quinta-feira, 22 de abril de 2021

TRELELÊ COM A TELETUBBIE

Não basta ser do mal para fazer parte do desgoverno Edaír Biroliro. Também tem que ser burro e achar que o mundo se resume ao gado. Anteontem, Carluxo devia estar trocando de medicação, pois confundiu LGPD com LGBT em um raro discurso na Câmara Municipal do Ro de Janeiro - ou então fez de propósito, para sinalizar aos minions que ele é uma bicha anti-bicha. Ontem foi a vez de Ricardo Salles bater boca com Anitta no Twitter. O ministro da Destruição do Meio Ambiente acha, assim como seus pares, que uma cantora popular não tem direito a opiniões políticas, ou que o fato dela ter tatuado o fiofó a desqualifica para o debate público. Xingou-a de teletubbie, que para mim sempre foi elogio. Só que mil tatuagens no cu não valem, em termos de despreparo e empáfia, a televisão de cachorro de Salles. Ele e seu chefe ainda acham que vão engabelar o Biden com promessas vagas e chantagens risíveis. Nem trelelê esses cretinos sabem fazer direito.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

AGRIÃO COREANO

Consegui ver "Minari" numa cabine virtual promovida pela distribuidora do filme no Brasil. Talvez ele estreia nesta quinta, em cidades que têm cinemas abertos: vai saber. No domingo, deve ganhar pelo menos um Oscar - o de atriz coadjuvante, para Yuh-Jung Youn, que tem na Coreia do Sul o status que Fernanda Montenegro tem no Brasil. O título misterioso se refere a uma espécie de agrião coreano, que cresce na beira dos rios e é muito resistente. Uma metáfora para a família de emigrantes que tenta erguer uma fazenda no meião dos Estados Unidos, contra a barreira cultural, a falta d'água e de dinheiro e até o clima impiedoso. O ator que faz o pai, Steve Yeun, também está indicado ao Oscar, mas quem mais se parece com um protagonista é o garotinho Alan Kim, ladrão de todas as cenas de que participa. A história em si é muito simples, e quem tem pais ou avós que nasceram fora do Brasil certamente vai se identificar. Eu esperava um impacto maior, até porque a concorrência é fortíssima. Mas é um bonito filme, e ainda deixa a gente com vontade de comer minari.

COMEÇANDO A RESPIRAR

O veredicto de Derek Chauvin é um marco, mas é só o começo. Minutos depois do júri anunciá-lo em Minneapolis, uma garota negra foi morta por policiais em Columbus. E isso é nos EUA, onde a polícia mata seis vezes menos do que no Brasil. Aqui, os PMs que, em 2019, dispararam 257 contra o carro de uma família negra, matando duas pessoas, ainda nem foram a julgamento. Mas é de se esperar que o caso George Floyd repercuta por aqui também, pois a nossa sociedade está mudando. A mudança maior, é claro, vem com a provável derrota do Bozo em 2022.

terça-feira, 20 de abril de 2021

DE PÉ, CINÉFILOS DA TERRA - 5

É curioso. O Oscar está se aproximando, mas os candidatos a melhor filme internacional foram se tornando mais raros. Desde janeiro que eu não publicava um post desta série, reunindo três longas que representaram seus respectivos países na disputa. Um deles eu vi há mais de um mês, e nem deve mais estar disponível na plataforma MUBI: o italiano "Notturno". O diretor Gianfranco Rosi já havia concorrido com "Fogo no Mar" ao Oscar melhor documentário, alguns anos atrás, e seu novo trabalho também é um registro político, sem narração. Dessa vez, ele percorre zonas de guerra no Oriente Médio. Algumas cenas são muito bonitas, outras horripilantes, mas o impacto final não é dos maiores. Talvez porque o assunto já foi muito explorado, e tenhamos criado uma casca contra ele.
O cinema da Romênia, um dos mais premiados do planeta, finalmente foi reconhecido pela Academia com "Colectiv", que está indicado em duas categorias: documentário e filme internacional. Consegui vê-lo neste domingo, numa exibição especial do festival É Tudo Verdade. O diretor Alexander Nanau parte do incêndio da boate Colectiv em Bucareste, um caso semelhante aos da boate Kiss, em Santa Maria, e da Cro-Magnon, em Buenos Aires: em todos eles, o show de uma banda foi encerrado com uma queima de fogos de artifício, uma ótima ideia para locais fechados. Mas o foco do filme está nas 37 mortes que aconteceram depois do fogo, entre pessoas internadas com queimaduras. Logo se descobriu que todas foram infectadas por bactérias, pois os hospitais públicos usavam desinfetante diluído em água por um mesmo fornecedor. O escândalo gerou protestos tão grandes que o governo caiu. Só que, nas eleições de um ano depois, o mesmíssimo partido voltou ao poder, com votação recorde. Deve ser horrível morar num país que não sabe escolher seus governantes.
O melhor dos três, de longe, é o bósnio "Quo Vadis, Aida?", o mais sério rival de "Druk - Mais Uma Rodada" na corrida pela estatueta. O filme de Jasmila Zbanic chegou ontem às plataformas brasileiras, para compra ou aluguel. Eu corri para ver, mesmo exausto depois de um dia puxado e sabendo que a barra seria pesada. O assunto é o massacre do campo de refugiados de Srebrenica, em 1995, quando soldados sérvios fuzilaram cerca de oito mil homens e meninos muçulmanos bósnios. A atriz Djasna Djuricic dá um show como a tradutora da ONU que tenta conseguir um salvo conduto para seu marido e seus dois filhos. Tenso do começo ao fim, sem sombra de barriga, "Quo Vadis, Aida?" é para os fortes de estômago. Também já é um dos grandes filmes deste ano.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

ESSE CARA É ELE

Já malhei muito o Roberto Carlos aqui no blog, mas hoje eu quero pas//. O Rei faz 80 anos e quem ganha o presente é o Brasil. Já fiz coluna a respeito no F5 e agora solto este post em homenagem, respondendo a uma pergunta que uma amiga fez no Facebook: algum cover de uma música dele ficou melhor que o original? Melhor não sei, mas eu adoro essa interpretação dramática de Hebe Camargo para "Você Não Sabe", no especial "Elas Cantam Roberto Carlos" de 2009. Fora que as joias que a Hebe está usando devem valer mais do que o PIB do Suriname.

LEDA ENGANA

O Gabinete do Ódio costumar usar idiotas úteis para espalhar fake news. Na semana passada, o Edaír ligou para o senador Kajuru, sabendo que a ligação seria gravada e divulgada. Hoje a ex-jornalista Leda Nagle leu num vídeo um e-mail que denuncia um complô para assassinar o Despreparado, organizado por Lula e pelo STF. Nos dois casos, o tiro saiu pela culatra. O Bozo não conseguiu melar a CPI da pandemia, e Leda está sendo ridicularizada nas redes sociais. O que ela talvez não saiba é que há, sim, uma conspiração em andamento contra o Pandemito. Só que não é secreta, tanto que vou contar aqui alguns detalhes. Em 2022, nós vamos votar para apeá-lo do poder. Vai ser pelo voto, limpo e democrático.

CANNETTE

Ontem à noite, naquele vendaval de pensamentos aleatórios logo antes de dormir, um deles se destacou: será que "Annette", o musical do Sparks, vai passar no festival de Cannes? O universo ouviu minha pergunta, pois a resposta chegou logo de manhã. Depois de um ano na prateleira e quase uma década em produção, "Annette" será o filme de abertura de Cannes. O que quer dizer que não irá ganhar nada, porque o filme de abertura sempre sai de mãos vazias. Mas não faz mal. É uma posição de destaque, e a notícia já está repercutindo pelo mundo afora. Hoje também saiu o primeiro trailer, e eu fiquei agradavelmente surpreso. Não só Adam Driver está mais lindo do que nunca com cabelos longos, como o próprio Russell Mael, vocalista do Sparks, aparece cantando. Minha banda favorita ainda em atividade (e a segunda de todos os tempos), de quem eu sou fã desde os 13 anos de idade, finalmente aparece num projeto de altíssimo perfil. Agora posso morrer em paz (mas não vou, relaxa).

domingo, 18 de abril de 2021

REZA MAIS QUE TÁ FRACO

O Pastor José Olímpio, da Assembleia de Deus de Alagoas, tuitou que vai orar para que o "dono" do Paulo Gustavo "o leve para junto de si". Esse cristão de araque apagou logo a postagem, mas nada desaparece na internet. Agora ele será processado por homofobia, mas duvido que dê em alguma coisa. Os minions vão dizer que, se o Hélio Schwartsman pode torcer pela morte do Biroliro, então os falsos cristãos podem rezar para que todos os viados morram, e viva a liberdade de expessão, e ãin estão atacando a liberdade religiosa etc. etc. Meu ponto é outro. Desafio o Pastor José Olímpio e todos esses cristãos de meia-tijela a rezarem bastante para que Deus fulmine os gays, lésbicas, trans, travestis, não-binários, interssexuais, assexuais e todos mais que não se encaixem na heternormatividade. Mas rezem com força, porque nós ganhamos muitos direitos nos últimos anos e não vamos ficar calados esperando pela fúria divina. Rezem com vontade, porque nós estamos por toda parte - inclusive no governo federal, inclusive nas igrejas - e não paramos de nascer. De casais hétero, aliás. Rezem mais que tá fraco.

GREMLIN A BORDO

Sábado está virando nosso dia de ver filme desmiolado. Semana passada nos divertimos com "Esquadrão Trovão"; ontem foi a vez de "Uma Sombra na Nuvem", que ganha pontos extra por ser mesmo bom. Durante a Segunda Guerra Mundial, uma moça ligada à aeronáutica embarca na última hora em um voo militar da Nova Zelândia para a Samoa. Ela leva uma mala com conteúdo ultrassecreto, que precisa ser protegida a qualquer custo. Os seis homens a bordo tiram sarro e passam cantadas nela, que é relegada a um apertadíssimo compartimento na parte de baixo do avião - um periscópio ao contrário? Uns 30% do longa se passam nesse espaço apertado, com a câmera em close na ótima Chloë Grace Moretz enquanto ela ouve e reage às conversas na parte de cima. Aí, eles são atacados por três caças japoneses, mas não só. Um monstrinho horroroso aparece do nada, querendo devorar todo mundo, e ninguém acha estranho. Chamam até a criatura de gremlin, como se ela pertencesse a uma espécie catalogada. A ação se desloca para o lado de fora da aeronave e depois para dentro, com um momento de tirar o fôlego depois do outro. A  neozelandesa de origem chinesa Roseanne Liang dá um show de câmera e roteiro, e daqui a pouco vai estar dirigindo longas da Marvel. "Uma Sombra na Nuvem" acentuou a saudade que eu sinto das salas de cinema. Ver esse absurdo ao lado de mais gente, rindo e gritando nas horas de susto, me fez muita falta.

sábado, 17 de abril de 2021

AS FRALDAS AINDA ESTÃO SUJAS

Quando a gente acha que o MBL talvez esteja amadurecendo e se tornando um partido responsável - de direita, sim, mas dentro do jogo democrático - eis que Kim Kataguiri, Arthur "Mamãe Falei" do Val e companhia bela provam que ainda fazem jus ao apelido de "fraldas sujas". A invasão de ontem a um hospital em Guarulhos pegou mal pra cacete, e agora os bebês chorões estão postando videozinhos jurando que era só uma "fiscalização surpresa" e que não fizeram mal a uma mosca. Só a si mesmos: atitudes como essa causam na lacrosfera, mas também demonstram que essa molecada ainda não saiu dos cueiros.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

A MULHER ATÔMICA

Já estava mais do que na hora de surgir uma nova cinebiografia de Marie Curie, a primeira mulher a ganhar um Nobel e a primeira pessoa a ganhar o prêmio em duas categorias diferentes (física e química). "Radioactive", uma produção da Amazon que, no Brasil, misteriosamente foi parar na Netflix, extrai o máximo de drama possível de uma vida passada quase toda dentro de um laboratório. O filme de Marjane Satrapi, que criou a HQ "Persépolis" e depois dirigiu a animação do mesmo nome, não entra muito a fundo nos meandros do rádio e do polônio, os dois elementos descobertos pela Madame e seu marido Pierre. Mas explora as consequências positivas e negativas da radioatividade, que vão do tratamento contra o câncer à bomba atômica, em vinhetas que se intercalam ao longo da história da cientista. Marie é interpretada por Rosamund Pike como uma mulher durona, de pouco traquejo social e absolutamente devotada ao trabalho - mas que, depois da morte do marido, engata um caso bem público com o melhor amigo dele, casado, escandalizando a Paris do começo do século 20. "Radioactive", que não mereceu título em português, tem primorosa reconstituição de época e ótimas atuações (Anya Taylor-Joy, derrotada por Rosamund no último Globo de Ouro, faz Irène, a filha mais velha do casal). Não chega a ser empolgante, mas é uma aula de história e um lembrete de que a mulherada é capaz de qualquer coisa. Inclusive, de morrer pela ciência.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

ASSANDO O MEIO AMBIENTE

É impossível dizer em qual área o desgoverno do Edaír é mais nocivo. Saúde, educação, relações exteriores, tudo escorre pelo ralo. Nesta semana o pódio é ocupado pelo meio ambiente, e olha que são mais de 3.000 mortos por dia pela Covid. O ministro Ricardo Salles não é só corrupto ou canalha. Também é incompetente, incapaz de perceber para onde o vento sopra. Na reunião de anteontem com os americanos, o imbecil mostrou a charge acima, incompreensível para quem vem de um país onde não existe frango de padaria. se compreendessem, talvez fosse pior: ela diz que o Brasil é chantagista e aproveitador, e que só protegerá a Amazônia se for regiamente bem pago. Hoje Salles conseguiu quefosse demitido o chefe da PF de Manaus que apreendeu uma carga monstruosa de madeira ilegal - justamente no dia em que o líder da familícia mandou uma carta a Joe Biden, prometendo acabar com o desmatamento ilegal. Essa turma não lê jornal e acha que todo mundo é tapado feito eles. Vão terminar todos empalados, assando em fogo lento.

O DETECTOR DE VERDADES

De vez em quando, uma celebridade baixa a guarda em público e deixa escapar o que realmente lhe vai pela cabeça, causando enorme prejuízo à própria carreira. Xuxa, por exemplo, vai levar um tempo para superar o episódio em que disse que novos remédios deveriam ser testados em prisioneiros. Ontem foi a vez de Pedro Bial. O jornalista se esqueceu que não estava numa mesa de bar e soltou, em pleno "Manhattan Connection", que só entrevistaria Lula com um detector de mentiras. Não demorou para que a internet lembrasse que Bial já entrevistou Olavo de Carvalho, Damares Alves e o general Heleninho com um sorriso nos lábios, evitando perguntas espinhosas e se fazendo de amiguinho. Lula é hoje a pessoa mais entrevistável do Brasil, porque cada fala dele abala um pouquinho a house of cards do Biroliro. O mínimo que Bial poderia fazer agora era convidar o ex-presidente para seu programa, e ainda tirar sarro de sua declaração infeliz. Se até o tio Rei já conseguiu, ele também consegue.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

TAHAR NA CARA

Por favor, não me odeie, mas eu dei a volta ao mundo aos 17 anos de idade. Minha avó me levou com ela numa excursão em que quase só havia velhas. Em pouco mais de um mês, passamos por dez países. Cinco deles na Ásia: Indonésia, Tailândia, Nepal, Índia e Irã (antes dos aiatolás). Esta viagem de 1978 está me dando uma camada extra de prazer quando eu vejo "O Paraíso e a Serpente", que chegou à Netflix. A minissérie é baseada no caso real de um negociante de pedras preciosas franco-vietnamita, radicado em Bangkok na década de 1970. O cara drogava, roubava e matava mochileiros ocidentais que rodavam pela Ásia. As locações são sensacionais, e eu fico o tempo todo importunando meu marido: "olha o hotel em que eu fiquei! eu também fui a esse templo! comi nesse restaurante!". Claro que não os mesmos lugares onde eu estive, mas a sensação é deliciosa. O deleite é potencializado pela presença de Tahar Rahim, o ator francês de origem árabe que encarna o protagonista. Um assombro: além de bonito e carismático, ele consegue se metamorfosear. É difícil acreditar que o sujeito risonho da série "The Eddy" agora é um serial killer eurasiano que quase não ri. Tahar também acaba de ser indicado ao Globo de Ouro pelo filme "The Mauritanian", ainda inédito por aqui. Falando um inglês perfeito, ele ainda vai longe. Eu vejo um Oscar em seu futuro.

terça-feira, 13 de abril de 2021

O ÚLTIMO FIM-DE-SEMANA

Eu detesto quando dois filmes bem diferentes compartilham o mesmo título. Ainda mais se forem próximos no tempo, como é o caso dos "A Despedida". Um deles é o meu favorito do ano passado, e seu nome em português é a tradução fiel do original, "The Farewell". O outro chegou agora ao streaming, e seu título em inglês é mesmo difícil de traduzir: "Blackbird", uma canção. Mas "A Despedida" descreve a trama com precisão. A protagonista vivida por Susan Sarandon sofre de uma doença degenerativa, provavelmente ELA, cujos sintomas estão se agravando. Antes de perder os movimentos, ela prefere morrer, e a família inteira está de acordo. Esta discussão aconteceu antes do filme; quando ele começa, filhas e agregados já estão chegando à casa de praia da mãe, para um último fim de semana antes dela tomar uma overdose de fenobarbital. Kate Winslet, em particular, está marcante como a primogênita caretona. Mas claro que esses dias não sairão como o programado: conflitos incubados darão um jeito de eclodir, antes do fim inexorável. Essa objetividade diante da morte é típica dos povos nórdicos, e "A Despedida" não nega as origens: é o remake de um longa dinamarquês. Acho improvável alguém dar uma festinha dessas aqui no Brasil. Fiquei pensando no que eu faria: talvez até convidasse a família, mas não contaria nada para ninguém. É bom quando um filme suscita esse tipo de questionamento.

STRANGERS IN THE DAY

Deus abençoe os serviços de streaming. Graças a eles, hoje temos acesso a filmes e série do mundo inteiro. Também ficou muito mais fácil ver os indicados ao Oscar em categorias como melhor documentário e melhor curta-metragem, que raramente chegavam por aqui. Uma das boas novidades da Netflix esta semana é "Dois Estranhos". O curta ficcional de Trevon Free e Martin Desmond Roe é um dos favoritos à estatueta, e não poderia ser mais da hora. O roteiro se aproveita de um gimmick já manjado, o "dia da marmota", para passar uma mensagem óbvia e, no entanto, cada dia mais urgente: policiais, parem de matar negros. O protagonista é um rapaz que acorda várias vezes para a mesma situação. Ao sair da casa da namorada, ele atrai a atenção de um policial branco, que acaba matando-o sem razão. O cara tenta mudar o desfecho várias vezes, e não consegue. "Dois Estranhos" foi gravado depois da morte de George Floyd, e incorpora não só este crime à trama como dezenas de outros semelhantes, ocorridos nos últimos anos. É uma porrada, válida também para o Brasil. Se vencer, será um dos prêmios mais políticos da Academia na memória recente. E muito justo - sorry, Pedro Almodóvar.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

KAJURU MALANDRO

O senador Jorge Kajuru assinou o requerimento ao STF que pedia a instalação da CPI co combate à pandemia. Portanto, ele é contra o Biroliro, certo? Mas Kajuru também foi super solícito no telefonema que teve com o Bozo no sábado - falou como um aliado do Edaír. Depois ele mesmo divulgou a ligação, provocando mais um desgaste do Pau Fino com o Supremo. Um ato digno de adversário. Hoje, Kajuru pediu o impeachment de Alexandre de Moraes, agindo de forma tão bolsomínia como o juiz Kássio Conká. Afinal, para que time joga o ex-comentarista de futebol? Kajuru tem uma carreira saplicada de polêmicas, e gente que costuma se envovler em escândalos não é boa de estratégia política. Aliás, o mesmo pode ser dito do Despreparado. Os dois estão fazendo um barulhão, mas quem vai sair arranhado desse imbróglio são eles.

RETALHOS TÃO PEQUENOS DE NÓS DOIS

Sashiko é uma técnica japonesa de remendos visíveis. Ela assume que a roupa foi rasgada, e a conserta de um jeito que dá para perceber à distância. O resultado não é a peça como ela saiu da loja, mas algo até mais bonito. Com história e profundamente seu. Minha amiga Marta Matui - que os leitores mais antigos deste blog hão de lembrar por seu ótimo blog, que ela escrevia lá se vão 10 anos - sempre teve muito jeito para qualquer tipo de trabalho manual, e aderiu com entusiasmo ao visible mending. Eu também aderi.

Mandei para ela um jeans, uma bermuda, um kimono e três calças molinhas de ficar em casa, que estavam a caminho do lixo. Nada era exatamente novo, mas todos tinham rasgões absurdos. Dei liberdade total para a Marta e agora tenho tudo de volta, mais interessantes do que antes e com mais alguns anos úteis pela frente. Ela aceita encomendas: é só contatá-la no Instagram pelo perfil @martamatuihandmade.

domingo, 11 de abril de 2021

AS SUPER-GORDAS

Deus sabe como andamos todos precisando de diversão desmiolada. Duas horinhas que sejam de bobagem em estado puro, sem a dona Lourdes acorrentada nem ninguém internado com Covid. Esta necessidade premente fez com que "Esquadrão Trovão" chegasse à Netflix com ares de bote salva-vidas. Uma comédia de ação com duas gordas encarnando super-heroínas? Sim, por favor, mesmo eu não sendo chegado a super-heróis. Mas gosto muito de Melissa McCarthy e Octavia Spencer, e ainda mais de Bobby Cannavale fazendo um político à la Trump. Apesar do filme ter problemas de ritmo, de roteiro e até de direção (planos abertos demais!), ri alto alguma vezes, principalmente com o homem-caranguejo encarnado com garbo por Jason Bateman. A premissa é complicada demais para explicar aqui, e nem mesmo o trailer dá uma noção de tudo que está em jogo. Mas nada disso importa quando há piadas envolvendo manteiga e salsinha.

sábado, 10 de abril de 2021

O CU-CU BRASILEIRO

Quero declarar todo o meu apoio à eventual candidatura de Danilo Gentili à presidência da República. Já tive três tretas públicas com ele e só o julgo mais preparado para o cargo do que uma única pessoa: o atual ocupante. Mesmo assim, vibrei com a ideia de que ele saia candidato em 2022, embalado pelo MBL. A razão é simples. Danilo pode estar para o Brasil assim como o humorista Slavi Trivonof está para a Bulgária. Famoso por lá por causa de sua marionete Sr. Cu-Cu, Trifonov chegou num surpreendente segundo lugar nas eleições parlamentares de domingo passado, atrapalhando os planos do proto-ditador Boiko Borisov de formar seu próximo governo. Ou, para usar um exemplo mais próximo: o apresentador do SBT pode desempenhar a mesma função de outro palhaço, Arthur "Mamãe Falei" do Val, que atraiu os votos da direita tchaptchura e tirou Celso Russomanno do segundo turno da eleição para prefeito de São Paulo. É verdade que não faltam exemplos de comediantes que se elegeram como piadas, como Bepe Grillo na Itália, Volodimir Zelensky na Ucrânia ou Donald Trump nos Estados Unidos. Mas duvido muito que Gentili chegue aos 10%, ainda mais num provável páreo contra Lula e um ou dois nomes fortes mais ao centro. O que importa é que ele desidrata o Biroliro. Já pensou? Um segundo turno sem o chefe da familícia?

sexta-feira, 9 de abril de 2021

O PRÍNCIPE COM SORTE

O príncipe Philip teve sorte. Com atendimento médico de ponta disponível 24 horas por dia, o marido da rainha Elizabeth 2a. morreu dois meses antes de completar um século de vida. Também teve uma vida mansa de casado, sem boletos para pagar. Mansa demais, dirão alguns: Philip Mountbatten não só teve que se recolher a um posto inferior ao de sua mulher, como ainda se submeter a uma agenda interminável de viagens e aparições públicas. Mas cumpriu com garbo todas as missões que recebeu. Gerou quatro herdeiros para a Casa de Windsor, ajudou a modernizar a monarquia e alimentou a imprensa com uma torrente interminável de gafes, algumas delas resvalando no racismo. Também não se envolveu em nenhum grande escândalo, o que não pode ser dito de quase ninguém da família real.

DR. MONSTRINHO

Ontem eu estava mais desanimado que o normal, com dificuldade para focar no trabalho. Aos números da pandemia e à incompetência desse desgoverno, somou-se uma tragédia a mais: a morte do menino Henry Borel, espancado pelo padrasto. Claro que já sabíamos que Dr. Jairinho era culpado desde que o crime aconteceu, um mês atrás (perdão por usar este nome respeitoso e fofo ao mesmo tempo, mas é assim que o monstro ficou conhecido). A polícia não enrolou para prendê-lo, como alguns reclamaram nas redes sociais. Fez, na verdade, uma investigação meticulosa, e chegou a provas irrefutáveis. A mais chocante é a conversa por WhatsApp entre a mãe de Henry e a babá. Mesmo sabendo que o garoto estava apanhando, Monique Medeiros não se abalou do shopping onde estava. Pior: não se afastou do namorado, e ainda ficou do lado de Jairinho depois dele ter matado Henry. O vereador Jairo Souza Santos Junior, que por ironia é médico, é mais um caso de infiltração do crime organizado na política carioca. O cara é nada menos do que o herdeiro de um chefão da milícia. Também é, evidentemente, apoiador de primeira hora de Edaír Biroliro - não admira que a ministra Damares Alves, que finge tanto defender as crianças, não tenha dado um pio sobre este caso. Agora tento não torcer que Jairinho seja esquartejado logo em seu primeiro dia na cadeia.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

O BAILE DA ILHA LETAL

Sou tonto o suficiente para ter achado que o Biroliro ia levar uma dura no jantar com empresários de ontem, em São Paulo. Os primeiros relatos eram de que ele teria sido "ovacionado"; depois baixaram a bola, dizendo que os aplausos eram protocolares. Mesmo assim, João Doria foi muito criticado, talvez por ser responsável por 90% das vacinas aplicadas no Brasil. O rega-bofe teve comparecimento maior do que o esperado, mas também não é "o PIB brasileiro" que se falou por aí. Tampouco foi uma reconciliação depois da carta assinada por mais de 500 empresários na semana passada, pois muitos dos que lá estavam jamais criticaram o desgoverno. Mas, com tanta gente aglomerada e sem máscara, pode ter sido um evento superspreader, desses em que basta um infectado para contaminar dezenas de pessoas. É o que diz Natália Pasternak em sua coluna de hoje em O Globo, de onde eu roubei o título deste post. Tomara que fiquem todos doentes, antes de tentarem furar a fila com suas vacinas falsas compradas no mercado negro.

O GENITOR EM SEU LABIRINTO

"Meu Pai" é uma obra de arte. O francês Florian Zeller adaptou sua própria peça de teatro com a ajuda do inglês Christopher Hampton, e dirigiu o filme com uma segurança que não se espera de um estreante. Conseguiu captar o desespero do envelhecimento por dois ângulos diferentes, o do próprio velho e o de quem cuida do velho. Aqui não tem essa de melhor idade ou anos dourados: Anthony, o protagonista com o mesmo nome de seu intérprete, sofre de demência senil, e está perdendo a noção da realidade. É quase uma morte em vida. Aliviada pelo conforto material, sem dúvida, mas retratada sem firulas nem raios de esperança. Anthony Hopkins está fenomenal e merece todos os prêmios, mas até agora não levou nenhum. Vem perdendo para Chadwick Boseman, que morreu de verdade. Olivia Colman, com quem eu sempre implico por ter roubado o Oscar de Glenn Close, também está ótima, assim como todo o pequeno elenco. Preste atenção no cenário: não é por acaso que o filme também está indicado ao Oscar melhor design de produção. E quem tiver um idoso sob seus cuidados, como eu tenho (minha mãe mora comigo desde 2016), pode ir se preparando.