sábado, 25 de maio de 2019

A NOITE É ESCURA E CHEIA DE TERRORES

Ontem eu viajei o dia inteiro, voltando do México via Panamá. Foram voos de três e seis horas respectivamente, com uma hora em terra no meio. Aterrissei em São Paulo por volta da meia e noite e meia, e cheguei em casa exausto uma hora depois. Ventava muito: portas batiam, um abajur caiu três vezes. Parecia um presságio do que estava por vir. Meu cachorro Nacho, que fica sempre esfuziante quando me vê - ainda mais depois de uma ausência de quatro dias - estava apático, apesar de me reconhecer e abanar o rabinho. Enquanto eu desfazia a mala, meu marido e eu percebemos que ele arfava e tentava lamber o ar. Ficamos assustados, e ele levou o cachorro para o veterinário, às duas da madrugada. Nacho não voltou mais. Morreu por volta das cinco e meia da manhã, por veneno de rato - infelizmente, uma causa de morte comum entre cães de cidade grande. E eu explodi em prantos. Gritei com um travesseiro na boca, aparvalhado com essa dor repentina. Coincidência cósmica: um dos filmes que eu vi no avião falava de uma mulher que fingia matar o ex-marido com veneno de rato. Ainda não entendi direito o que aconteceu, e continuo ouvindo e vendo o Nacho pela casa. Foram quase cinco anos de um amor absoluto. Ele chegou com apenas 40 dias de idade, deu um trabalho do cão, roeu óculos e carregadores, e queria estar comigo em todos os lugares. Como todo cachorro que amou e foi amado, José Ignacio Mantiqueira Barreto Goes foi o melhor cachorro do mundo.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

UM BEIJO AO SUPREMO

Volto hoje ao Brasil, e vou chegar em um país onde a homofobia é crime. Já temos maioria a nosso favor no STF; não duvido nada que, no final, a corte decida por unanimidade, como foi no caso do casamento igualitário. O Senado e a bancada evangélica resolveram se mexer, para não serem atropelados mais uma vez, e é bom mesmo - assim ninguém pode acusar os juízes de ativismo. Mas claro que só uma lei não muda a mentalidade das pessoas. O Brasil ainda tem um caminho longuíssimo pela frente, haja vista o casamento do Carlinhos Maia. O cara faz uma festa de casamento (não-gay, só entre dois homens) que é assistida por três milhões de pessoas no Instagram e... se recusa a beijar o noivo, "por respeito aos convidados". Alguém ali não sabia que estava num casamento gay, aham, entre dois homens? Essa atitude é um retrato do nosso país: damos sempre dois passos para a frente, um para trás. Mas pelo menos avançamos um pouquinho.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

QUEM QUER VIRAR ADUBO?

Eu sempre quis ser cremado. A ideia de apodrecer aos poucos em um caixão, em um lugar lúgubre feito um cemitério, jamais me apeteceu (não que apeteça a muita gente). A cremação parece, sei lá, mais higiênica. Claro que depois sobra o problema do que fazer com as cinzas, e já me ocorreu pedir para elas serem aspergidas no Salão dos Espelhos do Palácio de Versailles, só para encher o saco de quem ficou. Ainda tem um complicador a mais: hoje sabemos que a cremação é pouco ecológica, pois gasta muita energia. Mas hoje eu mudei de ideia, ao ler no jornal aqui no México uma notícia que também deve estar repercutindo no Brasil: Washington é o primeiro estado americano a permitir que seus mortos se transformem em compostagem. Isso mesmo. Já existe uma empresa chamada Recompose, especializada em transformar cadáveres humanos em adubo em um período de três a sete semanas. As famílias podem visitar (!!) o ente querido nessa fase, e depois recebem um saquinho com um pozinho, para usar como quiserem. Plantar tomates? Eu bem que gostaria de me transformar num tomateiro. Adoro tomate.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

CDMX

Oito anos depois da minha última visita, é claro que a Cidade do México está mudada. Há novos arranha-céus, alguns de arquitetura impressionante, erguidos graças à tecnologia que permite que eles suportem terremotos. E agora também há um logo, CDMX, visível por toda parte. O curioso é que os chilangos (os nativos daqui) sempre chamaram a cidade por outra sigla, DF (de Distrito Federal). Mas o CDMX faz parte de um esforço de rebranding, e já adorna ônibus, táxis (que não são mais verdes, e sim rosas) e até tuk-tuks de design arrojado, vulgo ciclotaxis. Também não faltam patinetes, mas este já é um fenômeno global.

terça-feira, 21 de maio de 2019

ESTÁS ESTÁS REPITIENDO TANTO TANTO

Hoje eu chego a um dos meus lugares favoritos do planeta: a Cidade do México. Fui 17 vezes para lá entre 2001 e 2011, quando eu ainda trabalhava full time com propaganda. Depois de oito longos anos, fui convidado por um canal pago para o lançamento de um documentário e da nova temporada de um reality. Vão ser três dias intensos, e eu não sei se vou ter tempo de rever todos os meus antros queridos. Mas já venho entrando no clima há alguns dias, assistindo à quarta e última temporada da série "Club de Cuervos" da Netflix. A trilha é padríssima, e foi nela que descobri a pérola acima, desde já o tema oficial dessa viagem. Repítolo.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

FAKE MESSIAS

Biroliro e sua gangue não querem seguir a cartilha que Hugo Chávez, Recip Erdogan e Viktor Orbán aplicaram em seus respectivos países. O presidente brasileiro não tem saco nem talento para ir minando aos poucos as instituições, até derrubar a democracia por dentro e se tornar um ditadora. Ele quer a ditadura agora, juntos e shallow now. Esta ambição está cada vez mais clara: não é por outra razão que o Bozo compartilhou aquele texto absurdo em seus grupos no WhatsApp. Agora ele está convocando manifestaçãoes em seu apoio no próximo domingo, mas até o MBL, o Vem pra Rua e a Janaína avisaram que vão ficar em casa. É uma aposta arriscadíssima: se for pouca gente, meio que acabou o governo, com menos de seis meses de vida. E se for muita, o que acontece? Duvido, mas, como eu errei todas as previsões políticas nos últimos anos, vamos considerar a hipótese. As Forças Armadas se sentirão constrangidas a dar o golpe de estado com que Mijair tanto sonha? Aham, senta lá, Carluxo. Mas será que esse provável fiasco vai impedir Boçalnaro de se proclamar o messias apontado por Deus? Quantos vexames ainda virão?

A DONINHA DA HISTÓRIA


É incrível, mas fazia quase 10 anos que Juan José Campanella não lançava um longa com atores. Depois que ganhou o Oscar de filme estrangeiro com "O Segredo dos Seus Olhos", o grande diretor argentino voltou às séries americanas de TV, envolveu-se com animação para crianças e fez de um tudo - inclusive dar uma entrevista para mim, que saiu na Folha em agosto de 2017. Lá ele me contou que pensava em refilmar uma comédia de humor negro dos anos 70, "Los Muchachos de Antes no Usaban Arsénico". O resultado é "A Garade Dama do Cinema", que estreou esta semana na Argentina e no Brasil, ao mesmo tempo. É bem diferente dos trabalhos anteriores de Campanella, mas também é muito bom. A trama mistura "Sunset Boulevard" com "Arsênico e Alfazema": uma diva aposentada vive em uma mansão nos arredores de Buenos Aires com o marido, um diretor e um roteirista, todos bem entrados em anos. Todos vivem às turras, até que a desarmonia doméstica é interrompida por um par de corretores de imóveis, interessados em vender a casa. Mais não posso dizer. Só que os atores estão todos fabulosos, puxados pela divina Graciela Borges. A lamentar, só as legendas brasileiras, que traduzem "comadreja" - o nosso popular gambá - como doninha, um bicho que não tem na Argentina. Dá para perceber que o tradutor se baseou na versão em inglês (nos EUA o filme se chama "The Tale of the Weasels"). Incrível que não tenhamos um profissional gabaritado ao português para verter um filme diretamente do espanhol, ¿verdad?

domingo, 19 de maio de 2019

VISÃO DA PARADIS


O século 18 é um período interessantíssimo. Foi quando o Ocidente disparou na dianteira, deixando a China muito para trás, graças a revoluções políticas - a Francesa, a Americana - e tecnológicas - a Industrial. A religião começou a recuar com o avanço do Iluminismo, e muita gente transferiu parte de sua fé para a ciência. O que proporcionou o surgimento de um novo tipo de charlatão, que não precisava apelar para o além para justificar seus supostos poderes. O mais famoso foi Franz Anton Mesmer, cujo maior legado é a expressão "mesmerizado" presente em várias línguas. Talvez não se possa classificá-lo como um vigarista: Mesmer acreditava mesmo no "magnetismo animal", cujos fluidos invisíveis permeavam toda a natureza. Suas teorias e terapias fizeram enorme sucesso nas cortes europeias. E sua mais célebre cliente foi a pianista austríaca Maria Theresia Paradis, que perdera a visão por causa de uma doença degenerativa. O filme de Barbara Albert trata da relação entre os dois, que durou pouco mais de um ano. Eu adoro um drama de época, ainda mais dessa época, mas não consegui me encantar. Mas cenários e figurinos são de encher os olhos - menos o da protagonista cega, hahahahahaha.

TEL AO VIVO

Vamos logo ao que interessa: Madonna. Madonna. Madonna. A rainha da porra toda estragou um pouco o suspense por sua apresentação no Eurovision ao surgir, já maquiada e de trancinhas, no lounge dos candidatos, para uma entrevista boba com um dos apresentadores. Mas a performance em si não decepcionou. Começou com "Like a Prayer", cujo álbum do mesmo nome comemora 30 anos, numa ambientação solene muito parecida com o que Madge fez no Met Gala de 2018. Ela desafinou? Cantou num tom diferente do que estamos habituados? De qualquer forma, foi interessante. Já a estreia de "Future", lançada apenas na sexta-feira, foi melhor. O reggae pode se tornar um hit, pois tem refrão pegajoso. E a rainha provou mais uma vez que ninguém manda nela. Criticada por se apresentar em Israel, Madonna recebeu protestos de ativistas e afins. Instada pela produção do Eurovision a não se manifestar politicamente, ela não quis nem saber: colocou dois bailarinos de mãos dadas no final do número, com as bandeiras de Israel e Palestina nas costas (está na altura do 8:30). O canal do festival no YouTube não liberou até agora o vídeo de Madonna, e talvez nem libere, por causa de direitos. A melhor versão que eu achei é esta gravada pela TV da Irlanda, com comentários do locutor local. Enjoy.

Outro ponto alto da noite de ontem foi o "Switch Song", que poderia se tornar uma tradição local. O troca-troca começou com Conchita Wurst, mas não-binária do que nunca, cantando "Heroes", do sueco Måns Zemerlöw, que venceu o festival de 2015. Em seguida, Måns cantou "Fire", de Eleni Foureita, que quase deu a vitória a Chipre no ano passado. Eleni foi com "Dancing Lasha Tumbai" da bizarra Verka Seduchka, vice-campeã de 2007 pela Ucrânia. Verka então cantou "Toy", a vencedora do ano passado, e no final todos se juntaram com Gali Atari em "Hallellujah", que deu a vitória a Isarel no Eurovision de 1979. Kitsch no úrtimo.
E os candidatos em si? Teve Bilal Hassani, a Pabllo Vittar da França, que cantou com competência e emoção mas não ficou nem entre os dez primeiros. Désolé.
A viadagem, sabemos todos, abunda no Eurovision. Mas geralmente é sabor baunilha, inofensiva. Portanto, aplausos para a banda Hatari da Islândia, que encenou seu heavy metal eletrônico com clima de BDSM. Também foram os únicos candidatos de ontem a levantar faixas e bandeiras em prol da Palestina.
A apuração foi de tirar o fôlego. Os júris profissionais de cada país deram uma vitória folgada a "Proud", uma balada pró-empoderamento feminista da Macedônia do Norte (o país estreou seu novo nome!). Ontem achei sem graça. Hoje ouvi de novo e gostei mais. Já estava me confirmando com o festival em Skopje no ano que vem, quando notei que ainda faltavam os votos do júri popular.
Aí, mudou tudo. Quem estava por cima caiu, quem estava lá embaixo subiu. Por fim deu aquele que as casas de apostas já apontavam como vencedor: o holandês Duncan Laurence e sua "Arcade", que não precisou de truques para triunfar. Gostei médio, mas o festival de 2019 deve ser em Amsterdam. Bora?

sábado, 18 de maio de 2019

O ZÊNITE DA DEUSA


Eu queria muito ter visto "Sunset Boulevard" com Glenn Close, minha atriz americana favorita. Tive a manha de estar em Los Angeles quando a peça estava em Nova York e em Nova York quando a peça estava em Los Angeles. Quis o destino que eu finalmente assistisse ao melhor musical de Andrew Lloyd Weber com minha atriz brasileira favorita, Marisa Orth. Mas fui para o teatro com palpitação: e se eu não gostar? E se eu achar que Marisa é jovem demais para o papel de Norma Desmond, ou que não alcança as notas necessárias, ou que a poltrona é desconfortável? Bobagem. Adorei milhões. Marisa está divina, totalmente diferente de Glenn ou Gloria Swanson. E também de si mesma: esta performance não tem nada a ver com Magda, Morticia e todas suas outras personagens. É outro andar de outro prédio em outro quarteirão. O resto do elenco não fica atrás, com Daniel Boaventura explorando as profundezas de seu vozeirão e Julio Assad fazendo o score dficílimo parecer fácil. O cenário, com palco giratório e tudo, funciona que é uma beleza, e os fugurinos de Fause Haten mereciam sua própria exposição. Essa versão brasileira do "Crepúsculo dos Deuses" é uma epifania. Ajoelhem-se.

PROBLEMAS DE RAPAZ BRANCO


Quando eu tinha 22 anos, passei dois meses e meio zanzando pela Europa, gastando meu Eurailpass e ficando em casas de amigos. Quando tinha 28, levei um pé na bunda de um namorado e fui chorar as pitangas em Nova York, na casa de um outro amigo. Por tudo isto, super me identifiquei com "45 Dias Sem Você". O longa de estreia de Rafael Gomes, que vem de uma ilustre carreira como diretor de teatro, parece ter sido inspirado pela minha vida fascinante. O protagonista Rafael (Rafael De Bona - há um padrão aí) tomou um fora do boy e, devastado por uma dor de cotovelo avassaladora, vai espairecer em Londres, Coimbra e Buenos Aires. Ele se hospeda nas casas reais de amigos reais do cineasta, todos usando seus próprios nomes. Não para de falar um segundo do ex, apesar de catar um bofe aqui e ali. Ponto. Só isto. Mais nada. "White boy problems", como se diz por aí - nem o dinheiro é uma questão, dada a facilidade com que Rafael cruza continentes e oceanos. O ator principal me pareceu um pouco cru, mas até aí zuzo bem - o personagem também é. Mas o filme em si é agradável com paisagens bonitas, situações críveis (eu vivi várias) e sequências inteiras gravadas com iPhone. Se fosse americano, todo mundo ia achar fofo. Como é brasileiro, sentimos falta de comentário social, críticas ao governo, #LulaLivre, essas coisas. Então vamos relaxar e despachar a bagagem. "45 Dias Sem Você" foi lançado em pouquíssimos cinemas e horários ingratos, mas pode ser alugado nas boas plataformas do ramo. Vale a pena embarcar.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

CRAZY GAY ASIANS

Viadagem é o que não falta no leste da Ásia. Tem os lady boys da Tailiandia, os mangás de BL (boy love) do Japão, os viadinhos de cabelo colorido do K-pop. Só que, em meio a arranha-céus futuristas e outras modernidades, falta uma coisinha básica: direitos para os LGBT. Hoje a região mais populosa do planeta deu um passo à frente, com a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo em Taiwan. E não foi por decisão do Supremo nem decreto presidencial: foi por votação no Parlamento, que é pra minion não ficar de mimimi. E assim aumenta a lista de países civilizados do mundo. Uma lista da qual o Brasil talvez nem mais faça parte...

BEND THE KNEE

Meu marido leu um spoiler do final de "Game of Thrones" no Twitter e está doidinho para me contar. Eu já avisei que isso dá justa causa, mas ele insiste que é um desfecho que faz sentido sem deixar de ser surpreendente e LALALALA EU NÃO ESTOU OUVINDO NADA. Antes que ele consiga estragar tudo e provocar nosso inevitável divórcio, vou compartilhar com vocês a minha teoria. Bran Stark vai usar seus poderes de "warg" para penetrar na mente do dragão que sobrou. O bicho então torrará Daenerys, ou então se jogará de um penhasco e desaparecerá no mar. Sem nenhum filho para chamar de seu, Dany levará uns tabefes e será posta de castigo. E aí, quem vai para o Trono de Ferro? Se o Trono tiver sobrevivido à destruição da Fortaleza Vermelha, claro. Os personagens sobreviventes se reunem e oferecem para Jon Snow. Que recusa: ele prefere viver no Norte, talvez atrás da Muralha, sem maiores preocupações do que caçar um coelho para o almoço. Oferecem para Tyrion, que também não quer. Chega de intrigas, o anão agora só quer se esparramar num puteiro. Sansa, que daria uma boa rainha, não arreda pé de Winterfell. Arya só pensa em dar uns rolés por todo Westeros. Grey Worm não pode ter filhos... Sobrou quem? Uma personagem que pouco tem aparecido, o que só aumenta a surpresa quando ela aparece para ser coroada. Sim, ela mesma: Yara Greyjoy, senhora das Ilhas de Ferro, guerreira, ambiciosa, leal, sapatona, sem papas na língua nem paciência com quem está começando. Todo mundo contente, inclusive os 500 mil que assinaram um petição para a HBO refazer essa temporada? Então anote aí: Yara Greyjoy. Você leu aqui primeiro.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

É PRA ISTO QUE EU PAGO O EUROVISION

O Eurovision deste ano não produziu nenhuma música para entrar para os anais (ui). Mas quem é que vê Eurovision por causa da música, não é mesmo? A grande final, como sempre, será transmitida para o Brasil no sábado à tarde pela Televisión Española, mas dá para ver as semifinais e tudo mais no YouTube. Foi de lá que eu tirei esta fabulosa montagem dos mais de 60 anos de concurso.

Todo ano, mas todo ano MESMO tem pelo menos uma canção concorrente que mistura pop com canto lírico. A de 2019 veio, of all places, da Austrália, aquele pequeno principado encravado no coração da Europa. Mas o melhor mesmo é a performance com essas varas flexíveis que eu não sei como se chamam.
Outra coisa que tem todo ano é algum país da Europa do Leste se apresentando em trajes típicos. Dessa vez foi a Polônia, e até que a música não é das piores.

O português Conan Osíris trouxe a música mais esquisita do festival, e também a minha favorita. Mas seu desempenho em Tel Aviv não agradou à audiência: "Telemóveis" foi desclassificada. Ninguém entende nada de porra nenhuma.
Só para eu provar o que acabei de dizer: a candidata de San Marino passou para a grande final, mesmo com esse velho sem fôlego parecendo que ia morrer em cena. Só tem uma epxlicação. San Marino deve ter colocado toda sua gigantesca população de treze bilhões de pessoas para congestionar as linhas do Eurovision.
Mais ou menos uns 120% da plateia do Eurovision é composta por homossexuais. Para agradar a esta parcela do público, o festival sempre arranja uns moços bonitos para fingir que sabem cantar. Na semifinal desta quinta teve vários, e o meu destaque vai para Luca Hänni, da Suíça, e Chingiz, do Azerbaijão. A música do primeiro é atroz, a do segundo é melhorzinha. Ambos se classificaram. Ah, e atenção: bicha que não assistir à final vai ter a carteirinha revogada, porque Madonna vai se apresentar durante a contagem de votos. Vocês foram avisados.

BOZO DOES DALLAS

Que vergonha essa viagem do Biroliro ao Texas. Que desperdício de dinheiro público. Sem culhão para encarar uns protestos em Nova York, o chefão da familícia achou que seria recebido com loas em um estado famoso pelo conservadorismo. Só que o Texas não é homogêneo: as grandes cidades, como Houston e Dallas, são governadas pelos democratas - tanto que o prefeito desta última seguiu Bill De Blasio e se recusou a receber o não-convidado. Quem também não convidou Mijair foi George W. Bush, destronado há pouco tempo do título de pior presidente americano de todos os tempos. As bestas do Itamaraty esqueceram, ou nunca souberam, que Bush Filho é crítico contumaz de Trump, que não vai achar muita graça nessa foto aí em cima. Enfim, diplomacia não é mesmo o forte desse Itamaraty que está aí. Esperemos que por não muito tempo mais.

(O título desse post se refere a "Debbie Does Dallas". Entendedores entenderão.)

quarta-feira, 15 de maio de 2019

BALBÚRDIA

Com menos de cinco meses de existência, o governo Mijair conseguiu sua primeira grande manifestação contrária, e a nível nacional. Universidades e escolas pararam em todo o Brasil, manifestantes foram às ruas e até um boneco inflável do Bozo deu as caras na Avenida Paulista (Jairzeco?). Lá em Dallas, onde achou que seria recebido com loas mas não foi, Biroliro disse que os estudantes são todos uns idiotas úteis, em contraste com o idiota inútil que ele é. Mas a tática de confronto absoluto do governo vai se esgarçando: Boçalnaro parece fazer questão de conquistar novos inimigos, e não de manter os fãs que ganhou há pouco tempo. O plano nada secreto de instalar um regime autoritário com amplo apoio popular está desmoronando feito a Fortaleza Vermelha. Dracarys neles!

MIMIMINIONS

A minionzada adora chamar de mimimi todas as reclamações contra o racismo, a homofobia e as barbaridades em geral. Chamam tanto que acabaram mostrando que são eles os verdadeiros mimizentos. Uma reles piadinha contra o Biroliro já os deixa em pé de guerra. O mínimo desvio da norma branca, heterossexual e cisgênero provoca choro descontrolado, gritos de "quem lacra, não lucra" e ameaças de processo. Uma campanha como essa da Natura, então, faz com que eles precisem respirar dentro de um saco de papel. Esses burraldos também não aprenderam ainda que os boicotes convocados contra empresas pró-diversidade SEMPRE dão errado. O hashtag #BoicotaNatura já deu: foi encampado pelos defensores da marca de cosmésticos, em mais uma demonstração que minion não grita mais nem na internet. Mais um motivo para esses bocós espernearem.

terça-feira, 14 de maio de 2019

VIVA MARIA, VIVA VICTORIA, AFRODITA

Está ficando impossível acompanhar o Eurovision. Agora tem tanto ensaio, entrevista, bastidores e o escambau, que só mesmo fazendo como aqueles fanáticos que tiram férias para ver tudo na Mostra de SP. Agora há pouco terminou a primeira semi-final (Portugal ficou de fora...), lá em Tel Aviv, e eu me esqueci de que já estava rolando. Anteontem rolou uma novidade: uma cerimônia de abertura com QUATRO HORAS de duração. O ponto alto foi a performance de Dana International, a penúltima vencedora israelense, que faturou o festival de 1998 com "Diva" - a primeira produção de um tal de Offer Nissim, sabia? Vinte anos atrás, Dana abriu caminho para outras divas não-binárias, como Conchita Wurst e Pabllo Vittar. Agora é homenageada quando o Eurovision volta a Israel - que, ao contrário do que imaginam os burrominions, é um país pra lá de gayzista.

O TSUNAMI LARANJA

Será que o tsunami a que o Bozo se referiu na semana passada era a quebra de sigilo bancário do 01 e seu entorno? Duvido, mas é certo que a investigação sobre as travessuras do filho mais velho pode causar um estrago e tanto nos planos autoritários do clã. Não é por outra razão que o Queiroz está em "local incerto" - um eufemismo para não dizer que o faz-tudo FUGIU. A essa hora, o laranja-mor deve estar se alaranjando ainda mais sob o sol do Caribe. E assim os milhões de brasileiros que votaram no Mijair para tirar o PT começam a perceber que não só colocaram um incompetente no poder, não só o testa-de-ferro de um projeto de ditadura, como o líder de uma... familía, vá lá.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

GONGA LA CONGA

O comunismo das antigas era homofóbico. Os gays eram considerados um sintoma da decadência capitalista, e muitos foram mandados para o paredão nos primeiros anos da Revolução Cubana. Mais tarde, uma filha de Fidel,  Mariela, se tornou - por assim dizer - a maior ativista dos direitos LGBT da ilha. Ela dirige o Centro Nacional de Educação Sexual, que promove todos os anos uma Jornada Contra a Homofobia e a Transfobia. Um dos pontos altos era a "conga gay", a equivalente cubana das nossas Paradas do Orgulho. Mas este ano, o govrno está ainda mais pobre. A Venezuela, que patrocinava Cuba com gasolina e outros mimos, está indo à matroca, e a torneira já fechou. Mas não dá para dar uma festa pras guei e depois tirar. Ontem cerca de 100 manifestantes promoveram uma conga espontânea, que logo foi desbaratada pela polícia. Há algumas camadas nessa repressão: tem homofobia pura e simples, claro, mas também tem o pânico do Partido Comunista das passeatas organizadas pela soicedade. Pois é: no fundo, as ditaduras são todas parecidas.

R.I.P. VEEP


O final de "Game of Thrones", a melhor série dramática da atualidade, ofuscou o final da melhor série cômica da atualidade, também da HBO. O último episódio de "Veep" foi ao ar ontem, e já entrou para a história. Em sua sede irracional pelo poder, a candidata Selina Meyer deu uma de Daenerys Targaryen: destruiu tudo o que estava em seu caminho para o Trono de Ferro, quer dizer, a Casa Branca. Não com fogo, é claro, mas com traições a torto e a direito. Ideais, ela nunca teve - Selina se notabilizou por dizer sempre o que ela acha que seu interlocutor quer ouvir. Portanto, suas vítimas foram mais concretas: a filha lésbica, o povo do Tibete, o povo americano e, na punhalada mais dolorida, Gary, seu submisso puxa-saco. A punição veio em duas doses. Primeiro, Selina se viu só no Salão Oval, sem sua equipe habitual nem sua família, mas esse desconforto passou logo. Corta para 25 anos depois: numa escolha ousada dos roteiristas, vemos o funeral da personagem. A filha Catherine assiste pela TV e comemora com margaritas. Gary, saído da cadeia, vai homenageá-la em pessoa, mas não esconde o ressentimento. E a cobertura jornalística é interrompida por uma notícia mais importante: a morte de Tom Hanks, aos 88 anos. Uma citação ao primeiríssimo episódio da série. E assim, "Veep" fecha seu ciclo sem ter derrapado uma única vez. Não há episódio ruim nas sete temporadas. E olha que as três últimas tiveram um novo showrunner, David Mandel, que soube manter o altíssimo nível estabelecido pelo criador Armando Ianucci. O sétimo Emmy consecutivo de  atriz de comédia para Julia Louis-Dreyfus já está no papo.

domingo, 12 de maio de 2019

DAMARES TARGARYEN

Volta e meia desencavam um vídeo antigo da Damares Alves falando merda. No desta semana, a ministra investe contra uma perigosíssima inimiga da sociedade, a princesa do "Frôze" (sic). Damares não sabe que ela se chama Elsa e sequer deve ter visto o filme, pois lá não há nenhuma menção à homossexualidade da personagem. Este é um papo que surgiu mais tarde, na internet: uma campanha para que, num eventual "Frozen 2", Elsa se assumisse como a primeira princesa lésbica da Disney. Mas faz parte da estratégia dos teocráticos inventar perigos e mentir na cara dura. Damares lembra mesmo sua quase xará de "Game of Thrones". Até porque cavalga três dragões: a Ignorância, o Mau-Caratismo e a Loucura. Sim, porque tal como a pretendente ao Trono de Ferro, Damy parece que já perdeu a razão. Tem que ser muito doida para ser abusada por um pastor quando criança e depois, quando adulta, ingressar nas hostes do inimigo.

sábado, 11 de maio de 2019

SANS TEMPS, FRÈRE


Todo mundo fala muito em "Vidas Duplas", e muito depressa. Essa é uma característica tipicamente francesa: eles adoram o som do próprio idioma, e se esmeram em proferir frases mirabolantes. Mas, no novo filme de Olivier Assayas, os personagens são todos da elite intelectual - um editor, um escritor, uma atriz, uma ativista política - então a loquacidade chega às raias do esnobismo. As coisas se complicam porque um está comendo o conje do outro, e todos lutam para manter a relevância num mundo onde ninguém mais lê e só se veem séries bobas de TV. Não é um trabalho dos mais profundos, nem desperta maiores emoções. Mas funciona como reflexão sobre o passar do tempo.