terça-feira, 2 de junho de 2020

ANTIFAS X ANTIFASCISTAS

Está sendo revigorante assistir e participar da reação organizada ao desgoverno Biroliro. A oposição percebeu que forma, no mínimo, 70% da população brasileira, e que os tais dos 57 milhões de votos que os minions apregoam não correspondem mais à realidade ("votos você não tem, você TEVE", dizia Tancredo Neves). Eu vivi intensamente a campanha pelas Diretas Já em 1984, e sinto frêmitos de prazer ao captar um clima parecido no ar. Mas há uma diferença importante: naquela época, o movimento começou na esquerda, e só depois o centro e a direita democrática se uniram para derrubar o regime militar. Dessa vez, é o centro quem toma a iniciativa, e há alguns setores da esquerda relutantes em aderir - começando por Lula, é claro, que não participa de nada que não seja explicitamente de apoio a ele. A explicação é simples: o PT e seus satélites continuam magoadíssimos com Temer, o PSDB, o MBL, eu, você e qualquer um que eles achem que tenha culpa pelo impeachment da Dilma.

Também está rolando um subfenômeno curioso: a disputa ente antifas e antifascistas. A rigor são todos uma coisa só, e nenhuma explicação extra seria necessária além do próprio nome. Mas alguns antifas insistem que, para ser MESMO antifascista, você tem que ser de esquerda, contra o capitalismo, etc. etc. Exibem um crachá histórico, mostrando que o movimento antifa surgiu na Segunda Guerra Mundial e era formado por socialistas, comunistas, partisans e afins. Esquecem de dois detalhes: toda a esquerda daquela época apoiava a União Soviética de Stálin, uma das mais sanguinárias ditaduras de todos os tempos, o que é uma vergonha absoluta. E que, das potências do Eixo que derrotaram Hitler, só uma de fato era governada pela esquerda: a própria URSS. Portanto, dá perfeitamente para ser antifascista e não ser esquerdista. Mas os puristas tiveram um chilique quando o logo antifa virou meme e ganhou novas cores e significados nas redes sociais. Não entendem que a união é que faz a força, e que ninguém derrota o fascismo sozinho. Vamos nos amalgamar, galera.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

DERRUBEM O MONUMENTO

Meu pai foi pracinha da FEB. Aos 24 anos de idade, já formado em Direito, foi convocado pelo Exército e enviado para lutar na Itália. Passou um ano lá, participou de combates, matou um alemão numa luta mano a mano (pelo menos era o que ele nos contava quando éramos crianças, talvez para nos impressionar). Poderia ter morrido lá, e eu não estaria aqui neste momento. Poderia ter morrido lá, não ter seu cadáver identificado e hoje estar enterrado no Monumento à Força Expedicionária Brasileira, no Aterro do Flamengo, onde há túmulos de soldados desconhecidos.  Mas este belo marco do Rio de Janeiro perdeu sua razão de ser. Neste domingo, além de gastar uma fortuna em dinheiro público para ir de helicóptero do Alvorada ao Planalto e ainda pagar mico cavalgando feito o Rei do Gado que de fato é, Edaír Biroliro tuitou uma frase de Benito Mussolini. Claro que não foi ele em pessoa, foi o Gabinete do Ódio do Carluxo - mas a frase está lá, em seu perfil oficial: "Melhor um dia como um leão do que cem anos como ovelha". Faz sentido ter um monumento aos brasileiros que tombaram na luta contra o fascismo, quando o próprio presidente da República replica uma frase de quem ele chama de "velho italiano"? Por que as Forças Armadas não derrubam de uma vez esse monumento, já que agora elas apoiam um presidente que cita Mussolini? Esses pracinhas mortos viraram inimigos da pátria, pois adiaram em 75 anos a instauração do fascismo entre nós. Na verdade, é ÓBVIO, as FFAA tinham que deixar de palhaçada e se afastar do Coronaro. Elas têm sorte de que quase não há mais ex-pracinhas vivos, porque a grita deles seria grande neste momento. Mas têm o azar dos filhos e netos estarem vivos, e eu não vou deixar que emporcalhem a memória do meu pai.

A RUA NÃO TEM DONO

Foi um fim de semana de perdas para o bozoarismo. As notinhas de repúdio estão ficando para trás, sendo substituídas por ações concretas da sociedade. Começam a pipocar manifestações contra o governo, apesar da pandemia e da má vontade das polícias. Houve abusos flagrantes da PM no Rio e em SP, haja vista o tapinha nas costas que levou a amiga da Carla Zambelli, que carregava um taco de beisebol onde se lia "Rivotril". Mas também houve vexames históricos, como a passeata "dos 300" da cretina da Sara Winter, que reuniu menos de um décimo disto e ainda evocou a Ku Klux Klan - no exato fim de semana em que protestos antirracistas explodiram nos Estados Unidos. Aliás, não é coincidência que Brasil e EUA estejam reagindo ao mesmo tempo a seus desastrosos presidentes. Tanto Trump como Edaír menosprezaram o coronavírus, defenderam os neofascistas e incitaram a violência. O primeiro deve cair em novembro, o que vai enfraquecer ainda mais o segundo. Sim, há o risco da violência se exacerbar e fornecer os pretextos que esses crápulas tanto querem. Mas esse risco não pode ofuscar o dado novo: as ruas não são deles. A imensa maioria está de saco cheio da inépcia, da retórica agressiva, das mentiras deslavadas. A reação já começou e vai se intensificar, mas temos que tomar todo o cuidado possível. Vamos de máscara e vamos manter o distanciamento social, mas vamos para as ruas.

domingo, 31 de maio de 2020

CHEIA DE ENCANTOS MIL

Todas as noites eu fujo do Brasil do Bozo e da pandemia, e volto 100 anos atrás. Volto para o Rio de Janeiro da década de 1920, que salta das páginas de "Metróple à Beira-Mar". O livro de Ruy Castro é um mosaico das personalidades que transformaram a antiga capital do país na Cidade Maravilhosa, em todos os sentidos. Quase todos esses nomes são de figuras ligadas à cultura: o autor perde pouco tempo com os políticos, que só aparecem para serem criticados. Em compensação, o povo das artes plásticas, da literatura, da música, da imprensa e arredores, todos eles merecem minibiografias que se entrelaçam e resplandecem. Foi a época em que o Rio tomou a forma com que o conhecemos hoje: se espalhou pelas praias até então desertas de Copacabana e Ipanema, subiu os morros e criou o samba, depurou a carioquice que já se formava no final do Império. Ruy Castro não esconde seu crush por Eugenia Alvaro Moreyra, jornalista, escritora, atriz e glamour girl, e dá um jeito de sua protegida dar as caras em diversos capítulos. Mas o resto do elenco não fica atrás: Villa-Lobos, Noel Rosa, Carmen Miranda, as revistas Fon-fon e O Malho, o maxixe, o carnaval. Viveremos novamente uma época de tamanha efervescência? Quem sabe? "Metrópole à Beira-Mar" começa em 1919, com a cidade exausta pela gripe espanhola e doida para enlouquecer e beijar na boca. A história parece se repetir.

sábado, 30 de maio de 2020

ENTENDEDORES ENTENDERÃO

Que mané Desafio do Leite. Edaír não bebeu um copo de leite durante sua live na quinta-feira para apoiar os produtores e estimular o consumo. O que ele fez foi o que os americanos chamam de "dog whistle": um apito para cachorro, numa frequência tão alta que só os ouvidos bem treinados conseguem captar. Provavelmente, uma sugestão do Carluxo. Duvida? No dia seguinte, o asqueroso Allan dos Santos repetiu o gesto do Pandemito, esclarecendo que "entendedores entenderão". Entender o quê? Que todos eles se alinham com a extrema-direita racista. O copo de leite foi adotado como símbolo pela alt-right americana, porque só os caucasianos costumam ter no organismo as enzimas necessárias para digerir a lactose. Beber leite, neste contexto, é defender a supremacia branca. Dá para ficar mais nojento? Com Biroliro, sempre dá. Todo mundo já entendeu.

A FALTA QUE O FOGO FAZ

As polícias brasileiras matam muito mais negros inocentes do que as americanas. Todo mês tem pelo menos uma Ágata, um João Pedro, um Evaldo fuzilado por 80 tiros. Segue-se uma comoção na mídia e nas redes sociais, algumas punições brandas e no mês seguinte, ratatatata, outro caso. O que falta para os brasileiros (e não só os negros) nos rebelarmos contra esse morticínio? Nos EUA, revoltas violentíssimas acontecem em todas as grandes cidades, depois que um policial branco pisou no pescoço do negro George Floyd durante cinco minutos, provocando a morte deste. A Casa Branca chegou a ser cercada por manifestantes. Por que nada parecido acontece por aqui? Uma explicação bastante plausível é dada neste artigo de Dodô Azevedo. Os negros brasileiros não se enxergam como "um povo". Caíram - caímos todos - na esparrela de que somos brasileiros, sem distinção de raça, credo ou classe social. O discurso do ministro da Educassão, que odeia o termo "povos indígenas". Mas mesmo esse mito não serve para nos aglutinar. Somos individualistas, sem o menor senso de comunidade. O que atinge alguém é problema só dessa pessoa. Essa crença nos faz querer romper a quarentena, se não conhecemos nenhum doente. E nos faz aceitar como um fato da vida um garoto ser atingido pelas costas dentro de sua própria casa. Nos falta por dentro o fogo que precisamos tacar no Brasil.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

CANTA MÚSICA PROS GUEIS


Lady Gaga deu a proverbial volta de 360 graus. Voltou ao mesmo ponto onde estava antes de lançar o malfadado álbum "Artpop", de 2013: deeva beesha das peeshtas, rainha dos lirôu monsters. Aquele disco não teve nenhum grande hit e lançou a Germanotta numa crise existencial. Nos anos seguintes, ela tentou se reinventar de várias maneiras. Gravou duetos com Tony Bennett, cantou músicas da "Noviça Rebelde" na entrega do Oscar, abandonou a dance music e abraçou o country-rock no marromeno "Joanne", estrelou "Nasce Uma Estrela", foi indicada ao Oscar de melhor atriz e levou o Oscar de melhor canção. Depois de se consagrar novamente, sentiu-se segura para voltar com tudo aos braços de seu público mais fiel: as gueis, que estão subindo pelas paredes nessa quarentena. "Chromatica" foi até adiado, na vã esperança de que o confinamento acabasse logo, mas hoje finalmente veio à luz em toda sua glória. E que glória: é o melhor trabalho de Gaga desde "The Fame Monster". Treze faixas saltitantes, intercaladas por três breves interlúdios instrumentais. Para serem ouvidas de um fôlego só, pois quase não há pausas entre uma e outra. Nenhum balada, mas algumas letras tristes: as dores no corpo e na alma de Stefani não se deixam ofuscar pelos arranjos esfuziantes. Gaga canta em tantos tons diferentes que às vezes é difícil saber se ela mesma ou suas convidadas Ariana Grande e BLAKCPINK; só Elton John realmente se destaca, com sua voz grave pouco assídua nas boates. Apesar de ainda guardar semelhanças com a nave-mãe Madonna, Lady Gaga faz um retorno triunfal à essência de sua marca. Enquanto Madge ressalta que todo mundo pode ser lindo e fabuloso, Gaga diz que você pode ser fabuloso mesmo sendo feio. É uma bela mensagem, e "Chromatica" é um belo disco. Já entrou para os Top 10 de 2020.

JAZZ VAI TARDE


Não consigo gostar de jazz. Fui criado a leite de Madonna, apesar  dos standards americanos também terem feito parte da minha dieta. Mas o jazz pós-1950, de Charlie Parker e Miles Davis, é algo que eu não aguento por muito tempo. Até acho cool e admiro o talento dos músicos, mas tem aquela hora em que cada um parece ir para um lado, e aí não dá. Mesmo assim, eu estava bem curioso para ver "The Eddy", a série da Netflix ambientada em um clube de jazz em Paris. O pedigree é vistoso: Damien Chazelle, o cineasta de "La La Land", dirigiu os dois primeiros episódios e é o produtor-executivo. Mas a verdadeira força criativa por trás de "The Eddy" é o roteirista inglês Jack Thorne, e é justamente o roteiro o ponto fraco do programa. O protagonista Elliott (André Holland), o dono americano do clube, é incompetente em tudo o que faz, a ponto de não conseguir comprar café numa máquina sem derramar tudo. Os demais personagens também não são dos mais atraentes, e a única realmente viva é a adolescente Julie (Amandla Stenberg) - e olha que ela é uma pentelha como todas as garotas de sua idade. O mais interessante de todos é assassinado logo no primeiro capítulo, e o segundo simplesmente ignora esse crime, que só é retomado do terceiro em diante. No final, o que mais se salva é o jazz: as canções são quase todas originais, e a voz da polonesa Joann Kulig ("Guerra Fria") é mesmo uma delícia. Já baixei o álbum, mas chegar ao fim da série foi penoso como ouvir uma jam freestyle infinita.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

THE WINTER OF OUR DISCONTENT

Não vou nem entrar no mérito jurídico da operação de ontem da PF. Não sou advogado, não manjo de leis, não me sinto autorizado. Só achei curioso ver a direita toda (não só seu extremo) apontando abusos, quando essa mesma direita aplaudia quando Moro e a Lava-Jato passavam por cima das leis. E me diverti muito, claro, vendo luminares como Allan dos Santos tendo que passar da terça livre para a quarta presa, como brincou o Twitter. Mas ninguém foi mais engraçada do que Sara Winter. Já sabia que a ex-Femen não é exatamente um exemplo de coerência, mas o vídeo em que ela ameaça descobrir os nomes das empregadas domésticas de Alexandre Moraes é digno do Porta dos Fundos. Além do mais, a moça é mesmo de baixo calão, mixuruca de dar dó. Mas merece ser presa? Merece, mas aí vai posar de mártir e talvez turbinar sua candidatura a vereadora ou deputada. De qualquer forma, Sara Winter não vai se dar bem a médio prazo. As armas que a doida carrega estão apontadas para ela mesma.

A PROFETISA NEGRA


"Harriet" deveria ter entrado em cartaz no Brasil em fevereiro, aproveitando que sua protagonista Cynthia Erivo estava indicada ao Oscar. Aí alguém achou que ele se perderia no meio de outros títulos mais badalados, e a estreia foi transferida para abril. Então pintou a quarentena, e o filme chegou por aqui direto no sob demanda. A tela da TV talvez não faça justiça a uma história tão épica, mas o fato é que a direção de Kasi Lemmons não tem brilho. Ela desperdiça cenas impactantes, e não consegue dar nuance alguma a uma personagem que deve ter sido complexa. Harriet Tubman foi uma das maiores heroínas do movimento abolicionista americano. Ajudou sozinha dezenas de escravos a fugir do sul para o norte, onde podiam ser livres. Também comandou tropas na Guerra Civil. Claro que era durona e determinada, mas sua cinebio não mostra nada além disso. Apenas que ela falava diretamente com Deus, que lhe sussurrava os caminhos certos a seguir, e que conseguia prever o futuro. Cynthia Erivo, uma atriz de muitos recursos, se sai bem com esse papel tão sem nuances, e o filme não tem enrolação. Mas fiquei com a sensação de que essa história real não teve o tratamento que merecia.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

RACISMO D.O.C.

Sergio Camargo sobreviveu a uma medida judicial para tirá-lo da Fundação Palmares, passou por cima de Regina Duarte e continua achincalhando a luta dos negros brasileiros. Sua última canalhice é o tal do selo "não racista", para gente acusada injustamente (na opinião dele) de preconceito racial. Quem será o primeiro felizardo? Silvio Santos? Ernesto Araújo? O que Camargo não percebe é que, fora da bolha da extrema-direita, este selo funciona como um atestado de racismo em três vias, registrado em cartório. Quem o receber pode se gabar de ser um racista D.O.C., d'origine contrôlée, como os queijos mais finos. E são tão fedorentos quanto.

WILLIAM BOM

Estão surgindo novas vozes críticas ao desgoverno Biroliro, desvinculadas da esquerda tradicional: Atila Iamarino, Maria Bopp, Gabriela Prioli, o Sleeping Giants BR, até mesmo Anitta. Outras já estavam por aí e ganharam mais veemência, como Felipe Neto e Gregorio Duvivier. E ainda há uma voz que conhecemos já faz um tempão, mas vem se firmando como um marco de firmeza e serenidade nesses tempos tão incertos. Eu arrisco até que William Bonner está vivendo a melhor fase de sua carreira e garantindo seu lugar na história, pela maneira com que vem conduzindo o "Jornal Nacional". E ele está pagando um preço altíssimo por isto, como contou no "Conversa com Bial" exibido nesta madrugada. É inconcebível que ele não consiga pegar uma reles Ponte Aérea desde 2016, quando era alvo de petistas magoados. Agora estes o aplaudem, mas Bonner arrumou para si um inimigo muito pior: os bolsofascistas, que não têm escrúpulos de envolver sua família e fazer ameaças gravíssimas. O que me consola é que essa onda extremista está se exacerbando justamente porque já começou a se enfraquecer. A médio prazo, estaremos livres dessa loucura toda, e talvez Bonner volte a ser a quase unanimidade que já foi um dia.

(A entrevista de William Bonner a Pedro Bial está disponível na íntegra no Globoplay e, aos pedaços, no YouTube. Não vou embedar esses vídeos aqui, porque daqui a pouco a Globo irá removê-los todos. Vocês que lutem.)

terça-feira, 26 de maio de 2020

A AMIGA JENIAL

Um governo que tem Carla Zambelli como uma de suas figuras de proa não tem a menor chance de dar certo. A deputa-"jênia" não consegue ficar quieta: na ânsia de mostrar que é assim com os hômi, volta e meia ela revela segredos comprometedores. Sua última burrada foi contar para uma rádio gaúcha que já sabia da operação da Polícia Federal contra o governador Wilson Witzel - algo que, teoricamente, ninguém de fora da PF deveria saber. Zambelli ainda disse que a operação poderia se chamar "Estrume", o apelido carinhoso que Edaír deu para Whitney, mostrando que os federais estão mesmo sendo usados como instrumento de perseguição política. Quem tem amigos como a cretina da Carla Zambelli não precisa de inimigos. Mais uma vez, fica patente que a maior oposição ao birolismo vem de suas próprias hostes.

PARABÉNS ATRASADO

Mais uma vez esqueci do aniversário do meu blog, e mais uma vez precisei do Daniel Cassús para me lembrar a data correta. Eu achava que era dia 27 de maio; Dani Hansa Bee, um dos meus leitores mais antigos, me avisou que é dia 24. Ou seja, foi domingo passado, o dia ideal para soprar velinhas e cantar pique-pique. Mas como na quarentena só existem três dias da semana - ontem, hoje e amanhã - vamos fingir que o aniversário é nesta terça e abrir um bolo mental. Obrigado a todos que ainda me acompanham, inclusive os haters e a Monotemática. E cuidado, porque agora este blog é oficialmente um teenager.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

TREM-BALA


"Run" começa meio devagar, apesar da premissa excitante. Uma mulher casada e com dois filhos (Merrit Wever, aperfeiçoando a verve que já exibira em "Nurse Jackie"), entediada pelos afazeres domésticos, recebe uma mensagem de seu ex-namorado (o extra-ruivo Dohmnall Gleeson) no celular: apenas a palavra "corra" (ou "fuja"). Anos antes, eles haviam combinado que, se um mandasse esse recado e o outro respondesse, os dois se encontrariam na Grande Central Station de Nova York e embarcariam em um trem para Los Angeles. É o que os dois fazem, mas os dois primeiros episódios são prejudicados por um detalhe absurdo. Ele não sabe do estado civil dela, ela ignora que ele agora é um famosíssimo palestrante motivacional. Pelo jeito, ninguém tem perfil em rede social. Mas as coisas esquentam do terceiro episódio em diante, e os quatro seguintes são de tirar o fôlego. Aí chega o sétimo e último, com um final abrupto de dar inveja a "Os Sopranos". Fiquei tão atônito que não sabia dizer se gostei. Hoje, pensando melhor, acho que adorei, e que a história deveria terminar por ali. Seria uma minissérie elegante, e meu interesse por esses personagens já está saciado. Por quê tudo  tem que ter duzentas temporadas? Uma boa já está de bom tamanho.

domingo, 24 de maio de 2020

BEM-VINDO AO INFERNO


Num mundo cheio de vilões, talvez Ramzan Kadyrov seja o pior de todos. O homem forte da Chechênia foi colocado lá em 2007 por Vladimir Putin, para sufocar os ímpetos separatistas dessa região russa do Cáucaso. E como foi que ele conseguiu isso? Implantando uma ditadura que, entre outras coisas, tortura e mata homossexuais. Esse horror rendeu o documentário "Bem-vindo à Chechênia", que estreia em junho na HBO. Mas agora chega uma notícia alvissareira desse rincão do planeta: Kadyrov está internado em estado grave, com Covid-19. Como eu não sou mais cristão, não me sinto envergonhado de querer que ele morra.

sábado, 23 de maio de 2020

URSO MAIOR

Quem aí gosta de urso? Eu estou aprendendo a gostar, talvez porque já me encaixe na categoria. Mas ainda estou longe dos hirsutos Man On Man, que acabam de lançar seu primeiro single, "Daddy". A dupla é formada por Roddy Bottum (o grisalho), tecladista do Faith No More, e seu marido Joey Holman, e tanto a música quanto o vídeo foram feitos durante a quarentena. Não acho nenhum dos dois grande coisa, mas gosto de tudo que abale o padrãozinho.

ATUALIZAÇÃO: O YouTube REMOVEU o clipe do Man On Man. Agora, no canal da dupla, só tem a versão em áudio de "Daddy", que eu coloquei lá no alto do post. A desculpa é que o vídeo "violava os termos de uso". Só que não tem nudez, nem palavrões, nem incitação ao ódio: só dois ursos de cueca se agarrando. Talvez, se tivesse uma defesa da terra plana, ainda estaria no ar.

ATUALIZAÇÃO 2: O clipe de "Daddy" pode ser visto aqui, no IGTV da dupla.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

VÍDEO SHOW

O famoso vídeo da reunião de 22 de abril não trouxe nenhuma grande novidade. Todos os seus pontos mais calientes já haviam sido divulgados por fontes anônimas que o assistiram na semana passada. Claro que é divertido - e, ao mesmo tempo, estarrecedor - ver em ação um presidente que catou sua bca no esgoto. Biroliro é grosseiro, covarde, paranoico, vaidoso e incompetente. Em nenhum momento ele manifesta preocupação com os efeitos da pandemia no Brasil, mas em sua própria carreira política. Damares, Salles, Weintraub, até o Guedes, todos eles protagonizam vexames diversos. Mas, no meu humilde entender, não há a bala de prata que atinja o desgoverno no coração. Não resta a menor dúvida de que Edaír estava se referindo à PF do Rio quando fala em "segurança", mas os termos são vagos o bastante para Augusto Aras cruzar os braços. A minionzada minguante vai até aplaudir, porque o Bozo que se vê ali é exatamente o mesmo em que eles votaram. Acontece que, se não é de prata, a bala é de um calibre considerável. Ela escancara o despreparo da maioria do ministério, e se junta às provas que vêm brotando contra a familícia. E ainda vem por aí uma bomba H: as mortes pelo coronavírus.

HELE NÃO

O grotesco general Heleno, o pior dos milicos que infestam o Planalto, acha que põe medo na gente. Hoje ele soltou uma "Nota à Nação Brasileira" onde alerta sobre "consequências imprevisíveis" se Biroliro tiver seu celular apreendido. Ele sabe que Celso de Mello apenas cumpriu a lei, e que a decisão ainda cabe o STF ou à PGR. Mas quer criar marola nesta dia tenso. Já deu a oportunidade para o Edaír dizer que não entrega nem a pau, e ainda criou um clima de suposta ameaça para cima do decano do Supremo. Não vai adiantar: Heleninho só fala para as hostes miniônicas, e o vídeo da reunião está para sair a qualquer momento. Nada que esfrie a pipoca.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

BOMBA DE EFEITO RETARDADO

A série "Smash" foi meu programa favorito de 2012. A trama girava em torno da disputa de duas atrizes pelo papel principal em um musical fictício sobre Marilyn Monroe, "Bombshell". Fictício até certo ponto: as músicas foram todas compostas, e os números eram ensaiados ao longo dos episódios. "Smash" não fez muito sucesso e durou apenas duas temporadas, mas, em 2015, "Bombshell" foi apresentada  em formato de concerto, num evento beneficente, com o elenco original da série. Mas, até ontem, só quem foi ao teatro conseguiu ver. O material inédito finalmente foi divulgado durante uma live com todos os atores, dessa vez para angariar fundos para o pessoal da Broadway. Quem não tiver saco para encarar as duas horas pode pular direto até o minuto 37, onde aparecem rapazes enrolados em toalhas. Logo em seguida vem uma canção que eu irei incluir em meu álbum-solo: a épica "They Just Keep Movin' the Line", quase autobiográfica.

O GIGANTE ACORDOU

Não está fácil ser de extrema-direita no Brasil de hoje. A popularidade do Biroliro segue em queda livre: segundo a pesquisa da XP divulgada ontem, já somos 50% de brasileiros que o consideram ruim ou péssimo. O número de mortos pelo coronavírus continua subindo, ainda mais agora que o Edaír liberou geral a cloroquina. O cerco se fecha em volta do Zero-Um. E há toda uma nova geração de oposicionistas, independente do PT - que, aliás, não só perdeu faz tempo o controle de qualquer narrativa, como se afunda ainda mais a cada patacoada do Lula. Uma das novidades mais recentes é o perfil Sleeping Giants Brasil no Twitter, inspirado pelo similar americano e por esta matéria publicada na edição brasileira do El País. O funcionamento do treco é simplérrimo: um internauta que, por razões óbvias, prefere se manter anônimo, esquadrinha os sites de fake news e anota os anúncios de grandes empresas que o AdSense do Google colocou neles. Aí, o cara simplesmente avisa as empresas, por tuítes abertos ao público. A Dell, o Boticário, o Telecine e até o Banco do Brasil já se comprometeram a não anunciar mais nesses sites. O BB, inclusive, provocou uma reação apoplética do Carluxo, a ponto dele publicar um print one aparece logado na conta do papi - algo que ele jurou que não fazia nunca. A gênia da Carla Zambelli também já se manifestou, e a robôzada está trabalhando full time para tentar desacreditar o Sleeping Giants. Veremos se conseguem: nos EUA, o perfil conseguiu evitar que nada menos que 50 milhões de dólares fossem parar nas mãos do Steve Bannon.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

ENTRANDO NUMA FRIAS

Em breve o Brasil poderá ter o mais belo secretário da Cultura de sua história. Mário Frias está doidinho para colocar o cargo no currículo. Também poderá enfiar em breve o título de ex-secretário: alguém tem dúvida de que ele irá durar pouco? Porque Frias não é Roberto Alvim, o único dos quatro titulares da pasta de quem o Edaír realmente gostou. Não fosse o discurso nazista de janeiro passado, o nazista Alvim ainda estaria implantando medidas nazistas, sob o aplauso de seu chefe. Engana-se quem acha que a cultura é menosprezada pelo governo. Ela é o núcleo duro do bolsolavismo, que quer transformá-la em campo de batalha perpétuo. Também é a razão número 1 para os minions terem votado no Bozo: eles estão muito mais interessados em "proteger a família" (i.e., restaurar o patriarcado) do que em combater a corrupção ou salvar a economia. Não sei se o belo Frias está ciente disso. Só sei que a inexperiência e o puxa-saquismo necessários, ele tem.

CELEBRATE GOOD TIMES, COME ON

It's a celebration!, como cantavam Kool and the Gang. Motivos não faltam: mais de 100 mil curados da Covid-19, viva! O que a campanha da Secom esquece de dizer é que muitos desses 100 mil salvos nem precisavam ter adoecido, caso o governo federal levasse a sério a pandemia. Agora, vários deles carregarão sequelas pelo resto de suas vidas. Outros tantos sobrecarregaram o sistema hospitalar, tirando respiradores de gente que morreu. E incontáveis devem ter transmitido o vírus para seus entes queridos, que podem não ter tido a mesma sorte. Mas o desgoverno Edaír quer que não se focalize a morte, pois ele "trabalha pela vida e celebra a vida". Só que a deles. Só a deles.

terça-feira, 19 de maio de 2020

BRASIL DESMASCARADO

A previsão está se cumprindo. O Brasil está se tornando rapidamente um dos epicentros da pandemia. Já são 18 mil mortos quando escrevo este post (números oficiais, que não contam a subnotificação0. É patético que o governo paulista tenha que decretar um feriadão para obrigar as pessoas a ficarem em casa. Aí não é só culpa do Edaír, é a estupidez e a indisciplina dos brasileiros, que só temem uma doença quando ela atinge suas próprias famílias. Uma das razões pelas quais Doria não proclama o lockdown é o risco de se desmoralizar. A malta ignara pode simplesmente desobedecer, reduzindo sua autoridade a pó de traque. Enquanto isso, Coronaro diz que "quem é de direita, toma cloroquina, e quem é de esquerda, toma Tubaína", como se remédio tivesse preferência partidária. Uma amiga disse que uma das poucas vantagens da quarentena é que ela desmascara o verdadeiro caráter das pessoas. Os escrotos saem das tocas. Os empresários gananciosos demitem sem dó, e depois se espantam quando seus estabelecimentos reabertos continuam vazios. Esta fase tenebrosa poderia estar passando por aqui, como já está acontecendo em alguns lugares da Europa e da Ásia. Mas não há a menor luz no fim do túnel. Aliás, é um túnel ou um buraco?

ISSO CABE AO FELIPE NETO

Mais de 12 horas depois, a entrevista do Felipe Neto ao "Roda Viva" segue gerando discussões acaloradas nas redes sociais. Muita gente que ainda tinha uma imagem defasada do rapaz se surpreendeu com sua postura atual, e com razão. Felipe soa maduro, equilibrado, até modesto. Mas é engraçado como ainda tem alguns, nem todos minions, que o descartam automaticamente. Não querem nem saber o que ele disse, e acham que sua fama é um sinal do apocalipse iminente - como se a eleição do Biroliro não fosse. Se você é desses, dê uma espiada no vídeo acima antes de vociferar sua opinião. Isso vale até para alguns jornalistas sérios que reclamaram da presença no programa do influenciador mais influente do país. Passaram atestado de velhice e ignorância, mas ninguém está livre de preconceitos. Repito: veja a entrevista até o fim. Como eu disse na minha coluna no F5, acho que ele, Anitta, Gabriela Prioli, Maria Bopp e tantos outros são sintomas de que a loucura coletiva do Brasil está começando a se dissipar.