terça-feira, 10 de dezembro de 2019

A PIRRALHA

Por que Greta Thunberg é tão atacada? Meu senso comum diz que uma garota branca, loura de olhos azuis, bem educada e bem vestida, não seria um alvo muito visado. Sua mensagem ecológica, por radical que seja, poderia ser encarada como uma versão remix do paz-e-amor genérico que a propaganda enfatiza nessa época do ano. No entanto, a jovem sueca é achincalhada todos os dias por homens que poderiam ser seus avôs. Pois eu vou arriscar um palpite: é o autismo de Greta que reforça a grosseria dos boçais. Ao invés de darem um desconto, de a pouparem por ter um distúrbio psíquico, seus críticos se aproveitam de sua condição para xingá-la ainda mais. Afinal, ela é doente, esquista, anormal. Não é gente como a gente - este, aliás, é o argumento número um dos populistas, da direita à esquerda. Greta Thunberg de fato propõe um estilo de vida quase impossível de ser seguido - eu, pelo menos, não pretendo parar tão cedo de viajar de avião. Mas a mensagem dela é mais do que necessária para essa época insensata que vivemos, e é provavelmente seu autismo quem lhe dá a couraça para resistir aos ataques. Que brava pirralha.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

PAU NA CENSURA

Alguns evangélicos estão em polvorosa contra o novo especial do Porta dos Fundos, "A Primeira Tentação de Cristo". Entre outras coisas, porque Jesus parece ter um namorado - algo que só ofende aos homofóbicos, claro. Esses reaças bem que gostariam, mas, oficialmente, a censura ainda não foi reinstituída no Brasil. Só que ela está voltando, de maneira insidiosa e disfarçada. "Marighella', por exemplo, está enfrentando todo tipo de trâmite burocrático para não estrear. A nova diretoria da Ancine mandou retirar todos os cartazes de filmes nacionais que adornavam a sede da agência, provavelmente porque alguns têm mulher pelada e nenhum apoia o Biroliro. Hoje surgiu a notícia de que o órgão regulador do nosso cinema deu um jeito de melar uma sessão interna de "A Vida Invisível" para seus próprios funcionários. A desculpa oficial: o projetor está quebrado. A verdade: o filme de Karim Aïnouz tem mulher pelada, cenas de sexo e até um close num pau duro (que não é do Gregório Duvivier, sei de fonte segura). Pouco importa que esteja cotado para o Oscar. O que interessa para os fanáticos é fingir que se importam com a moral e os bons costumes. Claro que é só fingimento: Marco Infeliciano, um dos mais salientes, acaba de ser expulso do Podemos por desvio de verbas, recebimento de propina, assédio sexual etc. etc.. Pau nesses bandidos: senão, o que já está ruim só vai piorar.

DESPEDIDA MISTERIOSA

Hoje saíram as indicações para o Globo de Ouro. Nenhuma grande surpresa: a omissão mais vistosa é "Game of Thrones", que só recebeu uma indicação, melhor ator de série dramática para Kit Harington (e injusta, ao meu ver - acho ele um canastrão). Mas uma curiosidade entre os finalistas de melhor filme em língua estrangeira" The Farewell", uma produção americana. O Oscar não permite esse tipo de inscrição, mas os Globos são outra história. Como o longa tem grande parte de seus diálogos em chinês, então tá valendo. A história da jovem americana que vai à China se despedir de sua avó fez uma bela bilheteria em meados do ano, e está bem cotada para melhor filme e melhor atriz (Awkwafina, de "Podres de Ricos") no prêmio da Academia. Só que, mesmo com tanta grana e tantos prêmios, não há sinal de "A Despedida" (já traduzi o título, de nada) aportar por aqui. Nem mesmo na TV a cabo ou no streaming. É comum que alguns filmes descartados pelos nossos distribuidores sejam lançados às pressas quando são indicados a Oscars, mas suspeito que algo mais grave esteja se passando. "Podres de Ricos", um megasucesso no mundo inteiro, passou quase despercebido no Brasil. Um sinal de que o espectador médio brasileiro não gosta de filmes estrelados por orientais? Bom, "Parasita" está indo bem no circuito nacional,  o que talvez desminta a minha teoria. Tomara que eu esteja errado.

domingo, 8 de dezembro de 2019

HISTÓRIA DE UM DIVÓRCIO


Uma hora ia acontecer, e aconteceu hoje. Pela primeira vez, vi um filme cotadíssimo para o Oscar no conforto de meu lar. Consegui ver "Roma", "O Irlandês" e "Dois Papas" no cinema,  mas dessa vez não teve jeito. "História de um Casamento" só passou na tela grande em São Paulo em uma exibição surpresa na Mostra, justo num dia em que eu tinha outro programa. Precisei esperar ele ficar disponível na Netflix. É um drama intimista, que funciona bem na televisão. Muito close no rosto dos atores, e que atores. Adam Driver é a única ameaça séria a Joaquin Phoenix, e Scarlett Johansson pode finalmente conquistar sua primeira indicação ao prêmio da Academia. Os dois fazem um casal feliz, até que ela resolve se separar e mudar de Nova York para Los Angeles. O caldo entorna de vez quando os advogados entram em cena. Há várias cenas emocionantes, e qualquer um que tenha vivido um relacionamento longo vai se identificar com alguma coisa. Mas o título é enganoso: o que estamos vendo é a dissolução de uma união - que, por outro lado, também não acaba depois que os papéis são assinados. Um belo filme, doído mas também um pouco engraçado. Uma via-crúcis que passa voando.

sábado, 7 de dezembro de 2019

ELA

Agora temos aqui em casa uma assistente pessoal comanda por voz. Ele dá bom dia, informa a temperatura e toca música clássica. Também conta piadas péssimas ("a comida mais bicuda é o grão-de-bico") e até imita Silvio Santos. Mas ainda não acende as luzes nem ajusta o termostato, inclusive porque não temos termostato. O mais divertido é botar minha mãe para falar com ela ("mas onde está essa moça?"). Vou me apaixonar por ela? E se ela passar meus hábitos pessoais e dados bancários para a máfia que controla o mundo? Dãã, é óbvio que já passou.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

PUTA FILME


Como é bom ver um filme sobre strippers que não explora os corpos das garotas, nem as trata como coitadinhas ou burraldas. "As Golpistas" é quase um Scorsese feminino, em que quase todos os personagens são mulheres. E mulheres safadas, no sentido mais amplo do termo. Donas de si mesmas, sem remorsos, mas também com uma moral bastante flexível. Quando os tempos ficam (mais) bicudos, essas bailarinas de pole dance não hesitam em drogar seus clientes e surrupiar seus cartões de crédito, na certeza de que poucos irão reclamar depois. No meio de tudo está, claro, Jennifer Lopez, mais J. to the Lo do que nunca. Esplendorosa aos 50 anos de idade, ela aprendeu a fazer amor com o poste e dá aulas de sedução e esperteza a todas as meninas. Vai ser finalmente indicada ao Oscar, depois de mais de duas décadas na batalha. O brilho de sua estrela quase ofusca Constance Wu, que faz a verdadeira protagonista da trama, mas ninguém está disputando holofotes. "As Golpistas" também é uma história de sororidade, com a mulherada se unindo contra o sistema machista e o capitalismo selvagem. E ainda tem Cardi B, que foi stripper na vida real, e Lizzo, sacudindo o corpanzil como se nada. Escrito e dirigido por Lorene Sacafaria, o longa já é um marco no modo como as mulheres se retratam a si mesmas na telona. Divertido feito uma noite de putaria, com a vantagem de que dá para lembrar depois.

O GAROTO DO SUL


Hoje eu não quero saber de política. Vou aproveitar que não aconteceu nenhum escândalo muito grande nas últimas 24 horas e falar do Diogo Piçarra, um cantor português que eu descobri no ano passado. O gajo foi revelado de um jeito cada vez mais comum: venceu um reality musical (no caso, a versão lusa de "Ídolos", em 2012). Agora está lançando seu terceiro álbum de estúdio, "South Side Boy", cujo título eu pensei que se referisse à margem sul do Tejo em Lisboa, mais destransada que Niterói ou Nova Jersey. Mas Piçarra é de Faro, no Algarve, lááá no sul de Portugal. Seu suave som eletrônico é um bálsamo para meus ouvidos exaustos, e mais contemporâneo que o jazz do meu outro tuga favorito, Salvador Sobral. Briguem!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O CONTO DAS OUTRAS

Quando a série "The Handmaid's tale" estava para estrear no Brasil, no começo do ano passado, eu corri para comprar uma versão eletrônica do livro em inglês. Não passei das primeiras páginas. Os e-books ainda estão um pouco fora do alcance da minha cabeça antiquada, e acabei conhecendo a saga de Offred pela TV mesmo. Mas agora ando mergulhado em "Os Testamentos", a continuação que Margaret Atwood lançou 34 anos depois do original, e me esbaldando. Nunca havia lido nada dela, e como escreve bem essa mulher! Também foi bom ter visto as três temporadas no canal Paramount, porque há situações e personagens que só apareceram lá. O novo volume se passa 15 depois dos acontecimentos da série e é narrado em primeira pessoa por três protagonistas diferentes: uma menina que cresceu em Gilead, outra criada no Canadá e ninguém menos que Tia Lydia, a planta-baixa da Damares. Aos poucos o leitor vai sacando quem de fato são as duas garotas (não vou dar spoiler). Mas o mais interessante é mesmo a tia, uma ex-juíza que se torna a maior filha da puta para poder sobreviver. Complexa, irônica e desprovida de delongas, é ela quem aponta (e apronta) a saída da ditadura teocrática em que os EUA se transformaram. Vai acontecer o mesmo na vida real? Eis o gancho.

O ESTUPRADOR É VOCÊ

A grossíssimo modo, a história do século 21 até agora pode ser resumida em três movimentos. O primeiro começou no final do século anterior: nada menos do que a lenta derrocada do patriarcado, com a sociedade gradualmente se tornando menos machista e homofóbica e com mais espaço para mulheres, negros, homossexuais e outras minorias políticas (não numéricas, veja bem). Mas o patriarcado reagiu e deu origem à segunda onda, com a extrema direita chegando ao poder em diversos países e tentando retroceder o avanço dos direitos igualitários. Só que, pressinto eu, essa onda não vai durar muito tempo. As revoltas se espalharam pelo mundo, de Hong Kong ao Irã, com multidões tomando as ruas e ameaçando os poderes estabelecidos. Quase toda a América do Sul está conflagrada. E é do Chile que vem a macarena feminista "Un Violador en Tu Camino", criado pelo coletivo Lastesis, de Valparaíso. O flash mob já chegou à França e acaba de desembarcar no Brasil, com a letra devidamente adaptada. Enganam-se muito os supostos defensores da "família" (patriarcal, é claro) em achar que terão o apoio das massas para sempre. Vem aí uma geração que quer tudo para ontem -  inclusive a liberdade básica de não ser estuprada.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A INFELICIDADE BATE À SUA PORTA


Reparou que o Infeliciano vem tentando voltar à mídia? A última dele foi chamar os bailes funk de "versão moderna de Sodoma e Gomorra", mesmo depois de ter se solidarizado com as famílias das vítimas de Paraisópolis. O deputado-pastor também criticou a possível escolha de Sérgio Moro como vice do Biroliro, nas presidenciais de 2022. Segundo ele, o ex-juiz não agrega novos apoios: o que o Mijair precisaria para se reeleger seria um evangélico na chapa. Hmmm, mas quem? Quem? Pois é, galère, a estratégia é bem clara. Infeliciano quer ser o próximo vice-presidente da República, para se cacifar para o Planalto em 2026. Aí, sim, podemos esperar a perda total dos direitos LGBT, cuja mera ameaça agora vem fazendo tantos casais gays oficializarem suas uniões. Duvido que ele consiga se eleger, mas é bom ter em mente que sempre dá para piorar.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

TERRABOLISTAS, UNI-VOS

Nem nos anos mais sombrios da ditadura militar o Brasil teve ministros e funcionários de segundo e escalão tão despreparados, ressentidos e ignorantes como os que temos agora. O governo Biroliro faz de propósito: para cuidar do meio-ambiente, escolhe um sujeito que não está nem aí para o aquecimento global. Para as pautas femininas, uma fanática religiosa digna de Gilead. Para o Instituto Palmares, um negro que nega o racismo. Não duvido nada que o tolinho do Diego Hypócirta estivesse sendo sondado para assumir alguma pasta de perseguição aos LGBTS, mas ele se assustou com a reação contrária e fugiu chorando. Para a Ancine, foi nomeada uma maluca que sequer é da área, cuja primeira providência foi retirar os cartazes de filmes nacionais da sede da agência (devem ser todos pecaminosos). Mas, no momento, está difícil superar o ruminante do Dante Mantovani, indicado para a Funarte, O sujeito não só acha que os Beatles foram uma invenção comunista para propagar o aborto, como é ter-ra-pla-nis-ta. E ainda chama a nós, pessoas normais, pelo termo pejorativo que esses energúmenos inventaram, "terrabolistas". Pois agora chega. Os cientistas dizem que não devemos hostilizar os terraplanistas e tentar atraí-los para a ciência, pois seriam mentes inquisidoras. Eu prefiro atraí-los para o equivalente subjetivo de um beco em Paraisópolis e baixar o sarrafo intelectual nesses caras. Terraplanismo não é opinião: é erro mesmo, dos crassos, dos imperdoáveis, e tolerá-lo é abrir as portas para o obscurantismo. Porque os terraplanistas nunca são pessoas legais: também acreditam em todo tipo de teoria conspiratória, são burros e mal-informados, se acham inteligentíssimos e querem espalhar sua estupidez pelo mundo. Assim como Mijair e a familícia, precisam ser contidos, e já. Aux armes, citoyens!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

UM POVO E SUA REVOLUÇÃO


Existem diversos filmes sobre a Revolução Francesa, geralmente do ponto de vista da nobreza ("Maria Antonieta") ou dos líders revolucionários ("Danton"). "A Revolução em Paris" é o raro exemplar que conta a história do ponto de vista do povo. Ou melhor, não conta muito: quem não tiver uma boa noção do que aconteceu na França no final do século 18 vai boiar um pouco. A queda da Bastilha não aparece, só a noite depois; a noite de Varennes tampouco, só a manhã seguinte. O título em francês, "Un Peuple et Son Roi", se refere à relação das pessoas comuns com Luís 16, que só foi condenado à morte no quarto ano da Revolução. Mas o exibidor nacional não perde uma chance de enfiar "Paris" no nome dos filmes franceses, crente que vai atrair um público interessado em boinas e baguetes. O que, claro, não é o caso aqui: não falta sangue, miséria e, aham, polarização. Achei que iria me envolver mais, mas pelo menos saí pensando no que falta para saírmos cortando as cabeças dos nossos déspotas.

PANCADÃO NA DEMOCRACIA

De onde virá a revolta que abalará o desgoverno Biroliro? Com certeza não virá da elite bem-pensante, por mais editoriais contra o autoritarismo que sejam publicados na grande imprensa. Muita gente no mercado financeiro ainda apoia o Paulo Guedes. Talvez venha da classe média, quando ela perceber que caiu em mais um conto do vigário? Pode ser, ainda mais se as reformas não surtirem efeito logo. Mas agora começo a acreditar que a revolta virá de baixo. Das camadas mais pobres e pretas da população. Porque o Estado brasileiro está em guerra contra elas: o massacre de Paraisópolis é mias uma prova de que as vidas negras não valem nada no país. E daí que morreram nove adolescentes pisoteados pela multidão acuada em um baile funk? Os minions se regojizam na bolsosfera. E o governador João Doria, ao invés de pedir desculpas ou mesmo jogar a culpa no Leonardo Di Caprio, avisa que não vai mudar nada na maneira de agir da PM paulista, para agradar ao eleitorado boçal que pode levá-lo ao Planalto em 2022. Mas os pretos e pobres não vão deixar passar batido. O pancadão desse fim de semana doeu demais, e o Brasil não é mais o mesmo da Revolta dos Malês. Agora os malês têm celular.

domingo, 1 de dezembro de 2019

O MEU DESTINO É POPSTAR

Exatos cinco anos depois de ter saído da Globo, eis-me de volta ao Projac - perdão, Estúdios Globo - e em grande estilo. Nunca sonhei que eu seria convidado para o júri de especialistas do "Popstar", mas muita gente deve ter recusado e lá fui eu. Me propus a não babar ovo e sair dando dez para todo mundo, mas é difícil. Os candidatos estão ali bem na sua frente, alguns implorando com o olhar por um 10 ou uma estrela, e a plateia berra pelos seus favoritos. Dei só duas notas máximas, para Babi e Nany People, justamente as duas com quem já havia trabalhado antes. Achei que iria ficar nervoso, mas que nada. Foi divertidíssimo, porque o programa é uma festa. Depois ainda rolou um almoço, e eu sentei bem ao lado de quem? Joelma. Simpaticíssima, conversamos muito. Até tiramos uma selfie. Agora vão me apedrejar feito o Diego Hypólito.

sábado, 30 de novembro de 2019

É DOCE MORRER NO MAR

Muita gente vai deixar de ver "Atlantique" quando perceber que o filme se passa no Senegal, falado numa língua de lá. Outros tantos talvez desistam quando souberem que é um romance misturado com investigação policial e muitos elementos sobrenaturais. O longa de estreia da diretora Mati Diop ganhou o Grand Prix do festival de Cannes deste ano, mais ou menos equivalente ao segundo lugar ("Bacurau", nesse critério, teria ficado em terceiro, eptado com o francês "Les Misérables"). Dividiu opiniões por lá, mas vale a pena ser conferido na Netflix. A premissa parece novela de Gloria Perez: frustrado por não receber seu pagamento como peão de obra, um rapaz embarca em um navio para a Espanha (e cruza o oceano que dá nome ao filme). Sua amada fica em Dakar, onde está prometida a um homem mais rico. Aí chega a notícia de que o navio afundou e todos a bordo morreram. No dia do casamento, a cama do futuro casal pega fogo, o que basta para a polícia intervir. E aos poucos fica claro que o incendiário é... Mais não direi. Vá ver esta obra curiosa e azulada, um raro exemplar do cinema africano a chegar entre nós.

OVO SEM SAUL

Foi só quando vi "O Filho de Saul", vencedor do Oscar de filme estrangeiro de 2014, que soube da existência dos Sonderkommando, prisioneiros judeus que eram obrigados a policiar os campos de concentração nazistas e até a matar outros judeus. Quase todos também acabaram mortos, mas os que sobreviveram carregaram uma culpa descomunal pelo resto da vida. Essas figuras trágicas são o assunto de "O Ovo de Ouro", uma rara peça brasileira sobre a Segunda Guerra Mundial, escrita pelo também ator Luccas Rapp. O grande Sérgio Mamberti faz um ex-Sonderkommando, que lembra com amargura das atrocidades que teve que cometer. Mas o que isto tem a ver com o Brasil de hoje? Muitíssimo: o desgoverno de Mijair tenta cooptar gente que era respeitável para suas hostes, e o resultado é um diretor de teatro de desfrutava de excelente reputação agora aponta desqualificados e fanáticos religiosos para os órgãos culturais estatais.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

CHÃO ALTERADO

De todas as barbaridades que vêm sendo cometidas no Brasil desde o dia 1o. de janeiro, acho que a mais grave foi essa prisão dos brigadistas em Alter do Chão. Postar golden shower nas redes sociais não machuca ninguém, mas esta armação que aconteceu no Pará é um passo firme rumo ao estado de exceção. Só o gado mais teleguiado do Mijair acha que é plausível que voluntários que largaram suas famílias e cidades para tomar conta da floresta sejam capazes de tacar fogo nela. As "provas" apresentadas pela Polícia Civil do Pará são ridículas, e é óbvio que quem está por trás disso são grileiros que querem derrubar árvores e construir prédios às margens do rio Tapajós. Mas o lado sadio da sociedade brasileira, apesar de apático, ainda não está morto. A grita foi grande, o Ministério Público interviu e o governador do Pará trocou o delegado responsável pela "investigação". Os rapazes foram soltos, mas Biroliro continua em sua narrativa enlouquecida de que são eles, junto com Leonardo Di Caprio, os responsáveis pelas queimadas na Amazônia. Não tenham dúvidas: esses milicianos vão tentar todos os dias, em diferentes pontos do país, destruir as instituições democráticas. Temos que gritar cada vez mais alto, senão os próximos presos seremos nós.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

BACURAU À GOMES DE SÁ


Não consigo desvencilhar "A Vida Invisível" de "Bacurau". Os dois filmes foram dirigidos por cineastas nordestinos, saíram premiados de Cannes e disputaram voto a voto a escolha do Brasil para o próximo Oscar. "A Vida Invisível" levou, mas "Bacurau" é mais impactante. Mais pop, mais divertido, mais grandioso, além de perfeitamente conectado ao momento político que vivemos (e vem daí sua excelente performance nas bilheterias). Já "A Vida..." é intimista, com a câmera quase esbarrando nos atores (todos ótimos) e uma fotografia granulada, meio que suja de propósito. Mas os dois longas têm vários pontos em comum, e não estou falando do pau semi-duro do Gregorio Duvivier (Kléber Mendonça também já mostrou ereções em trabalhos anteriores). O vilão de ambos é o mesmo: o patriarcado branco-heteronormativo. Em "Bacurau", esse inimigo parte para a violência física desde o começo, de maneira escancarada e sanguinolenta. No filme de Karim Aïnouz, a violência é sutil, mas quase tão devastadora quanto. As irmãs Eurídice e Guida são separadas, a princípio pelo machismo do pai e depois por algumas coincidências algo forçadas, mas vá lá - o melodrama permite. "A Vida Invisível", então, pode ser visto como uma variante doméstica de "Bacurau", com tempero lusitano (o pai das moças é tuga). Um belo filme, mas o Oscar já é de "Parasita".

UMA FLIP PARA ELIZABETH BISHOP

Até anteontem, eu tinha Elizabeth Bishop na mais alta conta. Para além da qualidade literária, a poeta americana gostava do Brasil (mas não se furtava às críticas), onde morou muitos anos, e foi abertamente lésbica numa época em que isso estava fora de cogitação. Aí Bishop foi escolhida como a homenageada da Flip do ano que vem, e abriram-se as portas do inferno. Um de seus pecados foi ter elogiado, numa correspondência pessoal, o golpe de 1964, logo depois dele ter ocorrido. Galera esquece que Nélson Rodrigues e Guimarães Rosa, que já foram homenageados pela Flip, também apoiaram o golpe - até porque, em 1964, não se imaginava que ele degringolaria numa ditadura de mais de duas décadas. Bishop também é execrada por ser estrangeira, apesar de sua óbvia ligação com o Brasil (e foi aqui, e não nos EUA, que fizeram uma peça e um filme sobre ela). Haveria muitos outros escritores mais merecedores do que ela. Vou contar um segredinho: sempre haverá. Literatura não é ciência exata, gostos e avaliações flutuam, e viva a diversidade. Houve até quem achasse que a escolha de Bishop era uma subserviência ao atual governo, e chegou a circular nas redes que o próprio Biroliro iria à abertura da Flip. Desconsiderando que a agenda presidencial ainda não chega a julho de 2020, Mijair mal sabe ler, não faz a puta ideia de quem seja Elizabeth Bishop e, quando souber, vai ser recusar a prestigiar uma sapatona. O lado bom desse imbróglio todo é que estamos discutindo, mais uma vez, as diferenças entre um artista e sua arte. Bishop era uma pessoa complexa e produziu grande poesia. Não agrada todo mundo? Ótimo, vamos debater isto.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

O MORTO-VIVO DE PALMARES

Tive todas as condições de me mandar do Brasil quando jovem e não fui. Nunca me arrependi, até chegar o ano da graça de 2019. Estou horrorizado com o país onde eu nasci. Não imaginei que, depois de mais de 30 anos de democracia, tanta gente ainda apoiaria um governo autoritário. E olha que a ditadura militar jamais teve ministros tão fracos e despreparados como Weintraub ou Damares. Os escalões mais baixos, então, são um esgoto a céu aberto. Hoje fomos apresentados ao inacreditável Sérgio Nascimento de Camargo, que, para usar seu sonhado título de "negro de direita", ainda precisa estudar muito. Jornalista de quem nunca ninguém ouviu falar, o novo presidente da Fundação Palmares começou seu mandato metendo o pau em Zumbi, o herói do quilombo que dá nome ao seu cabide de emprego. Também mugiu que Marielle não era negra, que o Brasil não tem racismo e que a escravidão foi benéfica. Nos sites de notícias, os comentários são de virar o estômago: um monte de brancos aplaudindo e dizendo "é isto mesmo o que eu penso". Camargo é um zumbi no mau sentido, fugido de um spin-off de "The Walking Dead". Suas ideias apodrecidas cheiram muito mal.

DIEGO HYPÓCRITA

Não sei se foram as décadas em que o Diego Hypolito ficou trancado no armário, sem muito contato com os anseios de seus irmãos LGBT, ou se ele só é burro mesmo. Só sei que estou admirado com a reação contrária da bicharada ao atleta. Logo depois de estrelar um ousado comercial do lubrificante KY, o hipócrita pisou no tomate. Não só visitou o Biroliro e se deixou fotografar ao lado dele, como ainda participou de um louvor ao lado do namorado evangélico e da primeira-dama Micheque. Diego pode fazer o que bem entender, tanto com seu fiofó como com suas crenças religiosas e preferências políticas. Mas não é mais um símbolo da luta por direitos iguais, nem representa ninguém além de si mesmo. Depois de ser recebido aos gritos de "Fora, Bolsonaro" em uma festa gay, o equivocado foi sumariamente substituído pela drag Dora Escher no novo filme do gel KY. A marca não confirma se Diego não aparecerá mais na campanha, mas sua ausência na nova peça preenche uma lacuna. Será que finalmente nossas opiniões estão sendo ouvidas?

(Não consegui embedar neste post o novo comercial, mas ele pode ser visto aqui)

terça-feira, 26 de novembro de 2019

QUE TUDO SE EXPLODA

O Brasil já teve grandes nomes de direita no comando da economia, como Eugênio Gudin e Roberto Campos. Sinto decepcionar meus amigos no mercado financeiro que votaram no Bozo, mas Paulo Guedes não entrará para esse panteão. O atual ministro da Economia é uma piada pronta. Um remix do Justo Veríssimo, o político criado por Chico Anysio que queria que pobre explodisse. Não é que Guedes não tenha a menor sensibilidade aos temas sociais: ele não tem sensibilidade para nada, ponto. Sua fala de hoje sobre o  AI-5 ajudou o dólar a subir ainda mais, e tem muito investidor passando ao largo do Brasil. Sou totalmente a favor de gente com perfil técnico em todos os escalões do governo, mas é indispensável que esses técnicos também tenham algum traquejo político. Isto já sabemos que Paulo Guedes nunca teve, e começo a me perguntar sobre suas credenciais.