segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

FLEXÍVEIS E DIVERSOS

Amanhã é dia de tirar a tiara do cofre e o mink da geladeira da Mme. Rosita para, devidamente paramentado, assistir ao anúncio dos indicados ao Oscar. Traumatizada com a campanha #OscarSoWhite de três anos atrás, a Academia quer garantir a diversidade: se não entre os indicados, pelo menos entre os apresentadores, Kumail Nanjiani e Tracee Ellis Ross. Os dois, muito mais conhecidos por trabalhos na TV do que no cinema, lerão a lista dos selecionados em 24 categorias, às 5h30 da manhã em Los Angeles e 11h30 em Brasília. Vou ver pela TNT.

Quem vai estar no páreo? Como já faço há alguns anos, aqui vão minhas previsões para os troféus mais badalados. Dessa vez eu me baseio não só nos sites especializados que frequento o ano inteiro, como na minha própria experiência. Já vi mais da metade dos filmes cotados, e sei o que costuma pegar na Academia - tenho 44 anos de janela. Mas sempre rola alguma surpresa (ainda bem), e por isto meus palpites são flexíveis. Os primeiros nomes da lista são os mais prováveis, mas a última vaga é sempre  disputada por dois ou mais candidatos. Vamos lá:


MELHOR FILME
A Favorita
Green Book - O Guia
Inflitrado na Klan 
Nasce Uma Estrela
Pantera Negra
Roma 
Se a Rua Beale Falasse
Vice
e talvez...
Bohemian Rhapsody

MELHOR ATOR
Christian Bale (Vice)
Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)
Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
Viggo Mortensen (Green Book - O Guia)
e talvez...
Ethan Hawke (First Reformed)
ou
John David Washington (Infiltrado na Klan) 

MELHOR ATRIZ
Glenn Close (A Esposa)
Olivia Colman (A Favorita)
Lady Gaga (Nasce Uma Estrela
Melissa McCarthy (Você Poderia Me Perdoar?)
e talvez...
Emily Blunt (O Retorno de Mary Poppins)
ou
Yalitiza Aparicio (Roma)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Mahershala Ali (Green Book - O Guia)
Timothée Chalamet (Querido Menino)
Adam Driver (Infiltrado na Klan)
Richard E. Grant (Você Poderia Me Perdoar?)
e talvez...
Sam Elliott (Nasce Uma Estrela)
ou
Sam Rockwell (Vice)



MELHOR ATRiZ COADJUVANTE
Amy Adams (Vice)
Regina King (Se a Rua Beale Falasse)
Emma Stone (A Favorita)
Rachel Weisz (A Favorita)
e talvez...
Claire Foy (O Primeiro Homem)
ou
Margot Robbie (Duas Rainhas)

MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
Assunto de Família (Japão)
Cafarnaum (Líbano)
Guerra Fria (Polônia)
Roma (México)
e talvez...
Em Chamas (Coreia do Sul)
ou
Never Look Away (Alemanha)

Alea jacta est.

CHOLA MAIS

O sobrenome da família Bozo se tornou uma marca. Tão reputada que até candidatos que não têm nenhuma relação de parentesco com o clã conseguiram se eleger depois de incluí-la ao próprio nome. Mas foi só chegar ao Planalto que a marca começou a sofrer desgaste. Isto era mais do que previsto: é muito mais fácil ser pedra (e virar "mito") do que vidraça. Mas as estripulias do 01 ultrapassam, de longe, o despreparo que o papi apresentou até o momento. Só os minions mais burros e/ou desonestos ainda engolem a história da venda do apartamento ou das lojas Kopenhagen. Nenhuma dessas teorias explica como a filha de Fabrício Queiroz conseguia bater ponto no gabinete do Bozo Pai em Brasília e trabalhar como personal trainer no Rio de Janeiro, nos mesmos dias e horários. O primogênito se enrolou de tal maneira que só lhe resta uma saída digna: a renúncia ao mandato de senador, que ainda nem assumiu. Só isto, talvez (eu disse talvez), não contaminasse o resto da família, toda ela vivendo (e enriquecendo) às custas da política desde 1989. Seria uma saída drástica e dolorosa, feito a amputação de uma perna sem anestesia. Mas claro que isto não vai acontecer: ninguém ali tem tanta hombridade. O mais provável é que os Solnorabo se tornem reféns de ninguém menos que Renan Calheiros, provável futuro presidente do Senado e raposa notória, que apoiou Lula até garantir sua própria reeleição por Alagoas. E assim, em tão pouco tempo, a marca Bozo já está degringolando. Chola mais, 01, chola que ainda tá pouco.

domingo, 20 de janeiro de 2019

I LOVE YOU, TOMORROW

"Annie" é o primeiro musical da vida de muitos americanos. É sobre crianças e para crianças. O pretexto ideal para os pais introduzirem os pimpolhos à Broadway e, quem sabe, despertar uma vocação de coreógrafo ou maquiador. Isto quer dizer que é teatro infantil: luxuoso, com orquestra, cenários elaborados, mas não mais complexo do que "Os Três Porquinhos versus o Bicho-Papão". É nesse espírito que deve ser visto o "Annie" que fica em cartaz em São Paulo por mais uma semana: uma montagem quadrada para uma peça quadrada. Mas é muito bem feita, como tudo que Miguel Falabella faz. Ele está divertido como Daddy Arbucks, e resvala para seus cacos (antibes?) habituais no final do espetáculo. A voz falha algumas vezes, mas ninguém está ficando mais jovem. Voz nenhuma é o que tem Ingrid Guimarães, mas ela também compensa com charme e timing. A única coisa com que realmente impliquei foi a versão de Falabella para a letra de "Tomorrow", o grand hit da peça. Tudo rima e faz sentido, mas sem a poesia de "you're only a day away".

sábado, 19 de janeiro de 2019

O DESAFIO DOS 17 ANOS


Nicole Kidman aparece feia e envelhecida em "O Peso do Passado". Oooooh. Só isto já parece bastar para o filme de Karyn Kusama vir arrancando elogios. Poucas coisas têm mais valor artístico do que uma beldade com a coragem de se enfeiar. Verdade que a atriz está bem, e o roteiro malandro traz uma pegadinha no final. Mas não chega a explicar por que a personagem sofre tanto. OK, ela é uma policial que participou de uma operação que deu errado 17 anos atrás - mas ainda não superou, tanto tempo depois? É o peso do presente que é quase insuportável, transformando o que poderia ser um trhiller mediano num tremendo baixo-astral. Mas Nicole está feia, e só isto é o que importa.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

CARLUCHO

Atendendo a pedidos, eis aí o vídeo que está causando furor no Vale esta semana. O que dizem é que o 02 -  o único solteiro do clã Biroliro - mora com o primo Leonardo Rodrigues de Jesus, o "Léo Índio", e que os dois são discretos e fora do meio. Não sei se é verdade: só dá para confirmar que rola uma brodagem entre ambos, com direito a apelido carinhoso. Lindo, porém revoltante. Carlucho é quem mais divulga nas redes as tiradas homofóbicas do papi - portanto, se ele for mesmo gay, merece ser arrastado para fora do armário. O problema é que, com esses dois novos membros tão reaças, as ações do Vale irão despencar.

ZERINHO CORTA TUDO

Há duas questões interessantes nesta última reviravolta do caso Queiroz. A mais óbvia: por que Luiz Fux aceitou suspender a investigação? Meio mundo está atacando o ministro do STF, que dá a impressão de querer puxar o saco do Bozo. Mas ele próprio se defendeu com um argumento contundente: se tivesse negado o pedido, as provas poderiam ser anuladas. Não sou jurista nem entendo nada de direito, mas, se for isto mesmo, Fux terá cometido um ato de grandeza: deu a cara a tapa para impedir que um larápio se safasse. A segunda pergunta é mais desconcertante: o que se passa na cabeça do 01, para adotar uma estratégia que equivale a uma confissão de culpa? Até os minions menos tapados estão caindo em si, depois de tantas manobras e escapulidas. O que está ficando evidente é que o clã Boçalnaro cometeu todos os delitos que estavam ao seu alcance enquanto militava no baixo clero: contratou funcionários-fantasmas, fez rachadinha com o salário deles, pescou em área protegida. Mas o ministro Marco Aurélio, vilão em dezembro passado, hoje é o herói: ele sinalizou que a mamata do 01 vai acabar. Faltam as dos outros zeros.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A ARMA DO NEGÓCIO

Durante muito tempos, os EUA foram os únicos países do mundo dito civilizado que facilitavam a posse e o porte de armas. Fuzis são vendidos em supermercados e há pouca fiscalização sobre quem compra: é um resquício da luta pela independência do país, quando empunhar armas (contra os ingleses) virou cláusula da Constituição. O resultado é um lobby rico e poderoso que barra qualquer tentativa de controle, mesmo sendo raro o mês que não tenha um massacre em alguma escola. Agora Israel e Itália, ambos governados por partidos de direita, estão entrando para esse clube perigoso. E o Brasil? Eu votei contra a venda de armas em 2005, e não me arrependo. Mas também concordo com tudo o que diz o Joel Pinheiro da Fonseca, que escreve ótimas colunas na Folha e tem um canal no YouTube muito interessante. Portanto, faço dele as minhas palavras. Só gostaria de acrescentar que eu duvido que haja uma corrida às lojas: aposto que não tem tanta gente assim disposta a desembolsar pelo menos quatro paus num revólver simplezinho. Por outro lado, deve ser mais que o suficiente para fazer um estrago - inclusive nelas mesmas.


NAVALHA NO EGO

Muito tempo atrás, quando eu era um publicitário imberbe, trabalhei para um dos piores clientes do mundo: a Gillette. As campanhas levavam, literalmente, anos para serem aprovadas, e quase nunca traziam uma boa ideia. Depois a empresa foi comprada pela P&G, que deu uma modernizada em sua comunicação. Agora a Gillette está sendo alvo de fogo pesado: muitos caras inseguros de si mesmos estão atacando o novo filme institucional, que dá um twist no slogan "o melhor do homem". Este é só mais um exemplo de que o avanço do conservadorismo no mundo inteiro é uma contra-reação ao avanço dos direitos de quem não se enquadra na tríade homem-branco-hétero. Mas os argumentos dos detratores são tão frágeis quanto a masculinidade dos nossos políticos, que acabaram com o gabinete de número 24 do Senado. Negros, gays e, acima de tudo, mulheres não vão mais baixar a cabeça. E quem não gostar se arrisca a levar uma giletada.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

UM TERROR DE GAROTO


No ano passado, tive uma grata surpresa com "A Amante", o primeiro longa do diretor tunisino Mohammed Ben Attia. Por isto, fiquei curioso para ver seu novo filme, "Meu Querido Filho", apesar do argumento não me parecer muito original. Uma família de classe média entra em desespero quando o filho único, um rapaz quietarrão que sofre de enxaqueca, desaparece, deixando só um bilhete: "fui para a Síria". Ou seja, se juntou ao Estado Islâmico. E aí o pai vai atrás do moleque, como a mãe de "O Caminho de Istambul", que eu vi na Mostra de 2016. Até aí, problema nenhum. Mas já percebi que o cinema de Attia tem uma tendência à imobilidade. Aqui a ação vai parando, parando, justamente quando deveria estar pegando fogo. Como sairá seu terceiro filme? Vou dar mais uma chance.

ISSO, ISSO, ISSO

Não adiantou nada torcer contra, talkei? O primeiro resultado positivo do governo do Bozo já apareceu: o histórico esquete "Vila Militar do Chaves", exibido ontem na estreia da sexta e última temporada do "Tá no Ar". Estou desconfiado de que até os minions gostaram, pois não encontrei um único comentário contra nas redes sociais - e olha que o Adnet já foi jurado de morte por essa cambada, ainda mais depois que a lei que leva seu nome garantiu a mamata de tantos artistas esquerdopatas. A Globoplay não permite que a gente embede seus vídeos, mas dá para ver aqui. Será que a TV brasileira produz algo melhor este ano? Hmm, aposto que sim. Pelo jeito que a coisa vai, assunto para sátira não vai faltar.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

SEM SAÍDA

"Brexit means Brexit", insistia Theresa May, logo após o plebiscito que derrubou David Cameron e a levou para Downing Street. A então recém-empossada primeira-ministra sempre foi contra a saída do Reino Unido da União Europeia, mas jurou que iria respeitar o resultado das urnas. Quase três anos depois... o Brexit está uma mess. Ninguém se entende e cresce o movimento por uma nova consulta popular. Mas aí cabe a questão: a democracia não estaria sendo aviltada? O povo já não foi claro? Não dá para fazer como o saudoso Eduardo Cunha, que punha e repunha uma matéria em votação no Congresso até ela ser aprovada como ele queria. Só que a campanha de 2016 foi a primeira em que bots e fake news tiveram um papel crucial. Os britânicos foram desinformados sobre as consequências da saída da UE. Caíram na esparrela armada pela Rússia, que tem todo o interesse em enfraquecer a Europa (e agora quer que o Trump faça os EUA deixaram a OTAN, veja só). Sabendo disso, acho que a única saída é mesmo um outro plebiscito. E torcer para que a razão vença dessa vez.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

TRATAMENTO DE CANAL

É claro que é uma ótima notícia a criação da CNN Brasil. Até a Turquia já tem há anos sua própria filial do mais famoso canal de notícias do mundo. Além da geração de mais de 300 empregos, a CNN é uma empresa séria, que passa longe das fake news - tanto que está na mira do Trump. O que chama a atenção no caso brasileiro é o currículo dos envolvidos. Rubens Menin é um empresário respetiado, com um importante trabalho filantrópico. Mas, até onde eu li, também é um entusiasta do governo Bozo. E Douglas Tavolaro não só passou 15 anos na Record e assinou a biografia de Edir Macedo como também é sobrinho do bispo. Dá para imaginar essa turma fazendo jornalismo crítico? E a CNN, que os direitopatas juram ser de esquerda, como é que fica?

O RIO ÀS BARATAS

Não consigo ter pena do meu estado e da minha cidade natais. Primeiro meus conterrâneos elegem Crivella prefeito e depois se horrorizam quando descobrem que o pastor está mais interessado em arrebanhar fiéis. Depois colocam um juiz desconhecido e inexperiente no governo, que manda confeccionar uma inédita faixa para a posse e já botou as manguinhas de censor para fora. Ongem ele proibiu uma performance na Casa Franca-Brasil, ao mandar fechar com um dia de antecedência uma exposição que já começou truncada. O precedente é grave, pois nunca vai faltar pretexto para a censura: a proteção às criancinhas, um documento que faltou, a sobrecarga na rede elétrica... Vamos ver se Wilson Witzel enfrenta com o mesmo garbo as milícias que controlam boa parte do estado - responsáveis, entre outras coisas, pelo assassinato de Marielle.

domingo, 13 de janeiro de 2019

CALA A BOCA, BATTISTI

Cesare Battisti não soube read the room, como dizem os gringos. Não interpretou direito os sinais que já estavam no ar, como a vinda de Evo Morales à posse do Bozo. A presença do presidente boliviano, sempre alinhado com a esquerda e os bolivarianos, demonstrou pragmatismo. A Bolívia tem uma longa fronteira com o Brasil e recebe muitos investimentos de cá. Um episódio como aquele de uns anos atrás, quando uma unidade da Petrobras por lá foi retomada à força, talvez fosse respondido agora com uma invasão por terra (Lula, na época, só passou um pano úmido). Além do mais, o terrorista italiano ainda teve a manha de deixar barba e cabelo crescerem, ficando a cara de um dos disfarces que a PF divulgou que ele poderia estar usando. Nessas horas, ninguém raspa a cabeça e ninguém foge para o Tadjiquistão. Ali ás, nem para a Venezuela: se tivesse se mandado para Caracas, Battisti estaria livre agora, se bem que com fome. Na Itália (um país com que a Bolívia também não tem por que se indispor), pelo menos, a cadeia serve três refeições por dia.

OS ESPETACULARES HOMENS-ARANHAS


Passei o final da minha infância apavorado com os universos paralelos. Li uma matéria na extinta revista "Planeta" que às vezes bastava virar uma esquina para, pá, cair numa realidade parecida com a nossa, mas ligeiramente diferente. Ou então topar com a sua versão na outra dimensão, mais magro, mais rico e louro de olhos azuis. O conceito de "multiverso" foi adotado com gosto pelas HQs de super-heróis, para justificar as muitas mortes e origens de seus personagens. No cinema, ninguém abusou mais do que o Homem-Aranha, que já está no terceiro ator desde que a franquia foi lançada em 2002. Mas agora essas versões live-action vão ter que rebolar, porque "Homem-Aranha no Aranha-verso" é apenas o melhor filme de super-herói jamais feito, em qualquer estilo. Não só pela ideia genial de combinar diferentes iterações do aracnídeo humano, mas, principalmente, pelo festim visual na tela. Combinando todas as técnicas conhecidas de animação (e algumas ainda não, me pareceu), o resultado é um gibi que tomou ayahuasca. Eu nunca gosto de filmes em 3D - acho que os óculos escurecem a imagem, e depois de cinco minutos a gente nem se liga mais - mas, aqui, o 3D faz MUITA diferença. São tantos planos, tantas texturas, tantos jatos de cor, que só um cinemão super-equipado faz justiça a essa nova obra-prima. Num ano que tem os ótimos "Ilha dos Cachorros" e "Os Incríveis 2" no páreo, "Homem-Aranha no Aranha-verso" merece mais que todos juntos o Oscar de longa em animação, porque é o que realmente faz avançar a arte. E ainda tem uma versão suína do herói, sem dúvida nenhuma inspirada no "Spider-Pig" que o Homer cantava no filme dos Simpsons.

sábado, 12 de janeiro de 2019

FILA INDIANA


"O Livro da Selva" não envelheceu bem. Rudyard Kipling é visto hoje como racista e colonialista. Pelo menos o Mogli é indiano: menos polêmico que o branco Tarzan, que consegue habilidades maiores que as dos nativos negros. De qualquer forma, a história do garoto criado por lobos continua rendendo novas versões. Três anos atrás, a Disney lançou a versão aparentemente "live action" do longa em animação dos anos 60, que faturou o oscar de efeitos especiais. Agora a fila andou: "Mogli - Entre dois Mundos" está disponível na Netflix desde meados de dezembro. Uma outra visão da história, sem musiquinhas e bem mais pesada que a disneyana. Morre até um personagem fofinho, que não aparecia no desenho animado. Mas, apesar dos bichos falantes, gostei bastante desse suposto realismo. Não atrapalha o fato das feras terem as vozes de Cate Blanchett, Benedict Cumberbatch ou Christian Bale. Também não me incomodou o grande número de moscas em cena, ou os ferimentos expostos: os bichos na natureza são assim. Palmas para Andy Serkis, o ator que se especializou em encarnar criaturas pelo sistema "motion capture". Já estava na hora dele levar um Oscar honorário.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

MAMA, BOZARÉ

O general Mourão falou que a promoção do filho dele no Banco do Brasil, para ganhar uma Michelle a mais, é "assunto encerrado". Nananina: o escândalo continua reverberando, ainda mais depois que descobriram que o antecessor do rapaz não ganhava 100 paus, e que ele não foi "perseguido" durante os anos do PT no governo (na verdade, foi promovido oito vezes). Para que esta e outras ladroagens não caiam no esquecimento na próxima vez que a Damares expelir uma barbaridade, já existe o site Acabou a Mamata, que registra cada violação da ética cometida pelo governo que era contra "tudo o que está aí". Na contagem não entram casos bisonhos como o do presidente da Arpex, que foi demitido mas se recusou a ir embora. E nem lances realmente sérios, como a demissão da diretora do departamento de HIV/AIDS do Ministério da Saúde, o que pode custar a vida de muita gente. Mais uma vez, parabenizo os asnos que caíram nesse conto do vigário que é o Bozo. Ou vocês também estão de olho numa boquinha?

(Gracias a Pedro HMC por mais esta dica preciosa)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

ELE TAMBÉM


Um fenômeno curioso está se passando com "A Esposa". O roteiro, baseado no livro do mesmo nome, rodou os estúdios de Hollywood ao longo de mais de 12 anos. Foi rejeitado por causa do titulo e pela protagonista ser uma mulher madura. Até que Glenn Close se interessou pelo papel, e os produtores conseguiram financiamento na Europa. O resultado é um filme redondinho, que conta a história da mulher com talento literário mas que sufocou a própria carreira em prol da do marido. Quando ele recebe o prêmio Nobel, a tensão acumulada durante anos explode. Glenn, fabulosa como sempre, já ganhou o Globo de Ouro e é a favorita para o Oscar, que há três décadas lhe escapa das mãos. Mas por que ninguém fala de Jonathan Pryce? O ator inglês está fantástico como o autor vaidoso e infiel, e merecia ser indicado a alguns prêmios. Sinal dos tempos: um filme tão alinhado ao movimento #MeToo, que finalmente vai consagrar uma das atrizes mais injustiçadas da história do cinema, não está rendendo aplausos para seu antagonista masculino.

TINTIN NO PAÍS DOS NONAGENÁRIOS

O herói do meu roman de formation completa exatos 90 anos no dia de hoje. Foi em 10 de Janeiro de 1929, uma terça, que Tintin surgiu nas páginas do "Le Petit Vingtième", suplemento infantil do jornal católico belga "Le XXème Siècle", num traço tosco e ainda em preto-e-branco. Em seus primeiros anos, o intrépido repórter era um agente do imperialismo: suas viagens inaugurais foram à União Soviética, para revelar a farsa do comunismo, e ao então Congo Belga, para cantar loas ao colonialismo branco. Foi só na quarta aventura, "Os Charutos do Faraó" (uma das minhas favoritas), que Tintim começou a se parecer com o que é até hoje: o personagem das tenazes de ouro, com coragem, inteligência e nenhuma personalidade. Ou seja, perfeito para o leitor se projetar nele. Eu o conheci quando tinha seis anos de idade e nunca mais larguei. Sei todos os livros de cor, e ele está comigo quando refaço seus passos pelo mundo - como na estação ferroviária de Genebra ou no aeroporto de Jakarta. Visitei o Museu Hergé em Louvain-la-Neuve e tenho uma extensa biblioteca sobre Tintin, que não para de crescer. Só assim dá para continuar evoluindo: Hergé proibiu expressamente que surgissem novos livros após sua morte, em 1983. Curiosamente, este foi o jeito de manter Tintin jovem para sempre. Acaba de sair um app que permite ler todos os álbuns no celular, mas eu sou tintinólogo de raiz. Ainda prefiro em papel e, de preferência, em francês. Mille millions de mille milliards de mille sabords!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

DEUS NOS LIVROS

Previsível já era. Agora está ficando monótono. Todo dia alguém do governo Bozo faz uma cagada apoteótica, causando confusão e expondo despreparo. Hoje foi a vez do sinistro (com S mesmo) da Educação, o pouca-prática Ricardo Vélez. Pela manhã foi anunciado que os livros didáticos podem trazer erros de revisão e até propaganda; mas não trariam mais referências bibliográficas, nem tratariam de violência contra a mulher ou de quilombolas. A grita foi enorme, e no final da tarde o sinistro voltou atrás - mas, num gesto que revela a extensão de seu caráter, jogou a culpa no governo Temer. Mais uma vez, parabéns aos amigos que votaram no Boçalnaro porque o PT pipipi popopó. Aviso não faltou, mas parece que vocês estudaram nesses livros que quase foram aprovados.

O GUARDIÃO DA HOMOFOBIA

As bibas mais novas talvez não saibam que Aguinaldo Silva, antes de se tornar um autor de novelas de enorme sucesso, foi um pioneiro na luta pelos direitos LGBT no Brasil. Entre 1978 e 1981, ele editou o "Lampião", nosso primeiro jornal abertamente voltado ao público gay - e isto ainda durante a ditadura militar, quando "homofobia" nem era uma palavra de uso corrente. Mas a militância parece ter ficado no passado. Em suas novelas, Aguinaldo só costuma retratar bichas caricatas, como o Crô de "Fina Estampa", que são alvo da chacota geral e nunca arranjam namorado. Ele também adora emitir opiniões polêmicas pelo Twitter, como sua recente defesa da ministra Damares Alves ("sensata" e "preparadíssima" - heloooooo!). Agora surge a notícia de que o prefeito Eurico (Dan Stulbach) de "O Sétimo Guardião" será punido por trair a irmandade secreta que vigia uma fonte da juventude: casado e hétero, ele passará a gostar só de homens. Que tipo de cabeça doente acha que, em pleno 2019, sentir atração pelo próprio sexo ainda é um castigo? Aguinaldo Silva deve estar achando esta situação muito engraçada, mas ela passa uma mensagem erradíssima para a garotada que ainda vê novela.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

A MULHER DE CÉSAR E O FILHO DO VICE

"Não basta a mulher de César ser honesta. Ela tem que parecer honesta". Todo mundo conhece essa frase, atribuída ao próprio Júlio César. Todo mundo, menos os políticos brasileiros. Volta e meia algum é pego fazendo algo perfeitamente normal, porém injustificável à luz da ética. Hoje foi a vez do filho do vice-presidente Mourão receber uma promoção que vai triplicar seu salário. Os já bem razoáveis 12 mil por mês saltarão para 36, graças ao novo cargo que ele ocupará no Banco do Brasil. Um aumento de 200%, de um dia para o outro. "Mas antes ele não podia ser promovido, porque o PT dominava o BB...". Pois é. Só que pegou mal pacaraio, a ponto de até bolsominions estarem questionando. Mas quem resiste a 24 mil reais a mais na conta, todo mês? 24 mil, uma "Michelle"!

O SHOW NÃO TEM QUE CONTINUAR

Duas semanas atrás, a Folha publicou uma matéria minha sobre a crise eterna do "Video Show". No texto, eu me perguntava se o programa em que trabalhei entre 2013 e 2014 ainda tinha salvação. Não teve: a Globo acabou de anunciar que a última edição do "Video Show" irá ao ar nesta sexta. Foi quase en passant, no meio de um e-mail anunciando novas atrações. E assim termina um pedaço da história da televisão brasileira, depois de 35 anos ininterruptos. Torço para que meus amigos que ainda estavam lá sejam reencaminhados para outros programas da casa: eu não tive essa sorte, depois que o Boninho reassumiu o comando da atração. Mas tenho orgulho do período que passei no Projac. Aprendi para caramba, me diverti outro tanto, e fizemos muita coisa de que realmente me orgulho. Verdade que não fomos bem de audiência, mas ainda dávamos mais Ibope do que essas últimas fases. Em homenagem a esse capítulo da minha vida, reproduzo aí em cima o logo daquela época, o melhor que o programa já teve. Vá em paz, "Video Show".

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

MACHADO NA CARNE


Crimes famosos costumam ser aqueles que todo mundo sabe quem matou, mas o assassino segue lindo, leve e todo pimpão. Aqui no Brasil houve o rumoroso caso de Dana de Teffé: a Justiça nunca condenou o óbvio culpado, Leopoldo Heitor (os nomes parecem de novela mexicana, mas eu juro que é tudo verdade). Nos Estados Unidos até hoje se discute se Lizzie Borden teria mesmo matado o pai e a madrasta a machadadas. Mas o filme "Lizzie" não tem dúvidas, e apresenta uma versão bem plausível do que teria acontecido. Chloë Sevigny faz bom uso de sua cara de neurótica no papel-título, e encontra uma boa escudeira em Kristen Stewart - quem diria que a canastrona que fazia a Bella um dia se tornaria uma boa atriz? Dessa vez, o ritmo lento e a ausência de música não me incomodaram. Só que "Lizzie" é mesmo um filme menor, lançado em uma semana quieta nos cinemas. Pelo menos serve para distrair enquanto não chegam mais títulos do Oscar.

NÃO NOS PERDEREMOS MAIS

Fiquei mais de 30 anos sem ir a um show da Leila Pinheiro. Até ontem, eu só a tinha visto uma vez, no Teatro Ipanema, no Rio, por volta de 1986. Leila ainda era uma novata que surfava no sucesso de "Verde", com que emplacara um terceiro lugar em um festival da Globo no ano anterior. Depois disso, não é que a perdi de vista, mas nos extraviamos. Só fui redescobri-la justamente no espetáculo "Extravios", que esteve em cartaz neste fim de semana em São Paulo, no SESC Vila Mariana. Sob a direção de Ana Beatriz Nogueira, Leila consegue uma proeza e tanto: faz uma apresentação intimista, em que parece estar cantando para um grupo de amigos na varanda de sua casa. Só que por trás da espontaneidade há rigor, há todo um conceito. O repertório à prova de bala ergue uma ponte a Portugal - o número de abertura é justamente minha amada "Amar pelos Dois", com que Salvador Sobral venceu o Eurovision de 2017 - ao mesmo tempo em que torna delicadas canções frenéticas como "Chuva, Suor e Cerveja". Com intervenções esporádicas do cavaquinho de João Felipe, Leila se acompanha ao teclado ou ao violão, com a voz tão potente e afinada como era três décadas atrás. "Extravios" não é um show para levantar poeira, e sim um reencontro com músicas excepcionais e uma intérprete idem.