O caso do senador Chico Rodrigues  (DEM-RR), vice-líder do governo no Senado, é de uma repugnância inédita mesmo para os baixíssimos padrões brasileiros. Já tínhamos visto dinheiro na cueca; "entre as nádegas", como a imprensa diz para não chocar o leitor, só na história do Papillon. A internet está se esbaldando em cima dessa cagada homérica, e o gado tenta mudar de assunto subindo o trending topic #Hilary (com um L só, porque eles não têm o hábito da leitura). Já o Bozo partiu pra ignorância: diz que é tudo fake news e que o cagão nunca fez parte do governo (mesmo tendo vídeo circulando por aí em que ele diz que vive uma "união estável" com o Chicocô). Portanto, parem de ligar o vice-líder do governo ao governo! E lembrem-se: agora há mais uma razão para usarmos máscaras.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

#METOOSA

Outro dia, outra treta envolvendo a história e o politicamente correto. A de hoje envolve a estátua "Medusa com a Cabeça de Perseu", do argentino Luciano Garbati, que ficará por alguns meses em frente ao tribunal de Nova York onde Harvey Weinstein foi julgado. A obra foi saudada como a cristalização do espírito da campanha #MeToo e, logo em seguida, criticada por ser da autoria de um homem. Acontece que Garbati a esculpiu em 2008, e sua intenção era apenas inverter a narrativa da famosa escultura renascentista de Benvenuto Cellini. Mas qualquer obra ganha novos significados através dos tempos, e também quando é inserida num novo contexto - foi o que aconteceu com aquela da menininha, também em Nova York, que no original jamais estaria peitando um touro. Na "Medusa", há um detalhe delicioso: a cabeça que a górgona segura é a do próprio Garbati. Disso as feministas não reclamam.

TÃO LONGE, TÃO CLOSE

Pronto. Começou de novo. Glenn Close está com um filme novo na praça e, para variar, cotadíssima para o Oscar (dessa vez, de atriz coadjuvante). A Netflix divulgou hoje o trailer de "Hillbilly Elegy" (eu me recuso a usar o cafonérrimo título brsileiro, "Era Uma Vez um Sonho"). Nos sites de cinema, especulava-se que o longa só sairia no começo de 2021, às vésperas das indicações. Mas sai em novembro, e as redes sociais estão em polvorosa. Pelo menos, eu estou. Será que agora vai Glenn faz uma véia escrota, que usa calça comprida e fuma sem parar. O papel está a dois dias de caminhada de sua última tentativa com a Academia, "A Esposa", quando ela perdeu para Olivia Colman. A ironia é que Olivia novamente está no páreo, competindo na mesma categoria por "The Father". Vem mais uma desfeita por a[i? Outra que aparece feiosa e sem glamour no trailer acima é Amy Adams, que já acumula seis derrotas no Oscar (Glenn tem sete). A concorrência para atriz principal está mais acirrada, mas é óbvio que ela tem chances. Glenn tem ainda mais, e tomara que desencrue. Chegamos ao ponto em que o Oscar é que precisa ganhar Glenn Close, e não o contrário.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

CLEÓPATRA MARAVILHA

No começo da década de 90, ao mesmo tempo em que se cunhou o termo "politicamente correto", também surgiu nas universidades americanas um movimento que pretendia resgatar a negritude dos antigos egípcios. A onda pegou a ponto de Michael Jackson fazer o (ótimo) clipe de "Remember the Time" com Eddie Murphy como um faraó e Iman como sua mulher. Era uma reação ao fato de Hollywood ter, historicamente, escalado atores brancos e até louros para personagens como Ramsés, Nefertiti ou mesmo Jesus Cristo. Mas a ideia não tem respaldo na realidade. Houve, sim, dinastias negras vindas do que hoje é o Sudão, mas os antigos egípcios eram parecidos com os atuais - pele e cabelos morenos, típicos do Oriente Médio. Esta semana rolou uma treta nas redes por causa da escolha da isralense Gal Gadot pela diretora Patty Jenkins - as duas fizeram juntas "Mulher Maravilha" - para o papel de Cleópatra. Ninguém ligou para a notícia de que a história da mais célebre rainha da Antiguidade finalmente será contada de um ponto de vista feminino. A lacrosfera preferiu reclamar de Gadot não ser negra. Melhor seria se reclamassem que não é grega. Cleópatra era 100% helênica, da dinastia ptolemaica, descendente de generais de Alexandre, o Grande. Temos bustos e moedas que mostram sua real aparência física. Ela também era uma mulher culta, que falava várias línguas. E, como era costume em sua família, aderia à religião e aos costumes egípcios - tanto que se casou com seu próprio irmão. Mas o escândalo para por aí. Cleópatra foi vítima da fábrica de fake news do imperador romano Augusto, que derrotou a ela e a Marco Antonio, e depois pintou ambos com o o suprassumo da depravação. Vamos ver se o filme trata disso.

ATAQUE UNIVERSAL

Em 2007, reagindo a uma matéria da Folha, bispos e fiéis da Igreja Universal encheram de processos a jornalista Elvira Lobato, da Folha. Ela e seus advogados precisaram se deslocar por rincões remotos do país até o STF acabar com a farra e julgar tudo improcedente. Mesmo com esse fracasso anterior, a IURD está usando a mesma tática contra o escritor J. P. Cuenca. que parafraseou Voltaire (ou Jean Meslier - a autoria da citação original é incerta) e tuitou que o Brasil "só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último bispo da Universal". Cuenca foi imediatamente desligado do site brasileiro da Deutsche Welle, onde assinava uma coluna. Agora é alvo de uma violenta tentativa de intimidação, semelhante à que vem sofrendo a jogadora de vôlei Carol Solberg. A ironia é que a extrema-direita abusa das postagens de teor violento nas redes sociais - quando não parte para ameaças diretas e até violência física. Vamos ver como esses dois casos se desenrolam. Seus desfechos indicarão até que ponto estamos atolados no esgoto.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

EU ME CHAMO ROSA

Era assim que minha falecida avó chamava a adaptação para o cinema de "O Nome da Rosa", que ela viu em 1987 e não entendeu nada. E isto porque o roteiro tomava muitas liberdades com o livro de Umberto Eco, acrescentando mais ação e jogando a discussão intelectual para terceiro plano. Até a justificativa do título - uma homenagem ao poder das palavras - virava uma referência à menina que mexe com o noviço Adso, "de quem eu nunca soube o nome" (por isto vovó se confundiu). Mais de 30 anos depois, eis que surge uma minissérie em oito episódios, disponível na plataforma Starzplay. É fiel ao romance? Nããão. Pelo menos a trama central segue a mesma, mas há acréscimos desnecessários como uma moça guerreira - item obrigatório em todas as histórias medievais desde o sucesso da Arya de "Game of Thrones". Não entendo isso. Por que insistir em vulgarizar um livro que vendeu 50 MILHÕES de exemplares?

FOI DE PROPÓSITO?

Das duas, uma. Ou o ministro Marco Aurélio de Mello é ingênuo feito um peixinho dourado, ou então ele fez de propósito. Como é difícil acreditar que um juiz do STF não faça a menor ideia de que o injustiçado que ele está mandando soltar é um chefão do narcotráfico de altíssima periculosidade, prefiro a segunda hipótese. Marco Aurélio aproveitou a primeira oportunidade para expor o absurdo que é esse jabuti enfiado pelo Congresso no projeto anticrime de Sergio Moro, que garante a libertação de alguém que não tenha sua prisão preventiva revisada depois de 90 dias. A ideia, claro, era proteger os políticos enrolados na Lava-Jato, mas não dá para criar uma lei só para eles. O resultado está aí. André do Rap deve ter mandado uma solene banana para o Brasil enquanto fugia de helicóptero para o Paraguai, como o Marco Aurélio da novela "Vale Tudo". Aliás, que coincidência, não? Dois Marcos Aurélios espertinhos.

domingo, 11 de outubro de 2020

UM VELHO E UMA VELHA

Depois de quase sete meses intermináveis, voltei ao cinema. A justiça poética fez com que o retorno se desse na mesma sala onde assisti ao meu último filme em março, no Belas Artes. E o filme foi exatamente o que eu mais queria ver quando começou a quarentena: "Os Melhores Anos de uma Vida", a terceira parte de "Um Homem e uma Mulher". Quem não viu os anteriores - especialmente o primeiro, um clássico absoluto - não vai se interessar pela história de Jean-Louis Duroc e Anne Gauthier. Ele separado, ela viúva, os dois se apaixonam e vivem um caso tórrido, mesmo com os filhos em volta. Mas ela ainda não está pronta para se casar novamente. Pede seis meses para pensar, e eles acabam se desencontrando. O segundo filme é esquecível, mas este novo é muito bonito. A começar por Anouk Aimée, ainda deslumbrante. Aos 88 anos de idade, ela continua sendo a mulher mais glamurosa do mundo. Já Jean-Louis Trintignant está um caco aos 90, parecendo uma caveira falante. Mas a química entre os dois permanece lá, assim como a trilha sonora de Francis Lai - a mais bela de todos os tempos - devidamente retrabalhada por Calogero. Como eu estou a 10 dias da terceira idade e acabo de completar 30 anos de casado, o filme falou de perto para mim. É uma linda reflexão sobre a passagem do tempo. Também é o antípoda de "Amour", o filme de Michael Heineke que ganhou todos os prêmios e também tinha Trintignant como parte de um casal apaixonado. O amor ali era o da convivência, da cumplicidade inoxidável trazida pelos anos de vida em comum. Já o amor de Lelouch é a paixão avassaladora, o futuro encruado que não aconteceu, o romance ideal porque é impossível. "Os Melhores Anos de uma Vida" não tem muita trama, mas é pleno de sutilezas. Os filhos de Anne e Jean-Louis, agora na terceira idade, são feitos pelos mesmos atores que os encarnaram quando criancinhas no longa de 1966. Nenhum dos dois ficou muito bonito, e a presença deles só ressalta como o casal original era - e ainda é - composto por duas grandes estrelas de cinema. Um velho e uma velha, lindos.

sábado, 10 de outubro de 2020

OS RAPAZES DA RODA

Acaba de sair mais um #DeuNaSemana no canal Põe na Roda com a minha coluna mensal LGBTV. Dessa vez, com um assunto incontornável: "The Boys in the Band". Você ainda não viu? Vão cassar tua carteirinha do vale, hein? Eu apareço aos 6'30". Aproveite, são meus últimos dias de cabelos longos.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

ONDE MOURÃO O PERIGO

Quando acabou a ditadura, o Brasil foi leniente com os militares. Ao contrário do que aconteceu na Argentina, aqui ninguém foi em cana ou sequer julgado. O resultado está aí: a cultura golpista persistiu e hoje temos um vice-presidente que defende um torturador em entrevista para uma TV alemã, protagonizando mais um vexame internacional desse governo, o vigésimo só esta semana. O general Hamilton Mourão parece um sujeito moderado e até simpaticão perto da escrotidão do Biroliro, mas é tão ruim quanto. Foi punido duas vezes durante o governo Dilma por graves indisciplinas e chegou a ser despachado para a reserva, só para ressuscitar na chapa que venceu as eleições de 2018. Não nos deixemos enganar. Um impeachment o conduziria diretamente ao poder, e o regime de exceção tão sonhado por essa corja seria instalado de maneira muito mais sutil do que as canhestras manobras do Bozo. É bom ficar esperto, até porque - dizem - Mourão periga o ser vice de Sérgio Moro em 2022.

WHATEVER GETS YOU THRU THE NIGHT

John Lennon estaria fazendo 80 anos no dia de hoje. Entre as muitas homenagens que o ex-Beatle vem recebendo, uma me chamou a atenção: a entrevista que Elton John deu a Sean Ono Lennon, filho de John e Yoko, num podcast da BBC. Hoje em dia não lembramos direito, mas os dois popstars foram muito amigos na década de 70. Chegaram a compor e gravar juntos, e Elton é o padrinho de Sean. Talvez tenham sido mais do que amigos. Elton confessa que os dois fizeram "naughty things" que não podem ser noticiados. Também fala de um "whirlwind romance", um romance arrebatador, sem entrar em mais detalhes. Não há porque duvidar que eles tenham sido namorados, Aquela época era bem mais liberada e avançada do que a nossa, e não houve maior iconoclasta na história do rock do que John Lennon. Pode ter sido só uma brincadeira, algo que os levou ao fim da noite. Mas só de pensar neles juntos eu já fico mais contente.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

BODAS DE PÉROLA

Hoje nós fazemos 30 anos de casados. Também faz exatas três décadas que nos conhecemos. Pois é, foi tudo no mesmo dia. Ou na mesma noite. Para quem ainda não sabe: no dia 8 de outubro de 1990, eu estava no Ritz da Alameda Franca, um restaurante que existe até hoje aqui em São Paulo. Comecei a trocar olhares com um cara que estava sozinho em outra mesa. Tomado de coragem etílica, fui lá falar com ele. Fomos para seu apartamento e eu nunca mais voltei para a casa da minha mãe, com quem eu ainda morava. Minto: voltei para pegar roupa. Passamos de absolutos desconhecidos para casados, sem a fase do namoro no meio. Eu só me dei conta uns dois meses depois, quando fui buscar minha televisão e outros apetrechos lá na mami. Ele tinha uma filha de 10 anos, que morava no Rio mas vinha visitar a cada 15 dias. E um cachorro, que também veio do Rio e logo me adotou. Pacote completo.

Nesses 30 anos, é claro que passamos por altos e baixos. Fomos ricos, fomos pobres, mudamos de cidade, perdemos pais, perdemos pets, perdemos empregos. Mas nunca tivemos uma crise séria. Jamais estivemos a ponto de nos separar. A essa altura, não concebo mais minha vida sem ele, mesmo brigando toda noite por causa do controle remoto. Eu consegui o maior dos meus objetivos: um amor duradouro, um companheiro de jornada. Não é pouca coisa, não. 

Nós demos uma grande festa em 2005, quando completamos 15 anos juntos. Foi um fim de semana inteiro na fazenda do meu irmão em Petrópolis, com direito a bufê da Locanda della Mimosa, chuva de arroz e festa noturna à beira da piscina. Queríamos fazer algo ainda maior este ano, mas veio a pandemia. Para nós, se Deus quiser, será só mais um episódio que enfrentamos. Ano que vem, tomara..