sábado, 17 de fevereiro de 2018

BLACK HAMLET


Para que um filme de super-herói consiga que eu saia de casa e morra num ingresso, é preciso que ele transcenda o gênero. Não bastam efeitos espetaculares e lutas que destróem cidades inteiras, porque isto eu já vi trocentas vezes. Tem que ter importância sócio-política, como a "Mulher-Maravilha" do ano passado. "Pantera Negra" também tem, e não só porque o herói é negro. Quase todo o elenco também é, resultando no maior encontro de estrelas negras de que eu me lembro: Chadwick Boseman, Lupita Nyong'o, Angela Bassett, Forrest Whitaker, Daniel Kaluuya, Danae Gurira e, no papel do vilão, Michael B. Jordan, ator-fetiche do diretor Ryan Coogler, mais bonito e carismático que o protagonista. Aliás, o Pantera Negra em si é o personagem menos complexo de todos. Os roteiristas tiveram o cuidado de criar personalidades distintas para cada um dos coadjuvantes, e ainda marcaram um golaço ao fazer com que o embate principal se dê entre dois negros (assim não alienam a plateia branca). Este embate, aliás, está mais para o "Hamlet" de Shakespeare do que para o habitual malvado-que-quer-dominar-o-mundo, essa praga recorrente da Marvel. Verdade que eu achei forçado que o avançado reino de Wakanda tivesse tanto um mineral milagroso, o vibrantium, como também uma planta equivalente à poção mágica do Asterix, a erva-coração. Mas a direção de arte fabulosa e a trilha inovadora, que mantém uma percussãozinha rolando ao fundo quase o tempo todo, enchem olhos e ouvidos. Agora já cumpri minha cota; filme de super-herói, só no ano que vem.

ACENDE O FAROL

São Paulo é uma cidade carente de atrações turísticas e qualquer novidade costuma arrastar multidões. É o que está acontecendo com o Farol Santander, o centro cultural recém-inaugurado em um dos prédios mais icônicos da cidade: o Altino Arantes, mais conhecido como "Banespão". Inaugurado em 1947, ele já nasceu velho: seu estilo art déco, que emula o Empire State Building de Nova York, estava totalmente ultrapassado depois da 2a. Guerra Mundial. Mas, com apenas 26 andares, parece mais alto do que de fato é, talvez porque se pareça com a imagem mental que temos de um arranha-céu. Agora virou uma espécie de museu que proporciona "experiências" e deve ficar bem legal quando estiver pronto. Ainda não está, mas isto não impede o banco de cobrar ingresso e criar mais onda para entrar do que na Última Ceia.

Apenas alguns andares estão abertos à visitação. As salas da diretoria do Banespa foram preservadas, com pesados móveis de madeira escura, e é espantoso ver como o gosto dos banqueiros era ainda mais antigo que a arquitetura do edifício. Só duas exposições estão funcionando: a de Laura Vinci é uma bobagem, a de Tundra é para deitar no chão e ficar viajando. Depois, é se extasiar no mirante com a vista de uma das cidades mais feias do mundo, onde cada construção bonita é anulada por outras dez pavorosas. O Santander quer se firmar como patrono das artes, mas o episódio Queermuseu revelou uma empresa covarde. O Farol talvez ajude, só que pelo jeito ainda vai demorar.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

INTERVENÇÃO DIVINA

Na segunda-feira, em pleno carnaval, o Rio viveu uma noite de arrastões em plena avenida Vieira Souto, o metro quadrado mais caro do país. Na quarta-feira de cinzas, um dilúvio como não caía há 150 anos destruiu mais uma parte da ciclovia Tim Maia e arrasou boa parte da cidade. Na sexta, o governo federal decretou intervenção no estado. Temer, o Velho, na verdade está interessado em produzir um resultado rápido (e impossível) na segurança para cacifar seu sonho (também impossível) de continuar no Planalto no ano que vem. Enquanto isto, o prefeito Marcelo Crivella continua flanando pela Europa, inventando reuniões imaginárias que o mantenham longe da folia e da alma do município que governa. Esses bispos da Universal padecem da mesma arrogância: como conseguiram dinheiro para a igreja, acham que são capazes de administrar qualquer coisa, de emissoras de TV a grandes metrópoles, e o resultado é este que vemos, tanto na telinha quanto na vida real. Quem diria que depois de uma Copa e uma Olimpíada o Rio estaria na lona? Mas também, quem mandou os cariocas votarem tão mal? Agora estão sob intervenção. Bem feito.

WÀNG WÀNG

Hoje é dia de cumprir uma das tradições mais sem sentido deste blog: saudar a chegada do ano novo chinês. Digo "sem sentido" porque todo ano eu confiro as previsões para o meu signo, o rato, e nunca acontece nada. Mas vamo que vamo, não é mesmo? O ano que começa hoje é do cachorro, um bicho leal, corajoso e persistente. Whatever. Como eu adoro cães e até tenho um, sinto-me especialmente afortunado (ou não). Até estou com vontade de mudar o nome do Nacho para Wàng Cai, "riqueza sortuda" em chinês, baseado na onomatopéia deles para au-au: wàng wàng. Então, feliz ano novo para todxs! Que o cachorro nos defenda dos perigos, nos console nas tristezas e não faça xixi no tapete.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

DA LAMA AO CAOS


"Mudbound - Lágirmas sobre o Mississipi" é o primeiro filme da Netflix a concorrer ao Oscar. São quatro indicações: atriz coadjuvante (para a cantora Mary J. Blige), roteiro adaptado, fotografia e canção. A plataforma teve que mantê-lo em uma sala de Los Angeles durante uma semana para poder qualificá-lo aos prêmios; no resto do mundo, "Mudbound" está sendo lançado nos cinemas como um filme "normal". E é no cinema que merece ser visto, pois quase  que se trata de um épico. Um romance polifônico onde todos os personagens são principais. A trama é bíblica de tão primária: uma família branca sem muitos recursos compra um pedaço de terra onde já vive uma família de colonos negros. Como estamos na década de 1940, o racismo é moeda corrente, e eu passei a maior parte do tempo roendo as unhas à espera da grande merda que viria. Veio. Claro que há sangue e violência (caso contrário, não haveria lágrimas), mas sem maniqueísmo. Ninguém é totalmente bonzinho ou malvado; a lama da pasiagem também escorre nas almas. Mary J. Blige não está mais do que correta e carece de uma grande cena para ser seu "Oscar clip", mas todo o elenco dá show. Um dos bons dramas da temporada.

FORA, SEGOVIA

O que cêis esperavam de um diretor-geral da Polícia Federal indicado pelo Sarney? É claro que Fernando Segovia iria defender seus patrões com unhas e dentes. É menos claro o porquê dele ter declarado em uma entrevista que o inquérito contra Temer, o Velho, tende ao arquivamento: vai contra toda a liturgia do cargo e levanta uma lebre deste tamanho. Seria ótimo se ele se visse obrigado a renunciar por causa da gafe, mas que ilusão - este é o país onde até uma piada pronta feito a Cristiane Brasil não larga o osso. E tudo com o aval de Temer, o Vampiro Neoliberalista (um termo que não existe, mas já colou). O presidente alegórico vive num país sem sociedade, onde só precisa prestar contas para sua turma. Neste mesmo país, ele acha viável concorrer em outubro, como se o "Fora, Temer" não fosse uma quase-unanimidade. Como canta a Beija-Flor: "Oh, pátria amada, por onde andarás? Seus filhos já não aguentam mais!"

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

QUE BEIJO FOI ESSE?

Fico com uma enorme preguiça do carnaval carioca toda vez que a Beija-Flor é a campeã do Grupo Especial. A escola de Nilópolis raramente é a favorita e quase nunca ganha o Estandarte de Ouro, o prêmio do jornal O Globo que costuma ser muito mais justo que o resultado oficial. Parece que os jurados votam nela no piloto auotmático, ou talvez incentivados por outros motivos. O fato é que o desfile da Beija-Flor foi mesmo impactante e ainda teve Pabllo Vittar estreando na Sapucaí, mas também foi de uma tremenda hipocrisia. Escola que tem Anísio Abraão como patrono não tem moral para criticar nada, como bem lembrou Josias de Souza. De qualquer modo, achei um carnaval memorável, apesar de só ter visto a folia pela televisão. Gosto do Brasil que sabe se divertir sem se alienar.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

ESEQUIBO É MEU

Leopoldo Gualtieri invadiu as ilhas Malvinas. Saddam Hussein invadiu o Kuwait. E agora, Nicolás Maduro ameaça invadir a Guiana. Essas três invasões têm os mesmos dois motivos. O oficial é tomar de volta um pedaço da pátria arrancado por uma potência estrangeira. O verdadeiro é conseguir apoio popular em um momento em que a ditadura passa por maus bocados. A aposta é arriscadíssima. A Argentina levou uma sova nas Malvinas, que continuaram britânicas, e o governo militar que dominava o país se desmanchou feito leite em pó. O Iraque perdeu de lavada a Guerra do Golfo, em 1991, mas Saddam continuou no poder por mais 12 anos - depois foi capturado e enforcado, muito em função do que aprontou n Kuwait. Maduro talvez espere vencer roubar as eleições de abril para se decidir, mas a aventura tampouco será fácil. O Brasil já mandou sinais de que não vai assistir calado a um vizinho instável arrancar dois terços do território de outro vizinho, que os venezuelanos chamam de Esequibo. Mas talvez fosse bom para a Venezuela:  uma derrota à provável aliança militar que se formará em suas fronteiras será a estaca de madeira no coração do chavismo. Será que então deveríamos incentivar Maduro?

FACE DOWN

Começou a decadência do Facebook? Alguns sinais que estão no ar me fazem pensar que sim. O mais forte de todos é a queda dos números, tanto de usuários quanto do tempo gasto diariamente na rede. Um milhão de americanos deixaram o Feice em 2017, e os 184 milhões que ainda estão lá têm mais o que fazer. Também chama a atenção o fato da Unilever, uma das maiores empresas do mundo, simplesmente deixar de anunciar lá, por causa do ambiente tóxico e do baixo retorno ao investimento (a P&G cortou US$ 100 milhões de sua verba no Facebook, e não percebeu nenhuma queda nas vendas). E ainda tem a Folha de S. Paulo deixando de alimentar seu perfil na rede, por causa do novo algoritmo que favorece vídeos de gatinhos e fake news em detrimento das notícias de verdade. Podemos esperar outros órgãos da grande imprensa fazendo o mesmo. Enquanto isto, Mark Zuckerberg e sua turma continuam sob fogo cerrado por terem parido um monstro, que facilitou as vitórias de Trump e do Brexit. Não é por outra razão que o Facebook quer produzir suas próprias séries, para segurar os usuários e se afastar das tretas políticas. Mas a alternativa pode ser pior. As interações pessoais estão migrando para o Whatsapp (que também pertence a Zuckerberg), e lá é um habitat ainda mais propício para as fake news.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

MINHA XARÁ


Lembro direitinho do escândalo das patinadoras, que dominou o noticiário sensacionalista do começo de 1994 - até que estourou um escândalo muito maior, o do O. J. Simpson. Lembro também de como fiquei impressionado ao ver Tonya Harding competir nas Olimpíadas de Inverno daquele ano. Já acusada de ter mandado estourar os joelhos da amyga e ryval Nancy Kerrigan, minha xará adentrou a pista de gelo ao som de nada menos do que a trilha sonora de "Jurassic Park". "Essa mina tem culhão", pensei eu. Minha admiração pela moça se confirma quase 25 anos depois, quando ela é o tema de uma comédia sobre sua trágica vida. Assim como "Lady Bird", "Eu, Tonya" também fala da complicada relação entre mãe e filha. Mas vai além: o filme também chafurda no preconceito que a própria América tem contra seu lumpenproletariado, os chamados "white trash", sem modos e sem educação. Foi essa turma que elegeu Trump, e "Eu, Tonya" chega a ser desagradável em alguns momentos porque se passa integralmente no Trumpistão. Mas os tour de force de Margot Robbie, até há pouco apenas uma gostosona inconsequente, e de Allison Janney, que sempre brilhou mais na TV que no cinema, não deixam olhos e mentes se desviarem. Quase um triple axel.

MR. BURNS E A ORELHA


John Paul Getty foi não só o homem mais rico de sua época, como também a inspiração para muitos milionários de caricatura. Dá para perceber, em "Todo o Dinheiro do Mundo", que a avareza de Getty serviu de matriz para o Mr. Burns dos "Simpsons", capaz das maiores crueldades para não desperdiçar um único centavo. O discreto quaquilionário frequentou as manchetes em 1973, quando seu neto JPG III foi raptado em Roma por mafiosos pé-de-chinelo. O sequestro, que durou meses, é o assunto do filme de Ridley Scott, que teve uma produção tumultuada quase que mais interessante. Como todo mundo sabe, Christopher Plummer rodou em novembro as mesmas cenas de Kevin Spacey, sumariamente defenestrado do elenco depois dos escândalos sexuais que arruinaram sua carreira. Plummer está indicado ao Oscar e é de fato o melhor ator em cena: a chatinha da Michelle Williams não consegue gerar empatia e Mark Wahlberg, como uma versão hétero do Smithers, não tem muito o que fazer. Mas "Todo o Dinheiro do Mundo" funciona como um thriller eficiente, mesmo que idosos como eu já saibam da cena da orelha. Ai...

domingo, 11 de fevereiro de 2018

FEUD: KIM VS. SARAH JESSICA

Ryan Murphy deve estar salivando. O criador de "Glee" e "American Crime Story" acaba de encontrar o assunto para uma próxima temporada de "Feud", outra de suas séries de sucesso: a rixa entre Sarah Jessica Parker e Kim Cattrall, que explodiu di cum força na semana que passou. A treta vem rolando há quase 20 anos, mas o mundo não desconfiava de nada porque elas sempre apareciam em público aos beijos e abraços. No máximo, Kim era acusada de "diva" toda vez que um longa de "Sex and the City" entrava em produção e ela fazia doce até pagarem o que pedia. Só que, quando chegou a vez do terceiro filme, a intérprete da Samantha disse não. Não e não, não é não. Não quer mais fazer e não há dinheiro no mundo que a obrigue. Ah, e tem mais: Sarah Jessica nunca foi sua amiga. SJP reagiu com surpresa, fingida ou não, e mandou pêsames públicos para Kim, via Instagram, depois que o irmão desta apareceu morto esta semana. Pra quê, não é mesmo? Kim jogou uma shade épica, também via Insta, e agora a guerra entre as duas é declarada. Quem poderia interpretá-las na futura minissérie? Ingrid Guimarães como SJP e Vera Fischer como Kim Cattrall?

sábado, 10 de fevereiro de 2018

O GOZO DA ARTE

Finalmente me toquei que a mostra "Histórias da Sexualidade" acaba na quarta-feira de cinzas e corri para o MASP, que fica a uma distância caminhável da minha casa. Pela quantidade e qualidade das obras expostas, desconfio que seja muito, mais muito mais incendiária que a abortada "Queermuseu". Não faltam pintos e xoxotas (tem até dois mapas ensinando como se fala nos diversos países da América Latina e do Caribe); não faltam perversões, inversões, paixões, tudo de bões. Sexo é vida, sexo é arte, sexo é fácil de se usar em frases de efeitinho. E a mostra do MASP é obrigatória. Muita gente concorda, pois o público foi um dos maiores já registrados pelo museu, e os protestos só aconteceram na época da abertura, em outubro. O que faz desconfiar que esse pânico moral seja apenas armação dos fraldas-marrons do MBL, sem respaldo sólido na sociedade. Aliás, parece que a sociedade prefere outro tipo de solidez.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

VOAR, VOAR, SUBIR, SUBIR


Uns dez anos atrás, "Lady Bird - a Hora de Voar" talvez fosse muito elogiado, mas dificlmente chegaria entre os favoritos ao Oscar. Só que o clima cultural mudou e agora a mulherada consegue emplacar um filme que fala quase que só para elas. Os homens vão gostar - eu me diverti muito - mas duvido que muitos achem que a experiência é transcendental (na sessão a que eu fui, tinha moças chorando no final). "Lady Bird" mostra o último ano no ensino médio de uma garota que mora em Sacramento, a capital da Califórnia, pouco melhor que uma cidadezinha do interior. Saoirse Ronan está tão bem como a maluquete que adota um nome estranho e se acha mais cool que a humanidade que eu até fiquei na dúvida se sua pele ruim era real ou maquiagem. Seus namorados complicados são apenas Lucas Hedges, que parece meu marido quando jovem, e Timothée Chalamet, que parece meu futuro marido. Mas quem rouba todas as cneas em que aparece é a veterana Laurie Metclaf, que fez carreira no teatro e na TV mas relativamente pouco cinema. Ela faz a mãe da protagonista, e a relação entre as duas é o verdadeiro coração da história. Com roteiro cheio de boas piadas, rimto ágil e apenas 90 minutos de duração, "Lady Bird" é uma "Sessão da Tarde" que deu suuuper certo. Mas quem tiver cromossomos XY não deve se empolgar muito.

A QUICAR E REBOLAR

Juro que, na primeira vez que eu ouvi o novo hit do carnaval (RIP Jojo Toddynho), eu achei que era cantado num dialeto de alguma ilha remota dos Açores. Mas as definições de tosquice foram atualizadas com sucesso. Cebruthius! Cadê meu úbi?

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

PROBLEMATIZAÇÃO FANTASIOSA

Eu gosto bastante do Catraca Livre, mas tem horas em que simplesmente não dá. O vídeo que o site publicou ontem apenas proibindo sete fantasias clássicas de carnaval rompe todas as barreiras do ridículo. Os empoderadxs por trás dessa sandice não fazem a puta ideia do que seja o tríduo momesco. Ignoram a história da festa como preâmbulo da quaresma católica e desconhecem seu significado mais profundo, que é o mundo de pernas pro ar. Não sabem nem que as pessoas se fantasiam para se tornarem aquilo que não são, nem que seja por poucas horas. Acham que tudo precisa ser politizado e problematizado, e devem se ofender com confete e serpentina, esse desperdício absurdo de papel que está destruindo os ecossistemas do planeta. Os burraldxs dizem até que é pecado homem se fantasiar de mulher, vê se pode? Não percebem que os caras estão tirando sarro DE SI MESMOS, não das rachas ou das travas. Acontece que QUALQUER fantasia pode ser problematizada, inclusive a do Batman (que é vassala do imperialismo ianque e se apropria dos mamíferos em situação de quirópteros). Esses ativistxs de centro acadêmico são de uma estupidez digna dos bolsominions. Ainda bem que a reação ao despautério está sendo avassaladora. E ainda melhor que minha amiga Mariliz Pereira Jorge lacrou xs inimigxs com este artigo publicado hoje pela Folha online. Evoé, momo, evoé.

TEMPOS DEMAIS


Nunca vi um filme de Todd Haynes que se passasse nos dias atuais. "Carol", "Não Estou Lá", "Longe do Paraíso". "Velvet Goldmine", todos eles eram de época, ainda que recente. No novo "Sem Fôlego", Haynes dobra a aposta. São duas histórias parecidas - garotos que fogem de casa para procurar um dos pais em Nova York - que se denrolam em décadas diferentes. Uma delas é centrada numa menina surda nos anos 1920, e estas cenas são todas mudas e em preto-e-branco, como no cinema de então. A outra foca num guri que ensurdeceu num acidente, por volta de 1975, e a fotografia remete ao Eastmancolor do período. Dá para perceber que Todd Haynes queria construir um jorro de imagens e sons que encantassem o espectador, transportando-o a dois momentos do passado de maneira inconsútil. O problema é que nenhuma das duas histórias é grande coisa, e o "segredo" que as une é óbvio. Mesmo assim, o diretor demora para revelá-lo, tentando criar um suspense que não existe. "Sem Fôlego" tem mesmo passagens maravilhosas, atores incríveis e direção de arte impecável, mas está longe de ser arrebatador. Eu mesmo só perdi o fôlego por impaciência, porque o filme é longo demais.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

DELENDA BRASÍLIA

Acho que podemos parar de rezar para que um meteoro destrua Brasília. A capital já está se autodissolvendo, sem nenhuma ajuda exterior. Senão, vejamos: no domingo, o teto de uma garagem desabou sobre vários carros. Ontem, um trecho do Eixão Sul despencou sobre outros carros e o salão de um restaurante, felizmente sem vítimas. Hoje as chuvas fortes alagaram vários pontos da cidade. E outras estruturas podem ruir a qualquer momento, da ponte do Bragueto à barragem do lago Paranoá. Claro que é tentador dizer que a corrupção dos políticos está corroendo até o concreto armado, mas a triste realidade é que o DF vem sendo mal administrado há décadas. E a culpa não é só dos governantes, mas também do povo que os elegeu. Esse despautério vale para quase todo o Brasil - inclusive para o Rio, cujo prefeito quer destruir o carnaval, e para São Paulo, cujo prefeito quer destruir os carnavalescos. Em outubro tem eleição: lembraremos até lá que o país está caindo aos pedaços?

QUESTA VITA STRANA MI RIPORTA A TE

Ontem fiquei assistindo à primeira etapa do Festival de Sanremo até uma e meia da manhã. Só me alimento da bresaola que comprei no aeroporto de Malpensa. E não paro de ouvir "Eva", o enésimo dueto entre essas duas lendas vivas, Mina e Adriano Celentano. Comigo é assim: eu faço três dias de viagem renderem 300.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

UMA TROMBADA

As acusações de Uma Thurman contra Quentin Tarantino vão além do assédio sexual: são de abuso puro e simples, contra a dignidade de uma mulher e de um ser humano. A atriz diz que foi obrigada, no final das filmagens de "Kill Bill", a dirigir um carro que, segundo ela, boa parte da equipe sabia que não era seguro. O resultado foi uma colisão contra uma árvore, gravada em vídeo mas só divulgada 15 anos depois. Uma saiu rindo do acidente, mas teve sequelas físicas e psicológicas que guardou em silêncio durante esse tempo todo. Só agora, em uma matéria do "New York Times" onde ela conta que também foi vítima de Harvey Weinstein, que a história vem à tona. Contra Tarantino pesa o fato dele aparentar ter fetiche por mulheres morrendo em trombadas: seu filme "Death Proof" não fala de outra coisa. A favor dele está o fato de finalmente ter liberado o vídeo para Uma, mesmo sabendo que seria prejudicial à sua imagem. Tarantino talvez queira evitar o ostracismo absoluto, que já tragou Kevin Spacey e está em vias de tragar Woody Allen. De quem será o próximo segredo a vir à tona?

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

ROMPENDO CORREA

Reeleição ilimitada para presidente é coisa de republiqueta. Alguns países latino-americanos, traumatizados pelas expeirências do passado, sequer permitem a primeira reeleição, como o México. Mas a esquerda bolivariana, em sua descarada tentativa de se eternizar no poder por vias aparentemente legais, quis quebrar essa tradição. Hugo Chávez aprovou uma emenda constitucional sobre o assunto, na segunda tentativa; Evo Morales está melando, via Suprema Corte, o referendo que proibiu que ele se candidatasse mais uma vez. Ontem o Equador deu uma mostra de maturidade política, talvez assustado pelo que está acontecendo na Venezuela. Rafael Correa, presidente do país durante dez anos, nunca mais poderá concorrer de novo. Por mais que ele tenha capitaneado anos de crescimento econômico e melhorado a vida de boa parte da população, Correa também perseguiu a imprensa, encheu o governo de corruptos e se revelou um tiranete em potencial. O resultado acachapante das urnas, com dois terços do eleitorado apoiando as propostas do presidente Lenín Moreno (melhor nome EVAH) é a maior pá de cal na onda socialista que começou a varrer a América Latina no final dos anos 90. Correa se quebrou; quem será o próximo?

QUE TIRO FOI ESSE, VIADO?


"O Sacrfício do Cervo Sagrado" abre com um um close em um coração pulsante, durante uma cirurgia. Esta cena nem de longe é a mais incômoda do segundo filme em inglês do grego Yorgos Lanthimos, do estranhíssimo "O Lagosta". Aqui a chave é mais realista, mas não muito. Movido pela culpa, um médico faz amizade com o filho de um paciente que morreu em sua mesa de operação. A princípio o garoto é só creepy mesmo, querendo forçar intimidade e até jogando sua mãe viúva para cima do doutor. Mas logo suas verdadeiras intenções são reveladas, e mais não posso contar. Todo o elenco atua de maneira minimalista, quase sem emoção na voz, mas só a diva Nicole Kidman consegue transmitir desse jeito o turbilhão que sua personagem sente por dentro. "O Sacrifício" não faz nenhuma concessão e aposto que vai ter gente saindo no meio (o filme foi até vaiado em Cannes). Mas sua trilha inquietante, sua ambientação numa cidade genérica (na verdade, Cincinatti) e seu roteiro assustador - uma variação da peça grega "Ifigênia em Aulis" - fazem com que mereça ser visto. É um tiro no lugar comum.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

GOIABADA COM QUEIJO 80

Venho defendendo que, a princípio, qualquer ator pode fazer qualquer papel. Não tem cabimento achar que só trans pode interpretar trans, ou que uma obra que se passe na Europa medieval precise ter o elenco todo branco. Miriam Mehler e Renato Borghi são da mesma opinião: os dois estão em cartaz em SP com "Romeu e Julieta 80", justamente como os adolescentes amantes de Verona. Miriam não precisa de maquiagem nem figurino para convencer que é uma menina; Borghi traz intacta a impetuosidade de um rapazinho. Teatro é isso, galera, não uma ação entre amigos para dar representatividade a sei lá quem. O espectador que não conhecer o texto de Shakespeare talvez não entenda direito a luta de espadas entre Romeu e Tebaldo, travada com facas em cima de uma mesa, e o desfecho surpreendente - digamos que é aquele com que os produtores sempre sonharam - revela a sem-cerimônia que só os íntimos  da arte cênica podem ter. Os protagonistas, amigos na vida real há mais de 50 anos, se divertem nesse jogo teatral e arrastam a plateia junto. Com eles, o novo final faz todo sentido.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

E HÁ UMA NOITE PARA PASSAR

Há quanto tempo que eu não vinha pedindo que algum cantor brasileiro regravasse a épica "Canção do Engate", do português António Variações? A Deusa ouviu as minhas preces e a faixa foi incluída em "Catto", o novo álbum do Filipe Catto. Acho que o arranjo deixou a desejar, mas como hino queer ainda é melhor que todo o repertório do Liniker feat. Johnny Hooker. Vem que o amor...