segunda-feira, 16 de julho de 2018

QUE DROGA DE JORNALISTA

Paulo Henrique Amorim não perde uma oportunidade de espezinhar a Globo, tamanha é a mágoa de caboclo que ele guarda de seus antigos patrões. Mas ontem ele foi tão longe que pode ter minado o que restava de sua credibilidade. Em seu blog Conversa Afiada, PHA detonou a confissão que Casagrande fez depois do jogo entre França e Croácia. O ex-jogador e comentarista da Globo contou que, pela primeira vez, começou e acabou uma Copa do Mundo em total sobriedade. O ataque gratuito de PHA não leva em conta que, ao admitir sua luta contra o vício, Casão está servindo de exemplo para milhões de pessoas na mesma situação. Mas o que torna a boutade realmente patética é o detalhe de Amorim trabalhar desde 2003 na Record, o braço televisivo da Igreja Universal do Reino de Deus. Igreja esta que ocupa as madrugadas do canal prometendo afastar os fiéis do álcool e das drogas mediante o poder da oração - e do pagamento do dízimo, é claro. Que vergonha desse pseudojornalista. Nem pena dá mais para sentir dele, só nojo.

A TRAIÇÃO DO BEBÊ LARANJA

Olha, tudo bem a pessoa ser conservadora. Como eu sempre digo, democracia se faz com todas as posições políticas. Tudo bem até ela ser de direita pelos motivos errados: quer manter seus privilégios (que ela chama de "meritocracia") e que o Estado não faça xongas pelos mais pobres, esses vagais. O que não dá mais é para alguém apoiar o Trump. A não ser que esse alguém seja integrante do governo Putin, que quer desunir o Ocidente para abrir espaço para a Rússia. O bebê laranja chorão deu um vexame hoje em Helsinki, ao praticamente se ajoelhar para lamber as botas de seu chefe. A mídia americana está em polvorosa com este patente ato de traição, pois não há mais defesa possível para tamanha subserviência. Está mais do que óbvio que Trump teve ajuda dos russos nas eleições de 2016, e agora está retribuindo. Mesmo assim, surpreende que ele seja tão capacho. Será que os russos têm mesmo alguma foto de prostitutas fazendo xixi sobre aquela cabeleireira alaranjada? Ou Trump é tão burro, mas tão burro, que foi convencido de que, para fazer a América grande outra vez, ele precisa se livrar dos aliados e fazer as vontades de seu maior inimigo? A essa altura, acho que todas as explicações são possíveis.

domingo, 15 de julho de 2018

XOXOTAS REVOLTADAS

Os jogadores ficaram putos e o estádio inteiro vaiou, mas o Pussy Riot foi épico. Não só as reivindicações do grupo são justíssimas (veja o vídeo até o final), como elas ainda humilharam duas entidades perversas - a FIFA e Vladimir Putin - de uma só tacada. Bem que algumas delas podiam estar amanhã em Helsinki, onde o presidente russo vai se encontrar com seu lacaio, o bebê laranja chorão.

ATUALIZAÇÃO: O vídeo original foi tirado do ar pela FIFA, que alegou violação de direitos autorais por ele conter imagens do jogo. O Pussy Riot então preparou uma nova edição, mais curta, que é a que aparece agora neste post. Vamos ver quanto tempo sobrevive.

LE JOUR DE GLOIRE EST ARRIVÉ

Que jogaço, que belo final de Copa do Mundo. Sem prorrogação, sem disputa por pênalti, com nada menos do que seis gols. Não fui pé-frio pela primeira vez em anos e ganhou o time pelo qual eu torcia: a França. Mas a Croácia não fez feio. Deu o sangue até o fim, e volta para casa tão vitoriosa quanto. Tirando a invasão do Pussy Riot, o melhor do jogo foi a comemoração. Que lindo ver o Macron e a Kolinda, a presidente croata, cumprimentando os jogadores, um por um. Que lindo ver o Mbappé e o Modrić ganhando troféus merecidos. Que lindo ver os vitoriosos tratado os derrotados como adversários dignos, e que bom ver esses perdedores não chorando nem rolando pelo chão. Hoje foi daqueles dias em que todo mundo saiu ganhando: a diversidade da França, o país que mais tem sofrido com o terrorismo no Ocidente; a garra da Croácia, que honra a história do país; e até o Brasil, que, afinal, reagiu com maturidade à perda de mais uma Copa. É apenas uma Copa, gente. Mas é A Copa, the fucking Copa do Mundo. Tanto que eu, que não dou a menor pelota para a bola, agora quero que 2022 chegue logo.

CHARLOTTE E MAIS NADA


Tem que ser fanático pela Charlotte Rampling como eu sou para ver "Hannah". Ela confirma tudo o que venho dizendo há tempos: é uma atriz sensacional, despida de qualquer pudor. Mas o filme é uma tortura. Em ritmo glacial, acompanhamos o dia-a-dia de uma mulher desesperada. O marido está na prisão. O filho não fala com ela. Sua carterinha da piscina pública foi revogada... Tudo isso quase sem diálogos, só com o rosto triste e impressionante daquela que foi a mulher mais linda do mundo nos anos 70. Jamais ficamos sabendo por que o marido foi preso, nem por que o filho rompeu com os pais. "Hannah" é um filme preguiçoso, que achou que o talento de sua protagonista bastaria.

sábado, 14 de julho de 2018

I LOVE A MAN IN A UNIFORM

Na semana passada, eu não citei em um post sobre saída do armário o nome do PM flagrado beijando o namorado no metrô de São Paulo. Mas depois Leandro Prior veio a público e até deu uma longa entrevista ao Roberto Cabrini, no programa "Conexão Repórter" do SBT (a parte 2 está aqui). Além de corajoso, ele fez um serviço e tanto pela causa LGBT. Mostrou para muitos ignorantes que os gays vão muito além do estereótipo da bichinha afeminada, e calou a boca dos boçais que o ameaçavam. Aliás, são esses homofóbicos que merecem punição, não o Leandro. Ele desrespeitou a farda? Então, que se punam também as dezenas de PMs que, Brasil afora, manifestam amor hétero, como o Pedro HMC mostra no vídeo abaixo. O mais legal é que, inspirados pelo caso,  PMs gays, lésbicas e trans estão demonstrando apoio a Leandro Prior - e, por tabela, dando a cara a tapa. Só com visibilidade e assertividade é que se honra o uniforme.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

ENGOLI UMA VITROLA

Hoje eu fui o convidado do programa "Estúdio Diversidade", um talk show LGBT exibido pela TV 247 (o canal no YouTube do site Brasil 247). Fui de vermelho de propósito, rs. William de Lucca - que eu conheci outro dia, no lançamento do livro "O Outro Lado da Bola" - me entrevistou, ou melhor, me deu rédea solta: chega a ser aflitivo como eu começo a falar e não paro nunca mais. Engoli uma vitrola, como se dizia antigamente. Mas foi um prazer participar. Aguardo outros convites.

SAMANTHA COM Y


Eu sou super chato para comédias brasileiras. Fui criado no leite com "Friends", então não acho graça se não tiver uma piada a cada dez segundos. Coisas tipo "A Grande Família", que muita gente adora, para mim parecem filmes iranianos. Por isto, é com alívo que anuncio que eu me rendi a "Samantha!". A terceira série produzida pela Netflix no Brasil é uma ótima sitcom, que não faz feio ao lado de suas colegas internacionais. A ideia central é ótima, mesmo que não muito original: estrelinha infantil dos anos 80 tenta recuperar o sucesso depois de adulta ("The Comeback", da HBO, tinha um mote parecido). Mas, até aí, amigos que moram juntos é mais velho do que a arca de Noé. O que importa é a execução, e nisto "Samantha!" é quase impecável. Ótimas situações, excelentes atores, bons valores de produção, ritmo, ritmo, ritmo. Nem todos os sete episódios atingem o mesmo patamar de qualidade, mas todos são bons - e o quarto, com uma instagrammer fashion (Lorena Comparato, irmã da Bianca, tão boa quanto) é uma obra-prima. E o que é Emmanuelle Araújo, senhoras e senhores? Como é que a Globo não fez desta mulher uma uma protagonista de novela? Ela não deu para os diretores certos? Emmanuelle é um assombro: linda, com timing afiado, e ainda se sai bem nas poucas cenas dramáticas. O fato é que todo o elenco está ótimo, sem exceções. E ainda há falas dignas de ganhar vida própria, em memes ou em títulos de post. Veja o primeiro episódio para entender. Você vai querer ver o resto.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

OJ HRVATI, BRAĆO MILA IZ ČAVOGLAVA

A Croácia é fascista? Ou só os jogadores? Por quem devemos torcer no jogo de domingo? O debate rolou solto nas minhas redes sociais nesta quinta-feira, com argumentos pró e contra. O pivô da questão é a canção "Bojna Cavoglave", que surgiu na época da ocupação nazista do país, quando os alemães ajudariam os croatas a expulsar os comunistas. Foi regravada por uma banda de rock em 1992, quando a antiga Iugoslávia estava se desintegrando, e virou um hino informal da Croácia. A letra é só patriótica, sem nada ostensivamente fascista, como se pode ler nesta tradução. Hoje a torcida a canta nos estádios. "Ãin, mas, a Croácia tem um governo de direita" - como, aliás, quase toda a Europa Oriental, depois de anos de domínio soviético. Mas está longe de ser pré-fascista como o da Hungria ou o da Polônia, ou uma ditadura como a da Bielorrússia (eu me recuso a falar Belarus, o país tem um nome em português), que é governada por um remanescente do comunismo. O texto que circulou na internet "denunciando" a Croácia tem um claro viés de extrema-esquerda. Aliás, também é obtuso: defende a Rússia de Putin, diz que Tito era um líder anti-fascista (também, além do fundador de uma ditadura de partido único que ele governou até morrer) e que a Ucrânia é feia, boba e má. Enfim: não existe o país perfeito para o qual torcer. Só se os anjos do Senhor entrassem em campo, com Jesus Cristo no gol. Por tudo isto, no domingo eu vou mesmo é de França. O país também tem uma extrema-direita asquerosa, além de tratar mal os imigrantes. Mais c'est la France! A segunda pátria das pessoas civilizadas! A melhor comida do mundo, os melhores vinhos, os perfumes! A nação que nos deu Edith Piaf, Alain Delon, Jean-Paul Sartre, Asterix, a Orangina! Allez les bleus, bof.

MUSICAL DIABÓLICO

Quando a gente pensa em teatro musical, a imagem que vem à cabeça é a de um espetáculo grandioso, com escadarias no palco, plumas, brilhos e sapateado. Mas o gênero vai muito além dos clichês da Broadway. Aliás, é da off-Broadway que nos chega "Pacto", um musical de bolso, com apenas dois atores e um pianista em um cenário despojado. Além de um tema desconfortável: assassinato. O texto do americano Stephen Dolginoff se baseia no caso real de Richard Loeb e Nathan Leopold, os dois universitários que, em 1924, mataram um colega qualquer só para mostrar como eram superiores. O caso rendeu um dos melhores filmes de Hitchcock, "Festim Diabólico" - aquela de uma tomada só. Mas o cinema passou ao largo da viadagem da história. Loeb era apaixonado por Leopold e se deixou teleguiar pelo amado, que era mais cínico e cruel. Essa trama fica ainda mais sangrenta e sexy na direção de Zé Henrique de Paula, com Leandro Luna e André Loddi nos papéis dos pombinhos. Não há nenhum hit de se assobiar entre as músicas, mas elas são eficientes (inclusive como storytelling), e estão muito bem traduzidas. O trabalho de corpo também é digno de aplausos. Só senti falta de um teatro menor do que o Porto Seguro, em SP: uma paixão tão violenta merece ser vista de perto.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

INGLATERRA 2 X ARGENTINA 1


Nessa reta fnal da Copa, dois países que não têm mais chance de vitória disputam o campeonato do meu ouvido. A Inglaterra abriu o placar, marcando um golaço com "The Now Now", o sexto álbum dos Gorillaz (e a minha encarnação favorita do Damn Albarn, entre as muitas que ele tem). O disco é mais simples e curto do que o "Humanz" do ano passado, mas também tem participações luxuosas e batidinhas eletrônicas. Pena que "Sorcerez", minha faixa predileta, ainda não conte com um clipe decente.

Os ingleses ampliaram a diferença com "High as Hope", o quarto álbum de Florence Welch - tão despojado que ela devia esquecer o + The Machine. A moça continua cantando e compondo muito bem, mas as novas músicas são sofridas demais. Quase todas baladonas, que falam de solidão e dependência química - não exatamente o melhor pgorama depois do jogo. Gostei, mas ainda prefiro Florence saltitando de batom branco ou fazendo dueto com Lady Gaga.

E eis que a Argentina entra em campo com seu maior craque de todos os tempos. Fito Páez é uma espécie de Sandra Annenberg do rock portenho: totalmente uncool, mas completamente adorável. "La Ciudad Liberada", seu milésimo álbum, não traz maiores novidades, mas é consistente do começo ao fim. Também fala de amor, baladas, terrorismo - the usual para o señor Rodolfo. E "Mi Vida Tu Vida" é sua melhor composição em anos. Um belo gol de honra.

O RIO DE JANEIRO CONTINUA FEIO

Quando se viu ameaçada pelo impeachment, Dilma Russeff não teve dúvidas. Começou a rifar os cargos mais importantes de seu governo, em uma tentativa desesperada de cooptar seus opositores. Ministros probos como Renato Janine Ribeiro tiveram que abrir espaço para monstruosidades. A mesma coisa começou a acontecer no Rio de Janeiro. Perigando perder a Prefeitura por causa de seu óbvio favorecimento aos evangélicos, Marcelo Crivella trocou ontem um de seus poucos secretários decentes. Mas Cesar Benjamin, que ocupava a pasta da Educação, caiu atirando: seu post de despedida no Facebook virou notícia, e pode complicar ainda mais a situação do prefeito-pastor. Aliás, tomara: Crivella é uma excrescência na história do Rio, e sua ideologia retrógrada merece o fogo do inferno. Impeachment nele, senhores vereadores.

terça-feira, 10 de julho de 2018

MAKE AMERICAN IDIOT GREAT AGAIN

Donald Trump pediu a Theresa May para conter os protestos contra ele durante sua visita a Londres. A primeira-ministra não poderia fazer isto nem que quisesse, e Trump ainda teve o dissabor de ganhar uma nova trilha para seu desastroso mandato. A molecada britânica mandou "American Idiot" de volta ao primeiro lugar das paradas, 14 anos depois que o Green Day compôs a música em "homenagem" a George Bush (que parece um grande estadista, se comparado ao desastre que ocupa a Casa Branca). E eu, que nunca fui muito chegado ao som da banda, agora estou engrossando o coro: "Welcome to a new kind of tension..."

Q ISSO, MOLEQUE TÁ SEDUTOR MANÉ


Preciso confessar uma coisa: eu nunca havia prestado muita atenção no Nego do Borel até ontem à noite, quando vi o clipe de "Me Solta". E nem foi por preconceito contra o funk ou coisa que o valha, porque eu adoro o gênero. Mas agora eu não tive como escapar, porque as guei das minhas redes estão erguendo tochas e ancinhos contra o cantor. Afinal, como que ele ousa se travestir e beijar um homem em seu novo vídeo, se poucos dias atrás posou ao lado dos Bolsonazi? Pior: mandou um comentário no Instagram dizendo que o pré-candidato à Presidência estava "sedutor" numa foto em que este aparece cortando o cabelo (clique na foto para ampliá-la). Olha, pode ser que eu não esteja de posse de todas as informações, mas nada disso significa que o Nego do Borel apoie o Bolsossauro. Pode ser só zoação, pode ser pura inconsequência. Assim como "Me Solta" também não prega uma libertação mais profunda do que dançar em um baile. Não conheço a obra do cara, mas Nego do Borel não me parece que tenha um pensamento político muito articulado, nem que entenda as dinâmicas da internet (aliás, quem entende?). Atira para todos os lados e não se preocupa em acertar em nenhum alvo. Como postura, tende à irrelevância. Agora, já paramos para pensar que o oposto também pode ser verdade? Que ele se aproximou dos trogloditas, para depois "traí-los" com essa lacração toda? Se eu fosse bolsominion, estaria putaço. O fato é que a personagem Nega do Borelli nem foi criada agora. Ah, e quer saber? A música é boa.

(Elaboro mais sobre Nego do Borel na minha coluna de hoje no F5)

segunda-feira, 9 de julho de 2018

CÃO QUE LADRA NÃO MORDE


Antonia Zegers é figurinha fácil do novo cinema chileno. A atriz aparece em muitos dos filmes que vêm de lá, quase sempre em papel coadjuvante. "Cachorros" é a primeira vez que a vejo como protagonista, mas eu me pergunto se foi uma boa escolha. Acho que Antonia não gera a empatia necessária para seu complicado personagem, uma mulher rica e entediada que começa um caso com seu professor de equitação - um ex-militar que responde por crimes cometidos durante a ditadura Pinochet. Vai ver que a intenção da diretora Marcela Said era essa mesma: mostrar uma mulher que não precisa da aprovação de ninguém, nem mesmo a do público. Mas, com isto, achei que "Cachorros" acabou ficando aquém do que latia prometia.

SEM TER PARA ONDE FUGIR

Tenho ido muito ao teatro, mas vejo pouco do que os autores brasileiros contemporâneos andam escrevendo. Minimizei esta falha por uma noite assistindo a "Refúgio", que está em cartaz no SESC Bom Retiro, aqui em São Paulo, até o final de julho. Com texto e direção de Alexandre Dal Farra, o espetáculo é inquietante do começo ao fim. Cinco personagens se afligem com um misterioso fenômeno que assola o mundo: o súbito desaparecimento de pessoas, sem mais nem por quê. Até que eles mesmos começam a sumir também, num jogo amplificado pelo engenhoso cenário de Marisa Bentivegna, com paredes móveis que se combinam em caixas, e pelo uso de câmeras que transmitem em preto e branco as expressões dos atores, fazendo cinema ao vivo. Aliás, que atores: é raro que um elenco seja ele todinho bom, como é o caso deste aqui, encabeçado pelos experientes Fabiana Gugli e Marat Descartes. Densa porém acessível, com um pezinho no experimentalismo, "Refúgio" expõe a angústia, exatamente ao contrário do que seu título sugere.

domingo, 8 de julho de 2018

DOMINGÃO ESQUIZOFRÊNICO

Lula já foi tido como um grande conciliador, o sujeito capaz de agradar ao mercado e ao povão, mas hoje é só o Bolsonazi quem consegue dividir o Brasil mais do que o ex-presidente. Minhas timelines estão esquizofrênicas neste domingo: enquanto boa parte comemora a "vitória da democracia", outros estão quase pegando em armas. Uma coisa é clara: a defesa de Lula protocolou o pedido de habeas corpus depois das 19h porque sabia que ele cairia com o desembargador plantonista Rogério Favretto, velho conhecido do PT. Não duvido nem que as partes tenham combinado a manobra antes. E é para lá de ridículo reclamar que Sérgio Moro é tendencioso por ser fotografado ao lado de Aécio Neves ou João Doria, e achar perfeitamente imparcial a decisão de um juiz que foi petista e trabalhou para governos do partido. E qual é a minha opinião pessoal? Acho que há uma montanha de evidências de maus-feitos de Lula, desde os tempos do mensalão, e sou totalmente a favor da prisão depois do julgado em segunda instância para qualquer um, como é acontece em quase todos os países civilizados do mundo.  Mas também lamento que Lula não possa concorrer em outubro (mesmo solto, ele continuaria ficha-suja): só uma derrota nas urnas pode abalar o mito de uma aclamação no primeiro turno. Impossível? Pesquisas mostram que Lula tem uma rejeição altíssima, na casa dos 60%, comparável apenas à de seu rival na polarização - ele mesmo, o Bolsonazi. Nisso eles estão juntos. 

KEEP CALM AND FALE COM A MÁRCIA

Nem tudo está perdido. Há pelo menos um pastor com culhão suficiente para gravar o que o Crivella disse no tal do café-da-manhã secreto de quarta passada. Ou, pelo menos, alguém infiltrado no Palácio Guanabara com poder e vontade de deixar um repórter de "O Globo" acompanhar a reunião. O pastor-prefeito diz que já fez esse tipo de encontro com vários segmentos da sociedade (que prove, então), o que não diminui a gravidade de oferecer serviços municipais a alguns privilegiados. Quanto aos babacas que estão reclamando de que outros políticosnão tiveram uma marcação assim cerrada: o que vocês sugerem? Que a imprensa feche os olhos e deixe por isso mesmo? É bom lembrar que Sérgio Cabral e Eduardo Cunha estão na cadeia. Os tempos mudaram, e os celulares estão por toda parte. No mais, pobres cariocas. Elegeram um prefeito que é a antítese do Rio, e agora estão recebendo o que compraram. O lado bom disso tudo é que o desastre da administração de Marcelo Crivella no Rio prejudica a estratégia de poder dos teocráticos, pelo menos nas grandes cidades. Aí, não vai ter Márcia que salve.

sábado, 7 de julho de 2018

BISCOITO DE MAITENA


"Mulheres Alteradas" é uma delícia de filme. É baseado nos cartuns da argentina Maitena Burundarena, que fazem intervenções em alguns momentos-chave. Também é ágil, engraçado e tecnicamente impecável: montagem, direção de arte, fotografia, música, tudo isso está num nível que é raro no cinema nacional. Só para ser chato, tenho algumas considerações. Mônica Iozzi e Maria Casadevall, as duas melhores atrizes do quarteto de protagonistas, têm menos tempo de tela do que suas colegas Alessandra Negrini e Deborah Secco, e suas personagens não chegam a ter um arco dramático. Também implico um pouco com o fato de uma das histórias ser resolvida com a queda de um coco sobre uma cabeça - mas é bom lembrar que o material de origem, os quadrinhos, permite esse tipo de recurso. Nada disso é grave. "Mulheres Alteradas" é um biscoito fino, a anos-luz das comédias bobas que grassam por aí.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

TINTIN NO PAÍS DOS DERROTADOS

Ganhei o jogo de hoje. Afinal, a Bélgica é a minha pátria espiritual. É de lá que vem o Tintin, meu romance de formação, meu avatar. Se o Tintin está contente com o resultado, então eu também estou.

Agora falando sério. Não sou nada ligado em futebol, mas eu estava sentindo que essa Copa seria do Brasil. E que o hexa marcaria um ponto de virada nessa espiral descendente em que embarcamos desde... quando? Desde o 7 a 1 de 2014? De lá para cá, foi desgraça sobre desgraça. em quase todas as áreas.

Muito já se discutiu se o desempenho do país na Copa afeta as eleições para presidente, que acontecem sempre no mesmo ano. Só espero que, com mais esse fracasso, os brasileiros não apertem o foda-se e elejam o Bolsonazi.

Mas agora estou torcendo para os belgas. Vamos, diabos vermelhos!

quinta-feira, 5 de julho de 2018

DOENTE OU ENDEMONIADO?

Vou criar uma enquete no Facebook: para você, Marco Infeliciano é uma mente doentia ou uma criatura possuída pelo demônio? Na verdade, o que o deputado-pastor está fazendo e pesquisa de mercado. Ele quer saber quantos trouxas estariam dispostos a tratar da depressão e outros distúrbios psiquiátricos em "clínicas espirituais", já que não conseguiu trazer para o Brasil o lucrativo negócio da "cura gay". Os últimos resultados dão que 19% dos votos são para os demônios, o que já deve ser quórum suficiente para o Infeliciano investir neste mercado promissor. O mais chocante, como diz Marcelo Zorzanelli em seu blog na Folha, é a sociedade brasileira permitir que esse tipo de charlatão explore os pobres e os ignorantes. Ah, e um lembrete aos "liberais" que estão inclinados a votar em Álvaro Dias (Podemos-PR) para presidente: adivinha a qual partido o Infeliciano se filiou há alguns meses?

BRASIL, MOSTRA SEU TESTA-DE-FERRO

Em janeiro passado, o Brasil inteiro se revoltou com a indicação de Cristiane Brasil para o Ministério do Trabalho. Como que ela comandaria esta pasta, se já havia sido condenada em um processo trabalhista? A deputada ainda piorou a própria situando, ao divulgar aquele vídeo grotesco onde aparecia cercada de marmanjos descamisados. A filha de Roberto Jeferson acabou desistindo, e a nossa revolta parou por ali. Não demos muita atenção ao fato de que o Ministério continuou com o partido dela, o espúrio PTB, que indicou Helton Yomura para o cargo. E Cristiane - que é filha do dono do partido, Roberto Jeferson - continuou mandando prender e soltar. Hoje o juiz do STF Edson Fachin afastou o testa-de-ferro da parlamentar, que tenta a reeleição em outubro. Cariocas, meus conterrâneos, parem de me envergonhar e expulsem essa quadrilha do Congresso. Matogrossenses-do-sul, aproveitem o embalo e despachem para o inferno o trombadão do Carlos Marun, outro que se viu hoje enrolado em um escândalo de corrupção. Que surpresa, não é mesmo? Quem diria que o amigão do Eduardo Cunha não teria a reputação ilibada?

quarta-feira, 4 de julho de 2018

A PORTA QUE SÓ QUEM SAI DEVE ABRIR

É lindo, é inspirador e é épico sair do armário ao vivo na TV, ainda mais direto da Rússia. Foi o que fez o repórter Sandro Fernandes da Globo News, que ontem contou meio en passant que tem um namorado belga, mas que continua torcendo pelo Brasil no jogo de sexta. Hoje Sandro desabafou no Twitter sobre o auê e comoção que sua revelação provocou. Mas este é um preço baixo a se pagar pela coragem e integridade. Ele continua escrevendo o script da própria vida. Pena que esta opção não foi dada ao PM paulistano que foi gravado, à revelia, beijando outro homem no metrô. O vídeo foi postado na internet, também sem a permissão dele, e as ameaças foram tantas que o rapaz pediu afastamento médico de suas funções - está internado em uma clínica de repouso. Não vou reproduzir nenhuma imagem dele aqui, muito menos divulgar seu nome. Saída do armário é uma decisão pessoal e intransferível. Só os homofóbicos enrustidos é que merecem ser expostos à luz do dia. Os demais, sabem onde o calo lhes aperta e onde/quando/se devem se assumir. Por que nunca é fácil para ninguém, nem para o filho do Solimões.

QUASE NÓS

Estou lendo "Neandertal, Nosso Irmão" por causa de "Sapiens", talvez o livro mais influente da década até agora. Claro que era isto o que os editores esperavam, pois as cores e a diagramação da capa remetem à obra de Yuval Noah Harari. Mas não precisava: fiquei tão encafifado com a informação de que a nossa espécie de hominídeo é a única capaz de pensamento abstrato, que quis conhecer mais sobre esses parentes, cujo DNA está presente até hoje em europeus e asiáticos. Até onde se sabe, o neandertal (grafia moderna, já que o nome do vale alemão onde se descobriu o primeiro fóssil perdeu o "h") não tinha religião nem arte. Talvez não tivesse nem linguagem oral: seria mesmo o estereótipo do homem das cavernas, se comunicando por grunhidos e golpes de clava. O jornalista francês François Savatier adota um estilo um tiquinho floreado para explicar as descobertas de sua conterrânea, a cientista Silvana Condemi, mas em nenhum momento a leitura se torna aborrecida ou cheia de termos inacessíveis aos leigos. O livro acaba levantando mais perguntas do que fornecendo respostas: o que, afinal, deu cabo do neandertal? Provavelmente, vários fatores: o aquecimento do clima, o avanço do sapiens e seu aliado, o cachorro (que o neandertal jamais domesticou), talvez até uma gripe que transmitimos a eles. E uma questão que me aflige de vez em quando permanece: como reagiríamos se descobríssemos uma população neandertal isolada, sobrevivendo em algum ponto do planeta? Esses outros humanos teriam os mesmos direitos que o resto de nós?

terça-feira, 3 de julho de 2018

COMER THAI É GOSTOSO

Coreia e Tailândia nunca lutaram no mesmo front de batalha. Ambas foram invadidas pelo Japão na Segunda Guerra Mundial, mas seus soldados jamais se encontraram. Isto não impediu que publicitários tailandeses criassem o filme acima, quase um curta-metragem - mas, na verdade, o comercial de uma marca de lamen. Pena que o diretor gritou "corta!" bem na hora em que ia virar um pornô gay.

A NOVA PAIXÃO DE CRISTO

Agora a coisa foi além de um prefeito ou um juiz mal-informado. O próprio governo do estado de Pernambuco retirou a peça "Jesus, a Rainha do Céu", da programação do Festival de Inverno de Garanhuns. É uma forma de censura, claro, apesar do espetáculo não ser proibido pela Justiça nem nada parecido - até porque a Constituição brasileira não prevê mais censura prévia por parte dos agentes estatais. Por isto mesmo, a performance da atriz transexual Renata Carvalho como Jesus Cristo ainda pode ser montada na cidade, mas de forma independente. A produção abriu uma vaquinha de apenas seis mil reais para viabilizar a encenação: você pode contribuir? Pois é simplesmente chocante como tantos conservadores ainda associam a transexualidade à depravação. Essa galera acredita que o simples fato de uma pessoa não se identificar com seu sexo biológico já é um pecado, e associá-la ao divino, então, um sacrilégio. Trans são gente normal: os que foram empurrados para a marginalidade, o foram pela sociedade, não por vontade própria. Por isto, Renata Carvalho tem todo o direito de interpretar Jesus Cristo, ou qualquer personagem que quiser. E claro que eu não resisto a mandar um recado para ela, que foi uma das lideranças contra a peça "Gisberta", em que o ator cis Luís Lobianco encarna uma personagem trans: já pensou, Renata, que esta via-crúcis que você vem percorrendo pode ser um castigo dos céus pela sua tentativa de censurar um colega de profissão?

segunda-feira, 2 de julho de 2018

ORGULHO NÃO REQUER SOFRIMENTO

Não conheço nenhum gay que nunca tenha sofrido por causa de sua orientação sexual. Nenhuma lésbica, nenhum(a) transexual, nenhuma letra da sigla LGBTQI+ que não para de crescer. A homofobia não escolhe raça nem classe social. Ataca por todos os lados - não com a mesma intensidade , mas as reações também não são sempre as mesmas. Sei de bichas brancas e ricas que se atiraram do décimo andar. E também sei que o avanço dos direitos igualitários se deve à união entre todas as cores do arco-íris da diversidade, inclusive muitos héteros. Porque nenhuma minoria consegue nada sem aliados na maioria. Por tudo isto, me causou revolta e nojo esse tuíte supostamente esperto da tal da "bicha mais debochada do sul do Brasil". Talvez ela devesse mudar o epíteto para equivocada, porque, haja má fé e/ou ignorância. Além do mais, ninguém precisa sofrer para ter orgulho de ser o que é. Essa luta é de todos, não só da travesti preta da favela. Não dá para deixar que esse extremismo escroto nos divida ainda mais, incapazes que somos de eleger nossos representantes. Ou vencemos juntos, ou já estamos mortos e enterrados.

AMLO OU DEIXE-O

Não há segundo turno nas eleições mexicanas. Se houvesse, talvez Andrés Manuel López Obrador tivesse chegado à presidência já em 2006, a primeira vez em que concorreu. Naquele ano, apenas meio ponto de diferença o separou de Felipe Calderón, o eventual vencedor em um resultado bastante contestado. Em 2018, não tem dúvida possível. O Lula do México chegou lá na terceira tentativa com 53% dos votos válidos, uma vez mais cedo do que seu similar brasileiro. O que vem agora é uma incógnita: AMLO é o primeiro governante esquerdista em um país dominado há mais de um século pelo mesmo grupo político, o PRI (Partido Revolucionário Institucional, uma contradição em termos) e sua dissidência, o PAN. Também é o raro esquerdista eleito em uma América Latina em pleno contrafluxo de direita. Até aí, tudo bem: o México só teve uma real alternância de poder quando os espanhóis derrubaram os astecas, no século 16. O que me incomoda em AMLO é seu viés populista, que só serve para polarizar a sociedade. Mas vamos dar uma chance ao cabrón: ver como ele peita o também populista vizinho do norte, como (se) resolve o crônico problema da violência, como lida com o imenso potencial de seu país. Já estive 19 vezes no México (só uma delas a passeio) e adoro aquilo lá. Não sei se eu teria votado em AMLO se fosse mexicano, mas que Nossa Senhora de Guadalupe, la Niña Blanca e Huitzilopochtli protejam o seu governo.