terça-feira, 15 de outubro de 2019

BREAKING WORSE


Com apenas seis anos e meio de atraso, finalmente sabemos o que aconteceu com Jessie Pinkman depois que "Breaking bad" acabou. "El Camino", o filme que acabou de estrear na Netflix, serve como epílogo e também como "reunion special", aquele formato que a TV americana adora fazer alguns anos após o final de uma série. Muitos personagens importantes reaparecem, inclusive Walter White. Só que é difícil entender o que é flashback e o que é fantasma: o roteiro não é linear e pula do passado ao presente o tempo todo. Só o tamanho do cabelo do Jesse é que dá a pista (e Aaron Paul está formidável). Mas nem isso abala o padrão Vince Gilligan de qualidade: posições de câmera, uso da trilha sonora, diálogos, elipses, tudo o que fez de "Breaking Bad" um marco da história da TV (e um elemento essencial para a consolidação da Netflix no Brasil) está lá, tão bom como sempre. Ou piorrr.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

LOUCO PELO PATRICIO

Patricio Bisso foi o artista mais genial que eu tive o prazer de conhecer pessoalmente. O cara era multitalentoso: excelente performer, brilhante figurinista, exímio ilustrador. Assisti muitas vezes a seu show "Louca pelo Saxofone". Tenho emoldurado um de seus desenhos para o extinto "Jornal da Tarde", que me foi presenteado por um namorado que também era muito amigo dele. Foi assim que nos conhecemos, mas nunca fomos chegados. Ele até foi numa festa minha, mas saiu decepcionado: "achei que só teria rapazes...". Depois sumiu, foi embora do Brasil, passou anos na moita. Reapareceu no Facebook e nos reconectamos. Sua morte neste domingo, causada por um infarto fulminante, me pegou mais ou menos de surpresa - ontem mesmo eu pensei, "por onde andará, será que...?" Pena que tenham sobrado tão poucos vídeos dele em ação, a maioria de seu alter ego Olga del Volga. Mas Patricio Bisso era muito mais: era um entertainer completo e uma pessoa adorável, apesar da língua impiedosa. Que sorte eu ter vivido nos anos 80 e testemunhado de sua fase mais brilhante (conto um pouco dessa época no obituário que escrevi para a Folha, junto com o Gustavo Fioratti).

COM TODAS AS LETRAS

A primeira edição brasileira da CPAC, a conferência teoricamente conservadora, deixou claríssimo o que de fato é: uma celebração do bozoarismo, cuja única ideologia é o bem-estar da familícia e seus agregados. Ninguém ali de fato acredita no estado mínimo, na autonomia do indivíduo ou em qualquer outra pauta realmente conservadora. Foi mais uma sagração do 03 como o principal herdeiro político de seu pai, já que o 01 está enrolado em rachadinhas e o 02 fala um idioma ininteligível no Sistema Solar. O fritador de hambúrguer ainda cometeu a gracinha de posar com uma camiseta propondo um novo significado para a sigla LGBT. Só esqueceu que faltam várias letrinhas, como o Q de "queer" - que, na versão bostominion, tem um significado evidente, embora meio difícil de encontrar.

domingo, 13 de outubro de 2019

EUZÃO E EUZINHO

Ang Lee é um cineasta irregular. Faz filmes maravilhosos e outros que a gente nem sabe se são ruins, pois passam despercebidos. Foi o caso de "A Longa Caminha de Billy Flynn", que se seguiu ao esplêndido "As Aventuras de Pi". Agora, talvez precisando encher o caixa, o diretor taiwanês ressurge com um filme de ação de roteiro bastante convencional. A ideia por trás de "Gemini Man" é boa, mas parece batida: um assassino profissional com anos de serviços prestados ao governo passa a ser perseguido por um clone dele mesmo, 25 anos mais novo. O que faz com que o longa mereça ser visto é sua tecnologia. A façanha mais óbvia é o rejuvenescimento digital de Will Smith: sua versão xóvem é perfeita, e eu não consegui catar nenhum dos defeitinhos que os críticos mais cri-cri estão achando. O outro feito é a técnica de filmagem, com mais frames por segundo do que o convencional. O resultado é uma imagem limpíssima, tão nítida que dá medo nas cenas de explosão, e que tem que ser vista em 3D na maior tela possível. Também tem uma perseguição de moto pelas muralhas de Cartagena que consegue ser original. Mas falta aquele toque transcendental, de um homem que se vê face a face com ele mesmo em idades diferentes. Saí do cinema crente que eu também estou sendo perseguido por um clone de mim mesmo. Só que o meu é bem mais velho do que eu me sinto. É um custo fazê-lo sair de casa: tudo o que ele é ficar vendo séries no sofá.

sábado, 12 de outubro de 2019

A PREGAÇÃO DE MOUHAMED

De vez em quando o teatro brasileiro pare um enorme sucesso de bilheteria, que fica décadas em cartaz. É o caso de "Trair e Coçar... É Só Começar", que é encenada ininterruptamente desde 1986, e parece ser o caminho de "A História de Nós 2", que estreou em 2009. Ontem eu finalmente assisti à peça de Lícia Manzo, que sempre teve Alexandra Richter como uma de suas protagonistas. Acabei indo ver justamente o primeiro dia de Mouhamed Harfouch no papel de metade de uma relação, que a plateia acompanha do namoro ao divórcio ao... Eu já o conhecia da televisão, achava-o bom ator, mas Mouhamed é mais do que isso: é um astro, pleno de carisma e domínio de cena. Carioquíssimo apesar do nome árabe (e, pensando bem, não há "apesar" nisso), ele tem imediata cumplicidade com sua parceira e com o público. O texto, leve e profundo ao mesmo tempo, é comercial sem ser apelativo, e os dois dão um baile. Vai ficar mais uns cem anos em cartaz. Mas não sei se com Mouhamed: ele já está pronto para voos ainda maiores.

O SALMO DE DAVI


Eu até que tentei gostar da extinta Banda Uó. Comprei CD na época em que CD ainda existia e ouvi várias vezes, mas nenhuma música me pegou. Hoje eu descobri que Davi, que vem frequentando minhas playlists desde o ano passado, era um dos Uós, ao lado do Mateus Carrilho e da Candy Mell. Mas o som atual do rapaz tem outra pegada: ensolarado, relax, praiano. "Coisas da Bahia" faz com que eu me sinta à beira-mar, com um drink na mão. Mas esta é só a melhor faixa de "Ritual", o excelente álbum-solo de estreia do rapaz. Até ontem, eu achava que ele era um surfista garotão porém sofisticado, perto de quem um Vítor Kley soa feito sertanejo universitário. Agora eu sei que Davi integra a nova MQB - música queer brasileira - e já me converti.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

O NOBRE DA PAZ

Os brasileiros passaram a ter algum interesse na Etiópia depois que começou o voo direto de São Paulo a Addis Abeba, de onde se pode pegar conexões bem baratinhas para quase toda a África e a Ásia. De resto, o país mal frequenta o nosso noticiário - alguém aí sabia do tratado de paz entre etíopes e eritreus, que pôs fim a uma guerra de quase 30 anos? Agora sabemos todos, graças a Nobel da Paz para o primeiro-ministro  Abiy Ahmed. Pelo que eu li por aí, o cara não é só um exímio diplomata, como também o artífice de uma nação moderna e democrática. Não é pouca coisa não, ainda mais em tempos de autoritarismo em alta. Fico triste pelo Raoni, claro, primeiro por ele já estar bem velhinho e segundo pela saia justa que apertaria o Bozo, obrigado a desdenhar do primeiro Nobel 100% brasileiro. Mas a Academia sueca costuma dar preferência a gente que de fato acaba com guerras de verdade, onde morre muita gente, e este não é bem o caso do glorioso cacique. Mas, do jeito que a coisa vai, em breve teremos guerra civil, e aí nossas chances aumentam!

O JARDIM E A HORTA

O livro "Revolutionary Road", de Richard Yates, gerou o filme "Apenas um Sonho", que marcou o reencontro na tela de Leonardo Di Caprio e Kate Winslet, 11 anos depois de "Titanic". Agora a história vira a peça "Jardim de Inverno",  que acaba de entrar no ar em São Paulo. Não é um espetáculo fácil: ao longo de mais de duas horas, o público assiste à lenta dissolução de um casamento, frustrado pelo cotidiano banal e pelos sonhos não realizados. A direção de Marco Antoônio Pâmio transforma algumas das marcas no palco em belas coreografias, ma exagera ao colocar uma versão jovem e quase muda dos cônjuges sombreando as ações. Fabrício Pietro (que também adaptou o texto) e Andréia Horta estão muito bem como os protagonistas. Mas, tal como aconteceu no filme, o melhor papel (e a melhor atuação) é o do filho da vizinha, que tem problemas mentais e só traz verdades. Michael Shannon foi indicado ao Oscar de coadjuvante pelo personagem; Iuri Saraiva, que já havia me chamado a atenção no ano passado, faz a versão brasileira, e merece todos os prêmios que vêm aí.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

MULHERES A BORDO


Sempre levo um livro na mala de mão, mas tenho lido cada vez menos nos voos internacionais. A razão é simples: o serviço de entretenimento de bordo dos aviões agora oferece centenas de filmes, séries, documentários e games, para que o passageiro encha o menos possível o saco das aeromoças. Assim, aproveito para ver o que não chegou no Brasil, ou o que chegou e eu perdi. O primeiro caso é o de "Late Night", uma comédia escrita e estrelada por Mindy Kaling, e dirigida por uma mulher também de ascendência indiana, Nisha Ganatra. Mindy faz uma roteirista principiante que consegue emprego no talk show de uma comediante britânica feita por Emma Thompson. Não existe nenhuma anfitriã mulher no horário nobre da TV americana, o que enfraquece um pouco a pegada feminista do filme. Mais grave é a falta de simpatia das duas personagens. A de Emma é uma esnobe cruel e não especialmente engraçada, o que torna seu sucesso ainda menos crível. A de Mindy não sossega o discurso empoderado (tem até uma piada com isso no roteiro), e suas tiradas tampouco são particularmente boas. "Late Night" flopou nos cinemas americanos e provavelmente só poderá ser visto por aqui na Amazon Prime Video. Queira muito recomendar, mas não consigo.

"Booksmart" é muito melhor. O filme entrou em cartaz por meia hora no Brasil em julho passado, como "Fora de Série", e já pode ser alugado nas boas plataformas do ramo. Talvez tivesse ido melhor por aqui se o título fosse "As CDFs", mais fiel ao espírito anárquico da trama. Também não foi bem nas bilheterias dos EUA, mas merecia mais. Porque é um ótimo exemplo de cinema feminino, de cabo a rabo. Tem roteiristas mulheres, produtoras mulheres, diretora mulher (a atriz Olivia Wilde, estreando atrás das câmeras) e conta a história de duas garotas de uma perspectiva feminina, mas nada mulherzinha. As duas são sexualizadas, desbocadas e em nada subservientes aos garotos. São colegas de escola e BFFs que, no último dia de aula, percebem que todos os alunos vagabundos entraram em faculdades tão boas quanto elas. Ou seja: não adiantou nada ter estudado tanto e perdido tantas festas. Por isto, para celebrar o final da high school, elas resolvem se jogar, e traçam tudo que aparece pela frente: drogas, bebidas, vaginas, o que for. Mas quase tudo dá muito errado, e "Booksmart" acaba lembrando "Depois de Horas", uma das muitas obras-primas de Martin Scorsese. Este eu recomeeendo.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O POMAR DAS LARANJEIRAS

Passei três dias fora, pensando em Judy Garland e Steven Spielberg. Mas claro que não parei de ler as notícias do Brasil, e voltei hoje com Biroliro ameaçando sair do PSL. Diz que ele quer se afastar dos escândalos laranjísticos que assolam o partido, como se não fosse pai do 01 e amigão de Fabrício Queiroz. Talvez seja a deixa para que surja no país um partido organizado de extrema-direita, coisa que existe na Europa, mas não por aqui. Ou talvez seja só mais um sintoma da barafunda que alguns confundem por estratégia. O Bozo só tem um plano: o bem-estar dele próprio e de sua família, mais nada. Arminha, valores cristãos, combate à corrupção, tudo isso é só da boca pra fora. O que interessa mesmo é a mamata.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

LA LA LAND

Esta foi a sexta vez em que eu estive em Los Angeles. Nas duas primeiras eu ainda era pequeno e meus maiores interesses eram o Mickey e o Pateta. As três seguintes, todas nos anos 90, foram a trabalho: respectivamente, fiz escala a caminho de uma feira de TV em Las Vegas, vim acompanhar as gravações de um comercial e fiz estágio no set de "The Nanny". Dessa vez, não foi diferente. De fato, vir muito L.A. só faz sentido para quem circula no showbiz e adjacências. A cidade, ou as cidades que a formam, não é especialmente bonita, nem mesmo à beira-mar. Tudo é longíssimo e só agora, com o surgimento do Uber, que alugar um carro se tornou opcional. Mesmo assim, é sempre um frisson estar aqui. O calor da porra, as distâncias absurdas e a artificialidade de um lugar regido pelo automóvel são compensados pelo glamour da indústria do entretenimento, que se reflete até nas salas de cinema - talvez as melhores do mundo. Até já, La La.

SPIELBERG ET MOI

Chegamos ao Museu da Tolerância às cinco e pouco, para registrarmos nossos nomes na lista de jornalistas e passarmos logo pelos procedimentos de segurança. O bufê da recepção aos convidados para a pré-estreia da série "Por Que Odiamos" estava terminando de ser disposto, e o bar já estava aberto. Eu e Claudia Carvalho Silva, do jornal português "Público", pegamos gins tônicas e fomos circular pelo museu, que parecia estar vazio. Até que, numa sala no subsolo, vimos um grupo de pessoas onde havia um rosto familiar. Chegamos perto e conferimos: era mesmo Steven Spielberg, criador e produtor da série. Chegamos ainda mais perto assim como quem não quer nada, e vimos que ele estava falando para alguém sobre o remake de "West Side Story", que acabou de filmar. Aí eu sorri e disse: "mas tem que ter muita culhão ("balls") para refazer "West Side Story"! Spielberg riu e perguntou de onde éramos. Aproveitei e engatei uma conversa sobre seu novo filme: quando sai? Já está em pós-produção? Como foram as filmagens? Quando eu ia perguntar sobre a série - o motivo, afinal, por que o canal Discovery me convidou a vir a Los Angeles - uma assessora de imprensa nos percebeu e nos afastou. "Vocês não podem ficar aqui com copos na mão!". Ela nos empurrou delicadamente para longe, mas era tarde demais. Agora já incluí Steven Spielberg no meu currículo.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

MORRE UMA ESTRELA


"Bohemian Rhapsody" estabeleceu um novo padrão para as cinebiografias de gente do showbiz. Depois de passar por muitas agruras, o biografado termina o filme de maneira apoteótica, recebendo os aplausos de uma plateia em delírio. Aí a imagem escurece e surge um letreiro na tela: fulano morreu x meses depois. Dessa forma, a plateia é brindada com um final aparentemente feliz. É o que acontece com "Judy", que eu vi aqui em Los Angeles mas ainda não tem data de estreia no Brasil. O roteiro se fixa numa temporada que Judy Garland cumpriu em Londres em 1969, seis meses antes de bater as botas. Ela está endividada, exausta, com saudades dos filhos e mais frágil do que nunca. Toma remédio para não ter fome, para dormir e para acordar. Alguns flashbacks mostram que foi sua própria mãe que a viciou quando adolescente. E, mesmo assim, se estive inspirada, ela faz um espetáculo arrasador. O problema é que nem sempre ela está inspirada. Renee Zellweger, assim como Joaquin Phoenix por "Coringa", já pode ir abrindo espaço na estante para o Oscar. Ela realmente está impressionante no papel. Sim, Renee beira o overacting em alguns momentos - mas a verdadeira Judy também era exagerada, sempre com as emoções à flor da pele. O espectador só lembra que está vendo a mesma atriz de "O Diário de Bridget Jones" quando Renee aperta os lábios de um jeito muito seu, como que se tivesse chupado um limão. A melhor transcrição para a tela da vida de Judy Garland continua sendo a minissérie "Life with Judy Garland: Me and My Shadows", de 2001, com Judy Davis como a protagonista. Mas "Judy" é uma boa condensação, apesar da família da homenageada contestar várias cenas. Se você é gay e não conhece direito Judy Garland, tem que preencher esta lacuna.

FEITIÇO DA VILLA

John Paul Getty não era flor que se cheirasse. O homem mais rico do mundo não só cometeu todos os pecados capitalistas, como ainda foi um péssimo chefe de família. Mas deixou um legado incontornável: o Museu Getty, o mais próximo que Los Angeles tem de um Louvre ou um Metropolitan. Eu já conhecia sua maior unidade, um prédio moderno recheado de arte europeia de diversas épocas. Ontem fui conhecer a outra: a Getty Villa, um palácio encarapitado em frente à praia de Malibu. Trata-se de uma reconstituição aproximada da Vila dos Papiros, uma mansão romana que até vem sendo escavada nos arredores de Pompeia. Suas salas mostram peças impressionantes de todas as fases da história da Grécia, começando com os cretenses, e de Roma, começando com os etruscos. Uma exposição temporária ainda traz o esplendor da Assíria, emprestado pelo British Museum. Tudo isso de graça: só é preciso marcar hora pela internet, porque a lotação é limitada. Agora que existe Uber, então, não há mais desculpas.

domingo, 6 de outubro de 2019

TONYZINHO DE BEVERLY HILLS

Desembarquei na manhã deste domingo em Los Angeles, cidade onde eu não punha os pés há 21 anos. Vim a convite do canal Discovery, para comparecer à pré-estreia mundial da minissérie "Why Whe Hate" (Por Que Odiamos), produzida por um tal de Steven Spielberg. É em esquema bate-e-volta: só duas noites em um hotel de Beverly Hills, sem tempo nem grana para dar um rolé à la pretty woman. Ah, e sem carro, o que faz falta em LA. Mas vai dar pra pegar um cineminha.

sábado, 5 de outubro de 2019

OS INFILTRADOS


Quis o destino que eu visse, em menos de 24 horas, os vencedores dos festivais de Veneza ("Coringa") e Cannes. "Parasita" foi mostrado hoje à imprensa, logo após a coletiva da 43a. Mostra de Cinema de São Paulo. E olha: é bom pacaraille. Fez por merecer a Palma de Ouro e é fortíssimo candidato ao Oscar de filme internacional, um prêmio para o qual a Coreia do Sul jamais foi indicada. O começo é digno de uma novela das sete: uma família de vigaristas vai se infiltrando aos poucos na casa de uns ricaços. Primeiro o filho adolescente se torna professor particular da burguesinha, depois sua irmão vira uma espécie de babá de um menino problemático, e por fim os pais assumem as funções de chofer e governanta. Tudo muito engraçado, mas... para variar, mais não posso contar. Só digo que o começa como comédia de costumes vira um drama de denúncia da desigualdade, um tema dominante no cinema de 2019. Os reaças que se cuidem.

PROGRAMA DE DOMINGO

Já tem programa para amanhã? Que tal dar um pulinho na sua zona eleitoral e votar nas eleições para conselheiro tutelar? Pois é: eu também nunca soube que se podia votar para este cargo. O voto é facultativo, e nunca vi uma campanha sequer. Mas este ano as igrejas evangélicas, mais assanhadas do que nunca, resolveram avançar por este flanco. Os pastores estão convocando os fiéis a votarem em peso amanhã, em candidatos que vão receitar orações para qualquer problema - afinal, o Brasil só não melhora porque ainda tem gente que não tem Jesus no coração. Nada contra Jesus, mas não podemos assistir passivamente a mais essa invasão da religião sobre o estado laico. Então procure se informar quais são as chapas do bem no seu bairro e dê uma votadinha. Um programão.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

DESCABELANDO O PALHAÇO


"Coringa" é mesmo tudo isso que andam falando: uma obra-prima. E olha que sou eu concordando, que não curto muito filme de super-herói. "Ãin, mas o Coringa é vilão". Quem diz isso merece ser estapeado feito o Robin, pois o que interessa é que o personagem surgiu nas histórias em quadrinhos. E que personagem: simplesmente o melhor dos "universos" D.C., Marvel e adjacências. Tanto que já foi feito por atores do calibre de Jack Nicholson, Heath Ledger e Jared Leto (esse último eu não vi). Mas suspeito que a interpretação que vai entrar para a história é mesmo a do Joaquin Phoenix. Se ele não ganhar o Oscar por esta performance, melhor cancelar de vez a Academia. E que roteiro é esse, respeitável público? Uma das melhores histórias de origem de todos os tempos, que despreza as anteriores ao mesmo tempo em que incorpora detalhes preciosos do mundo de Batman. "Coringa" fala, antes de mais nada, de solidão, mas também de rejeição, doença mental, falta de noção e uma tristeza infinita. Só que não estamos diante de um incel. Essa versão do homem de cabelo verde até pega mulher, mas seus verdadeiros interesses estão em outra parte. As cenas de violência são poucas, mas de um impacto tremendo. O diretor e roteirista Todd Phillips evita que os corpos se acumulem na tela, para não anestesiar a plateia. Cada vez que alguém se machuca, dói no espectador. E ainda tem Robert De Niro como o apresentador de um talk show, numa citação/homenagem a duas obras de Scorsese que estão na raiz de "Coringa": "Táxi Driver" e "O Rei da Comédia". Todos esses elementos fazem com que o filme forme, ao lado de "Era Uma Vez... em Hollywood" e "Bacurau", uma espécie de trilogia sangrenta, mas também encharcada de humor negro e sabor de vingança. "Coringa" é agora. Nunca mais quero ver de novo.

LARANJAS DE AÇO

Mesmo que descubram que Marcelo Álvaro Antonio matou a menina Ágatha Félix, ele pode ficar tranquilo. Não vai perder o cargo de ministro do Turismo. Com nove meses de governo, já ficou claro que indícios de corrupção, por mais fortes que sejam, não são um motivo forte o bastante para o Biroliro exonerar um subordinado. A única coisa que pega mesmo é uma suposta falta de lealdade cega e absoluta ao líder da familícia. O resto todo vale: rachadinha, desvio de dinheiro público, ligações com o crime organizado...

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

OUVINDO BACH

Estou trabalhando feito uma pessoa escravizada. Vou viajar no sábado e quero deixar o maior número possível de colunas prontas. Aí chega essa hora, só fiz um post e já tem leitor reclamando que vai cancelar a assinatura. Mas não consigo escrever nada mais elaborado do que uma reles dica de música: a banda argentina Bandalos Chinos, que teve a audácia de chamar de "BACH" seu álbum de estreia no ano passado. Este ano eles reaparecem com esse clipe matador. Ah, e para onde eu estou indo viajar? Los Angeles, bebê. Depois eu conto mais.

APOCALYPSE TOMORROW


Dos anos 70, um grande tema permeia todo o cinema americano: a busca pelo pai. Nenhuma outra cinematografia do planeta é tão obcecada pela figura paterna. Pais já foram procurados na selva, no deserto e no espaço sideral. "Ad Astra" nem é o primeiro filme a lançar seu protagonista semi-órfão rumo às estrelas ("Interesetelar" fez isso antes). Na verdade, o novo trabalho do diretor James Gray não se preocupa em ser muito original: é meio uma mistura de "2001 - Uma Odisseia no Espaço" com "Apocalypse Now" e até "Édipo-Rei", a peça grega. O roteiro já parte de uma premissa forçada: "tem um maluco em Netuno provocando descargas elétricas que podem destruir o sistema solar. Achamos que você, o filho que ele não vê há mais de 30 anos, é a pessoa mais indicada para resgatá-lo, apesar do seu óbvio envolvimento emocional". E lá se vai Brad Pitt numa das viagens interplanetárias mais tumultuadas de todos os tempos, com escalas na Lua e em Marte. O coitado tem que enfrentar um tiroteio vindo de soldados inimigos, um ataque de babuínos e o aluguel de um cobertor e um travesseiro por 125 dólares. Essas cenas de ação e humor têm, como contrapartida, muita locução em off e o olhar perdido de Pitt contemplando o infinito. Conheço gente que saiu de "Ad Astra" sentindo uma perfeita comunhão entre o ser e o universo. Eu preferi voltar logo para a Terra.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

FERNANDONA DA HISTÓRIA

Hoje eu consegui realizar um sonho antigo: conheci Fernanda Montenegro. Fui assistir à gravação do "Conversa com Bial" em que ela e Marta Góes, com quem escreveu suas memórias, eram as convidadas. No final, precisei ir cumprimentá-la. Precisei contar que quase nasci durante uma peça sua: "Com a Pulga Atrás da Orelha", no teatro Copacabana. Já contei essa história aqui no blog, mas vou contar de novo. No intervalo do espetáculo, minha mãe, que estava na plateia, sentiu as dores do parto e precisou ser levada ao hospital. No dia seguinte, saiu no jornal que "uma jovem saiu no meio da peça e deu à luz uma linda menina". O texto ainda dizia que minha mãe estava na dúvida se batizaria essa linda menina com o nome da personagem principal, dada sua moral dúbia. Fernanda riu, me abraçou e disse: "está tudo conectado!". Por ela, a atriz central do Brasil.

O TORNOZELO DE AQUILES

"Lula" e "livre" são palavras que não devem se encontrar tão cedo na vida real. O máximo que o ex-presidente deve conseguir em breve é um novo julgamento, já que não houve mesmo imparcialidade nos primeiros. Mas ele deve ser condenado novamente, porque prova é o que não falta. Mesmo assim, Lula insiste na anulação completa de sua pena. Acha que usar tornozeleira eletrônica seria um atentado à sua dignidade - ué, eu achava que ir para a cadeia era muito pior. Só que a narrativa do mártir encarcerado na torre é mais interessante para suas pretensões políticas, que seguem sendo os planos A, B, C e Z do PT. De resto, Biroliro até torce para que sua nêmesis esteja livre, leve e solta em 2022, para que as próximas eleições presidenciais ocorram de novo num ambiente polarizado. Deus nos livre e guarde: um segundo turno entre Bozo e Lula seria uma prorrogação de muitos anos à sentença a que o Brasil foi condenado. Uma prisão perpétua entre dois extremos.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

I HEAR DEAD PEOPLE


Não sou muito fã de filme de terror. Acho a maioria muito igual demais, e nenhum consegue me assustar desde que eu tinha 12 anos de idade. Mas hoje eu vi um terror nacional de arrepiar os cabelos: "Morto Não Fala", de Dennison Ramalho. Fui a uma cabine para a imprensa sem saber direito do que se tratava, e gostei muito. Tem clima, tem história, tem grandes interpretações. E tem, na base de tudo, uma ideia genial: um plantonista noturno do Instituto Médico Legal tem o dom de ouvir os mortos recentes, que muitas vezes nem sabem que morreram. Isso não afeta muito a vida do cara, até o dia em que ele descobre que a mulher o trai. Mais não vou contar: "Morto Não Fala" entra em cartaz no próximo dia 10, e eu duvido que surja um horror mais eficiente nessa temporada de Halloween.

MEU POLÍTICO DE ESTIMAÇÃO


Gosto de quase tudo o que Ryan Murphy fez: "Glee", "Pose", "Feud: Bette vs. Joan", "The Assassination of Gianni Versace"... Também adoro um certo estilo cínico de comédia, com o que os americanos chamam de "tongue-in-cheek" (traduzível por ironia?), que não é muito popular no Brasil. Por tudo isto, adorei "The Politician", a mais tongue-in-cheek das comédias assinadas por Murphy. O quase-bonito Ben Platt (que já ganhou um Tony de melhor ator de musical) faz um adolescente que quer se eleger presidente de seu grêmio acadêmico, como o primeiro passo para uma carreira que o levará à presidência dos Estados Unidos. Para aumentar suas chances, ele convida uma garota que está se tratando de um câncer para ser sua vice. A avó da garota é Jessica Lange e a mãe dele é Gwyneth Paltrow: a presença dessas duas estrelas aumenta a voltagem de "The Politician", mas texto e direção são irretocáveis. Alguns críticos não gostaram dos números musicais. É verdade que são totalmente gratuitos, mas quem quer desperdiçar os talentos vocais de Platt?