segunda-feira, 10 de agosto de 2020

BIELA PORCARIA

A Bielorrússia está nas manchetes do dia, porque o ditador Aleksandr Luvchenko roubou mais uma eleição. E eu faço questão de continuar chamando essa republiqueta do leste europeu pelo mesmo nome que ela tinha quando fazia parte da União Soviética. Até porque a pronúncia de Belarus em bielorrusso é "bielarrus"; por que não aportuguesar de vez o termo, como sempre se fez? Essa coisa de um país exigir que os outros lhe chamem pelo seu nome original, em sua própria língua, é sintoma de crise de autoafirmação. Reparou que é só paiseco? Bielorrússia (Belarus), Moldávia (Moldova), Ceilão (Sri Lanka), Birmânia (Myanmar)... Não se vê a China querendo ser chamada de Shongguo, nem o Japão de Nihon. Eu não incluo nessa infame categoria os países que abandonaram seus nomes coloniais, como o Zimbabwe (que era Rodésia) ou o Burkina Faso (Alto Volta). Os demais, parecem garota adolescente avisando aos pais que agora se chama Lady Bird.

ROUBÁ-LO-EI EM ÁRABE

Se o Brasil fosse um país governado por gente honesta e competente, teria sido bonito o atual presidente enviar seu antecessor em missão humanitária ao Líbano, que teve sua capital devastada por uma gigantesca explosão. Acontece que Edaír Biroliro é despreparado para o cargo e ligado às milícias, o que torna qualquer de seus gestos imediatamente suspeito. Já Michel Temer, o Velho, é um larápio contumaz que responde a seis processos na Justiça. Verdade que, no Líbano, ele é considerado um dos mais eminentes membros da diáspora, tanto que tem uma rua batizada com seu nome em Btaaboura, a cidade de onde vieram seus pais. Mas acho irônico mandar um sujeito que enriqueceu graças a maracutaias no porto de Santos cuidar de doações para Beirute, que teve seu porto destruído. Uma raposa pode se expressar em português castiço, em árabe escorreito ou até em latim, mas continua de olho no galinheiro.

domingo, 9 de agosto de 2020

TODO MENINO É UM REI

Pronto. Consegui ver "Black Is King". Um leitor caridoso me mandou um link (está lá nos comentários do post "Oshun Energy"), que funcionou perfeitamente. E eu fiquei boquiaberto. O álbum visual de Beyoncé é de uma beleza sem par. Não é preciso saber o que é afrofuturismo nem catar as muitas referências a divindades africanas para se deslumbrar com as roupas fabulosas e as coreografias elaboradíssimas. Mas é claro que ajuda: "Black Is King" tem uma mensagem política poderosa e, quanto mais referências o espectador tiver, em mais camadas poderá penetrar. É, possivelmente, o artefato pop mais importante de 2020.
Bom, agora que eu vi, posso dar meu pitaco. Acho que, na polêmica toda em torno de "Black Is King - que não se resume apenas à reação ao artigo de Lilia Schwarcz na Folha, nem apenas ao Brasil - tem algo fundamental passando batido. Beyoncé tem três filhos: a mais velha, Blue Ivy, e um casal de gêmeos, Rumi e Sir Carter. Seu filme é dedicado especificamente a este último, o único menino. O roteiro de "Black Is King" é uma variante de "O Rei Leão", por sua vez um derivado de "Hamlet". Nas mãos da Beionça, a história se tornou a jornada de um garoto negro em busca de sua identidade. Veja bem: um garoto. Quando alguém diz que Beyoncé falhou em produzir uma obra antirracista, é preciso lembrar que ela não está tentando convencer nenhum branco a não ser racista. Sua público-alvo preferencial são mães negras como ela, que estão criando meninos. A mulher negra, na sociedade ocidental, é o degrau mais baixo da cadeia alimentar. Apanha de todo mundo, inclusive dos homens negros. Beyoncé está propondo, simplesmente, que esta última relação de força seja eliminada. Que as mães negras criem seus filhos livres do machismo e cientes de sua ancestralidade. Que sejam reis, no sentido de reinarem sobre si mesmos (em nenhum momento ela faz uma defesa da monarquia como forma de governo, como já se disse por aí). Parece ingênuo para os brancos, mas quando um negro é expulso de um shopping só porque é negro, dá para imaginar a barra em que eles vivem 24 horas por dia, sete dias por semana. Ainda bem que negros como os dois Matheus que peitaram o racismo nos últimos dias já são reis. Outros virão.

sábado, 8 de agosto de 2020

QUEM É ATEU E VIU MILAGRES COMO EU

Ontem foi dia de toda a minha timeline fazer a mesma coisa ao mesmo tempo: ligar na Globoplay a partir das 21h30, para ver a lendária live de Caetano Veloso. Não se sabe até que ponto ele não queria mesmo fazer, ou se foi apenas uma esperta campanha de marketing da Paula Lavigne. O fato é que deu certo: com produção profissional, duração enxuta de uma hora e meia e algumas das melhores canções do repertório do aniversariante (impossível incluir todas), a apresentação fez jus ao buzz. Sereno, impávido como Muhammad Ali, o rei leão estava cercado por seus três leõezinhos - que, felizmente, têm nomes, não números. Com Tom, o mais novo deles, apresentou a belíssima "Talvez", uma parceria do filho com Cezar Mendes que já nasce com pinta de clássico da bossa nova. Também teve "Milagres do Povo", "Todo Homem", "Queixa", "Tigresa", "Trilhos Urbanos", "Podres Poderes" e tantas, tantas outras, que me fez chegar a uma conclusão polêmica: nem Chico, nem Milton, nem Tom Jobim combinam tamanha qualidade e variedade em suas obras como o Caetano Veloso. O dele é um Brasil moderno, ciente do passado mas nunca saudosista, baianofuturista, gentil e contundente ao mesmo tempo. Porque não faltaram flechadas no Bozo, o lado podre desse país. A live de Caetano nos fez lembrar que não somos só isto.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

MICHEQUE SEM FUNDO

O esquema é tão óbvio que dá até preguiça. Funciona assim: desde os tempos de vereador, Edaír Biroliro contrata assessores de porra nenhuma. Os caras não trabalham e devolvem a ele metade ou mais do salário, pago com dinheiro público. Deu tão certo que o Bozo pôs a família inteira na política: quanto mais gabinetes, mais aspones, e mais dinheiro público para rachar. Fabrício Queiroz era o operador, e também o principal vínculo da família com as milícias cariocas. Não adianta o Zero-Um alegar que foi só um boleto, ou seu pai jurar que emprestou 40 paus para um cara que se gaba de fazer dinheiro com "rolos". É só cavucar um pouco que aparecem mais provas. A de hoje são 89 mil reais depositados na conta da primeira-dama, inclusive pela mulher do Queiroz - quero só ver a história mirabolante que vão inventar. Sim, é pouco dinheiro e nem se compara ao mensalão ou ao petrolão. Mas isto é porque a familícia nunca teve acesso a negociatas milionárias. Só que agora ela tem.

AMERICAVISION

Pensei várias vezes em propor para alguma emissora um festival nos moldes do Eurovision. Uma competição musical entre os 26 estados brasileiros e o Distrito Federal; quem ganhasse seria a sede do evento no ano seguinte. Mas a logística complicadíssima e os custos astronômicos sempre me desanimaram. Agora a própria organização do Eurovision levou a ideia adiante, mas para um mercado muito maior do que o nosso: os Estados Unidos. Foi anunciada ontem a primeira edição do American Song Contest (eita nominho ruinzinho), a ser realizada no final de 2021. Ainda não se sabe o lugar ou o canal, mas o formato é similar. Cada um dos 50 estados americanos manda um candidato - cantor ou banda de até seis integrantes - para competir em cinco eliminatórias (no original são só duas), antes da grande final. Dá para imaginar os horrores que vêm por aí, como pop evangélico da Carolina do Sul ou rap esquimó do Alaska. Mal posso esperar.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

INTERVENHA SE FOR HOMEM

A matéria de Mônica Gugliano sobre o quase-golpe de 22 de maio, publicada na revista "Piauí" deste mês, consegue estarrecer sem causar surpresa. Porque todo mundo sempre soube que Edaír Biroliro nunca pensou e outra coisa que não fosse dar um golpe de estado. Desde seus tempos no Exército, o Despreparado só trabalha no confronto com as insituições, buscando o próprio benefício e o de mais ninguém. Por isso mesmo, é espantoso que os próprios milicos, que o conhece há décadas, não só tenha embarcado nessa aventura tresloucada como quase topado o autogolpe. Segundo o artigo, os generais Ramos e Braga Netto acharam uma boa ideia mandar uma tropa fechar o Supremo naquela sexta-feira. Precisou que o Heleninho - justo quem - dissuadisse os colegas, porque ainda não seria "o momento". Pois eu acho uma pena, porque não era mesmo. Para começar, é duvidoso que o general Pujol,  o atual comandante do Exército, se desse a tal papel. Também não duvido que os ministros do STF simplesmente se reusassem a deixar o prédio - e aí, seriam todos fuzilados? A quartelada seia um vexame completo, e sua única consequência seria a queda do Bostonazi. Que pena que ele não interveio.

ZERO-UM À ESQUERDA

O Zero-Três pode ser o Bananinha, mas o maior bananão da familícia Biroliro é mesmo o filho mais velho. Difícil imaginar os outros dois aparecerem choramingando em um vídeo. O do meio é um remix do Demônio da Tasmânia, e o mais novo compensa seus dotes mínimos com retórica agressiva e obsessão pelas armas. Já o Zero-Um é só frouxo mesmo. Cagou-se todo em frente às câmeras durante um debate na campanha pela prefeitura carioca em 2016. Nunca apresentou um único projeto consistente em quase vinte anos de vida parlamentar. E agora se enrolou feito um croquete ao depor sobre o caso da rachadinha. Seus advogados não conseguiram montar uma narrativa convincente, até porque é impossível. É óbvio que o esquema corria solto em todos os gabinetes do clã, a mando de papai Edaír. E qualquer um que já viu a série "Ozark" sabe que, para lavar dinheiro bem limpinho, é preciso um negócio onde corra muito cash. Vai um chocolatinho Kopenhagen aí?

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

AI QUE ÓDIO

Acho que estamos presenciando o surgimento de um novo grande cineasta. Em menos de um mês, o polonês Jan Komasa teve seus dois filmes mais recentes lançados no Brasil. "Corpus Christi" chegou ao sob demanda depois de uma indicação ao Oscar, e me deixou bastante impressionado. Quase tão bom quanto é "Rede de Ódio", disponível na Netflix. O assunto não podia ser mais da hora: o protagonista é um profissional das fake news, especializado em destruir reputações. O rapaz, feito pelo feioso Maciej Malekowski, tem a combinação exata de ressentimento e mau-caratismo para levá-lo às maiores maldades, sem um pingo de remorso. Contratado por uma agência de marketing que, na verdade, é uma troll farm, primeiro ele ataca uma blogueirinha fitness. Impressionada, sua chefe inescrupulosa lhe passa uma missão maior: colar num candidato liberal à prefeitura de Varsóvia a pecha de ser pró-imigração islâmica. Nosso herói chega a incitar um incel, e as consequências são desastrosas. Algumas passagens parecem exageradas, mas o filme reflete o que se passa na Polônia e em outros lugares. Tanto que teve seu lançamento adiado por causa de um atentado. Em janeiro do ano passado, durante um comício transmitido ao vivo pela internet, o prefeito de Gdansk foi morto a facadas por extremistas de direita.

ELAS ESTÃO DESCONTROLADAS

Estamos vivendo a era da atriz-roteirista-showrunner. Mulheres poderosas que criam sitcoms para si mesmas, onde interpretam protagonistas que têm muito de autobiográficas. A onda começou em 2006, quando Tina Fey deixou o elenco do "Saturday Night Live" para estrelar "30 Rock", que ganhou 16 Emmys ao longo de suas sete temporadas. Depois vieram Lena Dunham, com "Girls" (2012) e Phoebe Waller-Bridge, com "Fleabag" (2017). Este ano já temos duas novas integrantes dessa galeria. Uma delas é a britânica de origem ganesa Micaela Coel, que expande os limites do gênero com a incrível "I May Destroy You". Ela faz Arabella, uma escritora em crise criativa que adora sair com os amigos e enfiar um pé na jaca. Depois de uma dessas noitadas, ela meio que se lembra de que foi estuprada. A série discute sexo, assédio, drogas, ambição profissional, carência afetiva e o que é ser negro na Londres de hoje, e nem sempre faz rir. Mas é o programa mais ousado de 2020, e a confirmação de um major talent que chegou para ficar. Vem prêmio por aí.

Outra moça que vem se destacando é a espanhola Leticia Dolera. Em sua série "Vida Perfecta", ela interpreta a obcecada Maria, que já tem todo o futuro caretinha planejado nos mínimos detalhes. Mas as coisas saem de controle quando ela toma uma bala, vai para a festinha de aniversário da sobrinha e transa com um jardineiro. Mais não posso contar, porque cada episódio traz novas surpresas . Maria tem duas irmãs: uma artista lésbica que pega geral, e uma casada que, apesar de feliz com o marido, também está louca para pegar geral. "I May Destroy You" e "Vida Perfecta" estão sendo exibidas pela HBO às segundas, às 23h e às 23h30, o que faz desta noite uma das melhores da semana. A única em que eu gosto de mulher.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

FROM THE LEBANON! THE LEBANON!

Referência é tudo, né, gente? Pensei em marcar esse dia em que o porto de Beirute foi pelos ares com uma música da diva Fairouz, mas eu não tenho muita intimidade com ela. A verdade é que, quando eu ouço notícias vindas do Líbano, o que toca na minha cabeça é "The Lebanon", do Human League. Então vou ser fiel a mim mesmo e homenagear as vítimas dessa catástrofe do jeito que eu sei.

OSHUN ENERGY

Não vou entrar na polêmica da Beyoncé. Não vou entrar na polêmica da Beyoncé. Não vou entrar... Entrei. Eu não resisto, mesmo não sendo meu lugar de fala. Mesmo não tendo visto "Black Is King" - aliás, alguém sabe como ver? A porra da Disney + não existe no Brasil, e no YouTube só tem trailer e clipes. Bom, como só vi esses pedaços, não posso dizer que o novo álbum visual da diva seja isto ou aquilo. Também me faltam referências e estudo para entender tudo o que ela cita. Eu ainda estou aprendendo o que é afrofuturismo, mas acompanho a carreira da Bey desde os tempos do Destiny's Child. Tenho todos os discos dela e acho que, de uns anos para cá, a sra. Carter transcendeu o papel de uma simples cantora para se transformar numa ativista política, ainda mais ambiciosa que Madonna.


"Black Is King" é a versão em vídeo de "The Gift", o disco que Beyoncé lançou no ano passado com canções inspiradas pela nova versão de "O Rei Leão". Ela acaba de relançar o disco, sem os diálogos do filme e com algumas faixas-extra. Musicalmente, não acho seu melhor trabalho, mas é interessantíssimo que ela chame músicos africanos e afro-americanos para criar uma espécie de trilha sonora contemporânea para a negritude na diáspora. Só que agora me dá medo de criticar a Beyoncé. A historiadora branca Lilia Moritz Scharcz ousou apontar o que lhe pareceram incoerências de "Black Is King" em artigo publicado pela Folha, e teve que pedir desculpas públicas depois de ser massacrada nas redes sociais. Em sua defesa, diga-se que nem o título ou o subtítulo do artigo são de sua autoria. É comum que os editores escrevam essas chamadas, em função do espaço disponível. Mas alguns dos termos usados - "erra", "precisa entender", "artifício hollywoodiano" - sequer aparecem no texto de Lília. Mesmo assim, ela de fato sugere a Beyoncé "sair um pouco da sala de estar" no último parágrafo, o que pega mal para caralho no mundo de 2020. Enfim: muitas das reações contrárias à matéria são bastante compreensíveis. Os negros das Américas estão finalmente construindo uma nova mitologia própria. Algo que os brancos temos desde sempre, e tão enraizado que nem estamos conscientes de sua existência. Hoje em dia, há cada vez mais negros mulheres e gays em posições de poder - se não de fazer, pelo menos de dizer. E o establishment branco-macho-heterossexual anda estranhando essas novas vozes, mesmo que, muitas vezes, concorde com elas. Ou queira concordar. Ninguém quer passar por racista, mas o racismo estrutural existe e precisa ser combatido. A própria Lília reconhece isto em seu post no Instagram. Trata-se de uma intelectual séria, que há anos estuda a escravidão, e não merece ser cancelada por causa de algumas palavras mal escolhidas. Mas dizer que só um negro pode comentar o trabalho de outro negro é uma bobagem colossal. Nunca é demais lembrar: perder tempo atacando quem já está do lado certo é tudo o que os nossos inimigos querem que a gente faça.

(o título desse post é parte da letra de "Black Parade", o novo single da Bey. Ela vem se revelando devota de Oxum, orixá das águas doces e meio que equivalente a Vênus na cosmologia iorubá. Também é a minha orixá, veja só)

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

PORQUE TE VAS

Juan Carlos nasceu no exílio e passou toda a infância e a juventude fora da Espanha. Agora vai passar o que lhe resta da velhice também. Hoje o rei emérito anunciou que está se picando do país onde reinou por quase 40 anos. Já havia caído em desgraça quando precisou renunciar em 2014, por causa dos muitos escândalos que protagonizou - de uma caçada a elefantes à amante alemã, passando por milhões de dólares que recebeu da Arábia Saudita num caso de suborno relativo à construção de uma ferrovia. É de cair o queixo que um monarca, que já vive em palácios e tem todos os boletos pagos para todo o sempre, ainda ache que é pouco e dê um jeito de se corromper. Acho bem-feito que Juan Carlos termine seus dias na infâmia, com a pecha de fujão e longe dos filhos e netos. Ele se vai para salvar a Coroa, mas já passa da hora da Espanha voltar a ser república.

FALE COM ELA

Ontem eu revi "Orlando", o primeiro grande papel de Tilda Swinton no cinema. É uma atuação minimalista: ela fala pouco, mexe os olhinhos e serve de cabide para um desfile de moda que vai de 1600 até os dias atuais. Mesmo assim, fiquei tão impressionado que dei a Tilda o meu prêmio de melhor atriz de 1993, mal sabendo que ela iria me espantar cada vez mais pelas décadas seguintes. O próximo assombro está quase pronto: é o curta-metragem "A Voz Humana", dirigido por ninguém menos do que Pedro Almodóvar. O monólogo de Jean Cocteau é uma obsessão de longa data do cineasta espanhol, e já foi citado em seu filme "A Lei do Desejo". Agora finalmente veremos a versão completa, no primeiro trabalho de Almodóvar em inglês. Previsto para rodar em abril, o curta teve que ser adiado para julho por causa da pandemia, e pela foto aí do lado dá para ver as medidas de segurança seguidas no set. A estreia está prevista para setembro, no Festival de Veneza - que, por enquanto, promete ser presencial. Também quero ver "A Voz Humana" no cinema. Quem sabe na Mostra de SP, que ainda não foi cancelada?

domingo, 2 de agosto de 2020

ALMAS EM CHAMAS

Ao contrário da Netflix, que eu consigo ver na TV, a Amazon Prime Video só pega no meu computador. Isso me faz perder alguns programas de lá, ou assistir com algum atraso. Foi só esta semana, dois meses depois da estreia, que eu me entreguei a "Little Fires Everywhere", uma das melhores minisséries do ano. No livro de Celeste Ng, a raça de Mia Warren, feita por Kerry Washington, não é citada. Mas o fato dela ser negra na TV acrescenta camadas ao embate entre Mia e Elena Richardson, a personagem da também produtora Reese Witherspoon. A primeira é uma artista nômade, que arrasta a filha única de cidade em cidade, sem nunca passar muito tempo no mesmo lugar. A outra é uma versão extrema da Madeline de "Big Little Lies", também encarnada por Reese: a dona-de-casa perfeita, tensa a mais não poder, que transforma a vida da família num inferno. Dois estilos de vida contrastantes, que entram em rota de colisão quando o racismo estrutural entra na equação. Elena se acha muito liberal, mas é do tipo que faz questão de mencionar sua suposta bacanice a qualquer negro que lhe passe pela frente. Já Mia obrigou a filha a uma vida de desconforto e amigos cambiantes, e só aos poucos vamos entendendo por quê. Muitas cenas são aflitivas. Eu fiquei constrangido comigo mesmo ao me flagrar torcendo pelos brancos, meio que no piloto automático. O roteiro é tão bem escrito que faz com que o espectador entenda as motivações de todo mundo, até dos coadjuvantes. Tem um lado folhetinesco, e um outro bem sério que não foge da discussão sobre a desigualdade. Quando terminou, senti minha própria alma reduzida a cinzas.

sábado, 1 de agosto de 2020

OS MUPPETS DO MAL

Edaír Biroliro é uma piada internacional. Tanto que já é habitué da série "Puppet Regime", do canal GZERO Media no YouTube, que transforma políticos em fantoches. No episódio "Corona Kings", divulgado ontem, ele participa de uma chamada em vídeo com seus cupinchas Donald Trump e Vladimir Putin. O assunto, claro, é saber quem tem o país com mais casos de covid-19. Os diálogos são absurdos, mas só um detalhe é inverossímil: o inglês escorreito do Bozo.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

REMEMBER MY NAME

Hoje morreu o diretor britânico Alan Parker. Confesso que eu meio que tinha me esquecido dele: seu último filme, "A Vida de David Gale", saiu em 2003, e eu nem me interessei em ver. Confesso que também sinto vergonha disso, porque, durante um bom tempo, Alan Parker fez o filme certo na hora certa - para mim, pelo menos. Eu estava me descobrindo gay quando saiu, em 1978, "O Expresso da Meia-Noite", a primeira vez em que eu vi dois homens se beijando na tela. Além da incrível história verídica, o longa ainda tinha uma trilha eletrônica de Giorgio Moroder, tão inovadora que levou o Oscar. Em 1980, Parker lançou outro título para a minha ilha deserta, "Fama". Muitos dos meus leitores só devem se lembrar da série de TV, ou do - brrrr - remake de alguns anos atrás. Procurem o original! "Fama" é o pai de "Glee" e similares, mas nunca foi superado.A história de um bando de garotos estudando na Juilliard, a famosa escola de Nova York para as performing arts, me pegou de um jeito que eu tive que comprar o VHS e furá-lo de tanto rever. Depois, Parker ainda fez "The Wall", que eu vi no primeiro dia que passei em Londres; "Coração Satânico", um filme de terror de luxo, com Mickey Rourke e Robert De Niro; "e "Evita", que obrigou Madonna a ter as aulas de canto que mudaram sua voz para sempre. Uma sensibilidade pop afiada, que merecia ter sido mais reconhecida. Inclusive por mim. Não esquecerei seu nome.

NINGUÉM ME CALA

O vídeo que Felipe Neto gravou para o New York Times foi uma pedrada nos birolistas. O maior influenciador do Brasil articulou para o mundo inteiro, num inglês perfeito, o que muitos comentam em voz baixa no Brasil: o Bozo é o pior presidente do mundo no combate ao coronavírus. Esse grito de "o rei está nu" redobrou os ataques ao rapaz, que já vem há tempos sofrendo uma intensa campanha de difamação. Ao invés de mostrar dados que provem que, sim, Edaír está fazendo um excelente trabalho contra a pandemia, os minions usaram o que julgam ser uma arma nuclear: acusar Felipe de pedofilia. A "prova" é um tuíte criado em Photoshop, que até sua tia do zap sabe que é falso. Ontem um futuro candidato a deputado levou um carro de som à frente do condomínio onde o vlogueiro mora no Rio, na tentativa de obter uma foto como aquela do brucutu rasgando uma placa de Marielle Franco, que o ajudou a se eleger. Esse sujeito também estava entre os que soltaram fogos contra o STF em junho. Ou seja: esse papo de #TodosContraFelipeNeto é cascata, pois são os mesmos gatos pingados e alguns robôs. Enquanto isso, Felipe segue impávido. E lúcido como nunca, como demonstrou ontem na live com o ministro Luís Roberto Barroso. O gado está certíssimo em ter medo dele.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

TANTRUMP

Hoje o Bebê Laranja armou um berreiro - ou um tantrum, como se diz em inglês - para que as eleições de novembro sejam adiadas. Hmm, talvez por uns dois anos? Até a pandemia passar, a economia subir e o Biden morrer? Biden feio, bobo e mau, que bate o Bebê até em estados que votam há décadas nos republicanos. É bom lembrar que as eleições presidenciais americanas jamais foram adiadas ou canceladas, há mais de dois séculos. Acontecem a cada quatro anos, chova, faça sol ou haja guerra. O que há agora é apenas um presidente incompetente levando um pau nas pesquisas.  Trump não tem o menor poder de adiar o pleito, mas sua declaração é um teaser do que está por vir. Ele vai espernear, gritar que houve fraude e jogar o sujíssimo para não ter que sair da Casa Branca. Mas vai sair.

EMMA. EMMA. EMMA.

No final da década de 90, houve uma onda de filmes baseados em livros de Jane Austen. Um dos mais vistosos foi "Emma", de 1996, que deslanchou a carreira de Gwyneth Paltrow. Talvez a história se repita agora com a ótima Anya Taylor-Joy, que protagoniza a nova versão da história. "Emma." (com ponto final no título, como era o costume no começo do século 19) é o longa de estreia de uma diretora cujo nome caberia numa drag queen intelectualizada, Autumn de Wilde, e seu visual parece inspirado numa caixa de macarons. Tudo é rosinha, verdinho, azulzinho, e alguns enquadramentos são tão lindos que dão vontade, ao mesmo tempo, de comer e pendurar na parede. Além da própria Anya, brilham duas coadjuvantes: Mia Goth e Miranda Hart, aquela atriz grandalhona que quem viu a série "Call the Midwife" aprendeu a amar. Já a trama continua a mesma, leve feito algodão doce: Emma Woodhouse, "bonita, inteligente e rica" como diz o poster, acha que controla todo mundo à sua volta. Faz e desfaz casamentos, sem perceber seus próprios sentimentos.  Não é nada muito profundo, mas os gringos tratam Jane Austen como se fosse Machado de Assis - e o fato é que os romances da autora costumam render bom cinema. "Emma." é um dos primeiros filmes importantes do ano a estrear diretamente no sob demanda, e merece que o próximo Oscar lembre dele em várias categorias. Quer dizer, se houver Oscar.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

DUZENTINHA

Já pensou? Você vai ao caixa eletrônico sacar uma grana, e vem uma nota de 200 reais. Ninguém tem troco, você não consegue passá-la adiante e acaba deixando-a em casa, com medo de perdê-la num eventual assalto. Esse trambolho pouco prático, anunciado para outubro pelo Banco Central, só deve ter uma finalidade: diminuir as malas com que os corruptos transportam o dim-dim que nos roubaram. Pelo menos o BC captou o zeitgeist e pôs um dos bichos da hora, o lobo-guará, para enfeitar a nova cédula. Mas não faltavam candidatos: podia ter sido o gado, a naja, a ema, o cachorro que mordeu o Guedes. Ou até, quem sabe, a cabeleireireleilaleileireila Leila.

BANANAS FOR TRUMP

Há um lado positivo no apoio explícito do Bananinha à reeleição de Donald Trump: quando o Bebê Laranja for, muito provavelmente, derrotado em novembro, a familícia Biroliro enfiará mais uma derrota no currículo. Só este. Todo o resto é um desastre, porque um político estrangeiro não deve emitir opinião sobre a eleição de outro país. O Zero-Três ainda é o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, e quase foi o embaixador brasileiro nos Estados Unidos. Deveria saber o mínimo sobre diplomacia, mas sua cegueira ideológica e sua burrice não permitem. É verdade que a tradição de neutralidade do Brasil foi rompida por Lula e Dilma, que torceram alegremente por Kirchner, Maduro e outros candidatos da esquerda na América Latina. Mas nada se compara à capachice do desgoverno Edaír. Abrimos as pernas para os EUA, e não recebemos absolutamente nada em troca. Nem uma mísera bananinha.

terça-feira, 28 de julho de 2020

PANDEMMYS

O Emmy foi a primeira premiação importante do showbiz americano a divulgar indicações durante a pandemia. A lista saiu hoje, mas a a cerimônia marcada para 20 de setembro continua uma incógnita. Talvez vire uma live, olha só que chatice. Os concorrentes deste ano também parecem não refletir o que de fato andamos vendo na TV e no streaming - pelo menos aqui no Brasil, onde somos mais abertos para o mundo do que os americanos. Não há nenhum franco favorito nas principais categorias, mas eu apostaria em "Sucession" como melhor série dramática e "Maravilhosa Sra. Meisel" para série cômica. Dessa vez também falta um "Fleabag": uma novidade excitante que nos dê a sensação de viver no presente, e não num looping de anos anteriores. Lamento um pouco a ausência da Reese Witherspoon como atriz de drama, mas ela participou de nada menos que três programas diferentes, em diferentes canais, e deve ter espalhado seus votos. No mais, torço pela Bette Midler como atriz convidada em comédia, e talvez por "Nada Ortodoxa". Eu só estaria entusiasmado se meus queridinhos "Quase Feliz" e "Califado"  estivessem competindo, mas para eles existe o Emmy Internacional.

PAI CORAGEM

Cada vez mais eu admiro o Thammy Miranda. Ele não tem o menor medo de se expor, de mostrar sua linda família, de dar a cara para bater. E o povo bate: é apavorante a onda de ódio que se ergueu contra ele e a Natura, por causa da campanha da perfumaria para o Dia dos Pais. Ao lado de outros influenciadores, Thammy foi contratado para postar um vídeo com seu filho Bento no Instagram e usar a hashtag #MeuPaiPresente. As imagens são lindas e totalmente dentro do conceito publicitário. Mas uma parte do Brasil ainda não chegou sequer ao nível do Irã, onde os gays são enforcados mas os trans são aceitos. Porque eles, de certa forma, se adequam ao padrão heteronormativo: casam-se com alguém do gênero oposto e formam famílias-margarina, para conservador nenhum botar defeito. Só que o que temos por aqui não são conservadores: são boçais mesmo, em busca de alvos para despejar sua ignorância e seu ressentimento. Ainda bem que a Natura não está nem aí. Todo ano ela lança uma campanha polêmica, que suscita a ameaça de um boicote na internet. E aí, não acontece nada - a marca está cada vez mais rica, ela é poderosíssima. Thammy também segue impávido. Não fosse ele filho da Gretchen, a mulher mais forte do Brasil, que construiu uma carreira de quase meio século baseada em apenas três músicas que fizeram sucesso nos anos 70.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

CLOROQUINA NA CABEÇA

Um jornalista especializado em política não pode aderir escancaradamente a quem quer que seja, sob o risco de dizimar a própria credibilidade. Mas Alexandre Garcia foi além: em sua estreia na CNN Brasil, ele mostrou que prefere acreditar na propaganda do governo do que na ciência. Das duas, uma: ou Garcia é burro, ou é desonesto. Incrível que um homem de sua idade, com sua experiência, ache que foi a cloroquina quem curou o Bozo, só porque o Bozo disse que tomou cloroquina enquanto teve Covid-19 (eu duvido até que o Despreparado esteve mesmo doente...). A lógica do comentarista é tão rala que dá para apostar na segunda hipótese. O ex-global hoje faz parte da máquina de desinformação birolista, e vai endossar qualquer narrativa que venha do Planalto. Um triste efeito colateral da cloroquina, que parece ter afetado o cérebro de Alexandre Garcia. Ele amarrou seu fim de carreira ao projeto suicida do Edaír, e irão afundar juntos.

DUPLA IDENTIDADE


Pelo trailer, "Estado Zero" prometia ser bacanérrima. Uma minissérie criada por Cate Blanchett, que ainda faz uma participação especial, sobre refugiados que tentam entrar na Austrália e acabam confinados em um campo de concentração. Tudo isso é verdade, mas o resultado final fica aquém do esperado. Porque há duas histórias bem diferentes sendo contadas ao mesmo tempo: o desespero dos asiáticos e africanos que fogem de seus países,  e o drama específico, inspirado num caso real, de uma cidadã australiana esquizofrênica que se passou por turista alemã e foi detida como imigrante ilegal. Este episódio levou a toda uma reformulação da política migratória da Austrália, mas o roteiro da série não consegue inseri-lo de forma orgânica. Mais interessante é a crise de consciência dos guardas e diretores do tal campo, obrigados a tratar mal um bando de pobres coitados que só quer uma vida melhor. Pelo menos os atores são ótimos, com destaque para a bela Yvonne Strahovski (a Serena de "The Handmaid's Tale", que eu não sabia que era aussie). Cate Blanchett, é óbvio, também está divina como a líder uma seita que prega a transformação pessoal através de coreografias dignas da Broadway, mas a personagem soa apenas como um pretexto para a estrela exibir seus dotes musicais. Com duas personalidades distintas, "Estado Zero" é tão perturbado quanto sua protagonista.