sábado, 4 de dezembro de 2021

HANA MACANTARAVA SUYA

O ignorantão aqui jurava que "hana macantarava suya" era invenção da ungida Cleycianne, para zoar da crentalhada que acha que está "falando em línguas" quando se sente possuída pelo Espírito Santo. Se o fenômeno da glossolalia fosse verdadeiro, cada hora seria uma frase diferente numa língua distinta, certo? Mas, por alguma razão misteriosa, os neoevanjas expelem MESMO "hana macantarava suya", que não quer dizer nada em língua nenhuma. Foi o que berrou a Micheque quando o terrivelmente despreparado André Mendonça foi aprovado para o STF. Ela não é a primeira primeira-dama brasileira a ser suspeita de corrupção (Rosane Collor de Mello foi a pioneira), mas é a primeira não só a se envolver na eleição de um ministro do Supremo como a comemorar sua aprovação como se fosse a vitória numa Copa do Mundo. Um vexame absoluto - mais um desse desgoverno vexaminoso.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

O JOGO DA SOFRÊNCIA

Mais um ano em que o Brasil vai passar batido pelo Oscar. Não que "Deserto Particular" seja um filme ruim; não é. É bem feitinho, com bons atores e uma história envolvente. Só que essa história não é nova. Já foi contada, e melhor, por... pare por aqui se não quiser spoiler. Não parou, né? Então toma: por "The Crying Game", no distante ano de 1992. O filme de Neil Jordan era um sobre um sujeito que se apaixonava sem saber que ela tinha piu-piu, e o mesmo acontece no longa de Aly Muritiba. O protagonista brasileiro é um policial de Curitiba que atravessa o país para procurar em Sobradinho, na Bahia, a amada que conheceu na internet. Na primeira foto que aparece dela, a plateia já saca que se trata de um homem. Antes que me apedrejem: não se trata de uma mulher trans, mas de um rapaz que se monta para sair à noite. Ele esqueceu de revelar o detalhe para seu admirador, e claro que ele reage mal quando descobre tudo. Mas aí, como em "The Crying Game", ele é traído pelo desejo e vencido pelo amor, num desfecho quase feliz. Por que não um desfecho totalmente feliz, já que o tira deu vazão à sua viadagem reprimida? Enfim, os sites especializados dizem que "Deserto Particular" até que tem alguma chance no Oscar. Tem filmes muito mais fortes no páreo, alguns que vão entrar para a história do cinema. Nosso representante não vai ficar nem entre os 15 semifinalistas, tadinho.

O GALINHO E SEU PINTINHO

No começo de 2011, enfrentei uma chuva torrencial e um trânsito dos infernos na Cidade do México para assistir a "Cock". Meu interesse nem era pela peça em si, mas pela presença de Diego Luna no papel principal. Saí impactado do teatro: foi simplesmente um dos melhores espetáculos da minha vida. "Cock" finalmente estreou no Brasil, numa montagem que foi adiada de 2020 por causa da pandemia. O cenário, que já era minimalista no México, aqui não existe mais: os quatro personagens se enfrentam num palco de arena sem nenhum adereço. As cenas são intercaladas por toques de gongo, como se fossem rounds de uma luta de boxe, e a peça até ganhou um subtítulo - "Briga de Galo" - que acabou não sendo usado no cartaz. Menos mal. A maior briga que acontece em "Cock" acontece dentro da cabeça do protagonista John, divido entre seu namoro de anos com um homem mais velho e uma garota que ele conheceu há pouco tempo e fez despertar seu desejo por mulheres. Para decidir com quer ficar, John organiza um jantar para comparar seus dois amores, com resultados obviamente desastrosos. Não senti o mesmo impacto de 10 anos atrás, mas a direção límpida de Nelson Baskerville e a entrega dos atores me faz recomendar esta peça, que tem sessões gratuitas de segunda a sábado até o dia 18 de dezembro, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, aqui em São Paulo.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

SEJA RICO, SEJA POBRE, O VELHINHO SEMPRE VEM

Quando eu começo a ter esperança novamente no Brasil, surge a prefeita de Bauru multando o McDonald's por ter banheiros unissex - algo que ônibus e aviões têm desde priscas eras. Ou a Câmara de Ribeirão Preto, que soltou uma moção de repúdio a um comercial noruguês. É isso mesmo: a Noruega, o mais alto IDH do mundo, que se cuide. Galera de Rebs tá bolada com ela. Tudo porque no dito comercial, que é dos Correios de lá e não é dirigido ao público infantil, Papai Noel se apaixona por outro homem. O vereador André Rodini, do Novo, ainda teve o desplante de dizer que Papai Noel é um símbolo da meritocracia. Então quer dizer que criança viada não merece ganhar presente? Esses políticos todos sabem que seus atos são inócuos, mas querem agradar ao eleitorado tacanho que os elegeu. Por essas e por outras que ando pensando em desistir deste país e me mudar de vez para a Noruega.

BERGMAN GOES WEST

Imagine um faroeste dirigido por Ingmar Bergman. Paisagens opressoras, longos silêncios, personagens encucados. Só faltou ser em preto-e-branco e ter Liv Ullmann no papel principal para "Ataque dos Cães" ser este filme. Mas eu estou sendo injusto: Jane Campion tem vocabulário próprio, que bebe na fontes dos westerns clássicos para criar algo novo. Só não vá esperando tiroteios e perseguições. Nem mesmo o tal do ataque do título em português acontece: a violência é quase toda psicológica. Melhor seria uma tradução literal do nome original, "The Power of the Dog", tirada de uma passagem bíblica, que só se justifica na última cena. Até lá, o espectador pode se perguntar: mas sobre o quê mesmo é esta bagaço? O ritmo lento e a música esquisita geram uma atmosfera de deslocamento, de que algo não está em seu lugar. E não está mesmo. Mas não são os atores, todos magníficos. O destaque, óbvio, é o inglês Benedict Cumberbatch, conhecido por papéis de homens refinados, mas aqui totalmente crível como um brutamontes americano. Está cotadíssimo ao Oscar, assim como seus colegas Kirsten Dunst, Jesse Plemons e o varapau Kodi Smit-McPhee, o verdadeiro protagonista. "Ataque dos Cães" é para ser degustado com calma, pois não tem o barulho e a agitação que se espera de um lançamento da Netflix. Tenho certeza de que vou gostar mais quando eu assistir pela segunda vez.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

TERRIVELMENTE APROVADO

Minha esperança de que o Senado ainda tivesse uma espinha dorsal foi se esvaindo ao longo da tarde, à medida em que os comentaristas da GloboNews avisavam que cresciam as chances de André Mendonça ser aprovado para o STF. Não deu outra: o ex-AGU, ex-ministro da Justiça e cão de guarda do Biroliro teve 47 votos a favor, seis a mais do que o necessário, e 32 contra. Até o senador Alessandro Vieira, que tanto se destacou na CPI da Pandemia, votou pelo "terrivelmente evangélico". Foi a vitória mais apertada dos últimos 20 anos, mas não importa. Mendonça agora é ministro do Supremo. Mas que tipo de ministro ele será? Um Kassio Nunes 2.0, sempre disposto a proteger a familícia, ou o sujeito simpático à democracia e às minorias que ele aparentou ser durante a sabatina? Suspeito que a primeira hipótese esteja correta. O deputado evangélico Sóstenes Cavalcanti, ligado ao Malafaia, alega que a resposta dada por Mendonça a Fabiano Contarato - "Eu defenderei o direito constitucional do casamento civil de pessoas do mesmo sexo" - contém uma pegadinha. O casamento homoafetivo não consta da Constituição brasileira, portanto ele não teria nada o que defender.

NÃO À RAINHA, SIM A RIHANNA

Eu quase conheci Barbados alguns anos atrás. Minha irmã mais velha trabalhava na embaixada do Brasil em Santa Lucia, e a maneira mais rápida de chegar naquela ilha caribenha era fazendo conexão na vizinha Barbados, para onde a Gol tinha um voo direto. A viagem acabou gorando, e eu perdi a chance de passar pela mais nova república do mundo. Barbados trocou ontem de chefe de estado - ou melhor de chefa. Saiu a rainha Elizabeth II, entrou a primeira-ministra Mia Mottley, que já está no cargo desde 2018. Mas o que mais chamou a atenção da mídia nem foi a presença do príncipe Charles na cerimônia de proclamação da república, mas a da cantora Rihanna, a mais célebre barbadense de todos os tempos. R-Ri não lança um álbum de inéditas há quase seis anos, mas isto não a impediu de ser agraciada com o título de heroína nacional. Heróis costumam ser guerreiros que lutaram pela independência ou mártires que morreram pela pátria. Geralmente tem sangue envolvido. Por isto, feliz é o país cuja heroína é uma diva pop.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

CORONEL SIQUEIRA RESURRECTIONS

Afinal, o Coronel Siqueira morreu ou não morreu? Esta é a questão que mobiliza parte da esquerda brasileira desde ontem. Não a chegada da variante ômicron, não o crescimento de Sergio Moro nas pesquisas. O imbróglio começou quando o site DCM divulgou a morte de Sergio Loitte, suposto criador do personagem. Logo surgiu a notícia de que o perfil do birolista mais fofo do Brasil havia sido deletado e, mais tarde, a viúva de Loitte disse numa live que a foto de Siqueira era, na verdade, de um tio dela. Só que tanto o perfil como alguém que se passa pelo coronel seguem ativos. Esta pessoa, que não quer se identificar, publicou um longo texto no site da Carta Capital, de onde o falso milico é colaborador. Enquanto isso, o DCM não arreda pé de sua versão. Em quem eu acredito? Na Carta Capital. No fundo, nem importa se o criador do coronel morreu ou não. Importa se o personagem continua, e isto já está acontecendo. Ele é que nem a Evita Perón: volveré, y seré millones.

A NOIVINHA DO VALDEMAR

Biroliro se filiou hoje ao PL, apenas o nono partido de sua carreira política. A sigla comandada por Valdemar Costa Neto é o puro suco do Centrão: fisiologista, corrupta e sempre pronta a apoiar o governo, qualquer governo. Nem estão muito interessados em reeleger o Edaír: querem mesmo é aumentar a bancada na Câmara, para mamar ainda mais nas tetas da União. A partir de hoje, a Noivinha do Aristides também está noivando com o Valdemar, e este relacionamento amoroso tem tudo para dar muito errado. Só gado mais lobotomizado vai aceitar que o Minto tenha mentido mais uma vez e se aliado a quem ele prometera combater. As vacas que ainda têm cérebro estão migrando para Sergio Moro, e é por isto que o ex-juiz está sendo chamado de "traidor" pelos minions. Moro tem um bilhão de defeitos, mas querer que a PF não seja aparelhada só é uma traição pela ótica da familícia. Enquanto isto, o Bozo disputa com o Tiririca o título de maior palhaço do Partido Liberal.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

SCREWBALL À LA FRANÇAISE

"Screwball comedy" é uma expressão que caiu em desuso, mas quem costuma ir ao cinema sabe o que é: comédias românticas com uma mocinha espevitada, diálogos rápidos e acontecimentos improváveis que se sucedem em velocidade alucinante. Este subgênero teve seu auge nos anos 1930 e 40, mas sobrevive até hoje. Um exemplo recente é "Adeus, Idiotas", em cartaz no Festival Varilux do Cinema Francês. Uma mulher com pouco tempo de vida resolve descobrir o paradeiro do filho que ela teve na adolescência e precisou dar para adoção. Ela cruza de maneira absurda com um funcionário público suicida, e mais tarde um cego se junta à dupla. Muita correria, muitos acidentes, muita perseguição pela política e algumas das cenas mais engraçadas que vi este ano. "Adeus, Idiotas" recebeu indicações em 13 categorias do César, e ganhou 6 troféus - inclusive melhor filme, melhor diretor e melhor ator coadjuvante. O ritmo frenético ralenta no terço final, e o desfecho certamente irá dividir opiniões. Mas fazia tempo que um longa me fazia perder o fôlego.

A NOIVINHA DO ARISTIDES

Biroliro gosta de ostentar seu talento como estadista e expor sua visão sobre o Brasil bancando o boneco de posto de beira de estrada, acenando para os motoristas. Mas foi-se o tempo em que o Despreparado só ouvia elogios. Uma mulher que passava em frente à AMAN, em Resende, gritou "noivinha do Aristides" para o Edaír, e ele ficou tão possesso que mandou prender a dita cuja. Esse arroubo de autoritarismo terá uma única consequência: agora o país inteiro sabe da existência do Aristides, instrutor de judô nas Agulhas Negras na época em que o Bozo estudou lá. Segundo o finado senador Jarbas Passarinho, os dois eram mais do que amigos, hohoho. Então, atenção pessoal: é proibido chamar a Noivinha do Aristides de Noivinha do Aristides, porque ela fica bravinha.

domingo, 28 de novembro de 2021

FATHER, SON AND THE HOUSE OF GUCCI

O problema central de "Casa Gucci" é que a história que está sendo contada é uma tragédia, mas o filme se vende como uma comédia. Todos os personagens se dão mal - no entanto, o que os inúmeros trailers mostram são cenários luxuosos, figurinos deslumbrantes e sotaques italianados que nem uma novela das sete tem mais coragem de fazer. No epicentro dessa bagunça está Lady Gaga, com um overacting tão glorioso que merece sua  segunda indicação ao Oscar de melhor atriz. Mas Ridley Scott, especialista em grade épicos com muita ação, talvez não fosse o nome mais indicado para essa sátira social que termina em crime. Ryan Murphy, talvez? Também faltou alguém para cortar meia hora das duas e meia de duração. Mesmo assim, eu me diverti muito. Com locações em Nova York, no lago de Como e em Milão (inclusive na Villa Necchi Campiglio, que apareceu em "Io Sono l'Amore"), "Casa Gucci" é um passeio delicioso por alguns dos lugares mais luxuosos do mundo. A trilha sonora, com muitos hits de Donna Summer, Eurythmics e Blondie, também é divertida, mas por que não puseram mais músicas italianas para dar clima? Além dos homens que ilustram o pôster, o elenco ainda conta com duas mulheres de peso. Uma delas é Camille Cottin, da série "Dix pour Cent", mais linda do que nunca com os cabelos louros a lhe emoldurar o narigão. A outra é Salma Hayek, na vida real a senhora François-Henri Pinault, CEO da holding Kering - que, entre várias outras marcas de luxo, também controla a Gucci. Será que rolou pistolão?

sábado, 27 de novembro de 2021

MANDE ENTRAR OS PALHAÇOS

Semana passada assistimos ao ótimo "tick, tick... BOOM!" na Netflix, e um dos personagens da cinebiografia de Jonathan Larson é Stephen Sondheim, que se tornou uma espécie de mentor do jovem compositor. Comentei com meu marido: "que ironia da vida, o Larson morreu tão moço, aos 36 anos, e o Sondheim está aí até hoje, aos 91".  Não deu outra. As parcas me ouviram, e ontem levaram Sondheim embora. Pelo menos foi uma morte súbita, sem sofrimento. Na quinta ele até recebeu amigos para um almoço de Thanksgiving. E tinha mais é que dar graças mesmo, pois teve uma vida gloriosa. Stephen Sondheim é, possivelmente, o nome mais importante da Broadway de todos os tempos, com uma carreira que abrangeu sete décadas. Começou como letrista de clássicos como "Gipsy" e "West Side Story", mas não tardou a assinar também a música e o libreto. E compôs inúmeros hits que ganharam vida própria. Mesmo que você não esteja ligando o nome à p'ssoa, aposto que conhece vários. Cata só:
Mesmo sendo fanático por musicais, não vi muitos espetáculos de Sondheim no palco. Assisti a uma remontagem de "Follies" em Londres, em 1988, "Into the Woods" em Nova York em 1989, e depois versões brasileiras de "Gipsy", "West Side Story" e "Company". Das suas obras mais tardias, de uma sofisticação ímpar, só vi "Sweeney Todd" no cinema. Perdi "Sunday in the Park with George", "Passion" e "Assassins". Essas duas últimas são de espantar tutistas: a primeira é sobre crimes passionais, a outra é sobre assasinos de presidentes. Brrr.
Minha favorita é "Losing My Mind" na voz de Liza Minnelli com produção dos Pet Shop Boys - a mistura mais bicha da história da humanidade.
E ainda tem "Sooner or Later", vencedora do Oscar de melhor canção em 1991, pelo filme "Dick Tracy". O vídeo acima traz o único momento na vida em que você vai ver Madonna nervosa. Repare como a mãozinha dela treme, na altura do 1:50! Cantar Sondheim é mesmo uma enorme responsabilidade, pois suas músicas são teatro puro. Ele nunca precisou "send in the clowns", como diz o título desse post. Uma gíria do meio, que significa tentar salvar uma peça fracassada com palhaços.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

MINEIRIM SAFADO

É muito fácil ter ódio do Arthur Lira. O presidente da Câmara ostenta aquele sorrisinho seboso de quem sabe que pode cometer as maiores falcatruas, pois dificilmente será punido. De quem tem o Despreparado na mão, mas não usa esse poder para o bem: só em causa própria, hahahaha. Rodrigo Pacheco é outra história. Vozinha macia, sotaquim mineirim, carinha de quem apanhou muito no recreio do colégio mas hoje está bem de vida. Critica o Edaír com muito mais frequência do que seu colega alagoano, e várias vezes soa como uma pessoa sensata. Esse jeitinho manso fez com que Gilberto Kassab pensasse em Pacheco como candidato à Presidência pelo PSD, na certeza de que tudo o que o Brasil deseja agora é um presidente que nos dê soninho. Mas não deixe tanta candura te enganar: Pacheco é tão do Centrão quanto Lira, Nogueira, Valdemar e toda aquela cáterva que mama nas tetas do Erário. Não só endossou a recusa do Congresso em revelar os nomes dos parlamentares que receberam verbas do orçamento secreto, desobedecendo a uma ordem do STF, como ainda marcou um café com Rosa Weber para ver se hipnotiza com seu charme a ministra mais durona de todos. Rodrigo Pacheco não presta, é farinha do mesmo saco de onde saíram Eduardo Cunha e outros vermes. O que me consola é que suas chances de chegar ao Planalto são menores do que zero.

FAXINA DA PRÓPRIA VIDA

"Maid" estreou na Netflix no começo de outubro, mas só agora eu juntei coragem para assistir à minissérie. Li que a protagonista passa por mil desgraças, e desgraça não é exatamente o que preciso para me distrai neste momento. Mas o meu interesse por Margaret Qualley falou mais alto. Se antes eu já achava graça na filha da Andie MacDowell, agora estou jogado aos seus pés, eu sou mesmo exagerado. O fato é que tanto ela quanto a mãe, que também participa da minissérie, estão ótimas - e Margaret já ostenta um talento que Andie, que era apenas uma modelo quando começou no cinema, demorou anos para desenvolver. Dito isso, "Maid" é mesmo barra pesada. A protagonista Alex é uma jovem de 25 anos que adiou o sonho de ir para a faculdade porque teve uma filha com o namorado, um sujeito instável dado a bebedeiras e violência doméstica. Ela foge de casa com a menina logo no primeiro episódio, mas sua via-crucis está apenas começando. Tudo o que pode dar errado dá, fragorosamente, e ela termina esse capítulo com uma dívida enorme e dormindo no chão de uma estação de balsas, porque não tem a quem recorrer. A mãe é bipolar, totalmente irresponsável e vive no mundo da lua; o pai constituiu nova família e não quer muito contato com ela. Daí em diante é uma sucessão de idas e vindas, com pequenos sucessos se alternando com enormes problemas. Alex demora para entender que, além de fazer faxina na casa dos outros, também precisa limpar a própria vida, se livrando dos relacionamentos tóxicos que a impedem de ir para a frente. Bem escrita, bem dirigida e bem atuada, "Maid" é uma das melhores séries do ano.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

FAKE NEWS NO SÉCULO 19

Ontem teve pré-estreia do Festival Varilux do Cinema Francês, e os convidados podiam optar entre quatro filmes qual queriam ver. Meu marido e eu vimos todos os trailers, e fizemos a escolha certa: "Ilusões Perdidas", uma adaptação suntuosa do romance de Honoré de Balzac dirigida por Xavier Giannoli. Além do elenco estelar (que inclui Xavier Dolan e Gérard Depardieu) e do visual épatant, o roteiro trata de um assunto que não poderia ser mais atual: as fake news. A diferença é que os jornalecos do século 19 eram abertamente corruptos. Podia-se comprar uma crítica positiva ou negativa, ou plantar mentiras sobre um rival político. É nesse millieu que chega um jovem provinciano com pretensões literárias. Sem conseguir publicar seu livrinho de poesias, ele acaba trabalhando para um desses pasquins, deixando-se seduzir por um mundo de aparências e tapeações. O protagonista é vivido pelo lindinho Benjamin Voisin, de "Verão 85", que nos brindou com sua presença na sala. "Ilusões Perdidas" é cinemão da mais alta qualidade, e ainda vai passar várias vezes no festival. Depois, entra em cartaz. À ne pas manquer.

LONDON CALLING

O trailer de "Noite Passada em Soho" faz crer que se trata do filme mais bacana de todos os tempos. A Londres de hoje! A Londres dos anos 60! Musiquinhas iradas e figurinos sensacionais, e de repente... terror!! Tudo isso está de fato no longa de Edgar Wright, mas o resultado final fica aquém da expectativa. O roteiro não está à altura da produção requintada e do elenco fenomenal. A premissa é curiosa: uma jovem estudante de moda vinda do interior aluga um quarto na capital britânica, e começa a ter estranha visões. Ela é transportada para a Swingin' London de 1967, e meio que vive as mesmas experiências de uma outra garota, recém-chegada como ela. Thomasin McKenzie, revelada em "Jojo Rabbit", está ótima como protagonista, mas é Anya Taylor-Joy quem rouba todas as cenas em que aparece. Taí uma estrela de cinema de verdade, com uma longa carreira pela frente. Voltando ao filme: o que parecia pura diversão logo é contaminado por prostituição forçada e uma série de crimes sangrentos, e daí em diante nada mais faz muito sentido. "Noite Passada..." vale pelo visual estonteante e pela trilha sonora, e só.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

BECAUSE YOU DON'T KNOW WHAT IT MEANS TO ME

Ontem eu falei da importância do Ney Matogrosso para mim, mas existe uma pessoa ainda mais fundamental na minha vida. Ou existiu: hoje se completam exatos 30 anos que morreu Freddie Mercury, o maior vocalista de rock de todos os tempos. Eu o conheci no final de 1974, através de um amigo que comprava discos importados. Ele me emprestou o "Queen II", com aquela luxuosa capa desdobrável em preto e branco, e eu fiquei acachapado. Nunca tinha escutado uma voz tão bonita quanto a de Freddie (e nem escutei até hoje). Poucos meses depois, já em 1975, chegou "Sheer Heart Attack", o terceiro disco do Queen, e eu fui fisgado para sempre. Importante ressaltar que o Freddie do meu altar particular é o dos anos 70, de cabelo comprido, unhas pretas na mão esquerda e figurinos de Zandra Rhodes. A versão dos anos 80, de cabelo curtinho e bigodão, nunca fez a minha cabeça.

Freddie era um role model para mim. Apesar de jamais ter se assumido gay, era óbvio que ele era - até mesmo para um virgem inexperiente como eu. Sua autoestima transbordava. Além de saber-se talentosíssimo, ele fazia o queria da vida. Tinha atitude, bom gosto e senso de humor. Tudo o que eu queria ter também.

No final dos anos 80, começaram a circular rumores de que Freddie estava com AIDS. A coisa ficou óbvia quando o álbum "Innuendo" (insinuação) foi lançado no começo de 1991. Muitas letras anteviam um fim próximo, nenhuma mais do que "The Show Must Go On". Por isto não foi uma supresa total quando chegou a notícia de sua morte, no dia 24 de novembro. Freddie sofreu muito, como depois li nas várias biografias. Mas deixou um legado imenso, e hoje tem fãs que nem eram nascidos quando ele morreu. Em mim, deixou marcas indeléveis. Convivemos por apenas 17 anos, mas tive a oportunidade de vê-lo três vezes em cena (duas no Morumbi, em 1981, e uma no Rock in Rio de 85). Lamento não tê-lo conhecido pessoalmente: será que ficaríamos amigos? Ou talvez seja melhor assim. Ídolo é ídolo, não é para dar rolé junto. De qualquer maneira, Freddie segue comigo, onde quer que eu vá.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

AMIGUINHOS DE DITADURAS

Em 2010, Lula flertou com a ideia de se candidatar a um terceiro mandato consecutivo, e citou a primeira-ministra alemã Angela Merkel. "Se ela pode ficar tanto tempo no poder, por que eu não posso?" Porque a Alemanha adota o regime parlamentarista e o Brasil, o presidencialista. Lula sabe disso muito bem, é claro, mas neste fim de semana se fez de sonso outra vez. Durante uma entrevista ao jornal espanhol "El País", o ex-presidente teve o desplante de comparar Daniel Ortega com Merkel - só para levar uma invertida da repórter, que apontou que a alemã nunca mandou prender nenhum adversário.

Não deu dois dias e foi a vez de Dilma Rousseff se levantar da tumba e cometer uma burrada parecida. No lançamento de um livro sobre a China, a presidenta incompetenta disse que a ditadura chinesa, que executa dissidentes com um tiro na nuca, é "uma luz diante da decadência ocidental". Dilma nunca escondeu que adora um estado "forte", que intervenha pra valer na economia, e não mudou de ideia mesmo depois de ter provocado recessão e desemprego. Agora, defender a China a menos de um ano da eleição, é tão estúpido quanto apoiar a Nicarágua. Ela e Lula forneceram farta munição para seus inimigos, que explorarão ao máximo essas incoerências. Nem o Alckmin como vice vai adiantar, se o PT não parar agora de elogiar ditadores.

MINHA VIDA, MEUS MORTOS, MEUS CAMINHOS TORTOS

Já contei aqui no blog várias vezes, mas vou repetir de novo. Eu tinha 13 anos de idade quando Ney Matogrosso explodiu na cultura brasileira, como vocalista dos Secos & Molhados. Mal consigo descrever o impacto que aquela figura estranha, não-binária antes do termo existir, causou no adolescente que eu era. Nas cinco décadas seguintes, eu me aproximei e me afastei do Ney seguidas vezes. Houve épocas em que eu comprava todos os discos, outras em que esquecia de sua existência. Mas em 2009 a Folha me escalou para cobrir o show "Beijo Bandido", e eu me rendi novamente. Ney voltou com tudo para a minha vida. Por tudo isto, foi com enorme prazer que eu li "Ney Matogrosso - a Biografia", do jornalista Julio Maria. A narrativa começa antes mesmo do nascimento do cantor, explicando sua família e o cenário quase de faroeste em que ele se criou. Há muita ênfase nos Secos & Molhados, que no final duraram apenas três anos, e capítulos inteiros dedicados a cada álbum/show (os dois sempre vinham juntos) até 1990. Aí a história fica tristíssima. Ney perde, em pouco tempo, o namorado Marco, o ex-namorado Cazuza e o amigo Rafael Rabello, violonista que o acompanhou muitas vezes. Os últimos 30 anos ganham apenas as últimas páginas do volume, sem maiores detalhes da vida pessoal - até porque talvez eles não existam. Ney meio que sossegou o facho, apesar do nude que ele mesmo vazou há poucos meses. Também deve ser imortal. Aos 80 anos, tem o corpo de um homem de 55, e sua mãe ainda está viva! Dona Beíta faz 100 no ano que vem. Seu corpo fechado fez com que ele jamais fosse contaminado pelo HIV, apesar de uma vida de saliências. No ano passado, Ney testou positivo para o novo coronavírus, mas como é feito de aço inoxidável, não apresentou nenhum sintoma da Covid. Vai nos enterrar a todos.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

QUE DROGA DE INFÂNCIA

Deve ser horrível morar num país em que o narcotráfico domina vastos territórios, com poder de vida e morte sobre a população. O México vive há décadas esse drama, que volta e meia rende assunto para o filme que o país envia ao Oscar. É o caso de "A Noite do Fogo", uma coprodução com o Brasil, também premiada na mostra "Un Certain Regard" do Festival de Cannes. O longa de Tatiana Huezo acompanha a vida de uma garota do interior do estado de Guerrero em dois momentos: a infância, quando sua mãe a ensina a se esconder em uma cova para escapar dos traficantes, e a adolescência, quando eles aparecem para "confiscá-la". Mesmo nesse clima de terror constante, a menina consegue brincar com as amiguinhas e mais tarde se engraçar para o primeiro namorado. Não cheguei a vibrar, mas também não desgostei. No entanto, saí do cinema preocupado. Nos créditos finais, aparece que a preparadora do elenco foi a Fátima Toledo. Será que os atores apanharam muito?

A INCONSCIENTE BRANCA

Como é que alguém ainda posta, em pleno ano da graça de 2021, o vídeo do Morgan Freeman criticando o Mês da Consciênca Negra? O próprio ator já voltou atrás. É preciso ser muito burro para propor o "Dia da Consciência Branca", mas Regina Duarte já deu repetidas provas de sua limitada capacidade mental. A ex-atriz que encarnou Malu Mulher não aprendeu nada com sua personagem feminista, e seu arcabouço mental está tão preso aos anos 50 que ela acha normal ser humilhada por um homem. O simples fato de Regina continuar apoiando o Biroliro depois de tudo que ele fez com ela mostra sua falta de autoestima. Como se não bastasse, ela continua questionando a eficácia das vacinas, mesmo com o número de mortes e internações caindo por todo o Brasil. Regina Duarte segue a cartilha da extrema-direita, que não é propor soluções para os problemas, e sim negar a existência deles. Uma burrice colossal, que espalha morte e sofrimento e só serve para manter uma quadrilha no poder. Além de destruir carreiras consagradas.

domingo, 21 de novembro de 2021

O BIROLIRO DO CHILE

O que o mundo menos precisa neste momento é de mais um líder de extrema-direita. Infelizmente, José Antonio Kast foi o mais votado no primeiro turno das eleições presidenciais chilenas, e periga vencer o segundo turno se as forças democráticas não se unirem em torno do esquerdista Gabriel Boric. Como é que pode, um país que sofreu horrores durante a sangrenta ditadura de Pinochet eleger um cara que defende essa mesma ditadura? Só que nenhum regime dura tanto tempo - foram 17 anos - se não tiver apoio de uma fatia considerável da sociedade. E as forças que apoiaram Pinochet acordaram de sua hibernação depois que o Chile foi sacudido por uma onda de protestos que levou à convocação de uma Constituinte. É uma reação ao avanço dos progressistas, como nos outros lugares do mundo em que a extrema-direita chegou ao poder. Kast tem propostas parecidas com as do Biroliro, sem ser grosseiro como o quadrúpede que nos governa. Que os eleitores de lá vejam o que aconteceu por aqui, e tomem a decisão correta em 19 de dezembro.

sábado, 20 de novembro de 2021

ANTES DA EXPLOSÃO

Parece que Jonathan Larson sabia que tinha pouco tempo. Prestes a completar 30 anos e AINDA sem ter feito seu próprio musical na Boradway (Stephen Sondheim fez o dele aos 27), o futuro autor de "Rent" deu para escutar uma bomba-relógio. A cada segundo, a explosão estava mais próxima. Larson então escreveu um show autobiográfico chamado "tick, tick... BOOM!", onde cantava as agruras de ser um compositor talentoso preso a um emprego numa lanchonete. Esse show temcenas recriadas no filme do mesmo nome, que acaba de estrear na Netflix. É a estreia na direção do multi-talentoso Lin-Manuel Miranda, criador de "In the Heights" e "Hamilton". Também é a oportunidade para o ex-Homem-Aranha Andrew Garfield mostrar que sabe cantar e dançar (vem uma indicação ao Oscar por aí). "tico, tico... BOOM!" é um jorro de energia e um hino de amor ao teatro musical. Apreciadores do gênero irão se deleitar. Mas não vá esperando nenhuma música de "Rent".  A história acaba antes de entrar em cartaz o espetáculo que mudou a história da Broadway. Mas imagens de arquivo e letreiros contam o que aconteceu: Larson morreu de aneurisma no dia da pré-estreia, aos 36 anos. O coração dele explodiu.